dezembro 21, 2025

Um Passeio na Exposição de Michelangelo e a Capela Sistina

 

Logo na entrada, o fabuloso traço de Michelangelo Buonarroti.


Na exposição da Capela Sistina no Centro Cultural dos Correios, um desenho particular de Michelangelo. Como já me ensinou há décadas um velho livro de arte, a obra de Buonarroti tem como um óbvio subtexto a fascinação pelo corpo masculino. Afinal, o humanismo é o cerne do Renascimento. Assim, contava o livro, ele não tinha muito interesse por desenhar mulheres - ele basicamente desenhava um sujeito e, ao final, acrescentava peitos. Essa tendência pode ser conferida aqui, ou então as academias de Roma na Idade Média tinham ótimos personal trainers e vendiam bomba baratinho.



Michelangelo faleceu na sexta de Cinzas. Ele adoeceu na segunda de carnaval, e estava ainda cinzelando no sábado, aos 88 anos, só não o fazendo no domingo por ser dia santo - é o que conta na plaqueta do Centro Cultural Correios. Nessa Pietá interminada e claramente testamental, nosso Homem da Renascença ameaçava extrair do mármore um Cristo ainda mais raquítico do que a sua versão mais famosa, contrariando sua tendência rumo a corpos cada vez mais sarados e inchados que percorrera. Não só isso, a pose evoca a Madona de Bruges, também com uma réplica na Mostra (no Centro Cultural dos Correios). Nas duas obras, um Jesus escorrega pelo colo da Virgem, na primeira um menino feliz querendo explorar o mundo, nesta um executado derrotado que a mãe também deve deixar partir. Como todo artista após décadas de carreira, o velho Buonarroti simplificou as formas e a composição, verticalizando-a quase como uma coluna. As feições e corpos estão ainda em fase de rascunho - o que aliás dá uma expressividade quase modernista à peça, mais alongados e menos maneiristas. Será que mais um pouco e depois de coautorar o Renascimento, o Anjo Miguel das artes estava prestes a inventar a arte moderna?


Uma Madona rabiscada pelo Buonarroti, com a plaqueta. Só estou postando aqui porque achei curioso que ela parece negra.



Nos afrescos da Criação do Universo, Michelangelo nos dá um Senhor realmente com cara de CEO, puto que não estão botando nada no lugar certo: "Tira essa montanha daí, ela é pra ir pra lá! Já disse que esse deserto não pode ficar onde vocês puseram! E, pelo Meu Amor, tirem essas crianças daqui!".

Depois do Deus CEO, Michelangelo o pinta como um Criador criativo, em pleno êxtase de extravasar sua imaginação e aplicar seu talento e sua técnica.




omo já apontado alguns momentos atrás, ou Michelangelo era tão fascinado pelo corpo masculino que, ao fazer mulheres, pintava um e depois aplicava seios, ou Roma tinha as melhores academias - com um baratíssimo mercado negro de bomba - da Idade Média. Embora, aparentemente, enchimento de silicone nos seios ainda estivesse em sua infância.



Continuando nossa prosódia sobre as mulheres que Michelangelo pintava, aqui temos mais uma, tão sarada e bombada que está até mesmo expulsando na base do porrete outro bombadão buscando refúgio no barco durante o Dilúvio. Não só isso, ele ainda a compôs completamente nua e de pernas abertas, o que resultou em uma bagunça na sua virilha, que não consegui dizer se foi alguma educada sombra do autor, ou um trabalho do Tapa-Pau (conto na próxima postagem). Li há alguns anos um artigo de uma feminista dizendo que, enquanto as pirocas grassam na arte desde tempos imemoriais, no Mundo Ocidental teve que se esperar por Praxíteles pra se tirar a roupa das mulheres. E, pior ainda, por séculos e séculos e séculos havia apenas um nada entre suas pernas, quando já os gregos ainda decoravam o púbis de seus kouros quase helênicos com estrelas de pelos (se você procurar o Museu de Atenas na minha linha do tempo, vai encontrar essa escultura), o que seria uma intencional dessexualização feminina. Confesso que não tenho lugar de fala nessa discussão, ainda mais que a partir já do Renascimento, diversos pintores começaram a se especializar em pintar um monte de "mitológicas" afrodites peladas para o deleitoso olhar masculino de seus patronos. Aliás, a carrada de gente despida na Capela Sistina causou uma verdadeira polêmica na época, a qual abordo abaixo...




Abaixo falei da controvérsia sobre a onipresente nudez na Capela Sistina, o que causou muita controvérsia na época. Aparentemente El Greco tentou se empurrar pra pintar por cima daquilo tudo. O que foi felizmente negado, embora o Juízo Final do O Helênico seja uma inegável tentação de imaginação. Quem observar as figuras pode perceber que diversas delas têm um monte de panos estrategicamente drapejados sobre suas partes íntimas mais chocantes. Não só isso, como as cores desses tecidos são claramente de outro tom. A razão é que esse trabalho foi realizado por outro pintor, e não com a técnica de afresco, mas simplesmente por cima do gesso. O sujeito não era um desalmado mercenário, mas sim um admirador (ele e a torcida do Flamengo, mesmo na época) do Miguel Ângelo, e contra as alterações, mas acabou tomando a atitude de "se vocês REALMENTE pretendem levar isso adiante, prefiro que seja eu a fazê-lo". O que não impediu que ele ganhasse o carinhoso apelido de "Tapa-Pau", porque na Itália da Renascença, "bullying" era um modo de vida. E, na verdade, o Buonarroti meio que se deixou levar - a cena abaixo com Santa Catarina e outro santo foi obviamente retocada (veja como o rosto do sacro sujeito foi visivelmente pintado por outro vivente) porque a versão original, à sua direita, dá a inegável impressão que o casal do hagiário levou MUITO a sério essa história de gozar as delícias do Paraíso. Definitivamente, rezar missa sob essa imagem na era e capital do "bullying" certamente não iria funcionar.






 



EU SEI QUEM É O AGENTE SECRETO!

O Agente Secreto tem dado muita discussão, até de um cineasta que ainda não descobriu QUEM é o Agente Secreto e, ao contrário de todos os meus professores de Literatura, decreta que regionalismo é excludente e esotérico. Mas no meio dessas opiniões, réplicas e tréplicas todas, ainda não vi ninguém discutindo um aspecto bem reforçado na fita. Ao que parece a Pátria-Mãe (pai e mãe, sacou, sacou?), levando a sério essa história de totalitarismo, assumiu até mesmo o papel materno. 

O longa é lotado de, como diria o Murakami, homens sem mulheres. Há diversos relacionamentos exclusivamente de pai e filho. O Pequeno Martelo que Arma (Marcelo/Armando) e o futuro médico, o delegado e seu filho de criação, o industrial e seu aprendiz de malvado, o executor e seu enteado e até mesmo o garoto gay lotado no prédio dos refugiados. Todos formando famílias quebradas e desequilibradas. As mães estão desaparecidas, escondidas, misteriosamente mortas, ou literalmente assassinadas, como no caso do matador militar - e o enteado o segue cegamente, com um ar perdido. O Kléber Mendonça não faz a menor questão de que a metáfora seja sutil.





A autoridade, como convém a um regime fascista, é toda masculina. A ditadura adota à força os órfãos que ela mesmo criou e vemos o processo em plena ação no filme, quando o delegado do nada toma a contragosto o Armarcelo sob sua asa. Ele agora é o pai e a mãe. Mulheres são somente para serviços sexuais - como a concursada que datilografa no vazio e se atira sobre os machos. A cena em que o industrial pergunta ao protagonista se a esposa dele, cientista e pesquisadora, era a secretária dele, não é só pelo racismo, é também porque no universo dele e dos ditadores, esse é o papel feminino. Não é à toa que ela destaca que homens de verdade são o marido e o pai dela - os dois únicos paterfamilias que vemos tendo relações afetivas com o sexo oposto.

Mas, apesar desses relacionamentos todos veladamente homoeróticos, qualquer desvio do que eles entendem como heterossexualidade é fortemente reprimido, como no episódio da Perna Cabeluda (que, aliás, foi realmente uma lenda urbana na época da fita). Corpos despedaçados são uma fantasia comum em épocas em que as pessoas se sentem perdidas e desorientadas. Uma esquizofrenia político-social, ninguém se sente inteiro. Nos anos 70, com toda aquela Guerra do Vietnã, Watergate, Revolução Sexual e regimes autoritários, mais uma daquelas crises da democracia que se repetem de meio em meio século (e tem gente que diz que ela seria o fim da história…), o cinema e os quadrinhos se moveram para o terror, populados sobremaneiramente por sociopatas mascarados com machados desmembrando viventes (normalmente mulheres) a torto e a direito. O que sobrou foi a Perna Cabeluda, desorientada, reforçando os valores do próprio monstro que a criou. 


Nesse universo distópico, a esperança é a mãe, a amante, a mulher, a criação. A primeira coisa que os ingressados na clandestinidade ganham quando chegam ao refúgio é uma mãe, Dona Sebastiana, a maravilhosa Tânia Maria roubando a cena, a fita, o cenário, tudo. É ela quem decreta que estão fazendo tudo por um futuro melhor e aponta para a dentista e sua filha - enfim uma família amorosa, ainda que nesse caso sem pai, mas claramente um relacionamento afetivo e caloroso. Por um momento Marcelando até ameaça assumir um papel masculino para elas, mas, ao final, num momento de crise, com medo, resolve se aproveitar daquele que se lhe impôs como pai e procura o delegado. Transferindo sua responsabilidade e aceitando que a autoridade que lhe repugnava o proteja, ele engrena toda a violenta conflagração do clímax. Não precisamos ver seu assassinato, a partir daquele momento ele já está morto, traiu todos os seus planos e sua busca obsessiva por… sua mãe (por quem mais?). É quando descobrimos que ele também foi criado sob essa estrutura. A ditadura não criou nada novo, apenas assumiu e impôs os velhos modelos.

Sendo mais um dos mortos ambulantes a partir desse momento, o Marcelo Secreto não vai mais poder gozar do passe-livre que a mãe-Elza lhe prometera, deixando seu filho sem pai nem mãe, para ser criado pelos avós, com uma lacuna aberta entre eles. Para resgatá-la, somente a pesquisadora universitária. Que a fita faz questão de mostrar que é, no recôndito de seu lar… uma mãe. Com o pai presente. Ela é o futuro e, com essa aura, religar o herdeiro do protagonista com sua história. O médico não quer pensar nessas coisas, não usa aliança, não fala sobre descendentes. Parece perdido também. É por isso que aquela negra mãe, amante, cientista e pesquisadora vem para restaurar os vínculos perdidos. Nem que, para isso, em mais uma metáfora sem sutileza à moda Kleber Mendonça, ela tenha que dar o próprio sangue, na casa que já foi um templo de sonhos.