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outubro 07, 2012

Festival do Rio 2012


Em dez minutos de filme, o policial arquetípico dos anos 70 (bebe
muito, fuma muito, vale-se de seu distintivo muito) já matou sem
nenhuma provocação três pessoas que não fizeram nada. Mas o que deu a
“Os maus não merecem a paz” (1) a fama de “Tropa de elite” espanhol é
que não é ele um dos malvados a que o título se refere. O adjetivo é
mais aplicável a todos os colombianos, árabes e outros não europeus
que povoam a fita. Tudo um bando de filhos da puta e só um tira que
usa bigode, barba por fazer, jeans e armas grandes como a do Dirty
Harry pra botar ordem nessa porra.





Depois de assassinar três sul-americanos num puteiro (daqueles que se
chamam “leidy’s club” quando querem dizer “ladies”) de um colombiano,
o policial Santos Trinidad começa a investigar a identidade deles pra
tentar pegar uma testemunha que escapou, o rapaz que tomava conta das
câmeras de segurança. Como uma bolinha do pinball que Santos abre o
filme jogando, ele é atirado de um lado para o outro e acaba
descobrindo uma conspiração envolvendo tráfico de drogas e terrorismo.
Tudo isso em plenos preparativos para um encontro do G-20, outro
símbolo da globalização (repare na hora em que aparece a imagem do
Berluscomi na tevê).


No habra paz para los malvados (Trailer) - Enrique Urbizu from aproductions on Vimeo.

Santos é o último macho da Espanha. Ao mesmo tempo que ele, uma juíza
investiga o assassinato triplo e tem que enfrentar a burocracia, os
erros do judiciário (uma grande investigação é jogada fora porque se
perde um prazo), a falta de comunicação entre os departamentos, e, por
que não dizer, a efeminação da força policial. Um comissário, por
exemplo, parece muito mais preocupado com o seu viril informante do
que com o fracasso de sua diligência antiterrorista. A juíza mesmo tem
que interromper os afazeres pra ser fofinha ao telefone com o filho e
o marido (é ele quem fica em casa cuidando das crianças!).



E, obviamente, sob uma ótica tão polêmica quanto a do primeiro “Tropa
de elite”, quem não é espanhol é traficante de drogas, terrorista,
quando não ambos. Chega a ser curioso que os espanhóis, que nos
Estados Unidos dão nome a uma das “raças” em que eles subdividem
pessoas (os hispânicos), sejam tão branquinhos nesta fita. Seria
difícil de imaginar que Hollywood escalasse atores tão caucasianos pra
representar ibéricos. Mais provavelmente poriam a turma que faz os
árabes e os colombianos. Um dos estrangeiros da história chega a casar
com uma autêntica europeia. O pai reclama que ele a ensinou tanto a
ser livre pra ela acabar se cobrindo toda e dizendo “me entrego a este
homem livremente”. A cena traz à memória o slogan racista de “Paixões
que alucinam”: “Peguem aquele negro antes que ele se case com a minha
filha!”


José Coronado recebeu o Goya (o César espanhol) por sua ótima atuação como um tira escroto


A fama de “Tropa de elite” espanhol não é aplicável só ao conteúdo
polêmico. Estilisticamente, fica provado que dominar a linguagem de
filmes policiais não é mais privilégio americano (ou francês). Embora
sem tanta personalidade, a investigação lembra “Operação França”, não
dando nenhuma colher de chá para o espectador: quem se distrair vai
perder o fio da meada. O que não acontece com Santos Trinidad. Como o
tira corrupto de “A marca da maldade”, ele é infalível: o que pode
parecer pura arbitrariedade são só os seus instintos quase
sobrenaturais, E, também, quem é que vai encarar se ele estiver
errado? Ele bebe, ele fuma (em lugares públicos fechados!!!), ele
gosta de café com anis que ninguém mais tem, ele mija na rua, ele
atira bem, veste jeans e camisa de macho enquanto os outros policiais
usam ternos bem cortados, penteados bem cuidados e ficam enchendo o
saco dele com esses terroristas à solta por aí.

O filme passa na terça, às 15:50h, no Estação Sesc Botafogo 1, e na
quinta, às 16:15h e 23:30h, Estação Sesc Rio 1.

(1) O tradutor não sacou que o título original é uma citação bíblica,
como segue em português: “mas os ímpios não têm paz” (Isaías 48, 22).

setembro 27, 2012

Dica para o Festival do Rio

Há uns três anos, a fita que mais encheu no Festival do Rio foi o longa mais recente do Woody Allen. Preconceitos do blogueiro sobre o pedófilo pretensioso à parte, a coisa toda era muito idiota porque o lançamento estava programado pra dali a dez dias. Mas sabe como é, ser “cinéfilo” envolve ser o primeiro a ver aquele filme que todo mundo quer ver, pra poder repetir sobre ele as opiniões que leu em cadernos de cultura.



Mas se você faz parte daqueles cinéfilos ecléticos despreocupados em ver apenas o novo, uma boa pedida nessa sexta é “Eles Vivem”, no CCBB, pelo Festival John Carpenter. Nunca lançado no Brasil em DVD e com uma passagem meteórica pelas telas cariocas em 1988, a fita é, ao lado de Robocop, a mais abertamente politizada (e antineoliberal – céus, quantos prefixos!) ficção científica dos anos 80. Basta ver a premissa: um operário desempregado que não entende o que houve com os “bons tempos” ganha acidentalmente uns óculos que lhe permitem ver que a maior parte do povo endinheirado é na verdade alienígena e que todos os anúncios e produtos culturais (revistas, filmes em VHS – anos 80! -, livros de banca) são na verdade ordens subliminares (“durma”, “compre”, “obedeça”, e por aí vai).



John Carpenter é um raro cineasta considerado (ao menos por um povo) um autor, mas que confessa que gostaria de ter trabalhado na era do sistema de estúdio. Aqui com atores desconhecidos, orçamento econômico (eufemisticamente falando) e uma boa ideia, ele mostra que a câmera na mão ainda faz misérias com metáforas visuais simplíssimas: a realidade é em preto e branco, os portais para os alienígenas (e colaboradores terráqueos) são ativados pelos relógios de pulso (de griffe), um pastor cego é o líder da rebelião e outros operários rejeitam o herói e se recusam de todas as maneiras a experimentar os óculos – quando bastaria uma única olhada para perceber que ele está certo.

Carpenter em “Eles Vivem” não apela para as emoções do espectador – e não é porque ele não saiba, basta ver o suspense que cria em “O enigma de outro mundo” e “Halloween” - mas sim para deixar a esplêndida ideia central em primeiro plano. Aproveitando a estética de filme B dos anos 50 (com efeitos e direção de arte propositadamente dignos da época), ele no entanto estica ou acelera cenas quase como num improviso de jazz. Confira, por exemplo, a cena de luta do herói com o amigo, que acaba virando uma imitação de luta livre, o telecatch americano (outra excelente metáfora visual). Fiel à década da Guerra Fria, o clímax envolve a tentativa de destruição de um artefato de roteiro que exporia os alienígenas. Uma cena de ação que Carpenter dirige o mais friamente possível.



Quase como num paralelo do filme, o público se recusou a ir ver a fita, um dos primeiros fracassos de público de Carpenter. O blogueiro teve que assisti-la no finado Cine Hora, uma saleta no Edifício Central com uma tela pouco maior do que a tevê de plasma que ele tem na sala – esse foi o tipo de circuito exibidor designado para a produção. Mas o tempo foi gracioso com o longa. Tanto ele quanto “Robocop” foram feitos na mesma época – este em 1987, “Eles Vivem” em 1988, o final da presidência Reagan, quando os efeitos da terceirização de mão de obra e exportação de postos de serviço começava a aumentar e concentrar a riqueza nos EUA. A cada ano que passa, mais o mundo fictício e futurista das duas obras se torna mais parecido com o nosso. O que faz o blogueiro perguntar, “ei, José Padilha, pra que que vocês estão refilmando Robocop, afinal?”

outubro 16, 2011

Festival de Cinema do Rio: Finisterrae


Não tem orçamento, não tem equipamento de ultimíssima geração, não tem computadores fodões, não tem nada. Ou você consegue fazer um filme com imagens espetaculares e mitológicas ou não. Sérgio Caballero segue a trilha do pessoal do avant-garde e, com parquíssimos recursos, uma câmera que passa a maior parte do tempo imóvel em plano geral à altura dos olhos e dois lençóis, ergue uma coleção de sequências surreais com imeeeeeensa ressonância no nosso subconsciente - particular e coletivo.


Caballero, como a Anna Azevedo já ressaltou em sua resenha, é curador do Sonar, o festival catalão de arte esquisita de Barcelona. “Finisterrae” é seu primeiro longa, com dois fantasmas tentando renascer e, para tanto, trilhando como Paulo Coelho o caminho de Santiago de Compostela. Com resultados diversos, deve-se frisar.


Com uma cenografia minimalista, os fantasmas são caracterizados apenas por lençóis sobre dois atores. O efeito do branco informe sobre as belíssimas paisagens finamente capturadas pela câmera de Caballero é arrebatador. Existe um motivo para tal representação de almas penadas ser tão favorecida pelas crianças. Elas estão muito mais em sintonia com a mitologia do que os adultos (1). Atenção para o trabalho dos atores, pois a movimentação deles é que dá credibilidade aos seus espíritos. A deliberação dos gestos e sua mímica, aliadas às raras e soturnas linhas de diálogo - em catalão! - aumentam a estranheza e alteridade de sua jornada. Eles dificilmente parecem estar se esforçando, mas tenta criar o clima que este longa consegue com atuações descuidadas só porque não se vê nem rosto e nem corpo (e a voz ainda por cima é dublada).


Caballero, como artista moderno multimídia, não podia deixar de ser cínico, e frequentemente corta o excessivo lirismo com algumas brincadeiras, algumas um tanto gratuitas e batidas (principalmente a que envolve a hippie). O que não impedia que boa parte do público no cinema caísse na gargalhada, quase como se numa declaração de que sua inteligência lhe permitira “pegar” a intenção do diretor. Mas, dada a completa estranheza que reina na fita, mesmo as gracinhas menos acertadas não soam fora de sintonia como o fariam numa página escrita.


“Finisterrae” poderia se beneficiar de uma história mais robusta, mas quem se importa quando se tem uma jornada tão significativa com imagens tão demolidoras (cf. o Oráculo de Garrel logo no começo do longa)? E a metáfora de dois fantasmas, que parecem ser incapazes de enxergar as pessoas, além de não serem vistos por elas, buscando um novo período de vida, mesmo como a mais vil das criaturas, é rica e poética. Uma pena o que acontece com a única moça viva que consegue se comunicar com eles. Caballero não resistiu a uma declaração de que seu filme pode ser bonito, lírico e lento, mas ele não tem nada a ver com essa galera paz e amor. Não precisava.



(1) Como já dizia o mestre zen contemporâneo Shunryu Suzuki-Roshi, “para um principiante, as possibilidades são infinitas; para um especialista, são muito poucas”.

outubro 13, 2011

Festival de Cinema do Rio: Alien Lésbica Solteira Procura


Apesar de toda a homofobia e dos pastores e defensores das maiorias, não se pode negar que hoje em dia, pelo menos nos grandes centros urbanos, a vida pra casais homossexuais não é mais aquele amargor de culpa, prisão e perseguição constante. Mesmo assim, a maior parte da população é careta, se veste de forma diferente e se comporta como se houvesse algo de errado com quem não age como eles. O que deixa o povo diferente se sentindo como verdadeiros alienígenas.

Daí pra botar no mesmo saco xenoviventes e uma pobre e solitária lésbica, ainda por cima gorda e num emprego que não a entende é um pulo. Que a diretora Madeleine Olnek, de "Alienígena lésbica solteira procura" deu sem nem precisar gastar muita grana - a produção é hiperarquimegaparatranstrash. A desculpa esfarrapadíssima pras suas alienígenas virem parar na Terra é que suas emoções estão destruindo a camada de ozônio de seu planeta. Daí a solução é levar uns pés na bunda pra endurecer o coração e que melhor lugar pra isso do que Nova Iorque? Os filmes de Woody Allen devem ser muito cultuados lá na terra deles.

Mas Olnek na verdade prefere Jim Jarmusch. Faz sentido, afinal foi um cineasta que fez seu nome sobre gente sentindo-se alienada na sociedade. Embora a fita tenha um humor e um certo narcisismo típico de galera de vinte e poucos anos, Olnek trai a idade justamente com o seu óbvio fascínio por cinema dos anos 80 - e filmes de ficção científica B dos anos 50 (que também faziam muuuuuuuuito sucesso na década do new wave). Dá pra perceber influência de Repo Man, Liquid Sky e até mesmo do Woody Allen d'antanho. Raios, os episódios com fregueses na loja chegam mesmo a lembrar "O balconista".

Não por coincidência, todo esse povo acima (menos o Alex Cox) gostava de filmar em preto e branco, as cores deste longa. Olnek tenta desconversar dizendo que é pra remeter pras fitas B dos anos 50 e 60, mas a fotografia e mise-en-scène são muito mais parecidas com a turma dos 80 que das décadas anteriores.

A diferença de Olnek pra galera da onda pós-punk é que Cox e Jarmusch podiam ter historinhas relaxadas, mas eram carregadas por personagens ricos e bem delineados. O que não acontece aqui. A película é uma colagem de esquetes, em torno do romance principal da enjeitada lésbica acima do peso, que anda de bicicleta em vez de carro, e usa óculos, com a alienígena exilada. Outras xenomossexuais também aparecem, bem como dois homens de preto, com diálogo claramente improvisado e que não funciona na maioria das vezes. Estes realmente só entraram no bolo pra dar metragem suficiente pra "Alien..." ser considerado um longa. De resto, a metáfora inicial logo gasta o humor inerente a ela e depois de meia hora a fita já está apelando para danças esquisitas e piadas sobre relacionamentos (como se chamaria esse gênero? Mulheres são de Marte e Mulheres são de Vênus?)

"Alien lésbica solteira procura" renderia muito mais se tivesse permanecido como um curta ou mesmo um média, acabando antes de enveredar por fazer gracinhas com dieta e extraterrestres se comportando excentricamente. Mas quem pode contar mais sobre as intenções da diretora é o Pedro Henrique Barros, que também estava na sessão de quarta, e já tinha virado até chapa da moça...


... que já tinha até lhe dado uma camisa do filme...


... e que iria sair pra, além da entrevista, contar mais num chope com ele, mas foi proibida pela produção do festival. Quer dizer, segundo o Pedro. Assim que ele aprender a usar a internet, ele posta mais sobre o assunto aqui. Que não demore muito. E que ele tenha uma vida longa e próspera.

outubro 12, 2011

Festival de Cinema do Rio: Valsa das Flores

O ganhador do Oscar do ano passado, "Guerra ao terror", falava sobre o baixo astral que era desarmar bombas em terra estrangeira porque o povo que você queria ajudar não queria você por lá. Pfffft. Muito mais barra pesada é desarmar bombas em seu quintal, com gente desqualificada porque os capazes estão na guerra, tudo porque um bando de forasteiros não quer você em sua própria terra. Um tremendo ponto de partida para uma fita, pena que "Valsa das flores" não é nada disso. Aliás, com esse título ou seria um longa muito irônico ou muito melodramático. Adivinha qual caminho os diretores Alyona Semenova (uma moça) e Aleksandr Smirnov tomaram?


Enquanto Zhukov ia chutando o rabo dos nazistas de volta pra Alemanha, os russos tinham que lidar com milhares de campos minados deixados pra trás pela Wehrmacht. Os homens estavam no exército, as mulheres algumas também no exército e outras nas fábricas. Então só sobravam as meninas pra tarefa. Um curso expresso sobre como desarmar minas e vambora, pra labuta!

Coincidência ou não, o protagonista tem o mesmo sobrenome do diretor, Smirnov, sem aparente parentesco com a vodka parônima. Mas, tirando o sobrenome, o resto - atitude, semelhança, modo de atuar, é tudo do Gabriel Byrne, lembra quando ele reinava supremo fazendo papel de Gabriel Byrne em tudo que era filme? É o caso aqui. Ele faz seu ar sofrido de personagem noir com um segredo no passado e se recrimina o tempo inteiro por mandar moças bonitas para a morte quase certa com um treinamento tíbio. A solução para este profundo dilema ético que lhe devora a alma e as entranhas? Comer as moças, é claro. A impressão que se tem é de que a guerra é ruim porque atrapalha o romance dos protagonistas.

O longa parece uma produção de classe feita para a tv. Um daqueles filmes do HBO sobre episódios obscuros da guerra. A contribuição da codiretora é óbvia no clima de colégio interno e camaradagem que rola entre as moças. É um tanto refrescante também ver que comunistas eram pessoas assim como nós, com as mesmas preocupações. Até o investigador político é gente boa - e competente. Tudo bem que vivem numa ditadura que manda garotas desarmarem minas e, quando uma delas, num faniquito, diz que odeia Stalin, deixa as colegas apavoradas achando que vai ser fuzilada (na verdade, Smirnov a executa de uma maneira apenas metafórica...)


Em compensação, mesmo as mais pobres camponesas do cu do mundo são alfabetizadas (só um oficial que não, o que é bastante estranho, já que ele é quem dá o curso, mas isso é esclarecido no final) e todas, todas são atraentes. Parece filme americano mesmo. Uma pena, pois a primeira e inesperada morte é uma surpresa para o espectador (lembrando a aleatoriedade de "O salário do medo") e os personagens (digamos que o falecido deveria ter visto "Lawrence da Arábia" com mais atenção). Mas a partir daí os acidentes com bombas se tornam previsíveis, os romances se tornam previsíveis, as reviravoltas de roteiro se tornam previsíveis - por Lênin, tem uma que pode ser adivinhada com cinco minutos de filme e é tão óbvia que não podemos acreditar que eles REALMENTE fizeram isso. Aí os dez minutos finais têm um monte de surpresas, amarram alguns fios soltos com quem ninguém realmente se importava e inventa uma cena melodramática pra consertar tudo e dar final feliz pra todo mundo - ou tipo um final feliz. Aquele jeitão mesmo de fita pra tv sobre episódio obscuro da vida. Um ritmo um tantinho diferente e um clima um pouquinho forasteiro, mas de resto muito parecido com o que se vê na sua operadora a cabo. Desta forma, são duas horas que passam fácil, mas tem muita coisa mais desafiadora pra ver nesse Festival do Rio.

outubro 11, 2011

Festival de Cinema do Rio: Amor Debaixo d'Água

"Ela é jovem de espírito"

O kappa tradicional da mitologia japonesa

Os kappas existem mesmo (na medida em que as criaturas folclóricas existem), com aquelas características exatas da legenda antes do filme. Desafiam pro sumô e tanto gostam de comer pepino que é por isso que o sushi de pepino se chama kappamaki. E se você não tivesse preguiça de consultar a wikipedia, teria descoberto isso sozinho.

Filmes com bunda no cartaz não costumam ser muito solenes ou sérios

O filme rosa é basicamente a pornochanchada japonesa, devendo para ser considerado do gênero ter cerca de uma hora, ter uma certa cota de putaria, ser filmado em até uma semana em 16 ou 35 mm, com orçamento microscópico. E, como "Amor debaixo d'água" se descreve como "um musical rosa", ele tem tudo isso e ainda - música!

Na boa, depois da perversidade de "Chapeuzinho Vermelho do Inferno" e da misantropia de "Pequeno Polegar", nada como esse arrebatadoramente inocente filmete pra recuperar um pouco da fé na raça humana. Mesmo as gratuitas cenas de sexo têm uma inocência adolescente refrescante ("quando nos casarmos, vamos poder trepar assim todo dia!"). Não percam um boquete numa velha casa abandonada inesquecível.

Uma bela japa de meia-idade está prestes a se casar com seu chefe numa feia processadora de peixes quando vê um kappa, uma criatura mítica nipônica com bico e casco de tartaruga e características humanas. Só que ela descobre que o bicho é um coleguinha seu de escola que se afogou dezessete anos atrás. O resto é previsível, não?



Apesar de filmado com um orçamento ridículo em 5 dias e meio e todas as cenas em um só take, o diretor Shinji Imaoka é um veterano da indústria e consegue impor a delicadeza necessária pra que tudo funcione perfeitamente. A máscara de borracha do kappa que faz a maquiagem do dr. Gori parecer um trabalho de Tom Savini, as músicas em playback com coreografias trash (1) e as atuações estilizadas acabam criando um mundo que simplesmente faz sentido. Imaoka conta com a colaboração do câmera Christopher Doyle, chapa do Wong Kar Wai, que dá personalidade mesmo à iluminação inevitavelmente chapada e pouco trabalhada que o orçamento permite. O diretor também escolhe locações áridas e feiamente fabris para contrapor aos cenários mais luxuriantes e à natureza que reina nas cenas em que o kappa prevalece. Como Roger Corman poderia explicar, fazer uma fita trash bem-sucedida em menos de uma semana exige um certo talento com as imagens.



E as coreografias e músicas desastradas refletem também a protagonista, cujo espírito se recusa a envelhecer, mas é apenas infantil. Ela não vai salvar o mundo, não tem um talento artístico ou uma alma poética. Apenas inocência. Mesmo nas cenas incluindo uma certa pérola (que, por incrível que pareça, realmente faz parte da mitologia dos kappas), Sawa Masaki não destila um pingo de cinismo ou ironia, apenas boa vontade. Que, aliás, abunda em todos os personagens, da vagabunda do trabalho ao noivo ciumento. A fita resgata o clima de inocência perdida que os personagens reencontram ao topar com aquela criatura mitológica ("eu não via um desde criança" - e o grande detalhe desta fala é a situação em que ela é falada) e acaba sendo a melhor pornochanchada musical trash realista mágica que este blogueiro já viu. Um sopro de otimismo na cansada misantropia da mostra Midnight.


Underwater Love A Pink Musical por NyxtesPremieras

(1) A protagonista não tem aqueles coxões e panturrilhões à toa, ela SABE dançar e dá pistas disso no número final, relativamente caprichado para os padrões da paupérrima fita.

Festival de Cinema do Rio: O Pequeno Polegar


Marina de Van deve ter adorado "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante". Suas tomadas de pessoas comendo carne, com as mãos engordurando-as, lambendo-as e roendo-as - ainda mais depois que ela faz um paralelo direto e nada sutil entre carnivorismo e canibalismo - remetem inconfundivelmente ao bestialismo (e à fita de Peter Greenaway). O que faz sentido, num filme tão misantropo quanto este.

É raro ver um conto de fadas narrado com sua crueldade e intensidade originais intactas. Apesar do aparentemente baixo orçamento, a diretora consegue explorar com eficiência a bela (e perturbadora) floresta (filmada sempre nublada) em que ambientou seu longa. Planos simples e realistas reforçam a fome e a miséria da família de cinco crianças e uma cadela com ninhada (que deveria ter lido "Vidas secas" antes de se enrabichar com um povo tão despossuído). A cadela amamenta seus filhotes (numa das boas cenas, um dos garotos com fome tenta mamar nela), os pais decidem matar seus filhos perdendo-os na floresta e, assim que chegam em casa, sua primeira providência é dar uma rapidinha com ela apoiada na mesa do jantar. Depois de "Chapeuzinho Vermelho do Inferno", fica claro que essa é a posição favorita em fábulas apresentadas neste Festival do Rio.

O Pequeno Polegar é um garoto sensível, que se preocupa com os nossos amiguinhos animais. A primeira tomada é ele tentando salvar formigas de um afogamento (1), até que o pé de seu pai espadana a água da poça, com um machado na mão, dizendo que ele tem que procurar comida. Sutil! Mas não há sutileza mesmo e nem lirismo em fome e miséria reais e o melancólico filme avança com solenidade e lentidão deixando até o espectador desesperado por comer alguma coisa.



Infelizmente a fita começa a se tornar repetitiva. Uma historinha como esta, com personagens sem profundidade e um único tema precisam desesperadamente de um clima mitológico (Glauber Rocha e sua estética da fome que o digam). E Marina de Van desloca o ponto de vista da fábula para os adultos. Identificamo-nos mais com eles do que com as crianças ou mesmo o Polegar, que pouco aparece pra quem é o nome do filme.

Sem esses temores infantis pra alimentar o longa, ele acaba desabando sobre si mesmo e tornando-se uma eficiente fita repetindo velhas cantilenas misantrópicas. Os planos são bonitos, a montagem solene e o clima de realismo com toques mágicos é coerente, mas não decola, a não ser em momentos isolados, como a primeira aparição da mulher do ogro, uma massa branca contra o escuro do castelo movendo-se inquieta e mecanicamente.

Em suma, o Pequeno Polegar é uma fita competente, por alguém que entende do assunto e com toda a original crueldade da história. Mas sem os temores infantis subconscientes da perda dos pais, dos pais-ogros que alimentam e devoram a prole, acaba tornando-se propaganda vegetariana daquelas que acham que o ser humano não tem solução. Morrissey vai adorar, quando assistir comendo sua pipoca com manteiga de soja.


A diretora Marina de Van livrando-se do clima barra pesada de seu filme




(1) Parece que ela gosta das crianças e das formigas de "Meu ódio será sua herança".

outubro 09, 2011

Festival de Cinema do Rio: Chapeuzinho Vermelho do Inferno


Uma menina vestida de vermelho no meio de uma floresta escura e um lobo a fim de devorá-la. E tudo nele é grande, a ponto de deixar a menina assustada: olhos, ouvidos, mãos, pés e o resto só olhando mais de perto. Metáforas mais sutis aparecem em minissérie da Globo ou na Nova Geração de Jornada nas Estrelas. Na versão mais antiga, de Perrault, que termina sem resgate nenhum, mas com o ladino lupino comendo a Chapeuzinho, ele ainda se dá ao trabalho, como num filme americano, de sublinhar a mensagem:

“As crianças, especialmente moças atraentes e de boa formação, nunca devem falar com estranhos, pois podem muito bem acabar servindo de jantar para um lobo. Eu digo "lobo", mas existem vários tipos de lobos. Há também aqueles encantadores, tranquilos, educados, humildes, complacentes e doces, que perseguem as jovens em casa e nas ruas. E, infelizmente, são esses lobos gentis os mais perigosos de todos.”


Com tudo isso, não é de admirar que as duas melhores versões da fábula pra tela sejam inconfundivelmente sobre sexualidade. Uma delas você pode ver lá embaixo desta postagem, a outra é exatamente o rito de passagem da puberdade de uma adolescente problemática, “Na companhia dos lobos”, de Neil Jordan, com um clima mágico e de mistério que remete à atmosfera de maravilhas e ansiedades que é a época da descoberta do amor e do sexo.

Mas não é nada disso que o espectador vai encontrar nesta Chapeuzinho Vermelho cubana. José Molina está na mesma classe de cineastas que Jesús Franco e José Mojica Marins. Ou você tem estômago pra ele ou não. É tudo um a questão de pervers, digo, preferência pessoal. No quesito talento, o cubano Molina está entre os dois - Franco às vezes consegue botar de pé boas películas, mas normalmente sua obra é um tanto desleixada e preguiçosa. Pelo menos neste longa Molina mostra uma coerência temática e uma composição visual firme, embora bastante prejudicada pelos limites do orçamento.

Molina no entanto não consegue se aproximar da intensidade de Marins mesmo da ocasional de Franco. Desde o começo ele deixa claro que não é pra levar nada daquilo a sério. Uma vovozinha (interpretada por homem e extremamente parecida com a Vovó Mafalda cheirada indo pruma festa dark) domina uma família incestuosa (o seu neto é também seu filho, tem problemas mentais e parece Jesus Cristo) e comanda estupros e palmadas em bundas nuas como punição na mesa do jantar. Numa noite particularmente agitada, ela acaba tendo um ataque, do que se sua nora (e sua bela filha adolescente) e seu único filho íntegro se aproveitam pra fugir. No entanto, eles ainda têm que cuidar da velha mandando através do idiota semicristo cestas de comida para a anciã. Como as refeições costumam chegar podres, a velhinha, que ainda é dona das terras, entra na Justiça pra expulsar a nora e a neta.

Uma velhinha que domina a vida de todo mundo, tem um problema de saúde, o que libera o pessoal um pouco, mas ainda subsiste à custa deles e mantém seu poder? Onde as ditaduras arrumam seus censores?


A fita ainda está cheia também de diatribes contra o catolicismo e a repressão sexual (incluindo uma bela alucinação com a vagina dentata) e, principalmente, muita nudez (mais feminina do que masculina, obviamente), deixando claro que na ilha da Vovó Mafald, digo, de Fidel, digo, de Raúl, pentelhos still rulz.


Com baixíssimo orçamento, talento pra coisa, muita galhofa, pornochanchada e muita, muita baixaria e caricatura, o longa cria um clima trash pervertido demais pra parecer com Ivan Cardoso e irônico demais pra parecer José Mojica Marins, mas depois que o espectador entra no clima, passa rápido (a fita tem pouco mais de uma hora) e... como dizer... agradavelmente? A plateia da meia-noite de sexta riu bastante com o fetichismo na tela, mas perto do blogueiro quatro pessoas saíram antes de meia hora de projeção. Como já dito antes, a avaliação do filme vai depender de quanta perversão o vivente que o assistir leva na alma. Quem tiver inclinação pra coisa pode até se divertir.

E, como prometido lá em cima, a outra melhor versão da história pras telas:


Repare nos detalhes: o carro, o poste, o drinque do lobo... o desenho está cheio de símbolos fálicos. E um dia o blogueiro vai comprar um martelo de plástico pra bater na cabeça quando passar uma mulher bonita