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novembro 28, 2024

As Fabricantes de Fantasmas

 Esse esquete foi apresentado pelo EAPE em 2023:


UMA MENINA ESTÁ SENTADA TECENDO FANTASMAS. OUTRA CHEGA E FALA COM ELA.


NANA

Você não vai voltar para casa? Essa praia está fria. O Pedro e a Inês estavam querendo ir jantar na cidade.


VÂNIA

Essa é a melhor hora para tecer fantasmas.


NANA

Pensei que fosse a meia-noite. A hora dos espíritos.


VÂNIA

Exatamente por isso que não. Muito barulho. Fantasmas não devem arrastar correntes. Nem uivar. Apenas causar progressivamente um leve arrepio na nuca…


UMA FANTASMA PASSA DANÇANDO.


NANA

São eles?


VÂNIA

Você pode ver?


NANA

Não devia?


VÂNIA

Se você pode vê-los, pode fazê-los.


NANA

Eu não tenho muita habilidade manual.


VÂNIA

Ninguém tem antes de começar a usá-la.


OUTRAS FANTASMAS PASSAM.


NANA

Estão passando mais.


VÂNIA

Aqui era um local de rituais. 


NANA

De qual?


VÂNIA

De várias. Quando um lugar tem poder, todos acabam descobrindo. Também é assim com pessoas. Mas, tanto um quanto o outro, quando atrai muita gente, acaba sendo destruído.


NANA

Você me parece mais a destruidora.


VÂNIA

Eu sou a que constroi.


NANA

Fantasmas.


VÂNIA

Fantasias.


MAIS MULHERES CONTINUAM  PASSANDO.


VÂNIA

Vê? Elas eram sacerdotisas. Feiticeiras. Mães. Curandeiras. Artesãs. O que faziam era tecido e madeira e, com o tempo, virou pó e lenda. Elas não abraçaram a pedra, preferiram a sutileza a deixar suas marcas.


NANA

Como os fantasmas que você está fazendo de tecido e madeira.


VÂNIA

Como os fantasmas.


AS FANTASMAS ESTÃO DANÇANDO JUNTAS, INVOCANDO ALGO QUE ESTARIA NA PLATEIA.


NANA

Então você não vai voltar para casa?


VÂNIA

Hoje não. Quero vê-las se reunindo. Elas estão vindo. Há muito tempo que não as via todas tão juntas. E a areia está quente. A brisa aquece.


NANA

Elas são lindas. O que estão fazendo?


VÂNIA

Invocando afogados. Está vendo? (APONTA PARA A PLATEIA) Eles estão começando a vir.


NANA

Eles estão em decomposição.


VÂNIA

Voltaram à água.


NANA

Eu não queria ver isso.


VÂNIA

Ninguém nunca quer. Preferem (ERGUE O QUE ESTÁ FAZENDO) os fantasmas.


NANA

Não. É mais do que isso. Eu estava tendo um caso com um homem mais velho. Quarenta anos. E casado.


VÂNIA

Matrimônio em decomposição?


NANA

Não. Eu terminei com ele. Ele não ia deixar a mulher.


VÂNIA

Bom.


NANA

Ele foi me visitar no trabalho na semana antes da gente viajar. Ele está com câncer no estômago.


VÂNIA

É o que conseguimos quando não mastigamos bem as coisas.


NANA

É sério, Vânia.


VÂNIA

É a gestação que ele conseguiu. O sono da razão produz monstros.


NANA

Você produz fantasmas.


VÂNIA

Estamos cercados por eles.


NANA

O tempo todo, Vânia. O tempo todo. Alguns caminhando, como o Rafael. 


VÂNIA

Ele só vai ser um fantasma se você deixar.


NANA

O que eu devo fazer então?


VÂNIA

Seus próprios fantasmas (DÁ A ELA MADEIRA E TECIDO). Você pode vê-los. Você os atrai. Você pode fazê-los.


NANA COMEÇA A FAZER OS FANTASMAS.


VÂNIA

Isso. Deixa a história sair. Deixa a história fluir. Deixe que eles a assombrem. Deixe depois que eles assombrem o mundo.


NANA

Você é assombrosa.


VÂNIA

Sem arrastar correntes. Sem uivar.


VÂNIA SE APROXIMA DE NANA E A BEIJA CARINHOSAMENTE. NANA SORRI. ELAS SE ABRAÇAM E OLHAM PARA AS FANTASMAS INVOCANDO OS AFOGADOS.


NANA

Por que elas estão invocando os afogados?


VÂNIA

Para limpar as águas. E para os afogados voltarem a ver a luz das estrelas. Se não, ambos vivem na escuridão.


ESCURECE. FIM.

julho 12, 2012

Eu no Aniversário da Camila (com a Camila)

Com o boné da Camila, treinando pra quando tivermos uma sitcom.

maio 19, 2012

Meu Vídeo no Saite do Globo

Ok, quem não tem iPad já pode ver meu (e do Roger e do Dario) vídeo no saite de O GLOBO. Como de praxe, os curtas que fecham a revista pro tablete da Apple, a Globo a Mais, no dia seguinte se mudam pro portal dos meros mortais.

Não adianta clicar aqui, porque é só uma captura da tela. Vais ter que ir lá no saite do Globo pra ver o filmete. O linque está no último parágrafo da postagem.

O único senão é que, quando codificaram a fita pra subir pra nuvem, eles o fizeram no formato 16 x 9, desatentos à inexistência de câmeras de vídeo widescreen nos anos 80 (final, não início, não sou tão velho assim. Era 1987, pra ser exato). Portanto, cabeças e pés cortados (e alguns belos enquadramentos de sapatos avançando na direção da tela) não são culpa minha, ok? Prometo subir pro VocêTubo depois a nossa inestimável produção, com o aspecto correto. Esse vídeo nunca chegou a ser terminado, entre outros motivos porque a câmera pifou e teve que ir pra garantia. No entanto, guardei a fita e a digitalizei e, agora que fazer cinema ficou ao alcance de qualquer um com um PC e um celular, eu simplesmente pus o lépetope no colo e, enquanto assistia ao futebol, editei as cenas disponíveis de forma a ter uma historinha a mais parecida possível com a intenção original.

Pra ver o vídeo, basta clicar aqui. Não dá pra incorporar no blogue, portanto, assim que subir a coisa toda pro VocêTubo, posto aqui. Mais informações sobre a produção aqui.

maio 18, 2012

Ei, Mãe, Óia eu no Globo otraveis!

Não faz nem um mês que saiu uma página Logo minha no Globo, agora, artista multimídia que sou (hmmm...), é a vez de um vídeo (codirigido com Dario e Roger). Está hoje na revista vespertina Globo a Mais, exclusiva pra iPad, mas amanhã deve estar disponível em algum lugar no saite do jornal. Assim que eu descobrir, posto aqui. Esse aí embaixo é o e-meio que mandei pra apresentar o curta, do qual quase nada foi aproveitado (o Roger mandou um também). Bem, crianças, quem não tem um iPad, pode ter ideia do que vem por aí no blogue com o texto aí abaixo:

Pode soar incrível, mas 25 anos atrás era caro fazer vídeo. Sim, era
inacreditavelmente mais barato do que até um super-8, mas, por
exemplo, comprar uma das primeiras volumosíssimas câmeras VHS que
dispensavam carregar também um gravador a tiracolo custou boa parte do
meu primeiro ano de salário como funcionário público – ainda bem que
eu morava com meus pais. E ainda bem que eu cobrava quase um salário
mínimo para filmar batizados, casamentos e formaturas com ela. Era um
mundo mais selvagem e belo.

Com uma câmera na mão e nada na cabeça, eu, Dario e Roger, cansados da
sequência de comédias satirizando gêneros que havíamos feito,
resolvemos mostrar que, se o negócio era vídeo cabeça, também sabíamos
fazê-lo. Armados com um refletor de 500 watts, algumas lâmpadas
caseiras e uma valente (e pesada) Panasonic NV-M3, capaz de imagem
quase inacreditável para um VHS – muito inferior à de um iPhone –
Roger adaptou um conto meu, mudando praticamente tudo e mantendo
virtualmente apenas um duelo que na minha historinha era um sonho, mas
na versão de nosso amigo (futuro) filósofo, era um mito da Criação.

Sim, pois para ele somente a percepção do Outro e da incompletitude
leva à criação. O Desejo é a o motor e a serpente do Paraíso e é a
frustração e a negação que vão dar origem a um big bang criativo. Ou
pelo menos era isso que ele dizia para impressionar as calouras
(éramos todos estudantes daquela universidade da última crônica do
Arnaldo Bloch).

Hoje em dia a chiquérrima Diesel tem slogans como “Be
stupid”, mas nos estranhos anos 80 até roqueiros queriam citar
filósofos existencialistas. Por algum motivo, filmes antigos – mudos,
monocromáticos, obscuros, estrangeiros – entraram em moda com o povo
cabeça. Expressionismo alemão, a raiz estética do filme noir populado
por Bogart & amigos que tanto amávamos, era uma de nossas
preferências. Daí o duelo se inspirar claramente nas sombras
germânicas dos anos 20. Sem nenhum recurso financeiro, é claro.
Tinhamos a ideia de que, se fizéssemos sucesso, chamaríamos ao nosso
movimento “nadismo” - Uma câmera na mão, nada na cabeça e necas no
bolso.

3c273 é o título da coisa. Ilhas de edição, mesmo para VHS, eram
caríssimas e tinham que ser alugadas – e eles cobravam ainda mais do
que eu para filmar casamento. Para reeditar esse filmete para caber
nesse formato de iPad, usei um velho laptop, adequadamente no meu
colo, enquanto conversava no Caralivro e assistia ao futebol na tevê.
Esse talvez seja o meu maior arrependimento de não ter esperado uns 20
anos para nascer. Já não precisávamos pagar os tubos pela película
(mesmo em super-8), mas VHS também não era barato de editar e
sincronizar som era uma tremenda dificuldade num formato sem trilha
especial para isso (daí nossa preferência por vídeos mudos). Mas num
mundo como o de hoje, onde todo mundo (de classe média) tem em casa
uma central de pós-produção e telefones filmam em alta definição,
nossa turma certamente faria um longa metragem por semana. É uma pena
que a gente não tenha tempo para tanto, mas é da frustração que nasce
a criação e bla bla bla...

abril 30, 2012

Minha Página Logo Publicada em O GLOBO

Aí em cima, a página Logo que eu fiz e saiu no Segundo Caderno d'O Globo neste domingo. Clique na imagem pra ampliar. Como hoje em dia tem uns navegadores que diminuem o tamanho das fotos, se você não conseguir ler o texto, ele está aqui embaixo:


Século XXI. É preciso falar, a todo custo, a língua do mercado. Grupos de estudo e mindsharings posicionam os porta-vozes para disseminar a cultura do gerenciamento, que se capilariza no sentido de monetizar todos os gargalos. É preciso consensar antes de estar tar, e quem não mudar logo o drive
arrisca entrar numa bad vibe organizacional.   Resistir é inútil, e esses monstrengos vocabulares, cheios de delírios de empoderamento, acabam violando a paz do cotidiano e chegando à boca da tulipa do chope, contaminando o colarinho.   Para os pobres amantes do bom colóquio, não há saída. A não ser que, inspirado no São Jorge, algum herói vindo do nada, vestido com as roupas e armas de Camões, Bocage e outros luminares da última flor do Lácio, tomasse as dores dos lusófonos e investisse indomável e célere num verdadeiro hostile takeover.   Pensando nessa invasão por vezes intolerável, o escritor, jornalista, poeta, nerd, roteirista, dramaturgo, cinéfilo e funcionário público LUIZ HENRIQUES NETO , codinome Urubu, providenciou um brainstorm de emergência e anotou em seu flipchar uma solução lírica: um pequeno poema épico narrando a odisseia desse herói retórico que tenta, como um Quixote luso, lutar contra os moinhos que trazem ao dia a dia os ventos tediosos da novilíngua corporativa. (Arnaldo Bloch)

DESTRADUZINDO O CORPORATIVÊS
Um poema épico de Luiz Henriques Neto, o Urubu

Como um porta-voz das diretrizes 
Ele chegou com seu profile de alfa cultural 
Com sua voz possante e multimídia 
Fez sua declaração de missão: 
Ouvira falar de nosso case 
E nosso tirânico governor 
Então em crowdsourcing lhe contamos 
Sobre os hit-and-miss da besta 
Que à vista de nossos sofrimentos 
Ria-se como se ouvisse 
Uma doomed stand-up comedy
Nosso powerpoint fez seu mindset 
E ele jurou elevar nossa moral 
Com uma permanente mudança de cultura 
E encaminhou-se rumo ao nicho da besta 
ASAP 

Mas eis que antes do main course 
Era necessário um brunch 
Os temidos partners da besta 
Avançaram de seu loft 
Como um blockbuster: 
Eram os mortos-vivos headhunters 
Dispostos a fazer um mindsharing 
Com os cérebros de quem encontrassem 
No meio de seu roadmap 
Eles avançaram 
Como despesas sobre um budget 
Mas frente ao núcleo duro do herói 
Sua dinâmica de grupo em nada valeu 
Com sua espada ele semeou 
Seus cérebros num brainstorm 
E inertes eles tombaram 
Incapazes de pensar fora da caixa 
Frente ao fail de sua equipe 
O líder enfim apareceu 
Cavalgando em estouvado desafio: 
“Não será um start-up como tu 
A abocanhar meu market share 
O meu nicho é pequeno demais para dois players 
E minhas armas agregam um valor premium 
Contra teus pobres e parcos resources” 

“Pois comigo”, respondeu o challenger 
“Carrego as armas 
E os barões assinalados 
Que da ocidental praia lusitana 
Partiram inda além da Taprobana!” 
“Desiste!”, retrucou o governor 
“Não encontrarás posicionamento 
Neste segmento! 
Eu sou o teu worst case scenario! 
O venture capitalist, o CEO, o CIO 
O co-founder e o boss!” 
“Expressa-te através de incultas 
Produções da mocidade 
Note dos males a sua imensidade! 
Eu venho terminar tua agonia 
Morre, não penes mais, ó desgraçado!” 
E assim dizendo, como um heavy user 
Lançou-se o herói firing on all cylinders 
A besta, incapaz de enredá-lo em seu plot 
Pivotava em torno dele 
Tentando na luta se empoderar 
Já o herói continuava 
Seu verdadeiro workshop 
Rindo-se da inútil mass production 
De golpes do manager 
A besta então em cólera atacou 
Como um cool hunter mirando um trendsetter 
Mas numa réplica fashion e cool 
O herói antecipou-se 
Numa rápida curva de aprendizado 
A besta tentou um recall 
Mas o herói aproveitou o momento 
E cravou um violento input 
Com sua espada repleta de sharpness e wit 
Caído o vilão, 
Num plot point inesperado, 
Rogou a seu role model: 
“És um cavaleiro diferenciado 
— percebo-o agora —, um ultimate fighter 
Quem és tu que me faz colapsar 
Como se fora um tsunami?” 
“Tsunami, não”, redarguiu o herói. 
“Pois o que atingiu Lisboa 
No século XVIII 
Foi um MAREMOTO!” 
A besta guinchou como se atingida 
Pela mais insana das fatalities 
Seus tie-ins em puro shrinking 
Seu sangue em violento spread 
“Ainda há tempo”, o governor implorou, 
“Façamos um merging! 
Nossa joint-venture reinaria suprema 
E a sinergia ampliaria minha timeline” 
Mas o herói ignorou esses wake-up calls 
Era hora da pós-produção 
E com um uppercut da espada 
Para sempre quebrou o paradigma 
Num output de sangue e vísceras 
Naquela noite organizamos uma rave 
Com DJs, clubbers, rappers, todos celebrando 
Em um verdadeiro mega halloween 
Era o fim de um ciclo e devíamos 
Somente no futuro focar 
Pois já angel investors prometiam 
O mais belo crowdfunding que já se vira 
E, na calada daquela noite, o herói, 
Seus serviços requeridos em outsourcing, 
Sem que ninguém visse seguiu em sua roadmap 
Uma vez terminado seu job 
E nunca sequer soubemos o seu branding 
Mas durante quarters e quarters a fio 
Os publishers disseminariam 
Em verso, prosa, folders e flyers 
Todos os seus muitos — e vastos — features!

abril 26, 2012

Domingooooo... eu vou ao jornaleeeeeirooooo...

... vou comprar o Globo porque vai sair texto meu no Segundo Cadernooooo...

abril 11, 2012

Se não está conseguindo ler direito, clique na imagem para ampliar.

março 28, 2012

Mais eu em 1990, fotografado pela minha irmã. A esta altura vocês já perceberam quem comprou um escaner novo, não?

Eu em 1997


Depois de eu em 1990 e 1999, eu com meu uniforme entre 1986 e 2000: blazer + camiseta + calça de pregas. O chapéu tinha acabado de ser tirado, repare no cabelo amassado e despenteado.

março 22, 2012

Eu em 1990

Em Paquetá, de chapéu e trench coat. Os anos 80 eram assim. Se bem que o dia estava nublado. Foto de Luciana, com minha Exa II-A, minha primeira SLR. Clique na imagem para ampliar.

dezembro 03, 2011

Esquete

Um dos esquetes que escrevi em 2002 para as Basqueteiras. Este não entrou no show.


duas modelos e atrizes percorrem uma boate. fotógrafos (no caso desta troupe, fotógrafas) disparam seus flashes ao redor. as duas vão conversando.
ailime
Olha só... aquela não é a  Monique Gamboa?
daniela
Acho que sim... nossa, ela ainda tem coragem de vir nesses eventos... deve ter duzentos anos...
ailime
Dizem que ela foi trocar o silicone das mamas, quando tiraram a prótese antiga, encontraram um mosquito e a partir do sangue que ele sugou, vão reviver um monte de animais antigos...
daniela
Ah, é verdade, eu ouvi... Virgínia Lane, Odete Lara, Norma Bengell, Monique Lafond, Vera Gimenez, Rose di Primo, Odile Rubirosa...
ailime
É... vai ser o Jararac Park... Parque das Jararacas...
daniela
 Olha, lá vem ela...
entra monique. Daniela e ailime tornam-se subitamente extremamente solícitas.
daniela
Oi, Monique, meu amor, tudo bem com você?
ailime
Você tá maravilhosa, meu amor!
monique
(COM MUITO DESPREZO) Quem são vocês e por que vocês estão falando comigo?
daniela
Olha o fotógrafo, olha o fotógrafo!
entra uma fotógrafa, com sua - dã - câmera.
fotógrafa
Monique, uma pose!
daniela e ailime agarram-se a monique e sorriem para aparecer na foto.
monique
Soltem-me! Vocês estão sugando minha força vital!
o flash dispara.
fotógrafa
Obrigada.
monique
Salve-me... eu estou... estou...
monique sai cambaleando de cena, quando  daniela e ailime a largam.
daniela
Você acha que vamos sair bem na foto?
ailime
Devíamos ter mostrado os peitos.
daniela
Eu estava com as mãos ocupadas, segurando-a pra evitar que ela fugisse.
ailime
É, ela tenta e tenta fugir, mas o tempo sempre acaba pegando ela.
aparece uma fotógrafa de costas para as duas, tirando fotos de alguma coisa.
DANIELA
Olha lá, outra máquina fotográfica!
as duas aproximam-se ameaçadoramente da fotógrafa, mas esta vira-se e vê as duas.
fotógrafa
 Boa noite. Eu sou do site Mulher na Noite. Poderia fotografar vocês?
daniela
Claro.
fotógrafa
Vocês poderiam mostrar os peitos? Pra ter mais acessos, sabe...
ailime
Claro...
de costas para o público, as duas levantam os tops (ou abaixam os vestidos), enquanto o fotógrafo dispara seu flash.
fotógrafa
Obrigada... (PEGA UM BLOCO DE ANOTAÇÕES) Qual o nome de vocês?
antes que ailime possa falar, daniela toma-lhe a frente.
daniela
Minha amiga se chama Priscila e eu...
ailime
(INTERROMPE A AMIGA) Ela se chama Rodriga.
fotógrafa
(DESCONCERTADA) Rodriga?
ailime
(TENTANDO CONSERTAR) Tiaga?
daniela
Não é nada disso!
ailime
É Serena.
fotógrafa
(ANOTANDO) Serena e Priscila... Obrigada (VAI)
daniela
Você é tão espirituosa, Ailime.
ailime
Ah, Daniela, você é que sempre tem uma brincadeira na ponta da língua...
entra uma mulher com um olhar psicopata, parecendo uma morta-viva, cabelos desgrenhados, profundas olheiras, cara de maluca, carregando um facão e tartamudeando.
daniela
Ei... olha lá! Aquela não é a Fera da Penha?
ailime
Acho que é...
daniela
Vamos lá conversar com ela...
ailime
Mas, Daniela, ela é uma assassina psicopata que está sendo julgada por matar vinte e oito pessoas...
daniela
Justamente! Ela está toda hora na tevê! Outro dia foi até convidada pra aparecer na mesa-redonda da Copa do Mundo pra dizer se queria Romário na seleção...
ailime
É mesmo? E o que aconteceu?
daniela
Edmundo se apaixonou por ela. Disse que tinha achado uma alma gêmea. Vamos lá!
as modetes se juntam à fera da penha.
daniela
Fera, seu vestido está animal.
ailime
Aposto que você bota pra quebrar na night...
fera da penha
Romário... Romário...
daniela
Ah, ele não tem aparecido aqui muito, não... ele ficou puto que veio aqui, uma menina jogou um pozinho na bebida dele...
ailime
Viagra.
daniela
Ele agora tá com dezoito processos de pensão alimentícia em cima.
ailime
Pena que aquela noite a gente não pôde vir...
daniela
É, a gente não estava no período fértil.
fera da penha
Romário... Romário...
daniela
Ih, mulher, esquece esse cara... esse cara tá out... nem vai pra Copa do Mundo.
fera da penha
(BRANDINDO A FACA)  Matar... matar...
ailime
Isso, você tá pegando o espírito da coisa. In agora é o Ronaldinho Gaúcho.
uma fotógrafa aparece correndo.
fotógrafa
Essa com vocês não é a Fera da Penha?
daniela
A própria.
ailime
A gente é amiga desde a infância...
daniela
(DISPUTANDO COM A AMIGA) Desde pequenininha!
ailime
Eu fui a primeira pessoa que ela matou!
daniela
É, mas naquela época ela nem sabia matar direito, tanto que você ainda tá viva.
ailime
Ah, mas foi inesquecível. Foi com muita inocência. Muito amor.
fotógrafa
Eu sou da revista Maluco Beleza. Vocês poderiam mostrar os peitos?
fera da penha
Matar... Matar... (BRANDE A FACA)
daniela
A gente mostra, a gente mostra.
elas mostram de novo os peitos, o fotógrafo bate a foto . o flash assusta a fera da penha, que se encolhe assustada, gritando.
fotógrafa
Algum problema?
daniela
Ela é tímida.
fera da penha
A luz... a luz quer que eu mate... matar... matar... (MESMO ENCOLHIDA, ESTICA O BRAÇO E BRANDE A FACA ÀS CEGAS)
ailime
Muito moderno, né? Precisa ver os piercings dela.
daniela
Onde que você viu os piercings dela?
ailime
Quando ela me matou, ora!
fotógrafa
Obrigada, moças... (SAI)
daniela
Ele nem perguntou o nome...
ailime
Vai botar Fera da Penha e amigas.
daniela
Você acha que dá pelo menos uma capa da Sexy, "As amigas da Fera da Penha"?
ailime
Só se ela for pelo menos pr'um Casa dos Artistas.
daniela
Ela foi pro último e o programa acabou em dois dias, ela matou todo mundo.
ailime
Puxa, o Ricardo Macchi, a Tiazinha e a Feiticeira estavam vivos?
aparece outra fotógrafa.
fotógrafa
Boa noite... eu sou da revista Casas & Jardins. A nossa circulação caiu muito, por isso será que dava pra vocês mostrarem os peitos?
daniela
Você quer fotografar a gente e não a Fera da Penha?
ailime
 Puxa... você nos emocionou.
daniela
Claro que mostramos!
a fotógrafa dispara o flash.
fotógrafa
Obrigada
daniela
De nada!
ailime
Volte sempre!
daniela
Ei, olha lá, a Monique Gamboa está voltando.
ailime
Deve ter visto a gente com a Fera da Penha e quer tirar uma casquinha...
daniela
Ela não tem vergonha mesmo! Dizem que a maldição do faraó era ter que pagar a pensão alimentícia dela.
ailime
É, dizem também que na tumba do Tutankhamon estavam as múmias do Tutankhamon, dos animais de estimação dele e a do cabaço dela.
fera da penha
Matar... matar! (BRANDE A FACA)
daniela
E você, pára com isso! Tá parecendo a Vera Fischer antes do tratamento!
chega monique gamboa.
monique
Mas vocês estão lindas! Maravilhosas! Matadoras!
fera da penha
Matar! Matar!
monique
Nossa, Vera, tá com essa saudade toda do Felipe Camargo?
ailime
Ela não é a Vera. É a Fera. A Fera da Penha.
monique
Fera da Penha? Aquela da Casa dos Artistas que durou dois dias? Nossa, mas você está maravilhosa...
ailime
Você não nos conhece, Monique.
monique
Claro que conheço. Eu sei quem vocês são. Vocês são como eu, no início de carreira. Mas vocês nunca chegarão aonde eu cheguei porque eu sou Monique Gamboa! Com a idade de vocês eu já era capa da Fon-Fon, da Careta, do Pasquim e do Semanário Turístico de São Paulo, Capital.
ailime
Semanário turístico de São Paulo, capital?
monique
Foi uma vida dura. Vocês não, vocês têm apenas a Fera da Penha! Onde pensam que chegarão assim? De onde vocês já foram capa? Aposto que nem de bula de remédio!
daniela
Então o que você está fazendo aqui, conosco e a Fera da Penha?
monique
Ora, eu rio de vocês! Rio! (CHORA)
ailime
Ela está me assustando. Pare com isso, pare!
daniela
(ASSUSTADA) Por que você está chorando?
monique
Chorando? Droga, por isso que eu nunca consegui ser atriz.
daniela
Você não nos impressiona.
ailime
Mas assusta um bocado.
entra uma fotógrafa.
fotógrafa
Com licença, eu...
antes que ele possa terminar a frase, monique e as duas viram-se para ela, mostram os peitos e sorriem. a fotógrafa dispara o flash meio no susto  e sai, atordoada. A fera da penha enlouquece com o flash.
fera da penha
Matar! Matar!
monique
Gente, pára com isso! Tá parecendo a Narcisa Tamborindeguy... ei, o que você vai fazer com...
a fera da penha esfaqueia monique, que agoniza muito canastrã.
monique
Oh, ela está me matando... sinto minhas forças se esvaírem...
daniela
Péssimo, péssimo.
ailime
Acho melhor a gente fazer de novo...
monique
Eu sinto... só ter uma vida a dar pela arte...  (CAI) Eu... eu estou indo!  (LEVANTA E SALTITA) Eu estou indo para um mundo melhor!
daniela
Não, é pra ficar deitada! Você tá morrendo! Morrendo!
monique
Mesmo?
ailime
Claro.
monique
Tá bom... (DEITA DE LADO) Oh, eu morro. E agora?
daniela
 Morre, mulher.
monique
Eu estou fazendo o meu melhor.
daniela
Pense que você tem a idade que você realmente tem e não a que aparenta.
monique
Bluãugh!  Meu coração! (MORRE, FICA DEITADA DE LADO)
ailime
A Fera da Penha matou ela.
daniela
É, coisa tão óbvia.
ailime
Out pacas.
fera da penha
Hm?
DANIELA
É isso mesmo que você tá ouvindo.
ailime
Você não está mais por cima, Fera da Penha. Você é papo antigo.
daniela
Pois é, dizem até que nem vão poder julgar você pelos assassinatos na Casa dos Artistas porque não tem testemunha... ninguém viu.
fera da penha
Mas, mas...
ailime
Inclusive, ouvi dizer que na próxima convocação, o Felipão vai chamar é o Maníaco do Parque.
daniela
É, vamos nessa, Ailime...
as duas saem. A fera da penha olha para o corpo morto e, assustada, vai atrás das duas.
fera da penha
Não... não... Fera da Penha ainda ser quente... Fera da Penha ainda vender revista... (SAI)
DANIELA
(OFF) Só se for de porta em porta...
monique gamboa fica estirada no chão. Entra uma fotógrafa.
fotógrafa
Com licença... eu sou da revista Múmias  & Cadáveres. Você poderia mostrar os peitos ?
monique, que está de lado, com o braço de cima abre sua blusa. A fotógrafa clica e sai.
fotógrafa
 Obrigada.
monique
 O nome é Monique.