Até o começo dos anos 90 eu nunca tinha ouvido falar dessa pintura ou de Artemísia Gentileschi (pergunto-me por quê... 🙄). Então a minha irmã ganhou de brinde de algum jornal dominical um livro de infográficos sobre grandes quadros e o que me chamou direto a atenção foi esse de Judith Cortando a Cabeça de Holofernes. Pode não ser tão tecnicamente perfeito quanto o do Caravaggio, mas a imagem é MUITO mais expressiva. O segundo mais famoso Michelangelo pinta a sua Judith, mais observada do que auxiliada por uma velha criada, com uma expressão de puro nojinho enquanto corta o pescoço como se usasse faca em manteiga quente, e o próprio Holofernes parece mais estar cantando uma ária do que gritando em apavorado terror. Já Artemísia desenha sua Judith ajudada por uma empregada tão jovem, forte e bela quanto ela - o que vem a calhar, porque ESTE Holofernes está lutando e se debatendo - basicamente SERRA a coluna do general usando pura força e determinação. Violento, brutal e com duas mulheres empoderadas de uma maneira claramente moderna, a tela é a mais impactante do que todas as diversas outras sobre o tema (inclusive a sexual do Klimt). Profissional desde os 16 anos, estuprada ainda menor por um assistente do pai e depois casada em um matrimônio aberto, Artemísia parece estar abrindo sua alma de artista ousada para a época, ainda orgulhosa, mesmo com a brutalidade a que fora submetida.
A versão do Michelangelo do B. Embora talvez o Michelangelo do B devesser ser o Buonarroti. Mas aí seria Michelangelo B e não do B. Enfim, vocês entenderam, é do Caravaggio e não está na Galeria degli Uffizi
Visitei a Galeria degli Uffizi há 13 anos e fiquei surpreso ao bater nessa tela lá. Não sabia sua localização. A sala estava vazia. Agora em janeiro, quando voltei, estava tão cheia quanto as outras superstars do museu, uma enorme diferença, mesmo levando em consideração ter ido numa época de muito mais alta temporada. Boa notícia. A Galeria também tem algumas salas dedicadas a autorretratos, com vários de mulheres, sobre as quais preciso ainda pesquisar, já que, pouco surpreendentemente, nunca ouvi falar de nenhuma.
O ar de enfado de missão cumprida e a maneira casual como a Judith carrega a espada, como se estivesse bastante habituada a usá-la, só reforçam o empoderamento sugerido na primeira tela. Judith parece pronta a dizer "vem" caso encontre algum guarda perguntando o que ela estava fazendo com a cabeça do general com quem aparentemente tinha ido dar umazinha. Sua empregada forte e vigorosa também casualmente carrega a cesta com o óbvio e escancarado troféu delas e está pronta para dar assistência em caso de encrenca. Novamente, comparando com Caravaggio pintando a mesma história, o que temos é uma Judith vigilante com medo de ser surpreendida escondendo a cabeça do invasor num saco. Artemísia tinha muito mais lugar de fala do que o outro Michelangelo pra imaginar o que significava uma história de uma mulher invadindo um acampamento inimigo para matar o comandante das tropas e fez história, ainda que tenha tido que esperar uma era de maior respeito por diversidade para se tornar realmente popular. Espero que continue, apesar de toda a guerra desesperada que a reação vem fazendo, mormente nos EUA.

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