junho 01, 2006
Desculpas de Revisão
Caramba, vi um sujeito separado do predicado lá embaixo (João Havelange, fora eleito...). Peço mil perdões ao distinto público.
A História das Copas do Mundo - Capítulo XVI - A Copa de 1994 - O Tetra!!!
Os capítulos anteriores estão embaixo deste e fornecem um amplo painel da evolução tática e técnica do futebol desde suas origens.
A COPA DE 1994 - A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Desde 1986 os fanáticos brasileiros haviam desistido de proclamar um conterrâneo o maior jogador do mundo. Maradona, Platini, Gullitt e Van Basten tinham todas as honrarias. E nem mesmo o mais fanático torcedor tentaria dizer que Careca, o astro da canarinho, era o maior boleiro do planeta. A seleção de Lazaroni carregava implicitamente essa idéia. Abandonava qualquer pretensão de trupe de gênios para tentar ser uma organizada equipe usando os muitos excelentes atletas disponíveis. Não foi à toa que o próprio Lazaroni declarou que sua equipe era o começo de uma nova era no nosso futebol, uma era não de craques brilhantes, mas de ótimos atletas taticamente disciplinados. Como exemplo, ele citou o grande capitão Dunga. A imprensa imediatamente começou a dizer que ele anunciava a aurora da "era Dunga".
Não deu certo, mas um dos problemas é que todos os olhos estavam voltados para a ex-dupla de frente do São Paulo e não deu a atenção devida a um baixinho genial, prejudicado em sua luta por uma vaga por jogar no obscuro campeonato holandês. Romário foi posto na reserva e acabou ganhando a companhia de Bebeto, quando Muller foi efetivado ao lado de seu ex-companheiro Careca. A maior linha de ataque dos anos 90 ainda teria que esperar 3 anos para voltar a jogar, até as eliminatórias de 1993.
Enquanto isso, a FIFA jogava a toalha. O futebol estava se tornando um espetáculo aborrecido e entediante e os grandes craques eram não os excepcionais armadores, mas os finalizadores capazes de aproveitar as raras chances que aparecessem durante uma partida. O órgão que zela pelas regras do esporte, a International Board, aprovou uma ligeira mudança na regra do impedimento: a partir de então, se um jogador estivesse na mesma linha que o penúltimo adversário, ele estaria em condições de proseguir no lance. Também passaram a haver menos hipóteses do atacante estar impedido sem tocar na bola.
Os jogadores foram também proibidos de atrasar a bola para o goleiro pegar com a mão. Os VTs dos jogos de 1990 mostram a que ponto chegara esse recurso: um time avançava, tocava a bola em busca de uma brecha e, se não a encontrasse, recuava-a para o arqueiro. Com a mudança dessa regra o jogo tornou-se surpreendentemente muito mais ágil. A marcação sob pressão tornou-se mais eficiente. O tempo de bola rolando aumentou muito.
Mas o mais importante foi o reconhecimento de que o protagonista do esporte era o craque. Os juízes foram instruídos a reconhecer esse princípio e fazer valer as regras sobre cartões: qualquer falta intencional, feita para interromper a jogada, deveria ser punida com cartão amarelo. A infração não precisava ser violenta, apenas deveria ser visível que o defensor não tentou a bola, apenas o atacante. Pouco antes de começar a Copa, eles fariam ainda outra importantíssima modificação: a vitória, que durante mais de cem anos valera 2 pontos, passaria a valer 3. O empate perdia sua atração.
Ao mesmo tempo, uma nova geração de treinadores chegava aos clubes e seleções mais importantes. Nos anos 80, além da vitória da Itália na Copa, quem estava no comando dos principais times eram ex-jogadores e estudiosos que tiveram sua formação nos anos de ouro do futebol-força, nos anos 60. Era o caso de Beckenbauer, Billardo e Lazaroni. Na década de 90, foram aqueles que vivenciaram o futebol total e a era da intensa movimentação que começaram a ocupar os cargos de técnico, como o próprio craque-símbolo do carrossel, Cruyff.
Aliás, a seleção canarinho deve muito a Cruyff. Foi ele quem tirou Romário do PSV Eindhoven, levando-o para o clube que treinava, o Barcelona e recolocando-o no palco principal do futebol mundial. Foi a partir daí que os brasileiros lembraram dele e começaram a pedir sua volta à amarelinha. Até então Careca ainda era reverenciado como a grande estrela do Brasil.
Depois do fracasso de 1990, voltou novamente aquele papo de jogadores sem espírito de seleção e que era necessário amor à camisa. Falcão, que havia pendurado as chuteiras e comentou a Copa para a tevê, chamou a atenção por seus comentários elegantes e precisos. Com uma forcinha da imprensa e da opinião pública ele foi escolhido o novo treinador da CBF. Sua estréia foi num amistoso contra a Espanha. Somente atletas jogando no Brasil foram chamados. Os canarinhos perderam de 3 x 0. Para se ter uma idéia do sentimento geral, Falcão declarou depois da surra: "meus jogadores ficaram envergonhados com a derrota. Eles ainda têm vergonha de perder".
Sendo assim provavelmente eles passaram por tremendos constrangimentos, já que uma sequência de péssimos resultados arrasou o prestígio da amarelinha. Falcão foi mandado embora e, imitando seu sogro quase quarenta anos antes, Ricardo Teixeira, o presidente da CBF que era genro do Havelange, resolveu diminuir os poderes do técnico e submetê-los a uma comissão técnica. Parreira passou a ser o treinador da seleção e Zagallo ganhou um vago cargo de "supervisor", cujas funções até hoje não são muito claras.
Os dois armaram um time para uma excursão na Europa em 1992 que teve bons resultados e ótimas apresentações. O meio-campo era ofensivo, com Mauro Silva, Júnior (aquele mesmo, em esplêndida fase aos aos 38 anos), Raí e Luís Henrique. Este último era a única boa descoberta de Falcão. Raí era o símbolo do novo time do Brasil: irmão caçula de Sócrates, nem de longe tinha a técnica do doutor, mas compensava com condição física muito superior. Sob sua liderança, o São Paulo, treinado por Telê Santana, ganharia tudo no começo dos anos 90, tornando-se bicampeão mundial interclubes, igualando o feito do Santos de Pelé, e perdendo um terceiro título da Libertadores nos pênaltis, em casa.
Mas no ano seguinte, ao começarem as eliminatórias, o time começou a ratear. Careca, aos 33 anos, jogava no pouco competitivo campeonato japonês e estava em visível declínio. Nem sequer conseguiu influenciar o técnico para escalar Muller, embora o atacante estivesse no banco. Júnior foi descartado por estar muito velho para uma competição tão acirrada. E Luís Henrique começava a sofrer com os problemas físicos que encerrariam sua carreira prematuramente. Em lugar do ponta-de-lança Parreira escalou Dunga, revoltando toda a torcida.
Por emprestar seu nome à "era Dunga", o excelente volante ficou marcado como atleta grosso, limitado e sem recursos. Nada mais longe da verdade. Soberbo no desarme, com esplêndido senso de colocação, Dunga era o melhor passador da seleção: atravessava jogos inteiros sem errar um passe. Era também bom lançador e multiplicava-se em campo, defendendo e atacando, chamando a si a responsabilidade quando a partida ficava difícil. Mas ninguém enxergava isso. Sem vê-lo fazendo malabarismos com a bola ou dando dribles maravilhosos sem sair do lugar até acabar desarmado (como, por exemplo, o improdutivo Denílson), todos achavam que ele era apenas um quinto zagueiro, capaz apenas de dar carrinhos e fazer faltas.
Depois de uma péssima estréia contra o Equador, empatando em 1 x 1, o Brasil fez uma apresentação pior ainda contra a Bolívia. Sem tempo para uma aclimatação à altitude de mais de 3 quilômetros, lutando contra a falta de ar, o time perdeu sua primeira partida em eliminatórias. Depois de pegar um pênalti, Taffarel, provavelmente sem oxigenação no cérebro, simplesmente jogou uma bola para dentro. O placar de 2 x 0 refletiu o domínio boliviano. Careca pediu para ser dispensado e foi atendido. Os brasileiros não teriam problemas para golear a Venezuela em seguida e em mais um jogo defensivo, empataram em 0 x 0 contra um medíocre Uruguai.
A essa altura, Romário era pedido até pela imprensa paulista, que sempre suportara Muller. Marcando golaço atrás de golaço no Barcelona, o Baixinho se em entrevistas prontificava a comandar o ataque brasileiro. Mas Parreira e Zagallo relutavam em chamá-lo. Tinham seus motivos.
Convocado para um amistoso contra a Alemanha, Romário chegou ao Brasil e soube que não seria escalado como titular. Imediatamente pegou um avião de volta para a Europa. A comissão técnica não queria que jogadores impusessem sua vontade sobre o treinador. Não desejavam repetir os erros de 1990. Por isso o artilheiro foi tirado de seus planos.
Mas pela primeira vez na história a classificação perigava. A Bolívia, aproveitando-se de uma tabela que marcara seus quatro primeiros jogos em casa, a mais de 3 quilômetros de altura, ganhou todos eles e ainda se beneficiou de uma vitória logo em seguida sobre a fraquíssima Venezuela. O New York Times abriu manchete apontando o nascimento de uma nova força no futebol mundial, capaz de vencer 5 jogos seguidos, inclusive contra os ex-campeões Brasil e Uruguai.
Por incrível que pareça, os bolivianos acreditaram que era o brilhante futebol de Etcheverry e amigos, e não os quase 4 quilômetros de altura, que eram os responsáveis por tal desempenho. Em seu primeiro jogo em um lugar decente para se jogar futebol, ao nível do mar, enfrentaram o Brasil e partiram para cima, absolutamente crentes de que eram melhores do que os canarinhos. Tomaram de 6. Seis a zero e não viram a cor da bola. Ainda acreditando em sua superioridade, culparam o calor pelo resultado. Eles não venceriam nenhum jogo a menos de 3 mil metros, mas ainda assim se classificaram e chegando à Copa acreditando que surpreenderiam.
O Brasil venceu o Equador, graças a uma brilhante atuação de Dunga, e a Venezuela. Para se classificar precisava apenas de um empate contra o Uruguai. No Maracanã. Epa. Isso soa familiar.
Mas enquanto isso, vendo que o sujeito escalado para ser o craque do time, Raí, não conseguia se encontrar, a comissão técnica começou a iniciar contactos por telefone com Romário. Depois que o baixinho aceitou sujeitar-se às regras da seleção, Muller simulou uma contusão para que a CBF pudesse inscrever o artilheiro do Barcelona. Ele chegou, treinou duas vezes com o time, foi escalado no comando de ataque... e o resto é história.
Os uruguaios passaram noventa minutos correndo atrás do Baixinho. Se ele estivesse um pouco mais inspirado nas conclusões teria sido uma goleada histórica. Cada vez que pegava na bola levava a defesa inteira e invadia a área. Os platinos não passavam do meio-campo, apavorados com aquela criatura impiedosa que tinha que estrear logo contra eles. Eles conseguiram se segurar até os 26 minutos, mas em mais uma grande jogada Romário abriu o placar. Dez minutos depois ele, quem mais, dá números finais à partida: 2 x 0.
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A Copa de 1994 foi a primeira em que os uniformes passaram a exibir obrigatoriamente o nome dos jogadores, além do número também no calção.
Finalmente após tantos anos o Brasil tem de novo um candidato ao posto de melhor do mundo. Romário torna-se instantaneamente uma lenda. O Baixinho, que sempre gostou de ser o centro das atenções, manipula confortavelmente sua idolatria. Espertamente, alegando a campanha do Barcelona, ele não participa de mais nenhum jogo até a Copa pela seleção, preservando sua imagem. A seleção tem um time titular escalado, um esquema inegavelmente defensivo, voltado para o que um craque conseguir produzir.
Fechando o meio e salvaguardando a zaga estão Dunga e Mauro Silva, no auge da forma. Os dois são ferozes cães de guarda da meia-cancha e, uma vez retomada a bola, saem jogando sem cometer um erro. Tão eficiente é seu bloqueio que a seleção jogou o Mundial com sua quarta dupla de beques: Mauro Galvão e Júlio César têm problemas com a CBF, Mozer apresentou-se doente, Ricardo Gomes contunde-se num amistoso contra o Canadá uma semana antes da Copa e Ricardo Rocha sai mancando na estréia contra a Rússia. Somente depois de todas essa baixas entram Aldair e Márcio Santos. Ainda assim a defesa brasileira é um dos pontos fortes dos canarinhos. Sintomaticamente, nem Aldair e nem Márcio Santos repetiriam tal desempenho sem os dois grandes cabeças-de-área à sua frente.
Mas foi a linha com Romário e Bebeto que deu novamente ao Brasil o status de um dos principais favoritos da competição. Os alemães vinham com praticamente o mesmo time de 1990, envelhecido e sem novidades. A Itália trazia um Baggio bem mais amadurecido para comandá-la. A Colômbia, desde que empatou com os germânicos tocando a bola passou a ser considerada pelos europeus a única nação sul-americana a honrar a tradição de jogo bonito. Olhando o toque de bola bonito e improdutivo de Valderrama, que tanto onerava seus companheiros Rincón e Asprilla, só se pode pensar que a turma do Velho Mundo realmente preferia mesmo era que os terceiro-mundistas ficassem com suas brincadeirinhas dando espetáculos de malabarismo enquanto eles, com sua característica seriedade de adulto, ganhassem. A única grande credencial dos colombianos tinha sido uma vitória de 5 x 0 sobre a Argentina em Buenos Aires, nas mais estranhas circunstâncias.
Como o Brasil, os portenhos tiveram que enfrentar nas eliminatórias a altitude e chegou ao jogo final precisando ganhar da Colômbia. Apesar de pressionar o tempo todo, não conseguiu ameaçar a meta adversária e tomaram um gol de contra-ataque. No segundo tempo, atacando no desespero, viram outras quatro bolas roubadas acabarem no fundo das redes. Os colombianos acertaram praticamente todos os chutes e não desperdiçaram nenhuma chance. Os argentinos foram para a repescagem. Por causa disso resolveram repescar Maradona.
Don Diego começara a ter problemas com drogas, como don Corleone antes dele. Flagrado num exame antidoping em 1991, que apontou o consumo de cocaína, Maradona foi suspenso por 15 meses. Nesse ínterim, sem jogar, Dieguito foi se tornando cada vez mais parecido com seu instrumento de trabalho, a bola. Transferiu-se do Nápoli para o Sevilla e em 1993 estava de volta à Argentina, rotundo, redondo e improdutivo. Mas fez um dos gols que garantiu a classificação na repescagem, numa cobrança de falta, contra a Áustralia.
Passarella, o líbero e capitão de 1978, assumiu o comando da seleção e sua primeira providência foi mandar seus jogadores cortarem o cabelo. Segundo o treinador, longas melenas faziam o atleta se desconcentrar, obrigando-o a passar a mão na cabeça várias vezes na partida. Daí se imagina a disciplina tática que ele exigia.
E assim os portenhos foram para a Copa com o redondo e o Redondo (Nestor Redondo, genial volante). E surpreenderam o mundo quando estrearam contra a Grécia, contando com um Maradona quase 15 kg mais magro do que um ano anterior. Ao seu lado, Caniggia, que também vinha de uma longa suspensão, também ostentava excelente condição física. O baixinho fez um golaço e os gregos caíram de quatro. Na comemoração, don Diego correu para a câmera e urrou, ameaçador. Essa imagem seria usada contra ele mais tarde.
No grupo argentino também estava a Bulgária de Stoichkov, a outra estrela do Barcelona. Para se ter uma idéia da personalidade dele, basta dizer que Romário, apesar de ser amigo dele, achava-o "marrento demais". O mundo inteiro queria ver como o time do artilheiro iria na Copa. Eles entraram em campo, cantaram o hino e de repente teve um arrastão.
O desconhecido time da Nigéria deu-lhes um baile. Altos, fortes, rápidos, habilidosos, os nigerianos deram um banho técnico, tático e físico sobre os europeus. O 3 x 0 saiu barato. E ficou todo mundo querendo ver os renovados argentinos contra esses africanos.
Foi um jogão. Os africanos bateram muito, mas os argentinos, comandados pelo esguio Maradona, saíram de uma desvantagem aos 8 minutos para virar o jogo com dois gols do recuperado Caniggia, aos 21 e 28. Don Diego foi escolhido para o antidoping. E o exame acusou a presença de efedrina.
Efedrina é um estimulante encontrado em remédios para desentupir nariz. Também é usado em moderadores de apetite, remédios para dietas. Maradona veio com uma história que a FIFA, para que ele pudesse jogar e valorizar o Mundial, teria entrado em acordo com ele, permitindo-lhe o uso desses remédios. Obviamente nunca foi apresentada nenhuma evidência dessa estapafúrdia lorota.
Assim que estourou o escândalo, Caniggia foi imediatamente sacado do time, com uma contusão mal explicada, levantando a suspeita que ele também teria se recuperado da longa suspensão com métodos químicos. Os portenhos, sem seus maiores astros, enfrentram Stoichkov e perderam de 2 x 0. Como todo mundo goleou a Grécia, os argentinos passaram de líderes incontestes a terceiros colocados na chave em um jogo. Com isso a outra grande surpresa da Copa estava em seu caminho: a Romênia de Hagi.
Numa era em que as seleções ainda estavam redescobrindo os armadores, um tanto desacostumadas, Hagi mostrou o que valia um meia orquestrando a meia-cancha. Os colombianos entraram contra a Romênia absolutamente confiantes, julgando-se invencíveis. O canhoto romeno comandou um ataque habilidoso e técnico e eles fizeram 1 x 0 aos 15. Aos 34 ele percebeu o goleiro Córdoba adiantado e com sua precisa perna esquerda, encobriu-o para fazer 2 x 0. Higuita havia saído, mas a Colômbia continuava com problemas em sua meta. O jogo terminou 3 x 1.
No jogo seguinte foi a vez dos romenos entrarem desprezando os adversários. Tomaram de quatro dos suíços, que haviam empatado com os americanos na primeira rodada. Já os estadunidenses pegaram uma Colômbia nervosa e como sempre, desorganizada na defesa. O zagueiro Córdoba fez contra as próprias redes aos 35. Os colombianos se desesperaram e num contra-ataque tomaram 2 x 0. Ainda descontaram no final.
Com tantos resultados contraditórios na chave, mesmo a goleada da Colômbia de 4 x 0 sobre a Suíça não classificou os colombianos nem na repescagem. A Romênia tinha ganho dos americanos por 1 x 0 e iria encarar os argentinos.
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O gol contra de Córdoba lhe custaria a vida. De volta ao país, o defensor foi abordado por um apostador que perdera muito dinheiro com a derrota da seleção. Os dois começaram a discutir e o jogador acabou sendo baleado.
Ao lado de Brasil x Holanda, foi o melhor jogo da Copa. Os dois times apresentaram um futebol técnico, de toques curtos e rápidos, perdendo chances de aldo a lado. Os romenos venceram por 3 x 2, mas os argentinos poderiam ter ganho. O problema com Maradona e Caniggia atrapalhara todos os seus planos e foram até mais longe do que se esperava, depois de tudo. Foi a despedida de Maradona da seleção. A FIFA o baniria por reincidência no uso de drogas.
Os bolivianos chegaram à Copa ainda achando que eram bons de bola. Saíram com um mísero empate com a Coréia, que deu um sufoco na Alemanha, mas perdeu de 3 x 2. A Holanda se complicou toda numa chave com Bélgica, Arábia Saudita e Marrocos, mas se classificou. Os italianos fizeram sua já tradicional péssima primeira fase. Só conseguiram a vaga mais uma vez no número de gols marcados, depois de empatar no saldo e nos pontos com a Noruega, o México e a Irlanda. Isso mesmo. Nesse grupo todo mundo tinha 4 pontos e saldo zero.
O Brasil estreou tranquilamente contra uma assustada Rússia. Romário praticamente só tocou na bola aos 26 minutos. Usando seus extraordinários poderes para o bem, o atacante, numa cobrança de escanteio, pressentiu que o pesadão zagueiro que o marcava não se moveria, contornou-o por trás e botou o pezinho para empurrar a bola para as redes.
Os brasileiros, que já controlavam o jogo, passaram a dominar completamente. Raí fez sua melhor apresentação em muito tempo. Ele fez o segundo, de pênalti, depois que Romário arrancou, driblou a defesa e foi derrubado já na área. Começava a tomar forma a lenda do Baixinho.
Ele também abriu a contagem contra Camarões. Os camaroneses haviam mostrado um jogo de alta técnica e desorganização tática no empate contra os suecos. Contra os brasileiros não ousaram tanto e se retrancaram. No final do primeiro tempo Dunga roubou uma bola no meio-campo e imediatamente deu um lançamento de trivela, lembrando Didi, que deixou logo Romário na cara do gol. Um a zero.
No segundo tempo os africanos tiveram que correr atrás e, como temiam, nada conseguiram contra o sólido esquema defensivo de Parreira. Num cruzamento de Dunga, Márcio Santos fez o segundo. Romário ainda faria uma arrancada sensacional, driblando todo mundo e chutando para a rebatida do goleiro. Bebeto veio como um raio, conseguiu chegar lá de trás na frente de todo mundo e completou o placar.
O Brasil tinha garantido a vaga. Mas os suecos tinham vencido os russos. Os brasileiros precisavam ao menos de um empate para assegurar o primeiro lugar e pegar um time teoricamente mais fraco na próxima fase. E o jogo seria, pela primeira vez na história, num estádio inteiramente coberto, com um campo adaptado de futebol americano, que é muito mais estreito.
A Suécia tinha um time centrado no roliço e técnico Brolin, habilidoso e driblador como um sul-americano, que municiava o ataque com Kenneth Andersson, centroavante grandalhão do tipo "rompedor", que se aproveitava de sua altitude para marcar muitos gols de cabeça e Dahlin, um sueco fácil de reconhecer, já que era o único negro naquele time de branquelas. Dahlin era rápido, mexia-se pelas duas pontas e sabia driblar e cruzar, além de finalizar, complementando perfeitamente seu companheiro grandalhão.
Os suecos, é claro, entram retrancados, tentando um contra-ataque. Num desses, Mauro Silva tenta resolver a jogada lá no meio-campo, mas Brolin escapa e lança Andersson. Do bico da área ele acerta um toque de cobertura sobre Taffarel, botando a bola no ângulo. Um golaço.
O Brasil não consegue produzir nada. Parreira finalmente se cansa de Raí e no intervalo põe em seu lugar Mazinho, outro cabeça-de-área. Técnico e habilidoso, mas jogador de características defensivas. Dá sorte. Logo aos 2 minutos Romário dá mais uma arrancada do meio-campo e faz seu terceiro gol na Copa. Os dois times ficam contentes com o resultado. E acaba 1 x 1. O adversário brasileiro serão os EUA.
No feriado do dia da independência. O time americano é muito fraco. Seu jogador mais conhecido é o líbero Alexi Lalas, principalmente por seu visual grunge. Eles entram na defesa, como esperado. O Brasil desperdiça algumas oportunidades. Por algum motivo o lateral-esquerdo brasileiro Leonardo se irrita com a marcação e dá uma cotovelada em Tab Ramos. O uruguaio naturalizado estadunidense cai em convulsão no campo. Cartão vermelho para Leonardo. A seleção canarinho fica desnecessariamente com dez.
Mas os americanos temem a amarelinha. Como o resto do mundo, aliás. Permanecem na defensiva. Têm uma única oportunidade. O Brasil perde várias. Romário continua jogando muito, arrancando e driblando vários beques, mas errando na finalização. No segundo tempo as chances brasileiras começam a rarear. Começa a pesar o cansaço de ter que atacar o tempo todo com um a menos. A torcida, escaldada, começa a temer pelo pior.
Mas Romário dá outra arrancada, dribla todo mundo e, quando o líbero vem no desespero para cima, ele abre a bola para Bebeto. Livre, o atacante se livra do goleiro e abre o placar. Corre para o Baixinho e todo o mundo consegue ler em seus lábios a declaração "eu te amo".
Além da eliminação da Argentina, o que ocorre de importante nos outros jogos das oitavas-de-final? A sensação Nigéria pega os retranqueiros de sempre, os italianos. Fazem 1 x 0, perdem várias chances e no final do jogo ensaiam um olé. A Azzurra recupera a bola e contra-ataca. Baggio empata aos 43 do segundo tempo. Os africanos, atônitos, são eliminados na prorrogação.
A Holanda bate a Irlanda, joga bem e é o próximo adversário brasileiro. Os suecos não tomam conhecimento da Arábia Saudita. Os envelhecidos alemães jogam para o gasto e mandam os belgas do grande Scifo, remanescente da semi-final de 1986, embora.
A Bulgária elimina o México nos pênaltis. O jogo é chato, mas uma das traves quebra e o mundo inteiro subitamente descobre que estádios de futebol têm traves reservas para emergências como essa. Começa a parecer que a bela exibição contra a Argentina foi fruto dos problemas sul-americanos. Stoichkov não vai conseguir empurrar essa turma contra os arrogantes campeões germânicos nas quartas-de-final.
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A Copa de 1994 marcou a introdução do carrinho para pegar os jogdores contundidos. Até então dois sujeitos carregavam uma maca para pegar o pobre coitado. Apesar de menos prático do que os maqueiros, o veículo, movido a eletricidade e originalmente usado por golfistas para percorrer o campo, impressiona todo mundo e começa a ser adotado planeta afora.
E o jogo começa parecendo dar razão aos críticos. O time da Alemanha porta-se da mesma maneira de quatro anos atrás: tem muitos bons jogadores, mas nenhum verdadeiro craque. Seu estilo de corre-defende-lança-cruza-gol já não funciona tão bem sob o sol do meio-dia e com tantos balzaqueanos em suas linhas. Eles visivelmente se poupam, esperando a hora certa para dar o bote, usando sua vasta e veterana experiência. E funciona: eles abrem o placar aos 2 do segundo tempo e num contra-ataque Voller só não aumenta por milagre.
Mas a Bulgária não se entrega. Stoichkov deixa a cautela de lado e lidera o time para a frente. Num escanteio o búlgaro pega a bola na quina da área e cai. O juiz marca falta contra os germânicos. Ele mesmo - Stoichkov, não o juiz! - cobra magistralmente e empata aos 30 do segundo tempo.
Os alemães ficam atordoados. Não têm forças para reagir. Três minutos depois um cruzamento encontra a pouca telha de Letchkov na área germânica. Dois a um para a Bulgária. Pela segunda vez apenas desde que voltaram às Copas em 1954 os teutônicos não chegam a uma semifinal. Sua poderosa geração dos anos 80, que lhes deu 1 Mundial, 2 vice-campeonatos e 2 Eurocopas, está chegando ao fim.
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Os jogos da Copa de 1994 foram disputados sob calor inclemente. O horário local era entre meio-dia e cinco da tarde. Era a rendição do esporte ao marketing: a essa hora as partidas apareciam nas tevês européias no horário nobre e tinham uma audiência bem maior na terra onde o dinheiro está.
Em mais um jogo retrancado os italianos despacham uma Espanha que jogou melhor. Camiñero vem de trás, enganando a linha de impedimento, e fica cara a cara com Pagliuca e perde. Baggio novamente marca aos 43 do segundo tempo. Os torcedores da Itália, os tifosi, começam a acreditar numa reedição de 1982.
Suécia e Romênia é um jogão. Brolin marca aos 33 do segundo tempo. Os romenos, sempre sob a batuta de Hagi, empatam a 2 minutos do fim. E pensar que 1990 foi uma Copa tão chata. Os romenos saem na frente na prorrogação e perdem um gol feito. Kenneth Andersson equaliza. Nos pênaltis os suecos saem atrás, mas acabam virando e garantem a vaga na semifinal. Contra o Brasil.
Os brasileiros fizeram o melhor jogo da Copa contra os holandeses. Podia não ter sido tão emocionante. Muita gente que não é fã de Dunga costuma falar maravilhas da zaga Aldair-Márcio Santos, mas nesse jogo pela primeira vez eles são realmente pressionados e quase entregam uma partida ganha.
A Holanda vem subindo de produção e tem craques como Rijkaard, Bergkamp e Overmars. Este último é a maior preocupação. Gosta de jogar pela direita e Leonardo, que deveria marcá-lo, está suspenso pelo resto do Mundial. Em seu lugar entra Branco. Titular indiscutível um ano antes, o lateral perdeu a vaga não por deficiências, mas por excessos. De peso. Sua silhueta roliça não lhe dá mobilidade. Mas é quem está disponível.
Os dois times se estudam durante a maior parte do primeiro tempo. O sólido bloqueio brasileiro lhe dá o controle da bola, mas não surgem oportunidades. Então, lá pelos 35 do primeiro tempo, quando a marcação holandesa cansa, acontece quase um milagre: Romário se cansa de ficar isolado no ataque, sem participar do jogo, recua para o meio-campo, traz Bebeto com ele e durante quase dez minutos os canarinhos relembram porque aquela camisa é uma lenda.
Numa jogada de longa troca de passes curtos, com os jogadores se movimentando pelo campo, com beleza e objetividade, Aldair entra sozinho na área adversária, mas erra o toque final. O Brasil perde a chance de marcar um gol antológico. Outra oportunidade é perdida. O jogo vai para o intervalo justamente quando a torcidda brasileira finalmente tem um gostinho do jogo bonito.
A partida reinicia. O Brasil domina ainda mais, mas já sem a beleza do final do primeiro tempo. Até que aos 8 minutos Aldair rouba uma bola lá atrás e faz um belo lançamento para Bebeto na ponta-direita. O atacante vence a marcação na corrida e rola para Romário já na área. O Baixinho bate na bola com o pé com que cai no chão. Mais um belo gol, o quarto na Copa.
A Laranja fica atordoada. Parte para o ataque e se abre. A defesa brasileira rebate um lance de cabeça. A bola vem na direção de Romário, no meio-campo, completamente impedido. Mas ele a ignora, mal se mexe, displicente, deixa claro que não quer participar da jogada. Bebeto, novamente rápido como um raio, vem lá de trás e pega a bola. Os holandeses ainda não se acostumaram com a nova regra e não compreendem que está valendo. Bebeto, completamente livre, dribla o goleiro e faz 2 x 0.
Eram 18 do segundo tempo. A Laranja ainda não tinha feito absolutamente nada no ataque. Seu melhor jogador, Rijkaard, sai para dar vaga a um atacante. E o time melhora. O veterano volante estava cansado. A Holanda se fechara na defesa até então. Não é o estilo deles. Eles não sabem jogar assim. Preferem ir para a frente, pressionar, fazer o adversário correr atrás deles.
O Brasil simplesmente pára de jogar. Poupa-se. Pensando assim Márcio Santos protege uma bola com o corpo para fazer o tempo passar. Mas vacila e Bergkamp a rouba dele, num erro crasso do beque brasileiro, e diminui, aos 19 minutos.
Os brasileiros preferem segurar o resultado. Não querem se arriscar. É a filosofia de Parreira. Mas, numa cobrança de escanteio, os zagueiros e o goleiro falham. Winter, aos 31, da pequena área, empata. Taffarel lembra Manga em 1966, quando os arqueiros brasileiros simplesmente não sabiam sair do gol.
Do céu ao inferno em 15 minutos. O Brasil tinha tudo a seu favor, agora está a um passo da eliminação. Os jogadores ficam assustados e começam a errar as jogadas mais simples. Romário, que nunca gostou de treinar e manter a forma, começa a sentir os efeitos do esforço despendido até então e desaparece em campo. E não tem ninguém para armar na meia-cancha. Os holandeses estão cheios de moral e começam a ameaçar Taffarel.
Então, aos 36 minutos, Branco torna-se o herói do jogo. Chama a si a responsabilidade. Anulou Overmars e ainda aguenta correr. Pede a bola e vai para o ataque. Disputa uma bola com um holandês, empurra-o com o cotovelo e ganha o lance. O juiz não vê a infração. Alguns metros adiante nova dividida. Branco se atira ao chão e convence o árbitro que foi falta. Os europeus nem discutem muito, é uma cobrança despretensiosa lá na intermediária.
Mas Branco é um dos melhores cobradores de falta do mundo. Ele toma distância e manda o chute mais traiçoeiro para o goleiro: uma potentíssima bomba rasteira. O arqueiro demora a pular, tem a visão encoberta pela barreira e por Romário. A bola entra no cantinho. Branco vai comemorar com Parreira, que acreditou nele. Os holandeses é que não acreditam mais. O gol foi uma ducha de água fria. Não têm animo de correr atrás de novo. Os brasileiros, agora tranquilos, seguram o jogo. Agora é pegar a Suécia, o único time que os canarinhos não venceram.
Mas as circunstâncias são outras. Eles vêm exaustos de uma prorrogação. Tiveram um dia a menos de descanso. Para um time que se baseia em força física é um péssimo começo. Ainda por cima Dahlin, o motor do ataque, se contundiu. O treinador tenta um gambito: ele troca o jogador de posição com o grandalhão Andersson. Sua esperança é que Andersson, ao cair pelas extremas, atraia a marcação brasileira, quando então o arisco Dahlin, incapaz de correr muito, valendo-se de sua habilidade, entrará pelo meio para marcar.
É claro que não funciona. Andersson é completamente nulo fora da área. O jogo é um treino de ataque contra defesa. O goleiro sueco Ravelli é o grande nome em campo. O Brasil perde chance atrás de chance. Numa delas Romário dribla toda a defesa, passa por Ravelli e toca para a rede. Na linha de gol um zagueiro rebate no pé de Mazinho, na pequena área. O técnico volante chuta para fora.
Os brasileiros dominam, perdem chances, mas estão confiantes. Não se enervam. Nem com os seguidos erros de cruzamento de Jorginho, que tem uma avenida por onde apoiar. A defesa sueca erra seguidamente. O goleiro se sobressai. Tentando irritar os canarinhos, começa a provocá-los a cada oportunidade desperdiçada. Correndo atrás o tempo todo, o volante escandinavo faz seguidas faltas e é expulso. E ainda assim o gol não sai.
Por um momento quase que tudo vai por água abaixo. Brolin arranca do meio-campo e irrompe pelo meio. Lembra a jogada de Maradona em 1990. Mas Andersson não é Caniggia. Não se posiciona bem quando o armador faz o passe e é desarmado. Foi a única chance sueca em toda a partida. Eles perderam a chance de fazer a final.
Romário cai de produção assustadoramente. O esforço seguido por quase um mês sob sol de meio-dia lhe é completamente inédito. Ele nunca suou tanto. Já não tem forças para suas maravilhosas arrancadas. Mas os suecos estão muito mais exaustos. Jorginho faz mais um cruzamento, depois de errar tantos o jogo inteiro. A defesa nórdica não aguenta mais pular para rebater a bola. Romário, mesmo um palmo mais baixo que os zagueiros adversários, está sozinho para cabecear. Eram 35 minutos do segundo tempo e os escandinavos sabem que estão fora. Na outra semi-final os inexperientes búlgaros não resistem aos agora sólidos e confiantes italianos. Brasil e Itália se enfrentarão pela quarta vez em Copas. Os 3 jogos anteriores - 1938, 1970, 1982 - entraram para a história.
A Azzurra está tão confiante que escala Baresi para a final. O líbero havia torcido o joelho no primeiro jogo e se submeteu a uma artroscopia. Surpreendendo todo mundo, em menos de um mês está pronto para jogar. Mas não está em plenas condições. Roberto Baggio também não. Fez os 2 gols contra os búlgaros, mas se contundiu. Ele e Romário marcaram 5 vezes. Stoichkov, seis. Também está em jogo a artilharia do Mundial.
A partida é chata. Lembra 1990. Ninguém se arrisca. Os dois times estão fechadíssimos. Romário está visivelmente sem tempo de jogo, exausto de tudo que fez até então. Num cruzamento, ele erra a conclusão da pequena área. Em outro, erra a bola. São as grandes chances brasileiras, além, é claro, de um chute despretensioso de Mauro Silva que Pagliuca solta grotescamente e só não entra porque bate no poste. O goleiro italiano beija a trave, em agradecimento. Já a Itália tem uma única chance. A defesa canarinho erra a linha de impedimento e Massaro entra na área completamente livre. Sua finalização acaba nas mãos de Taffarel, quando ele tinha todo o gol à disposição. Taffarel se redime do erro contra a Holanda com uma grande e importantíssima defesa.
E o 0 x 0 leva à prorrogação. Romário perde mais uma chance. Bebeto está bem marcado. Viola entra no lugar de Zinho com disposição para correr, mas suas arrancadas são bem conduzidas pelos beques italianos para fora da área e não dão em nada. A outra substituição tinha sido Cafu, ainda no primeiro tempo, no lugar de Jorginho, machucado. É a primeira final do brasileiro, numa inacreditável saga que acabaria com ele levantando a taça.
E nada se resolve também na prorrogação. Pela primeira vez na história uma Copa vai ser decidida nos pênaltis. Até 1986, se houvesse empate na prorrogação haveria uma partida-desempate.
Baresi, o experiente líbero, bate o primeiro. Fora de condições físicas, extenuado, erra feio. Márcio Santos cobra pelo Brasil e mantém o 0 x 0. A bola não quer entrar.
Albertini converte. Romário, que não é um bom batedor de pênaltis, vai para a bola. "Eu sou craque, e craque tem que decidir quando precisa", diria o marrento baixinho depois. Empata. Evani põe a Azzurra em vantagem. Branco é quase infalível com bola parada e iguala tudo.
A torcida brasileira sua frio. É traumatizada com a eliminação de 1986. Mas Taffarel não é Carlos, não tem o azar de Carlos. Massaro bate mal e o goleiro pega. Dunga vai para a bola e converte. O capitão sai sorrindo, com a sensação de dever cumprido. Fez tudo que lhe foi exigido naquele Mundial e, embora não soubesse, acabava de marcar o gol da vitória.
Porque quem vai bater por último para a Itália é o grande craque Baggio. O budista se aproxima da bola. A chegada naquela final é tanto um feito dele quando a do Brasil é de Romário. O esforço o exauriu e ele não está em perfeitas condições. Ele chuta e erra terrivelmente, manda muito acima da trave. Pelé, comentando o jogo para a tevê, sai pulando na tribuna de imprensa abraçado a Galvão Bueno, que grita "É tetra! É tetra!" Romário é eleito o melhor da Copa e do mundo. O escrete verde-amarelo é campeão e ninguém no mundo discute que foi quem mais mereceu.
Inacreditavelmente, só parte da imprensa brasileira protesta. Ganhar na disputa de pênaltis não é a tradição verde-amarelo. Não é o jogo bonito. Parreira foi incompetente. Outro técnico teria feito muito melhor. Frente ao título fica difícil pensar se eles não teriam interesse em indicar seu treinador preferido. Depois de 24 anos os canarinhos estão no topo do mundo. E esse mundo está preocupado. Se os jogadores do escrete realmente adicioaram disciplina tática e defesa sólida ao seu brilhante ofensivismo, eles se tornariam quase imbatíveis.
E o tempo lhes deu razão.
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O time campeão: Taffarel, Jorginho (Cafu), Aldair, Ricardo Rocha (Márcio Santos) e Leonardo (Branco); Dunga, Mauro Silva, Zinho (Paulo Sérgio) e Raí (Mazinho); Romário e Bebeto.
ROMÁRIO
Se você não sabe quem é Romário, ainda em atividade neste exato momento, então você é um extraterrestre (como Garrincha não era). E não seria certo dar a alienígenas informações que poderiam ser vitais para a defesa (e o meio-campo e o ataque) da Terra. Mas, pensando bem, como elas podem ser encontradas em qualquer lugar do planeta, então é melhor que fique sabendo por aqui mesmo, então vamos lá:
Romário é baixinho, com 1,67 metro, e tem as mesmas pernas curtas, grossas e musculosas de Maradona. A semelhança pára aí e no fato de ambos serem provavelmente os dois maiores jogadores de futebol pós-Jules Rimet, ao lado de Cruyff. O argentino era articulador de jogo, especialista em lançamentos e gostava de driblar costurando, ou seja, se metia no meio da defesa e ia parando e arrancando, mudando de direção, diminuindo a velocidade e acelerando de novo. Romário, ainda mais preguiçoso do que don Diego, sempre preferiu se colocar bem, perto do gol, para receber a bola, driblar seu marcador e descobrir uma linha reta e desobstruída até a meta do adversário. Seu estilo de finta nunca foi muito de ciscar e dar quebras de asa, mas de cortes retos e rápidos. A bola parecia grudada em seu pé como por um imã, herança do aprendizado nas quadras de futsal, onde a espaço é menor e se desenvolve mais o controle da redonda junto à chuteira, enquanto nos gramados há muito espaço para correr, dar um toque na bola adiantando-a, correr mais atrás dela, dar outro toque, e assim chegar até o outro lado.
Romário no começo de carreira não era grande finalizador, mas melhorou bastante com a idade. Apesar da baixa estatura tinha impulsão de 71 centímetros e sempre marcou muitos gols de cabeça, fundamento que domina bem. Não só tinha inacreditável arrancada como conseguia manter o pique por trinta, quarenta, cinquenta metros. Quando era mais novo, é claro. Sempre com a bola nos pés. Como num gol contra o Botafogo, em que pegou a bola num rebote de escanteio na sua meia-lua e atravessou todo o campo para só parar dentro da meta botafoguense.
Romário também tem excelente visão de jogo, mas não é hábil em lançamentos. Sua especialidade são os toques curtos de primeira, quando volta para buscar jogo. Levantar a bola não é muito com ele: quando cai pelas pontas não sabe fazer cruzamentos.
Romário começou jogando bola num time de bairro montado pelo pai, que sempre sonhou em vê-lo como jogador profissional. Desde pequeno com esse objetivo e o talento, nunca foi dado a estudo, o que não prejudicou sua inteligência, embora talvez não lhe tenha dado maturidade suficiente para levar sua carreira ainda mais longe do que foi. Cruyff, por exemplo, disse que se o baixinho gostasse de treinar era craque para disputar com Pelé o posto de deus indiscutível do esporte. Mas também, vendo o que ele conseguiu, será que teria mesmo valido a pena?
Romário jogava no infanto-juvenil do Olaria quando foi contratado pelo Vasco. Em 1985 estava relacionado para ir ao Mundial de Juniores, mas envolveu-se num caso envolvendo hotéis, prostitutas e histórias mal-explicadas e acabou sendo cortado. Seu reserva Muller foi o artilheiro do torneio e, jogando num clube em grande evidência, em São Paulo, foi saudado como grande promessa de craque, ganhando vaga na Copa dos crescidos em 1986. Ou seja, por causa desse incidente, o Brasil perdeu Romário até a Copa de 1990.
Melhor para o Vasco, que botou o garoto dispensado do Mundial de Juniores no time titular e ele acabou fazendo uma dupla infernal com Roberto, os dois sendo os artilheiros do campeonato carioca daquele ano. Em 1987 os cruzmaltinos montaram um grande time e finalmente Romário despontou para o resto do Brasil. Chegou à seleção e destacou-se na Copa América e foi o artilheiro da Olimpíada de Seul em 1988, numa época em que o torneio de futebol estava liberado a qualquer jogador que nunca tivesse disputado Copa do Mundo ou eliminatórias. O baixinho fez até gol na final, de cabeça, no meio da alta defesa soviética, mas acabou só com a medalha de prata, depois da derrota na prorrogação.
Seus gols despertaram atenção internacional e ele seguiu para o PSV Eindhoven. A liga holandesa, depois de um brilhante período nos anos 70, vivia em relativa obscuridade e os muitos feitos de Romário num campeonato de pouca repercussão passaram relativamente desapercebidos. Apesar de ter brilhado na Copa América de 1989, quando o escrete canarinho foi campeão após 40 anos - ou seja, desde quando não era canarinho ainda - e nas Eliminatórias, todos sabiam que o ataque já tinha um titular certo, Careca. E que ele, Bebeto e Muller lutavam pela segunda vaga. E Careca preferia seu velho companheiro do São Paulo, Muller.
Além disso, Romário sofreu uma pequena fratura e, como era de seu feitio, não levou muito a sério o conselho de se poupar e fazer tratamento intensivo. Foi gravar um comercial e acabou agravando seu estado. O médico Lídio Toledo queria cortá-lo, mas ele levou seu próprio fisioterapeuta para a concentração da seleção e criou mais um caso. Acabou não conseguindo se recuperar a tempo, como já previa Lídio, e ficou de fora do time que foi desclassificado pela Argentina. A segunda chance de disputar uma Copa se fora. Mais quatro anos de espera.
Romário foi ignorado por Falcão, em sua passagem no comando do escrete. O antigo volante dava preferência a jogadores atuando no Brasil, que tivessem mais "espírito de seleção". Previsivelmente não durou muito e foi substituído por Parreira. O baixinho foi convocado em dezembro de 1992 para jogar um amistoso contra a Alemanha no Rio Grande do Sul. Ao chegar, soube que ficaria no banco, para entrar no segundo tempo. Pegou o primeiro avião de volta e o diretor-técnico Zagallo, sempre facilmente irritável, disse que ele não voltaria a atuar com a amarelinha.
Mas Cruyff foi treinar o Barcelona e, tendo visto Romário atuando na Holanda, avisou para contratarem o baixinho enquanto ele estava por baixo (perdão pelo trocadilho). O Barça era na época o clube que dominava o futebol mundial e Romário imediatamente voltou aos holofotes e seus gols estavam em todas as tevês do mundo. Enquanto isso, com um Careca de 33 anos que atuava no futebol japonês para o papel de estrela da seleção, o escrete claudicava nas eliminatórias. O Brasil inteiro clamou por Romário. Parreira, sempre conciliador, cedeu e convenceu Zagallo de que fora tudo um mal-entendido. E ele chegou para jogar contra o Uruguai, jogo que os canarinhos precisavam vencer.
Sua volta foi triunfal. Sozinho, levou pânico à defesa uruguaia, levando os beques ao choro e ranger de dentes. Depois de perder caminhões de gols, driblando todo mundo cada vez que pegava na bola, fez os dois da vitória por 2 x 0. E, fiel à sua filosofia de vida, avisou que não o fizessem perder tempo vindo a amistosos de preparação, só o chamassem para a Copa.
E Zagallo e Parreira aceitaram.
Desnecessário repetir aqui o capítulo anterior sobre a Copa de 1994, a Copa de Romário. O baixinho era o melhor jogador do mundo, o maior craque do planeta, o posto antes de Maradona era dele. E, em 1995, cansado de ter que treinar a sério todo dia, coisa que seus empregadores europeus sempre exigiriam, voltou para jogar no Flamengo. A torcida rubro-negra foi à loucura. Assim como os técnicos do clube.
Falta espaço aqui para contar os dez anos de Romário em sua volta ao Brasil. Suas tumultuadas passagens por Flamengo, Sevilla, Flamengo de novo, Vasco, Fluminense e Vasco de novo. No capítulo sobre a Copa de 1998 é narrado como ele perdeu mais uma chance para jogar outro Mundial. Também desperdiçou a oportunidade de estar entre os 22 de Felipão em 2002, como é narrado no capítulo pertinente. Como disse Cruyff, ele é o gênio da grande área, mas poderia ser considerado um deus indiscutível do esporte. Avesso a treinamentos, a correr atrás da bola, a se empenhar em campo, a dormir cedo, a se poupar e adepto de churrasco, noitadas, namoros, paqueras e qualquer coisa relacionada à interação com o sexo oposto, ele surpreendentemente não bebe álcool, o que provavelmente é a melhor razão para ainda estar em atividade.
Com sua inteligência aguda, capaz de achar um erro num contrato ao lê-lo depois que todos os seus advogados já haviam estudado os termos, Romário é um grande frasista e entre suas pérolas estão "quando eu nasci, Deus apontou um dedo e disse, esse é o cara!", "Pelé mudo é um poeta, quando fala estraga tudo", e uma outra que tem a fama de ter derrubado um candidato a técnico da seleção. Em 2001, Vanderley Luxemburgo foi demitido do comando do escrete, depois de uma péssima campanha nas eliminatórias. Mais uma vez o Brasil inteiro pedia por Romário, embora dessa vez ele tivesse 35 anos. Levir Culpi, cotado para assumir o cargo, já prevendo o que lhe cobrariam, deu uma entrevista declarando que para a seleção era preciso convocar jogadores pensando não em como eles estavam no momento, mas como estariam na Copa. Romário soube e respondeu dizendo que "ele não é Mãe Dinah para saber como vou estar daqui a um ano". Levir não soube como retrucar e viu suas chances se esfumarem. Para o bem de todos assumiu Felipão, que até chegou a convocar o baixinho, mas a história é melhor contada no capítulo sobre o Mundial de 2002.
Romário está com 40 anos e acaba de ser contratado para jogar num clube em Miami. Com essa provecta idade para um atleta profissinal, foi o artilheiro da primeira divisão do campeonato brasileiro. Ainda tem defensores que acham que Ronaldo é um fenômeno só de marketing, invenção da Nike, e que o baixinho no comando do ataque da canarinho traria o caneco na certa. Com toda certeza ele não estará na Alemanha em 2006, mas continua sua carreira, rumo ao milésimo gol, marca para a qual faltam cerca de quarenta tentos (há uma discussão quanto aos seus números), o que está longe de ser impossível de ser conseguido antes de pendurar as chuteiras.
Acima do peso, sem mobilidade nenhuma, sem velocidade e sem arrancada sequer para conseguir dar um bom drible, é impressionante como Romário ainda consegue jogar profissionalmente e fazer gols. Muitos gols. É triste imaginar que sua carreira está bem próxima do fim, depois de duas décadas de brilho e sucesso. O garoto de 20 anos que uma vez disse que queria parar com 28 parece ter se tornado eterno. Como os Simpsons ou o Jornal Nacional na tevê. Para uma geração inteira, acompanhar futebol é acompanhar o Romário. E vai ser muito triste o dia em que ele parar.
A COPA DE 1994 - A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Desde 1986 os fanáticos brasileiros haviam desistido de proclamar um conterrâneo o maior jogador do mundo. Maradona, Platini, Gullitt e Van Basten tinham todas as honrarias. E nem mesmo o mais fanático torcedor tentaria dizer que Careca, o astro da canarinho, era o maior boleiro do planeta. A seleção de Lazaroni carregava implicitamente essa idéia. Abandonava qualquer pretensão de trupe de gênios para tentar ser uma organizada equipe usando os muitos excelentes atletas disponíveis. Não foi à toa que o próprio Lazaroni declarou que sua equipe era o começo de uma nova era no nosso futebol, uma era não de craques brilhantes, mas de ótimos atletas taticamente disciplinados. Como exemplo, ele citou o grande capitão Dunga. A imprensa imediatamente começou a dizer que ele anunciava a aurora da "era Dunga".
Não deu certo, mas um dos problemas é que todos os olhos estavam voltados para a ex-dupla de frente do São Paulo e não deu a atenção devida a um baixinho genial, prejudicado em sua luta por uma vaga por jogar no obscuro campeonato holandês. Romário foi posto na reserva e acabou ganhando a companhia de Bebeto, quando Muller foi efetivado ao lado de seu ex-companheiro Careca. A maior linha de ataque dos anos 90 ainda teria que esperar 3 anos para voltar a jogar, até as eliminatórias de 1993.
Enquanto isso, a FIFA jogava a toalha. O futebol estava se tornando um espetáculo aborrecido e entediante e os grandes craques eram não os excepcionais armadores, mas os finalizadores capazes de aproveitar as raras chances que aparecessem durante uma partida. O órgão que zela pelas regras do esporte, a International Board, aprovou uma ligeira mudança na regra do impedimento: a partir de então, se um jogador estivesse na mesma linha que o penúltimo adversário, ele estaria em condições de proseguir no lance. Também passaram a haver menos hipóteses do atacante estar impedido sem tocar na bola.
Os jogadores foram também proibidos de atrasar a bola para o goleiro pegar com a mão. Os VTs dos jogos de 1990 mostram a que ponto chegara esse recurso: um time avançava, tocava a bola em busca de uma brecha e, se não a encontrasse, recuava-a para o arqueiro. Com a mudança dessa regra o jogo tornou-se surpreendentemente muito mais ágil. A marcação sob pressão tornou-se mais eficiente. O tempo de bola rolando aumentou muito.
Mas o mais importante foi o reconhecimento de que o protagonista do esporte era o craque. Os juízes foram instruídos a reconhecer esse princípio e fazer valer as regras sobre cartões: qualquer falta intencional, feita para interromper a jogada, deveria ser punida com cartão amarelo. A infração não precisava ser violenta, apenas deveria ser visível que o defensor não tentou a bola, apenas o atacante. Pouco antes de começar a Copa, eles fariam ainda outra importantíssima modificação: a vitória, que durante mais de cem anos valera 2 pontos, passaria a valer 3. O empate perdia sua atração.
Ao mesmo tempo, uma nova geração de treinadores chegava aos clubes e seleções mais importantes. Nos anos 80, além da vitória da Itália na Copa, quem estava no comando dos principais times eram ex-jogadores e estudiosos que tiveram sua formação nos anos de ouro do futebol-força, nos anos 60. Era o caso de Beckenbauer, Billardo e Lazaroni. Na década de 90, foram aqueles que vivenciaram o futebol total e a era da intensa movimentação que começaram a ocupar os cargos de técnico, como o próprio craque-símbolo do carrossel, Cruyff.
Aliás, a seleção canarinho deve muito a Cruyff. Foi ele quem tirou Romário do PSV Eindhoven, levando-o para o clube que treinava, o Barcelona e recolocando-o no palco principal do futebol mundial. Foi a partir daí que os brasileiros lembraram dele e começaram a pedir sua volta à amarelinha. Até então Careca ainda era reverenciado como a grande estrela do Brasil.
Depois do fracasso de 1990, voltou novamente aquele papo de jogadores sem espírito de seleção e que era necessário amor à camisa. Falcão, que havia pendurado as chuteiras e comentou a Copa para a tevê, chamou a atenção por seus comentários elegantes e precisos. Com uma forcinha da imprensa e da opinião pública ele foi escolhido o novo treinador da CBF. Sua estréia foi num amistoso contra a Espanha. Somente atletas jogando no Brasil foram chamados. Os canarinhos perderam de 3 x 0. Para se ter uma idéia do sentimento geral, Falcão declarou depois da surra: "meus jogadores ficaram envergonhados com a derrota. Eles ainda têm vergonha de perder".
Sendo assim provavelmente eles passaram por tremendos constrangimentos, já que uma sequência de péssimos resultados arrasou o prestígio da amarelinha. Falcão foi mandado embora e, imitando seu sogro quase quarenta anos antes, Ricardo Teixeira, o presidente da CBF que era genro do Havelange, resolveu diminuir os poderes do técnico e submetê-los a uma comissão técnica. Parreira passou a ser o treinador da seleção e Zagallo ganhou um vago cargo de "supervisor", cujas funções até hoje não são muito claras.
Os dois armaram um time para uma excursão na Europa em 1992 que teve bons resultados e ótimas apresentações. O meio-campo era ofensivo, com Mauro Silva, Júnior (aquele mesmo, em esplêndida fase aos aos 38 anos), Raí e Luís Henrique. Este último era a única boa descoberta de Falcão. Raí era o símbolo do novo time do Brasil: irmão caçula de Sócrates, nem de longe tinha a técnica do doutor, mas compensava com condição física muito superior. Sob sua liderança, o São Paulo, treinado por Telê Santana, ganharia tudo no começo dos anos 90, tornando-se bicampeão mundial interclubes, igualando o feito do Santos de Pelé, e perdendo um terceiro título da Libertadores nos pênaltis, em casa.
Mas no ano seguinte, ao começarem as eliminatórias, o time começou a ratear. Careca, aos 33 anos, jogava no pouco competitivo campeonato japonês e estava em visível declínio. Nem sequer conseguiu influenciar o técnico para escalar Muller, embora o atacante estivesse no banco. Júnior foi descartado por estar muito velho para uma competição tão acirrada. E Luís Henrique começava a sofrer com os problemas físicos que encerrariam sua carreira prematuramente. Em lugar do ponta-de-lança Parreira escalou Dunga, revoltando toda a torcida.
Por emprestar seu nome à "era Dunga", o excelente volante ficou marcado como atleta grosso, limitado e sem recursos. Nada mais longe da verdade. Soberbo no desarme, com esplêndido senso de colocação, Dunga era o melhor passador da seleção: atravessava jogos inteiros sem errar um passe. Era também bom lançador e multiplicava-se em campo, defendendo e atacando, chamando a si a responsabilidade quando a partida ficava difícil. Mas ninguém enxergava isso. Sem vê-lo fazendo malabarismos com a bola ou dando dribles maravilhosos sem sair do lugar até acabar desarmado (como, por exemplo, o improdutivo Denílson), todos achavam que ele era apenas um quinto zagueiro, capaz apenas de dar carrinhos e fazer faltas.
Depois de uma péssima estréia contra o Equador, empatando em 1 x 1, o Brasil fez uma apresentação pior ainda contra a Bolívia. Sem tempo para uma aclimatação à altitude de mais de 3 quilômetros, lutando contra a falta de ar, o time perdeu sua primeira partida em eliminatórias. Depois de pegar um pênalti, Taffarel, provavelmente sem oxigenação no cérebro, simplesmente jogou uma bola para dentro. O placar de 2 x 0 refletiu o domínio boliviano. Careca pediu para ser dispensado e foi atendido. Os brasileiros não teriam problemas para golear a Venezuela em seguida e em mais um jogo defensivo, empataram em 0 x 0 contra um medíocre Uruguai.
A essa altura, Romário era pedido até pela imprensa paulista, que sempre suportara Muller. Marcando golaço atrás de golaço no Barcelona, o Baixinho se em entrevistas prontificava a comandar o ataque brasileiro. Mas Parreira e Zagallo relutavam em chamá-lo. Tinham seus motivos.
Convocado para um amistoso contra a Alemanha, Romário chegou ao Brasil e soube que não seria escalado como titular. Imediatamente pegou um avião de volta para a Europa. A comissão técnica não queria que jogadores impusessem sua vontade sobre o treinador. Não desejavam repetir os erros de 1990. Por isso o artilheiro foi tirado de seus planos.
Mas pela primeira vez na história a classificação perigava. A Bolívia, aproveitando-se de uma tabela que marcara seus quatro primeiros jogos em casa, a mais de 3 quilômetros de altura, ganhou todos eles e ainda se beneficiou de uma vitória logo em seguida sobre a fraquíssima Venezuela. O New York Times abriu manchete apontando o nascimento de uma nova força no futebol mundial, capaz de vencer 5 jogos seguidos, inclusive contra os ex-campeões Brasil e Uruguai.
Por incrível que pareça, os bolivianos acreditaram que era o brilhante futebol de Etcheverry e amigos, e não os quase 4 quilômetros de altura, que eram os responsáveis por tal desempenho. Em seu primeiro jogo em um lugar decente para se jogar futebol, ao nível do mar, enfrentaram o Brasil e partiram para cima, absolutamente crentes de que eram melhores do que os canarinhos. Tomaram de 6. Seis a zero e não viram a cor da bola. Ainda acreditando em sua superioridade, culparam o calor pelo resultado. Eles não venceriam nenhum jogo a menos de 3 mil metros, mas ainda assim se classificaram e chegando à Copa acreditando que surpreenderiam.
O Brasil venceu o Equador, graças a uma brilhante atuação de Dunga, e a Venezuela. Para se classificar precisava apenas de um empate contra o Uruguai. No Maracanã. Epa. Isso soa familiar.
Mas enquanto isso, vendo que o sujeito escalado para ser o craque do time, Raí, não conseguia se encontrar, a comissão técnica começou a iniciar contactos por telefone com Romário. Depois que o baixinho aceitou sujeitar-se às regras da seleção, Muller simulou uma contusão para que a CBF pudesse inscrever o artilheiro do Barcelona. Ele chegou, treinou duas vezes com o time, foi escalado no comando de ataque... e o resto é história.
Os uruguaios passaram noventa minutos correndo atrás do Baixinho. Se ele estivesse um pouco mais inspirado nas conclusões teria sido uma goleada histórica. Cada vez que pegava na bola levava a defesa inteira e invadia a área. Os platinos não passavam do meio-campo, apavorados com aquela criatura impiedosa que tinha que estrear logo contra eles. Eles conseguiram se segurar até os 26 minutos, mas em mais uma grande jogada Romário abriu o placar. Dez minutos depois ele, quem mais, dá números finais à partida: 2 x 0.
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A Copa de 1994 foi a primeira em que os uniformes passaram a exibir obrigatoriamente o nome dos jogadores, além do número também no calção.
Finalmente após tantos anos o Brasil tem de novo um candidato ao posto de melhor do mundo. Romário torna-se instantaneamente uma lenda. O Baixinho, que sempre gostou de ser o centro das atenções, manipula confortavelmente sua idolatria. Espertamente, alegando a campanha do Barcelona, ele não participa de mais nenhum jogo até a Copa pela seleção, preservando sua imagem. A seleção tem um time titular escalado, um esquema inegavelmente defensivo, voltado para o que um craque conseguir produzir.
Fechando o meio e salvaguardando a zaga estão Dunga e Mauro Silva, no auge da forma. Os dois são ferozes cães de guarda da meia-cancha e, uma vez retomada a bola, saem jogando sem cometer um erro. Tão eficiente é seu bloqueio que a seleção jogou o Mundial com sua quarta dupla de beques: Mauro Galvão e Júlio César têm problemas com a CBF, Mozer apresentou-se doente, Ricardo Gomes contunde-se num amistoso contra o Canadá uma semana antes da Copa e Ricardo Rocha sai mancando na estréia contra a Rússia. Somente depois de todas essa baixas entram Aldair e Márcio Santos. Ainda assim a defesa brasileira é um dos pontos fortes dos canarinhos. Sintomaticamente, nem Aldair e nem Márcio Santos repetiriam tal desempenho sem os dois grandes cabeças-de-área à sua frente.
Mas foi a linha com Romário e Bebeto que deu novamente ao Brasil o status de um dos principais favoritos da competição. Os alemães vinham com praticamente o mesmo time de 1990, envelhecido e sem novidades. A Itália trazia um Baggio bem mais amadurecido para comandá-la. A Colômbia, desde que empatou com os germânicos tocando a bola passou a ser considerada pelos europeus a única nação sul-americana a honrar a tradição de jogo bonito. Olhando o toque de bola bonito e improdutivo de Valderrama, que tanto onerava seus companheiros Rincón e Asprilla, só se pode pensar que a turma do Velho Mundo realmente preferia mesmo era que os terceiro-mundistas ficassem com suas brincadeirinhas dando espetáculos de malabarismo enquanto eles, com sua característica seriedade de adulto, ganhassem. A única grande credencial dos colombianos tinha sido uma vitória de 5 x 0 sobre a Argentina em Buenos Aires, nas mais estranhas circunstâncias.
Como o Brasil, os portenhos tiveram que enfrentar nas eliminatórias a altitude e chegou ao jogo final precisando ganhar da Colômbia. Apesar de pressionar o tempo todo, não conseguiu ameaçar a meta adversária e tomaram um gol de contra-ataque. No segundo tempo, atacando no desespero, viram outras quatro bolas roubadas acabarem no fundo das redes. Os colombianos acertaram praticamente todos os chutes e não desperdiçaram nenhuma chance. Os argentinos foram para a repescagem. Por causa disso resolveram repescar Maradona.
Don Diego começara a ter problemas com drogas, como don Corleone antes dele. Flagrado num exame antidoping em 1991, que apontou o consumo de cocaína, Maradona foi suspenso por 15 meses. Nesse ínterim, sem jogar, Dieguito foi se tornando cada vez mais parecido com seu instrumento de trabalho, a bola. Transferiu-se do Nápoli para o Sevilla e em 1993 estava de volta à Argentina, rotundo, redondo e improdutivo. Mas fez um dos gols que garantiu a classificação na repescagem, numa cobrança de falta, contra a Áustralia.
Passarella, o líbero e capitão de 1978, assumiu o comando da seleção e sua primeira providência foi mandar seus jogadores cortarem o cabelo. Segundo o treinador, longas melenas faziam o atleta se desconcentrar, obrigando-o a passar a mão na cabeça várias vezes na partida. Daí se imagina a disciplina tática que ele exigia.
E assim os portenhos foram para a Copa com o redondo e o Redondo (Nestor Redondo, genial volante). E surpreenderam o mundo quando estrearam contra a Grécia, contando com um Maradona quase 15 kg mais magro do que um ano anterior. Ao seu lado, Caniggia, que também vinha de uma longa suspensão, também ostentava excelente condição física. O baixinho fez um golaço e os gregos caíram de quatro. Na comemoração, don Diego correu para a câmera e urrou, ameaçador. Essa imagem seria usada contra ele mais tarde.
No grupo argentino também estava a Bulgária de Stoichkov, a outra estrela do Barcelona. Para se ter uma idéia da personalidade dele, basta dizer que Romário, apesar de ser amigo dele, achava-o "marrento demais". O mundo inteiro queria ver como o time do artilheiro iria na Copa. Eles entraram em campo, cantaram o hino e de repente teve um arrastão.
O desconhecido time da Nigéria deu-lhes um baile. Altos, fortes, rápidos, habilidosos, os nigerianos deram um banho técnico, tático e físico sobre os europeus. O 3 x 0 saiu barato. E ficou todo mundo querendo ver os renovados argentinos contra esses africanos.
Foi um jogão. Os africanos bateram muito, mas os argentinos, comandados pelo esguio Maradona, saíram de uma desvantagem aos 8 minutos para virar o jogo com dois gols do recuperado Caniggia, aos 21 e 28. Don Diego foi escolhido para o antidoping. E o exame acusou a presença de efedrina.
Efedrina é um estimulante encontrado em remédios para desentupir nariz. Também é usado em moderadores de apetite, remédios para dietas. Maradona veio com uma história que a FIFA, para que ele pudesse jogar e valorizar o Mundial, teria entrado em acordo com ele, permitindo-lhe o uso desses remédios. Obviamente nunca foi apresentada nenhuma evidência dessa estapafúrdia lorota.
Assim que estourou o escândalo, Caniggia foi imediatamente sacado do time, com uma contusão mal explicada, levantando a suspeita que ele também teria se recuperado da longa suspensão com métodos químicos. Os portenhos, sem seus maiores astros, enfrentram Stoichkov e perderam de 2 x 0. Como todo mundo goleou a Grécia, os argentinos passaram de líderes incontestes a terceiros colocados na chave em um jogo. Com isso a outra grande surpresa da Copa estava em seu caminho: a Romênia de Hagi.
Numa era em que as seleções ainda estavam redescobrindo os armadores, um tanto desacostumadas, Hagi mostrou o que valia um meia orquestrando a meia-cancha. Os colombianos entraram contra a Romênia absolutamente confiantes, julgando-se invencíveis. O canhoto romeno comandou um ataque habilidoso e técnico e eles fizeram 1 x 0 aos 15. Aos 34 ele percebeu o goleiro Córdoba adiantado e com sua precisa perna esquerda, encobriu-o para fazer 2 x 0. Higuita havia saído, mas a Colômbia continuava com problemas em sua meta. O jogo terminou 3 x 1.
No jogo seguinte foi a vez dos romenos entrarem desprezando os adversários. Tomaram de quatro dos suíços, que haviam empatado com os americanos na primeira rodada. Já os estadunidenses pegaram uma Colômbia nervosa e como sempre, desorganizada na defesa. O zagueiro Córdoba fez contra as próprias redes aos 35. Os colombianos se desesperaram e num contra-ataque tomaram 2 x 0. Ainda descontaram no final.
Com tantos resultados contraditórios na chave, mesmo a goleada da Colômbia de 4 x 0 sobre a Suíça não classificou os colombianos nem na repescagem. A Romênia tinha ganho dos americanos por 1 x 0 e iria encarar os argentinos.
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O gol contra de Córdoba lhe custaria a vida. De volta ao país, o defensor foi abordado por um apostador que perdera muito dinheiro com a derrota da seleção. Os dois começaram a discutir e o jogador acabou sendo baleado.
Ao lado de Brasil x Holanda, foi o melhor jogo da Copa. Os dois times apresentaram um futebol técnico, de toques curtos e rápidos, perdendo chances de aldo a lado. Os romenos venceram por 3 x 2, mas os argentinos poderiam ter ganho. O problema com Maradona e Caniggia atrapalhara todos os seus planos e foram até mais longe do que se esperava, depois de tudo. Foi a despedida de Maradona da seleção. A FIFA o baniria por reincidência no uso de drogas.
Os bolivianos chegaram à Copa ainda achando que eram bons de bola. Saíram com um mísero empate com a Coréia, que deu um sufoco na Alemanha, mas perdeu de 3 x 2. A Holanda se complicou toda numa chave com Bélgica, Arábia Saudita e Marrocos, mas se classificou. Os italianos fizeram sua já tradicional péssima primeira fase. Só conseguiram a vaga mais uma vez no número de gols marcados, depois de empatar no saldo e nos pontos com a Noruega, o México e a Irlanda. Isso mesmo. Nesse grupo todo mundo tinha 4 pontos e saldo zero.
O Brasil estreou tranquilamente contra uma assustada Rússia. Romário praticamente só tocou na bola aos 26 minutos. Usando seus extraordinários poderes para o bem, o atacante, numa cobrança de escanteio, pressentiu que o pesadão zagueiro que o marcava não se moveria, contornou-o por trás e botou o pezinho para empurrar a bola para as redes.
Os brasileiros, que já controlavam o jogo, passaram a dominar completamente. Raí fez sua melhor apresentação em muito tempo. Ele fez o segundo, de pênalti, depois que Romário arrancou, driblou a defesa e foi derrubado já na área. Começava a tomar forma a lenda do Baixinho.
Ele também abriu a contagem contra Camarões. Os camaroneses haviam mostrado um jogo de alta técnica e desorganização tática no empate contra os suecos. Contra os brasileiros não ousaram tanto e se retrancaram. No final do primeiro tempo Dunga roubou uma bola no meio-campo e imediatamente deu um lançamento de trivela, lembrando Didi, que deixou logo Romário na cara do gol. Um a zero.
No segundo tempo os africanos tiveram que correr atrás e, como temiam, nada conseguiram contra o sólido esquema defensivo de Parreira. Num cruzamento de Dunga, Márcio Santos fez o segundo. Romário ainda faria uma arrancada sensacional, driblando todo mundo e chutando para a rebatida do goleiro. Bebeto veio como um raio, conseguiu chegar lá de trás na frente de todo mundo e completou o placar.
O Brasil tinha garantido a vaga. Mas os suecos tinham vencido os russos. Os brasileiros precisavam ao menos de um empate para assegurar o primeiro lugar e pegar um time teoricamente mais fraco na próxima fase. E o jogo seria, pela primeira vez na história, num estádio inteiramente coberto, com um campo adaptado de futebol americano, que é muito mais estreito.
A Suécia tinha um time centrado no roliço e técnico Brolin, habilidoso e driblador como um sul-americano, que municiava o ataque com Kenneth Andersson, centroavante grandalhão do tipo "rompedor", que se aproveitava de sua altitude para marcar muitos gols de cabeça e Dahlin, um sueco fácil de reconhecer, já que era o único negro naquele time de branquelas. Dahlin era rápido, mexia-se pelas duas pontas e sabia driblar e cruzar, além de finalizar, complementando perfeitamente seu companheiro grandalhão.
Os suecos, é claro, entram retrancados, tentando um contra-ataque. Num desses, Mauro Silva tenta resolver a jogada lá no meio-campo, mas Brolin escapa e lança Andersson. Do bico da área ele acerta um toque de cobertura sobre Taffarel, botando a bola no ângulo. Um golaço.
O Brasil não consegue produzir nada. Parreira finalmente se cansa de Raí e no intervalo põe em seu lugar Mazinho, outro cabeça-de-área. Técnico e habilidoso, mas jogador de características defensivas. Dá sorte. Logo aos 2 minutos Romário dá mais uma arrancada do meio-campo e faz seu terceiro gol na Copa. Os dois times ficam contentes com o resultado. E acaba 1 x 1. O adversário brasileiro serão os EUA.
No feriado do dia da independência. O time americano é muito fraco. Seu jogador mais conhecido é o líbero Alexi Lalas, principalmente por seu visual grunge. Eles entram na defesa, como esperado. O Brasil desperdiça algumas oportunidades. Por algum motivo o lateral-esquerdo brasileiro Leonardo se irrita com a marcação e dá uma cotovelada em Tab Ramos. O uruguaio naturalizado estadunidense cai em convulsão no campo. Cartão vermelho para Leonardo. A seleção canarinho fica desnecessariamente com dez.
Mas os americanos temem a amarelinha. Como o resto do mundo, aliás. Permanecem na defensiva. Têm uma única oportunidade. O Brasil perde várias. Romário continua jogando muito, arrancando e driblando vários beques, mas errando na finalização. No segundo tempo as chances brasileiras começam a rarear. Começa a pesar o cansaço de ter que atacar o tempo todo com um a menos. A torcida, escaldada, começa a temer pelo pior.
Mas Romário dá outra arrancada, dribla todo mundo e, quando o líbero vem no desespero para cima, ele abre a bola para Bebeto. Livre, o atacante se livra do goleiro e abre o placar. Corre para o Baixinho e todo o mundo consegue ler em seus lábios a declaração "eu te amo".
Além da eliminação da Argentina, o que ocorre de importante nos outros jogos das oitavas-de-final? A sensação Nigéria pega os retranqueiros de sempre, os italianos. Fazem 1 x 0, perdem várias chances e no final do jogo ensaiam um olé. A Azzurra recupera a bola e contra-ataca. Baggio empata aos 43 do segundo tempo. Os africanos, atônitos, são eliminados na prorrogação.
A Holanda bate a Irlanda, joga bem e é o próximo adversário brasileiro. Os suecos não tomam conhecimento da Arábia Saudita. Os envelhecidos alemães jogam para o gasto e mandam os belgas do grande Scifo, remanescente da semi-final de 1986, embora.
A Bulgária elimina o México nos pênaltis. O jogo é chato, mas uma das traves quebra e o mundo inteiro subitamente descobre que estádios de futebol têm traves reservas para emergências como essa. Começa a parecer que a bela exibição contra a Argentina foi fruto dos problemas sul-americanos. Stoichkov não vai conseguir empurrar essa turma contra os arrogantes campeões germânicos nas quartas-de-final.
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A Copa de 1994 marcou a introdução do carrinho para pegar os jogdores contundidos. Até então dois sujeitos carregavam uma maca para pegar o pobre coitado. Apesar de menos prático do que os maqueiros, o veículo, movido a eletricidade e originalmente usado por golfistas para percorrer o campo, impressiona todo mundo e começa a ser adotado planeta afora.
E o jogo começa parecendo dar razão aos críticos. O time da Alemanha porta-se da mesma maneira de quatro anos atrás: tem muitos bons jogadores, mas nenhum verdadeiro craque. Seu estilo de corre-defende-lança-cruza-gol já não funciona tão bem sob o sol do meio-dia e com tantos balzaqueanos em suas linhas. Eles visivelmente se poupam, esperando a hora certa para dar o bote, usando sua vasta e veterana experiência. E funciona: eles abrem o placar aos 2 do segundo tempo e num contra-ataque Voller só não aumenta por milagre.
Mas a Bulgária não se entrega. Stoichkov deixa a cautela de lado e lidera o time para a frente. Num escanteio o búlgaro pega a bola na quina da área e cai. O juiz marca falta contra os germânicos. Ele mesmo - Stoichkov, não o juiz! - cobra magistralmente e empata aos 30 do segundo tempo.
Os alemães ficam atordoados. Não têm forças para reagir. Três minutos depois um cruzamento encontra a pouca telha de Letchkov na área germânica. Dois a um para a Bulgária. Pela segunda vez apenas desde que voltaram às Copas em 1954 os teutônicos não chegam a uma semifinal. Sua poderosa geração dos anos 80, que lhes deu 1 Mundial, 2 vice-campeonatos e 2 Eurocopas, está chegando ao fim.
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Os jogos da Copa de 1994 foram disputados sob calor inclemente. O horário local era entre meio-dia e cinco da tarde. Era a rendição do esporte ao marketing: a essa hora as partidas apareciam nas tevês européias no horário nobre e tinham uma audiência bem maior na terra onde o dinheiro está.
Em mais um jogo retrancado os italianos despacham uma Espanha que jogou melhor. Camiñero vem de trás, enganando a linha de impedimento, e fica cara a cara com Pagliuca e perde. Baggio novamente marca aos 43 do segundo tempo. Os torcedores da Itália, os tifosi, começam a acreditar numa reedição de 1982.
Suécia e Romênia é um jogão. Brolin marca aos 33 do segundo tempo. Os romenos, sempre sob a batuta de Hagi, empatam a 2 minutos do fim. E pensar que 1990 foi uma Copa tão chata. Os romenos saem na frente na prorrogação e perdem um gol feito. Kenneth Andersson equaliza. Nos pênaltis os suecos saem atrás, mas acabam virando e garantem a vaga na semifinal. Contra o Brasil.
Os brasileiros fizeram o melhor jogo da Copa contra os holandeses. Podia não ter sido tão emocionante. Muita gente que não é fã de Dunga costuma falar maravilhas da zaga Aldair-Márcio Santos, mas nesse jogo pela primeira vez eles são realmente pressionados e quase entregam uma partida ganha.
A Holanda vem subindo de produção e tem craques como Rijkaard, Bergkamp e Overmars. Este último é a maior preocupação. Gosta de jogar pela direita e Leonardo, que deveria marcá-lo, está suspenso pelo resto do Mundial. Em seu lugar entra Branco. Titular indiscutível um ano antes, o lateral perdeu a vaga não por deficiências, mas por excessos. De peso. Sua silhueta roliça não lhe dá mobilidade. Mas é quem está disponível.
Os dois times se estudam durante a maior parte do primeiro tempo. O sólido bloqueio brasileiro lhe dá o controle da bola, mas não surgem oportunidades. Então, lá pelos 35 do primeiro tempo, quando a marcação holandesa cansa, acontece quase um milagre: Romário se cansa de ficar isolado no ataque, sem participar do jogo, recua para o meio-campo, traz Bebeto com ele e durante quase dez minutos os canarinhos relembram porque aquela camisa é uma lenda.
Numa jogada de longa troca de passes curtos, com os jogadores se movimentando pelo campo, com beleza e objetividade, Aldair entra sozinho na área adversária, mas erra o toque final. O Brasil perde a chance de marcar um gol antológico. Outra oportunidade é perdida. O jogo vai para o intervalo justamente quando a torcidda brasileira finalmente tem um gostinho do jogo bonito.
A partida reinicia. O Brasil domina ainda mais, mas já sem a beleza do final do primeiro tempo. Até que aos 8 minutos Aldair rouba uma bola lá atrás e faz um belo lançamento para Bebeto na ponta-direita. O atacante vence a marcação na corrida e rola para Romário já na área. O Baixinho bate na bola com o pé com que cai no chão. Mais um belo gol, o quarto na Copa.
A Laranja fica atordoada. Parte para o ataque e se abre. A defesa brasileira rebate um lance de cabeça. A bola vem na direção de Romário, no meio-campo, completamente impedido. Mas ele a ignora, mal se mexe, displicente, deixa claro que não quer participar da jogada. Bebeto, novamente rápido como um raio, vem lá de trás e pega a bola. Os holandeses ainda não se acostumaram com a nova regra e não compreendem que está valendo. Bebeto, completamente livre, dribla o goleiro e faz 2 x 0.
Eram 18 do segundo tempo. A Laranja ainda não tinha feito absolutamente nada no ataque. Seu melhor jogador, Rijkaard, sai para dar vaga a um atacante. E o time melhora. O veterano volante estava cansado. A Holanda se fechara na defesa até então. Não é o estilo deles. Eles não sabem jogar assim. Preferem ir para a frente, pressionar, fazer o adversário correr atrás deles.
O Brasil simplesmente pára de jogar. Poupa-se. Pensando assim Márcio Santos protege uma bola com o corpo para fazer o tempo passar. Mas vacila e Bergkamp a rouba dele, num erro crasso do beque brasileiro, e diminui, aos 19 minutos.
Os brasileiros preferem segurar o resultado. Não querem se arriscar. É a filosofia de Parreira. Mas, numa cobrança de escanteio, os zagueiros e o goleiro falham. Winter, aos 31, da pequena área, empata. Taffarel lembra Manga em 1966, quando os arqueiros brasileiros simplesmente não sabiam sair do gol.
Do céu ao inferno em 15 minutos. O Brasil tinha tudo a seu favor, agora está a um passo da eliminação. Os jogadores ficam assustados e começam a errar as jogadas mais simples. Romário, que nunca gostou de treinar e manter a forma, começa a sentir os efeitos do esforço despendido até então e desaparece em campo. E não tem ninguém para armar na meia-cancha. Os holandeses estão cheios de moral e começam a ameaçar Taffarel.
Então, aos 36 minutos, Branco torna-se o herói do jogo. Chama a si a responsabilidade. Anulou Overmars e ainda aguenta correr. Pede a bola e vai para o ataque. Disputa uma bola com um holandês, empurra-o com o cotovelo e ganha o lance. O juiz não vê a infração. Alguns metros adiante nova dividida. Branco se atira ao chão e convence o árbitro que foi falta. Os europeus nem discutem muito, é uma cobrança despretensiosa lá na intermediária.
Mas Branco é um dos melhores cobradores de falta do mundo. Ele toma distância e manda o chute mais traiçoeiro para o goleiro: uma potentíssima bomba rasteira. O arqueiro demora a pular, tem a visão encoberta pela barreira e por Romário. A bola entra no cantinho. Branco vai comemorar com Parreira, que acreditou nele. Os holandeses é que não acreditam mais. O gol foi uma ducha de água fria. Não têm animo de correr atrás de novo. Os brasileiros, agora tranquilos, seguram o jogo. Agora é pegar a Suécia, o único time que os canarinhos não venceram.
Mas as circunstâncias são outras. Eles vêm exaustos de uma prorrogação. Tiveram um dia a menos de descanso. Para um time que se baseia em força física é um péssimo começo. Ainda por cima Dahlin, o motor do ataque, se contundiu. O treinador tenta um gambito: ele troca o jogador de posição com o grandalhão Andersson. Sua esperança é que Andersson, ao cair pelas extremas, atraia a marcação brasileira, quando então o arisco Dahlin, incapaz de correr muito, valendo-se de sua habilidade, entrará pelo meio para marcar.
É claro que não funciona. Andersson é completamente nulo fora da área. O jogo é um treino de ataque contra defesa. O goleiro sueco Ravelli é o grande nome em campo. O Brasil perde chance atrás de chance. Numa delas Romário dribla toda a defesa, passa por Ravelli e toca para a rede. Na linha de gol um zagueiro rebate no pé de Mazinho, na pequena área. O técnico volante chuta para fora.
Os brasileiros dominam, perdem chances, mas estão confiantes. Não se enervam. Nem com os seguidos erros de cruzamento de Jorginho, que tem uma avenida por onde apoiar. A defesa sueca erra seguidamente. O goleiro se sobressai. Tentando irritar os canarinhos, começa a provocá-los a cada oportunidade desperdiçada. Correndo atrás o tempo todo, o volante escandinavo faz seguidas faltas e é expulso. E ainda assim o gol não sai.
Por um momento quase que tudo vai por água abaixo. Brolin arranca do meio-campo e irrompe pelo meio. Lembra a jogada de Maradona em 1990. Mas Andersson não é Caniggia. Não se posiciona bem quando o armador faz o passe e é desarmado. Foi a única chance sueca em toda a partida. Eles perderam a chance de fazer a final.
Romário cai de produção assustadoramente. O esforço seguido por quase um mês sob sol de meio-dia lhe é completamente inédito. Ele nunca suou tanto. Já não tem forças para suas maravilhosas arrancadas. Mas os suecos estão muito mais exaustos. Jorginho faz mais um cruzamento, depois de errar tantos o jogo inteiro. A defesa nórdica não aguenta mais pular para rebater a bola. Romário, mesmo um palmo mais baixo que os zagueiros adversários, está sozinho para cabecear. Eram 35 minutos do segundo tempo e os escandinavos sabem que estão fora. Na outra semi-final os inexperientes búlgaros não resistem aos agora sólidos e confiantes italianos. Brasil e Itália se enfrentarão pela quarta vez em Copas. Os 3 jogos anteriores - 1938, 1970, 1982 - entraram para a história.
A Azzurra está tão confiante que escala Baresi para a final. O líbero havia torcido o joelho no primeiro jogo e se submeteu a uma artroscopia. Surpreendendo todo mundo, em menos de um mês está pronto para jogar. Mas não está em plenas condições. Roberto Baggio também não. Fez os 2 gols contra os búlgaros, mas se contundiu. Ele e Romário marcaram 5 vezes. Stoichkov, seis. Também está em jogo a artilharia do Mundial.
A partida é chata. Lembra 1990. Ninguém se arrisca. Os dois times estão fechadíssimos. Romário está visivelmente sem tempo de jogo, exausto de tudo que fez até então. Num cruzamento, ele erra a conclusão da pequena área. Em outro, erra a bola. São as grandes chances brasileiras, além, é claro, de um chute despretensioso de Mauro Silva que Pagliuca solta grotescamente e só não entra porque bate no poste. O goleiro italiano beija a trave, em agradecimento. Já a Itália tem uma única chance. A defesa canarinho erra a linha de impedimento e Massaro entra na área completamente livre. Sua finalização acaba nas mãos de Taffarel, quando ele tinha todo o gol à disposição. Taffarel se redime do erro contra a Holanda com uma grande e importantíssima defesa.
E o 0 x 0 leva à prorrogação. Romário perde mais uma chance. Bebeto está bem marcado. Viola entra no lugar de Zinho com disposição para correr, mas suas arrancadas são bem conduzidas pelos beques italianos para fora da área e não dão em nada. A outra substituição tinha sido Cafu, ainda no primeiro tempo, no lugar de Jorginho, machucado. É a primeira final do brasileiro, numa inacreditável saga que acabaria com ele levantando a taça.
E nada se resolve também na prorrogação. Pela primeira vez na história uma Copa vai ser decidida nos pênaltis. Até 1986, se houvesse empate na prorrogação haveria uma partida-desempate.
Baresi, o experiente líbero, bate o primeiro. Fora de condições físicas, extenuado, erra feio. Márcio Santos cobra pelo Brasil e mantém o 0 x 0. A bola não quer entrar.
Albertini converte. Romário, que não é um bom batedor de pênaltis, vai para a bola. "Eu sou craque, e craque tem que decidir quando precisa", diria o marrento baixinho depois. Empata. Evani põe a Azzurra em vantagem. Branco é quase infalível com bola parada e iguala tudo.
A torcida brasileira sua frio. É traumatizada com a eliminação de 1986. Mas Taffarel não é Carlos, não tem o azar de Carlos. Massaro bate mal e o goleiro pega. Dunga vai para a bola e converte. O capitão sai sorrindo, com a sensação de dever cumprido. Fez tudo que lhe foi exigido naquele Mundial e, embora não soubesse, acabava de marcar o gol da vitória.
Porque quem vai bater por último para a Itália é o grande craque Baggio. O budista se aproxima da bola. A chegada naquela final é tanto um feito dele quando a do Brasil é de Romário. O esforço o exauriu e ele não está em perfeitas condições. Ele chuta e erra terrivelmente, manda muito acima da trave. Pelé, comentando o jogo para a tevê, sai pulando na tribuna de imprensa abraçado a Galvão Bueno, que grita "É tetra! É tetra!" Romário é eleito o melhor da Copa e do mundo. O escrete verde-amarelo é campeão e ninguém no mundo discute que foi quem mais mereceu.
Inacreditavelmente, só parte da imprensa brasileira protesta. Ganhar na disputa de pênaltis não é a tradição verde-amarelo. Não é o jogo bonito. Parreira foi incompetente. Outro técnico teria feito muito melhor. Frente ao título fica difícil pensar se eles não teriam interesse em indicar seu treinador preferido. Depois de 24 anos os canarinhos estão no topo do mundo. E esse mundo está preocupado. Se os jogadores do escrete realmente adicioaram disciplina tática e defesa sólida ao seu brilhante ofensivismo, eles se tornariam quase imbatíveis.
E o tempo lhes deu razão.
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O time campeão: Taffarel, Jorginho (Cafu), Aldair, Ricardo Rocha (Márcio Santos) e Leonardo (Branco); Dunga, Mauro Silva, Zinho (Paulo Sérgio) e Raí (Mazinho); Romário e Bebeto.
ROMÁRIO
Se você não sabe quem é Romário, ainda em atividade neste exato momento, então você é um extraterrestre (como Garrincha não era). E não seria certo dar a alienígenas informações que poderiam ser vitais para a defesa (e o meio-campo e o ataque) da Terra. Mas, pensando bem, como elas podem ser encontradas em qualquer lugar do planeta, então é melhor que fique sabendo por aqui mesmo, então vamos lá:
Romário é baixinho, com 1,67 metro, e tem as mesmas pernas curtas, grossas e musculosas de Maradona. A semelhança pára aí e no fato de ambos serem provavelmente os dois maiores jogadores de futebol pós-Jules Rimet, ao lado de Cruyff. O argentino era articulador de jogo, especialista em lançamentos e gostava de driblar costurando, ou seja, se metia no meio da defesa e ia parando e arrancando, mudando de direção, diminuindo a velocidade e acelerando de novo. Romário, ainda mais preguiçoso do que don Diego, sempre preferiu se colocar bem, perto do gol, para receber a bola, driblar seu marcador e descobrir uma linha reta e desobstruída até a meta do adversário. Seu estilo de finta nunca foi muito de ciscar e dar quebras de asa, mas de cortes retos e rápidos. A bola parecia grudada em seu pé como por um imã, herança do aprendizado nas quadras de futsal, onde a espaço é menor e se desenvolve mais o controle da redonda junto à chuteira, enquanto nos gramados há muito espaço para correr, dar um toque na bola adiantando-a, correr mais atrás dela, dar outro toque, e assim chegar até o outro lado.
Romário no começo de carreira não era grande finalizador, mas melhorou bastante com a idade. Apesar da baixa estatura tinha impulsão de 71 centímetros e sempre marcou muitos gols de cabeça, fundamento que domina bem. Não só tinha inacreditável arrancada como conseguia manter o pique por trinta, quarenta, cinquenta metros. Quando era mais novo, é claro. Sempre com a bola nos pés. Como num gol contra o Botafogo, em que pegou a bola num rebote de escanteio na sua meia-lua e atravessou todo o campo para só parar dentro da meta botafoguense.
Romário também tem excelente visão de jogo, mas não é hábil em lançamentos. Sua especialidade são os toques curtos de primeira, quando volta para buscar jogo. Levantar a bola não é muito com ele: quando cai pelas pontas não sabe fazer cruzamentos.
Romário começou jogando bola num time de bairro montado pelo pai, que sempre sonhou em vê-lo como jogador profissional. Desde pequeno com esse objetivo e o talento, nunca foi dado a estudo, o que não prejudicou sua inteligência, embora talvez não lhe tenha dado maturidade suficiente para levar sua carreira ainda mais longe do que foi. Cruyff, por exemplo, disse que se o baixinho gostasse de treinar era craque para disputar com Pelé o posto de deus indiscutível do esporte. Mas também, vendo o que ele conseguiu, será que teria mesmo valido a pena?
Romário jogava no infanto-juvenil do Olaria quando foi contratado pelo Vasco. Em 1985 estava relacionado para ir ao Mundial de Juniores, mas envolveu-se num caso envolvendo hotéis, prostitutas e histórias mal-explicadas e acabou sendo cortado. Seu reserva Muller foi o artilheiro do torneio e, jogando num clube em grande evidência, em São Paulo, foi saudado como grande promessa de craque, ganhando vaga na Copa dos crescidos em 1986. Ou seja, por causa desse incidente, o Brasil perdeu Romário até a Copa de 1990.
Melhor para o Vasco, que botou o garoto dispensado do Mundial de Juniores no time titular e ele acabou fazendo uma dupla infernal com Roberto, os dois sendo os artilheiros do campeonato carioca daquele ano. Em 1987 os cruzmaltinos montaram um grande time e finalmente Romário despontou para o resto do Brasil. Chegou à seleção e destacou-se na Copa América e foi o artilheiro da Olimpíada de Seul em 1988, numa época em que o torneio de futebol estava liberado a qualquer jogador que nunca tivesse disputado Copa do Mundo ou eliminatórias. O baixinho fez até gol na final, de cabeça, no meio da alta defesa soviética, mas acabou só com a medalha de prata, depois da derrota na prorrogação.
Seus gols despertaram atenção internacional e ele seguiu para o PSV Eindhoven. A liga holandesa, depois de um brilhante período nos anos 70, vivia em relativa obscuridade e os muitos feitos de Romário num campeonato de pouca repercussão passaram relativamente desapercebidos. Apesar de ter brilhado na Copa América de 1989, quando o escrete canarinho foi campeão após 40 anos - ou seja, desde quando não era canarinho ainda - e nas Eliminatórias, todos sabiam que o ataque já tinha um titular certo, Careca. E que ele, Bebeto e Muller lutavam pela segunda vaga. E Careca preferia seu velho companheiro do São Paulo, Muller.
Além disso, Romário sofreu uma pequena fratura e, como era de seu feitio, não levou muito a sério o conselho de se poupar e fazer tratamento intensivo. Foi gravar um comercial e acabou agravando seu estado. O médico Lídio Toledo queria cortá-lo, mas ele levou seu próprio fisioterapeuta para a concentração da seleção e criou mais um caso. Acabou não conseguindo se recuperar a tempo, como já previa Lídio, e ficou de fora do time que foi desclassificado pela Argentina. A segunda chance de disputar uma Copa se fora. Mais quatro anos de espera.
Romário foi ignorado por Falcão, em sua passagem no comando do escrete. O antigo volante dava preferência a jogadores atuando no Brasil, que tivessem mais "espírito de seleção". Previsivelmente não durou muito e foi substituído por Parreira. O baixinho foi convocado em dezembro de 1992 para jogar um amistoso contra a Alemanha no Rio Grande do Sul. Ao chegar, soube que ficaria no banco, para entrar no segundo tempo. Pegou o primeiro avião de volta e o diretor-técnico Zagallo, sempre facilmente irritável, disse que ele não voltaria a atuar com a amarelinha.
Mas Cruyff foi treinar o Barcelona e, tendo visto Romário atuando na Holanda, avisou para contratarem o baixinho enquanto ele estava por baixo (perdão pelo trocadilho). O Barça era na época o clube que dominava o futebol mundial e Romário imediatamente voltou aos holofotes e seus gols estavam em todas as tevês do mundo. Enquanto isso, com um Careca de 33 anos que atuava no futebol japonês para o papel de estrela da seleção, o escrete claudicava nas eliminatórias. O Brasil inteiro clamou por Romário. Parreira, sempre conciliador, cedeu e convenceu Zagallo de que fora tudo um mal-entendido. E ele chegou para jogar contra o Uruguai, jogo que os canarinhos precisavam vencer.
Sua volta foi triunfal. Sozinho, levou pânico à defesa uruguaia, levando os beques ao choro e ranger de dentes. Depois de perder caminhões de gols, driblando todo mundo cada vez que pegava na bola, fez os dois da vitória por 2 x 0. E, fiel à sua filosofia de vida, avisou que não o fizessem perder tempo vindo a amistosos de preparação, só o chamassem para a Copa.
E Zagallo e Parreira aceitaram.
Desnecessário repetir aqui o capítulo anterior sobre a Copa de 1994, a Copa de Romário. O baixinho era o melhor jogador do mundo, o maior craque do planeta, o posto antes de Maradona era dele. E, em 1995, cansado de ter que treinar a sério todo dia, coisa que seus empregadores europeus sempre exigiriam, voltou para jogar no Flamengo. A torcida rubro-negra foi à loucura. Assim como os técnicos do clube.
Falta espaço aqui para contar os dez anos de Romário em sua volta ao Brasil. Suas tumultuadas passagens por Flamengo, Sevilla, Flamengo de novo, Vasco, Fluminense e Vasco de novo. No capítulo sobre a Copa de 1998 é narrado como ele perdeu mais uma chance para jogar outro Mundial. Também desperdiçou a oportunidade de estar entre os 22 de Felipão em 2002, como é narrado no capítulo pertinente. Como disse Cruyff, ele é o gênio da grande área, mas poderia ser considerado um deus indiscutível do esporte. Avesso a treinamentos, a correr atrás da bola, a se empenhar em campo, a dormir cedo, a se poupar e adepto de churrasco, noitadas, namoros, paqueras e qualquer coisa relacionada à interação com o sexo oposto, ele surpreendentemente não bebe álcool, o que provavelmente é a melhor razão para ainda estar em atividade.
Com sua inteligência aguda, capaz de achar um erro num contrato ao lê-lo depois que todos os seus advogados já haviam estudado os termos, Romário é um grande frasista e entre suas pérolas estão "quando eu nasci, Deus apontou um dedo e disse, esse é o cara!", "Pelé mudo é um poeta, quando fala estraga tudo", e uma outra que tem a fama de ter derrubado um candidato a técnico da seleção. Em 2001, Vanderley Luxemburgo foi demitido do comando do escrete, depois de uma péssima campanha nas eliminatórias. Mais uma vez o Brasil inteiro pedia por Romário, embora dessa vez ele tivesse 35 anos. Levir Culpi, cotado para assumir o cargo, já prevendo o que lhe cobrariam, deu uma entrevista declarando que para a seleção era preciso convocar jogadores pensando não em como eles estavam no momento, mas como estariam na Copa. Romário soube e respondeu dizendo que "ele não é Mãe Dinah para saber como vou estar daqui a um ano". Levir não soube como retrucar e viu suas chances se esfumarem. Para o bem de todos assumiu Felipão, que até chegou a convocar o baixinho, mas a história é melhor contada no capítulo sobre o Mundial de 2002.
Romário está com 40 anos e acaba de ser contratado para jogar num clube em Miami. Com essa provecta idade para um atleta profissinal, foi o artilheiro da primeira divisão do campeonato brasileiro. Ainda tem defensores que acham que Ronaldo é um fenômeno só de marketing, invenção da Nike, e que o baixinho no comando do ataque da canarinho traria o caneco na certa. Com toda certeza ele não estará na Alemanha em 2006, mas continua sua carreira, rumo ao milésimo gol, marca para a qual faltam cerca de quarenta tentos (há uma discussão quanto aos seus números), o que está longe de ser impossível de ser conseguido antes de pendurar as chuteiras.
Acima do peso, sem mobilidade nenhuma, sem velocidade e sem arrancada sequer para conseguir dar um bom drible, é impressionante como Romário ainda consegue jogar profissionalmente e fazer gols. Muitos gols. É triste imaginar que sua carreira está bem próxima do fim, depois de duas décadas de brilho e sucesso. O garoto de 20 anos que uma vez disse que queria parar com 28 parece ter se tornado eterno. Como os Simpsons ou o Jornal Nacional na tevê. Para uma geração inteira, acompanhar futebol é acompanhar o Romário. E vai ser muito triste o dia em que ele parar.
A História das Copas Capítulo XV - A Copa de 1990
Os capítulos anteriores estão embaixo deste e fazem um belo painel da evolução tática e técnica do futebol, desde suas origens...
A EVOLUÇÃO TÁTICA - O DESAPARECIMENTO DOS PONTAS-DE-LANÇA
No meio dos anos 80 a mentalidade defensiva lançou seu negro manto por todo o mundo futebolístico. A vitória da Itália e a incapacidade de Brasil e França de chegarem sequer à final de duas Copas do Mundo, apesar de Zico, Falcão, Sócrates, Platini, Tigana, Giresse & cia., só aumentavam as justificativas dos técnicos retranqueiros. O fato de que Maradona ganhou sozinho a Copa de 1986 não era obstáculo para eles - afinal de contas, ele só conseguiu jogar porque todo o resto do time argentino corria atrás da bola.
Um dos pilares daquele tipo de jogo eram as "faltas táticas". Cada time era recheado de cabeças-de-área no meio-campo, perseguindo os homens de armação da outra equipe. Se ainda assim o adversário conseguisse trocar dois ou três passes ou dar prosseguimento à jogada, ele sofria a falta, uma falta leve, apenas para interromper o lance. Pelas regras de então, as seguidas infrações, se não fossem muito violentas, não eram punidas com cartão amarelo.
Em pouco tempo jogadores de toques curtos e rápidos, dribles velozes e arrancadas com a bola dominada se viram completamente anulados. Simplesmente não conseguiam produzir nada sem serem parados com faltas. Os treinadores então começaram a empurrar esses jogadores para o ataque, tirando-os do meio-campo. Assim estariam mais perto do gol e, se sofressem falta, seria pênalti ou perto da área, muito perigosa. Bebeto foi um desses jogadores, começando a carreira como ponta-de-lança e terminando como atacante. E ostécnicos ainda ganhavam um bônus: abriam uma vaga no meio-campo para outro cabeça-de-área.
Como consequência o meio-campo ficou repleto de jogadores com pouca capacidade de armação. Normalmente apenas um, que era o alvo principal da marcação adversária e pouco conseguia criar. Os atacantes ficavam isolados. A única maneira da bola chegar até eles era através dos laterais que avançavam, em jogadas individuais, pois não tinham ajuda dos apoiadores, ou de lançamentos e chutões da defesa para a frente, a chamada "ligação direta".
Com a mudança das regras nos anos 90, os juízes passaram a ser bem mais rigorosos com times que faziam faltas seguidas. Desde então os jogadores criativos foram voltando ao meio-campo, mas lentamente, já que toda uma geração havia se acostumado a jogar daquela maneira. A seleção brasileira campeã em 1994 é um bom exemplo desse tipo de jogo, felizmente em vias de extinção no momento.
A COPA DE 1990 - O MUNDO PODE NÃO ACABAR NO ANO 2000, MAS DESSE JEITO O FUTEBOL COM CERTEZA VAI.
Ao fim de cada capítulo sobre uma Copa do Mundo, há uma pequena biografia dos grandes craques que brilharam nela.
Procure ao final deste capítulo.
Não há.
A Copa de 1990 foi horrorosa. A média de gols por jogo foi de 2,21. Todo mundo retrancado. Todo mundo querendo decidir nos pênaltis. Camarões foi o único time a dar algum charme ao torneio.
Platini tinha parado, Zico tinha parado, Falcão tinha parado, Rummenigge tinha parado, Paolo Rossi tinha parado, Boniek tinha parado... Maradona ainda jogava, mas visivelmente mais redondo e rotundo, sem a mesma mobilidade.
A sede fora escolhida 6 anos antes. Em 1984 os italianos eram os campeões do mundo, os grandes craques estrangeiros jogavam em sua Liga e as tevês do planeta se estapeavam para transmitir seu campeonato. Para coroar, eles se candidataram a anfitriães. Iriam arrancar para o tetracampeonato e se tornarem os maiorais da história. Os anos 30 estavam de volta. E ali, em 1990, em casa, com todo mundo imitando a maneira de jogar deles, tudo estava à feição da Itália.
O Brasil, que arregimentara novos fãs nas Copas de 1982 e 1986, mesmo eliminado nas quartas-de-final, com seu jogo ofensivo, vinha com uma equipe quase irreconhecível. Nabi Abi Chedid e sua turma saíram da CBF e em seu lugar entrou o então genro de João Havelange: Ricardo Teixeira. Seu principal assessor era o controvertido Eurico Miranda, que levou o técnico que havia sido campeão pelo Vasco, Sebastião Lazaroni, para a seleção.
Lazaroni era o arquétipo do "professor", o técnico teórico com conceitos esquisitos. Ele chamava jogos de "eventos" e usava expressões como "galgar parâmetros". Ele vencera 3 campeonatos cariocas seguidos, na época em que isso valia muito, fechando times na defesa para jogar no contra-ataque. E levou o conceito para a seleção.
Seguindo a receita argentina, Lazaroni botou um monte de sujeitos na marcação e Geovani, um técnico meia então em esplêndida fase, como o nosso maradoninha. E em 1989 perdeu 3 jogos seguidos, para Suécia, Suíça e Dinamarca. Não tinha sobrado muito da "Dina-máquina". Eles nem tinham se classificado para a Copa. Mas deram de quatro no Brasil. E não foi só o placar. Foi um banho de bola. A imagem do quarto gol, com Geovani correndo atrás de Laudrup, tentando segurar sua camisa, e ficando muito, muito atrás, mesmo com o outro carregando a bola, foi humilhante.
Então Lazaroni resolveu inovar. Iria usar o 3-5-2 que os próprios dinamarqueses tinham introduzido em 1986.
Aparentemente fazia sentido. O Brasil vivia uma grande safra de zagueiros - Mozer, Ricardo Gomes, Mauro Galvão, Ricardo Rocha, Aldair - e laterais - Branco, Mazinho e Jorginho, enquanto no meio-campo os jogadores de armação rareavam (por culpa dos próprios treinadores, mas isso não vem ao caso). E para o ataque estavam disponíveis Romário, Bebeto, Muller e a estrela do time, Careca. Ou seja, havia bons jogadores para a defesa e para o ataque, mas não no setor de criação.
A idéia de Lazaroni era de que com 3 zagueiros - dois de área e um atrás deles, o líbero - os laterais poderiam se dedicar mais ao ataque do que à defesa. Ainda mais escalando no meio-campo dois volantes de contenção, o grande Dunga e o ótimo Alemão. Assim a seleção teria um time altamente combativo, que recuperaria a bola, sairia com os laterais (agora chamados de "alas") em alta velocidade para criar jogadas para os atacantes. Ou seja, a tática italiana de retranca e contra-ataques velozes adaptada para o material humano disponível na época.
A teoria era excelente, mas daí para a prática nunca funcionou direito. Os jogadores haviam passado toda sua vida jogando em alguma variação do 4-4-2 e não conseguiram se acostumar ao plano de Lazaroni. Os zagueiros se confundiam sobre quem cobria a subida dos laterais, quem dava combate direto e quem ficava na sobra. Os "alas" tinham a tendência de, durante a partida, voltar a se portar como os defensores que originariamente eram e se posicionarem muito recuados. Os adversários do Brasil temiam a camisa amarelinha e simplesmente não atacavam, tornando a oportunidade de contra-ataques quase nula.
Zico estava recuperado de suas contusões e passava por excelente fase no Flamengo. Sem a velocidade dos outros tempos, ele jogava mais parado, como um pivô, recebendo a bola pelo círculo central e dando maravilhosos lançamentos e toques de primeira que articulavam toda a equipe. Apesar dele ser teoricamente perfeito para ser o cérebro de seu esquema, Lazaroni descartou-o porque teria 37 anos na Copa. Em seu lugar escalou o excelente Valdo, habilidoso e combativo, mas que tinha uma fraqueza: era lento e preferia os passes curtos aos lançamentos. O único no meio-campo capaz de lançamentos, Dunga, foi posicionado bem à frente da zaga, tornando-o quase inútil nesta função.
Careca, depois de tantos anos de timidez e introversão, foi jogar no Napoli, o time de Maradona, e tornou-se o atacante mais famoso do mundo. Era a estrela do time e influenciou o técnico para escalar Muller, seu antigo companheiro do São Paulo, o outro titular da frente, pondo no banco Romário e Bebeto, a dupla que tivera excelente desempenho nas eliminatórias e na Copa América de 1989, que o Brasil ganhou depois de 40 anos. Romário também tirou uma licença para gravar um comercial, agravou uma contusão da qual estava em recuperação e não chegou ao Mundial em perfeitas condições. Na ânsia de tentar jogar ele desencavou um fisioterapeuta que garantiu, contra as opiniões do médico Lídio Toledo, que ele ficaria bom a tempo. O fisioterapeuta era Nilton Petroni, o "Filé".
Esse tipo de atitude dividiu o time em grupinhos que não se davam bem uns com os outros. Além disso, a Copa era vista por muitos como um passaporte para o exterior ou para melhores contratos. Futebol é um esporte profissional e suas estrelas, os atletas, sem dúvida têm que ser devidamente remunerados, mas houve alguns exageros. A patrocinadora da seleção era a Pepsi. Os jogadores exigiram uma percentagem do contrato. A CBF negou e, quando foi feita a foto oficial da delegação, eles cobriram o logotipo do refrigerante com a mão.
Assim, a campanha do Brasil na primeira fase resumiu-se a três jogos chatíssimos. Estreou derrotando a Suécia por 2 x 1. Parecia um bom resultado, mas até os costa-riquenhos conseguiriam vencer os escandinavos por 2 x 1. Os suecos ficaram em último na chave. A Costa Rica perdeu por 1 x 0 graças ao oportunismo de Bebeto aproveitando um erro da defesa. E contra a Escócia outro 1 x 0 em um jogo horroroso. O próximo adversário seria a Argentina. Os campeões do mundo vinham mal e ficaram em terceiro no grupo, classificando-se na repescagem.
Os argentinos começaram sua campanha contra o desconhecido time de Camarões. Os camaroneses jogaram retrancados e baixaram o sarrafo, aproveitando-se da complacência das regras. Olhando hoje alguns lances daquele jogo é chocante ver que algumas faltas violentíssimas não acarretam sequer um cartão amarelo.
Maradona, depois de sua fulgurante atuação em 1986 e outra temporada brilhante em 1987, começou a brigar com a balança. Cada vez mais parecido com sua grande paixão, a bola, o rotundo gordinho perdeu boa parte da arranca e da mobilidade com que driblara todo mundo que viu pela frente no México. E, perseguido pelas faltas, nada conseguiu criar contra os africanos. Num erro de defesa, os camaroneses fizeram 1 x 0. Finalmente eles tiveram um expulsão, mas seguraram o resultado até o final, quando receberam outro cartão vermelho.
Contra a URSS a Argentina sofreu outro sufoco. A mãozinha esperta de Maradona novamente salvou os portenhos. Em cima da linha ele tirou discretamente uma bola russa que já ia entrando. O juiz não viu. Os portenhos fizeram 2 x 0 e ficaram com boas chances. Aos 10 minutos do primeiro tempo o goleiro Pumpido quebrou a perna. Goycoechea entrou em seu lugar. O herói do vice-campeonato ganhava sua vaga.
Os camaroneses venceram também os romenos. O jogo estava melhor para os europeus, até que aos 15 do segundo tempo entrou um veterano de 36 anos, que jogara em 1982. O vovô organizou o ataque africano, fez um gol e comandou a vitória por 2 x 1. O nome dele era Roger Milla.
Os italianos estrearam contra a Áustria com seu time cuidadosamente montado para ganhar o tetracampeonato. Com craques como o líbero Baresi e o lateral-esquerdo Maldini e excelentes jogadores como Donadoni, Ancelotti e Bergomi, acostumados a enfrentar os melhores do mundo, ganhar em casa não deveria ser tão difícil assim.
Contra a Áustria foi 1 x 0. Foi um sufoco. O mundo inteiro copiara a retranca italiana. E eles, jogando em casa, tinham que contrariar suas características e partir para o ataque. O gol só saiu aos 33 minutos do segundo tempo, apesar da Azzurra ter dominado o jogo inteiro. Quem o marcou foi um reserva, Toto Schillacci, centroavante limitado e polêmico. Contra a fraca seleção americana, outro magro 1 x 0. Vitória por 2 x 0 só contra a Tcheco-Eslováquia, com gols dos agora titulares Schillacci e Roberto Baggio.
Os alemães não tiveram problemas numa chave com Emirados Árabes, Iugoslávia e Colômbia. No último jogo os colombianos deram um show de toque de bola. Sem a menor objetividade, como é de seu feito. Os germânicos fizeram 1 x 0 aos 43 do segundo tempo e os sul-americanos tiveram que correr atrás e empataram nos descontos, garantindo vaga para pegar os camaroneses.
No Grupo F, um resumo da Copa: 5 empates e uma vitória por 1 x 0. Inglaterra e Holanda, bem cotadas, mostraram um futebol fraco. Os irlandeses empataram com todo mundo e foram adiante.
Os holandeses, campeões europeus em 1988, depois de suas más atuações, tiveram que pegar os alemães. Gullitt, que muitos consideravam o melhor jogador do mundo à época, começava seu declínio. Van Basten já estava às voltas com os problemas físicos que abreviariam sua carreira. E os germânicos venceram por 2 x 1 sem dar chance aos flamengos.
Os colombianos, depois do toque de bola bonito e improdutivo, tornaram-se os queridinhos de muita gente que pensava que futebol é fazer malabarismo com a bola e não gols. Entraram como favoritos contra os camaroneses e tocaram a bola de um lado para o outro com técnica e refinamento. O tempo normal acabou 0 x 0. Milla entrou aos 9 do segundo tempo. Na prorrogação, Higuita, o goleiro da Colômbia, quis driblar o experiente veterano, para mostrar a beleza do jogo sul-americano, e perdeu a bola e o jogo. No final foi 2 x 1 para os africanos.
A Irlanda segurou mais um 0 x 0 com os romenos de Hagi. Nos pênaltis ganhou e seguiu adiante. A Itália teve dificuldades com o medíocre Uruguai, mas fez 2 x 0. Schillacci fez mais um. Inglaterra e Iugoslávia despacharam respectivamente Bélgica e Espanha.
O Brasil entrou contra a Argentina arrebentando. Na saída de bola Careca perdeu um gol. Foi um baile. Mas apesar de 3 bolas na trave e várias chances, o gol não saiu. Até Dunga partiu para a frente e lá na área mandou uma no poste. Lazaroni no intervalo mandou o time recuar e voltar à sua tática normal. Continuou dominando no segundo tempo, mas já não apareciam tantas oportunidades.
O gordinho Maradona, completamente fora de forma, era bem marcado, inclusive com faltas, por seu companheiro do Napoli, Alemão. No entanto, aos 35 minutos, aproveitou um erro de posicionamento da defesa brasileira e passou pelo meio de quatro jogadores costurando com sua temível perna esquerda. Assustados, os defensores, desacostumados com a tática, não sabiam se davam combate, ficavam na cobertura ou marcavam Caniggia. O baixinho genial aproveitou o espaço, fintou todo mundo e quando o último beque veio para cima, tocou para Caniggia completamente livre. O atacante driblou Taffarel, fez 1 x 0 e um único lampejo de talento botou abaixo todos os complicados planos estratégicos de Lazaroni. Assim como em 1986 a seleção era eliminada justo quando fazia sua apresentação.
O Brasil saía da Copa nas oitavas-de-final, pela primeira vez desde 1966. Com a derrota seriam 24 anos sem títulos. E a decadência era visível: em 1974 e 1978, os canarinhos foram semifinalistas; em 1982 e 1986 chegaram às quartas. Em 1990 já rodavam nas oitavas. Seria o fim da lenda brasileira? Afinal, até a Irlanda, que não ganhou um jogo, chegou na frente dos canarinhos.
BOX
Depois da eliminação da Argentina, o lateral Branco reclamou que depois que bebeu uma garrafa d'água cedida pela comissão técnica argentina, sentiu-se estranho e com as pernas pesadas. Tal história foi ridicularizada, bem como o "campeonato moral" de 1978. E assim como Quiroga anos depois confessou ter sido avisado para facilitar as coisas em 1978, o treinador argentino, Carlos Billardo, numa entrevista em 2005 alegou ter realmente preparado uma surpresa para quem aceitasse beber a água emprestada pelos portenhos.
E por pouco os irlandeses não complicaram a vida dos italianos também. O jogo foi mais um escasso 1 x 0. Gol do Schillacci. Que a maioria da torcida achava que não jogava nada. Os alemães, com um pênalti, fizeram outro 1 x 0 chato sobre a Tcheco-Eslováquia. A Argentina empatou com a fraca Iugoslávia. Goycoechea brilhou na disputa de pênaltis. O medíocre time argentino chegava às semi-finais.
O único jogo bom das quartas-de-final foi Inglaterra x Camarões. O futebol sério britânico começou arrasador, fez 1 x 0 aos 25 minutos e dominava completamente. Milla entrou no começo do segundo tempo e comandou a virada. Aos 20 estava 2 x 1 para os africanos, que começaram a rodar a bola e desperdiçar chances, por pura inexperiência. Os safos bretões conseguiram empatar com um pênalti aos 43. Na prorrogação os europeus mostraram mais preparo, correram mais e venceram por 1 x 0.
Nas semi-finais, ruíram os sonhos de tetracampeonato da Itália. Pegaram os argentinos retranqueiros. Até saíram na frente, mas finalmente Caniggia e Maradona se encontram e saiu o segundo gol portenho em 3 jogos. Mais uma chatíssima prorrogação e nos pênaltis Goycoechea foi o herói outra vez. A Argentina faria a segunda final consecutiva. E seus rivais a terceira. Na verdade, seriam os mesmos adversários de 1986.
BOX
Maradona era um ídolo tão grande na Itália que vários italianos torceram contra a seleção de seu país a favor da Argentina na semi-final! O craque argentino aproveitou-se do desprezo que o norte desenvolvido do país tem pelo sul, onde ficava seu clube, o Nápoli, e fomentou uma discórdia nos jornais que lhe garantiu apoio contra o selecionado local, que lutava por um nunca visto tetracampeonato mundial, em casa!
Os alemães tiveram um jogo duríssimo contra os ingleses. Saíram na frente e aos 36 do segundo tempo cederam um empate. Depois de outra prorrogação (alguém ainda está contando?) sem gols, mais uma decisão por pênaltis. Os germânicos venceram.
E a final foi outro jogo chato. Os dois times, depois de tantos jogos complicados, prorrogações e decisões por pênaltis, se arrastavam em campo. Os germânicos, com um time mais forte e bem preparado, aguentava correr mais e dominava o jogo, mas não conseguia penetrar na defesa sul-americana. Por duas vezes os alemães reclamaram pênalti em jogadas na área. O juiz não marcou, mas aos 39 do segundo tempo inventou uma penalidade máxima para os teutônicos. Os argentinos reclamaram, tiveram uma expulsão e não conseguiram reagir depois do gol. Depois de dois vice-campeonatos seguidos os prussianos punham a mão na taça. Deutschland Uber Alles!!!
Camarões foi o time que mais empolgou, mas exagerou na papagaiada depois que fez 2 x 1 contra a Inglaterra, quis dar um baile e dançou. Roger Milla jogou muito, mas como reserva de luxo e sofrendo com o peso da idade. Todo mundo ficou com pena de não o ter visto no auge da forma. A única jogada genial de Maradona foi justamente aquela contra o Brasil. Matthaus foi eleito o craque da Copa. Belo jogador, mas o reserva da seleção canarinho, Juninho Pernambucano, joga mais do que ele. O artilheiro foi Toto Schillacci, centroavante do tipo trombador, de fazer gols dividindo as bolas com a defesa.
Enfim, foi uma Copa paupérrima. A continuar assim todo mundo iria se desinteressar de futebol. Eram necessárias modificações para que o jogo voltasse a empolgar.
E nem foram precisas tantas. Futebol é um jogo simples. Com três pequenas alterações nas regras e recomendações aos juízes, a FIFA começou nos anos 90 a recuperar o futebol ofensivo.
A EVOLUÇÃO TÁTICA - O DESAPARECIMENTO DOS PONTAS-DE-LANÇA
No meio dos anos 80 a mentalidade defensiva lançou seu negro manto por todo o mundo futebolístico. A vitória da Itália e a incapacidade de Brasil e França de chegarem sequer à final de duas Copas do Mundo, apesar de Zico, Falcão, Sócrates, Platini, Tigana, Giresse & cia., só aumentavam as justificativas dos técnicos retranqueiros. O fato de que Maradona ganhou sozinho a Copa de 1986 não era obstáculo para eles - afinal de contas, ele só conseguiu jogar porque todo o resto do time argentino corria atrás da bola.
Um dos pilares daquele tipo de jogo eram as "faltas táticas". Cada time era recheado de cabeças-de-área no meio-campo, perseguindo os homens de armação da outra equipe. Se ainda assim o adversário conseguisse trocar dois ou três passes ou dar prosseguimento à jogada, ele sofria a falta, uma falta leve, apenas para interromper o lance. Pelas regras de então, as seguidas infrações, se não fossem muito violentas, não eram punidas com cartão amarelo.
Em pouco tempo jogadores de toques curtos e rápidos, dribles velozes e arrancadas com a bola dominada se viram completamente anulados. Simplesmente não conseguiam produzir nada sem serem parados com faltas. Os treinadores então começaram a empurrar esses jogadores para o ataque, tirando-os do meio-campo. Assim estariam mais perto do gol e, se sofressem falta, seria pênalti ou perto da área, muito perigosa. Bebeto foi um desses jogadores, começando a carreira como ponta-de-lança e terminando como atacante. E ostécnicos ainda ganhavam um bônus: abriam uma vaga no meio-campo para outro cabeça-de-área.
Como consequência o meio-campo ficou repleto de jogadores com pouca capacidade de armação. Normalmente apenas um, que era o alvo principal da marcação adversária e pouco conseguia criar. Os atacantes ficavam isolados. A única maneira da bola chegar até eles era através dos laterais que avançavam, em jogadas individuais, pois não tinham ajuda dos apoiadores, ou de lançamentos e chutões da defesa para a frente, a chamada "ligação direta".
Com a mudança das regras nos anos 90, os juízes passaram a ser bem mais rigorosos com times que faziam faltas seguidas. Desde então os jogadores criativos foram voltando ao meio-campo, mas lentamente, já que toda uma geração havia se acostumado a jogar daquela maneira. A seleção brasileira campeã em 1994 é um bom exemplo desse tipo de jogo, felizmente em vias de extinção no momento.
A COPA DE 1990 - O MUNDO PODE NÃO ACABAR NO ANO 2000, MAS DESSE JEITO O FUTEBOL COM CERTEZA VAI.
Ao fim de cada capítulo sobre uma Copa do Mundo, há uma pequena biografia dos grandes craques que brilharam nela.
Procure ao final deste capítulo.
Não há.
A Copa de 1990 foi horrorosa. A média de gols por jogo foi de 2,21. Todo mundo retrancado. Todo mundo querendo decidir nos pênaltis. Camarões foi o único time a dar algum charme ao torneio.
Platini tinha parado, Zico tinha parado, Falcão tinha parado, Rummenigge tinha parado, Paolo Rossi tinha parado, Boniek tinha parado... Maradona ainda jogava, mas visivelmente mais redondo e rotundo, sem a mesma mobilidade.
A sede fora escolhida 6 anos antes. Em 1984 os italianos eram os campeões do mundo, os grandes craques estrangeiros jogavam em sua Liga e as tevês do planeta se estapeavam para transmitir seu campeonato. Para coroar, eles se candidataram a anfitriães. Iriam arrancar para o tetracampeonato e se tornarem os maiorais da história. Os anos 30 estavam de volta. E ali, em 1990, em casa, com todo mundo imitando a maneira de jogar deles, tudo estava à feição da Itália.
O Brasil, que arregimentara novos fãs nas Copas de 1982 e 1986, mesmo eliminado nas quartas-de-final, com seu jogo ofensivo, vinha com uma equipe quase irreconhecível. Nabi Abi Chedid e sua turma saíram da CBF e em seu lugar entrou o então genro de João Havelange: Ricardo Teixeira. Seu principal assessor era o controvertido Eurico Miranda, que levou o técnico que havia sido campeão pelo Vasco, Sebastião Lazaroni, para a seleção.
Lazaroni era o arquétipo do "professor", o técnico teórico com conceitos esquisitos. Ele chamava jogos de "eventos" e usava expressões como "galgar parâmetros". Ele vencera 3 campeonatos cariocas seguidos, na época em que isso valia muito, fechando times na defesa para jogar no contra-ataque. E levou o conceito para a seleção.
Seguindo a receita argentina, Lazaroni botou um monte de sujeitos na marcação e Geovani, um técnico meia então em esplêndida fase, como o nosso maradoninha. E em 1989 perdeu 3 jogos seguidos, para Suécia, Suíça e Dinamarca. Não tinha sobrado muito da "Dina-máquina". Eles nem tinham se classificado para a Copa. Mas deram de quatro no Brasil. E não foi só o placar. Foi um banho de bola. A imagem do quarto gol, com Geovani correndo atrás de Laudrup, tentando segurar sua camisa, e ficando muito, muito atrás, mesmo com o outro carregando a bola, foi humilhante.
Então Lazaroni resolveu inovar. Iria usar o 3-5-2 que os próprios dinamarqueses tinham introduzido em 1986.
Aparentemente fazia sentido. O Brasil vivia uma grande safra de zagueiros - Mozer, Ricardo Gomes, Mauro Galvão, Ricardo Rocha, Aldair - e laterais - Branco, Mazinho e Jorginho, enquanto no meio-campo os jogadores de armação rareavam (por culpa dos próprios treinadores, mas isso não vem ao caso). E para o ataque estavam disponíveis Romário, Bebeto, Muller e a estrela do time, Careca. Ou seja, havia bons jogadores para a defesa e para o ataque, mas não no setor de criação.
A idéia de Lazaroni era de que com 3 zagueiros - dois de área e um atrás deles, o líbero - os laterais poderiam se dedicar mais ao ataque do que à defesa. Ainda mais escalando no meio-campo dois volantes de contenção, o grande Dunga e o ótimo Alemão. Assim a seleção teria um time altamente combativo, que recuperaria a bola, sairia com os laterais (agora chamados de "alas") em alta velocidade para criar jogadas para os atacantes. Ou seja, a tática italiana de retranca e contra-ataques velozes adaptada para o material humano disponível na época.
A teoria era excelente, mas daí para a prática nunca funcionou direito. Os jogadores haviam passado toda sua vida jogando em alguma variação do 4-4-2 e não conseguiram se acostumar ao plano de Lazaroni. Os zagueiros se confundiam sobre quem cobria a subida dos laterais, quem dava combate direto e quem ficava na sobra. Os "alas" tinham a tendência de, durante a partida, voltar a se portar como os defensores que originariamente eram e se posicionarem muito recuados. Os adversários do Brasil temiam a camisa amarelinha e simplesmente não atacavam, tornando a oportunidade de contra-ataques quase nula.
Zico estava recuperado de suas contusões e passava por excelente fase no Flamengo. Sem a velocidade dos outros tempos, ele jogava mais parado, como um pivô, recebendo a bola pelo círculo central e dando maravilhosos lançamentos e toques de primeira que articulavam toda a equipe. Apesar dele ser teoricamente perfeito para ser o cérebro de seu esquema, Lazaroni descartou-o porque teria 37 anos na Copa. Em seu lugar escalou o excelente Valdo, habilidoso e combativo, mas que tinha uma fraqueza: era lento e preferia os passes curtos aos lançamentos. O único no meio-campo capaz de lançamentos, Dunga, foi posicionado bem à frente da zaga, tornando-o quase inútil nesta função.
Careca, depois de tantos anos de timidez e introversão, foi jogar no Napoli, o time de Maradona, e tornou-se o atacante mais famoso do mundo. Era a estrela do time e influenciou o técnico para escalar Muller, seu antigo companheiro do São Paulo, o outro titular da frente, pondo no banco Romário e Bebeto, a dupla que tivera excelente desempenho nas eliminatórias e na Copa América de 1989, que o Brasil ganhou depois de 40 anos. Romário também tirou uma licença para gravar um comercial, agravou uma contusão da qual estava em recuperação e não chegou ao Mundial em perfeitas condições. Na ânsia de tentar jogar ele desencavou um fisioterapeuta que garantiu, contra as opiniões do médico Lídio Toledo, que ele ficaria bom a tempo. O fisioterapeuta era Nilton Petroni, o "Filé".
Esse tipo de atitude dividiu o time em grupinhos que não se davam bem uns com os outros. Além disso, a Copa era vista por muitos como um passaporte para o exterior ou para melhores contratos. Futebol é um esporte profissional e suas estrelas, os atletas, sem dúvida têm que ser devidamente remunerados, mas houve alguns exageros. A patrocinadora da seleção era a Pepsi. Os jogadores exigiram uma percentagem do contrato. A CBF negou e, quando foi feita a foto oficial da delegação, eles cobriram o logotipo do refrigerante com a mão.
Assim, a campanha do Brasil na primeira fase resumiu-se a três jogos chatíssimos. Estreou derrotando a Suécia por 2 x 1. Parecia um bom resultado, mas até os costa-riquenhos conseguiriam vencer os escandinavos por 2 x 1. Os suecos ficaram em último na chave. A Costa Rica perdeu por 1 x 0 graças ao oportunismo de Bebeto aproveitando um erro da defesa. E contra a Escócia outro 1 x 0 em um jogo horroroso. O próximo adversário seria a Argentina. Os campeões do mundo vinham mal e ficaram em terceiro no grupo, classificando-se na repescagem.
Os argentinos começaram sua campanha contra o desconhecido time de Camarões. Os camaroneses jogaram retrancados e baixaram o sarrafo, aproveitando-se da complacência das regras. Olhando hoje alguns lances daquele jogo é chocante ver que algumas faltas violentíssimas não acarretam sequer um cartão amarelo.
Maradona, depois de sua fulgurante atuação em 1986 e outra temporada brilhante em 1987, começou a brigar com a balança. Cada vez mais parecido com sua grande paixão, a bola, o rotundo gordinho perdeu boa parte da arranca e da mobilidade com que driblara todo mundo que viu pela frente no México. E, perseguido pelas faltas, nada conseguiu criar contra os africanos. Num erro de defesa, os camaroneses fizeram 1 x 0. Finalmente eles tiveram um expulsão, mas seguraram o resultado até o final, quando receberam outro cartão vermelho.
Contra a URSS a Argentina sofreu outro sufoco. A mãozinha esperta de Maradona novamente salvou os portenhos. Em cima da linha ele tirou discretamente uma bola russa que já ia entrando. O juiz não viu. Os portenhos fizeram 2 x 0 e ficaram com boas chances. Aos 10 minutos do primeiro tempo o goleiro Pumpido quebrou a perna. Goycoechea entrou em seu lugar. O herói do vice-campeonato ganhava sua vaga.
Os camaroneses venceram também os romenos. O jogo estava melhor para os europeus, até que aos 15 do segundo tempo entrou um veterano de 36 anos, que jogara em 1982. O vovô organizou o ataque africano, fez um gol e comandou a vitória por 2 x 1. O nome dele era Roger Milla.
Os italianos estrearam contra a Áustria com seu time cuidadosamente montado para ganhar o tetracampeonato. Com craques como o líbero Baresi e o lateral-esquerdo Maldini e excelentes jogadores como Donadoni, Ancelotti e Bergomi, acostumados a enfrentar os melhores do mundo, ganhar em casa não deveria ser tão difícil assim.
Contra a Áustria foi 1 x 0. Foi um sufoco. O mundo inteiro copiara a retranca italiana. E eles, jogando em casa, tinham que contrariar suas características e partir para o ataque. O gol só saiu aos 33 minutos do segundo tempo, apesar da Azzurra ter dominado o jogo inteiro. Quem o marcou foi um reserva, Toto Schillacci, centroavante limitado e polêmico. Contra a fraca seleção americana, outro magro 1 x 0. Vitória por 2 x 0 só contra a Tcheco-Eslováquia, com gols dos agora titulares Schillacci e Roberto Baggio.
Os alemães não tiveram problemas numa chave com Emirados Árabes, Iugoslávia e Colômbia. No último jogo os colombianos deram um show de toque de bola. Sem a menor objetividade, como é de seu feito. Os germânicos fizeram 1 x 0 aos 43 do segundo tempo e os sul-americanos tiveram que correr atrás e empataram nos descontos, garantindo vaga para pegar os camaroneses.
No Grupo F, um resumo da Copa: 5 empates e uma vitória por 1 x 0. Inglaterra e Holanda, bem cotadas, mostraram um futebol fraco. Os irlandeses empataram com todo mundo e foram adiante.
Os holandeses, campeões europeus em 1988, depois de suas más atuações, tiveram que pegar os alemães. Gullitt, que muitos consideravam o melhor jogador do mundo à época, começava seu declínio. Van Basten já estava às voltas com os problemas físicos que abreviariam sua carreira. E os germânicos venceram por 2 x 1 sem dar chance aos flamengos.
Os colombianos, depois do toque de bola bonito e improdutivo, tornaram-se os queridinhos de muita gente que pensava que futebol é fazer malabarismo com a bola e não gols. Entraram como favoritos contra os camaroneses e tocaram a bola de um lado para o outro com técnica e refinamento. O tempo normal acabou 0 x 0. Milla entrou aos 9 do segundo tempo. Na prorrogação, Higuita, o goleiro da Colômbia, quis driblar o experiente veterano, para mostrar a beleza do jogo sul-americano, e perdeu a bola e o jogo. No final foi 2 x 1 para os africanos.
A Irlanda segurou mais um 0 x 0 com os romenos de Hagi. Nos pênaltis ganhou e seguiu adiante. A Itália teve dificuldades com o medíocre Uruguai, mas fez 2 x 0. Schillacci fez mais um. Inglaterra e Iugoslávia despacharam respectivamente Bélgica e Espanha.
O Brasil entrou contra a Argentina arrebentando. Na saída de bola Careca perdeu um gol. Foi um baile. Mas apesar de 3 bolas na trave e várias chances, o gol não saiu. Até Dunga partiu para a frente e lá na área mandou uma no poste. Lazaroni no intervalo mandou o time recuar e voltar à sua tática normal. Continuou dominando no segundo tempo, mas já não apareciam tantas oportunidades.
O gordinho Maradona, completamente fora de forma, era bem marcado, inclusive com faltas, por seu companheiro do Napoli, Alemão. No entanto, aos 35 minutos, aproveitou um erro de posicionamento da defesa brasileira e passou pelo meio de quatro jogadores costurando com sua temível perna esquerda. Assustados, os defensores, desacostumados com a tática, não sabiam se davam combate, ficavam na cobertura ou marcavam Caniggia. O baixinho genial aproveitou o espaço, fintou todo mundo e quando o último beque veio para cima, tocou para Caniggia completamente livre. O atacante driblou Taffarel, fez 1 x 0 e um único lampejo de talento botou abaixo todos os complicados planos estratégicos de Lazaroni. Assim como em 1986 a seleção era eliminada justo quando fazia sua apresentação.
O Brasil saía da Copa nas oitavas-de-final, pela primeira vez desde 1966. Com a derrota seriam 24 anos sem títulos. E a decadência era visível: em 1974 e 1978, os canarinhos foram semifinalistas; em 1982 e 1986 chegaram às quartas. Em 1990 já rodavam nas oitavas. Seria o fim da lenda brasileira? Afinal, até a Irlanda, que não ganhou um jogo, chegou na frente dos canarinhos.
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Depois da eliminação da Argentina, o lateral Branco reclamou que depois que bebeu uma garrafa d'água cedida pela comissão técnica argentina, sentiu-se estranho e com as pernas pesadas. Tal história foi ridicularizada, bem como o "campeonato moral" de 1978. E assim como Quiroga anos depois confessou ter sido avisado para facilitar as coisas em 1978, o treinador argentino, Carlos Billardo, numa entrevista em 2005 alegou ter realmente preparado uma surpresa para quem aceitasse beber a água emprestada pelos portenhos.
E por pouco os irlandeses não complicaram a vida dos italianos também. O jogo foi mais um escasso 1 x 0. Gol do Schillacci. Que a maioria da torcida achava que não jogava nada. Os alemães, com um pênalti, fizeram outro 1 x 0 chato sobre a Tcheco-Eslováquia. A Argentina empatou com a fraca Iugoslávia. Goycoechea brilhou na disputa de pênaltis. O medíocre time argentino chegava às semi-finais.
O único jogo bom das quartas-de-final foi Inglaterra x Camarões. O futebol sério britânico começou arrasador, fez 1 x 0 aos 25 minutos e dominava completamente. Milla entrou no começo do segundo tempo e comandou a virada. Aos 20 estava 2 x 1 para os africanos, que começaram a rodar a bola e desperdiçar chances, por pura inexperiência. Os safos bretões conseguiram empatar com um pênalti aos 43. Na prorrogação os europeus mostraram mais preparo, correram mais e venceram por 1 x 0.
Nas semi-finais, ruíram os sonhos de tetracampeonato da Itália. Pegaram os argentinos retranqueiros. Até saíram na frente, mas finalmente Caniggia e Maradona se encontram e saiu o segundo gol portenho em 3 jogos. Mais uma chatíssima prorrogação e nos pênaltis Goycoechea foi o herói outra vez. A Argentina faria a segunda final consecutiva. E seus rivais a terceira. Na verdade, seriam os mesmos adversários de 1986.
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Maradona era um ídolo tão grande na Itália que vários italianos torceram contra a seleção de seu país a favor da Argentina na semi-final! O craque argentino aproveitou-se do desprezo que o norte desenvolvido do país tem pelo sul, onde ficava seu clube, o Nápoli, e fomentou uma discórdia nos jornais que lhe garantiu apoio contra o selecionado local, que lutava por um nunca visto tetracampeonato mundial, em casa!
Os alemães tiveram um jogo duríssimo contra os ingleses. Saíram na frente e aos 36 do segundo tempo cederam um empate. Depois de outra prorrogação (alguém ainda está contando?) sem gols, mais uma decisão por pênaltis. Os germânicos venceram.
E a final foi outro jogo chato. Os dois times, depois de tantos jogos complicados, prorrogações e decisões por pênaltis, se arrastavam em campo. Os germânicos, com um time mais forte e bem preparado, aguentava correr mais e dominava o jogo, mas não conseguia penetrar na defesa sul-americana. Por duas vezes os alemães reclamaram pênalti em jogadas na área. O juiz não marcou, mas aos 39 do segundo tempo inventou uma penalidade máxima para os teutônicos. Os argentinos reclamaram, tiveram uma expulsão e não conseguiram reagir depois do gol. Depois de dois vice-campeonatos seguidos os prussianos punham a mão na taça. Deutschland Uber Alles!!!
Camarões foi o time que mais empolgou, mas exagerou na papagaiada depois que fez 2 x 1 contra a Inglaterra, quis dar um baile e dançou. Roger Milla jogou muito, mas como reserva de luxo e sofrendo com o peso da idade. Todo mundo ficou com pena de não o ter visto no auge da forma. A única jogada genial de Maradona foi justamente aquela contra o Brasil. Matthaus foi eleito o craque da Copa. Belo jogador, mas o reserva da seleção canarinho, Juninho Pernambucano, joga mais do que ele. O artilheiro foi Toto Schillacci, centroavante do tipo trombador, de fazer gols dividindo as bolas com a defesa.
Enfim, foi uma Copa paupérrima. A continuar assim todo mundo iria se desinteressar de futebol. Eram necessárias modificações para que o jogo voltasse a empolgar.
E nem foram precisas tantas. Futebol é um jogo simples. Com três pequenas alterações nas regras e recomendações aos juízes, a FIFA começou nos anos 90 a recuperar o futebol ofensivo.
A História das Copas do Mundo Capítulo XIV - A Copa de 1986
Os outros capítulos estão embaixo deste e oferecem fascinante painel da evolução tática e técnica do futebol...
A GLOBALIZAÇÃO DO FUTEBOL
O futebol brasileiro se profissionalizou porque todos os jogadores estavam indo para o exterior. O Peñarol levava Domingos e Leônidas; Fausto ia para o Barcelona; Filó para a Itália. Uma vez resolvido que atletas podiam - e deviam - ser pagos, a coisa deu uma parada.
Durante muito tempo o único país europeu a contratar sul-americanos era a Itália. Somente italianos podiam jogar nos clubes de lá, mas abria-se uma exceção para os descendentos de emigrantes. A Argentina, que teve uma geração excepcional nos anos 40, perdeu jogadores como Sivori e Maschio. O Brasil perdeu Julinho. O Uruguai perdeu Gigghia. "Perdeu" porque naquela época o além-mar era longe, longe, muito longe. E longe é um lugar que não existe, como já dizia o poeta. Ninguém nem sabia se o sujeito estava vivo, quanto mais se ainda jogava bem. Era impraticável convocá-lo. As seleções se preparavam para as Copas durante três a quatro meses! Além disso, muitas vezes os atletas se naturalizavam e passavam a jogar pela equipe nacional local.
No final dos anos 50 foram os espanhóis que começaram a brincar de naturalizar craques. Levaram inclusive Didi e Vavá, mas não deu muito certo. Além da língua, a Europa era uma terra muito estranha e diferente. Só se sabia dela o que se via nos filmes americanos e jornais brasileiros. Entre os estranhos hábitos daquela gente, diziam alguns que os europeus não se importavam se suas noivas não fossem mais virgens. E alguns pais até sabiam que suas filhas transavam! E as mulheres trabalhavam! Era difícil alguém se acostumar.
Mas a Espanha, com Puskas e Di Stefano, e a Itália, com um monte de argentinos, fracassaram. Os espanhóis deram um tempo e a Itália "fechou o mercado". Só italianos poderiam jogar lá. O resultado pareceu bom: depois de 32 anos eles voltaram a jogar uma final de Copa e a ter um bom time.
Mas nos anos 70, embora a seleção fosse bem, os clubes italianos foram suplantados por holandeses e alemães. Isso não era bom para os negócios. E os negócios eram bons - latinos adoram futebol e como lá na Itália tem dinheiro e organização, os times davam uma grana boa. Eles resolveram arriscar, "abriram o mercado" e permitiram um não-italiano por equipe, em 1979. Vieram aqui e ofereceram US$ 1 milhão por Zico, uma quantia absurda para a época. O Flamengo disse não. Eles nem discutiram, saíram, pegaram o avião, foram para o Rio Grande do Sul e cataram o Falcão, em 1980.
A primeira temporada não foi muito boa. A Europa ainda era quase uma Terra do Nunca, um Jardim das Hespérides, um lugar de lendas e boatos. Mas no ano seguinte Falcão levantou a cabeça, distribuiu o jogo e um time que disputava posições intermediárias começou a brigar pelo título pela primeira vez em quase 50 anos.
Até então os clubes brasileiros eventualmente vendiam seus jogadores para o exterior, mas não as estrelas em ascensão. O Flamengo venderia o problemático Paulo César, mas manteria Zico. O Botafogo liberaria o trintão Jairzinho, mas guardaria o jovem Mendonça. A diferença entre o que os astros ganhavam aqui no Brasil e o que ganhariam lá fora não era tão brutal que compensasse todos os riscos que correriam. Ainda estava no princípio a era do merchandising. Somente na Copa de 1974 alguns - não todos - fabricantes de uniformes esportivos começaram a exibir seu logotipo nas camisas dos selecionados.
Tudo mudou com o sucesso de Falcão e a vitória da Itália na Copa de 1982. O título mundial animou os torcedores. Falcão provou que sul-americanos podiam brilhar no mais competitivo futebol europeu. E as comportas foram abertas. A Juventus formou um time lendário, juntando Platini, Paolo Rossi e Boniek. Os clubes espanhóis e alemães também começaram suas contratações estrangeiras. Na mesma época começava a explosão das tevês a cabo e os lucros com o esporte e merchandising subiram astronomicamente.
No Brasil houve um êxodo entre 1982 e 1984. A princípio os técnicos da seleção tentaram chamar apenas jogadores que estivessem no Brasil, mas os péssimos resultados acabaram levando à convocação de Zico, Sócrates, Falcão, Edinho e Cerezo, todos então em clubes italianos, para disputarem as eliminatórias. Em 1985, com tantos brasileiros na Itália, a rede Bandeirantes começou a transmitir o campeonato de lá. Começava a globalização do futebol.
A partir daí começou um período confuso para a seleção brasileira. A convocação de cada craque precisava ser negociada com seu clube. Dificilmente uma escalação era repetida. Algumas vezes insistia-se em chamar apenas jogadores atuantes no Brasil.
Somente nos anos 90 a FIFA regulamentaria a relação entre clubes e seleções, reservando uma quarta-feira por mês para amistosos internacionais e jogos eliminatórios, a "data FIFA". E torneios como a Copa das Confederações e a Copa América passariam a contar com os principais craques do mundo, servindo também como preparação para as equipes nacionais, já que quase todas contam com seus astros - e torcedores - espalhados pelo mundo.
A EVOLUÇÃO TÁTICA - O 3-5-2
Pelo meio dos anos 80 todos os times de futebol haviam adotado universalmente o 4-4-2. A diferença entre eles residia na variação usada. Alguns escalavam na meia-cancha dois volantes de contenção e dois armadores, formando um quadrado. Outros preferiam um cabeça-de-área, dois apoiadores e um ponta-de-lança, numa forma de diamante. Principalmente depois da vitória da Itália em 1982, alguns escolhiam três jogadores mais defensivos, dando liberdade para o último meio-campista fazer a ligação com o ataque.
Ciente de que todos os times do mundo usavam dois atacantes e decidido a tentar recuperar pelo menos parte do futebol total, o técnico dinamarquês, Sepp Piontek, teve uma idéia. Revertendo a história das táticas, tirou um jogador da defesa e o empurrou para o meio-campo. Para que mais de três zagueiros se todo mundo atacava com dois sujeitos?
A grande diferença para esquemas como o WW húngaro, que tinha uma formação de 3 zagueiros, 2 médios ou volantes, 3 meias ou armadores e 2 atacantes, era que os beques marcavam por zona e não homem-a-homem. Com tanto espaço para cobrir, certamente haveria erros. Para corrigi-los o terceiro defensor ficava atrás deles, atuando como líbero. O esquema exigia que o meio-campo ajudasse na marcação de meias ofensivos.
FIGURA 19
Com 5 jogadores no meio-campo com liberdade para se movimentar e contando com jogadores inteligentes como os irmãos Laudrup, Piontek conseguiu ressuscitar parte da magia do carrossel holandês. Seu time jogava tocando a bola em passes curtos e não "forçava" as jogadas. Caso encontrassem a defesa muito fechada por um lado, seus atletas não hesitavam em voltar o lance bem atrás para recomeçar, valorizando a posse da bola.
Esse esquema repetiria parte do sucesso do carrossel holandês. Assim como a Laranja, sua obra-prima seria uma goleada sobre um sul-americano, no caso 6 x 1 sobre os uruguaios. Como os húngaros, venceriam também uma Alemanha com um time misto. E, depois de avassaladores 40 minutos contra os espanhóis, tropeçariam no excesso de confiança e desabariam para a realidade.
A Dinamarca depois retornou para um 4-4-2 mais tradicional, que a levaria à conquista da Eurocopa, o principal título de sua história. O 3-5-2 seria adaptado para os tempos defensivistas. Em 1990 o Brasil chegaria a usar apenas um jogador de criação na linha média, usando a mística da inovadora tática para disfarçar o que era na verdade um 5-3-2. Mas isso é outra história.
O 3-5-2 foi a última tática realmente diferente a aparecer no cenário mundial. Todas as outras usadas até hoje são variações dele, do 4-4-2 e eventualmente do 4-3-3.
A COPA DE 1986
Para quem acha que os capítulos sobre as Copas estão longos demais, esse é bem mais curto.
Maradona chegou no México, ganhou de todo mundo e levou a taça.
Curto demais? Está bem, então eis a versão mais longa:
A Colômbia deveria sediar a Copa, mas faltou grana. Foi a época em que a América do Sul toda faliu. A FIFA perguntou se Brasil e Argentina não estariam interessados, mas eles disseram que também estavam duros. O México, com sua boa televisão, os estádios de 1970 ainda inteirinhos e ganhando dinheiro com petróleo, disse que topava. Então teríamos a Copa do México II - a missão.
A seleção brasileira teve péssimos resultados entre 1982 e 1985. A maioria dos craques jogava no exterior e não era convocada. Em 1985, às vésperas das eliminatórias, Telê Santana foi chamado de volta para a seleção e, imitando João Saldanha, no momento do convite declinou os convocados e escalou o time titular: Carlos, Leandro, Oscar, Edinho e Júnior: Cerezo, Zico e Sócrates; Renato, Casagrande e Éder. Falcão estava contundido. Fora ele, as únicas diferenças para o time de 1982 eram Edinho no lugar de Luisinho, Carlos no de Valdir Peres, Casagrande no de Serginho (parecia que Telê reconhecia os seus erros) e Renato no de Paulo Isidoro. Esta última modificação atendeu em cheio à torcida e imprensa: vinte anos depois que a Inglaterra foi campeã mundial com o 4-4-2, o Brasil voltava ao 4-3-3 com pontas abertos! Era o retorno do futebol ofensivo!
E parecia que funcionava. Contra a Bolívia e o Paraguai, lá na casa do adversário, dois 2 x 0. Os paraguaios tinham o melhor time de sua história, comandado por Romerito. Não adiantou nada, o Brasil mandou no jogo e Zico fez um golaço, puxando uma bola de charles e chutando em seguida lá da intermediária.
Mas a turma do Telê tinha se aproveitado do nervosismo do time da casa para ficar fechada lá atrás e só sair na experiência - e que experiência! Zico tinha 32 anos, Cerezo, 30, Júnior, 31, Sócrates, 32. O povo bom de bola estava envelhecido. Júnior e Leandro não jogavam mais como laterais em seus times - o primeiro era apoiador e o segundo, zagueiro. Sócrates não tinha mais a mesma eficiência. Nos jogos aqui no Brasil, duas atuações fracas da seleção e dois empates em 1 x 1. O 4-3-3 deixava todos muito expostos.
Mas mexer nessa tática era mexer num vespeiro. Sem os dois pontas estaríamos regredindo a 1974 e 1978, ao futebol defensivo, copiando modelos europeus que não aproveitavam o potencial do jogador brasileiro. Em uma excursão à Europa pouco antes do Mundial a seleção tomou de três da Hungria e da Alemanha. Telê aproveitou para refazer o time de modo bem mais cauteloso. Apesar de tudo, ele também acreditava que tinha sido muito ofensivo em 1982.
Ainda mais que seus veteranos começaram a cair um por um. Dirceu e Cerezo se contundiram e ficaram fora dos planos. Zico torceu o joelho numa entrada de Márcio Nunes, do Bangu, e teve que fazer uma cirurgia moderna e inovadora, uma artroscopia, para tentar jogar pelo menos algumas partidas. Falcão e Sócrates também foram operados no início do ano. Os dois se recuperaram a tempo, mas o volante nunca mais exibiu o brilhante futebol de 1982 e o doutor, fumante inveterado, estava em fim de carreira.
E a preparação voltou a ser conturbada. Numa eleição confusa, repleta de acusações de compra de votos, Nabi Abi Chedid, controverso dirigente paulista, pôs seu candidato Otávio Pinto Guimarães no comando da CBF, desalojando Giulite Coutinho. A mudança trouxe de volta as pressões políticas para escalações de jogadores. A globalização do futebol começara. Os clubes europeus só liberaram seus jogadores vinte dias antes do torneio. Mais uma vez uma Copa começava sem que o Brasil tivesse um time titular realmente definido.
Os canarinhos estrearam contra a Espanha, bom time comandado pelo artilheiro Butragueño. Na linha média alinhavam pela primeira vez dois cabeças-de-área preocupados principalmente em defender, Elzo e Alemão. O terceiro homem do meio-campo, Júnior, era o lateral-esquerdo de 1982 e, embora um craque na criação de jogadas, preocupava-se mais com a marcação do que ocupantes anteriores da posição. Sócrates, o mais avançado do quarteto, sempre fora mais um armador do que um ponta-de-lança. Faltava-lhe a velocidade requerida pela função. As jogadas pelos flancos seriam providenciadas primordialmente pelos laterais, pois o ataque tinha dois centroavantes, Careca e Casagrande, sendo que este último fazia o gênero "trombador", com pouca movimentação por toda a frente. O Brasil finalmente jogaria num autêntico 4-4-2, apenas com armadores no meio-campo, sem nenhum autêntico meia-atacante (ou ponta de lança, ou "número 1", ou "camisa 10").
Por sorte os canarinhos contaram com a melhor atuação de Careca na seleção. Até então jogador que brilhava em clubes, mas com dificuldades em assumir a condição de astro, sempre ofuscado por alguém, Careca naquela Copa ganharia fama mundial. Contra os hispânicos, num arremate seu a bola bateu na trave e sobrou para Sócrates, livre, cabecear para o gol vazio. Uma bola da Espanha bateu na trave e dentro da meta, mas o juiz não validou e mandou seguir. O jogo acabou 1 x 0. Com os espanhóis também acreditando na filosofia dos campeões italianos de que a defesa era quem ganhava os jogos, houve pouquíssimas chances de lado a lado. Esta seria a tônica do Mundial.
Ainda mais que os jogos voltaram a ser eliminatórios. Os mexicanos propuseram e a FIFA aceitou um novo regulamento: os 24 países eram divididos em 6 grupos de 4. Os dois primeiros de cada se classificavam e, entre os times que ficassem em terceiro, prosseguiam os 4 que fizessem mais pontos. Isso totalizava 16 seleções, que eram alinhadas em 8 jogos eliminatórios, depois 4, depois semi-finais e final. A Copa é disputada assim até hoje, com a única diferença de que aumentou o número de participantes e de chaves, não havendo mais vaga para os terceiros colocados. Com essa fórmula e a mentalidade defensivista da época haveria um número récorde de partidas definidas na disputa de pênaltis.
A seleção que deu origem a isso tudo, a Itália, começou mal. Empatou com a fraca Bulgária. A Argentina ganhou da Coréia, fazendo 3 x 1 em jogadas de Maradona. Em seguida os dois últimos campeões do mundo empataram em 1 x 1 em mais chatos 90 minutos. Jogo bom só seria o inesperadamente emocionante Itália 3 x 2 Coréia do Sul. Depois de ser eliminada pela Coréia do Norte em 1966, a Azzurra penou com os primos meridionais para ganhar a vaga. Não seria a última vez que os italianos ouviriam falar dos coreanos. Os argentinos, sempre empurrados por Maradona, fizeram 2 x 0 na Bulgária e seguiram adiante.
Em 1982 muita gente apostava que a Bélgica iria surpreender. Só surpreendeu os argentinos. Em 1986 ela começou mal, perdendo dos anfitriães, para depois vencer por 2 x 1 o fraco Iraque e empatar com os paraguaios. Ganhou a vaga, ao lado dos mexicanos.
No grupo C estava a esperança dos fãs do "jogo bonito". Nos quatro anos anteriores Platini se mudara para a Juventus, tornara-se a estrela de um time que tinha ainda Rummenigge, Boniek e Paolo Rossi, e ganhara a experiência que lhe faltara na semi-final de 1982, quando os franceses fizeram 2 x 0 na prorrogação e perderam para os alemães nos pênaltis. Em 1984 ele confirmou sua maturidade comandando "les bleus" na conquista da Copa da Europa.
Mas a França não começou bem. Fez apenas 1 x 0 no fraquíssimo Canadá. No outro jogo da rodada é que veio a goleada. Muita gente achava o jogo de toque de bola da Hungria promissor, principalmente depois da vitória sobre o Brasil por 3 x 0. Pegaram a URSS pela frente. Em cinco minutos já estavam perdendo de 2 x 0, em dois chutes violentíssimos e precisos lá do meio da rua. Aos 23 os soviéticos fariam 3 x 0. Acabaria 6 x 0. Os húngaros não acharam mais o caminho de casa e foram eliminados.
A Inglaterra, como sempre, chegou achando que era a favorita. Perdeu de Portugal na primeira partida. Polônia e Marrocos empataram o outro jogo. Os britânicos empataram com os marroquinos. Os lusos perderam dos poloneses. Mas a Inglaterra fez 3 x 0 na turma do Boniek e os portugueses conseguiram perder para os africanos por 3 x 1 e foram embora, conseguindo não entrar nem na repescagem. Estava mantida a tradição dos lusitanos de ganhar clássicos e se complicarem com seleções de pouca tradição.
A sensação da primeira fase da Copa veio da chave da Alemanha. Mas não foi o futebol de marcação-cruzamento-gol dos germânicos que fez a festa. Foi um novo carrossel. A Dinamarca, depois de brilhante campanha nas eliminatórias, apresentava ao mundo a última tática inovadora na história do futebol, o 3-5-2. Com tantos jogadores na linha média, ou seja, com liberdade para atacar ou defender, em certos momentos sua movimentação lembrava a "Laranja Mecânica". Também copiaram dos holandeses a filosofia de não forçar um drible ou um chute prensado, mas voltar a jogada se encontrassem um obstáculo, para procurar um caminho mais fácil. Atacantes com a bola dentro da área não hesitavam em voltar o lance para o meio-campo, para experimentar a outra ponta ou o meio.
Os uruguaios, que tinham uma boa equipe, com um dos melhores jogadores do mundo, Francescoli, entraram com um 4-3-3 para pegar os dinamarqueses. Tomaram de 6 x 1 e não viram a cor da bola. A Dinamarca passou a ser conhecida como "Dina-máquina". O centroavante algo enrolado Elkjaer conseguia levar os defensores com seu corpanzil e sua velocidade. Morten Olsen era o maestro do time e Laudrup o cérebro do ataque. Venceram também a Escócia por 1 x 0 e a Alemanha por 2 x 0. Os alemães entraram com meio time reserva. Ficaram em segundo na chave e teriam pela frente os surpreendentes marroquinos. Os dinamarqueses pegariam os espanhóis. Mais uma vez ficou a suspeita de que os germânicos planejaram uma derrota para facilitar seu caminho.
Enquanto isso, em sua chave, o Brasil penou contra a Argélia. A seleção não se acostumava com dois centroavantes e os laterais não estavam acostumados a se soltar completamente, mesmo com os dois cabeças-de-área. E os africanos ficaram retrancados lá atrás. O gol só saiu em mais uma jogada individual de Careca, que dividiu uma saída de bola dos argelinos. O lateral Édson se machucou. Falcão entrou em seu lugar aos 10 do primeiro tempo e comprovou que jamais voltaria a ser o craque de 1982. Telê Santana fez duas modificações para o jogo contra a Irlanda do Norte. No lugar de Édson entrou o irregular Josimar, do Botafogo. No lugar de Casagrande entrou Muller.
Muller havia sido o artilheiro do Mundial sub-20 que o Brasil ganhara em 1985. Isso imediatamente lhe deu uma vaga na seleção principal, com a carência de jogadores disponíveis no país. Suas arrancadas com a bola controlada faziam da imprensa paulista ferrenha defensora sua, rotulando-o como grande craque. Curiosamente Muller só conseguira a vaga no time de juniores campeão depois que o titular foi cortado por um problema envolvendo prostitutas na concentração. O nome do sujeito era Romário. Por conta da fama que o são-paulino granjeou naquele torneio, Romário teria sua estréia com a amarelinha adiada por quase dois anos. A má fase que seu time, o Vasco, atravessava também não ajudava, ainda mais se comparado ao brilhante São Paulo de Muller, que contava também com Pita, Careca, Oscar e Silas.
E Muller e Josimar arrebentaram contra a Irlanda. O atacante arrancou pela ponta-direita e cruzou no pé de Careca para a abertura do placar logo aos 15 minutos. No final do primeiro tempo o lateral, que passou a maior parte do tempo apoiando o ataque pelo meio e pela direita, soltou um foguete de 96 km/h lá da intermediária e fez 2 x 0. O gol foi escolhido um dos 10 mais belos chutes da história das Copas. Zico, em recuperação, entrou aos 23 do segundo tempo e deu um passe de calcanhar para Careca fazer o terceiro aos 42 do segundo tempo. Finalmente o Brasil mostrou que podia defender e atacar ao mesmo tempo, achando um equilíbrio entre futebol-arte e marcação. Talvez estivéssemos encontrando a trilha que aquele time de 1982 não achou.
Começaram os jogos eliminatórios. A URSS jogou à beça, mas o tempo normal acabou em 2 x 2 graças ao soprador de apito, que validou um gol em clamoroso impedimento dos belgas. Os soviéticos saíram na frente na prorrogação, mas mais alguns equívocos de arbitragem deram a vitória para a Bélgica, apesar de ter sido imprensada desde o começo. Os comunistas sempre foram estranhamente perseguidos por erros de árbitros. E sempre se comportaram cavalheirescamente, aceitando tudo com fair-play. Um jornalista já levantou a teoria de que, como eles viviam num regime autoritário, onde quem reclamasse ia preso, eles não se rebelavam contra as decisões. Os juízes então ficavam mais à vontade para apitar contra eles.
Os uruguaios, apesar da surra para a Dinamáquina, entraram na repescagem e pegaram os onze de Maradona. Todos os gols portenhos tinham saído dos pés do seu camisa 10. A turma do Francescoli botou todo mundo na marcação do baixinho. O resto da Argentina era só coadjuvante mesmo. Quase deu certo. Maradona fez umas três arrancadas pela ponta e cruzou para companheiros perderem gols feitos. Aos 41 minutos Pasculli conseguiu acertar. Os erros devem ter irritado muito Maradona, já que a partir dali ele resolveu que ele mesmo iria fazer os gols.
O Brasil pegou a Polônia de Boniek. O primeiro tempo foi chatíssimo e, numa jogada isolada, Careca invadiu a área e foi derrubado num pênalti desnecessário. O Brasil fez 1 x 0. O jogo continuu fechado no segundo tempo, até que aos 11 minutos houve uma falta na intermediária a favor dos canarinhos. Josimar, depois daquele belo arremate contra a Irlanda, resolveu bater.
A bola bateu na barreira e voltou para Josimar. O tresloucado lateral dividiu a rebatida com um polonês, deu dois belos dribles nos defensores poloneses e chegou à linha de fundo, onde, ao invés de cruzar para os brasileiros livres, deu um toque de efeito por cobertura sobre o goleiro. Um golaço coroando uma jogada onde ele fez tudo ao contrário do que deveria.
Com 2 x 0 contra eles, enfrentando uma defesa onde não conseguiam penetrar, os poloneses jogaram a toalha. Foram para a frente de qualquer jeito e tomaram dois belíssimos contra-ataques, com toques de calcanhar, dribles de efeito e tabelinhas, que fecharam o placar em 4 x 0. Zico entrou aos 25 do segundo tempo e jogou bem. Parecia que em breve ele estaria em condições de jogar para valer. O Brasil voltava a parecer o Brasil.
Nos outros jogos a França despachou a Itália com uma facilidade absurda. O locutor de tevê, sabendo que os franceses seriam nossos próximos adversários, pedia, "Puxa, Itália, cansa a França um pouquinho". Não adiantou. Foi 2 x 0 fora o rola. A Inglaterra fez 3 no Paraguai. A Alemanha não conseguiu penetrar a defesa de Marrocos até que aos 44 do segundo tempo a barreira abriu numa cobrança despretensiosa de falta e enganou o goleiro. Eles estavam certos em evitar a Espanha. A "Fúria" tinha eliminado a Dina-máquina por 5 x 1.
Quanto?
Cinco a um. Quatro gols de Butragueño.
É melhor explicar a história toda.
Os dinamarqueses foram a sensação da primeira fase. Todo mundo só falava neles. A Dina-máquina. O futebol total. O carrossel escandinavo. Era o futuro do jogo. O caminho do esporte. Aquela retranca herdada da Itália iria acabar. Os dinamarqueses eram os melhores do mundo. Os jogadores comemoraram adoidado sua campanha no grupo. E a Espanha... bem, a Espanha era a vice-campeã européia, mas não era adversário para eles. Lembram-se das outras vezes em que uma seleção começou a raciocinar assim?
Mas o jogo começou dando razão às crenças dinamarquesas. A bola rolava fácil, seus atacantes passavam pelos assustados espanhóis como queriam e perdiam uma chance atrás da outra. Aos 32 a defesa da Espanha fez pênalti e os escandinavos abriram o placar. E começaram a tocar a bola de um lado para o outro. A partida estava no papo. Os ibéricos assustados e inferiores teriam que se abrir para atacar.
E, nessa brincadeira, a defesa quis sair trocando passes de efeito para o ataque. Butragueño roubou uma bola mal atrasada por Jesper Olsen para o goleiro e empatou o jogo aos 43 minutos. Depois de toda a aula de futebol que deram, os dinamarqueses foram para o vestiário do modo como tinham começado o jogo: com um empate.
A partida saía do roteiro previsto. Os espanhóis começaram a perceber que os dinamarqueses eram feitos de carne e osso que nem eles. E, ao contrário dos marcadores de Pelé, não estavam errados. Os escandinavos voltaram nervosos, querendo reabrir logo a vantagem, mostrar que eram superiores, lembrando o Brasil de 1982. E Butragueño foi seu Paolo Rossi. Aos 12, num escanteio, ele virou o placar. Foi a Dinamarca quem teve que se mandar para o ataque e arriscar tudo. Acabaram derrubando o atacante espanhol na área. Goikoetxea cobrou para fazer 3 x 1. Butragueño ainda faria o quarto e converteria mais um pênalti no finalzinho. Por causa do seu erro ao atrasar a bola no primeiro gol, o lateral Jesper Olsen viu surgir em dinamarquês a palavra "jesper", significando "erro crasso".
Nas quartas-de-final os alemães eliminaram os donos da casa nos pênaltis após um chatíssimo 0 x 0. Os belgas, com seu futebol pouco brilhante, fizeram o mesmo com Butragueño & cia., que assumiram o papel de favorito eliminado. Pelo menos no tempo normal foi 1 x 1. Os únicos jogos mais divertidos foram os com os sul-americanos.
Maradona cansou de dar gols para os companheiros perderem. Então contra os ingleses, no primeiro encontro dos dois países desde que os britânicos arrasaram os argentinos na Guerra das Malvinas em 1982, ele resolveu fazer tudo. Aos 6 do segundo tempo um argentino levanta um chuveirinho na área inglesa. Shilton sai tranquilo, o único atacante por perto é o nanico Maradona.
De alguma forma Maradona consegue ganhar a disputa pela bola alta. Os ingleses começam a reclamar imediatamente. Bando de chorões. Todo o mundo viu pela televisão que foi um gol legal. O estádio inteiro viu. O Shilton é que vacilou. Vamos ver com calma agora nesse replay em câmera lenta de outro ângulo.
E não é que o baixinho meteu a mão na bola?
Ninguém viu o lance na hora. Não foi só por ter sido ilegal. Maradona foi tão furtivo em sua infração que o juiz não teve a menor dúvida em dar o gol e os espectadores só ficaram surpresos com a falha de Shilton. Numa entrevista depois do jogo, Maradona disse que foi a "mão de Deus" que o guiou naquela disputa de bola. O gol passou para a história como o da "mão de Deus".
Aproveitando que os britânicos estavam atordoados, Maradona pegou uma bola mais ou menos ali pela lateral-direita e ficou rodando que nem pião em volta de si mesmo. Parecia não fazer sentido, mas de repente ele estava de frente para o ataque e já tinha deixado quatro bretões na saudade. Ele arrancou pelo flanco direito, passou por um, dois, três...
Bem, esse foi escolhido quase unanimemente o gol mais bonito já assinalado numa Copa do Mundo. Tem em qualquer filme sobre os Mundiais ou futebol em geral. Maradona driblou todo mundo e tocou na saída do goleiro. O que fazer? Os ingleses correram atrás e diminuíram, mas a Argentina garantiu a vaga na semi-final.
E teve o Brasil x França, né?
Era o confronto dos dois times mais técnicos. O Brasil vinha subindo de produção. A França também.
Os brasileiros começaram bem melhor. Muller perdeu um gol logo no início. Mas Careca, depois de uma bela tabela entre Muller e Júnior, fez 1 x 0. O Brasil continuou mandando no jogo. Marcava bem e, embora não tivesse tido mais grandes chances, continuava rondando a área francesa. Platini e companheiros não ameaçavam.
Até que aos 41 minutos um cruzamento despretensioso da ponta-direita resvalou no peito de Edinho, que fazia a marcação da jogada, desviou do goleiro Carlos e caiu no pé de Platini. O Brasil iria levar um empate com sabor amargo para o vestiário. Carlos deu azar. Mas a seleção estava jogando bem. Tudo mudaria no segundo tempo.
Não mudou. O Brasil jogava bem, mas não ameaçava. A França começava a se tornar mais perigosa. Telê lançou Zico aos 26 minutos. Em sua primeira jogada ele faz um lançamento longo para Branco, que se infiltrou pela meia-esquerda. O lateral se livra da marcação e é derrubado na entrada da área.
Sócrates é o cobrador oficial do time. Mas ele abre mão de bater o pênalti. Todos consideram que o Galinho, depois de todo o esforço que fez para jogar a Copa, merece a honra. Afinal, foi seu lançamento que originou a infração. Zico, que mal entrara, ainda com a musculatura fria, aceita a missão. E erra. Bate mal. O goleiro Bats pega.
O Brasil inteiro se desespera. É o desastre de 1982 outra vez! Todo mundo se manda para o ataque. Oportunidades são perdidas. Uma cabeçada trisca o travessão. Mas o gol não sai. Vai ter prorrogação.
O tempo extra foi todo da França. Os balzaquianos Zico, Júnior, Sócrates e Edinho não aguentam o ritmo da técnica seleção francesa. Carlos faz um pênalti quando um atacante adversário entra sozinho. O jogador escapa dele, mas perde o equilíbrio e o gol. Pelas regras da época, se o juiz não desse a falta na hora em que ela fosse cometida, não poderia marcá-la depois. O árbitro achou que o francês tinha levado vantagem e não apitou a infração. O Brasil escapa. Talvez a sorte estivesse mudando.
E começa a disputa por pênaltis.
Zico bate e dessa vez converte. Sócrates, o cobrador oficial da equipe, se prepara. Ele dá dois passos para trás. O ex-técnico da seleção, João Saldanha, comentando o jogo para a tevê, grita para o Brasil inteiro: "toma distância, ô, palhaço!" Ele não toma. O chute sai péssimo, por cima do travessão.
O próximo chute da França bate no travessão. Antes que a torcida brasileira possa comemorar, a bola volta na direção do campo, bate nas costas do goleiro Carlos, que escolhera o canto certo, alguns metros à frente da linha de gol, e entra. Vale isso? Vale.
Esse lance causou tanta polêmica que a regra mudou por causa dele. Hoje em dia, numa disputa por pênaltis, se a bola bater na trave e voltar, ela está fora do jogo. Se Carlos tivesse escolhido o canto errado ou ficado parado, o chute não teria entrado. O Brasil continua com azar. Todo mundo acertou a cobrança, menos Sócrates. E logo Platini, o craque deles, vai bater o último.
E erra também.
Talvez a sorte esteja voltando para o Brasil.
Mesmo assim, ninguém se arrisca. Ninguém quer bater o último pênalti, que pode empatar a cobrança. O zagueiro Júlio César estava escalado, mas começou a passar mal e foi para o vestiário. O time vai buscá-lo.
Ele toma distância, desloca o goleiro e coloca a bola bem no canto. Tanto que ela bate na trave. E o arqueiro estava do outro lado, nem tem chance de rebater nele. O Brasil está eliminado.
BOX
Depois do Mundial, a carreira de Josimar começou seu rápido declínio, devido principalmente à cabeça do jogador, nem de longe tão boa quanto sua perna direita. Certa vez, jogando pelo Flamengo, perdeu o vôo para um jogo em Minas e, na entrada do aeroporto, pegou um táxi do Rio até Belo Horizonte (!!!!) Acabou chegando depois da partida e sendo multado por seu atraso.
Resta o consolo de ter feito um dos mais lembrados jogos da Copa depois de 1970. A França novamente iria despencar diante dos alemães. O técnico time gaulês não tem a condição física germânica e cai por 2 x 0. Bats, depois agarrar um pênalti de Zico, falha numa cobrança de falta de Brehme aos 9 minutos e facilita tudo. de Na outra semi-final sem brilho novamente Maradona arranca do meio driblando todo mundo pela frente e faz os dois gols contra a Bélgica. Os belgas chegaram entre os quatro primeiros tendo ganho apenas uma partida no tempo normal.
Depois do que o baixinho marrento da Argentina estava fazendo, não havia ninguém que apostasse na Alemanha. Não que o time argentino fosse superior. Todo mundo estava preocupado com a marcação. Os atacantes perdiam gol adoidado. Passarella, que classificara o time na raça nas eliminatórias, estava no banco. Maradona não gostava dele. E o que Maradona queria, Carlos Billardo fazia. Menotti fora demitido depois da derrota em 1982. Billardo assumiu e acabou com aquela história de futebol ofensivo. Como quase todo o planeta, ele adotou a filosofia defensivista italiana. Um monte de sujeitos ajudando a defesa. Só um não precisava, pois tinha "liberdade para criar", com os outros todos correndo por ele.
Para sorte dos argentinos, esse um era Maradona.
Os alemães mais uma vez tinham Rummenigge fora de condições. O grande atacante teria como grande momento nas Copas somente a prorrogação da semi-final de 1982.
Os germânicos entraram preocupados com Maradona. Nem perceberam que o resto dos argentinos fazia 2 x 0. Aos 25 do segundo tempo o locutor de tevê perguntava a João Saldanha, "João, Copa decidida?" O ex-técnico respondeu que "a Argentina está dando a única chance que a Alemanha tem, em bolas altas na área". Três minutos depois Rummenigge diminuía num escanteio. Aos 37 Voller empatava em outra cabeçada.
Os alemães comemoram. Esses empates heróicos costumam levar à vitória. Não seria a primeira vez que uma lenda viva do futebol cairia a seus pés numa final de Copa. Nem a segunda. O locutor da tevê pergunta a João Saldanha, "e aí, João, vamos ter prorrogação?". João responde que ainda há tempo, mas a Argentina precisa acionar Maradona.
E aciona. Aos 39 ele dribla alguns alemães e lança Burruchaga com um passe milimétrico que deixa o atacante na cara do goleiro. É o gol da vitória. Nem o vidente travestido de jornalista João Saldanha duvida mais do título portenho.
Se em 1982 o defensivismo tomou o mundo, o resultado da Copa de 1986 confirma a seus praticantes que a retranca é realmente o caminho certo. Brasil, Dina-máquina, França, todos foram vítimas fáceis de seus algozes. O eficiente e pouco criativo futebol alemão chegou à final. Os belgas chegaram em quarto vencendo só uma vez no tempo normal. Com a fórmula de disputa eliminatória levar um gol é um desastre. Não se pode arriscar muito.
E até a Argentina mostrou um futebol pobre. Mas tinha Maradona. Costuma-se dizer que Garrincha ganhou sozinho a Copa de 1962. Óbvio exagero, apenas uma hipérbole para honrar seus feitos. Ele arrebentou nas semi-finais e nas quartas, mas o herói da final e do jogo contra a Espanha foi Amarildo. Em 1986, não. Maradona carregou nas costas um paupérrimo time argentino. Suas maravilhosas arrancadas deram um gosto de pelada de rua à Copa mais retrancada e tática até então. Mas o resto do mundo tirou a lição errada.
Os times começaram a ser armados repletos de atletas preocupados com a marcação e apenas um na criação, além dos atacantes, é claro. Mais de um enfraqueceria a defesa, porque jogadores criativos não defendem tão bem. E, afinal de contas, como se podia ver olhando em volta, eles estavam em extinção.
É claro que estavam, não podia ter mais de um por equipe!!!
O resultado seria que em 1990 chegar-se-ia ao fundo do poço.
A pior Copa de todos os tempos.
MARADONA
Como bom baixinho marrento craque de bola, Maradona tem pernas curtas e grossas. Tal compleição o deixa mais perto do chão e diminui seu centro de gravidade, dando-lhe excepcional equilíbrio. Também o provê com poderosos músculos nas coxas e panturrilhas, capazes de rápidas arrancadas e estupenda aceleração. Combinadas essas qualidades, o argentino, em seus tempos de atleta, era capaz de mudar de direção quase sem esforço.
Em suma, ele tinha o físico do driblador. Aliado a seu fantástico controle de bola, estava tudo pronto para Maradona tomar de assalto o mundo do futebol, do mesmo modo como tomava as defesas adversárias: jogando-se no meio dos zagueiros, aproveitando-se de seu equilíbrio e suas rápidas mudanças de direção e arrancadas para costurar entre eles, manter e proteger a bola com fintas e até trombadas e sair do outro lado, pronto para fazer o lançamento ou gol.
Maradona nasceu em Villa Fiorito, uma comunidade carente de Buenos Aires, em 1960, o quarto de seis irmãos. Aos 10 anos foi descoberto no time do bairro pelos olheiros do Argentinos Juniors. Além de jogar nos juvenis, sua habilidade com a bola o levou a ser um espetáculo de intervalo da equipe principal, fazendo acrobacias e lances de efeito.
Com 15 anos ele já havia passado do intervalo para o primeiro tempo e aos 16 estreou na seleção argentina contra a Hungria. Mesmo sendo considerado estupenda promessa e estando entre os 40 pré-convocados, o técnico Menotti o deixou de fora dos 22 para a Copa de 1978, negando a ele a chance de ganhar um Mundial aos 17 anos, igualando outro deus do futebol. Ele nunca perdoaria Menotti por isso.
O Argentinos Juniors era uma equipe muito ruim o que levou Maradona a só ser realmente revelado à humanidade no Mundial sub-20 de 1979, aos 18 anos. Finalmente ele ganhou o status de supercraque que sempre almejou e tornou-se titular absoluto da seleção portenha, que não foi bem no Mundialito de 1980. Também transferiu-se para o Boca Juniors, seu time de coração e ganhou seu primeiro título, o campeonato argentino.
Desde cedo preparado para ser um supercraque, Maradona desenvolveu uma personalidade no mínimo polêmica. Para não dizer detestável. Arrogante, dado a ataques de estrelismo, atirando-se ao chão sempre que perdia a bola e reclamando sem parar do juiz, com as regras de hoje seria expulso em meia hora. Seu relacionamento com os companheiros também nunca foi dos melhores e o fracasso da seleção argentina na Copa de 1982, em que era um coadjuvante, só piorou as coisas. Sintoma do estado de seus nervos na época foi a expulsão contra o Brasil, entrando criminosamente em Batista quando a partida já estava resolvida.
Em 1983 foi para o Barcelona, mas primeiro uma hepatite e depois uma entrada desleal de Goikoetxea quase encerraram prematuramente sua carreira. O Barça é um clube de tradição, quase um símbolo da Catalunha, e não estava disposto a se curvar às vontades de um craque mimado, ainda que fosse o Maradona. Sem apresentar resultados comparáveis aos problemas que causava, o baixinho marrento foi vendido em 1984 para o Nápoli, time italiano que nunca esteve entre os grandes.
Jogando num time em que era a indiscutível estrela, o principal ídolo e onde todos se curvavam às suas vontades, em pouco tempo Maradona chegou ao auge de sua carreira. Suas jogadas e seus gols atraíam torcedores e mídia para o Nápoli e em pouco tempo outros ótimos jogadores eram adicionados ao elenco, como os brasileiros Alemão e Careca, todos eles cientes de que seu sucesso se devia ao genial baixinho e, portanto, sem muita intenção de disputar o papel de protagonista com ele.
A seleção argentina, então numa rara época de poucos craques, decidiu, sob o comando de Carlos Billardo, fazer o mesmo. O time inteiro jogaria em função de Maradona, defendendo para roubar e bola e dar para o baixinho resolver. Num esquema desses, jogadores criativos e técnicos, porém pouco combativos, como Kempes e Ardilles, não teriam vaga. E daí? Funcionou perfeitamente. A princípio preocupado em preparar gols para os companheiros, ele acabou cansando da incompetência deles e decidiu ele mesmo fazê-los. Costurando com a perna esquerda, assinalou o mais belo tento da história das Copas. Ainda marcou com a mão, driblou toda a defesa belga e na final deu o passe perfeito para Burruchaga sacramentar a vitória de don Diego no Mund... digo, a vitória dos argentinos no Mundial.
De volta ao Nápoli, foi o artífice não só dos dois únicos campeonatos italianos da história do clube como o levou ainda ao título da Liga dos Campeões. Mas já na época dessa conquista estava visivelmente acima do peso e longe da forma física que lhe permitia as arrancadas fabulosas no México. O que o tirava do patamar de semideus do futebol para transformá-lo apenas em um cracaço.
Depois de apenas alguns momentos brilhantes durante a Copa de 1990 - principalmente a mãozinha que salvou um gol da União Soviética e a arrancada contra o Brasil, lembrando o Mundial de 1986, a carreira de Maradona começou seu rápido declínio.
Em 1991 um teste anti-doping detecta o uso de cocaína. Maradona é suspenso por 15 meses. Também se envolve num caso enrolado envolvendo um filho ilegítimo e outro sobre suas amizades com mafiosos da Camorra. Assim, em 1992, o impensável acontece: apesar de reverenciado em Nápoles, é vendido para o Sevilla e, depois, para o Newell's Old Boys, de volta à Argentina. Em 1994 ele se dedica apenas à seleção, aparecendo surpreendentemente na Copa em excelente forma física, depois de anos se parecendo com sua grande parceira, a bola.
Mas outro exame anti-doping dedura que sua silhueta sucinta é fruto não de boa alimentação, exercícios e 8 horas de sono, mas de anfetaminas, remédios para emagrecer que também aumentam a forma física. De forma ilegal, é claro. Maradona tenta dizer que acertou com a FIFA que poderia tomar essas drogas para valorizar o Mundial. Não convence ninguém.
Depois de outra longa suspensão, Maradona volta para o Boca Juniors, de 1995 a 1997. Visivelmente sem condições para continuar jogando futebol, encerra sua carreira. E aí começam seus problemas.
Longe dos gramados e da rotina do futebol, Maradona afunda no vício da cocaína, chegando a ser preso. Anos e anos em clínicas de reabilitação, inclusive em Cuba, onde fica amigo de Fidel Castro, não fazem efeito. Ele continua engordando, falando mal de todo mundo e intratável. E cheirando muito pó.
O resultado é que em 2004 ele acabou tendo um enfarte. Durante 5 dias ficou no respirador e por mais 1 semana não saiu da UTI. Quando finalmente a deixou, achou que depois daquilo, o próximo passo era o cemitério. E deu um jeito na vida.
Maradona emagreceu, conseguiu um progama de televisão, fez as pazes com Pelé, que entrevistou na estréia de seu talk-show e parece estar de bem com a vida. O que é ótimo. Como sempre soube Hollywood, todo mundo gosta de um bad boy genial, que vence sem seguir as regras caretas do mundo, mas exagera e vai até o fundo do poço, para depois se recuperar e dar a volta por cima (usualmente depois de atirar uma garrafa num espelho).
PLATINI
Platini foi um dos maiores lançadores e passadores do futebol. Bobby Charlton, o craque de 1966, dizia que ele era capaz de passar uma bola por dentro do buraco de uma agulha. O que ainda é mais fácil do que passar um camelo, ou mesmo um milionário. Mas Platini era meio-campista e não apóstolo.
Passar a bola, ao contrário do que o Penta possa pensar, não é só jogá-la mais ou menos na direção do companheiro. O ideal é que chegue não onde o outro jogador está, mas onde ele estará quando ela chegar. Ou então, se for um toque curto, não no corpo do sujeito, mas no lado do pé dele, para que ele já a receba dominando-a.
Mas Platini era também exímio chutador e cobrador de faltas e avançava sempre para o ataque para concluir, como o provam os 9 gols em 5 jogos na Copa da Europa de 1984, inclusive o do título. Mas o que os brasileiros lembram bem é aquele marcado por ele em Carlos, empatando o jogo no Mundial do México em 1986.
Michel Platini começou jogando no Nancy-Lorraine, depois foi para o Saint-Etienne ser campeão e acabou na Juventus. No ínterim, ele estreou em Copas em 1978, chamando a atenção do resto do mundo mesmo que os franceses não tenham passado da primeira fase (culpa em parte de um pênalti maroto marcado contra eles no jogo contra a Argentina). Platini marcou seu primeiro gol em Mundiais contra os anfitriães portenhos.
Em 1982 ele era uma das estrelas da Copa, mas a França começou muito mal, perdendo para a Inglaterra por 3 x 1 sem mostrar em nenhum momento que poderia vencer. Mas a partir da entrada de Tigana, ele ganhou um companheiro com quem dialogar e les bleus começaram a jogar adoidado. Sua participação terminou nas semifinais, onde mais uma vez um time que jogava bonito e era favorito achou que a partida já estava ganha e se desconcentrou. Depois de fazer 2 x 0 sobre a Alemanha aos 7 minutos da prorrogação, deixaram que Rummenigge comandasse a virada teutônica.
Em 1984 Platini comandou a conquista da Copa da Europa pela França, marcando os já referidos 9 gols em 5 jogos. Também ganhou o campeonato italiano, a Liga dos Campeões e a Supercopa européia, tudo no mesmo ano. Ah, e o segundo de três títulos consecutivos de melhor jogador da Europa (antes de Maradona ganhar companheiros dignos de sua bola no Nápoli). Com essas credenciais, os franceses estavam entre os favoritos para o Mundial do México.
Depois de despacharem facilmente os campeões italianos nas oitavas, os franceses fizeram a melhor partida daquele Mundial contra os brasileiros e venceram nos pênaltis. Mas novamente os esforços de Platini e amigos foram baldados pelos alemães. Com uma ajuda do goleiro Bats, que gastou toda sua competência pegando um pênalti de Zico.
Nunca ter ganho uma Copa foi a única mágoa de Platini. Certa vez disse que se houvessse um Mundial por ano entre 1982 e 1986, os franceses teriam ganho duas ou três (nós, brasileiros, e os argentinos, teríamos umas coisinhas a discutir quanto a este ponto). Mas de resto ganhou tudo que pôde. Pendurou as chuteiras em 1987 e tornou-se dirigente.
Platini foi o organizador da Copa de 1998, o que de certa forma diminui sua mágoa.
A GLOBALIZAÇÃO DO FUTEBOL
O futebol brasileiro se profissionalizou porque todos os jogadores estavam indo para o exterior. O Peñarol levava Domingos e Leônidas; Fausto ia para o Barcelona; Filó para a Itália. Uma vez resolvido que atletas podiam - e deviam - ser pagos, a coisa deu uma parada.
Durante muito tempo o único país europeu a contratar sul-americanos era a Itália. Somente italianos podiam jogar nos clubes de lá, mas abria-se uma exceção para os descendentos de emigrantes. A Argentina, que teve uma geração excepcional nos anos 40, perdeu jogadores como Sivori e Maschio. O Brasil perdeu Julinho. O Uruguai perdeu Gigghia. "Perdeu" porque naquela época o além-mar era longe, longe, muito longe. E longe é um lugar que não existe, como já dizia o poeta. Ninguém nem sabia se o sujeito estava vivo, quanto mais se ainda jogava bem. Era impraticável convocá-lo. As seleções se preparavam para as Copas durante três a quatro meses! Além disso, muitas vezes os atletas se naturalizavam e passavam a jogar pela equipe nacional local.
No final dos anos 50 foram os espanhóis que começaram a brincar de naturalizar craques. Levaram inclusive Didi e Vavá, mas não deu muito certo. Além da língua, a Europa era uma terra muito estranha e diferente. Só se sabia dela o que se via nos filmes americanos e jornais brasileiros. Entre os estranhos hábitos daquela gente, diziam alguns que os europeus não se importavam se suas noivas não fossem mais virgens. E alguns pais até sabiam que suas filhas transavam! E as mulheres trabalhavam! Era difícil alguém se acostumar.
Mas a Espanha, com Puskas e Di Stefano, e a Itália, com um monte de argentinos, fracassaram. Os espanhóis deram um tempo e a Itália "fechou o mercado". Só italianos poderiam jogar lá. O resultado pareceu bom: depois de 32 anos eles voltaram a jogar uma final de Copa e a ter um bom time.
Mas nos anos 70, embora a seleção fosse bem, os clubes italianos foram suplantados por holandeses e alemães. Isso não era bom para os negócios. E os negócios eram bons - latinos adoram futebol e como lá na Itália tem dinheiro e organização, os times davam uma grana boa. Eles resolveram arriscar, "abriram o mercado" e permitiram um não-italiano por equipe, em 1979. Vieram aqui e ofereceram US$ 1 milhão por Zico, uma quantia absurda para a época. O Flamengo disse não. Eles nem discutiram, saíram, pegaram o avião, foram para o Rio Grande do Sul e cataram o Falcão, em 1980.
A primeira temporada não foi muito boa. A Europa ainda era quase uma Terra do Nunca, um Jardim das Hespérides, um lugar de lendas e boatos. Mas no ano seguinte Falcão levantou a cabeça, distribuiu o jogo e um time que disputava posições intermediárias começou a brigar pelo título pela primeira vez em quase 50 anos.
Até então os clubes brasileiros eventualmente vendiam seus jogadores para o exterior, mas não as estrelas em ascensão. O Flamengo venderia o problemático Paulo César, mas manteria Zico. O Botafogo liberaria o trintão Jairzinho, mas guardaria o jovem Mendonça. A diferença entre o que os astros ganhavam aqui no Brasil e o que ganhariam lá fora não era tão brutal que compensasse todos os riscos que correriam. Ainda estava no princípio a era do merchandising. Somente na Copa de 1974 alguns - não todos - fabricantes de uniformes esportivos começaram a exibir seu logotipo nas camisas dos selecionados.
Tudo mudou com o sucesso de Falcão e a vitória da Itália na Copa de 1982. O título mundial animou os torcedores. Falcão provou que sul-americanos podiam brilhar no mais competitivo futebol europeu. E as comportas foram abertas. A Juventus formou um time lendário, juntando Platini, Paolo Rossi e Boniek. Os clubes espanhóis e alemães também começaram suas contratações estrangeiras. Na mesma época começava a explosão das tevês a cabo e os lucros com o esporte e merchandising subiram astronomicamente.
No Brasil houve um êxodo entre 1982 e 1984. A princípio os técnicos da seleção tentaram chamar apenas jogadores que estivessem no Brasil, mas os péssimos resultados acabaram levando à convocação de Zico, Sócrates, Falcão, Edinho e Cerezo, todos então em clubes italianos, para disputarem as eliminatórias. Em 1985, com tantos brasileiros na Itália, a rede Bandeirantes começou a transmitir o campeonato de lá. Começava a globalização do futebol.
A partir daí começou um período confuso para a seleção brasileira. A convocação de cada craque precisava ser negociada com seu clube. Dificilmente uma escalação era repetida. Algumas vezes insistia-se em chamar apenas jogadores atuantes no Brasil.
Somente nos anos 90 a FIFA regulamentaria a relação entre clubes e seleções, reservando uma quarta-feira por mês para amistosos internacionais e jogos eliminatórios, a "data FIFA". E torneios como a Copa das Confederações e a Copa América passariam a contar com os principais craques do mundo, servindo também como preparação para as equipes nacionais, já que quase todas contam com seus astros - e torcedores - espalhados pelo mundo.
A EVOLUÇÃO TÁTICA - O 3-5-2
Pelo meio dos anos 80 todos os times de futebol haviam adotado universalmente o 4-4-2. A diferença entre eles residia na variação usada. Alguns escalavam na meia-cancha dois volantes de contenção e dois armadores, formando um quadrado. Outros preferiam um cabeça-de-área, dois apoiadores e um ponta-de-lança, numa forma de diamante. Principalmente depois da vitória da Itália em 1982, alguns escolhiam três jogadores mais defensivos, dando liberdade para o último meio-campista fazer a ligação com o ataque.
Ciente de que todos os times do mundo usavam dois atacantes e decidido a tentar recuperar pelo menos parte do futebol total, o técnico dinamarquês, Sepp Piontek, teve uma idéia. Revertendo a história das táticas, tirou um jogador da defesa e o empurrou para o meio-campo. Para que mais de três zagueiros se todo mundo atacava com dois sujeitos?
A grande diferença para esquemas como o WW húngaro, que tinha uma formação de 3 zagueiros, 2 médios ou volantes, 3 meias ou armadores e 2 atacantes, era que os beques marcavam por zona e não homem-a-homem. Com tanto espaço para cobrir, certamente haveria erros. Para corrigi-los o terceiro defensor ficava atrás deles, atuando como líbero. O esquema exigia que o meio-campo ajudasse na marcação de meias ofensivos.
FIGURA 19
Com 5 jogadores no meio-campo com liberdade para se movimentar e contando com jogadores inteligentes como os irmãos Laudrup, Piontek conseguiu ressuscitar parte da magia do carrossel holandês. Seu time jogava tocando a bola em passes curtos e não "forçava" as jogadas. Caso encontrassem a defesa muito fechada por um lado, seus atletas não hesitavam em voltar o lance bem atrás para recomeçar, valorizando a posse da bola.
Esse esquema repetiria parte do sucesso do carrossel holandês. Assim como a Laranja, sua obra-prima seria uma goleada sobre um sul-americano, no caso 6 x 1 sobre os uruguaios. Como os húngaros, venceriam também uma Alemanha com um time misto. E, depois de avassaladores 40 minutos contra os espanhóis, tropeçariam no excesso de confiança e desabariam para a realidade.
A Dinamarca depois retornou para um 4-4-2 mais tradicional, que a levaria à conquista da Eurocopa, o principal título de sua história. O 3-5-2 seria adaptado para os tempos defensivistas. Em 1990 o Brasil chegaria a usar apenas um jogador de criação na linha média, usando a mística da inovadora tática para disfarçar o que era na verdade um 5-3-2. Mas isso é outra história.
O 3-5-2 foi a última tática realmente diferente a aparecer no cenário mundial. Todas as outras usadas até hoje são variações dele, do 4-4-2 e eventualmente do 4-3-3.
A COPA DE 1986
Para quem acha que os capítulos sobre as Copas estão longos demais, esse é bem mais curto.
Maradona chegou no México, ganhou de todo mundo e levou a taça.
Curto demais? Está bem, então eis a versão mais longa:
A Colômbia deveria sediar a Copa, mas faltou grana. Foi a época em que a América do Sul toda faliu. A FIFA perguntou se Brasil e Argentina não estariam interessados, mas eles disseram que também estavam duros. O México, com sua boa televisão, os estádios de 1970 ainda inteirinhos e ganhando dinheiro com petróleo, disse que topava. Então teríamos a Copa do México II - a missão.
A seleção brasileira teve péssimos resultados entre 1982 e 1985. A maioria dos craques jogava no exterior e não era convocada. Em 1985, às vésperas das eliminatórias, Telê Santana foi chamado de volta para a seleção e, imitando João Saldanha, no momento do convite declinou os convocados e escalou o time titular: Carlos, Leandro, Oscar, Edinho e Júnior: Cerezo, Zico e Sócrates; Renato, Casagrande e Éder. Falcão estava contundido. Fora ele, as únicas diferenças para o time de 1982 eram Edinho no lugar de Luisinho, Carlos no de Valdir Peres, Casagrande no de Serginho (parecia que Telê reconhecia os seus erros) e Renato no de Paulo Isidoro. Esta última modificação atendeu em cheio à torcida e imprensa: vinte anos depois que a Inglaterra foi campeã mundial com o 4-4-2, o Brasil voltava ao 4-3-3 com pontas abertos! Era o retorno do futebol ofensivo!
E parecia que funcionava. Contra a Bolívia e o Paraguai, lá na casa do adversário, dois 2 x 0. Os paraguaios tinham o melhor time de sua história, comandado por Romerito. Não adiantou nada, o Brasil mandou no jogo e Zico fez um golaço, puxando uma bola de charles e chutando em seguida lá da intermediária.
Mas a turma do Telê tinha se aproveitado do nervosismo do time da casa para ficar fechada lá atrás e só sair na experiência - e que experiência! Zico tinha 32 anos, Cerezo, 30, Júnior, 31, Sócrates, 32. O povo bom de bola estava envelhecido. Júnior e Leandro não jogavam mais como laterais em seus times - o primeiro era apoiador e o segundo, zagueiro. Sócrates não tinha mais a mesma eficiência. Nos jogos aqui no Brasil, duas atuações fracas da seleção e dois empates em 1 x 1. O 4-3-3 deixava todos muito expostos.
Mas mexer nessa tática era mexer num vespeiro. Sem os dois pontas estaríamos regredindo a 1974 e 1978, ao futebol defensivo, copiando modelos europeus que não aproveitavam o potencial do jogador brasileiro. Em uma excursão à Europa pouco antes do Mundial a seleção tomou de três da Hungria e da Alemanha. Telê aproveitou para refazer o time de modo bem mais cauteloso. Apesar de tudo, ele também acreditava que tinha sido muito ofensivo em 1982.
Ainda mais que seus veteranos começaram a cair um por um. Dirceu e Cerezo se contundiram e ficaram fora dos planos. Zico torceu o joelho numa entrada de Márcio Nunes, do Bangu, e teve que fazer uma cirurgia moderna e inovadora, uma artroscopia, para tentar jogar pelo menos algumas partidas. Falcão e Sócrates também foram operados no início do ano. Os dois se recuperaram a tempo, mas o volante nunca mais exibiu o brilhante futebol de 1982 e o doutor, fumante inveterado, estava em fim de carreira.
E a preparação voltou a ser conturbada. Numa eleição confusa, repleta de acusações de compra de votos, Nabi Abi Chedid, controverso dirigente paulista, pôs seu candidato Otávio Pinto Guimarães no comando da CBF, desalojando Giulite Coutinho. A mudança trouxe de volta as pressões políticas para escalações de jogadores. A globalização do futebol começara. Os clubes europeus só liberaram seus jogadores vinte dias antes do torneio. Mais uma vez uma Copa começava sem que o Brasil tivesse um time titular realmente definido.
Os canarinhos estrearam contra a Espanha, bom time comandado pelo artilheiro Butragueño. Na linha média alinhavam pela primeira vez dois cabeças-de-área preocupados principalmente em defender, Elzo e Alemão. O terceiro homem do meio-campo, Júnior, era o lateral-esquerdo de 1982 e, embora um craque na criação de jogadas, preocupava-se mais com a marcação do que ocupantes anteriores da posição. Sócrates, o mais avançado do quarteto, sempre fora mais um armador do que um ponta-de-lança. Faltava-lhe a velocidade requerida pela função. As jogadas pelos flancos seriam providenciadas primordialmente pelos laterais, pois o ataque tinha dois centroavantes, Careca e Casagrande, sendo que este último fazia o gênero "trombador", com pouca movimentação por toda a frente. O Brasil finalmente jogaria num autêntico 4-4-2, apenas com armadores no meio-campo, sem nenhum autêntico meia-atacante (ou ponta de lança, ou "número 1", ou "camisa 10").
Por sorte os canarinhos contaram com a melhor atuação de Careca na seleção. Até então jogador que brilhava em clubes, mas com dificuldades em assumir a condição de astro, sempre ofuscado por alguém, Careca naquela Copa ganharia fama mundial. Contra os hispânicos, num arremate seu a bola bateu na trave e sobrou para Sócrates, livre, cabecear para o gol vazio. Uma bola da Espanha bateu na trave e dentro da meta, mas o juiz não validou e mandou seguir. O jogo acabou 1 x 0. Com os espanhóis também acreditando na filosofia dos campeões italianos de que a defesa era quem ganhava os jogos, houve pouquíssimas chances de lado a lado. Esta seria a tônica do Mundial.
Ainda mais que os jogos voltaram a ser eliminatórios. Os mexicanos propuseram e a FIFA aceitou um novo regulamento: os 24 países eram divididos em 6 grupos de 4. Os dois primeiros de cada se classificavam e, entre os times que ficassem em terceiro, prosseguiam os 4 que fizessem mais pontos. Isso totalizava 16 seleções, que eram alinhadas em 8 jogos eliminatórios, depois 4, depois semi-finais e final. A Copa é disputada assim até hoje, com a única diferença de que aumentou o número de participantes e de chaves, não havendo mais vaga para os terceiros colocados. Com essa fórmula e a mentalidade defensivista da época haveria um número récorde de partidas definidas na disputa de pênaltis.
A seleção que deu origem a isso tudo, a Itália, começou mal. Empatou com a fraca Bulgária. A Argentina ganhou da Coréia, fazendo 3 x 1 em jogadas de Maradona. Em seguida os dois últimos campeões do mundo empataram em 1 x 1 em mais chatos 90 minutos. Jogo bom só seria o inesperadamente emocionante Itália 3 x 2 Coréia do Sul. Depois de ser eliminada pela Coréia do Norte em 1966, a Azzurra penou com os primos meridionais para ganhar a vaga. Não seria a última vez que os italianos ouviriam falar dos coreanos. Os argentinos, sempre empurrados por Maradona, fizeram 2 x 0 na Bulgária e seguiram adiante.
Em 1982 muita gente apostava que a Bélgica iria surpreender. Só surpreendeu os argentinos. Em 1986 ela começou mal, perdendo dos anfitriães, para depois vencer por 2 x 1 o fraco Iraque e empatar com os paraguaios. Ganhou a vaga, ao lado dos mexicanos.
No grupo C estava a esperança dos fãs do "jogo bonito". Nos quatro anos anteriores Platini se mudara para a Juventus, tornara-se a estrela de um time que tinha ainda Rummenigge, Boniek e Paolo Rossi, e ganhara a experiência que lhe faltara na semi-final de 1982, quando os franceses fizeram 2 x 0 na prorrogação e perderam para os alemães nos pênaltis. Em 1984 ele confirmou sua maturidade comandando "les bleus" na conquista da Copa da Europa.
Mas a França não começou bem. Fez apenas 1 x 0 no fraquíssimo Canadá. No outro jogo da rodada é que veio a goleada. Muita gente achava o jogo de toque de bola da Hungria promissor, principalmente depois da vitória sobre o Brasil por 3 x 0. Pegaram a URSS pela frente. Em cinco minutos já estavam perdendo de 2 x 0, em dois chutes violentíssimos e precisos lá do meio da rua. Aos 23 os soviéticos fariam 3 x 0. Acabaria 6 x 0. Os húngaros não acharam mais o caminho de casa e foram eliminados.
A Inglaterra, como sempre, chegou achando que era a favorita. Perdeu de Portugal na primeira partida. Polônia e Marrocos empataram o outro jogo. Os britânicos empataram com os marroquinos. Os lusos perderam dos poloneses. Mas a Inglaterra fez 3 x 0 na turma do Boniek e os portugueses conseguiram perder para os africanos por 3 x 1 e foram embora, conseguindo não entrar nem na repescagem. Estava mantida a tradição dos lusitanos de ganhar clássicos e se complicarem com seleções de pouca tradição.
A sensação da primeira fase da Copa veio da chave da Alemanha. Mas não foi o futebol de marcação-cruzamento-gol dos germânicos que fez a festa. Foi um novo carrossel. A Dinamarca, depois de brilhante campanha nas eliminatórias, apresentava ao mundo a última tática inovadora na história do futebol, o 3-5-2. Com tantos jogadores na linha média, ou seja, com liberdade para atacar ou defender, em certos momentos sua movimentação lembrava a "Laranja Mecânica". Também copiaram dos holandeses a filosofia de não forçar um drible ou um chute prensado, mas voltar a jogada se encontrassem um obstáculo, para procurar um caminho mais fácil. Atacantes com a bola dentro da área não hesitavam em voltar o lance para o meio-campo, para experimentar a outra ponta ou o meio.
Os uruguaios, que tinham uma boa equipe, com um dos melhores jogadores do mundo, Francescoli, entraram com um 4-3-3 para pegar os dinamarqueses. Tomaram de 6 x 1 e não viram a cor da bola. A Dinamarca passou a ser conhecida como "Dina-máquina". O centroavante algo enrolado Elkjaer conseguia levar os defensores com seu corpanzil e sua velocidade. Morten Olsen era o maestro do time e Laudrup o cérebro do ataque. Venceram também a Escócia por 1 x 0 e a Alemanha por 2 x 0. Os alemães entraram com meio time reserva. Ficaram em segundo na chave e teriam pela frente os surpreendentes marroquinos. Os dinamarqueses pegariam os espanhóis. Mais uma vez ficou a suspeita de que os germânicos planejaram uma derrota para facilitar seu caminho.
Enquanto isso, em sua chave, o Brasil penou contra a Argélia. A seleção não se acostumava com dois centroavantes e os laterais não estavam acostumados a se soltar completamente, mesmo com os dois cabeças-de-área. E os africanos ficaram retrancados lá atrás. O gol só saiu em mais uma jogada individual de Careca, que dividiu uma saída de bola dos argelinos. O lateral Édson se machucou. Falcão entrou em seu lugar aos 10 do primeiro tempo e comprovou que jamais voltaria a ser o craque de 1982. Telê Santana fez duas modificações para o jogo contra a Irlanda do Norte. No lugar de Édson entrou o irregular Josimar, do Botafogo. No lugar de Casagrande entrou Muller.
Muller havia sido o artilheiro do Mundial sub-20 que o Brasil ganhara em 1985. Isso imediatamente lhe deu uma vaga na seleção principal, com a carência de jogadores disponíveis no país. Suas arrancadas com a bola controlada faziam da imprensa paulista ferrenha defensora sua, rotulando-o como grande craque. Curiosamente Muller só conseguira a vaga no time de juniores campeão depois que o titular foi cortado por um problema envolvendo prostitutas na concentração. O nome do sujeito era Romário. Por conta da fama que o são-paulino granjeou naquele torneio, Romário teria sua estréia com a amarelinha adiada por quase dois anos. A má fase que seu time, o Vasco, atravessava também não ajudava, ainda mais se comparado ao brilhante São Paulo de Muller, que contava também com Pita, Careca, Oscar e Silas.
E Muller e Josimar arrebentaram contra a Irlanda. O atacante arrancou pela ponta-direita e cruzou no pé de Careca para a abertura do placar logo aos 15 minutos. No final do primeiro tempo o lateral, que passou a maior parte do tempo apoiando o ataque pelo meio e pela direita, soltou um foguete de 96 km/h lá da intermediária e fez 2 x 0. O gol foi escolhido um dos 10 mais belos chutes da história das Copas. Zico, em recuperação, entrou aos 23 do segundo tempo e deu um passe de calcanhar para Careca fazer o terceiro aos 42 do segundo tempo. Finalmente o Brasil mostrou que podia defender e atacar ao mesmo tempo, achando um equilíbrio entre futebol-arte e marcação. Talvez estivéssemos encontrando a trilha que aquele time de 1982 não achou.
Começaram os jogos eliminatórios. A URSS jogou à beça, mas o tempo normal acabou em 2 x 2 graças ao soprador de apito, que validou um gol em clamoroso impedimento dos belgas. Os soviéticos saíram na frente na prorrogação, mas mais alguns equívocos de arbitragem deram a vitória para a Bélgica, apesar de ter sido imprensada desde o começo. Os comunistas sempre foram estranhamente perseguidos por erros de árbitros. E sempre se comportaram cavalheirescamente, aceitando tudo com fair-play. Um jornalista já levantou a teoria de que, como eles viviam num regime autoritário, onde quem reclamasse ia preso, eles não se rebelavam contra as decisões. Os juízes então ficavam mais à vontade para apitar contra eles.
Os uruguaios, apesar da surra para a Dinamáquina, entraram na repescagem e pegaram os onze de Maradona. Todos os gols portenhos tinham saído dos pés do seu camisa 10. A turma do Francescoli botou todo mundo na marcação do baixinho. O resto da Argentina era só coadjuvante mesmo. Quase deu certo. Maradona fez umas três arrancadas pela ponta e cruzou para companheiros perderem gols feitos. Aos 41 minutos Pasculli conseguiu acertar. Os erros devem ter irritado muito Maradona, já que a partir dali ele resolveu que ele mesmo iria fazer os gols.
O Brasil pegou a Polônia de Boniek. O primeiro tempo foi chatíssimo e, numa jogada isolada, Careca invadiu a área e foi derrubado num pênalti desnecessário. O Brasil fez 1 x 0. O jogo continuu fechado no segundo tempo, até que aos 11 minutos houve uma falta na intermediária a favor dos canarinhos. Josimar, depois daquele belo arremate contra a Irlanda, resolveu bater.
A bola bateu na barreira e voltou para Josimar. O tresloucado lateral dividiu a rebatida com um polonês, deu dois belos dribles nos defensores poloneses e chegou à linha de fundo, onde, ao invés de cruzar para os brasileiros livres, deu um toque de efeito por cobertura sobre o goleiro. Um golaço coroando uma jogada onde ele fez tudo ao contrário do que deveria.
Com 2 x 0 contra eles, enfrentando uma defesa onde não conseguiam penetrar, os poloneses jogaram a toalha. Foram para a frente de qualquer jeito e tomaram dois belíssimos contra-ataques, com toques de calcanhar, dribles de efeito e tabelinhas, que fecharam o placar em 4 x 0. Zico entrou aos 25 do segundo tempo e jogou bem. Parecia que em breve ele estaria em condições de jogar para valer. O Brasil voltava a parecer o Brasil.
Nos outros jogos a França despachou a Itália com uma facilidade absurda. O locutor de tevê, sabendo que os franceses seriam nossos próximos adversários, pedia, "Puxa, Itália, cansa a França um pouquinho". Não adiantou. Foi 2 x 0 fora o rola. A Inglaterra fez 3 no Paraguai. A Alemanha não conseguiu penetrar a defesa de Marrocos até que aos 44 do segundo tempo a barreira abriu numa cobrança despretensiosa de falta e enganou o goleiro. Eles estavam certos em evitar a Espanha. A "Fúria" tinha eliminado a Dina-máquina por 5 x 1.
Quanto?
Cinco a um. Quatro gols de Butragueño.
É melhor explicar a história toda.
Os dinamarqueses foram a sensação da primeira fase. Todo mundo só falava neles. A Dina-máquina. O futebol total. O carrossel escandinavo. Era o futuro do jogo. O caminho do esporte. Aquela retranca herdada da Itália iria acabar. Os dinamarqueses eram os melhores do mundo. Os jogadores comemoraram adoidado sua campanha no grupo. E a Espanha... bem, a Espanha era a vice-campeã européia, mas não era adversário para eles. Lembram-se das outras vezes em que uma seleção começou a raciocinar assim?
Mas o jogo começou dando razão às crenças dinamarquesas. A bola rolava fácil, seus atacantes passavam pelos assustados espanhóis como queriam e perdiam uma chance atrás da outra. Aos 32 a defesa da Espanha fez pênalti e os escandinavos abriram o placar. E começaram a tocar a bola de um lado para o outro. A partida estava no papo. Os ibéricos assustados e inferiores teriam que se abrir para atacar.
E, nessa brincadeira, a defesa quis sair trocando passes de efeito para o ataque. Butragueño roubou uma bola mal atrasada por Jesper Olsen para o goleiro e empatou o jogo aos 43 minutos. Depois de toda a aula de futebol que deram, os dinamarqueses foram para o vestiário do modo como tinham começado o jogo: com um empate.
A partida saía do roteiro previsto. Os espanhóis começaram a perceber que os dinamarqueses eram feitos de carne e osso que nem eles. E, ao contrário dos marcadores de Pelé, não estavam errados. Os escandinavos voltaram nervosos, querendo reabrir logo a vantagem, mostrar que eram superiores, lembrando o Brasil de 1982. E Butragueño foi seu Paolo Rossi. Aos 12, num escanteio, ele virou o placar. Foi a Dinamarca quem teve que se mandar para o ataque e arriscar tudo. Acabaram derrubando o atacante espanhol na área. Goikoetxea cobrou para fazer 3 x 1. Butragueño ainda faria o quarto e converteria mais um pênalti no finalzinho. Por causa do seu erro ao atrasar a bola no primeiro gol, o lateral Jesper Olsen viu surgir em dinamarquês a palavra "jesper", significando "erro crasso".
Nas quartas-de-final os alemães eliminaram os donos da casa nos pênaltis após um chatíssimo 0 x 0. Os belgas, com seu futebol pouco brilhante, fizeram o mesmo com Butragueño & cia., que assumiram o papel de favorito eliminado. Pelo menos no tempo normal foi 1 x 1. Os únicos jogos mais divertidos foram os com os sul-americanos.
Maradona cansou de dar gols para os companheiros perderem. Então contra os ingleses, no primeiro encontro dos dois países desde que os britânicos arrasaram os argentinos na Guerra das Malvinas em 1982, ele resolveu fazer tudo. Aos 6 do segundo tempo um argentino levanta um chuveirinho na área inglesa. Shilton sai tranquilo, o único atacante por perto é o nanico Maradona.
De alguma forma Maradona consegue ganhar a disputa pela bola alta. Os ingleses começam a reclamar imediatamente. Bando de chorões. Todo o mundo viu pela televisão que foi um gol legal. O estádio inteiro viu. O Shilton é que vacilou. Vamos ver com calma agora nesse replay em câmera lenta de outro ângulo.
E não é que o baixinho meteu a mão na bola?
Ninguém viu o lance na hora. Não foi só por ter sido ilegal. Maradona foi tão furtivo em sua infração que o juiz não teve a menor dúvida em dar o gol e os espectadores só ficaram surpresos com a falha de Shilton. Numa entrevista depois do jogo, Maradona disse que foi a "mão de Deus" que o guiou naquela disputa de bola. O gol passou para a história como o da "mão de Deus".
Aproveitando que os britânicos estavam atordoados, Maradona pegou uma bola mais ou menos ali pela lateral-direita e ficou rodando que nem pião em volta de si mesmo. Parecia não fazer sentido, mas de repente ele estava de frente para o ataque e já tinha deixado quatro bretões na saudade. Ele arrancou pelo flanco direito, passou por um, dois, três...
Bem, esse foi escolhido quase unanimemente o gol mais bonito já assinalado numa Copa do Mundo. Tem em qualquer filme sobre os Mundiais ou futebol em geral. Maradona driblou todo mundo e tocou na saída do goleiro. O que fazer? Os ingleses correram atrás e diminuíram, mas a Argentina garantiu a vaga na semi-final.
E teve o Brasil x França, né?
Era o confronto dos dois times mais técnicos. O Brasil vinha subindo de produção. A França também.
Os brasileiros começaram bem melhor. Muller perdeu um gol logo no início. Mas Careca, depois de uma bela tabela entre Muller e Júnior, fez 1 x 0. O Brasil continuou mandando no jogo. Marcava bem e, embora não tivesse tido mais grandes chances, continuava rondando a área francesa. Platini e companheiros não ameaçavam.
Até que aos 41 minutos um cruzamento despretensioso da ponta-direita resvalou no peito de Edinho, que fazia a marcação da jogada, desviou do goleiro Carlos e caiu no pé de Platini. O Brasil iria levar um empate com sabor amargo para o vestiário. Carlos deu azar. Mas a seleção estava jogando bem. Tudo mudaria no segundo tempo.
Não mudou. O Brasil jogava bem, mas não ameaçava. A França começava a se tornar mais perigosa. Telê lançou Zico aos 26 minutos. Em sua primeira jogada ele faz um lançamento longo para Branco, que se infiltrou pela meia-esquerda. O lateral se livra da marcação e é derrubado na entrada da área.
Sócrates é o cobrador oficial do time. Mas ele abre mão de bater o pênalti. Todos consideram que o Galinho, depois de todo o esforço que fez para jogar a Copa, merece a honra. Afinal, foi seu lançamento que originou a infração. Zico, que mal entrara, ainda com a musculatura fria, aceita a missão. E erra. Bate mal. O goleiro Bats pega.
O Brasil inteiro se desespera. É o desastre de 1982 outra vez! Todo mundo se manda para o ataque. Oportunidades são perdidas. Uma cabeçada trisca o travessão. Mas o gol não sai. Vai ter prorrogação.
O tempo extra foi todo da França. Os balzaquianos Zico, Júnior, Sócrates e Edinho não aguentam o ritmo da técnica seleção francesa. Carlos faz um pênalti quando um atacante adversário entra sozinho. O jogador escapa dele, mas perde o equilíbrio e o gol. Pelas regras da época, se o juiz não desse a falta na hora em que ela fosse cometida, não poderia marcá-la depois. O árbitro achou que o francês tinha levado vantagem e não apitou a infração. O Brasil escapa. Talvez a sorte estivesse mudando.
E começa a disputa por pênaltis.
Zico bate e dessa vez converte. Sócrates, o cobrador oficial da equipe, se prepara. Ele dá dois passos para trás. O ex-técnico da seleção, João Saldanha, comentando o jogo para a tevê, grita para o Brasil inteiro: "toma distância, ô, palhaço!" Ele não toma. O chute sai péssimo, por cima do travessão.
O próximo chute da França bate no travessão. Antes que a torcida brasileira possa comemorar, a bola volta na direção do campo, bate nas costas do goleiro Carlos, que escolhera o canto certo, alguns metros à frente da linha de gol, e entra. Vale isso? Vale.
Esse lance causou tanta polêmica que a regra mudou por causa dele. Hoje em dia, numa disputa por pênaltis, se a bola bater na trave e voltar, ela está fora do jogo. Se Carlos tivesse escolhido o canto errado ou ficado parado, o chute não teria entrado. O Brasil continua com azar. Todo mundo acertou a cobrança, menos Sócrates. E logo Platini, o craque deles, vai bater o último.
E erra também.
Talvez a sorte esteja voltando para o Brasil.
Mesmo assim, ninguém se arrisca. Ninguém quer bater o último pênalti, que pode empatar a cobrança. O zagueiro Júlio César estava escalado, mas começou a passar mal e foi para o vestiário. O time vai buscá-lo.
Ele toma distância, desloca o goleiro e coloca a bola bem no canto. Tanto que ela bate na trave. E o arqueiro estava do outro lado, nem tem chance de rebater nele. O Brasil está eliminado.
BOX
Depois do Mundial, a carreira de Josimar começou seu rápido declínio, devido principalmente à cabeça do jogador, nem de longe tão boa quanto sua perna direita. Certa vez, jogando pelo Flamengo, perdeu o vôo para um jogo em Minas e, na entrada do aeroporto, pegou um táxi do Rio até Belo Horizonte (!!!!) Acabou chegando depois da partida e sendo multado por seu atraso.
Resta o consolo de ter feito um dos mais lembrados jogos da Copa depois de 1970. A França novamente iria despencar diante dos alemães. O técnico time gaulês não tem a condição física germânica e cai por 2 x 0. Bats, depois agarrar um pênalti de Zico, falha numa cobrança de falta de Brehme aos 9 minutos e facilita tudo. de Na outra semi-final sem brilho novamente Maradona arranca do meio driblando todo mundo pela frente e faz os dois gols contra a Bélgica. Os belgas chegaram entre os quatro primeiros tendo ganho apenas uma partida no tempo normal.
Depois do que o baixinho marrento da Argentina estava fazendo, não havia ninguém que apostasse na Alemanha. Não que o time argentino fosse superior. Todo mundo estava preocupado com a marcação. Os atacantes perdiam gol adoidado. Passarella, que classificara o time na raça nas eliminatórias, estava no banco. Maradona não gostava dele. E o que Maradona queria, Carlos Billardo fazia. Menotti fora demitido depois da derrota em 1982. Billardo assumiu e acabou com aquela história de futebol ofensivo. Como quase todo o planeta, ele adotou a filosofia defensivista italiana. Um monte de sujeitos ajudando a defesa. Só um não precisava, pois tinha "liberdade para criar", com os outros todos correndo por ele.
Para sorte dos argentinos, esse um era Maradona.
Os alemães mais uma vez tinham Rummenigge fora de condições. O grande atacante teria como grande momento nas Copas somente a prorrogação da semi-final de 1982.
Os germânicos entraram preocupados com Maradona. Nem perceberam que o resto dos argentinos fazia 2 x 0. Aos 25 do segundo tempo o locutor de tevê perguntava a João Saldanha, "João, Copa decidida?" O ex-técnico respondeu que "a Argentina está dando a única chance que a Alemanha tem, em bolas altas na área". Três minutos depois Rummenigge diminuía num escanteio. Aos 37 Voller empatava em outra cabeçada.
Os alemães comemoram. Esses empates heróicos costumam levar à vitória. Não seria a primeira vez que uma lenda viva do futebol cairia a seus pés numa final de Copa. Nem a segunda. O locutor da tevê pergunta a João Saldanha, "e aí, João, vamos ter prorrogação?". João responde que ainda há tempo, mas a Argentina precisa acionar Maradona.
E aciona. Aos 39 ele dribla alguns alemães e lança Burruchaga com um passe milimétrico que deixa o atacante na cara do goleiro. É o gol da vitória. Nem o vidente travestido de jornalista João Saldanha duvida mais do título portenho.
Se em 1982 o defensivismo tomou o mundo, o resultado da Copa de 1986 confirma a seus praticantes que a retranca é realmente o caminho certo. Brasil, Dina-máquina, França, todos foram vítimas fáceis de seus algozes. O eficiente e pouco criativo futebol alemão chegou à final. Os belgas chegaram em quarto vencendo só uma vez no tempo normal. Com a fórmula de disputa eliminatória levar um gol é um desastre. Não se pode arriscar muito.
E até a Argentina mostrou um futebol pobre. Mas tinha Maradona. Costuma-se dizer que Garrincha ganhou sozinho a Copa de 1962. Óbvio exagero, apenas uma hipérbole para honrar seus feitos. Ele arrebentou nas semi-finais e nas quartas, mas o herói da final e do jogo contra a Espanha foi Amarildo. Em 1986, não. Maradona carregou nas costas um paupérrimo time argentino. Suas maravilhosas arrancadas deram um gosto de pelada de rua à Copa mais retrancada e tática até então. Mas o resto do mundo tirou a lição errada.
Os times começaram a ser armados repletos de atletas preocupados com a marcação e apenas um na criação, além dos atacantes, é claro. Mais de um enfraqueceria a defesa, porque jogadores criativos não defendem tão bem. E, afinal de contas, como se podia ver olhando em volta, eles estavam em extinção.
É claro que estavam, não podia ter mais de um por equipe!!!
O resultado seria que em 1990 chegar-se-ia ao fundo do poço.
A pior Copa de todos os tempos.
MARADONA
Como bom baixinho marrento craque de bola, Maradona tem pernas curtas e grossas. Tal compleição o deixa mais perto do chão e diminui seu centro de gravidade, dando-lhe excepcional equilíbrio. Também o provê com poderosos músculos nas coxas e panturrilhas, capazes de rápidas arrancadas e estupenda aceleração. Combinadas essas qualidades, o argentino, em seus tempos de atleta, era capaz de mudar de direção quase sem esforço.
Em suma, ele tinha o físico do driblador. Aliado a seu fantástico controle de bola, estava tudo pronto para Maradona tomar de assalto o mundo do futebol, do mesmo modo como tomava as defesas adversárias: jogando-se no meio dos zagueiros, aproveitando-se de seu equilíbrio e suas rápidas mudanças de direção e arrancadas para costurar entre eles, manter e proteger a bola com fintas e até trombadas e sair do outro lado, pronto para fazer o lançamento ou gol.
Maradona nasceu em Villa Fiorito, uma comunidade carente de Buenos Aires, em 1960, o quarto de seis irmãos. Aos 10 anos foi descoberto no time do bairro pelos olheiros do Argentinos Juniors. Além de jogar nos juvenis, sua habilidade com a bola o levou a ser um espetáculo de intervalo da equipe principal, fazendo acrobacias e lances de efeito.
Com 15 anos ele já havia passado do intervalo para o primeiro tempo e aos 16 estreou na seleção argentina contra a Hungria. Mesmo sendo considerado estupenda promessa e estando entre os 40 pré-convocados, o técnico Menotti o deixou de fora dos 22 para a Copa de 1978, negando a ele a chance de ganhar um Mundial aos 17 anos, igualando outro deus do futebol. Ele nunca perdoaria Menotti por isso.
O Argentinos Juniors era uma equipe muito ruim o que levou Maradona a só ser realmente revelado à humanidade no Mundial sub-20 de 1979, aos 18 anos. Finalmente ele ganhou o status de supercraque que sempre almejou e tornou-se titular absoluto da seleção portenha, que não foi bem no Mundialito de 1980. Também transferiu-se para o Boca Juniors, seu time de coração e ganhou seu primeiro título, o campeonato argentino.
Desde cedo preparado para ser um supercraque, Maradona desenvolveu uma personalidade no mínimo polêmica. Para não dizer detestável. Arrogante, dado a ataques de estrelismo, atirando-se ao chão sempre que perdia a bola e reclamando sem parar do juiz, com as regras de hoje seria expulso em meia hora. Seu relacionamento com os companheiros também nunca foi dos melhores e o fracasso da seleção argentina na Copa de 1982, em que era um coadjuvante, só piorou as coisas. Sintoma do estado de seus nervos na época foi a expulsão contra o Brasil, entrando criminosamente em Batista quando a partida já estava resolvida.
Em 1983 foi para o Barcelona, mas primeiro uma hepatite e depois uma entrada desleal de Goikoetxea quase encerraram prematuramente sua carreira. O Barça é um clube de tradição, quase um símbolo da Catalunha, e não estava disposto a se curvar às vontades de um craque mimado, ainda que fosse o Maradona. Sem apresentar resultados comparáveis aos problemas que causava, o baixinho marrento foi vendido em 1984 para o Nápoli, time italiano que nunca esteve entre os grandes.
Jogando num time em que era a indiscutível estrela, o principal ídolo e onde todos se curvavam às suas vontades, em pouco tempo Maradona chegou ao auge de sua carreira. Suas jogadas e seus gols atraíam torcedores e mídia para o Nápoli e em pouco tempo outros ótimos jogadores eram adicionados ao elenco, como os brasileiros Alemão e Careca, todos eles cientes de que seu sucesso se devia ao genial baixinho e, portanto, sem muita intenção de disputar o papel de protagonista com ele.
A seleção argentina, então numa rara época de poucos craques, decidiu, sob o comando de Carlos Billardo, fazer o mesmo. O time inteiro jogaria em função de Maradona, defendendo para roubar e bola e dar para o baixinho resolver. Num esquema desses, jogadores criativos e técnicos, porém pouco combativos, como Kempes e Ardilles, não teriam vaga. E daí? Funcionou perfeitamente. A princípio preocupado em preparar gols para os companheiros, ele acabou cansando da incompetência deles e decidiu ele mesmo fazê-los. Costurando com a perna esquerda, assinalou o mais belo tento da história das Copas. Ainda marcou com a mão, driblou toda a defesa belga e na final deu o passe perfeito para Burruchaga sacramentar a vitória de don Diego no Mund... digo, a vitória dos argentinos no Mundial.
De volta ao Nápoli, foi o artífice não só dos dois únicos campeonatos italianos da história do clube como o levou ainda ao título da Liga dos Campeões. Mas já na época dessa conquista estava visivelmente acima do peso e longe da forma física que lhe permitia as arrancadas fabulosas no México. O que o tirava do patamar de semideus do futebol para transformá-lo apenas em um cracaço.
Depois de apenas alguns momentos brilhantes durante a Copa de 1990 - principalmente a mãozinha que salvou um gol da União Soviética e a arrancada contra o Brasil, lembrando o Mundial de 1986, a carreira de Maradona começou seu rápido declínio.
Em 1991 um teste anti-doping detecta o uso de cocaína. Maradona é suspenso por 15 meses. Também se envolve num caso enrolado envolvendo um filho ilegítimo e outro sobre suas amizades com mafiosos da Camorra. Assim, em 1992, o impensável acontece: apesar de reverenciado em Nápoles, é vendido para o Sevilla e, depois, para o Newell's Old Boys, de volta à Argentina. Em 1994 ele se dedica apenas à seleção, aparecendo surpreendentemente na Copa em excelente forma física, depois de anos se parecendo com sua grande parceira, a bola.
Mas outro exame anti-doping dedura que sua silhueta sucinta é fruto não de boa alimentação, exercícios e 8 horas de sono, mas de anfetaminas, remédios para emagrecer que também aumentam a forma física. De forma ilegal, é claro. Maradona tenta dizer que acertou com a FIFA que poderia tomar essas drogas para valorizar o Mundial. Não convence ninguém.
Depois de outra longa suspensão, Maradona volta para o Boca Juniors, de 1995 a 1997. Visivelmente sem condições para continuar jogando futebol, encerra sua carreira. E aí começam seus problemas.
Longe dos gramados e da rotina do futebol, Maradona afunda no vício da cocaína, chegando a ser preso. Anos e anos em clínicas de reabilitação, inclusive em Cuba, onde fica amigo de Fidel Castro, não fazem efeito. Ele continua engordando, falando mal de todo mundo e intratável. E cheirando muito pó.
O resultado é que em 2004 ele acabou tendo um enfarte. Durante 5 dias ficou no respirador e por mais 1 semana não saiu da UTI. Quando finalmente a deixou, achou que depois daquilo, o próximo passo era o cemitério. E deu um jeito na vida.
Maradona emagreceu, conseguiu um progama de televisão, fez as pazes com Pelé, que entrevistou na estréia de seu talk-show e parece estar de bem com a vida. O que é ótimo. Como sempre soube Hollywood, todo mundo gosta de um bad boy genial, que vence sem seguir as regras caretas do mundo, mas exagera e vai até o fundo do poço, para depois se recuperar e dar a volta por cima (usualmente depois de atirar uma garrafa num espelho).
PLATINI
Platini foi um dos maiores lançadores e passadores do futebol. Bobby Charlton, o craque de 1966, dizia que ele era capaz de passar uma bola por dentro do buraco de uma agulha. O que ainda é mais fácil do que passar um camelo, ou mesmo um milionário. Mas Platini era meio-campista e não apóstolo.
Passar a bola, ao contrário do que o Penta possa pensar, não é só jogá-la mais ou menos na direção do companheiro. O ideal é que chegue não onde o outro jogador está, mas onde ele estará quando ela chegar. Ou então, se for um toque curto, não no corpo do sujeito, mas no lado do pé dele, para que ele já a receba dominando-a.
Mas Platini era também exímio chutador e cobrador de faltas e avançava sempre para o ataque para concluir, como o provam os 9 gols em 5 jogos na Copa da Europa de 1984, inclusive o do título. Mas o que os brasileiros lembram bem é aquele marcado por ele em Carlos, empatando o jogo no Mundial do México em 1986.
Michel Platini começou jogando no Nancy-Lorraine, depois foi para o Saint-Etienne ser campeão e acabou na Juventus. No ínterim, ele estreou em Copas em 1978, chamando a atenção do resto do mundo mesmo que os franceses não tenham passado da primeira fase (culpa em parte de um pênalti maroto marcado contra eles no jogo contra a Argentina). Platini marcou seu primeiro gol em Mundiais contra os anfitriães portenhos.
Em 1982 ele era uma das estrelas da Copa, mas a França começou muito mal, perdendo para a Inglaterra por 3 x 1 sem mostrar em nenhum momento que poderia vencer. Mas a partir da entrada de Tigana, ele ganhou um companheiro com quem dialogar e les bleus começaram a jogar adoidado. Sua participação terminou nas semifinais, onde mais uma vez um time que jogava bonito e era favorito achou que a partida já estava ganha e se desconcentrou. Depois de fazer 2 x 0 sobre a Alemanha aos 7 minutos da prorrogação, deixaram que Rummenigge comandasse a virada teutônica.
Em 1984 Platini comandou a conquista da Copa da Europa pela França, marcando os já referidos 9 gols em 5 jogos. Também ganhou o campeonato italiano, a Liga dos Campeões e a Supercopa européia, tudo no mesmo ano. Ah, e o segundo de três títulos consecutivos de melhor jogador da Europa (antes de Maradona ganhar companheiros dignos de sua bola no Nápoli). Com essas credenciais, os franceses estavam entre os favoritos para o Mundial do México.
Depois de despacharem facilmente os campeões italianos nas oitavas, os franceses fizeram a melhor partida daquele Mundial contra os brasileiros e venceram nos pênaltis. Mas novamente os esforços de Platini e amigos foram baldados pelos alemães. Com uma ajuda do goleiro Bats, que gastou toda sua competência pegando um pênalti de Zico.
Nunca ter ganho uma Copa foi a única mágoa de Platini. Certa vez disse que se houvessse um Mundial por ano entre 1982 e 1986, os franceses teriam ganho duas ou três (nós, brasileiros, e os argentinos, teríamos umas coisinhas a discutir quanto a este ponto). Mas de resto ganhou tudo que pôde. Pendurou as chuteiras em 1987 e tornou-se dirigente.
Platini foi o organizador da Copa de 1998, o que de certa forma diminui sua mágoa.
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