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novembro 28, 2024

UFO, a Série de 1969 que Antecipou as Atuais

 Logo no primeiro episódio de uma série de ficção científica, um piloto que sofreu um acidente e viu seu colega morrer começa a investigar a história toda, por ter certeza de que estão encobrindo a verdade. Logo todos - médicos, seus superiores, as autoridades - insistem veementemente que ele está ainda sob os efeitos do estresse pós-traumático, que é tudo imaginação, e, quando ele prossegue, perde o emprego, sua casa é revirada e marginais invadem sua casa, reviram-na, surram o sujeito e lhe dizem para esquecer a história toda.


E esses são os mocinhos. 


Revisitei recentemente via Vocetubo um seriado a que não assistia desde a adolescência. Quem pousou jovens olhos nele lá no começo dos anos 70 não entendeu muita coisa, mas certamente ficou impressionado com o clima mórbido, soturno e vagamente derrotista dos episódios. Não surpreendentemente a série não só não viu uma segunda temporada, como se tornou uma delicadeza cult em décadas posteriores, pois como já diz o clichê, estava à frente do seu tempo.


Depois de fazer a alegria da garotada dos anos 60 com suas muitas séries com marionetes - Thunderbirds, Capitão Escarlate, Joe 90 - o casal Gerry e Sylvia Anderson resolveu abandonar seus títeres e tentar a mão em algo mais carnudo e ossudo. Como ficção científica com organizações secretas mantendo a ordem no planeta contra invasores extraterrestres eram a especialidade da casa e o zeitgeist da Guerra Fria, seria essa a premissa do programa. Até porque assim poderiam usar plenamente seu ás na manga - Derek Meddings. 


Pra quem não está ligando o nome ao sujeito, ele foi desenhista de produção de várias fitas de James Bond, e o criador de todas aquelas fabulosas miniaturas que povoavam os shows dos bonequinhos. Foi ele quem desenhou os Thunderbirds e todos aqueles outros veículos ultramaneiros do mundo do Socorro Internacional. O Thunderbird 2, particularmente é um dos designs mais icônicos da ficção científica na tevê, uma das mais belas naves a voar pelas telas. 


Depois de Thunderbirds, os Andersons haviam redesenhado suas marionetes para proporções mais reais. A verdadeira razão para os cabeções dos Tracys no Socorro Internacional era que o mecanismo que fazia as bocas se moverem em sincronia com o diálogo tinham que ser montadas neles e, após conseguirem miniaturizar seus componentes, conseguiram instalá-lo no tronco. Já que o visual era mais realista, por que não as historinhas também? E assim nasceu “Capitão Escarlate”.


Capitão Escarlate não tinha nada da alegria familiar dos foguetinhos do Socorro Internacional. Os terráqueos fizeram uma bobagem no espaço e levaram os misteriosos Misterons (eu sei) a abrir hostilidades com o planetinha azul. O capitão Escarlate morria no primeiro episódio, depois de diversos atos de sabotagem, possuído por um dos extraterrestres. Entretanto, por causa dessa fusão com o alienígena, ressuscitou e ganhou assim o dom de retornar à vida cada vez que batesse as botas. E também de ser capaz de detetar os misteriosos Misterons. 

Os Misterons não eram malignos, sua ira era justificada. Eram muito mais avançados e  poderosos do que os terráqueos, que só tinham como maneira de detetá-los os enjoos do herói do título. E, assim, o objetivo da organização do Capitão era contê-los, até porque não tinham como realmente enfrentá-los.


Com essa temática sombria e marionetes em trama de meia hora, a série nunca encontrou seu público. Naquela época ainda era vergonhoso pra preadolescentes, e muito menos adultos, assistir a programas com bonequinhos e de ficção científica. E, com essa história, esquece as crianças. A era do Elogio do Nerd (que acabaria se tornando uma Idade das Trevas) ainda não havia começado. Então, quando os Andersons tiveram a chance de realmente fazer um programa com gente, uma hora de duração e dirigido a um público mais velho, resolveram reciclar a ideia.





Passada em 1980, a nova série conta a história da SHADO, uma organização secreta que combate secretamente (dã) alienígenas sobre os quais sequer se sabe o que querem exatamente com humanos. Em um dos episódios, eles descobrem que um dos extraterrestres tem órgãos humanos, o que leva a pensar que eles usam os terráqueos como reservas para transplantes, mas nunca se tem certeza. A sua tecnologia é muito mais avançada, e como os Mysterons, parecem ser capazes de controlar as mentes humanas. A única esperança da SHADO é que, aparentemente, é impraticável para os invasores mandar mais do que um pequeno punhado de naves por vez, provavelmente por conta da dificuldade de viagens interestelares.


Numa medida para economizar no orçamento, o QG da SHADO é disfarçado como um estúdio de cinema, mas esse aparente atentado à suspensão de descrédito funciona redondinho graças à coerência temática. Como controladores de mentes e organizações secretas, a sétima arte também fundamenta-se em dobrar a realidade à sua vontade. No episódio descrito, o primeiro do show após o piloto, o diretor da SHADO marca um encontro, com o sujeito investigando por conta própria, aparentemente numa famosa praça numa cidade distante. Mas em verdade era apenas um cenário a algumas centenas de metros do escritório. Uma arma falsa se revela verdadeira e novamente falsa ao final, só pra deixar Chekov maluco. No final dos anos 60, a profusão de informações começa a chegar ao seu patamar crítico com a universalização da televisão, os rádios portáteis, a transmissão instantânea de imagem via satélite. A difusão do conhecimento leva ao questionamento e juntando-se a isso a paranoia da Guerra Fria, com a proliferação de ditaduras financiadas pelos dois blocos e chegamos ao limiar da era pós-verdade que a série reflete.


E, além da paranoia, da incerteza, de estar numa luta que não pode vencer, apenas conter, os integrantes da SHADO ainda quase sempre têm negada uma verdadeira vitória. Eles morrem aleatoriamente, são usados pelos alienígenas, cometem erros pessoais com terríveis consequência, todos pontos de honra de shows sérios de hoje em dia, mas um pedido de cancelamento para ficção científica na tevê da época. Dos Thunderbirds que eram uma dos  família feliz salvando em cada episódio dezenas ou centenas de vidas com sua engenhosidade a paranoicos manipuladores com sérias dúvidas sobre sua capacidade, com frequentes baixas desnecessárias é um longo caminho. 


E quanto mais longo o caminho, mais fácil a perdição. Aquele sujeito investigando sobre a SHADO, por exemplo, não é um heroi em busca da verdade, mas tentando encontrar a redeção - foi sua recusa em deixar o local em que seria travada uma batalha com o UFO que levou à morte de seu copiloto. Não só ele, mas os protagonistas também cometem erros e atos seriamente antiéticos. Como os alienígenas, manipulam a verdade e as emoções (e, em um dos episódios, até o tempo). Ninguém é perfeito, ninguém sabe a verdade, ninguém é um heroi e dificilmente aos combatentes terráqueos é concedida uma inquestionável vitória completa. 


Questionar a Guerra Fria durante a Guerra Fria e quando o público de tevê - e de ficção científica - ainda estava buscando apenas conforto, desacostumado a complexidades na telinha, não era a melhor maneira de conquistar o coração e as mentes das massas. Ainda mais com toda aquela psicodelia na produção, aliás, quase insuportavelmente pobre para os padrões de hoje. Inclusive é surpreendente como na terra dos atores shakespeareanos não seja possível arrancar atuações pelo menos passáveis de vários dos viventes nessa confusão. Talvez eles também não tenham entendido que estavam num embrião do formato que hoje faz a festa dos canais a cabo e plataformas de estrímem, sempre em busca de prestígio e anti-herois para seus shows.


UFO é provavelmente a melhor série de invasores alienígenas de sua época - muito mais provocante e pelo menos tão paranoica quanto “Os Invasores” e localizada num universo consideravelmente mais cinza e cínico do que (o melhor sci-fi de tevê de todos os tempos) “Jornada nas Estrelas”. Pode ser encontrado de graça no Vocetubo, tanto com legendas em inglês quanto dublado em português. Não vou postar o linque aqui para  não derrubarem os programas, mas basta uma busca pra bater nela. Vale dar uma conferida em pelo menos alguns dos episódios e, se forem em busca de apenas um, que não seja o piloto, claramente feito antes que começasse a produção em linha e em busca ainda de sua personalidade.


janeiro 07, 2013

Os Vulcanos Não Têm Emoções



Eis a prova, em glorioso "isso que os terráqueos chamam de roquenrou". Destaque também para o solo de Moog.

junho 09, 2011

A Segunda Temporada de Jornada nas Estrelas - A Série Original



Dia das Bruxas


A Enterprise está cuidando de sua vida quando é feita refém por entidades semidivinas exigindo a presença de Kirk no planeta abaixo. Vem cá, se você fosse uma entidade semidivina, será que você não teria nada melhor pra fazer do que ficar pentelhando o orgulho da Frota Estelar? Os organianos, por exemplo, preferem ficar na sua a interagir com esses primitivos carboniformes, o que é algo muito mais sensato pelo ponto de vista de uma criatura altamente evoluída e poderosa além de nossa compreensão, mas eles parecem ser exceção num universo onde a diversão favorita de semideuses é mexer com o capitão Kirk – e obviamente levar uma trolha.

Robert Bloch escreveu Psicose e redigiria um dos melhores episódios de Jornada, o do Jack, o Estripador. Mas aqui alguma coisa saiu terrivelmente errada, ou na sua concepção ou nas sucessivas alterações que o roteiro sofreu em seu caminho do papel para a tela. Misturados na confusão estão um marido corno, as três bruxas de Macbeth, uma mulher que vira pantera como em Cat People (1943), um clássico do cinema de terror refilmado em 1981 com Nastassja Kinski, e muita, muita enrolação.

Diz a lenda que, ao filmar o maravilhoso film noir “À Beira do Abismo”, Bogart perguntou ao diretor, Howard Hawks, quem cometia um dos assassinatos da intrincadíssima trama. Hawks não sabia, mesmo depois de perguntar ao roteirista William Faulkner (que equipe, hein?), e resolveram ligar no meio da noite pro autor do livro original, Raymond Chandler (1), que também disse que não fazia a menor ideia. O mesmo provavelmente aconteceria se alguém perguntasse exatamente o quê esses alienígenas de fora da galáxia vieram fazer aqui. Eles falam algumas bobagens sobre querer saber como funciona a ciência humana, mas sem muita convicção. Mais decidida parece a mulher extragalática em aprender a trepar, mas o corno deixa bem claro que essa é uma deturpação da missão original.

Capazes de criar qualquer coisa do nada e fazer de uma astronave gato e sapato com o que parece ser magia, os alienígenas parecem estar perdendo tempo querendo dominar a ciência. Talvez a ideia original para o roteiro abordasse um velho questionamento místico, de que você só pode compreender o universo científica ou magicamente, mas não de ambas as maneiras, o que, de qualquer maneira, perdeu-se completamente no tratamento final.

Sem nada realmente ocorrendo durante a maior parte do episódio, os tripulantes da Enterprise são controlados, libertados, recapturados, e Kirk faz uma de suas melhores interpretações de “Flash-Gordon-desejado-pela-bandida-o-que-possibilita-uma-fuga”, mas nem isso chega ao fim. O corno é quem acaba abrindo as portas da cela, o que dá chance para uma horrorosa perseguição de um gato preto perseguindo nossos heróis, sendo exigido dos espectadores que imaginem que o bichaninho é uma gigantesca e ameaçadora pantera. Em “Cat People”, pelo menos no original, a repressão sexual da protagonista a fazia crer que ela viraria uma fera incontrolável se abrisse as pernas até mesmo para o marido, mas aqui, embora a atriz convidada (mais velha do que a média) exiba uma forte curiosidade sobre o que significa aquele estranho calor na bacurinha nunca antes experimentado, o tema também se perde completamente.



O episódio, como diz o nome, “Dia das Bruxas”, está mais para terror do que para ficção científica, exceto no pavoroso final, quando Kirk destrói (outra vez) a fonte de poder das criaturas e elas mostram o que realmente são: marionetes que seriam recusadas para fazer figuração no Muppet Show por muito trash. O blogueiro não lembra como elas pareciam na tevê, mas num DVD remasterizado, com resolução aumentada pelo player, num monitor de alta definição de 50 polegadas, os fios controlando-as são absurdamente visíveis. Sem contar que o desenho dos pobres fantoches lembra o Garibaldo de porre indo para uma festa new wave. É lamentável que a obsessão de Roddenberry de fazer sua tripulação encontrar Deus (ou uns feiticeiros poderosos) tenha levado a isso. Felizmente o próximo encontro de Robert Bloch com a Enterprise seria muito mais memorável, embora também com uma temática de horror e alienígenas incorpóreos e poderosos.




Digno de nota:

Contagem de corpos: um oficial da Enterprise e dois alienígenas extragaláticos.

O cabelo de Chekhov é inacreditável. Este foi o segundo episódio a ser filmado na segunda temporada; felizmente o penteado mudaria nos próximos.

O corno tenta subornar a galera da Enterprise com pedras preciosas, o que leva a turma de Kirk a rir com desprezo, já que eles podem fazer o mesmo no replicador da nave. É a primeira alusão da série (e do universo trekkie) à inexistência de dinheiro no século XXIII. O tema seria levado mais adiante nas séries posteriores e é curioso por contrastar fortemente com vários dos episódios, claramente anticomunistas (estávamos no auge da Guerra Fria, lembra?), e com o positivismo humanista, porém claremente capitalista (e mais diria – libertariano, até), de Roddenberry.

(1) Como disse meu crítico online preferido, Glenn Erickson (www.dvdsavant.com), se alguém me ligasse no meio da madrugada perguntando um detalhe sobre algo que eu escrevi anos atrás, eu provavelmente também não faria a mínima ideia.

janeiro 22, 2011

A Fronteira Final - A Série Original de Star Trek - A Clássica Jornada nas Estrelas

Por Qualquer Outro Nome




*pelo blogueiro convidado Roger Filósofo


De um modo geral, os roteiristas da série original de Jornada nas Estrelas gostavam de criar situações nas quais poderiam enaltecer as qualidades humanas. Não só as cognitivas, mas, sobretudo, os sentimentos da espécie - nem sempre os mais nobres. Capitão Kirk e sua tripulação eram rotineiramente expostos a seres e máquinas que demonstravam força e inteligência muito superiores às nossas. Não obstante, sempre conseguiam uma maneira de superar essas dificuldades com astúcia e apelos emotivos típicos.

Desnecessário relacionar todos os episódios em que se procedeu assim. Basta examinar o caso exemplar do divertido Por Qualquer Outro Nome, dirigido por Marc Daniels, que foi ao ar em 23 de fevereiro de 1968. Nessa história, a tripulação da Enterprise é tomada de refém pelos kelvans, seres da galáxia de Andrômeda, muito mais avançados tecnologicamente, que, depois de um acidente, capturam a nave por meio de um pedido de socorro ardiloso, a fim de poderem voltar para seu planeta e invadirem os domínios da Federação. As armas que possuem permitem reduzir a maior parte da equipe a sua essência mínima em um pequeno sólido geométrico. São também capazes de adaptar as máquinas para operarem de maneira que possam levá-los em velocidade surpreendente de um lado a outro do universo. Ameaçado de ver toda humanidade subjugada pelos alienígenas de Andrômeda, Kirk tem a ideia bem sucedida de provocar sensações humanas incontroláveis nestes seres que se disfarçavam em corpos humanos, mas que desconheciam suas potencialidades emocionais. Com a confusão de ciúmes, atração sexual, embriaguez e fúria os kelvans aceitam se render aos apelos dos trekkies e procuram ter um entendimento amigável com todos.

Na época que Jornada foi ao ar pela primeira vez, já eram comuns as críticas pós-modernas ao domínio da racionalidade sobre a formação do indivíduo, enquanto se defendia a valorização das narrativas subjetivas que cada pessoa faz da história de sua vida. Em um contexto mais amplo, isso significaria que todas as afirmações teóricas de qualquer um, seja cientista ou não, não passariam de uma construção feita sobre o mundo tal como a expressão de um fato e não uma descrição verificável racionalmente.

Jornada nunca pretendeu ser uma série simpatizante do pós-modernismo. Pelo contrário, por vezes, defendia as conquistas positivas das ciências e as soluções racionais para os problemas da humanidade. No entanto, persistia uma tendência em valorizar as atitudes emotivas diante de desafios postos por entidades superiores. Uma tendência que em Filosofia Prática costuma ser definida como boo-hooray. Boo-hooray – ou “choramingas” – é o termos pejorativo usado para designar as teorias éticas emotivistas que sustentam que as regras morais expressam afetos ou sentimentos e não querem afirmar a verdade ou falsidade de uma ação que envolva perda e ganhos entre agentes.

Dorothy C. Fontana foi quem adaptou a história de Jerome Bixby para Por Qualquer Outro Nome. Aqui o choque entre razão e emoção se faz notar de novo e a solução se volta para os aspectos sentimentais e atrativos sexuais da espécie humana. Uma solução fácil, tendo em vista o fato de que quem escreve a narrativa é uma humana e não um vulcano, alien, ou kelvan. Eventualmente, uma resposta emotiva pode ser a melhor escolha a se adotar em algumas situações nas quais a mera razão não possa atuar de modo eficaz sozinha. Contudo mesmo para que essa escolha possa ser considerada adequada é preciso que se faça uma avaliação racional, prévia ou posterior à ação, para saber se emoções podem ser utilizadas em benefício do agente e talvez das outras pessoas envolvidas, em certas ocasiões. De resto fica faltando explicar também como emoções e sentimentos podem superar o ponto de vista “especista” dos autores de romances sem que tal superação pareça arbitrária de uma perspectiva geral. E se o apelo emocional pode responder questões de valor de verdade quando se tratar de, por exemplo, atribuir responsabilidades aos agentes que cometerem ações que atinjam outras pessoas. Mas essa é, bem como as outras, uma objeção que transcende os limites de uma série de entretenimento e mesmo poucos filósofos estão em condições de rebatê-la prontamente.

junho 03, 2010

A Fronteira Final - A Série Original de Star Trek



Nômade


Imagine uma série onde uma pacífica, ainda que poderosa e sofisticadíssima, espaçonave cheia de humanos das mais diversas culturas (e mesmo um alienígena, isto em plena tevê americana dos anos 60) explora o universo em busca de conhecimento, usando para tanto ferramentas avançadíssimas – tricorders, computadores, defasadores... não soaria meio estranho se eles resolvessem fazer um episódio virulentamente anti-tecnologia?

Uma sonda terráquea perdida no espaço profundo tem um encontro com alguma coisa misteriosa que a conserta e a torna uma máquina indestrutível e invencível. Após destruir alguns viventes, ela encontra a galera da Enterprise, com quem topa bater um papo antes de de desintegrar tudo. Sim, se você curte “Jornada nas Estrelas”, já sacou que a história foi recauchutada pro primeiro longametragem, provando pela segunda vez que ela não era uma boa ideia. Mas, pelo menos no cinema, o final celebra a união do homem com a máquina e o cosmos, fazendo uma apologia à tecnologia não só na trama como também nos efeitos visuais caríssimos pra época. Já na série original, mesmo passando-se no famoso universo “treknológico”, temos mais uma vez uma ressurgência da paranoia dos anos 50 de que tudo que tenha luzinhas piscando e saía da mente de um cientista é o Mal Encarnado (eles tavam meio cabreiros com a bomba atômica, lembra?).



A Enterprise descobre que um sistema inteiro foi devastado. Quatro bilhões de almas foram assassinadas. Logo em seguida é atacada por uma espaçonave indestrutível e invencível. Antes que os espectadores pudessem se perguntar se eles teriam MAIS UM encontro com um ser semidivino, o atacante para com as hostilidades assim que o capitão Kirk tenta parlamentar. O atacante então é teletransportado pra dentro de nossa nave estelar favorita. E certamente ajudaria muito se o poderosíssimo artefato irresistível não parecesse tanto com uma garrafinha de Yakult ou um espremedor de laranja gigante.

Sério, Jornada nas Estrelas pode parecer retrô hoje, mas seu design era avançadíssimo pra época. Até hoje a Enterprise tem um ar futurista. Mas a sonda malvada flutuante é muito, muito trash. Poderia ter saído de um daqueles filmes com foguetes guiados através de volantes de direção e radarscópio dos anos 50. Raios, qualquer satélite artificial da época já parecia mais moderno do que aquilo. Em pouco tempo a tripulação descobre que a geringonça foi lançada da Terra no começo do século XXI (obviamente por uma agência espacial sem consultores de desenho industrial), sofreu um acidente colidindo com algum artefato alienígena semidivino e os dois se fundiram e se transformaram numa maquineta semidivina com danos em alguns bancos de memória, tanto que confundiu o capitão Kirk com seu projetista, Roykirk. Ah, e sua programação é esterilizar tudo que encontrar, i.e., matar todos os seres vivos, igual ao Bender em Futurama quando dorme (“matar... todos... os... humanos”).



A direção até que consegue gerar alguma tensão mantendo em suspenso até quando a sonda maligna irá obedecer às ordens do capitão Kirk, pensando que ele ainda é seu criador (e usa até uns inusitados planos de visão subjetiva do satélite psicopata). Enquanto isso o povo da Frota Estelar tenta descobrir o que aconteceu com a geringonça, já que ela era apenas programada para encontrar novas formas de vida, novas civilizações... isso, vocês pegaram a ideia. Os espectadores ficam pensando – quem encontrou a Nômade (o nome da maquineta) e por que mudou assim sua programação? Como eles conseguiram concentrar tanto poder em algo tão pequeno? Será que essa diretriz primária traduz algum desejo obscuro de seu criador e por isto a Nômade estaria tão obcecada em reencontrá-lo que nem percebeu que ela também era uma “unidade biológica”? Será que para alguma outra cultura avançadíssima, o objetivo de todo conhecimento é aniquilar tudo que estiver vivo e levar o universo de volta à sua placida mecânica celestial inicial? O que foi afinal o acidente que a transformou?

A Nômade antes de virar um artefato onipotente e com cara de Yakult

Pois ninguém responde nada! Spock faz uma fusão mental para descobrir exatamente o mesmo que a própria sonda já tinha dito no início do programa – que esbarrou em outro artefato e os dois se transformaram num só e, por pura coincidência, sua programação “encontrar novas formas de vida bla bla bla” virou “exterminar novas – e velhas – formas de vida bla bla bla”.

Ao fim, Kirk consegue destruir a Nômade perguntando se ela precisa destruir tudo que for imperfeito e em seguida explicando que com os bancos de memória funcionando mal, a própria sonda também não era perfeita. Dã. Desta vez, ao contrário de “A Hora Rubra”, sai até fumacinha do computador flutuante mesmo.

Pois é, em “A Hora Rubra” já tinha aparecido um computador maligno, mas ele no fundo era bem intencionado. O episódio claramente não era antitecnológico, mas anticonformista (embora de maneira bastante confusa e canhestra, apesar dos brilhantes vinte minutos iniciais e a suruba obrigatória pra dar vazão aos instintos reprimidos). “Nômade” simplesmente retoma a temática paranóica dos anos 50 de que toda a ciência, mesmo quando pacífica e bem intencionada, acaba se tornando perigosa e aterrorizante, ainda mais se uma cultura forasteira põe as mãos nela. Nada a ver com o resto da série provocante e especulativa. De bom mesmo só sobra a boa construção de tensão, com o contumaz diretor Marc Daniels se dando ao luxo de usar travelings seguindo a ameaçadora geringonça flutuante, no que talvez seja a mais bela e cinematográfica tomada de Jornada das Estrelas desde o soberbo “A Consciência do Rei”.



Digno de nota:

Contagem de corpos: quatro seguranças.
Avistamentos de tenente Leslie: ele escapou do massacre por estar com uma camisa bege, na ponte da Enterprise.
O blogueiro passou um bom tempo bestuntando se “Nomad” teria algo a ver com “No mad”. Talvez o roteirista tenha tido que correr com o roteiro, não gostou do resultado final, mas queria deixar claro que não estava maluco quando o concebeu.
A foto do criador da Nomad, Roykirk, é na verdade do próprio diretor, Marc Daniels.

maio 10, 2010

A Fronteira Final - A Série Original de Star Trek - A Clássica Jornada nas Estrelas



O Outro Lado do Espelho

Anteriormente: O Lamento de Adônis

Todo mundo gosta de universos paralelos. Quatro décadas atrás, então, quando o conceito ainda era novo na televisão, devia ser o maior barato. A ponto de transformar não só este episódio como também o cavanhaque de Spock em clássicos da cultura pop.

A hora de cinquenta minutos começa com Kirk tentando convencer uns alienígenas togados a cederem direitos de mineração pra Federação, mas os pacíficos etês não querem nada com frotas estelares cheias de naves capazes de obliterar planetas. Eles até estão conscientes de que a Enterprise poderia tomar o minério à força, mas nosso capitão estelar favorito assegura que jamais praticaria tal agressão – uma prova de que talvez eles pudessem reconsiderar sua decisão.



Em seguida Kirk sobe pra Enterprise, acompanhado de Scott, McCoy e Uhura, e o velho artifício de roteiro, o defeito no teletransporte, manda eles prum universo paralelo (e, assim como em “Inimigo Interior”, ainda se dá ao trabalho de mudar seus uniformes) onde todo mundo é mau, as mulheres envergam trejes ainda mais sucintos e Spock usa um cavanhaque. E onde, para seguir os procedimentos da Frota Estelar do Mal, Kirk tem que fazer toda a raça que negou direitos de mineração se chamar saudade.



O conceito é uma adaptação para ficção científica do doppelganger e da sombra junguiana, a personificação da parte de nossa personalidade que nosso subsconsciente percebe como nossos maiores vícios e defeitos. A projeção desta sombra sobre outras pessoas, segundo o discípulo de Freud, formaria a base de nossos preconceitos. Assim podemos aproveitar e ver o que Roddenberry e sua galera entendiam como piores traços de caráter da Humanidade.



Pra começar, o sexo. O criador de “Jornada nas estrelas”, espada e matador, sempre foi favorável a tal atividade, como bem demonstrado na série, mas aqui os uniformes já minúsculos das mulheres (a bem de Roddenberry, por exigência da rede, que vetou as calças compridas pra elas) viram top e minissaia (deixando ver que Uhura, lá nos anos 60, além dos coxões tem um abdome sarado) e é violentamente assediada por… Sulu! (faz sentido, como no universo-espelho tudo é ao contrário, ele é heterossexual). Além disso, Sulu tem uma cicatriz na face e é o chefe da Gestapo da nave, um serviço de segurança e repressão. E faz uma cara ótima quando a Uhura do nosso universo precisa distraí-lo seduzindo-o e depois negando seus favores, o que é mostrado como um comportamento típico das mulheres de lá… sacaram a mensagem, moças que gostam de provocar e rejeitar os outros, são…?

As promoções é que são fantásticas: os oficiais sobem de posto assassinando seus superiores, assim todo mundo abaixo do falecido sobe um posto. Qualquer falha também é punida pelo Alto Comando com a morte. Assim, a marujada toda permanece alerta e competente e, de uma maneira extrema, a competição torna todos tão eficientes quanto a cooperação no universo bonzinho. Neoliberais iam adorar o universo-espelho e sua ideia de que lobo comendo lobo acaba trazendo benefícios para a alcateia, dando rédeas livres para os melhores empurrarem a sociedade adiante.



Os vulcanos, pelo menos, se sentem à vontade. O Spock de lá está tão confortável em seu posto quanto na Frota Estelar benigna. O Spock de cavanhaque, acessório capilar que tornou-se tão famoso quanto o episódio (v. “Digno de nota”) justifica suas ações sob a lógica de que um único homem não pode fazer a diferença contra todo um império. Desculpa esfarrapada, como o nosso Kirk frisa para ele, já que no sistema de valores da nossa Federação o idealismo sempre fala mais alto e dá como recompensa uma consciência tranquila. Mas o Spock barbado é treinado para ignorar sentimentos como o remorso e tem noites de sono tão boas quanto as dos justos, deixando pairando no ar a noção de que o povo de Vulcano é realmente um bando de monstros insensíveis, como sempre faz questão de frisar o dr. McCoy, preocupados apenas com a sobrevivência e em empurrar seus genes adiante, da maneira que lhe pareça melhor – através da cooperação no nosso universo e descaradamente aderindo à brutal competição darwinista-social do universo-espelho.



Estarão os autores de “Jornada nas estrelas” insinuando que não existe ética se não há um julgamento emocional como base? Analisando fria e biologicamente, o comportamento vulcano é realmente exemplar para a sobrevivência da espécie. Sem que em algum momento se trace uma linha moral apriorística e entregando-se apenas à tarefa de sobreviver e prosperar geram-se os monstros vulcanos do universo-espelho. Não há um custo psicológico, graças ao seu treinamento de supressão de emoções.

Mas e os humanos, como sobrevivem nesse universo sem tal treinamento? Muito bem, obrigado. Como crianças a quem foram dadas as melhores armas disponíveis. Não há superego na Frota Imperial, todos vivem em função de seus desejos e instintos mais baixos. É o reino do Id. Não há mecanismos repressores sociais para o comportamento. Não há culpa. No mangá “Lobo Solitário”, o personagem principal pretende atingir o Nirvana dedicando-se ao mal absoluto, pois assim como o bem absoluto, ele leva à negação do “eu” e à sintonia com todo o cosmo. Aceitando, sem julgar, todos os trabalhos de assassinato que lhe sejam passados, e apenas estes, o samurai Itto Ogami torna-se através da sincronicidade um instrumento de Deus.



O mesmo acontece neste episódio. Sem culpa e dando completa vazão aos seus instintos, os tripulantes da Enterprise imperial sentem-se tão realizados e completos quanto suas contrapartes benignas. Tão atraente é a perspectiva de viver dando rédeas aos instintos que o capitão Kirk em dado momento sente-se completamente à vontade. Quando o Chekov malvado tenta matá-lo (e assim toda a oficialidade seria promovida um posto) e um guarda-costas o salva, pois achou que seria mais lucrativo ser o homem que salvou Kirk, o nosso herói o esmurra violentamente, para lembrá-lo de não cobiçar seu cargo. É uma cena inesperada para o espectador e coerente com o personagem, que progrediu através do controle de seus desejos mais baixos, e não de sua negação, como Roddenberry sempre enfatiza (cf., por exemplo, “Um pedaço da ação”, onde, num planeta dominado por gangsters e bandidos, Kirk também dá sinais de estar se sentindo em casa). Em contrapartida, o povo maligno que vem parar aqui não tem superego e nem autocontrole e são rapidamente descobertos como originários de outra dimensão, graças a seu comportamento.

O episódio, além de levantar essas questões, ainda é divertido, mantendo o suspense do disfarce de nossos heróis com o velho clichê da contagem regressiva – se não voltarem para seu universo em tantos minutos, nunca voltarão – e é cheio de detalhes interessantes: os guarda-costas dos oficiais, sendo que os de Spock são vulcanos; a horrenda cicatriz de Sulu; a câmara da agonia; os uniformes duas-peças das moças; e, principalmente, falando de roupas de moças, a lingerie da amante do capitão, em que a calcinha é apenas uma tira que desce desde o alto do abdome, coberta apenas por um negligée transparentíssimo. É impressionante como a desculpa esfarrapada de que os figurinos eram futuristas justificava a “Jornada nas estrelas” mostrar tanta mulher seminua (repare que os figurinos futuristas dos homens não eram tão esparsos) na rigidamente conservadora tevê dos anos 60. Havia mais do que a atração de um futuro onde todos encontrariam seu lugar e enredos cabeça para atrair os adolescentes nerds dos anos 70 para esta série.

Digno de nota:

Contagem de corpos: quatro tripulantes da Enterprise maligna.

Ao final a Federação continua sem ter os direitos de exploração do planeta pacífico abaixo. Ver os personagens não serem perfeitos o tempo todo (cf. o magnífico episódio “Missão de misericórdia”) na verdade ajuda a identificação com eles.




O cavanhaque de Spock para indicar que ele era maligno ficou tão marcado que uma banda de rock adotou esse nome (Spock’s Beard) e o artifício foi usado em todas as paródias possíveis. Só em Futurama apareceu duas vezes, quando os personagens caíam num universo alternativo e suas contrapartes chegavam à conclusão de que eles não eram malignos por não usarem cavanhaque, e quando Bender encontrava seu irmão gêmeo e ele usava um cavanhaque – embora neste caso, o gêmeo maligno fosse o próprio Bender.

abril 21, 2010

Jornada nas Estrelas - A Série Original



O Lamento de Adônis


“Eu nunca vi um deus antes”, diz em certa altura o sr. Chekov. É porque ele só entrou no elenco na segunda temporada, senão já estaria de saco cheio deles. Tanto que logo na segunda aparição dele no seriado já dá de cara com um.

Mais uma vez a nossa espaçonave favorita topa com um ente semidivino com um inaudito interesse na raça humana. A diferença é que dessa vez ele realmente se apresenta como um deus, e como um deus terráqueo: o bom e velho Apolo. E para provar como ele tem realmente conhecimento de mitologia, está usando um traje que talvez fosse barrado no Grande Gala Gay por ser muito gay (Apolo era chegado).



O episódio segue uma estrutura extremamente previsível: a nave encontra uma força desconhecida que a paralisa e aprisiona (uma mão gigante); o dono da mão se apresenta e requer a presença do alto comando da astronave em seu planeta. Kirk e seus comandados descem ao planeta, onde se recusam a ceder aos caprichos do autodeclarado deus; a mulher do grupo vai ver seu traje virar um vestido de noite extremamente revelador, ainda mais para os padrões da tevê americana de 1967; encheção de lingüiça durante uns vinte minutos; e o final. Pelo menos aqui, devido ao já citado memorando dizendo que todas as tramas deviam ser resolvidas pelos personagens principais, não aparece um deus ex machina (não resisti ao trocadilho) para solucionar tudo e devolver as coisas aos seus devidos lugares.



O resumo acima poderia muito bem ser o mesmo de “O Senhor de Gothos”, mas há pelo menos um detalhe que destaca a historinha da semana frente a seus pares: Kirk em certo momento deduz que o Apolo na verdade não é um deus, mas um alienígena poderosíssimo, capaz de manipular energia com um órgão no peito, pertencente a uma raça que pousou no Mediterrâneo quando os aqueus, jônios e dórios estavam começando a construir sua civilização. O primeiro pensamento do blogueiro foi o de que Kirk também tinha lido “Eram os Deuses Astronautas?” na infância, mas uma rápida consulta na Internet esclareceu: o livro do von Daniken é de 1968, enquanto este episódio é de 1967. Rapaz, foi Gene L. Coon que deflagrou aquela verdadeira febre dos anos 70????? Quem não estava lá não tem ideia da obsessão que essa hipótese virou, com livros e livros sobre o assunto, em breve misturando-se a discos-voadores, Atlântida, Triângulo das Bermudas e afins e criando o clima para as teorias da conspiração que povoam a Internet e fizeram a fama do arquivo x. Meus cumprimentos a Gene Coon por estar antenado com o momento, como já mostrara em “Missão de Misericórdia”, e prever a onda que se avizinhava na ficção científica.



As esquemáticas idas e vindas de Apolo, sem muito motivo além de comer a historiadora (parece que historiadora é a mulher mais fácil do futuro, como Khan diria), tentam preencher o tempo de uma trama que melhor caberia numa meia hora de “Além da Imaginação”. A súbita aparição de um interesse romântico para o sr. Scott, para prover um conflito no envolvimento da moça com o deus, soa forçada e ressalta uma mudança de sensibilidade de época, pois nos anos 60 ainda existia a cultura de noivas casando com homens bem mais velhos (curiosamente, o intérprete de Scott, James Doohan, já cinquentão, casou-se com uma adolescente que conheceu numa convenção de Star Trek, provavelmente deixando os nerds com sentimentos conflituosos, entre a admiração que sentiam pelo engenheiro de bordo da Enterprise e o ressentimento pelo ator ter pego provavelmente a única representante do sexo feminino a frequentar tais eventos).



Ao fim, quando mais uma vez Kirk convence uma historiadora a trair seu amante para salvar a Enterprise, o programa também mostra esse mesmo conflito de emoções. Depois de por várias vezes ressaltar que o tecnológico século XXIII não precisa de deuses e recusar seguidamente a proposta de Apolo para que o adorasse, nosso capitão estelar favorito consegue destruir a fonte de poder do olimpiano e assiste a uma emocionante despedida dele, juntando-se aos outros mitos gregos no ostracismo, o que o leva a confessar que talvez uma adoraçãozinha não fosse um preço tão grande para dar ao Universo um toque da poesia e do misticismo que Coon tanto prezava e achava que era, afinal, mais do que a tecnologia, o que nos fazia humanos e com vontade de sermos independentes de seres superiores.



Digno de nota:

- Apolo se gaba de ter conhecido mulheres antes (e só cita três em uma vida imortal, hmmmmm...): e ainda por cima arrola entre suas conquistas Dafne, que na verdade preferiu virar árvore a dar pro bofe. Vejam só, os deuses também contam vantagens sobre mulheres;

- A tenente gostosa é interpretada por Leslie Parrish, a filha do senador liberal que se casa com o assassino programado na obra-prima “Sob o Domínio do Mal” (o original, é claro). Ela continua tão bonita quanto no longa e, como lá, aparece mais nua do que a censura da época gostaria – tirando a blusa e ficando só de sutiã na presença de um rapaz que acabou de conhecer no cinema e com um vestido extremamente revelador na tevê. Aliás, coincidentemente, as duas personagens são atiradinhas e saem dando sem muitas delongas. Leslie Parrish foi durante muito tempo esposa de Richard “Fernão Capelo Gaivota” Bach.

- Hora de glória da Uhura: com Scott lá embaixo, é ela que tem que fazer o gatilho pra conseguir retomar a comunicação com o grupo no planeta lá embaixo, sob o olhar de Spock, que confessa não haver ninguém melhor do que ela para tal função.

- Contagem de corpos: um alienígena que foi tomado como deus pelos helênicos se suicida.

março 30, 2010

Um Balanço da Primeira Temporada de Star Trek - A Série Original



O blogueiro (e seus convidados) resenharam toda a primeira temporada (alguns episódios mais de uma vez) da série clássica de Jornada nas Estrelas. Abaixo, um balanço do ano inicial do seriado e, em abril, começam as críticas da segunda temporada.

Minha prima adolescente nerd está começando a gostar de ficção científica e adorou o novo longa de “Star trek”. Daí quis emprestados os discos da série original. Eu escolhi os que tinham os episódios que achei que ela fosse gostar mais e deixei-os na casa dela. Pouco depois, ela me ligou, “ei, você deixou aqui só os discos 3, 6 e 7. Como é que eu vou entender alguma coisa?”

Pois é, antigamente os seriados saíam do horário nobre e eram enlatados pra serem vendidos para redes pequenas, independentes ou estrangeiras e não podiam se dar ao luxo de serem planejados pensando que todas elas iriam respeitar a cronologia, passar sempre no mesmo horário e depois de exibida a temporada inteira, reprisá-la na ordem certa pra quem perdeu alguma coisa. Fora, é claro, que não havia Internet e box de DVDs pra quem pegasse a coisa pelo meio entender a história.



Por isso tudo é que só agora, apesar de ser fã de “Jornada nas estrelas” desde garotinho, o blogueiro teve a chance de ver a primeira temporada na ordem correta, sem a intromissão de episódios de outros anos (1). E, apesar do cuidado dos criadores em fazerem cada programa independente dos outros, pra facilitar sua venda e distribuição posteriores – e que, neste caso, seria a encarnação onde o seriado finalmente encontraria seu sucesso – enfim pode se avaliar a evolução dos personagens, do conceito, e até mesmo perceber uma possível causa do fracasso de Kirk e a Enterprise em sua primeira exibição.

Os primeiros episódios são perceptivelmente diferentes dos outros em tom e conceito. Roddenberry, definitivamente, não planejava que o público da Enterprise fosse a garotada, apesar de na época acreditar-se serem eles os únicos espectadores pra ficção científica. A preocupação com realismo é clara nas diversas cenas que mostram os oficiais comendo em cena, um velho recurso cênico pra dar verdade a personagens. Kirk e Spock eram os protagonistas, é claro, mas havia ênfase em outros tripulantes. Coisas como a ordenança conversando com Sulu (ainda de camisa azul) ou mesmo seguranças comentando a bunda de Janice. Sexo, aliás, era um assunto muuuuuuito mais presente. Veladamente, é claro, afinal estávamos na tevê dos anos 60, mas em primeiro plano. Uhura paquerava Spock e no episódio seguinte cantava uma música sobre como ele era gostosão. Rolava (confessadamente pelas duas partes) um clima entre o capitão e a ordenança Janice. Uhura (de novo) levava uma cantada de um mecânico – embora na verdade fosse um monstro comedor de sal. O monstro comedor de sal, aliás, podia assumir a aparência das fantasias – principalmente sexuais - das pessoas para se aproximar delas. Um tripulante vê nele a garota que conheceu num “planeta de prazer”.

Tudo isso – os relacionamentos entre os personagens, sexo, o comportamento mais adulto – iria desaparecer com o decorrer da série. A vida na Enterprise ficaria cada vez mais restrita a um ato de vaudeville entre o capitão fodão, o vulcano frio e o médico emotivo, comportando-se como garotos de 13 anos cuja vida social se resume a tirar um sarro com a cara dos amigos. Kirk, como o “chefe” mais maduro do bando, ganha o direito de “ficar” com umas alienígenas e afins em vários episódios – mas nada além de “ficadas”, pela já falada redução da idade emocional de nossos heróis ao começo da puberdade. E essas ficadas seriam praticamente a tudo que se resumiria sexo na série a partir do meio da temporada. Todo o elenco abaixo do posto de capitão comportar-se-ia como se ainda na época vitoriana, parecendo ignorar tal atividade, com memoráveis exceções: a perversa atração da historiadora de bordo por Khan (em certo momento é sugerido um boquete sadomasoquista entre os dois) e a tocante história de amor entre Joan Collins e William Shatner no por isto mesmo famosíssimo “A cidade na fronteira da eternidade”.

Roddenberry conseguiria manter o cerne de sua ideia com temas adultos e provocantes, pelo menos em relação ao que se fazia na tevê na época e no quarto de século seguinte, mas é claramente perceptível a mudança de abordagem durante a temporada. Não só o positivismo militarista de Roddenberry seria contrabalançado com a chegada do zenpacifista Gene L. Coon, como também a postura mais intelectualóide do primeiro teria que se curvar ao fã de velhos seriados cinematográficos da Republic que Coon era. Kirk se tornaria um herói mais jovial, físico e disposto a enfiar a mão na massa no decorrer da primeira temporada, muito mais um comandante pirata do que o sisudo oficial que descarta uma sugestão subalterna em “O ardil corbomite” afirmando que sua nave NÃO É uma democracia.

Diga-se de passagem que o blogueiro agradece a inserção desse clima de seriado em “Jornada nas estrelas” e acredita que certamente não ficaria fascinado desde os 9 anos pelo show se ele se resumisse a mostrar seus heróis passando por um monte de perrengues que se resolviam sozinhos ou com a intervenção de outras criaturas. Quando no final dos anos 80, início dos 90, “A nova geração” chegou aqui, inicialmente apenas em episódios isolados em VHS, o blogueiro e os amigos alugaram as fitas, se juntaram entusiasmados para ver e foram gradativamente ficando decepcionados, todos com uma única grande reclamação: “cadê a ação?”. E isso apesar do comentário de um velho amigo, ao ver o começo do piloto: “uau, um semideus onipotente ameaçando a Enterprise porque os humanos são violentos e querendo fazer um teste com eles? Maneiro, continua a mesma coisa, vai ser muito divertido!”

Em compensação, quase logo de cara “A nova geração” deixa claro que sabe que os tempos mudaram e em um de seus primeiros programas refilma “Tempo de nudez”, quando todo mundo fica bêbado por causa de um vírus, e mostra que a nave vira uma verdadeira suruba – ninguém é de ninguém e até o andróide se dá bem e come a loura gostosa. Quem come quem, por que esses sujeitos se alistaram para viajar pelo espaço, quem é filho de quem são pontos importantes da trama. O elenco básico se estende por bem mais do que os três principais e meia dúzia de coadjuvantes da série original. Na verdade, “A nova geração” provavelmente é muito mais parecido com o que Roddenberry planejava desde o início do que “Jornada nas estrelas”.

O problema é que quando “Star trek” começou a ficção científica ainda não tinha ganho a aura de respeitabilidade que “2001 – Uma odisséia no espaço”, “Planeta dos Macacos”, “O enigma de Andrômeda” e afins lhe emprestariam. Quem gostava de sci-fi era a garotada e ela queria ação e heróis de verdade, não um bando de paspalhos que serve de joguete para um adolescente telepata (”O estranho Charlie”), semideuses que perderam sua humanidade (”Onde homem nenhum jamais esteve”), o já falado vírus embriagante (”Tempo de nudez”) ou um alienígena pequeno carregando uma nave grande (”O ardil corbomite”). Dos episódios iniciais, o único em que os protagonistas têm um papel ativo na resolução da história é quando enfrentam o monstro sugador de sal (”O sal da terra”), não por acaso o episódio que a rede de tevê forçou a barra para ser o primeiro, contra o que Roddenberry queria.

Foi por causa disso que a série provavelmente não decolou nos índices de audiência. O crítico de cinema Glenn Erickson (www.dvdsavant.com), grande fã de ficção científica, como se pode depreender de uma rápida visita a seu saite, explica que viu os primeiros episódios na época, quando era adolescente, mas não se sentiu muito atraído pelo excesso de semideuses. Fazendo a crítica dos blu-rays da primeira temporada, arrependeu-se profundamente e deu nota máxima ao programa. Tanto foi chamativa a falta de atitude da galera da Enterprise nos primeiros programas que foi baixada uma norma de que a resolução dos conflitos deveria sempre decorrer de ações dos protagonistas. Embora fosse uma boa ideia para levantar os índices de audiência, foi também o que afundou o promissor episódio “Corte Marcial”, quando o advogado supostamente genial interpretado por Elisha Cook Jr. não faz absolutamente nada durante o julgamento, já que a salvação da lavoura, no roteiro original descoberta por ele, é feita por Spock.

Curiosamente, apesar da clara percepção de que a passividade do povo da Frota Estelar teria sido um dos motivos dos relativamente baixos índices de audiência, a segunda temporada começaria novamente com semideuses fazendo gato e sapato da Enterprise para só no fim Kirk & cia. conseguirem tomar alguma atitude. Novamente o ibope começou devagar e, para o terceiro ano, os produtores resolveram que deveria haver muito mais ação, ainda mais infantilização das histórias e cortariam os custos, criando os episódios mais esquecíveis e deploráveis e condenando de vez o seriado, sem saber que tinham nas mãos uma das franquias mais lucrativas a médio e longo prazo da história da tevê.



E agora, como lista é o que pessoal mais curte na Internet, a listinha dos melhores episódios da primeira temporada:

MISSÃO DE MISERICÓRDIA
Usando o velho clichê de combatentes da liberdade contra invasores muito superiores em número e armamento, Gene L. Coon subverte o formato, satirizando as fantasias conservadoras por trás da trama, e faz uma contundente crítica ao intervencionismo americano – em plena Guerra do Vietnã!! - equalizando ianques e comunas na memorável linha do comandante klingon, “nós somos bem parecidos, (tirando) pequenas diferenças ideológicas”. Como diriam os Simpsons, “havia monstros naquela nave – e o pior é que éramos nós mesmos!”

A CIDADE NA FRONTEIRA DA ETERNIDADE
O maior galinha do espaço – capitão Kirk - encontra a maior galinha das novelas americanas – Joan Collins – e os dois vivem uma simpaticíssima história de amor, numa trama sobre escolhas morais e idealismo com um final inesperado que deve ter deixado em estado de choque os telespectadores dos anos 60 e 70.

EQUILÍBRIO DO TERROR
Dois honrados capitães estelares em lados opostos usam toda a sua astúcia para sobreviverem a um confronto refletindo suas ideologias.

A CONSCIÊNCIA DO REI
Sim, é verdade, algumas parte são um tanto desengonçadas, mas ainda assim a mistura de Shakespeare, nazismo e ficção científica funciona bem questionando as consequências e limitações do livre-arbítrio cristão: se tudo tivesse se desenrolado como parecia que iria, o desprezível Kodos, o Executor, poderia ter sido um herói.

UM GOSTO DE ARMAGGEDON
O que aconteceria no futuro se uma sociedade como a nossa levasse até o fim a preguiçosa tendência atual de buscar soluções de compromisso e não querer assumir as consequências de suas ações? Ora, algo bem parecido com a Guerra do Vietnã, como Coppola também mostraria em mais de três horas em “Apocalypse now”.

INIMIGO INTERIOR
Se o bem e o mal existem, você não pode escolher – você tem que integrá-los. Richard Matheson aproveita um defeito do teleporte e embute num thrillerzinho maneiro aquela ideia – novidade pra época – de yin/yang, opostos que se complementam, e acabam sobrando farpas tanto para a religião quanto para o racionalismo.

SEMENTE DO ESPAÇO
KHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNN!!!!!!!
Um deposto déspota iluminado geneticamente aprimorado contra o povo da democracia multirracial da Enterprise – que até compreende a ideologia do sujeito, embora não a aprove. No entanto, o ex-ditador tem os ingredientes certos – autoritarismo, resiliência, disciplina, dedicação, um pouco de psicopatia à Ethan Edwards – para se tornar um desbravador de fronteiras hostis. Não perca a pervertida cena em que Khan faz a historiadora do futuro ajoelhar e implorar pelo prazer da companhia dele.

(1)Ver a série em DVDs remasterizados também tira boa parte de seu ar “pobre” ao mostrar cores muito mais vibrantes e saturadas do que qualquer transmissão de tevê. Marissa, mesmo sem ser fã da série, ao ver um episódio, levou um susto: “ei, não tinha essa cor na tevê!”. Pela primeira vez ficou visível para o blogueiro a suave matiz esverdeada no rosto de Spock, supostamente devida ao seu sangue verde, por rico em cobre e não ferro, como o humano.

No entanto, a imagem realçada também deixa claro defeitos que as limitações das televisões da época disfarçavam: entre outras coisas, há várias tomadas fora de foco e é perceptível em várias cenas o encaixe entre as orelhas de Leonard Nimoy e a prótese vulcana.

março 24, 2010

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de Star Trek a Série Clássica



Missão de Misericórdia

Anteriormente: Operação Aniquilar


O que é exatemente ser “subversivo”? Na época da Guerra Fria, dos anos 50 ao anos 80 eram os que queriam subverter a ordem. Não interessava que a “ordem” na verdade fosse uma ditadura militar, subversivos eram os comunas sujos inimigos da liberdade. O que incluía, além dos ativistas e terroristas, também artistas e intelectuais de esquerda.

Mas o que realmente há de subversivo em, digamos, um musical de Chico Buarque chamado “O elogio da traição”? Será que algum integrante da TFP assistiria a essa peça e teria uma epifania, mudando suas opiniões? E um filme de Michael Moore? Qual o fã de Bush que assistiu “Fahrenheit 11 de setembro” e saiu de lá disposto a votar em John Kerry?

É por isso que assistir a um seriado de tevê americano dos anos 60 - quando, para manter o equilíbrio de poder com a União Soviética, os Estados Unidos financiavam prazeirosamente ditaduras militares em toda a América Latina - apresentar um episódio como “Missão de Misericórdia” pode, isto sim, ser considerado verdadeiramente subversivo. O programa subverte seu aparente formato de fantasia de guerra fria, típico da época, para voltá-lo contra si mesmo e questionar os valores por trás das tramas clichês de “comandos” combatentes da liberdade contra malvados invasores alienígenas. E ainda com claríssimas alusões à Guerra do Vietnã, a todo o vapor na época, assunto evitado por tudo que era show de tevê.



Os klingons, que aparecem pela primeira vez, dão à Frota Estelar uma guerra que ela não queria, embora, como comente Spock, os humanos parecem sempre estar arrumando conflitos que não queriam. Precisando de um posto avançado num quadrante estratégico, Kirk e o vulcano descem a um planeta cheio de humanóides num estágio tecnológico similar ao da Idade Média e, em troca de uma base, oferecem a seus governantes – aliás, governantes não, eles dizem ter apenas “conselheiros” - dinheiro, provisões, tecnologia, o que eles quiserem (na época ainda não havia sido criada pelos roteiristas a Diretriz Primária, que impedia a interferência nas culturas de planetas não federados). Para surpresa do capitão da Enterprise, os organianos não manifestam o menor interesse na proposta.

O que é tomado como um insulto pelo maniqueísta Kirk. Quem não está com ele, está contra ele. O militar tenta amedrontá-los dizendo que a única alternativa à sua proposição é uma invasão klingon, uma ditadura militar e opressora, mas isso não muda a opinião dos nativos. E eis que os klingons realmente chegam e ocupam o planeta, liderados pelo Comandante Kor.



Kor é um tremendo inimigo. Neste episódio os klingons, apesar de substitutos para os russos, não são traíras desprezíveis e pusilânimes, mas soldados com forte cultura guerreira (como seriam novamente retratados a partir de Nova Geração). A ótima atuação do comandante alienígena, visivelmente divertindo-se com o papel, fez o blogueiro reconhecer o rosto maquiado como um vilão já visto antes em outra ficção científica e uma rápida consulta aos créditos confirmou a sensação. Kor é interpretado por John Colicos, o Baltar da primeira “Battlestar Galactica”, onde ele tanto abusou de quebras de linhas e expressões faciais que quase conseguiu dar tridimensionalidade a um sujeito escrito apenas para ser mau.

Mas não é o caso de Kor, cuja visão de mundo vem de uma cultura guerreira, o que o faz antipatizar de pronto com os organianos, sempre sorridentes e condescendentes, aceitando passivamente as ordens dos klingons. Sua única simpatia vai para “Baromer”, o único que parece demonstrar ódio contra os invasores, que é justamente nosso capitão Kirk de roupinha medieval. Isolado da Enterprise, que teve que se mandar pra buscar reforço quando a frota inimiga apareceu, ele e Spock, disfarçado de mercador vulcano, resolvem iniciar ações de guerrilhas contra os invasores e começam por destruir um depósito de munições. O que só leva os conselheiros nativos a entregarem-nos, já que as represálias incluiriam sem dúvida ações de violência.

Numa versão tradicional dessa história, o conselho se dividiria, com algum representante mais jovem se desiludindo com os klingons e assumindo o “nosso” lado, mas nada disso acontece. Kirk é interrogado por Kor, que diz que os dois são no fundo bem parecidos. O capitão da Frota Estelar afirma que não, eles não têm nada a ver, ele vem de uma democracia e os klingons são uma ditadura militar. Kor retruca com um sorriso, dizendo que são apenas pequenas diferenças ideológicas, mas que no fundo os dois lados amam o combate. Mas quando tudo parece perdido, os próprios organianos parecem surgir do nada para resgatar Kirk e Spock, “porque seus captores planejavam atos de violência contra vocês”.

Só que a fuga de Kirk e Spock leva os klingons a matarem 200 organianos. O enfurecido capitão estelar cobra providências do conselho, que permanece passivo, o que leva nosso herói a um discurso que é uma completa subversão dos valores vendidos nesse tipo de show: “eu não gosto de você, do seu planeta e nem da sua cultura, mas vou lutar por vocês, mesmo que vocês não queiram”.

Mas se você pensa que este é o ponto alto do programa, ainda tem a hora em que Kirk e Spock conseguem improvavelmente encurralar Kor em sua sala, parecendo ter resolvido a questão, para mais uma vitória do nosso lado e o apoio incondicional dos organianos libertados da opressão. Mas não, Kor explica que o sucesso militar dos klingons é a vigilância. Até mesmo ele é vigiado. E nossos heróis veem que o escritório está grampeado e soldados estão vindo para resgatar seu chefe. A situação mostra a completa falta de coerência interna de uma frase do então recém assassinado Kennedy, um bordão em plena voga na época e pelos próximos 20 anos, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Liberdade e vigilância são termos contraditórios entre si, no entanto este lema foi envergado pelo intervencionismo americano e seus simpatizantes por décadas a fio.



Uma das coisas que mais irritava os Cheneys da época da Guerra do Vietnã era a passividade dos vietnamitas quanto ao conflito. Exatamente como para os organianos, as lutas entre os americanos e os comunistas pouco lhes diziam. Tudo que eles sabiam é que seus “salvadores” os tiravam de suas terras e os levavam para campos “seguros” longe de suas aldeias e suas famílias. Camponeses analfabetos, paupérrimos e budistas, eram completamente incompreendidos pelos ianques, que jamais conseguiram conquistar seus “corações e mentes”. E frente aos ocidentais materialistas, seu desapego pela vida parecia quase uma provocação.

Parte desse comportamento podia ser explicado pela pobreza – ele não tinha tanto pelo que viver -, parte pela sua religiosidade, provavelmente análoga à do camponês europeu medieval, antes da secularização do Ocidente. Gene L. Coon, autor deste episódio, depois de quatro anos lutando na Segunda Guerra como fuzileiro naval, passou mais de quatro anos nas tropas de ocupação da China e do Japão e certamente teve bastante contato com as filosofias orientais, que parecem ter tido o mesmo efeito sobre ele que tiveram sobre Thoureau. Pelo menos o pacifismo e o radicalismo de não violência aqui retratados lembram muito a filosofia de resistência passiva do famoso pensador.

Mas os organianos já atingiram mesmo o Nirvana há muito tempo. E literalmente. Tendo se tornado seres de pura energia, explicam que tudo que os beligerantes viram eram construtos para interação dos nativos com essa gentalha que ainda usa corpos. Ninguém morreu executado pelos klingons porque ninguém morre há milhões de anos. Um dos conselheiros explica que está ao mesmo tempo falando com Kirk e Kor, vigiando as naves em órbita e em cada planeta dos guerreantes. Ele é o alfa e o ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o último. E declara que hoje ninguém morre, impedindo o conflito que abriria a guerra entre a Enterprise e seus reforços e a frota klingon. E Gene L. Coon arremata sua obra brilhantemente subversiva, não só ironizando a frustração de quem esperava uma historinha tradicional com uma grande e decisiva porradaria no final, como também a filosofia agressiva por trás de todas aquelas iniciativas “Aliança para o Progresso” da época. E tudo isso através de um curto comentário de Kor, deliciosamente declamado por John Colicos:

“Ah, teria sido glorioso”.

E este episódio foi.

Digno de nota:

Contagem de corpos: Hoje ninguém morre, graças aos organianos.
Avistamentos de Tenente Leslie (Eddie Paskey): um, muito rápido, virando o rosto na ponte.

março 01, 2010

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de Star Trek - A Série Original



Operação Aniquilar

anteriormente: A Coleção

Depois de abrir a temporada com um bom e velho monstro transmorfo e telepata em “O Sal da Terra”, pra em seguida botar em discussão coisas como mediocridade, política, alteridade, responsabilidade pessoal, arte, identidade, o que é ser humano, destino e existencialismo, Jornada nas Estrelas dá a volta completa e fecha seu primeiro ano com outra historinha de alienígena malvado e assasino, tão anos 50 que é basicamente uma recauchutagem de “Fiend Without a Face”, um Bzão daquela década na fronteira do trash. O que não é problema nenhum, já que variedade é o tempero da vida e entre tanto caviar e biscoito fino para as massas, um Big Mac só vai adicionar sabor. E é sempre bom ver nossos heróis – e figuras de identificação – salvando a galáxia e lembrando ao universo que porra, caralho, vá lamber sabão, quem manda nessa porra são as naves da Federação.

William Shatner de bigode - o infame irmão de James Kirk, Samuel.

O roteiro traz de volta até o extraterrestre indestrutível, capaz de aguentar longas rajadas de phasers 2, mas vulnerável a uma coisa tão simples que ninguém havia pensado – digamos que devemos agradecer por esses bichos não pegarem muita praia e por isso nunca precisaram de Sundown. A explicação é que cada um deles na verdade é um enorme neurônio que extrai sua força da coletividade e fundindo-se ao sistema nervoso de um hospedeiro é capaz de controlá-lo ativando seus centros de dor. Como metáfora para totalitarismo – e condizente com o ar de ficção científica anos 50, uma metáfora paranóica e xenófoba – funciona bem, mas não faz nenhum sentido, tanto que o sr. Spock teoriza que eles vieram de outra galáxia onde nossas leis físicas não se aplicam. Mas não interessa que eles tenham vindo de uma inexistente Galáxia Doidona, ao lado da Galáxia Maluca e pertinho da Galáxia Comportadinha, agora eles estão na Via Láctea e têm que responder por seus atos às nossas leis físicas, ora!

Ainda seguindo o raciocínio metáfora anticomunista, tá bom, vou contar o fim, é a luz brilhante que no final irá destruir os alienígenas maus. Numa subtrama extremamente dispensável, Spock parece ter ficado desnecessariamente cego, melodrama demais prum episódio que começa com a morte do irmão e da cunhada de nosso capitão favorito da Frota Estelar.



Depois de tanta coisa boa – este é o episódio que se seguiu a “A Cidade na Fronteira da Eternidade”, de Harlan Ellison, que muita gente considera o melhor que Star Trek já produziu em qualquer de suas encarnações - “Operação: Aniquilar” parece retroceder a série, mas não deixa de ter suas qualidades: é uma aventurazinha legal, tem um instigante começo, com um sujeito atirando sua nave contra o Sol em gritos de felicidade e um grupo de colonos agressivos tentando porrar o povo da Enterprise enquanto grita “vão embora! Não queremos machucar vocês!” e uma primeira vez em que o grupo de desembarque desce numa cidade de verdade e não num óbvio estúdio com telão pintado. Como a história se passa numa colônia extremamente distante, provavelmente os produtores acharam que uns quarteirões futuristas de Los Angeles quebrariam o galho, já que não seriam mostradas megalópoles ou aparelhos de última geração. Nossos heróis caminhando em ruas DE VERDADE vazias e abandonadas funciona perfeitamente e adiciona uma dimensão até então desconhecida em suas peripécias. Coerentemente, os interiores das casas são austeros, já que este é um posto avançado e todo o planeta tem apenas 1 milhão de habitantes. Um dos melhores usos de cenário de toda a série, numa época em que orçamentos como os de “Os Simpsons” ou “Roma” só estavam disponíveis para os grandes do cinema.



Com excesso de melodrama, McCoy demonstrando um desconhecimento de fisiologia vulcana inexplicável para um médico da Federação, efeitos especiais catastróficos durante o ataque dos neurônios ao grupo de desembarque e conceitos científicos jogados pra escanteio, “Operação: Aniquilar” é, ao contrário do escopo do programa, uma velha aventura espacial paranóica típica dos anos 50 e das outras produções de tevê da época. Embora não feche a primeira temporada com chave de ouro, aumenta a variedade das situações enfrentadas pela galera da Enterprise, numa tentativa de atrair um público mais acostumado com esse tipo de coisa. E eles iam precisar, já que entravam de férias com este episódio e só iriam mostrar coisa nova dali a cinco meses. E, por pelo menos durante mais um ano, iam continuar forçando os limites do formato de ficção científica de tevê.

Prédios futuristas usados como cenário para o planeta: enfim Jornada nas Estrelas sai do estúdio e dá uma arejada na série

Digno de nota:

Contagem de corpos: A cunhada e o irmão de Kirk e um número indeterminado de colonos e tripulantes de uma espaçonave suicida.
Inesperado: um grupo de desembarque cheio de gente de camisa vermelha que nunca apareceu antes desce a um planeta repleto de alienígenas mortais e todos voltam sãos e salvos – com exceção do sr. Spock.
Pela primeira vez oficiais da ponte usam o macacão de serviço: McCoy e Spock.