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janeiro 14, 2013

Toy Story


Aqui a refilmagem quadro a quadro do longa da Disney/Pixar - feito com brinquedos de verdade. Uma versão mais ou menos "live action" da animação computadorizada. Falta do que fazer.

novembro 03, 2012

Marion Davies e Louise Brooks


Marion Davies foi uma atriz da era do cinema mudo. Sua celebridade se deve a ter sido amante de William Randolph Hearst e, portanto, segundo a lenda, o modelo para a patética cantora de ópera de Cidadão Kane, Susan Alexander. Welles, entretanto, sempre frisou que esta parte de sua "biografia" de Hearst era pura ficção, pois a verdadeira Davies, mesmo que não a mais talentosa em seu ramo, era uma mulher de personalidade, inteligente e interessante.




Tendo participado da Ziegfeld Follies, há vários retratos dela nua. Afinal, as garotas ganhavam uma boa grana posando pra Alfred Chenney Johnston, que as fotografava escassamente vestidas (ou completemante desvestidas mesmo), criando uma inestimável coleção de moças nuas da era do jazz. Abaixo, por exemplo, outra que começou sua carreira sob Ziegfeld: Louise Brooks.










outubro 08, 2012

O Melhor Filme Brasileiro de Todos os Tempos



Nenhuma descrição poderia dar ideia da grandiosidade desta obra-prima. Assista à cena dos maridos até o fim. Simplesmente espetacular. Abaixo o final do filme:



Assista completo no Vocetubo. Veja a primeira parte abaixo e depois vá só seguindo ao lado:




outubro 07, 2012

Festival do Rio 2012


Em dez minutos de filme, o policial arquetípico dos anos 70 (bebe
muito, fuma muito, vale-se de seu distintivo muito) já matou sem
nenhuma provocação três pessoas que não fizeram nada. Mas o que deu a
“Os maus não merecem a paz” (1) a fama de “Tropa de elite” espanhol é
que não é ele um dos malvados a que o título se refere. O adjetivo é
mais aplicável a todos os colombianos, árabes e outros não europeus
que povoam a fita. Tudo um bando de filhos da puta e só um tira que
usa bigode, barba por fazer, jeans e armas grandes como a do Dirty
Harry pra botar ordem nessa porra.





Depois de assassinar três sul-americanos num puteiro (daqueles que se
chamam “leidy’s club” quando querem dizer “ladies”) de um colombiano,
o policial Santos Trinidad começa a investigar a identidade deles pra
tentar pegar uma testemunha que escapou, o rapaz que tomava conta das
câmeras de segurança. Como uma bolinha do pinball que Santos abre o
filme jogando, ele é atirado de um lado para o outro e acaba
descobrindo uma conspiração envolvendo tráfico de drogas e terrorismo.
Tudo isso em plenos preparativos para um encontro do G-20, outro
símbolo da globalização (repare na hora em que aparece a imagem do
Berluscomi na tevê).


No habra paz para los malvados (Trailer) - Enrique Urbizu from aproductions on Vimeo.

Santos é o último macho da Espanha. Ao mesmo tempo que ele, uma juíza
investiga o assassinato triplo e tem que enfrentar a burocracia, os
erros do judiciário (uma grande investigação é jogada fora porque se
perde um prazo), a falta de comunicação entre os departamentos, e, por
que não dizer, a efeminação da força policial. Um comissário, por
exemplo, parece muito mais preocupado com o seu viril informante do
que com o fracasso de sua diligência antiterrorista. A juíza mesmo tem
que interromper os afazeres pra ser fofinha ao telefone com o filho e
o marido (é ele quem fica em casa cuidando das crianças!).



E, obviamente, sob uma ótica tão polêmica quanto a do primeiro “Tropa
de elite”, quem não é espanhol é traficante de drogas, terrorista,
quando não ambos. Chega a ser curioso que os espanhóis, que nos
Estados Unidos dão nome a uma das “raças” em que eles subdividem
pessoas (os hispânicos), sejam tão branquinhos nesta fita. Seria
difícil de imaginar que Hollywood escalasse atores tão caucasianos pra
representar ibéricos. Mais provavelmente poriam a turma que faz os
árabes e os colombianos. Um dos estrangeiros da história chega a casar
com uma autêntica europeia. O pai reclama que ele a ensinou tanto a
ser livre pra ela acabar se cobrindo toda e dizendo “me entrego a este
homem livremente”. A cena traz à memória o slogan racista de “Paixões
que alucinam”: “Peguem aquele negro antes que ele se case com a minha
filha!”


José Coronado recebeu o Goya (o César espanhol) por sua ótima atuação como um tira escroto


A fama de “Tropa de elite” espanhol não é aplicável só ao conteúdo
polêmico. Estilisticamente, fica provado que dominar a linguagem de
filmes policiais não é mais privilégio americano (ou francês). Embora
sem tanta personalidade, a investigação lembra “Operação França”, não
dando nenhuma colher de chá para o espectador: quem se distrair vai
perder o fio da meada. O que não acontece com Santos Trinidad. Como o
tira corrupto de “A marca da maldade”, ele é infalível: o que pode
parecer pura arbitrariedade são só os seus instintos quase
sobrenaturais, E, também, quem é que vai encarar se ele estiver
errado? Ele bebe, ele fuma (em lugares públicos fechados!!!), ele
gosta de café com anis que ninguém mais tem, ele mija na rua, ele
atira bem, veste jeans e camisa de macho enquanto os outros policiais
usam ternos bem cortados, penteados bem cuidados e ficam enchendo o
saco dele com esses terroristas à solta por aí.

O filme passa na terça, às 15:50h, no Estação Sesc Botafogo 1, e na
quinta, às 16:15h e 23:30h, Estação Sesc Rio 1.

(1) O tradutor não sacou que o título original é uma citação bíblica,
como segue em português: “mas os ímpios não têm paz” (Isaías 48, 22).

setembro 27, 2012

Dica para o Festival do Rio

Há uns três anos, a fita que mais encheu no Festival do Rio foi o longa mais recente do Woody Allen. Preconceitos do blogueiro sobre o pedófilo pretensioso à parte, a coisa toda era muito idiota porque o lançamento estava programado pra dali a dez dias. Mas sabe como é, ser “cinéfilo” envolve ser o primeiro a ver aquele filme que todo mundo quer ver, pra poder repetir sobre ele as opiniões que leu em cadernos de cultura.



Mas se você faz parte daqueles cinéfilos ecléticos despreocupados em ver apenas o novo, uma boa pedida nessa sexta é “Eles Vivem”, no CCBB, pelo Festival John Carpenter. Nunca lançado no Brasil em DVD e com uma passagem meteórica pelas telas cariocas em 1988, a fita é, ao lado de Robocop, a mais abertamente politizada (e antineoliberal – céus, quantos prefixos!) ficção científica dos anos 80. Basta ver a premissa: um operário desempregado que não entende o que houve com os “bons tempos” ganha acidentalmente uns óculos que lhe permitem ver que a maior parte do povo endinheirado é na verdade alienígena e que todos os anúncios e produtos culturais (revistas, filmes em VHS – anos 80! -, livros de banca) são na verdade ordens subliminares (“durma”, “compre”, “obedeça”, e por aí vai).



John Carpenter é um raro cineasta considerado (ao menos por um povo) um autor, mas que confessa que gostaria de ter trabalhado na era do sistema de estúdio. Aqui com atores desconhecidos, orçamento econômico (eufemisticamente falando) e uma boa ideia, ele mostra que a câmera na mão ainda faz misérias com metáforas visuais simplíssimas: a realidade é em preto e branco, os portais para os alienígenas (e colaboradores terráqueos) são ativados pelos relógios de pulso (de griffe), um pastor cego é o líder da rebelião e outros operários rejeitam o herói e se recusam de todas as maneiras a experimentar os óculos – quando bastaria uma única olhada para perceber que ele está certo.

Carpenter em “Eles Vivem” não apela para as emoções do espectador – e não é porque ele não saiba, basta ver o suspense que cria em “O enigma de outro mundo” e “Halloween” - mas sim para deixar a esplêndida ideia central em primeiro plano. Aproveitando a estética de filme B dos anos 50 (com efeitos e direção de arte propositadamente dignos da época), ele no entanto estica ou acelera cenas quase como num improviso de jazz. Confira, por exemplo, a cena de luta do herói com o amigo, que acaba virando uma imitação de luta livre, o telecatch americano (outra excelente metáfora visual). Fiel à década da Guerra Fria, o clímax envolve a tentativa de destruição de um artefato de roteiro que exporia os alienígenas. Uma cena de ação que Carpenter dirige o mais friamente possível.



Quase como num paralelo do filme, o público se recusou a ir ver a fita, um dos primeiros fracassos de público de Carpenter. O blogueiro teve que assisti-la no finado Cine Hora, uma saleta no Edifício Central com uma tela pouco maior do que a tevê de plasma que ele tem na sala – esse foi o tipo de circuito exibidor designado para a produção. Mas o tempo foi gracioso com o longa. Tanto ele quanto “Robocop” foram feitos na mesma época – este em 1987, “Eles Vivem” em 1988, o final da presidência Reagan, quando os efeitos da terceirização de mão de obra e exportação de postos de serviço começava a aumentar e concentrar a riqueza nos EUA. A cada ano que passa, mais o mundo fictício e futurista das duas obras se torna mais parecido com o nosso. O que faz o blogueiro perguntar, “ei, José Padilha, pra que que vocês estão refilmando Robocop, afinal?”

julho 15, 2012

O Espetacular Homem-Aranha

Alan Moore escreveu nos anos 80 duas histórias em quadrinhos seminais para o gênero dos super-heróis, “Watchmen” e “The Killing Joke” (mal traduzida para “A Piada Mortal”). A simples menção destes títulos para nerds leva-os a se prostrarem, jogarem cinzas sobre suas cabeças e berrarem que não são dignos. O Moore, entretanto, não é tão entusiasmado quanto a essas obras e já deixou claro várias vezes em entrevistas que se arrepende de tê-las escrito, chegando até a pedir desculpas por autorá-las.

As duas histórias são violentas e sombrias e, junto com a magnífica “O Cavaleiro das Trevas” (e ainda “Batman Ano Um” e “A Queda de Murdock”), foram o marco zero dos quadrinhos de super-heróis perturbados, problemáticos e beirando o sadismo que dominariam os anos 90. A década da new wave valorizava o art decó e os anos 40 e, subsequentemente, o filme noir, tão idolatrado naquela era que acabou infiltrando-se em tudo que era produto cultural de massa. Além disso, os nerds que cresceram lendo Stan Lee e só conheciam as HQs pós-revolução Marvel se tornaram profissionais do ramo e estavam doidos para seguir os passos de seu mestre e fazer de seus heróis personagens cada vez mais falíveis e cheios de defeitos, num afã de torná-los mais “humanos”.

Foi uma era difícil. Numa historinha extremamente pretensiosa e narcisista, Grant Morrison (isso mesmo, o roteirista se encaixou na trama) explica ao Homem-Animal que os escritores haviam tornado o universo dos super-heróis mais violentos no afã de que ele parecesse mais realista. “Que Deus nos perdoe”, completava ao final o egomaníaco escriba, com completa razão. Os anos 90 foram a era de ouro de “heróis” que matavam, mutilavam, assediavam sexualmente e se drogavam, tudo em nome do “realismo”. Lendo hoje em dia coisas como “A Queda de Murdock”, um enredo hiperdurão, um arremedo de noir, escrito por um nerdão como Frank Miller, é incrível como alguém possa ter levado aquilo a sério. A coisa é quase tão exagerada e over como o pastiche (intencional) que é “Sin City”.

Mas não foi por causa disso que Alan Moore pediu desculpas pelas suas histórias. Bem, em parte foi, mas a verdade é que toda essa trilha era bastante previsível a partir do momento em que ele abriu a porteira. É que Moore, anos depois, chegou a uma conclusão que era óbvia para todos os nerds da era pré-internet, quando os universos fictícios tinham começo, meio e fim e não almejavam se tornar um mundo alternativo do qual ninguém mais saia: aqueles personagens encapuzados e de colante não foram feitos para terem profundidade psicológica (conclusão a que ele também poderia ter chegado bem antes se não estivesse tão preocupado em parecer inteligente).

Então eles foram criados para serem o quê? Bem, há alguns anos passou na tevê a cabo o estapafúrdio reality show “Quem quer ser um super-herói?”. Com baixo orçamento e apresentado por Stan the Man em pessoa, um bando de nerds e aspirantes a celebridade criavam um uniforme e um personagem e cumpriam tarefas a fim de que, no final, só sobrasse um, que protagonizaria um gibi escrito por Stan Lee.

Nunca vi nenhum desses prometidos gibis, mas o vencedor daquela temporada foi um nerdão americano. E, apesar da precariedade do programa, a premiação foi emocionante, quando o nerdão começou a contar como perdera o pai cedo e, portanto, Stan Lee foi tinha sido a grande figura paterna para ele, ensinando-lhe valores, moral e como se relacionar com as pessoas, através de seus personagens e suas histórias (aliás, um famoso jornalista cultural também idolatra esses produtos culturais nerds justamente porque foram eles que salvaram sua infância).

Pois era exatamente para isso que serviam os quadrinhos de super-heróis. Aqueles sujeitos encapuzados não eram homens, não eram personagens de Shakespeare ou Cervantes, mas sim mitos. Suas aventuras eram as odisseias mitológicas de nosso tempo. Álvaro Moya, numa feliz alusão, chamou Stan Lee de “o Homero dos quadrinhos”. Embora talvez ele estivesse mais para Ésquilo, já que adicionou aos mitos primários da Era de Prata (1) mais tragédia e complexidade, inclusive introduzindo a hubrys como parte da trama.

Foi com essa abordagem e uma câmera na mão que Sam Raimi levou às telas no começo desse milênio uma das melhores películas de super-herói já feitas (sendo que sua sequência é uma das poucas fitas que a superam). Para tanto ele abusou de interpretações exageradas, enquadramentos baseados na arte sequencial da Marvel, cores primárias em abundância e edição remetendo a filmes B, desenhos animados, histórias em quadrinhos P & B e velhos seriados cinematográficos, referências culturais em si já quase arquetípicas de tão usadas (e apreciadas). Não há como se contar de forma “realista” as aventuras de um sujeito vestido de aranha, que gruda nas paredes sabe lá Deus como contra outro caboclo que voa no que parece ser um skate e joga bombas desintegradoras. É preciso apresentá-las como elas são, um mito.

Mas Sam Raimi era caro, Tobey Maguire era caro, Kirsten Dunst era cara e Raimi torrava grana pra conseguir seu visual mitológico. O extraordinário sucesso da Marvel Studios, com filmes de orçamento bom, mas não gigantesco, astros não exatamente de primeira linha e historinhas menos ambiciosas despertou a cobiça da Sony Pictures, que detém os direitos sobre o Aracnídeo. E assim chegamos ao novo filme sobre Peter Parker, o maior super-herói de todos os tempos (super quem?).

A diferença entre a fita atualmente em cartaz e os filmes de Sam Raimi é a mesma entre alguém chegar e contar uma história engraçada e um vivente reunir várias pessoas e começar um relato de horas com palavras como “aproximem-se todos, pois vou descrever agora a vida e as aventuras de Peter Parker, herói cujo maior poder era sua integridade e sua humanidade bla bla bla...”. Esta última é um mito. Esta última é maior do que a vida, é um amplificado conto moral. O que não é “O Espetacular Homem-Aranha”.

O filme não é ruim. Pra começar, as cenas de ação são bem coreografas e filmadas com preferência para o plano aberto, sem uma edição cheiradaça. O que leva a plateia a realmente ENTENDER o que está acontecendo e por que os personagens estão vencendo (ou perdendo) a luta. Num dos poucos pontos em que a fita atual supera a original é que os criadores das porradarias preferiram enfatizar a agilidade do Aranha. Mais surpreendente ainda é que o diretor Marc Webb não tem passado no cinema de ação e, portanto, as chances de que o estúdio (ou ele mesmo) pusesse a responsabilidade pela pancadaria nas mãos de um coordenador de animação gráfica doido pra imitar Paul Greengrass ou Michael Bay eram enormes.

É bem verdade que a coreografia pode ser melhor porque se passaram mais de dez anos de avanços na computação gráfica do Raimi até o Webb. Mas quando até mesmo o grande Spielberg se rende à animação digital nas confusas cenas de ação de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” e “Tintim”, é alentador ver que ainda existe vida cerebral nas porradarias no cinema, em vez de pontos de vista se deslocando como um mestre-sala bêbado só porque o diretor agora PODE.

A abordagem da fita atual, descontando as cenas de ação, é imitar um filme da Marvel que tivesse um adolescente como protagonista. Imagine um "Smallville" (um pouco) menos infantilizado. Peter Parker é um adolescente em crise e pra ninguém ficar em dúvida, repare que ele sempre entra na casa de Gwen Stacy pela janela, como fazia o Dawson da (chatíssima) “Dawson's Creek”. Só que sendo o Aranha quem é, Gwen mora na ponta de um arranha-céu.

Os atores estão bem, os personagens nem tanto. A tia May, que está para Parker como Stan Lee para o nerdão que ganhou a primeira temporada de “Quem quer ser um super-herói?”, parece uma debiloide. O capitão Stacy é interpretado por Dennis Leary, comediante apresentador da MTV nos anos 80 e protagonista de “The Job” e “Rescue Me”. Transmite integridade, é verdade, mas dá umas escorregadelas caindo numa irreverência inconsistente com o seu papel. Andrew Garfield trai a idade nos closes. Flash Thompson abre a película com atitudes completamente incoerentes com seu duplo nos quadrinhos – ele sempre foi um valentão, mas um valentão ético. Se assediava moralmente o pobre Peter Parker, fazia-o involuntariamente, sem partir pra porrada (covarde) ou oprimir fisicamente os outros. Tais atos tornariam impossível a conversão que ele sofreria no decorrer da HQ (e que se reflete em parte na fita).

Num filme de super-heróis em que se desvaloriza o componente mitológico, era de se esperar que as cenas de diálogo e drama fossem menos bem-sucedidas, o que arrasta o filme até Parker ganhar seus poderes e deixa à mostra um monte de buracos de roteiro. Mas, a partir da picada da aranha, a trama desliza suavemente e dá até uns motivos pra Parker se regozijar antes do clímax.

Se você gosta de super-heróis e filmes de ação, pode pegar uma sessão que não irá se arrepender. Para o resto do público, talvez a película não soe tão atraente. As obras de Raimi eram originais tanto na forma quanto no conteúdo e até a mãe do blogueiro, que odeia fitas que tenham coisas fantásticas e que não existem, se amarrou nelas. Já em “Espetacular Homem-Aranha”, os jovens nerds sentados na fila de trás saíram do cinema dizendo que acharam a produção melhor do que as anteriores. O que talvez prove que a ideia dos executivos da Sony, de que adolescentes precisavam se identificar mais com o Peter Parker. Para isso, nada melhor do que fazê-lo uma cópia dos personagens dos seriados da Sony. Isso, aqueles a que a galera teen assiste obsessivamente. Assim, vendo seu herói igual aos estereótipos que povoam aqueles programas, eles podem se relacionar com ele. Porque só se for assim, já que adolescência pouco tem a ver com aquela estranha turma que habita esses seriados.

(1) Era de Prata é o apelido que ganharam os comics dos anos 50 e 60, dominados por revistas em quadrinhos. Esse tipo de produto, mal pago e direcionado exclusivamente para crianças, gerou na média obras de menor qualidade que as das décadas anteriores, mais baseadas em tiras de  jornal, e que ficaram conhecidas como “Era de Ouro”.

maio 19, 2012

Meu Vídeo no Saite do Globo

Ok, quem não tem iPad já pode ver meu (e do Roger e do Dario) vídeo no saite de O GLOBO. Como de praxe, os curtas que fecham a revista pro tablete da Apple, a Globo a Mais, no dia seguinte se mudam pro portal dos meros mortais.

Não adianta clicar aqui, porque é só uma captura da tela. Vais ter que ir lá no saite do Globo pra ver o filmete. O linque está no último parágrafo da postagem.

O único senão é que, quando codificaram a fita pra subir pra nuvem, eles o fizeram no formato 16 x 9, desatentos à inexistência de câmeras de vídeo widescreen nos anos 80 (final, não início, não sou tão velho assim. Era 1987, pra ser exato). Portanto, cabeças e pés cortados (e alguns belos enquadramentos de sapatos avançando na direção da tela) não são culpa minha, ok? Prometo subir pro VocêTubo depois a nossa inestimável produção, com o aspecto correto. Esse vídeo nunca chegou a ser terminado, entre outros motivos porque a câmera pifou e teve que ir pra garantia. No entanto, guardei a fita e a digitalizei e, agora que fazer cinema ficou ao alcance de qualquer um com um PC e um celular, eu simplesmente pus o lépetope no colo e, enquanto assistia ao futebol, editei as cenas disponíveis de forma a ter uma historinha a mais parecida possível com a intenção original.

Pra ver o vídeo, basta clicar aqui. Não dá pra incorporar no blogue, portanto, assim que subir a coisa toda pro VocêTubo, posto aqui. Mais informações sobre a produção aqui.

janeiro 29, 2012

Eram Esses os Pacatos Anos 50????

Até recentemente desenhos animados de televisão tinham que ter a violência escondida. "Comandos em Ação", por exemplo, simplesmente mostrava UMA GUERRA em que ninguém se machucava aparentemente - de todo avião derrubado saltava um para-quedas e ninguém levava um tiro. Quando a coisa era mais violenta, ou era daqueles japoneses malucos, ou tinha sido feita originalmente para o cinema, como nos desenhos do Pernalonga e de Tom & Jerry. A tevê a cabo, que não está disponível no ar para qualquer um, acabou com isso. Animações mais inteligentes e violentas ganharam lugar e os pais é que decidem o que os filhos podem ver programando sua caixinha de acordo com suas crenças.

Com essa liberdade da tevê paga, é comum julgar os desenhos "violentos" de antigamente pura bobagem, mas existem algumas obras impressionantes ainda hoje. Principalmente quando a violência é mental e moral. O desenho abaixo foi produzido pela UPA nos anos 50, a década com fama de pacata em que os adolescentes estavam começando a se rebelar... mas na esteira dos quadrinhos de terror da EC e do Mad, começava na verdade uma doutrinação às crianças que questionava o estabelecido. E preparou o caminho para a contracultura. Frederic Wertham não estava tão equivocado assim.

O povo da UPA era um bando de animadores que, insatisfeitos com as condições de trabalho na Disney, resolveram abrir seu próprio estúdio. Enquanto o velho Walt mais e mais se dedicava a produzir filmes com atores e sobre a natureza, séries de televisão e parques temáticos, com sua invejável visão, menos atenção dava ao cerne de seu império, a animação. E a produção da casa, antes inovadora e disposta a experiências, começou a se repetir. A galera da UPA queria experimentar mais com a linguagem do desenho animado, usando temas mais complexos e, estilisticamente, com um maior distanciamento da realidade, sem a preocupação de fazer seus bonequinhos e cenários parecerem verdadeiros.

Pois bem, levando essa disposição até o fim, eles simplesmente pegaram uma das mais famosas histórias de terror do mais perverso grande escritor já nascido, Edgar Allan Poe, um dos maiores talentos a jamais deitar palavras numa página, e adaptaram num estilo expressionista narrado por James Mason, um dos monstros sagrados do cinema. Não espere concessões às sensibilidades infantis: a violência é chocante não por ser gráfica, mas por ser moral e onipresente no mundo do protagonista. Um psicopata. E a história é contada totalmente sob seu ponto de vista.

O uso de animação de uma forma tão efetiva e madura demoraria décadas ainda para voltar à cultura pop, apesar dos experimentos de Norman McLaren. "Fritz, the Cat", de Ralph Bakshi. seria o primeiro desenho voltado para adultos a experimentar sucesso. E o único durante muito tempo. Seria preciso outro estúdio ligado à Disney para acrescentar densidade aos temas infantis típicos dos longas animados, a Pixar. E, não por coincidência, com outro grande visionário (e cruel patrão), Steve Jobs, no comando.






Quer saber mais sobre animação e o cinema infantil em geral? Experimente o livro abaixo!

Infância e cinema infantil
de João Batista Melo



Lanterna mágica interessa a um grande número de leitores: críticos, historiadores e profissionais relacionados ao cinema, mas também pais, psicólogos e educadores. João Batista Melo oferece um estudo detalhado do cinema infantil, desde a sua origem, no início do século XX, até os tempos atuais. Além disso, o livro faz uma análise dos procedimentos narrativos e dos subprodutos gerados a partir dos programas infantis da TV brasileira.

·        João Batista Melo é diretor cinematográfico, graduado em Comunicação Social pela UFMG, especialista em Marketing pela UNA e mestre em Multimeios pela Unicamp.

janeiro 04, 2012

O Fio Dental Não é Invenção Brasileira

O trecho abaixo é de um filme alemão de 1956, que está completamente disponível no Youtube, aparentemente recolhido de um velho VHS. "Liane, a Donzela das Selvas", mais uma das inúmeras fantasias voyeurísticas derivadas de Tarzan (com uma loooooonga história, basta lembrar Maureen O'Sullivan, no papel de Jane, comentando com Chita que, como teriam visitas, ela (Jane) teria que usar roupas à noite. E o mergulho que ela dá completamente nua (1), cena cortada durante mais de meio século da fita, porque feita antes de instalada a autocensura no cinema americano e só as primeiras exibições a mostraram (2).



Liane, a moça aí em cima, passa boa parte do filme - toda aquela localizada nas selvas - vestindo apenas uma tanguinha fio-dental (não é uma invenção brasileira; inclusive ela usa a versão tupiniquim mesmo, com o triângulo de pano puxado pra cima pra expor as nádegas, não a europeia, que é só um barbantinho e não tem triângulo). Isso mesmo, ela não usa nada pra cobrir os seios, exceto seus cabelos louros, que não estão, como os de Brooke Shields em Lagoa Azul, colados ao corpo com cola mesmo, para evitar mostrar algo que não se devia.

O interessante é que o filme é de 1956 e era censura livre. A atriz tinha 16 anos na época, o que hoje acarretaria cadeia pra todo mundo. Só o fato de ter sido filmado em cores, dada a situação do cinema europeu na época, indica que é uma fita de bom orçamento e não um lançamento marginal pura e exclusivamente para faturar em cima de fetichismo (talvez eu devesse repensar esta última sentença). Curiosamente, as cenas de nudez de "Monika e o Desejo", de Ingmar Bergman, em preto e branco, dois anos antes, num longa muito mais sério e pretensioso do que este, desencadearam a ideia mundial de que a Suécia era a capital da putaria (quem viveu nos anos de censura onde o nu frontal era proibido lembra das famosas "revistinhas de sacanagem suecas"; o filme "Vai Trabalhar, Vagabundo" tem um personagem que vive desse contrabando). No entanto, os pequenos e adolescentes seios da Marion Michael não parecem ter causado tanta comoção internacional. Provavelmente porque a produção não era do tipo que o circuito de arte americano iria exibir e a farta exibição de pele e órgãos sexuais secundários impediria seu lançamento em circuito comercial.

O filme teria duas continuações (não consegui descobrir se tão generosamente explícitas), uma delas com o astro Hardy Kruger (que fez carradas de nazistas e estrangeiros em Hollywood). A adolescente exibicionista previsivelmente teve crises de depressão nos seus vinte e poucos anos quando sua carreira não decolou. Não devia ser fácil ser conhecida como a garota dos peitos de fora nos meios artísticos dos anos 50 e 60.

Pra quem tiver paciência e quiser ver o filme inteiro:



(1) Pra quem não viu "A Companheira de Tarzan", abaixo a cena, de 1932. Coerente com o que antes comentara com Chita, a primeira coisa que Jane faz ao voltar do encontro com as visitas é se livrar das roupas - Tarzan dá uma ajudinha. Foram sequências como essa que levaram a protestos e ao Código Hays, um escritório americano de autocensura dos estúdios cinematográficos. Nenhum filme produzido por eles podia ser lançado sem essa aprovação.



Aliás, não é Maureen O'Sullivan, a mão de Mia Farrow, que vemos nua na cena, mas sim a nadadora e medalhista olímpica Josephine McKim. Como Weissmuller, o Tarzan, também era ex-medalhista olímpico, parece que filmes de selva eram reserva de mercado desse povo. Também chama a atenção que a moça de 24 anos tivesse que partir para se mostrar nua - o que na época devia ser muito menos tolerado do que hoje - pra se sustentar, dado o amadorismo do esporte da época.

(2) Hugh Heffner diz que a cena foi importantíssima pra sua vida, pois a naturalidade da nudez do casal causou-lhe uma epifania que o levaria a lançar a Playboy. Hef também se autointitula o grande arauto da Revolução Sexual, enquanto seus críticos dizem que na verdade ele é o criador do machismo típico do início dos anos 60.

dezembro 30, 2011

O Médico e o Monstro (1941), com Ingrid Bergman e Lana Turner

Onde Hollywood contratava seus censores? Ou eles nem sequer tinham ideia do que significava a palavra "perversão"?



A expressão de êxtase da Ingrid Bergman sendo chicoteada nua é impagável.

dezembro 08, 2011

Os Três Patetas Estão de Volta... E Não Estão Contentes!!!!!!!

Como é que ninguém nunca tinha pensado em refilmar OS TRÊS PATETAS antes? Sorte dos irmãos Farrely (famosos por seu humor pouco sutil em fitas como "Quem Vai Ficar com Mary?" e "Eu, Eu Mesmo e Irene"). Os nostálgicos vão chorar de emoção com o trailer que já está rolando na internet:



Sensacional, a cara dos filmes deles mesmo. Pena que o elenco original acabou desistindo pelos mais diversos motivos e o único comediante conhecido é o Sean Hayes. Sim, conhecido em termos, ele era o amigo muito gay do Will em "Will & Grace". Jim Carrey, chapa dos Farrely, pretendia fazer o Curly e até ganhar peso pro papel em vez de aplicar maquiagem, mas pulou fora por motivos pouco claros. Benício del Toro, que iria fazer o Moe, também acabou saindo. E Sean Penn, que estava animadíssimo pra fazer o Larry, alegou problemas familiares e pessoais - na boa, se eu levasse um pé na bunda de uma Scarlet Johansson trinta anos mais nova, também ficaria completamente sem cabeça pra ficar fazendo piadinha idiota de levar cacetada na cabeça.

Por falar em cacetada na cabeça, tanto o Larry quanto o Curly morreram de comoção cerebral. As famílias deles negam que tenha sido de tanto levar pancada nos filmetes, mas é estranho que só o Moe tenha escapado a este destino.

P. S.: Pior ainda, a Scarlet Johansson largou o Penn e foi dar pro del Toro bêbada num elevador na saída de uma festa do Oscar. Não ia dar pros dois trabalhar juntos mesmo...

novembro 28, 2011

Tic Tac Tic Tac Tic Tac


Seconds Of Beauty - 1st round compilation from The Beauty Of A Second on Vimeo.

Há 190 anos foi inventado o cronômetro com a então assombrosa precisão de até um quinto de segundo. Para celebrar a data, a Montblanc está promovendo o festival do segundo - similar ao velho Festival do Minuto brasileiro, quando filmetes com até um minuto concorriam a um prêmio. Só que as peças agora têm que ter um segundo. Um desafio similar ao de escrever um conto em seis palavras (mais microcontos aqui).

A curadoria do festival é do Win Wenders e um dos prêmios é encontrá-lo em pessoa (e perguntar se é verdade aquela história de que a Nastassja Kinski dormia com todos os seus diretores* e se isso se confirmou com ele - minto, isso só o pervertido aqui é que ia indagar). O outro é um cronógrafo Montblan, o quê, dado o que eles custam, é mais do que a maioria dos festivais de cinema.

Pra quem se interessar em participar da 3a. etapa, as inscrições ficam aqui. E maiores informações sobre o festival, aqui.

* Declaração dela a Paul Schrader segundo o livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood"

outubro 16, 2011

Festival de Cinema do Rio: Finisterrae


Não tem orçamento, não tem equipamento de ultimíssima geração, não tem computadores fodões, não tem nada. Ou você consegue fazer um filme com imagens espetaculares e mitológicas ou não. Sérgio Caballero segue a trilha do pessoal do avant-garde e, com parquíssimos recursos, uma câmera que passa a maior parte do tempo imóvel em plano geral à altura dos olhos e dois lençóis, ergue uma coleção de sequências surreais com imeeeeeensa ressonância no nosso subconsciente - particular e coletivo.


Caballero, como a Anna Azevedo já ressaltou em sua resenha, é curador do Sonar, o festival catalão de arte esquisita de Barcelona. “Finisterrae” é seu primeiro longa, com dois fantasmas tentando renascer e, para tanto, trilhando como Paulo Coelho o caminho de Santiago de Compostela. Com resultados diversos, deve-se frisar.


Com uma cenografia minimalista, os fantasmas são caracterizados apenas por lençóis sobre dois atores. O efeito do branco informe sobre as belíssimas paisagens finamente capturadas pela câmera de Caballero é arrebatador. Existe um motivo para tal representação de almas penadas ser tão favorecida pelas crianças. Elas estão muito mais em sintonia com a mitologia do que os adultos (1). Atenção para o trabalho dos atores, pois a movimentação deles é que dá credibilidade aos seus espíritos. A deliberação dos gestos e sua mímica, aliadas às raras e soturnas linhas de diálogo - em catalão! - aumentam a estranheza e alteridade de sua jornada. Eles dificilmente parecem estar se esforçando, mas tenta criar o clima que este longa consegue com atuações descuidadas só porque não se vê nem rosto e nem corpo (e a voz ainda por cima é dublada).


Caballero, como artista moderno multimídia, não podia deixar de ser cínico, e frequentemente corta o excessivo lirismo com algumas brincadeiras, algumas um tanto gratuitas e batidas (principalmente a que envolve a hippie). O que não impedia que boa parte do público no cinema caísse na gargalhada, quase como se numa declaração de que sua inteligência lhe permitira “pegar” a intenção do diretor. Mas, dada a completa estranheza que reina na fita, mesmo as gracinhas menos acertadas não soam fora de sintonia como o fariam numa página escrita.


“Finisterrae” poderia se beneficiar de uma história mais robusta, mas quem se importa quando se tem uma jornada tão significativa com imagens tão demolidoras (cf. o Oráculo de Garrel logo no começo do longa)? E a metáfora de dois fantasmas, que parecem ser incapazes de enxergar as pessoas, além de não serem vistos por elas, buscando um novo período de vida, mesmo como a mais vil das criaturas, é rica e poética. Uma pena o que acontece com a única moça viva que consegue se comunicar com eles. Caballero não resistiu a uma declaração de que seu filme pode ser bonito, lírico e lento, mas ele não tem nada a ver com essa galera paz e amor. Não precisava.



(1) Como já dizia o mestre zen contemporâneo Shunryu Suzuki-Roshi, “para um principiante, as possibilidades são infinitas; para um especialista, são muito poucas”.

outubro 13, 2011

Festival de Cinema do Rio: Alien Lésbica Solteira Procura


Apesar de toda a homofobia e dos pastores e defensores das maiorias, não se pode negar que hoje em dia, pelo menos nos grandes centros urbanos, a vida pra casais homossexuais não é mais aquele amargor de culpa, prisão e perseguição constante. Mesmo assim, a maior parte da população é careta, se veste de forma diferente e se comporta como se houvesse algo de errado com quem não age como eles. O que deixa o povo diferente se sentindo como verdadeiros alienígenas.

Daí pra botar no mesmo saco xenoviventes e uma pobre e solitária lésbica, ainda por cima gorda e num emprego que não a entende é um pulo. Que a diretora Madeleine Olnek, de "Alienígena lésbica solteira procura" deu sem nem precisar gastar muita grana - a produção é hiperarquimegaparatranstrash. A desculpa esfarrapadíssima pras suas alienígenas virem parar na Terra é que suas emoções estão destruindo a camada de ozônio de seu planeta. Daí a solução é levar uns pés na bunda pra endurecer o coração e que melhor lugar pra isso do que Nova Iorque? Os filmes de Woody Allen devem ser muito cultuados lá na terra deles.

Mas Olnek na verdade prefere Jim Jarmusch. Faz sentido, afinal foi um cineasta que fez seu nome sobre gente sentindo-se alienada na sociedade. Embora a fita tenha um humor e um certo narcisismo típico de galera de vinte e poucos anos, Olnek trai a idade justamente com o seu óbvio fascínio por cinema dos anos 80 - e filmes de ficção científica B dos anos 50 (que também faziam muuuuuuuuito sucesso na década do new wave). Dá pra perceber influência de Repo Man, Liquid Sky e até mesmo do Woody Allen d'antanho. Raios, os episódios com fregueses na loja chegam mesmo a lembrar "O balconista".

Não por coincidência, todo esse povo acima (menos o Alex Cox) gostava de filmar em preto e branco, as cores deste longa. Olnek tenta desconversar dizendo que é pra remeter pras fitas B dos anos 50 e 60, mas a fotografia e mise-en-scène são muito mais parecidas com a turma dos 80 que das décadas anteriores.

A diferença de Olnek pra galera da onda pós-punk é que Cox e Jarmusch podiam ter historinhas relaxadas, mas eram carregadas por personagens ricos e bem delineados. O que não acontece aqui. A película é uma colagem de esquetes, em torno do romance principal da enjeitada lésbica acima do peso, que anda de bicicleta em vez de carro, e usa óculos, com a alienígena exilada. Outras xenomossexuais também aparecem, bem como dois homens de preto, com diálogo claramente improvisado e que não funciona na maioria das vezes. Estes realmente só entraram no bolo pra dar metragem suficiente pra "Alien..." ser considerado um longa. De resto, a metáfora inicial logo gasta o humor inerente a ela e depois de meia hora a fita já está apelando para danças esquisitas e piadas sobre relacionamentos (como se chamaria esse gênero? Mulheres são de Marte e Mulheres são de Vênus?)

"Alien lésbica solteira procura" renderia muito mais se tivesse permanecido como um curta ou mesmo um média, acabando antes de enveredar por fazer gracinhas com dieta e extraterrestres se comportando excentricamente. Mas quem pode contar mais sobre as intenções da diretora é o Pedro Henrique Barros, que também estava na sessão de quarta, e já tinha virado até chapa da moça...


... que já tinha até lhe dado uma camisa do filme...


... e que iria sair pra, além da entrevista, contar mais num chope com ele, mas foi proibida pela produção do festival. Quer dizer, segundo o Pedro. Assim que ele aprender a usar a internet, ele posta mais sobre o assunto aqui. Que não demore muito. E que ele tenha uma vida longa e próspera.

outubro 12, 2011

Festival de Cinema do Rio: Valsa das Flores

O ganhador do Oscar do ano passado, "Guerra ao terror", falava sobre o baixo astral que era desarmar bombas em terra estrangeira porque o povo que você queria ajudar não queria você por lá. Pfffft. Muito mais barra pesada é desarmar bombas em seu quintal, com gente desqualificada porque os capazes estão na guerra, tudo porque um bando de forasteiros não quer você em sua própria terra. Um tremendo ponto de partida para uma fita, pena que "Valsa das flores" não é nada disso. Aliás, com esse título ou seria um longa muito irônico ou muito melodramático. Adivinha qual caminho os diretores Alyona Semenova (uma moça) e Aleksandr Smirnov tomaram?


Enquanto Zhukov ia chutando o rabo dos nazistas de volta pra Alemanha, os russos tinham que lidar com milhares de campos minados deixados pra trás pela Wehrmacht. Os homens estavam no exército, as mulheres algumas também no exército e outras nas fábricas. Então só sobravam as meninas pra tarefa. Um curso expresso sobre como desarmar minas e vambora, pra labuta!

Coincidência ou não, o protagonista tem o mesmo sobrenome do diretor, Smirnov, sem aparente parentesco com a vodka parônima. Mas, tirando o sobrenome, o resto - atitude, semelhança, modo de atuar, é tudo do Gabriel Byrne, lembra quando ele reinava supremo fazendo papel de Gabriel Byrne em tudo que era filme? É o caso aqui. Ele faz seu ar sofrido de personagem noir com um segredo no passado e se recrimina o tempo inteiro por mandar moças bonitas para a morte quase certa com um treinamento tíbio. A solução para este profundo dilema ético que lhe devora a alma e as entranhas? Comer as moças, é claro. A impressão que se tem é de que a guerra é ruim porque atrapalha o romance dos protagonistas.

O longa parece uma produção de classe feita para a tv. Um daqueles filmes do HBO sobre episódios obscuros da guerra. A contribuição da codiretora é óbvia no clima de colégio interno e camaradagem que rola entre as moças. É um tanto refrescante também ver que comunistas eram pessoas assim como nós, com as mesmas preocupações. Até o investigador político é gente boa - e competente. Tudo bem que vivem numa ditadura que manda garotas desarmarem minas e, quando uma delas, num faniquito, diz que odeia Stalin, deixa as colegas apavoradas achando que vai ser fuzilada (na verdade, Smirnov a executa de uma maneira apenas metafórica...)


Em compensação, mesmo as mais pobres camponesas do cu do mundo são alfabetizadas (só um oficial que não, o que é bastante estranho, já que ele é quem dá o curso, mas isso é esclarecido no final) e todas, todas são atraentes. Parece filme americano mesmo. Uma pena, pois a primeira e inesperada morte é uma surpresa para o espectador (lembrando a aleatoriedade de "O salário do medo") e os personagens (digamos que o falecido deveria ter visto "Lawrence da Arábia" com mais atenção). Mas a partir daí os acidentes com bombas se tornam previsíveis, os romances se tornam previsíveis, as reviravoltas de roteiro se tornam previsíveis - por Lênin, tem uma que pode ser adivinhada com cinco minutos de filme e é tão óbvia que não podemos acreditar que eles REALMENTE fizeram isso. Aí os dez minutos finais têm um monte de surpresas, amarram alguns fios soltos com quem ninguém realmente se importava e inventa uma cena melodramática pra consertar tudo e dar final feliz pra todo mundo - ou tipo um final feliz. Aquele jeitão mesmo de fita pra tv sobre episódio obscuro da vida. Um ritmo um tantinho diferente e um clima um pouquinho forasteiro, mas de resto muito parecido com o que se vê na sua operadora a cabo. Desta forma, são duas horas que passam fácil, mas tem muita coisa mais desafiadora pra ver nesse Festival do Rio.

outubro 11, 2011

Festival de Cinema do Rio: Amor Debaixo d'Água

"Ela é jovem de espírito"

O kappa tradicional da mitologia japonesa

Os kappas existem mesmo (na medida em que as criaturas folclóricas existem), com aquelas características exatas da legenda antes do filme. Desafiam pro sumô e tanto gostam de comer pepino que é por isso que o sushi de pepino se chama kappamaki. E se você não tivesse preguiça de consultar a wikipedia, teria descoberto isso sozinho.

Filmes com bunda no cartaz não costumam ser muito solenes ou sérios

O filme rosa é basicamente a pornochanchada japonesa, devendo para ser considerado do gênero ter cerca de uma hora, ter uma certa cota de putaria, ser filmado em até uma semana em 16 ou 35 mm, com orçamento microscópico. E, como "Amor debaixo d'água" se descreve como "um musical rosa", ele tem tudo isso e ainda - música!

Na boa, depois da perversidade de "Chapeuzinho Vermelho do Inferno" e da misantropia de "Pequeno Polegar", nada como esse arrebatadoramente inocente filmete pra recuperar um pouco da fé na raça humana. Mesmo as gratuitas cenas de sexo têm uma inocência adolescente refrescante ("quando nos casarmos, vamos poder trepar assim todo dia!"). Não percam um boquete numa velha casa abandonada inesquecível.

Uma bela japa de meia-idade está prestes a se casar com seu chefe numa feia processadora de peixes quando vê um kappa, uma criatura mítica nipônica com bico e casco de tartaruga e características humanas. Só que ela descobre que o bicho é um coleguinha seu de escola que se afogou dezessete anos atrás. O resto é previsível, não?



Apesar de filmado com um orçamento ridículo em 5 dias e meio e todas as cenas em um só take, o diretor Shinji Imaoka é um veterano da indústria e consegue impor a delicadeza necessária pra que tudo funcione perfeitamente. A máscara de borracha do kappa que faz a maquiagem do dr. Gori parecer um trabalho de Tom Savini, as músicas em playback com coreografias trash (1) e as atuações estilizadas acabam criando um mundo que simplesmente faz sentido. Imaoka conta com a colaboração do câmera Christopher Doyle, chapa do Wong Kar Wai, que dá personalidade mesmo à iluminação inevitavelmente chapada e pouco trabalhada que o orçamento permite. O diretor também escolhe locações áridas e feiamente fabris para contrapor aos cenários mais luxuriantes e à natureza que reina nas cenas em que o kappa prevalece. Como Roger Corman poderia explicar, fazer uma fita trash bem-sucedida em menos de uma semana exige um certo talento com as imagens.



E as coreografias e músicas desastradas refletem também a protagonista, cujo espírito se recusa a envelhecer, mas é apenas infantil. Ela não vai salvar o mundo, não tem um talento artístico ou uma alma poética. Apenas inocência. Mesmo nas cenas incluindo uma certa pérola (que, por incrível que pareça, realmente faz parte da mitologia dos kappas), Sawa Masaki não destila um pingo de cinismo ou ironia, apenas boa vontade. Que, aliás, abunda em todos os personagens, da vagabunda do trabalho ao noivo ciumento. A fita resgata o clima de inocência perdida que os personagens reencontram ao topar com aquela criatura mitológica ("eu não via um desde criança" - e o grande detalhe desta fala é a situação em que ela é falada) e acaba sendo a melhor pornochanchada musical trash realista mágica que este blogueiro já viu. Um sopro de otimismo na cansada misantropia da mostra Midnight.


Underwater Love A Pink Musical por NyxtesPremieras

(1) A protagonista não tem aqueles coxões e panturrilhões à toa, ela SABE dançar e dá pistas disso no número final, relativamente caprichado para os padrões da paupérrima fita.

Festival de Cinema do Rio: O Pequeno Polegar


Marina de Van deve ter adorado "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante". Suas tomadas de pessoas comendo carne, com as mãos engordurando-as, lambendo-as e roendo-as - ainda mais depois que ela faz um paralelo direto e nada sutil entre carnivorismo e canibalismo - remetem inconfundivelmente ao bestialismo (e à fita de Peter Greenaway). O que faz sentido, num filme tão misantropo quanto este.

É raro ver um conto de fadas narrado com sua crueldade e intensidade originais intactas. Apesar do aparentemente baixo orçamento, a diretora consegue explorar com eficiência a bela (e perturbadora) floresta (filmada sempre nublada) em que ambientou seu longa. Planos simples e realistas reforçam a fome e a miséria da família de cinco crianças e uma cadela com ninhada (que deveria ter lido "Vidas secas" antes de se enrabichar com um povo tão despossuído). A cadela amamenta seus filhotes (numa das boas cenas, um dos garotos com fome tenta mamar nela), os pais decidem matar seus filhos perdendo-os na floresta e, assim que chegam em casa, sua primeira providência é dar uma rapidinha com ela apoiada na mesa do jantar. Depois de "Chapeuzinho Vermelho do Inferno", fica claro que essa é a posição favorita em fábulas apresentadas neste Festival do Rio.

O Pequeno Polegar é um garoto sensível, que se preocupa com os nossos amiguinhos animais. A primeira tomada é ele tentando salvar formigas de um afogamento (1), até que o pé de seu pai espadana a água da poça, com um machado na mão, dizendo que ele tem que procurar comida. Sutil! Mas não há sutileza mesmo e nem lirismo em fome e miséria reais e o melancólico filme avança com solenidade e lentidão deixando até o espectador desesperado por comer alguma coisa.



Infelizmente a fita começa a se tornar repetitiva. Uma historinha como esta, com personagens sem profundidade e um único tema precisam desesperadamente de um clima mitológico (Glauber Rocha e sua estética da fome que o digam). E Marina de Van desloca o ponto de vista da fábula para os adultos. Identificamo-nos mais com eles do que com as crianças ou mesmo o Polegar, que pouco aparece pra quem é o nome do filme.

Sem esses temores infantis pra alimentar o longa, ele acaba desabando sobre si mesmo e tornando-se uma eficiente fita repetindo velhas cantilenas misantrópicas. Os planos são bonitos, a montagem solene e o clima de realismo com toques mágicos é coerente, mas não decola, a não ser em momentos isolados, como a primeira aparição da mulher do ogro, uma massa branca contra o escuro do castelo movendo-se inquieta e mecanicamente.

Em suma, o Pequeno Polegar é uma fita competente, por alguém que entende do assunto e com toda a original crueldade da história. Mas sem os temores infantis subconscientes da perda dos pais, dos pais-ogros que alimentam e devoram a prole, acaba tornando-se propaganda vegetariana daquelas que acham que o ser humano não tem solução. Morrissey vai adorar, quando assistir comendo sua pipoca com manteiga de soja.


A diretora Marina de Van livrando-se do clima barra pesada de seu filme




(1) Parece que ela gosta das crianças e das formigas de "Meu ódio será sua herança".