novembro 10, 2019

Se "Coringa" é a Resistência, Estou Fora


O Coringa já está chegando a um bilhão de dólares pelo mundo. A quantidade de gente que achou o filme de brilhante a genial é imensa e, o que é pior, pruma boa parcela dessa galera a fita encarna o espírito de rebelião de nossos tempos, a população se levantando contra a opressão dos ricos capitalistas, as massas finalmente acordando de sua letárgica passividade para se vingar do sistema que desequilibra as probabilidades e as chances contra nós, o povo. Mas, na verdade, tudo isso só serve mesmo é pra provar que o diretor se equivocou feio na sua concepção, porque, se o Coringa é a resistência, então, como já disse o John Lennon pra outro pessoal que queria fazer uma revolução, “you can count me out”.

Antes que me acusem de ter pronunciado irredimivelmente que Gozador é filme de pobres predicados, deixo aqui, como fazem os produtos americanos, as ressalvas contratuais: é uma obra (extremamente) competente tecnicamente, desde o visual que recria perfeitamente (ao ponto do plágio) os filmes do Scorsese do final dos anos 70/início dos 80, até a tremendamente enaltecida intensa entrega do Joaquin Phoenix – o que, inclusive, distraiu muita gente da qualidade da atuação como um todo, de Frances Conroy a Zazie Beetz. Toda a parte técnica é irretocável. A edição, por exemplo, como se poderia esperar num produto americano com um orçamento desses, é perfeita e até mesmo retrô. Porque a fita tem um ritmo consideravelmente mais lento do que o típico espetáculo de super-herói. Esse, aliás, provavelmente é um dos motivos que levou muita gente a ficar impressionada com a fita.

Os arrasa-quarteirão de super-heróis – e filmes de ação, em geral – sofrem hoje em dia dos mesmos problemas que os maus musicais da Hollywood clássica, que tanto irritavam o blogueiro na Sessão da Tarde. A cada 15 minutos, justo quando o espectador está começando a se interessar pela trama e pelos personagens, a história tem que parar quase 10 minutos pruma cena que não avança o filme em nada dramaticamente, apenas para exibição de virtuosismo nas cenas que o povo pagou ingresso pra ver. Virtuosismo que, no caso dos musicais, pelo menos, era a inacreditável perícia dos atores/dançarinos/cantores/acrobatas e, nos filmes de super-heróis, se resume à quantidade de horas e qualidade dos programas e computadores contratados pra fazer a animação das porradarias dos supercaras.

O valente editor da Zé Pereira diz que o roteiro original do longa não incluía o maior inimigo do Batman, só um palhaço maléfico (que, aliás, parece ser um arquétipo e dos bons) e alguém viu e comentou que, “ei, bota o Coringa aí”. Embora não tenha encontrado numa pesquisa rápida de Google nada que corrobore a ideia, foi exatamente o que ocorreu ao blogueiro durante a fita. O sujeito que comentou, inclusive, é um gênio, já que dificilmente os pagantes de um bilhão de dólares se sentiriam animados a assistir ao lento enlouquecer de um indivíduo oprimido pelas metrópoles impessoais do final do século XX. Prometida a aparição de um vilão de quadrinhos, trazendo consigo assassinatos e crimes fabulosos, um monte de gente correu aos cinemas pra ver uma obra que monta suas peças pouco a pouco, devagar porém ininterruptamente. Vencida a impaciência do público com o título “Coringa”, a galera que não vai ver esse tipo de filme não só acaba curtindo, como ainda fica impressionada, “uau, isso é diferente, isso tem classe, deve ser uma obra-prima”.

E tão impressionados ficam, aliás, que até esquecem que o Coringa foi enfiado ali como um cubo no lugar da esfera a marretadas pelo Homer Simpson num teste de inteligência. Pra origem do Coringa, ainda que alternativa, nada faz sentido. A época está errada; o Thomas Wayne é diferente daquilo que se conhece dele, e parece muito pouco uma figura que tenha inspirado o filho a lutar contra o mal e a injustiça; a não ser que Arthur Fleck tenha se submetido aos mesmos experimentos que o Cérebro do Pinky & Cérebro, não tem como aquele sujeito vir a tecer aquelas tramas mirabolantes que tanto enredariam o Batman e tampouco é verossímil que aquela criatura venha algum dia a desenvolver habilidades físicas ou marciais pra se impor num eventual mano a mano com um supervigilante ou mesmo capanga descontente.

Mas esse não é o ponto que o blogueiro queria apontar. A fita tem um problema sério de direção, apesar dela emular tão perfeitamente o Scorsese daquela época a ponto de borrar as fronteiras entre homenagem e plágio, ou de sentida referência e por pra trabalhar ideias de outras pessoas. Afinal de contas, o Coringa e sua horda de revoltados seguidores são vilões ou um exemplo a ser seguido? Um amigo disse que antes mesmo da história começar, já sabemos que o Coringa é a encarnação do mal. No entanto,Tropa de Elite também deveria ser um filme sobre como a violência no Rio de Janeiro cria um bando de fascistas onde deveria estar a polícia e vimos no que deu, com um bando de gente achando que estava elegendo o grande Capitão Nascimento.

O Coringa se revolta contra o mundo, mas que revolta é essa? Contra os ricos? Os ricos que vemos são caricaturas e, pior, caricaturas do que os esquecidos do Trump enxergam como sendo a classe média liberal. Gente com hábitos finos, que herdou sua fortuna e não produz nada. Gente que não mete a mão na massa como o Véio da Havan, por exemplo. Ódio aos ricos não é exclusividade da esquerda, até mesmo os nazistas propalavam retórica contra eles. Ainda mais se fossem judeus, que ainda se encaixavam perfeitamente no tipo, sendo comerciantes e financistas (1). Os babacas em quem ele atira no metrô são convenientemente investidores de Wall Street, justamente a galera de quem Trump tanto falava mal. Eles não estão gerando empregos ou produtos, são apenas parasitas do sistema. E são protótipos do que um pouco mais tarde naqueles mesmos anos 80 seria batizado de yuppie – a classe média alta com gostos “refinados”, valores culturais mais hedonistas e, apesar de normalmente serem ideologicamente mais afinados com a direita neoliberal, a encarnação do que eleitores do Trump enxergam como a população urbana rica liberal que vive em orgias bissexuais (2). Significativamente, Arthur Fleck não atira neles quando estão incomodando a mulher, mas quando se voltam contra ele.

O que também é uma falha de direção. Eles assediando sexualmente a mulher obviamente é usado para que simpatizemos com o Coringa. Mas Travis Bickle Arthur Fleck não se volta contra eles por isso. Na verdade, quando atraído por uma mulher, ele a assedia do mesmo jeito, perseguindo-a o dia inteiro, o que também não é uma aula de como se tratar moças. Na verdade, durante a constrangedora cena no metrô, o espectador pode ficar na dúvida se Fleck despreza os caras pelo que estão fazendo ou porque ser melhor do que aquilo justificaria o fato de que ele não tem coragem pra se dirigir a quem deseja.

E, como sempre, Fleck só vai atirar nos caras quando o atingido é ele. Na verdade, o que parece um brutal ataque à individualidade do sujeito conta pelo menos com sua ativa colaboração. Sua terapeuta pode não ajudar muito, mas o futuro Coringa ajuda menos ainda. Esconde seu diário que ela falou para ele manter, não conta o que o aflige e só está preocupado em arrumar mais receitas (numa postagem futura vou contar como o mundo dos remédios e da objetividade ajudou a montar o mundo neoliberal e, hoje, o início de um movimento de volta, está nos levando a outro momento de contestação e rebeldia).

Fleck quer ser um famoso comediante, mas, como diz sua mãe, ele não é engraçado. Suas piadas são ruins, quando não copiadas diretamente de apresentações de outros. Ele não tem talento, mas persevera, porque, citando outro filme que o editor da Zé Pereira despreza, “chegamos aos 30 anos e não nos tornamos os astros do rock que a televisão nos prometeu. E agora?”. Ele cuida da mãe, mas talvez viva do pensionamento dela. Seu grande sonho é ser reconhecido como filho de uma personalidade da telinha. Ele não se relaciona com ninguém e não se esforça pra isso, a não ser juntar-se ao bullying de uma pessoa pequena numa cena no início.

E, como diz o valente editor da Zé Pereira, americanos não entendem nada de política. Depois de afirmar e reafirmar que é apolítico e não apolítico, no programa de tevê final, Arthur Fleck faz um longo discurso justificando politicamente as suas ações. Na concepção ianque, e de uma certa parcela aparentemente majoritária no Brasil (cf. As últimas eleições), política só é política se algum sujeito eleito e um partido, com uma longa história de ativismo e participação, estiverem envolvidos. Todo o resto são apenas negócios, e negócios são bons, como pregam os neoliberais. A revolta de Fleck é na verdade ressentimento, ressentimento infantil contra pessoas mais bem-sucedidas. Em nenhum momento ele demonstra empatia com pessoas na mesma situação – ou pior – que ele. Na verdade, em nenhum momento ele demonstra empatia com absolutamente ninguém. Sua relação com a mãe parece apenas mais uma tarefa e, depois que ela o trai não o tendo concebido com um milionário (e automaticante pondo-o numa casta superior), ele simplesmente a mata.

E aí temos os problemas de concepção do filme. Fleck no final não tem mais que se preocupar com problemas financeiros, é famoso, tem uma horda de seguidores e está dançando feliz sem ninguém pra dizer que ele é esquisito. A fita, como Tropa de Elite, é toda contada do ponto de vista dele. Embora a produção americana esclareça que está usando o recurso do “narrador inconfiável” negando em cenas posteriores o que tinha sido visto antes, ambas cometem o mesmo erro fundamental: o único personagem desenvolvido é o central (ou, no caso brasileiro, o protagonista e seus amiguinhos). Todos os que o cercam não passam de caricaturas estereotipadas. No caso ianque, tudo ainda é mais acentuado porque a maioria das criaturas com quem o futuro arquivilão interage são negros ou latinos. Ele é um peixe fora d´água que está sendo expulso do ambiente que deveria ser dele.

Sintomática é a primeira coisa que o Coringa (imagina que) faz após seus primeiros assassinatos. Ele simplesmente toca na vizinha e já a agarra. Porque essa é a recompensa de quem é macho de verdade. O sucesso de um homem, como já expliquei numa postagem anterior, se mede pelas mulheres que ele come. Dinheiro, fama e poder são apenas instrumentos pra isso, não um objetivo em si, cf. “A mulher do Macron é feia”. O blogueiro (contando vantagem pra mostrar como é um macho superior) na hora imaginou que a cena só faria sentido se fosse imaginária, mas diversas pessoas que viram a fita acreditaram que estaria acontecendo. Esse é o tipo de gente que acaba o filme achando que deve se revoltar como o Coringa, atrair um culto de seguidores e libertar todo o seu ressentimento egocêntrico, pra acabar feliz, dançando e famoso. “Coringa” é um filme surpreendente pra quem vive numa dieta de super-heróis e zumbis, fora do padrão de mau musical de antigamente. Mas é um equívoco que pode muito levar seu público a acreditar que violência cega é a resposta para lhe estar sendo negada a mulher gostosa que toda a cultura pop prometeu a eles. Que lhe estão sendo negados o poder e a masculindade de ser um americano (como tem gente no governo que acha que é) branco cristão ocidental. Finanças e estudos são para os fracos, dê-me um 38 e eu serei o Coringa. Ou, na pior das hipóteses, o Véio da Havan.


  1. Na Idade Média, era considerado desonroso a nobres se dedicarem ao comércio, já que eles deveriam ser valentes guerreiros capazes de defender suas terras e, se possível, acrescentar mais umas. Também era considerado pecado e pessimamente visto pela Igreja que cristãos emprestassem a juros a outros cristãos. Percebendo esta lacuna (para usar jargão neoliberal), os judeus, que até mesmo por motivos de crença (estudo de Torah, estudo de Cabala, em um mundo sem clero hierarquizado) tinham uma população mais intelectualizada (i.e., para a época, ou seja, gente alfabetizada e capaz de fazer conta que não era um monge ou ministro de Estado), preencheram-na e se tornaram os banqueiros da Europa desde então. E comerciantes.
  2. Não por acaso eles usam pra ofender esse pessoal o epíteto de “cuck”, que seria mais ou menos corno, porque seriam praticantes de swing, ou poliamor, e gostariam de ver sua mulher trepando com outro – o tipo de valor que desafia toda a concepção deles, de família e sexo somente pra reprodução ou pra mostrar pros outros como você é capaz de ser dono de mulheres.


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