dezembro 21, 2025

EU SEI QUEM É O AGENTE SECRETO!

O Agente Secreto tem dado muita discussão, até de um cineasta que ainda não descobriu QUEM é o Agente Secreto e, ao contrário de todos os meus professores de Literatura, decreta que regionalismo é excludente e esotérico. Mas no meio dessas opiniões, réplicas e tréplicas todas, ainda não vi ninguém discutindo um aspecto bem reforçado na fita. Ao que parece a Pátria-Mãe (pai e mãe, sacou, sacou?), levando a sério essa história de totalitarismo, assumiu até mesmo o papel materno. 

O longa é lotado de, como diria o Murakami, homens sem mulheres. Há diversos relacionamentos exclusivamente de pai e filho. O Pequeno Martelo que Arma (Marcelo/Armando) e o futuro médico, o delegado e seu filho de criação, o industrial e seu aprendiz de malvado, o executor e seu enteado e até mesmo o garoto gay lotado no prédio dos refugiados. Todos formando famílias quebradas e desequilibradas. As mães estão desaparecidas, escondidas, misteriosamente mortas, ou literalmente assassinadas, como no caso do matador militar - e o enteado o segue cegamente, com um ar perdido. O Kléber Mendonça não faz a menor questão de que a metáfora seja sutil.





A autoridade, como convém a um regime fascista, é toda masculina. A ditadura adota à força os órfãos que ela mesmo criou e vemos o processo em plena ação no filme, quando o delegado do nada toma a contragosto o Armarcelo sob sua asa. Ele agora é o pai e a mãe. Mulheres são somente para serviços sexuais - como a concursada que datilografa no vazio e se atira sobre os machos. A cena em que o industrial pergunta ao protagonista se a esposa dele, cientista e pesquisadora, era a secretária dele, não é só pelo racismo, é também porque no universo dele e dos ditadores, esse é o papel feminino. Não é à toa que ela destaca que homens de verdade são o marido e o pai dela - os dois únicos paterfamilias que vemos tendo relações afetivas com o sexo oposto.

Mas, apesar desses relacionamentos todos veladamente homoeróticos, qualquer desvio do que eles entendem como heterossexualidade é fortemente reprimido, como no episódio da Perna Cabeluda (que, aliás, foi realmente uma lenda urbana na época da fita). Corpos despedaçados são uma fantasia comum em épocas em que as pessoas se sentem perdidas e desorientadas. Uma esquizofrenia político-social, ninguém se sente inteiro. Nos anos 70, com toda aquela Guerra do Vietnã, Watergate, Revolução Sexual e regimes autoritários, mais uma daquelas crises da democracia que se repetem de meio em meio século (e tem gente que diz que ela seria o fim da história…), o cinema e os quadrinhos se moveram para o terror, populados sobremaneiramente por sociopatas mascarados com machados desmembrando viventes (normalmente mulheres) a torto e a direito. O que sobrou foi a Perna Cabeluda, desorientada, reforçando os valores do próprio monstro que a criou. 


Nesse universo distópico, a esperança é a mãe, a amante, a mulher, a criação. A primeira coisa que os ingressados na clandestinidade ganham quando chegam ao refúgio é uma mãe, Dona Sebastiana, a maravilhosa Tânia Maria roubando a cena, a fita, o cenário, tudo. É ela quem decreta que estão fazendo tudo por um futuro melhor e aponta para a dentista e sua filha - enfim uma família amorosa, ainda que nesse caso sem pai, mas claramente um relacionamento afetivo e caloroso. Por um momento Marcelando até ameaça assumir um papel masculino para elas, mas, ao final, num momento de crise, com medo, resolve se aproveitar daquele que se lhe impôs como pai e procura o delegado. Transferindo sua responsabilidade e aceitando que a autoridade que lhe repugnava o proteja, ele engrena toda a violenta conflagração do clímax. Não precisamos ver seu assassinato, a partir daquele momento ele já está morto, traiu todos os seus planos e sua busca obsessiva por… sua mãe (por quem mais?). É quando descobrimos que ele também foi criado sob essa estrutura. A ditadura não criou nada novo, apenas assumiu e impôs os velhos modelos.

Sendo mais um dos mortos ambulantes a partir desse momento, o Marcelo Secreto não vai mais poder gozar do passe-livre que a mãe-Elza lhe prometera, deixando seu filho sem pai nem mãe, para ser criado pelos avós, com uma lacuna aberta entre eles. Para resgatá-la, somente a pesquisadora universitária. Que a fita faz questão de mostrar que é, no recôndito de seu lar… uma mãe. Com o pai presente. Ela é o futuro e, com essa aura, religar o herdeiro do protagonista com sua história. O médico não quer pensar nessas coisas, não usa aliança, não fala sobre descendentes. Parece perdido também. É por isso que aquela negra mãe, amante, cientista e pesquisadora vem para restaurar os vínculos perdidos. Nem que, para isso, em mais uma metáfora sem sutileza à moda Kleber Mendonça, ela tenha que dar o próprio sangue, na casa que já foi um templo de sonhos.

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