janeiro 14, 2020

A Justiça Cativa


Antes da Constituição de 1988, os concursos para juízes exigiam pelo menos 35 anos de idade do candidato. Era um tempo para o sujeito se formar e passar uns 10 anos trabalhando em algum lugar antes de encadeirar-se em sua sinecura. Não por coincidência, já diziam os antigos – aquele povo qe vivia antes da Constituição de 1988 – que você levava 10 anos pra se tornar bom naquilo que gostava de fazer.

Nesse ínterim, se você fosse trabalhar com Direito, você iria lidar com clientes. Com juízes. Com funcionários. Interagir com gente, enfim. Aprender como funciona o mundo. Porque um dos assuntos da moda entre o povo pensador é como as redes sociais criam “bolhas”, isolando o indivíduo do contato com pessoas que vivam ou pensem diferentemente dele, mas na realidade estamos fazendo o mesmo há décadas, desde que arquitetos e governantes decidiram que o modelo ideal de cidade é a equivocada “cidade-jardim” de Le Corbusier – uma ideia, aliás, que lá por fora já está se tornando obsoleta, mas por aqui ainda é um ideal de vida (cf. Barra da Tijuca, que, mesmo nos anos 70, o auge do pensamento urbanista modernista, era conhecida como um “bairro sem esquinas e, portanto, sem bares de esquina”).

Quem aliás primeiro chamou a atenção pra isso foi a Jane Jacobs no seu fundamental e altamente influente livro, “Vida e Morte das Grandes Cidades”. Ela conta que, no começo do século XX, com o automóvel barateando, Le Corbusier e sua turma sonharam com uma “cidade-jardim”. As pessoas não precisariam morar perto do trabalho, porque poderiam se deslocar até lá em seus próprios veículos. Pra quem viveu nos já citados anos 70, respirando as titânicas nuvens de carbono dos escapamentos dos ônibus e carros mal regulados, a ideia pode soar ridícula, mas é porque, segundo a Jane, nunca tivemos que chafurdar em bosta de cavalo acumulada por ruas estreitas e fedorentas, sem ventilação ou árvores.

Além do mais, no século XIX, um prefeito de Paris, o Haussman, botou meia cidade abaixo pra criar bulevares arborizados, com casas devendo obedecer regulamentos não só de construção como de estética, e amplos, bem amplos (segundo muita gente, pra facilitar a movimentação de tropas pra reprimir as constantes revoltas populares parisienses). Que fica bonito é inegável, mas esse tipo de reforma acaba levando primeiro ao afidalgamento do lugar (gentrificação de cu é rola) pela valorização imobiliária e, subsequentemente, ainda que paradoxalmente, à decadência da área (a turma endinheirada acaba preferindo ir criar seus filhos em um lugar mais isolado, onde não tenha tanto barulho e movimento, deixando tudo pro comércio e pra serviços, o que torna o local deserto à noite, atraindo prostituição, tráfico, violência etc. Etc. - cf. Avenida Central, atual Rio Branco, aqui no Rio de Janeiro).

Mas, voltando ao Le Corbusier. Influenciado por Haussman, ele foi ainda mais radical. Livraria as massas da imundície e pestilência das fezes equinas e as levaria ao paraíso: blocos residenciais cercados de jardins e alamedas arborizadas, com enooormes ruas para o deslocamento dos veículos que levariam o povo a seu trabalho e às suas compras, em centros comerciais. Bem-vindos a Brasília e à Barra da Tijuca. Ou aos famosos “suburbs” americanos (1).

A Jane afirmava que esse tipo de urbanismo é típico de alguém que ODIAVA cidades. Pois o bom da cidade é justamente a mistura. A convivência com pessoas de outras camadas sociais, com outros objetivos na vida, com outro tipo de pensamento. Pra vocês entenderem, aquela coisa do jornaleiro que tomava conta pra você se o encanador ia chegar, o coroa dono do bazar/papelaria/loja de material de construção/armarinho/loja de brinquedos (sim, antigamente tinha muitas e muitas dessas lojinhas) que trocava seu cheque e por aí vai. É exatamente essa vivência que é o objetivo da cidade. O pessoal ia pra ela pra arrumar trabalho, aprender um ofício, abrir as ideias. Já que falamos de Paris, os pintores, escritores e afins iam todos pra lá no começo do século XX justamente pra ter contato com o pensamento de toda essa turma onde tudo estava acontecendo agora.

Não demorou muito pras pessoas descobrirem o que podia dar errado com esse urbanismo: grandes engarrafamentos, dificuldade pra sair do bairro pra fazer qualquer coisa e voltar (Barra, estou falando com você), tédio e degradação. Já em 1965 essa mulher (http://blog.modernmechanix.com/one-womans-confession-i-hate-suburbia/) reclamava de tudo: acabavam não indo para o sonhado clube ou golfe por falta de tempo, gasto nos congestionamentos; falta de entretenimento; falta de vida social ou cultural, porque ninguém tinha disposição pra ir até o centro: e, finalmente, voltando lá pro assunto inicial, sua preocupação com a sua filha adolescente atraída pelo filho do vizinho, que a mãe julgava superficial e materialista – mas com quem mais ela iria se enrabichar, se não conhecia ninguém, ou pelo menos ninguém diferente? (2)

A Constituição de 1988 acabou com esses limites de idade por causa de sua vocação antidiscriminatória. Ninguém deveria ser prejudicado por problemas físicos, religião, ideologia, orientação sexual ou... idade. Pra cima ou pra baixo. Afinal de contas, porque vedar acesso à magistratura de gente que já com 20 anos poderia passar num concurso pra juiz? Por falta de vivência, talvez.

Certo, certo, não vamos discordar que existem aqueles gênios superdotados que aos 14 anos já estão na faculdade (o que, aliás, costuma levar a gente que aos 30 anos não sabe o que quer na vida, conforme um documentário que vi há alguns anos, mas cujo linque não consegui achar). Mas Direito não é uma ciência exata. Leis não se aplicam com manuais, apesar do que possam querer fazer os leigos acreditar. E o Estado de Direito é muito mais complexo e exigente do que nós, nos inexperientes 20 anos, poderíamos pensar.

Um juiz tem que saber como a sociedade funciona e os limites de seus poderes e entendimento. O que é um conhecimento que 10 anos de advocacia ajudariam bastante a adquirir (ou piorar, mas aí são casos perdidos mesmo). Aceitar garotada de 20 e poucos anos que nunca trabalhou de verdade na vida e saiu da faculdade pra ficar em casa estudando prum concurso é como querer botar na magistratura astros do rock que gostam de demolir quartos de hotel enquanto cheiram todas ou jogadores de futebol que acham que craque é só o sujeito que faz muito gol ou dribla todo o mundo.

Descobrir como sentenças afetam as vidas de seus clientes, ser reprimido ou intimidado por juízes e funcionários, aprender a lidar com as pessoas e seus sentimentos, isso é um capital que não se adquire lendo livros ou aprendendo teorias. Até porque, na verdade, Direito é como História. O historiador não é aquele sujeito que decora todas as datas, até porque isso basta ver na enciclopédia. É na verdade o cara que entende como as coisas se desenrolam, a vida e a morte das civilizações, e pode até mesmo descobrir analogias que nos permitam prever o futuro. Do mesmo modo, o bom advogado – ou juiz - não é necessariamente aquele que sabe todos os artigos da Lei, mas que entende o que é justo e é legal e usa a lógica para aplicar esses conhecimentos a casos concretos. E só colecionando um monte de experiências e interações é que se pode chegar a uma verdadeira compreensão do que é justo e legal.

Também não vale nem a pena levar em conta que garotada tem mais tempo e concentração pra estudar. Passar num concurso tão jovem também pode levar a criatura a perder o hábito de aprender – sim, porque isso é um dos maiores problemas com nosso sistema educacional, quando realmente começamos a entender e a apreciar o que é aprender, somos jogados no mercado de trabalho, sem tempo pra isso. Gente que estuda o tempo inteiro, às vezes anos (1 ou 2 anos parecem uma eternidade quando se tem 20, lembram?), passa no que quer e depois pronto, não quer mais ver aquilo. Cristaliza seu conhecimento e não quer mais saber de nada.

As nossas bolhas chegaram à Justiça e criaram gente que chegou ao pináculo da profissão (3) ainda muito jovens. Não conhecem restrições, não têm ideia das consequências dos seus atos e não conhecem as pessoas. É assim que formamos gente que condena porque tem convicção, mas não provas, que acha justo que ninguém sequer investigue se algo assustou um policial e ele matou o cara, e que acha que qualquer um que queira, basta estudar e chega lá. Um amigo meu definiu bem, nós inventamos os juízes criados em cativeiro.



  1. Não vou traduzir porque o que chamamos de subúrbio é outra coisa completamente diferente. O dos americanos é aquela coisa que vemos em filme, um monte de casinhas com quintal, longe do centro, longe de tudo.
  2. Pra dar um pouco de tempero ao texto, vou contar que justamente esse isolamento e falta de entretenimento teriam dado origem à cultura do “swing” - a popular troca de esposas. Juntando-se a isso o tédio das mulheres, ainda não inseridas no mercado de trabalho e passando as tardes sozinhas em casa, com suas tarefas reduzidas por causa dos eletrodomésticos e refeições industrializadas (restos de refeição envolvidos em gelatina instantânea viraram um fundamento da culinária dos anos 50!, e começou a era das infidelidades, dos divórcios, e das festas da chave. Essa modorra existencial levando a sexo casual foi o tema de vários filmes eróticos (não pornográficos, até porque nem rolava na época) de Joe Sarno, hoje em dia um cultuado diretor, considerado um autor cinematográfico. Confira a sua obra-prima, “Sin in the Suburbs”. Pode começar com esse trecho no VocêTubo, pra depois ver se tem coragem de me dizer que o Kubrick não assistiu a essa fita.
  3. Na verdade, um advogado realmente bem-sucedido ganha mais – e pode amealhar bem mais poder – do que um juiz. O que causa muitas rivalidades quando dois grandes egos se encontram, um de cada lado da tribuna.

dezembro 17, 2019

São Seus Olhos

O tempo não existe, é apenas nossa consciência trabalhando como o homem que esculpia cavalos tirando da pedra tudo que não fosse cavalo. Tudo acontece simultaneamente, toda a matéria está em todos os lugares eternamente e construímos uma história entalhando nessa massa bruta nossas alucinações de divinas ilusões.

dezembro 03, 2019

Poema do Precisamos Conversar

(Primeira Versão)

Sim, vamos conversar
Sim, vamos nos encontrar

Te encontro naquela
Esquina na Barra
Naquele boteco no shopping
Te ligo pra confirmar
Pro telefone da sala

Debaixo de um nu de Renoir
doado pela Igreja Universal
Bebendo aquele poire
Vamos argumentar
De um jeito bem racional
E vamos vaticinar
"Vamos sempre nos amar"

Você não vê que não vai dar?
Você não vê que não vai dar?

Depois de tanto do teu desatino
Fui pras ruas feito chileno
E nem a polícia do Piñera
Me impede de ver que não vai dar
Todos os teus pecados
são excludente de ilicitude
E os meus, um triplex pra alugar

Você foi minha redução na pobreza
Neil Young no Rock in Rio
Matisse em Nice
Péricles em Atenas
A dor boa da tristeza
A cultura no cio
Jericoacoara e Fortaleza
Uma puta na cama
Uma puta no mundo
Uma dama na cama
E ainda dizia, "você é o cara"

Agora é a queimada na Amazônia
O golpe na Bolívia
O óleo no oceano
Aposentadoria no Chile
A Escola de Chicago
Neoliberalismo privatizando
Minha vida em tuas mãos
Quando te quis guardiã
Você me foi Guaidó

Sim, vamos conversar
Sim, vamos nos encontrar
Você não vê que não vai dar?
Eu posso ver que não vai dar
Eu posso ver que vou chorar
Eu posso ver que não vai dar
Minha Psiquê Minha Erínia Minha Pandora
Eu posso ver que vou chorar

novembro 10, 2019

Se "Coringa" é a Resistência, Estou Fora


O Coringa já está chegando a um bilhão de dólares pelo mundo. A quantidade de gente que achou o filme de brilhante a genial é imensa e, o que é pior, pruma boa parcela dessa galera a fita encarna o espírito de rebelião de nossos tempos, a população se levantando contra a opressão dos ricos capitalistas, as massas finalmente acordando de sua letárgica passividade para se vingar do sistema que desequilibra as probabilidades e as chances contra nós, o povo. Mas, na verdade, tudo isso só serve mesmo é pra provar que o diretor se equivocou feio na sua concepção, porque, se o Coringa é a resistência, então, como já disse o John Lennon pra outro pessoal que queria fazer uma revolução, “you can count me out”.

Antes que me acusem de ter pronunciado irredimivelmente que Gozador é filme de pobres predicados, deixo aqui, como fazem os produtos americanos, as ressalvas contratuais: é uma obra (extremamente) competente tecnicamente, desde o visual que recria perfeitamente (ao ponto do plágio) os filmes do Scorsese do final dos anos 70/início dos 80, até a tremendamente enaltecida intensa entrega do Joaquin Phoenix – o que, inclusive, distraiu muita gente da qualidade da atuação como um todo, de Frances Conroy a Zazie Beetz. Toda a parte técnica é irretocável. A edição, por exemplo, como se poderia esperar num produto americano com um orçamento desses, é perfeita e até mesmo retrô. Porque a fita tem um ritmo consideravelmente mais lento do que o típico espetáculo de super-herói. Esse, aliás, provavelmente é um dos motivos que levou muita gente a ficar impressionada com a fita.

Os arrasa-quarteirão de super-heróis – e filmes de ação, em geral – sofrem hoje em dia dos mesmos problemas que os maus musicais da Hollywood clássica, que tanto irritavam o blogueiro na Sessão da Tarde. A cada 15 minutos, justo quando o espectador está começando a se interessar pela trama e pelos personagens, a história tem que parar quase 10 minutos pruma cena que não avança o filme em nada dramaticamente, apenas para exibição de virtuosismo nas cenas que o povo pagou ingresso pra ver. Virtuosismo que, no caso dos musicais, pelo menos, era a inacreditável perícia dos atores/dançarinos/cantores/acrobatas e, nos filmes de super-heróis, se resume à quantidade de horas e qualidade dos programas e computadores contratados pra fazer a animação das porradarias dos supercaras.

O valente editor da Zé Pereira diz que o roteiro original do longa não incluía o maior inimigo do Batman, só um palhaço maléfico (que, aliás, parece ser um arquétipo e dos bons) e alguém viu e comentou que, “ei, bota o Coringa aí”. Embora não tenha encontrado numa pesquisa rápida de Google nada que corrobore a ideia, foi exatamente o que ocorreu ao blogueiro durante a fita. O sujeito que comentou, inclusive, é um gênio, já que dificilmente os pagantes de um bilhão de dólares se sentiriam animados a assistir ao lento enlouquecer de um indivíduo oprimido pelas metrópoles impessoais do final do século XX. Prometida a aparição de um vilão de quadrinhos, trazendo consigo assassinatos e crimes fabulosos, um monte de gente correu aos cinemas pra ver uma obra que monta suas peças pouco a pouco, devagar porém ininterruptamente. Vencida a impaciência do público com o título “Coringa”, a galera que não vai ver esse tipo de filme não só acaba curtindo, como ainda fica impressionada, “uau, isso é diferente, isso tem classe, deve ser uma obra-prima”.

E tão impressionados ficam, aliás, que até esquecem que o Coringa foi enfiado ali como um cubo no lugar da esfera a marretadas pelo Homer Simpson num teste de inteligência. Pra origem do Coringa, ainda que alternativa, nada faz sentido. A época está errada; o Thomas Wayne é diferente daquilo que se conhece dele, e parece muito pouco uma figura que tenha inspirado o filho a lutar contra o mal e a injustiça; a não ser que Arthur Fleck tenha se submetido aos mesmos experimentos que o Cérebro do Pinky & Cérebro, não tem como aquele sujeito vir a tecer aquelas tramas mirabolantes que tanto enredariam o Batman e tampouco é verossímil que aquela criatura venha algum dia a desenvolver habilidades físicas ou marciais pra se impor num eventual mano a mano com um supervigilante ou mesmo capanga descontente.

Mas esse não é o ponto que o blogueiro queria apontar. A fita tem um problema sério de direção, apesar dela emular tão perfeitamente o Scorsese daquela época a ponto de borrar as fronteiras entre homenagem e plágio, ou de sentida referência e por pra trabalhar ideias de outras pessoas. Afinal de contas, o Coringa e sua horda de revoltados seguidores são vilões ou um exemplo a ser seguido? Um amigo disse que antes mesmo da história começar, já sabemos que o Coringa é a encarnação do mal. No entanto,Tropa de Elite também deveria ser um filme sobre como a violência no Rio de Janeiro cria um bando de fascistas onde deveria estar a polícia e vimos no que deu, com um bando de gente achando que estava elegendo o grande Capitão Nascimento.

O Coringa se revolta contra o mundo, mas que revolta é essa? Contra os ricos? Os ricos que vemos são caricaturas e, pior, caricaturas do que os esquecidos do Trump enxergam como sendo a classe média liberal. Gente com hábitos finos, que herdou sua fortuna e não produz nada. Gente que não mete a mão na massa como o Véio da Havan, por exemplo. Ódio aos ricos não é exclusividade da esquerda, até mesmo os nazistas propalavam retórica contra eles. Ainda mais se fossem judeus, que ainda se encaixavam perfeitamente no tipo, sendo comerciantes e financistas (1). Os babacas em quem ele atira no metrô são convenientemente investidores de Wall Street, justamente a galera de quem Trump tanto falava mal. Eles não estão gerando empregos ou produtos, são apenas parasitas do sistema. E são protótipos do que um pouco mais tarde naqueles mesmos anos 80 seria batizado de yuppie – a classe média alta com gostos “refinados”, valores culturais mais hedonistas e, apesar de normalmente serem ideologicamente mais afinados com a direita neoliberal, a encarnação do que eleitores do Trump enxergam como a população urbana rica liberal que vive em orgias bissexuais (2). Significativamente, Arthur Fleck não atira neles quando estão incomodando a mulher, mas quando se voltam contra ele.

O que também é uma falha de direção. Eles assediando sexualmente a mulher obviamente é usado para que simpatizemos com o Coringa. Mas Travis Bickle Arthur Fleck não se volta contra eles por isso. Na verdade, quando atraído por uma mulher, ele a assedia do mesmo jeito, perseguindo-a o dia inteiro, o que também não é uma aula de como se tratar moças. Na verdade, durante a constrangedora cena no metrô, o espectador pode ficar na dúvida se Fleck despreza os caras pelo que estão fazendo ou porque ser melhor do que aquilo justificaria o fato de que ele não tem coragem pra se dirigir a quem deseja.

E, como sempre, Fleck só vai atirar nos caras quando o atingido é ele. Na verdade, o que parece um brutal ataque à individualidade do sujeito conta pelo menos com sua ativa colaboração. Sua terapeuta pode não ajudar muito, mas o futuro Coringa ajuda menos ainda. Esconde seu diário que ela falou para ele manter, não conta o que o aflige e só está preocupado em arrumar mais receitas (numa postagem futura vou contar como o mundo dos remédios e da objetividade ajudou a montar o mundo neoliberal e, hoje, o início de um movimento de volta, está nos levando a outro momento de contestação e rebeldia).

Fleck quer ser um famoso comediante, mas, como diz sua mãe, ele não é engraçado. Suas piadas são ruins, quando não copiadas diretamente de apresentações de outros. Ele não tem talento, mas persevera, porque, citando outro filme que o editor da Zé Pereira despreza, “chegamos aos 30 anos e não nos tornamos os astros do rock que a televisão nos prometeu. E agora?”. Ele cuida da mãe, mas talvez viva do pensionamento dela. Seu grande sonho é ser reconhecido como filho de uma personalidade da telinha. Ele não se relaciona com ninguém e não se esforça pra isso, a não ser juntar-se ao bullying de uma pessoa pequena numa cena no início.

E, como diz o valente editor da Zé Pereira, americanos não entendem nada de política. Depois de afirmar e reafirmar que é apolítico e não apolítico, no programa de tevê final, Arthur Fleck faz um longo discurso justificando politicamente as suas ações. Na concepção ianque, e de uma certa parcela aparentemente majoritária no Brasil (cf. As últimas eleições), política só é política se algum sujeito eleito e um partido, com uma longa história de ativismo e participação, estiverem envolvidos. Todo o resto são apenas negócios, e negócios são bons, como pregam os neoliberais. A revolta de Fleck é na verdade ressentimento, ressentimento infantil contra pessoas mais bem-sucedidas. Em nenhum momento ele demonstra empatia com pessoas na mesma situação – ou pior – que ele. Na verdade, em nenhum momento ele demonstra empatia com absolutamente ninguém. Sua relação com a mãe parece apenas mais uma tarefa e, depois que ela o trai não o tendo concebido com um milionário (e automaticante pondo-o numa casta superior), ele simplesmente a mata.

E aí temos os problemas de concepção do filme. Fleck no final não tem mais que se preocupar com problemas financeiros, é famoso, tem uma horda de seguidores e está dançando feliz sem ninguém pra dizer que ele é esquisito. A fita, como Tropa de Elite, é toda contada do ponto de vista dele. Embora a produção americana esclareça que está usando o recurso do “narrador inconfiável” negando em cenas posteriores o que tinha sido visto antes, ambas cometem o mesmo erro fundamental: o único personagem desenvolvido é o central (ou, no caso brasileiro, o protagonista e seus amiguinhos). Todos os que o cercam não passam de caricaturas estereotipadas. No caso ianque, tudo ainda é mais acentuado porque a maioria das criaturas com quem o futuro arquivilão interage são negros ou latinos. Ele é um peixe fora d´água que está sendo expulso do ambiente que deveria ser dele.

Sintomática é a primeira coisa que o Coringa (imagina que) faz após seus primeiros assassinatos. Ele simplesmente toca na vizinha e já a agarra. Porque essa é a recompensa de quem é macho de verdade. O sucesso de um homem, como já expliquei numa postagem anterior, se mede pelas mulheres que ele come. Dinheiro, fama e poder são apenas instrumentos pra isso, não um objetivo em si, cf. “A mulher do Macron é feia”. O blogueiro (contando vantagem pra mostrar como é um macho superior) na hora imaginou que a cena só faria sentido se fosse imaginária, mas diversas pessoas que viram a fita acreditaram que estaria acontecendo. Esse é o tipo de gente que acaba o filme achando que deve se revoltar como o Coringa, atrair um culto de seguidores e libertar todo o seu ressentimento egocêntrico, pra acabar feliz, dançando e famoso. “Coringa” é um filme surpreendente pra quem vive numa dieta de super-heróis e zumbis, fora do padrão de mau musical de antigamente. Mas é um equívoco que pode muito levar seu público a acreditar que violência cega é a resposta para lhe estar sendo negada a mulher gostosa que toda a cultura pop prometeu a eles. Que lhe estão sendo negados o poder e a masculindade de ser um americano (como tem gente no governo que acha que é) branco cristão ocidental. Finanças e estudos são para os fracos, dê-me um 38 e eu serei o Coringa. Ou, na pior das hipóteses, o Véio da Havan.


  1. Na Idade Média, era considerado desonroso a nobres se dedicarem ao comércio, já que eles deveriam ser valentes guerreiros capazes de defender suas terras e, se possível, acrescentar mais umas. Também era considerado pecado e pessimamente visto pela Igreja que cristãos emprestassem a juros a outros cristãos. Percebendo esta lacuna (para usar jargão neoliberal), os judeus, que até mesmo por motivos de crença (estudo de Torah, estudo de Cabala, em um mundo sem clero hierarquizado) tinham uma população mais intelectualizada (i.e., para a época, ou seja, gente alfabetizada e capaz de fazer conta que não era um monge ou ministro de Estado), preencheram-na e se tornaram os banqueiros da Europa desde então. E comerciantes.
  2. Não por acaso eles usam pra ofender esse pessoal o epíteto de “cuck”, que seria mais ou menos corno, porque seriam praticantes de swing, ou poliamor, e gostariam de ver sua mulher trepando com outro – o tipo de valor que desafia toda a concepção deles, de família e sexo somente pra reprodução ou pra mostrar pros outros como você é capaz de ser dono de mulheres.


novembro 09, 2019

A Estupidez Antipragmática

Antipragmatismo, porque esse governo só tem burro

Veja esse caso de Cuba, por exemplo, como o Obama é esperto. Esquece essa história de fabricar tudo na China porque os operários são baratos. Na verdade, o salário lá já não é tão baixo mais, e os custos operacionais de funcionar no seu antípoda deixam tudo mais ou menos na mesma. Sem contar que as linhas de montagem também são quase todas automatizadas. Quando eu era pequeno, meu pai, como bom marceneiro, tinha suas ferramentas e elas eram caríssimas, eu nem podia chegar perto. Em vez de furadeira elétrica, ele tinha uma daquelas de desenho animado, em que você girava uma manivela, porque as elétricas eram caras. Particularmente escondido ficava um jogo de "chaves de fenda de relojoeiro", que também tinham um preço muuuuito alto - daquelas que você compra no camelô o jogo completo a 10 reais hoje em dia. Há uns 10 anos atrás vi um programa do Discovery, de uma série sobre como as coisas eram fabricadas, que mostrava uma fábrica de serrote. Sem que nenhum humano precisasse ir lá colar, cortar ou derreter alguma coisa, a fábrica produzia uma quantidade tão grande de serrotes que me deixou impressionado - uma semana de funcionamento ali deve suprir a demanda mundial por serrotes. Deve ter gente usando serrote uma vez e jogando fora.

Mas, voltando ao que interessa: hoje em dia, justamente por essas máquinas dominando tudo, o que compensa muito é o salário que você paga aos sujeitos com curso universitário. Ter um analista de produção, que vá organizar o fluxo dessas coisas; de sistemas, para programar as máquinas; de desenho, para otimizar o desenho dos produtos para ficarem ainda mais simples de fabricar - não é só pra você comprar mais que o desenho de uniformes de clubes de futebol vivem mudando. Até o engenheiro que vai consertar ou implantar essas máquinas.

Nos países desenvolvidos, por motivos óbvios, esses sujeitos são caros pra dedéu, mas na China não. Nos EUA, por exemplo, você se forma devendo tanto dinheiro à sua faculdade que tem que cobrar uma fortuna. É justamente por isso que, sim, o Brasil pode ser competitivo industrialmente, e daí tanto incentivo pra gente se formar neste século, em vez de formação técnica, que custa menos e também dá bom retorno pro sujeito que a faça - vai demorar muuuuito pra ter um robô que instale um ar condicionado na sua casa.

Pois bem, adivinha que país fica logo ali pertinho dos Estados Unidos, tem uma enorme população com curso universitário e disposta a trabalhar por 2 tostões? E quem é que estava financiando porto em Mariel, já estendendo suas mãozinhas nesse povo, depois de praticamente arrumar um contrato pra botar abaixo e reconstruir metade da América Central?

Pois é, daí começou a política obamista de "vamos ser legais com os cubanos". Não era por motivos humanitários. O que estragou tudo é que entrou o Inominável americano, que é burro e acha melhor ideia tentar destruir aquilo tudo e pegar os espólios. E nós entramos de idiotas junto a eles. Amanhã, quando voltarem os democratas, com seus objetivos de espalhar o bem geral pelo mundo, começarem a abrir fábricas e mais fábricas na ilha e a gente ficar cheio de produtos baratos (e, a princípio, vagabundos, como os do Japão, Hong Kong e China) "made in Cuba", vamos entrar pelo cano mais uma vez.

setembro 04, 2019

As Pessoas-Algoritmo

Vocês já repararam que as pessoas no trabalho vêm se portando cada vez mais como um app? Qualquer imprevisto e mandam tudo de volta pro chefe decidir. Ninguém mais improvisa, demonstra iniciativa ou supõe. Bem-vindos à Idade do Algoritmo.

agosto 26, 2019

Os Homens que Odiavam as Mulheres II

Tem um episódio dos Simpsons em que o Homer faz amizade com o dono de um antiquário algo excêntrico e ele até começa a frequentar a casa deles. Tão amigos eles ficam que a Marge, achando estranho essa demonstração de mente aberta do marido, tenta avisá-lo sobre a orientação sexual do sujeito. Depois de tentar inutilmente várias metáforas, ela fala, “acho que ele prefere a companhia de homens”. Ao que o Homer ri, com aquela risada profunda do soberbo dublador original, responde, “ora, e quem não prefere?”

No mundo mais careta e binário, onde meninas vestem rosa e meninos vestem azul, estes últimos não têm muito estímulo pra ter amigas. Elas só falam de bonecas, não praticam esportes, não gostam de armas, não gostam de pescar, curtem moto, mas só pra andar na garupa, e preferem carros confortáveis a enormes jipossauros. E têm que cozinhar, cuidar dos filhos e da casa. Não são boa companhia pra sair, tomar umas cachaças e ficar falando de mulheres e filmes de ação.

O problema é que vivemos numa sociedade machista. E a principal constatação dessa nossa sociedade machista é que o sucesso de um homem é medido pelas mulheres que ele é capaz de arrumar. Dinheiro? Você precisa até uma certa quantidade – depois do suficiente pra poder viver sem ter preocupações financeiras, não faz tanta diferença assim. Embora teste de QI não seja tão confiável assim, vários estudos já apontaram que os rendimentos de uma pessoa correspondem ao seu QI até um certo patamar. Depois, começa a cair. É como se a galera mais cabeça achasse que depois dessa barreira, o esforço não vale a pena.

Não, dinheiro é na verdade um indicador que você é um macho atraente. Até o Trump diz isso com todas as letras em sua biografia. O importante não é o dinheiro que você ganha num negócio, o importante é levar a melhor num negócio. O dinheiro é só a medida disso. Não adianta você ter dinheiro e não ser um vencedor. E você só é um vencedor se arrumar a mulher certa.

Essa ideia é tão entranhada em nossa sociedade que as vivemos e experimentamos o tempo todo sem nos darmos conta. Nos filmes e livros, a recompensa do herói é no final conseguir a mocinha, principalmente se for um jovem solitário e incompreendido numa história de fantasia (inclusive se de repente ele for declarado por alguém que chega de repente que ele é o escolhido pralguma coisa, embora nunca tenha demonstrado nenhuma qualidade de liderança). Certa vez, levei uma amiga mexicana minha, punk, feminista, daquelas de me chamar a atenção o tempo todo, pra visitar o Museu Imperial de Petrópolis. Contei-lhe como Pedro II, ultimamente redescoberto como um monarca progressista, o imperador cidadão, o imperador filósofo, manteve o Brasil unido e relativamente estável enquanto a nação se consolidava. Mas, ao ver o busto da Teresa Cristina, ela comentou, rindo, automaticamente, “nossa, a mulher dele era feia”.

Assim se cria um veeeelho paradoxo da nossa sociedade, ultimamente relevado com a chegada da internet. Criamos um monte de garotos e homens que não gostam da companhia de mulheres, mas precisam delas pra garantir respeito. Gente que não gosta verdadeiramente de sexo, mas precisa fazê-lo. Existem milhões de maneiras de se usar seu corpo pra se ter um orgasmo, por várias vias. O que diferencia a relação sexual é justamente a palavra “relação”. No entanto, se usado pra comprar respeito (isso fica pra outra postagem), se torna algo vazio e vago.

Você deve conhecer o tipo. Aquele que só fala de mulher, julga a mulher dos outros, mas quando você aparece no aniversário dele, só tem homem. Aquele que te pergunta como é que você não se entedia viajando sozinho. Aquele que fica contando das conversas no aplicativo de pegação como se tivesse realmente pego alguém. Também são sujeitos que contraintuitivamente gostam de falar mal da promiscuidade da sociedade. O que eles entendem como promiscuidade muitas vezes é só um sexo casual, mesmo daqueles afetuosos, porque eles simplesmente não têm amigas casuais, ou relacionamentos afetivos com gente do outro sexo que não envolvam “quero te comer”.

Isso tudo, obviamente, pra falar do Inominável. Seus filhos estão sempre fazendo postagens acompanhados de outros amigos, varas de pescar, fuzis e afins. Casam-se, mas parecem nunca ter tempo prum programa a dois – sair pra dançar, prum show, pra passar pela cidade. Quem acompanha as viagens e os compromissos do Inominável pode ter a impressão de que ele é casado com o Hélio Lopes. Pelo menos estão sempre almoçando juntos, passeando juntos. Não é de se admirar, Hélio Lopes provavelmente entende mais de pesca, tiro e futebol do que qualquer mulher do clã. E, é claro, não é bom ficar levando a mulher pra passear por aí, pra se arriscar a alguém roubá-la. Vocês devem estar lembrados daquela nebulosa história do buquê de flores do Joesley pra Marcela Temer, envolvendo um avião ou algo parecido. Muito pior do que não arrumar uma mulher atraente é alguém passar a mão nela na sua frente. Aliás, é bom que ela não goste muito de sexo exatamente por isso. Pode querer variedade.

Você pode julgar o Macron. Pode dizer que, se os sexos fossem trocados, todo o mundo ia achar a história esquisita. Mas a graça é justamente que os sexos estão trocados. Ele é que é o homem poderoso. Não é uma jovem menina em busca de fortaleza e proteção como a sociedade diz que ela só vai encontrar em uma figura masculina de autoridade, mais velha e respeitável. E, pelo menos, eles estão sempre juntos. Por mais que seja um recurso publicitário, temos imagens deles de mãos dadas, comparecem a eventos e cerimônias um acompanhando o outro. Parece um relacionamento. Parece um casamento. Parece que o Macron não está entediado por ter que conviver com uma criatura chata pra poder ter seu lugar no mundo. Não parece que ele seja um incel, reclamando da liberdade sexual feminina que faz com que elas não deem pra eles, apesar deles serem legais e bons em videogame. Parece que eles conversam.

Parece que eles vivem, fora de um mundo de ganhar dinheiro e respeito.

agosto 18, 2019

A Antiga Catedral e a Ermida do Ó


Esta semana fiquei sabendo que, durante a restauração da antiga Catedral, ali na Primeiro de Março, tinham desencavado a antiga Ermida do Ó. Assim, munido da minha câmera e minha nova lente, que eu estava doido pra usar, fui visitar o local. Tem um Museu e Sítio Arqueológico, minúsculos, na velha Sé, mas vale a visita. Vai me dizer que nunca viajou e foi visitar uma igreja que mais tarde descobriu ser do século XX e a maior armadilha de turista, sem nada de interessante dentro?

A Ermida do Ó era uma capelinha tosca e simples, como muitas do primevo Rio de Janeiro. As suas ruínas são essas da primeira e da segunda fotos. Ao seu lado foi construído um Hospício e não, não era para alojar os meus amigos de faculdade, mas o nome que se dava na época à Casa dos Romeiros. Quem fazia romaria ou peregrinação ao Rio de Janeiro do século XVI ninguém nunca explicou, mas pelo menos casa pra recebê-los tinha. Talvez justamente pela parcimônia desses fiéis é que quando chegaram na década de 80 uns padres pra fundar a Ordem de São Bento, alojaram eles lá. Logo depois, Manuel de Brito, capitão português que veio pra cá com Estácio de Sá e assim se tornou dono de umas terras, doou-lhes um morro e os beneditinos estão lá até hoje. Aliás, por causa desse Manuel de Brito é que a praia que tinha ali onde hoje é a Praça XV se chamava Praia de D. Manuel e até hoje a rua do Fórum se chama rua D. Manuel.




Realojados os padres, o Hospício logo em seguida recebeu outros. Eram carmelitas, com o mesmo intento de estabelecer sua ordem por aqui. Ofereceram-lhes a princípio um morro, mas eles o acharam ermo e distante. Era o Morro hoje de Santo Antônio (ou o que restou dele). Lembrem-se que naquela época a área da Lapa – Passeio, Carioca e redondezas – era um pantanal, e daqueles malcheirosos. Tanto que abriram uma vala pra drenar aquelas águas e renová-las. Hoje é a rua Uruguaiana e por isso ela é uma das poucas retas daquele tempo.

Os carmelitas gostaram da área onde estavam e conseguiram permissão para construir seu convento ali mesmo, em 1611, começando a construção em 1619, quando receberam permissão da Câmara pra usar as pedras da hoje Ilha das Enxadas, onde fica a Escola Naval, mas que na época não tinha nome e passou a se chamar Ilha de Ruy Vaz Brito porque este foi o governador que concedeu a licença de exploração.

A concessão de terreno mencionava a construção do convento e sua “cerca”. Talvez fosse a paliçada, que está na terceira foto. Na base de pedra, podem se ver os buracos onde ficariam os troncos. Curiosamente, é parecida com aquela de “O Novo Mundo”, do Terence Malick, com as toras espaçadas (se bem que no filme estavam mais pra gravetos do que pra toras). A nossa ideia é que qualquer paliçada seja maciça, como um forte, mas provavelmente eles não estavam esperando ataques de artilharia dos índios (contra quem ela foi provavelmente erigida) e queriam poder ver o que estava acontecendo do outro lado – como, curiosamente, os agentes de imigração disseram que queriam o “muro” pro Trump.



Na época, o mar batia até ali. Frei Vicente de Salvador (1) conta que uma baleia certa feita encalhou em frente ao Convento. Por algum motivo de aquecimento global ou fosse lá o que fosse, ainda no século XVI o mar já estava começando a recuar. E, como era um costume tolerado pelos governantes na época, a área que se formou ali passou a ser extensão daquela dos Carmelitas, que dela se apossaram. Até que em 1683 a Câmara botou o olho naqueles terrenos valorizados e resolveu reparti-los e aforá-los. Os padrecos ficaram furiosos, disseram que iam perder a vista, o ar fresco, que teriam o claustro devassado, enfim, botaram a boca no trombone. E não era de bom tom mexer com os caras – podiam ser monges, mas não do tipo que pensamos. Bagunceiros, irredutíveis, insurretos, tinham por algum motivo uma rivalidade com a Ordem da Misericórdia, que já naquela época possuía o monopólio dos funerais. Quando passava um féretro em frente ao Convento do Carmo, eles desciam de porrete na mão pra tocar o terror, hábito esse que mereceu uma ordem real vinda de Portugal pra acabar. Pra dar mais jeito de Ordem religiosa a eles, mais tarde foi nomeado um interventor, que ficou famoso por sua rigidez, Joaquim José Justiniano. O que foi uma pena, porque provavelmente a Igreja Católica não estaria perdendo tantos fiéis hoje em dia se tivesse guardado esses rituais.

Mas a queixa dos padres desordeiros deu resultado. Conta Vieira Fazenda que lhes foi cedido o direito àquela várzea em frente pelo rei, que para tanto argumentou: os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.”

E tão enfezados eram os capuchinhos daquela época que, quando viram uma pedra fundamental erigida naquele terreno foram lá e arrancaram. As autoridades foram reclamar com eles, que era uma afronta, afinal era um marco real – e um marco real concedendo aquela área aos carmelitas. Os padres disseram que não estavam acima de reconhecer um erro e que a poriam de volta no lugar, o que fizeram.

O atual convento já foi alvo de muitas reformas, o que lhe descaracterizou a fachada. O mais próximo do aspecto original, segundo Vivaldo Coaracy, é a face que dá pra Sete de Setembro, que está na quarta foto. Os carmelitas ficaram instalados no Convento até a chegada da Família Real. Sendo o Paço muito pequeno pro tamanho e pros gostos dos portugueses, eles se adonaram também do edifício ali próximo e foi assim que eles foram sendo empurrados até a Tijuca, na igreja dos Capuchinhos.



Mas antes disso, no século XVIII, eles construíram a atual igreja de Nossa Senhora de Monte do Carmo, a antiga catedral. E como ela se tornou a antiga catedral, com tantas igrejas mais luxuosas, como a Candelária, dando mole? A primeira Sé do Rio, quando ele se tornou uma diocese, foi uma igreja no Morro do Castelo, no século XVII, que, com a mudança da cidade pra várzea e crescimento, foi se tornando cada vez menos frequentada, ainda mais com o templo dos Jesuítas, mais opulento e atraente, ali perto. Quando foi instituída na cidade a Ordem de São Benedito, dos “homens pretos”, foi-lhes concedido alojamento junto à Sé.

Os negros, obviamente, não recebiam um bom tratamento das autoridades eclesiásticas, que muitas vezes os tratavam como provavelmente os viam – seus escravos. Após alguns anos, eles se cansaram, e obtiveram permissão para construir sua própria igreja. Após obtê-la, conseguiram surpreendentemente levantar uma grande quantidade de fundos e construíram a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, aquela branca do lado do camelódromo – a da quinta foto. Mais próxima do Centro da cidade da época, e relativamente monumental, a turma do Bispo logo achou que ali seria um ótimo local para a nova Sé. Principalmente porque as outras irmandades não estavam a fim de receber ordens de estranhos dentro de sua própria casa, e ali era a casa dos negros mesmo.



Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também.

A Família Real chegou e ia assistir à primeira missa no Brasil. Deles, não do Brasil. Obviamente seria uma ocasião de gala, cheia de festança e jaez. O povo da Sé mandou avisar aos homens pretos que era pra eles se esconderem, para que os Bragança não se ofendessem com a presença de negros. O que, obviamente, levou-os a se enfileirarem de cada lado da rua do Rosário carregando palmas para saudar o rei. O espetáculo enfureceu tanto o bispado que a Matriz se mudou para a igreja dos carmelitas, que tinha a conveniência pros regentes que era ali do lado mesmo.

A Igreja sofreu várias reformas, e uma recente restauração. A torre direita é do começo do século XX e aquele Cristo (ou santo) realista lá em cima não tem nada a ver com o resto. Pelo menos ainda conserva o frontão que é considerado o mais bonito do Rio. A recente restauração foi a que desencavou a Ermida do Ó. Ela – e a catedral, é claro – estão abertas para visitas, aos sábados, de 9h30m a 12h30m. Seja um bom carioca e vá visitar. Não temos muito monumentos antigos e com história pra apreciar nesta cidade.

O restante das fotos são imagens variadas da igreja, incluindo os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, na cripta desde 1903. Esperamos que tenham se divertido e curtido o tour.















P. S.: a última foto é obviamente obra de um pedófilo pervertido do século XVIII.



(1) Escreveu uma história do Brasil, acho que em 1723, e, pela primeira vez, alguém escreve que o problema do Brasil é a mentalidade extrativista – os colonos vinham aqui somente pra extrair o que pudessem, lucrar o que pudessem, e voltar pra casa, sem intenção de construir uma nação ou permanecer. Certos conceitos da nossa terra são mais antigos do que pensamos.

julho 31, 2019

O Estado Sou Eu (e eu sou contra o Estado)

Certa vez, li uma postagem de um blogue de um jovem cabeludo conservador, uns 10 anos atrás, quando esse fenômeno estava apenas começando. O rapaz comentava as cobranças dos torcedores sobre Diego Hypólito por vitórias e dizia que, se fosse o Diego, mandava todo o mundo se danar, porque ele não devia nada ao Brasil ou aos torcedores, somente ao seu talento.

Obviamente o nubente reaça conheceu – provavelmente de segunda mão – o pensamento de Ayn Rand, e aplicou-o no caso do Diego. Não sei qual era a história pregressa do jovem blogueiro, mas é o tipo de pensamento que acomete pessoas sem muita experiência de diversidade no mundo. Tudo é muito simples, tudo é absoluto, navalha de Occam, o que interessa é simplificar e racionalizar. Por isso que, como diria Luke Skywalker, a postagem era “amazing. Every single word you said is wrong”.

Diego Hypólito não tem, como supostamente tinha Galt, algum talento ou conhecimento imprescindível para as massas. Ele apenas é capaz de dar pulinhos muito precisos. A utilidade prática desse tipo de conhecimento tende a zero. Imagina alguém chegando numa entrevista de emprego numa grande corporação, “muito bem, e qual sua maior qualidade?” “Posso, com apenas dois passos, saltar no ar, dar duas piruetas e cair com meus dois pés juntos”. “Certo, certo, mas você sabe usar o Word?”. A única razão pela qual existem atletas de esportes competitivos é porque existem torcedores. São eles que vão fornecer a grana pra movimentar o mundo. Entretenham-nos, façam-nos torcer por vocês, sejam nossos avatares e nos façam nos sentir vencedores. Se não for você, meu amigo, vai ser outro. Quantas pessoas você conhece que sabem se um duplo carpado com twist misto é melhor do que um mortal de costas 360? Ou que se importam? O que importa é a medalinha de ouro.

E, é claro, na postagem do blogueiro, além do desconhecimento de como funciona o esporte psicologicamente, há a total ignorância relativa a quem financia o esporte no Brasil. O governo, através de renúncia fiscal, e, no caso da ginástica olímpica, contratando técnicos estrangeiros e construindo centros de treinamento. O Diego deve tudo aos torcedores e aos brasileiros. Ele é pago pra gente por torcer por ele e ele ganhar medalhinha. Temos todo o direito de cobrar e, como aparentemente o neotene pretenso liberal que redigiu a matéria original nunca jogou nem uma peladinha com os amigos, se NINGUÉM COBRAR OU DER ATENÇÃO, O ESPORTISTA NÃO VAI ACHAR A MENOR GRAÇA. Esqueça os jogadores de futebol reclamando das vaias da torcida, é como briga de namorados adolescentes, aquelas que acontecem pra quebrar a rotina e depois dar umazinha tremendamente intensa.

Desculpem pela digressão tergiversada, mas isso tudo é pra mostrar que essas histórias de “liberdade de escolha” dos pais quanto a cadeirinhas de bebês é uma bobagem completa. Estamos vivendo num mundo em que, se não for de nossa vontade, precisamos cada vez menos interagir com gente diferente. Condomínios tipo Barra, com pequenos mundos trancafiados sob grades e segurança particular, com suas lojas, academias de ginástica, falta de calçadas e comércio variado, tornaram-se a norma. Assim, tudo é simples, direto, monocromático, sem nuances. Se você só vê gente como você, com os mesmos interesses que você, com a mesma cor que você, ganhando o mesmo que você, e só frequentam as mesmas praças de alimentação de shopping, então tudo é fácil de solucionar. Como já diz um dos meus ditados prediletos, se tudo que você tem é um martelo, todos os seus problemas se parecem com um prego.

Vejam então, o caso das cadeirinhas de bebês. Os pais que escolham, certo? À parte discussões teóricas sobre tutela de menores e deveres pátrios, existem pura e simplesmente as implicações práticas: assim como cigarros, capacetes, limites de velocidade, os idiotas que fazem essas merdas estão ME dando prejuízo. A mim, a você e todos nós. Porque nenhum homem é uma ilha. Vivemos em sociedade e todas nossas ações a influemciam – e vice-versa.

O que acontece com os pais que levam um bebê que sofrem um acidente? Quem irá resgatar o bebê das ferragens? O plano de saúde ou os bombeiros – ou paramédicos – pagos com o nosso dinheiro? Por experiência própria, sei que os paramédicos levam você para o pronto-socorro público mais próximo. Por irresponsabilidade de um casal que não quis gastar uma grana com bobagem, porque dirigem bem e jamais sofreriam um acidente, recursos que poderiam estar disponíveis para outros acidentes, leitos que poderiam estar sendo usados para outros pacientes, estão ocupados, médicos e paramédicos que poderiam estar atendendo outras pessoas, trabalhando numa via pública que tem que ser interditada, atrapalhando a vida das pessoas que querem ir pra casa.

E o que acontece com a criança que sofre sequelas pelo acidente? Vai abrir mão de qualquer suporte pelo Estado? Nenhuma pensão por invalidez? E a dificuldade para o mercado de trabalho? Não vai ocupar vagas de outros especiais que precisem mais? Será que os pais realmente estão completamente dispostos a abrir mão de tudo isso? De ficarem largados num local de acidente, sem atendimento, sem remoção para hospital, porque não quiseram usar cinto de segurança e nem cadeirinha?

Liberdade de escolha presse povo significa não abrir mão de seu conforto, não ter trabalho. Os outros, esses sim, podem ter trabalho por eles. Vivemos numa cultura que ensina a todo o mundo que eles são especiais e diferentes. O roteiro padrão desses livros de fantasia que tanto influenciam a mente da garotada que está crescendo é um garoto merda, vivendo em um lugar merda, que não parece dedicado particularmente a nenhum grande interesse ou aspiração, subitamente sendo contatado por algum mestre, força ou coincidência que mostra a ele que, secretamente, ele é o fodão das galáxias. Que se foda a sociedade, ninguém precisa deles. Eu tenho que salvar o universo. Por que será que depois esse povo cresce e se acha melhor do que os outros?

Afinal de contas, os outros, principalmente se forem pobres, com problemas ou afins, nunca tiveram tempo pra ler (caros) livros de fantasia na preadolescência.

abril 22, 2019

Enquanto isso, na Foz do Carioca...



A foz do Carioca hoje fica no Aterro. Era o rio que abastecia a cidade de água (os Arcos da Lapa foram construídos pra levar um braço dele até o Largo da Carioca) e, antes da cidade, onde os navios paravam pra se reabastecer (era conhecido como a "Aguada dos Marinheiros"). Somos conhecidos como "cariocas" por causa desse rio. Aparentemente um sapateiro ou algo parecido tinha uma casa de pedra perto da foz dele. Casa de Branco em tupi-guarani é Cari Oca (oca, sacou?) e daí o nome pelo qual o rio passou a ser conhecido. Mais tarde ele foi sendo cada vez mais coberto. A primeira ponte da cidade foi sobre ele, e tornou-se o que hoje é a praça José de Alencar. Antes do Aterro, a badalada praia do Flamengo só tinha um minúsculo trecho de areia, onde o rio desembocava. O resto era pedra, amurada e gente andando (e supostamente paquerando) de um lado pro outro. Nos anos 1990, fizeram uma estação de tratamento perto da foz, o que deixou a praia do Flamengo bem mais limpa. Do alto do Morro da Urca, dá pra ver as águas dele invadindo a praia. Vejam a maré atropelando-o na foto acima, bem no caminho do rastro luminoso da lua cheia...

abril 09, 2019

Como o Alpinismo de Autoestima Está nos Levando ao Fascismo

O nosso novo educador já processou um aluno porque numa discussão de Whatsapp que ele integrava, o discente falou pra pararem com a "briguinha de casal". E perdeu. O engraçado é que ele é um sujeito com estudo, formado, imagino que bem sucedido no mercado financeiro. Mas é careca e precisa que Olavo mostre a ele que numa discussão acirrada se deve... ofender o interlocutor! Pra alguém precisar mostrar esse caminho das pedras pra ele nessa idade, ele devia ser o nerd que não pegava ninguém. O nosso diplomata faz um discurso em várias línguas e no mais patético cabotinismo, declara que não fala basco arcaico, ou aramaico, ou sei lá o que ele disse. Ambos têm boa formação cultural, ainda assim idolatram o Olavo e acreditam em teorias estapafúrdias e ideias sem pé nem cabeça. Por que tão baixa autoestima intelectual - e no geral? 
Serão todos eles nerds que pegavam bem menos gente do que gostariam? (Lembrem-se que os incels idolatram o Inominável). Será que seus valores neoliberais e conservadores não lhes dava a paz de espírito apregoada em sitcoms americanas dos anos 50 e 60? 
Sun Tzu já dizia que um dos grandes indicadores de quem seriam os vencedores de uma guerra era saber o lado que tinha o motivo mais justo. Mesmo numa guerra, uma coisa tão cínica e cruel, isso faz diferença na cultura humana. Esse governo está cheio de intelectuais conservadores criados para viver nos anos 50, sem perceber as desigualdades culturais, sexuais e raciais. Parece aquela série do MadMen, um bando de gente vivendo uma vida aparentemente feliz, mas vazia (como nossas postagens no Facebook), à beira da contracultura devido a essa crise existencial. E o Inominável deu a eles um monte de slogans e frases pra justificar seus valores - e, principalmente sua infelicidade: os comunistas (!!!!). Outro dia eu disse que em 1964 estávamos no meio de uma revolução cultural e de costumes, numa recessão depois de anos de urbanização e crescimento econômico, que criou uma nova classe média. Também tinha aquele novo e revolucionário meio de comunicação que as crianças entendiam bem melhor do que os adultos, a televisão. E, com a Revolução Sexual batendo na porta, essa classe média foi defender os cabaços das filhas. Hoje em dia, olhando retrospectivamente, um Caetano Veloso pregando culto ao corpo, odara e só amor e amizade provavelmente fez muito mais pra derrubar os milicos que aquelas músicas de protesto todas. A ditadura caiu na mesma época em que a sociedade aceitou que homem que casava com mulher que não era virgem não era um macho beta com tendências a ser corno. Resta ver quanto tempo vamos levar pra descobrirem que ter mulher, gay, pansexual ou qualquer outro ser humano na família também é legal e não faz dos pais um bando de otários e manés.

junho 25, 2017

Maldição


Reaja furiosa, revoltada e irrevogável
Chore baixinho
Diga que não é verdade
E nunca será
Encaminhe-se ao espelho
Encare a verdade terminal
Dispa-se como uma puta
Vista-me como uma carapuça
E atravesse, em vivos 7 anos de sorte má
Uma interminável maré de bom azar.

outubro 11, 2015

Transcendental (Segunda Versão)


Meus dedos leem em teus lábios
Inúteis encantos de ilusão
Tentando esconder a verdade
Que saboreio em tua pele
E vejo teus mudos suspiros
Entrecortando o tempo
Em constantes de Planck

E, por uma vez, estes míseros sentidos
Que nos acorrentam a este reino
De Sombras e ilusão
Revelam a transcendência
Vendo você
Ouvindo você
Saboreando você
Sentindo você
Fodendo você

(... e o teu cheiro)

Transcendental


Meus dedos leem em teus lábios
 Inúteis encantos de ilusão
 Tentando esconder a verdade
 Que saboreio em tua pele
 E vejo teus mudos suspiros
 Entrecortando o tempo
 Em momentos de Planck

E, por uma vez, estes pobres sentidos
 Que nos acorrentam a este mísero mundo
 Revelam a transcendência
 Vendo você
 Ouvindo você
 Saboreando você
 Sentindo você
 Fodendo você

(... e o teu cheiro)

Ratos em Chamas

Esquizoides roedores
Em extasiada fúria
Espatifam viris enigmas contra a parede
Esmigalhando cérebros como crânios
Exumados de fetos abortados
Estilhaçados contra o muro
"Este é o nosso lema
Este é o nosso emblema
Este é o nosso brasão"
Escroquemente estroinam
Enquanto seus olhos escarlates
Ensanguentam a escuridão

abril 24, 2014

Taurina


 O touro
 A origem de toda carne
 Penetrando a mulher
 Com fúria, couro e suor
 E ela, num prazeiroso gozo pervertido
 apavorado e mitológico
 imaginando
 "Serei eu a patrona do Velho
- e sábio -
Mundo? A amante
 de Zeus Pai Todo-Poderoso
 Ou serei eu a mãe do monstro
 A Lenda do Labirinto
 O terror
 (e revelador de heróis)
 de Atenas?

novembro 11, 2013

abril 08, 2013

Oração (Primeira Versão)

A mais bela visão
Teus lábios incréus
numa prece silenciosa
implorando para que nunca, jamais
nos seja concedida misericórdia

Tuas mãos infieis, postas
Juntas, em oração
Confessando todos os seus pecados
A glória de cada um deles

Teus olhos ateus fixados nos céus
E eu sinto a presença de Deus
Zen, Tao, Nirvana e Apocalipse
O verdadeiro nome de Deus - o Arauto do fim
Murmurado em êxtase iluminado e embevecido

Senhora, eu não sou digno
de que entreis em minha morada
mas dizei uma palavra e estarei perdido.

Incréus!

Para quem não acredita em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa

Uma Rua em Olinda

Clique para ampliar. Os carros sumidos é que isso é uma panorâmica de várias fotos que tiveram a perspectiva corrigida.

fevereiro 21, 2013

fevereiro 15, 2013

O Fim das Armas de Tiro Único


Foi mencionado alguns parágrafos acima a cápsula. A cápsula era já um produto da Revolução Industrial. Tinha a forma de uma pequeno balde, com fulminato de mercúrio por dentro. Essa substância tem a propriedade de “explodir” quando pressionada subitamente e era utilizada para gerar a faísca que deflagrava a pólvora. Na verdade, apesar do uso do pretérito, ela ainda existe e serve exatamente para isso, só que atualmente fica embutida na base dos cartuchos.

A cápsula tornou-se a base dos primeiros cartuchos para carga pela culatra. Eles eram feitos de papel e compunham-se da bala, uma base de cobre com a cápsula no meio, e a pólvora em seguida. Depois de carregado na arma, esse conjunto era disparado por uma agulha que atravessava a pólvora e atingia a cápsula, originando a faísca e deflagrando a carga.

O problema com a carga pela culatra sempre tinha sido a impossibilidade de se vedá-la completamente, uma vez feita nela uma abertura para entrar a munição. Um atirador receberia parte do impacto da explosão diretamente na cara. Os primeiros fuzis de agulha usavam a própria elasticidade do metal para fazer a vedação. A pressão fazia-o expandir-se e vedar os gases. Os franceses fizeram melhor e criaram o Chassepot, com um anel de borracha para desempenhar a função.

A vedação por borracha era tão mais eficiente do que a por metal puro que permitia o uso de uma carga maior e, portanto aumentava o alcance (e, simultaneamente, a precisão). Os Chassepot atiravam três vezes mais longe do que os Dreyser alemães e foram com aqueles que os gauleses partiram para a porradaria com seus vizinhos germânicos, crentes que seu fogo manteria seus oponentes à distância, incapazes de revidar. Não contavam que os hunos tivessem CANHÕES com carga pela culatra, que mantiveram a infantaria longe demais para usar seus fuzis.
O fuzil de agulha Chassepot, que tinha uma almofada de borracha pra selar a câmara. Repare no alto, à direta, embaixo da baioneta, o esquema de um cartucho de papel


Mas o cartucho de papel era frágil demais para ser usado num mecanismo que alimentasse a arma automaticamente. O rifle de repetição era o Santo Graal dos armeiros e buscado desde os primórdios da pólvora. Com o surgimento da cápsula fulminante, foram criados alguns sistemas que conseguiam fazer essa carga mecanicamente, mas eram complicados e, portanto, frágeis demais para o campo de batalha - e isso quando funcionavam. Por volta do meio do século XIX, a Volcanic Repeating Arms, nos Estados Unidos, começou a experimentar com “balas-foguete” - munições que encapsulavam a carga de pólvora e saíam “a jato” do cano. Essa ideia não vingou, mas seu criador, William Hunt, desenhou algumas armas para o cartucho, com recarga através de um mecanismo acionado por alavanca, que atingiria a glória mais tarde.


O cartucho de papel da Chassepot

Mais Terror

Na feirinha da Praça XV.

Seu Juarez na Feirinha da Praça XV

Ajudando o filho na barraca: "bota lá que eu sou menos jovem, mas sou bonito".

Fábrica da Bhering




O Relógio

Cassiano Ricardo 

Diante de coisa tão doida
Conservemo-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.