Um discípulo de Shunryu Suzuki-Roshi se aproximou dele e perguntou:
"Se você preza tanto a liberdade, por que mantém um passarinho trancado na gaiola?"
Suzuki-Roshi foi até a gaiola, abriu-a e o passarinho voou para longe. Em seguida, virou-se para o discípulo e falou:
"O passarinho está livre - Você me deve um passarinho"
dezembro 26, 2007
Zen Contemporâneo
Um discípulo estava tentando consertar um computador simplesmente ligando e desligando a máquina. Um mestre se aproximou e explicou:
"Você não pode consertar um aparelho simplesmente ligando-o e desligando-o sem saber o problema".
Então o mestre se aproximou do computador, desligou-o e ligou-o e ele funcionou.
(Tommy Knight)
"Você não pode consertar um aparelho simplesmente ligando-o e desligando-o sem saber o problema".
Então o mestre se aproximou do computador, desligou-o e ligou-o e ele funcionou.
(Tommy Knight)
dezembro 19, 2007
Meus Poemas Favoritos - Richard Cory
A primeira vez que ouvi falar de Richard Cory era uma (ótima) música do bom álbum triplo WINGS OVER AMERICA. Depois descobri que era na verdade do Paulo Simon e, mais tarde, finalmente, que era um poema belíssimo de Edwin Arlington Robinson, como os angloparlantes podem conferir abaixo e os angloprejudicados mais abaixo ainda, na minha pobre e livre tradução (as duas coisas sempre parecem andar juntas).
Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.
And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.
And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.
So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.
Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio
E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar
E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar
E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça
Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.
And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.
And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.
So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.
Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio
E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar
E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar
E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça
dezembro 06, 2007
A História do Cinema I - The Great Train Robbery
Diz uma história que preparava-se a adaptação de uma peça de sucesso para o cinema. Ainda em princípios de produção, o cineasta foi ao teatro assistir ao espetáculo e conversar com o autor-diretor da montagem. Em meio ao bate-papo, este virou para o sujeito dos 24 quadros por segundo e falou, "quer saber, vocês de cinema complicam tudo. Se eu fosse fazer um filme disto, eu simplesmente punha uma câmera numa cadeira e deixava rolar", ao que o "você do cinema" retrucou, "certo. Mas em QUAL cadeira você poria a câmera?"
Miríades de opções a mais que o cinema oferece à parte, na verdade o raciocínio do nosso teatrólogo era o mesmo dos primeiros cineastas. Começando uma nova arte do nada, ainda na aurora da arte moderna e das teorias futuristas e de avant-garde que revolucionariam o metiê nos anos 20, o povo com uma câmera na mão não tinha muita idéia na cabeça do que fazer com ela. As primeiras tentativas de contar historinhas com o cinematógrafo usavam a mídia como um teatro (mudo) a jato - os cenários podiam mudar instantaneamente (incluindo exteriores) e o uso inteligente de cortes e efeitos de montagem podia criar ilusões impensáveis num palco. No Rio de Janeiro, por exemplo, fez muito sucesso na década de 1900 a nacionalíssima película musical (sim, musical mudo) PAZ E AMOR. Durante a projeção, os atores ficavam atrás da tela fazendo a dublagem. Ou seja, o filme servia apenas para economizar na produção de uma revista musical!
E assim eram todas as fitas no alvorecer da sétima arte. A câmera ficava estática, aberta, enquadrando o que equivaleria aproximadamente a um palco, e com a ação acontecendo da esquerda para a direita (e vice-versa), para que nenhum ator ficasse de costas para a câmera (e no filme mudo, que é basicamente uma pantomima, a expressão do mímico é fundamental para a compreensão da história). À bidimensionalidade da tela somava-se a bidimensionalidade da ação, ficando tudo chapado e artificial ao extremo. Felizmente, logo algumas pessoas com generoso número de células gliais perceberam que tal abordagem era humilhante e degradante para toda a tecnologia envolvida na manufatura de películas. E começaram a experimentação que levaria à firme conclusão de que o cinema era a expressão do MOVIMENTO.
THE GREAT TRAIN ROBBERY é um filme de 1903, ainda bastante primitivo. A ação transcorre da esquerda para a direita. A pantomima é exagerada e risível para os nossos padrões. Durante o primeiro ato, a tecnologia é usada para criar superilusões teatrais (as projeções ao fundo na primeira cena (aos 20 segundos) e no tiroteio no vagão - 2 minutos) e a ação externa também transcorre bidimensionalmente. No entanto, alguns detalhes importantíssimos mostram o início da criação da LINGUAGEM DO CINEMA, independente e diferente da teatral.
Aos 2m48s, a câmera está presa em cima de um vagão. Está em movimento. E o bandido aparece em primeiro plano e move-se rumo ao fundo, de costas para ela. Subitamente o filme parece muito menos primitivo e tem um ar vagamente contemporâneo. Uma trucagem elementar termina a porrada com uma nota violentíssima. O enquadramento é ótimo e elegante e está criada a ação tridimensional. Está quebrada a bidimensionalidade da tela. A sétima arte torna-se uma experiência muito mais real e envolvente.
Aos 4m20s, os bandidos alinham os passageiros para assaltá-los. Para enquadrar esta ação de frente, a câmera, mesmo com a lente mais angular de que se dispunha na época, teria que ficar longe demais para que se distinguisse o que estava acontecendo. O diretor, Edwin S. Porter, sem alternativa, fez o que qualquer fotógrafo amador experiente faria - pegou a cena em diagonal. A composição é muito mais bonita e dinâmica e novamente está quebrada a bidimensionalidade da fita. Mais uma vez ela parece muito menos primitiva.
A cena seguinte também é diagonal, mas o que mais emociona os amantes do cinema é que, aos 6m09s, os bandidos saltam do trem. Em vez de mostrá-los saltando de lado, correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, cortar para uma cena adjacente, com eles novamente correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, tudo isso captado a uma distância respeitável, o que Edwin, o S. Porter, fez? Ele pegou a uma distância que, para a época, poderia ser considerada média, e FOI MOVENDO A CÂMERA PARA MANTER OS BANDIDOS EM QUADRO ENQUANTO ELES SUMIAM MONTANHA ABAIXO. A câmera estática está morta! Logo ela estaria sendo montada por Abel Gance no pescoço de cavalos. A ação é muito mais envolvente. A câmera segue o movimento como nossos olhos fariam - ela É nossos olhos! Nasce o cinema!
Infelizmente, Porter não seria o homem que levaria essas descobertas às últimas consequências. A cena é seguida por mais interiores bidimensionais, sem cortes, de longe. A patrulha persegue os bandidos atirando vindo de segundo plano para primeiro plano, mas não ocorreu ao diretor que a câmera poderia se movimentar não só da esquerda para a direita como também do fundo para a frente. Mesmo a quebra da quarta parede quando o bandido atira na platéia, na última cena, é apenas um efeito, não um manifesto de uma nova estética (e, apesar de tudo, um grande efeito, já que diz a lenda que espectadores se abaixavam ou saíam correndo neste momento).
Estávamos em 1903. Numa época em que o ritmo das descobertas era consideravelmente mais lento, o cinema avançava rapidamente. Passava de curiosidade a entretenimento de qualidade e firmava-se como arte, desenvolvendo sua estética e sua linguagem. Foram esses primeiros avanços que mostraram aos artistas modernos que eles poderiam usar aquela nova maneira de expressão, convenientemente de alta tecnologia, moderna como as concepções daqueles malucos do começo do século (vinte), poderia adaptar-se admiravelmente às suas propostas e teorias.
Ainda mais depois que um americano conservador e caretão chamado D. W. Griffith quebrasse a ação em planos rápidos e curtos que mostravam sempre exatamente aquilo que você precisava ver naquele momento, em vez de enquadrar uma cena inteira e deixar que o espectador escolhesse o que lhe interessava.
Miríades de opções a mais que o cinema oferece à parte, na verdade o raciocínio do nosso teatrólogo era o mesmo dos primeiros cineastas. Começando uma nova arte do nada, ainda na aurora da arte moderna e das teorias futuristas e de avant-garde que revolucionariam o metiê nos anos 20, o povo com uma câmera na mão não tinha muita idéia na cabeça do que fazer com ela. As primeiras tentativas de contar historinhas com o cinematógrafo usavam a mídia como um teatro (mudo) a jato - os cenários podiam mudar instantaneamente (incluindo exteriores) e o uso inteligente de cortes e efeitos de montagem podia criar ilusões impensáveis num palco. No Rio de Janeiro, por exemplo, fez muito sucesso na década de 1900 a nacionalíssima película musical (sim, musical mudo) PAZ E AMOR. Durante a projeção, os atores ficavam atrás da tela fazendo a dublagem. Ou seja, o filme servia apenas para economizar na produção de uma revista musical!
E assim eram todas as fitas no alvorecer da sétima arte. A câmera ficava estática, aberta, enquadrando o que equivaleria aproximadamente a um palco, e com a ação acontecendo da esquerda para a direita (e vice-versa), para que nenhum ator ficasse de costas para a câmera (e no filme mudo, que é basicamente uma pantomima, a expressão do mímico é fundamental para a compreensão da história). À bidimensionalidade da tela somava-se a bidimensionalidade da ação, ficando tudo chapado e artificial ao extremo. Felizmente, logo algumas pessoas com generoso número de células gliais perceberam que tal abordagem era humilhante e degradante para toda a tecnologia envolvida na manufatura de películas. E começaram a experimentação que levaria à firme conclusão de que o cinema era a expressão do MOVIMENTO.
THE GREAT TRAIN ROBBERY é um filme de 1903, ainda bastante primitivo. A ação transcorre da esquerda para a direita. A pantomima é exagerada e risível para os nossos padrões. Durante o primeiro ato, a tecnologia é usada para criar superilusões teatrais (as projeções ao fundo na primeira cena (aos 20 segundos) e no tiroteio no vagão - 2 minutos) e a ação externa também transcorre bidimensionalmente. No entanto, alguns detalhes importantíssimos mostram o início da criação da LINGUAGEM DO CINEMA, independente e diferente da teatral.
Aos 2m48s, a câmera está presa em cima de um vagão. Está em movimento. E o bandido aparece em primeiro plano e move-se rumo ao fundo, de costas para ela. Subitamente o filme parece muito menos primitivo e tem um ar vagamente contemporâneo. Uma trucagem elementar termina a porrada com uma nota violentíssima. O enquadramento é ótimo e elegante e está criada a ação tridimensional. Está quebrada a bidimensionalidade da tela. A sétima arte torna-se uma experiência muito mais real e envolvente.
Aos 4m20s, os bandidos alinham os passageiros para assaltá-los. Para enquadrar esta ação de frente, a câmera, mesmo com a lente mais angular de que se dispunha na época, teria que ficar longe demais para que se distinguisse o que estava acontecendo. O diretor, Edwin S. Porter, sem alternativa, fez o que qualquer fotógrafo amador experiente faria - pegou a cena em diagonal. A composição é muito mais bonita e dinâmica e novamente está quebrada a bidimensionalidade da fita. Mais uma vez ela parece muito menos primitiva.
A cena seguinte também é diagonal, mas o que mais emociona os amantes do cinema é que, aos 6m09s, os bandidos saltam do trem. Em vez de mostrá-los saltando de lado, correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, cortar para uma cena adjacente, com eles novamente correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, tudo isso captado a uma distância respeitável, o que Edwin, o S. Porter, fez? Ele pegou a uma distância que, para a época, poderia ser considerada média, e FOI MOVENDO A CÂMERA PARA MANTER OS BANDIDOS EM QUADRO ENQUANTO ELES SUMIAM MONTANHA ABAIXO. A câmera estática está morta! Logo ela estaria sendo montada por Abel Gance no pescoço de cavalos. A ação é muito mais envolvente. A câmera segue o movimento como nossos olhos fariam - ela É nossos olhos! Nasce o cinema!
Infelizmente, Porter não seria o homem que levaria essas descobertas às últimas consequências. A cena é seguida por mais interiores bidimensionais, sem cortes, de longe. A patrulha persegue os bandidos atirando vindo de segundo plano para primeiro plano, mas não ocorreu ao diretor que a câmera poderia se movimentar não só da esquerda para a direita como também do fundo para a frente. Mesmo a quebra da quarta parede quando o bandido atira na platéia, na última cena, é apenas um efeito, não um manifesto de uma nova estética (e, apesar de tudo, um grande efeito, já que diz a lenda que espectadores se abaixavam ou saíam correndo neste momento).
Estávamos em 1903. Numa época em que o ritmo das descobertas era consideravelmente mais lento, o cinema avançava rapidamente. Passava de curiosidade a entretenimento de qualidade e firmava-se como arte, desenvolvendo sua estética e sua linguagem. Foram esses primeiros avanços que mostraram aos artistas modernos que eles poderiam usar aquela nova maneira de expressão, convenientemente de alta tecnologia, moderna como as concepções daqueles malucos do começo do século (vinte), poderia adaptar-se admiravelmente às suas propostas e teorias.
Ainda mais depois que um americano conservador e caretão chamado D. W. Griffith quebrasse a ação em planos rápidos e curtos que mostravam sempre exatamente aquilo que você precisava ver naquele momento, em vez de enquadrar uma cena inteira e deixar que o espectador escolhesse o que lhe interessava.
novembro 20, 2007
Um Celular com Câmera
Pichação


Urubumóvel (nada a ver comigo)



Lagartão em Copacabana. Provavelmente caiu no mar nas Cagarras ou no Pão
de Açúcar




O Golfista da Praça Cuauhtemoc
Chama-se Rui. Foi fazer um exame no hospital e não o deixaram sair - puseram-lhe cinco safenas. Enquanto aguarda pelo dia em que poderá voltar a realment praticar exercícios, treina seu drive e seu putting na praça Cuauhtemoc. Tem que tomar cuidado com as crianças, porque as bolas são pesadas, e com os cachorros, que querem correr atrás delas. Já machucou dois e teve que pedir muitas desculpas.




Urubumóvel (nada a ver comigo)



Lagartão em Copacabana. Provavelmente caiu no mar nas Cagarras ou no Pão
de Açúcar




O Golfista da Praça Cuauhtemoc
Chama-se Rui. Foi fazer um exame no hospital e não o deixaram sair - puseram-lhe cinco safenas. Enquanto aguarda pelo dia em que poderá voltar a realment praticar exercícios, treina seu drive e seu putting na praça Cuauhtemoc. Tem que tomar cuidado com as crianças, porque as bolas são pesadas, e com os cachorros, que querem correr atrás delas. Já machucou dois e teve que pedir muitas desculpas.


novembro 19, 2007
Subjetivismo Concretista embaixo da Rocinha
Indo pro motel saindo do Dois Irmãos
Da favela jogam uma pedra que pega no pára-brisa do carro
(E o estilhaça, não o quebra)
"Meu amor", digo eu, "você me enlouquece,
o mundo vira um quebra-cabeças, tudo me são
apenas pedaços de um todo incompleto.
Estou esquizofrênico".
"Meu amor", responde ela, "você me inspira.
Vejo o mundo com os olhos
de uma pintora cubista".
E quem olha de fora pensa
"O amor dele os enredou
como uma teia de aranha"
Da favela jogam uma pedra que pega no pára-brisa do carro
(E o estilhaça, não o quebra)
"Meu amor", digo eu, "você me enlouquece,
o mundo vira um quebra-cabeças, tudo me são
apenas pedaços de um todo incompleto.
Estou esquizofrênico".
"Meu amor", responde ela, "você me inspira.
Vejo o mundo com os olhos
de uma pintora cubista".
E quem olha de fora pensa
"O amor dele os enredou
como uma teia de aranha"
novembro 05, 2007
Morro de São Paulo
O Jardim de Manequins
Oi, gente. Voltei agora de férias e estou fazendo uns frilas que me deixaram sem tempo pra vocês. Assim que selecionar as melhores entre as mais de 600 fotos que tirei em Morro de São Paulo (malditas memórias de câmeras digitais) e reduzi-las, postá-las-ei aqui. Pra vocês não reclamarem que os abandonei, um texto meu do começo dos anos 90, um projeto de curta. Como ainda se iniciavam os 90, tem uma cara tremenda de década de 80 e confesso que na época andava meio sem saber sobre o quê escrever exatamente. Parei de escrever contos porque sentia-os ficando muito técnicos, com narrativas fantásticas, mas sem substância, muito glacê e pouco conteúdo. Salvou-me escrever para teatro, que me realinhou com a objetividade, com o compromisso com a narrativa e o melodrama barato. Aí vai, portanto, O JARDIM DOS MANEQUINS
cena i
bar/noite
mônica/ rapaz/ marisa
uma moça - mÔnica - está sentada entediada olhando para o chope, para as pessoas e o cenário em geral. Num bar, claro. um sujeito - um garoto mal saído da adolescência, um pouco mais novo do que ela - se aproxima.
Sujeito: A gente nunca sabe o que fazer quando nos deixam sozinhos...
Mônica: (DISTRAÍDA) Como?
Sujeito: Ah, quando estamos conversando e se levantam pra ir ao banheiro... a gente nunca sabe o que fazer, no que pensar...
Mônica: Sexo.
Sujeito: Como?
Mônica: Quando eu fico sem assunto na cabeça, eu penso em sexo. É bom ter uma boa vida sexual pra isso. Pra arejar a cabeça.
Chega marisa do banheiro, pega a bolsa e se ajeita pra sair.
Marisa: Vamos nessa?
mônica aquiesce, termina de beber o chope e se levanta, vai saindo com marisa, mas antes passa a mão na cabeça do rapaz.
Mônica: Tenha uma boa vida sexual. Areja a cabeça e a gente não fica tão obcecada com sexo.
o gAROTO FICA OLHANDO UM POUCO ELAS SE AFASTAREM, SEM SABER COMO RESPONDER E FALA, ENTREDENTES.
Sujeito: Sapatão...
Vai se afastando. Uma voz o chama.O garoto vai na direção dela e sai de cena.
Voz: Thiago! Aí, cara! E aí, como é que vai a Ritinha?
cena ii
ruas/noite
mônica/marisa
as moças vão andando e sorrindo pelas ruas.
Marisa: Tu não vale nada, Mônica.
Mônica: Hoje não tô pra barbado. Muito menos pra imberbe.
Marisa: Hoje é a noite das mulheres.
Mônica: Hoje é noite de encher a cara, Marisa. Chega de me esconder, de ter que tomar cuidado com isso, com aquilo. Estou livre! (GRITA PELAS RUAS) Não namoro mais homem casado! Terminei tudo!
uma voz grita em resposta, dos prédios.
Voz: Vai arrumar alguém, então, porra!
As duas se olham e riem.
Marisa: Não adianta, tem sempre alguém policiando.
retomam a caminhada. passam em frente a uma boutique. Mônica pára e fica olhando. Marisa, que continuou andando até o carro, a vê e volta.
Marisa: Já se apaixonou de novo?
corte. aparecem os manequins e o soturno interior da loja.
Mônica: Quando a gente se conheceu, o Marcelo vivia me dando presente...
Marisa: Umas roupas dessa?
Mônica: Porra nenhuma, ele achava feio. Ficava me dando uns vestidos lindos, mas que eu vou conseguir usar uma vez por ano. Depois não deu mais nada.
Marisa: Claro. Passou a ser a vez de você dar.
Mônica: Sabe que eu sempre quis ter o corpo desses bonecos?
Marisa: (SURPRESA) Pra quê?
Mônica: Ah, ó só... tudo firme, olha as pernas, tudo certinho... e tão sempre elegantes. E, porra, tão sempre bem vestidos. Melhor do que eu.
Marisa: Gostou dos vestidos, hem?
Mônica: Ah, tô com saudade de botar umas roupinhas assim e sair pra matar... aquele ali, como é que você acha que eu ia ficar nele?
marisa olha para um lado e para o outro, morde o lábio inferior.
Marisa: Vamos ver, então, porra!
marisa se abaixa e começa a mexer no cadeado que fecha a porta de vidro. Mônica observa surpresa a amiga, olha para os lados assustada, tenta se esconder sob a marquise.
Mônica: Você ficou maluca, Marisa? Que que você tá fazendo?
Marisa: Abrindo a porta.
Mônica: E desde quando você é arrombadora?
Marisa: Quando eu tinha dezesseis anos, namorei um garoto que abria carro. Só pra gente dar uma voltinha, depois largava. Pela emoção. E ele me ensinou a abrir fechadura.
Mônica: E você não ficava com medo?
Marisa: Ficava era com tesão! Transei em tudo que era tipo de carro com ele! Fiquei até expert nessas coisas (CONSEGUE ABRIR O CADEADO. EMPURRA A PORTA). Vamos entrar?
Mônica: "Publicitária e arquiteta presas por arrombamento e furto..."
Marisa: Sabe o que aconteceu com aquele meu namorado?
Mônica: O quê? Virou um traficante rico e famoso?
Marisa: Um advogado rico e famoso. (ENTRA)
mônica olha para um lado e para o outro, assustada.
Mônica: Ah, droga, eu mereço parecer bonita! (ENTRA)
cena iii
loja/noite
mônica/Marisa/assaltante
a loja parece bem maior por dentro. a luz vem toda da rua e de algumas fracas luminárias em cima. os manequins estão dispostos de uma maneira quase lúgubre, alguns pela metade, outros semi-vestidos.
Mônica: (PROCURANDO MARISA) Marisa... Marisa...
uma silhueta surge por trás dela, saindo das sombras, a cabeça envolta num véu, sem que ela perceba.
Marisa: (ABRINDO OS BRAÇOS E ENVOLVENDO A CABEÇA DE MÔNICA COM O VÉU) Experimenta este véu de escuridão!
Mônica: (ASSUSTADA) Aaaaaahhhh!
Marisa: Quieta, Mônica. Vai acordar a vizinhança toda!
os manequins observam mudos.
Mônica: Eles nem se mexem.
Marisa: (SENTANDO-SE SOBRE O COLO DE UM MANEQUIM) E você queria ser sexy que nem eles...
Mônica: Elegante, Marisa. Elegante. (DESPE UM MANEQUIM E EXPERIMENTA A ROUPA QUE ELE USAVA) E bonita.
Marisa: Você é bonita...
Mônica: Nosso conceito de beleza é diferente do de homem...
Marisa: "Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:/ De almas estóicas a dureza louca/ Rirá dos teus lamentos/ Mas nos servos de Amor terás abrigo:/ Quando te ouvirem, chorarão contigo." Bocage.
Mônica: Bonito. Mas você não ia achar bonita a mesma mulher que ele.
Marisa: Que me importa a opinião dele? (GIRA A CABEÇA DE UM MANEQUIM EM SUA DIREÇÃO) Ele está morto e enterrado.
Mônica: E a gente, hem, Marisa? (EXPERIMENTANDO UMA BLUSA) Você acha que essa aqui tá boa preu ir presa?
Marisa: (APROXIMANDO-SE DELA, PERFIS LADO A LADO) Qual o problema? Sem dinheiro pra comprar roupas e sem ninguém que as dê de presente...
Mônica: É... (PEGA UMA BERMUDA. TIRA A CALÇA E COMEÇA A EXPERIMENTÁ-LA) Quando eu não trabalhava eu podia culpar meus pais por não ter dinheiro pra comprar essas roupas...
Marisa: Quando eu não trabalhava eu achava que nunca ia precisar trabalhar. (APÓIA-SE NUM MANEQUIM)
Mônica: Tinha um eterno pretendente rico?
Marisa: Não. Esse é um dos meus traumas. (PEGA UM DOS BONECOS) Eu era bonita e simpática. Os eternos pretendentes ricos tinham medo de mim. Todas as minhas amigas tinham um.
Mônica: E você ficou traumatizada com isso?
Marisa: Se não fossem os carros do Marcelo, ficaria mais. (TOCA AS MÃOS DE UM DOS BONECOS) "Marisa... em meu coração ardem chamas de revolta. O fogo da paixão abafa-se frente a seu calor. (DECLAMA PARA A AUDIÊNCIA MUDA DOS MANEQUINS) A fúria do desejo se envergonha frente à sua intensidade. E bate ele em meu tronco com força cada vez maior. Injusta é a força que o separou do seu" (ABRAÇA UM MANEQUIM) Ninguém nunca me disse isso.
Mônica: Nem a mim.
Marisa: E nem sentiu. Aí eu ficava escrevendo as coisas que esperava que dissessem. Daí achava que ia ser poeta e nunca ia trabalhar.
Mônica: Slogans não deixam de ser poesia.
Marisa: Mas trabalhar todo dia não deixa de ser trabalho. (DESPE UM DOS MANEQUINS, VESTE-SE COM A ROUPA DELE. EXAMINA O MANEQUIM) E se você tivesse esse corpo, afinal, ia trabalhar?
Mônica: Não sei. Se eu tivesse esse corpo, seria outra pessoa...
marisa vai até o interruptor e fica brincando com ele, acendendo e apagando, imitando flashes espoucando em cima dos manequins.
Marisa: Os homens perderiam a cabeça por você... os flashes espoucariam onde quer que você fosse... seu lar seria o mundo.
Mônica: E me pagariam pra usar essas roupas...
Marisa: (GIRA, MOSTRANDO CASACO QUE EXPERIMENTA) E dessa, o que diz? Sou uma mulher perfeita, agora?
Mônica: Alucinante... Faça uma mulher feliz: vista-a bem. Por que nos cobrindo nos sentimos melhores?
Marisa: Ó a mulher... fica deprimida, começa logo a querer ficar profunda... (ABRE UMA GAVETA) Ih! Vê só o que achei!
mônica continua trocando de roupa, observada pelos manequins, enquanto marisa vem caminhando em sua direção.
Mônica: O que foi?
Marisa: Poesias... "Alto; sobretudo, forte./ Faz noite em minha boca/ E as palavras se dissolvem em meu corpo/ Alto; sobretudo forte/ Faz escuridão em torno de nós/ E a linguagem escorre, afrodisíaca/ Pela garganta".
Mônica: Erótica.
Marisa: Vê se um homem vai querer se prestar a isso...
Mônica: "Descuidado; sobretudo apressado/ Sem imaginação, acende a luz/ Marcelo vai passando em minha vida".
Marisa: Deixa a poeta quieta, Mônica. Também já tive essa minha fase. Amores de papel.
Mônica: Logo você que eu sempre achei tão saidinha...
Marisa: Sempre fui muito crédula, Mônica. E quem acredita em alguma coisa, qualquer coisa, é sempre saidinha.
Mônica: A fé remove montanhas...
Marisa: Já foram tiradas todas, Mônica. Agora grandes são os desertos, minha alma, grandes são os desertos. (OLHA AS POESIAS) Vendendo essas roupas todos os dias... mulheres se embelezando para suas paixões... mulheres se reconstruindo na fossa... vestidas por poesias de sonhadoras...
Mônica: (AOS MANEQUINS) E muda, a assistência desfila magra e sedutora...
Marisa: E seus corpos perfeitos... também, não bebem, não fumam, não amam e não trepam...
Mônica: Um emprego e tanto. Beleza 24 horas por dia.
Marisa: As modas passam... e eles ficam.
Mônica: Mas não têm ninguém... por que que iriam se preocupar? Ó só essas pernas... vê as minhas... (SEGURA AS PERNAS DO MANEQUIM) tem gente que acha finas, outros acham grossas, uns dizem que sou leve, outros que sou muito terra... as pernas deles são as pernas deles. Ó os braços. Vê os meus. Dizia o Marcelo que tanto o apertavam... tanto o queriam para eles...
marisa pega uma jaqueta de um dos manequins e sai dançando pela loja.
Marisa: "All of me... why not take all of me... can't you see... I'm no good without you... take my lips... I want to lose them... take my arms... I never use them..."
Marisa continua dançanndo e cantando pela loja. mônica suspira abraçada a um manequim. murmura.
Mônica: ... Marcelo...
olha para o lado e, ao ver o manequim olhando para ela, vira-lhe o rosto. marisa pára de cantar. vai para próximo da amiga.
Marisa: Esquece, Mônica. Esta noite estamos ricas. Vamos nos alegrar fazendo todas as compras que queremos...
mônica olha para as roupas no chão.
Mônica: Não gostei de nenhuma dessas roupas... (OLHA OS MANEQUINS) Não gostei desses manequins... não gostei do garoto no bar... eu sinto falta do Marcelo...
marisa, que observava piedosa, abraça a amiga, que começa a chorar.
Mônica: Sempre falei tanto do Marcelo com aquele lenga-lenga da esposa e eu aqui não sei nem decidir que roupa levar...
Marisa: Se as pessoas realmente soubessem o que querem, Mônica, minha profissão não ia existir...
por sobre as imagens dos manequins imóveis, o som de passos. de alguém mexendo na fechadura. as duas meninas olham para a porta assustadas e vêem uma sombra mexendo na fechadura e entrando. com uma arma em punho. correm para o provador para se esconderem. o assaltante vai derrubando os manequins, espalhando as roupas. passa bem perto delas, que se encolhem assustadas dentro da cabine de provas. o assaltante vê as poesias da vendedora e as joga fora. Remexe mais nas gavetas. encontra corações flechados desenhados. também joga fora. por último, vê dinheiro. de sua sombra, vê-se apenas o brilho do sorriso. ele embolsa o dinheiro e vai embora. as amigas, assustadas, depois que ele saiu, também saem do provador e fogem.
cena iv
ruas/noite
mônica/marisa/passantes
na calçada, fora da loja, as amigas olham-se uma para a outra e sorriem. começam a rir. gargalham desbragadamente e sentam-se no meio-fio.
Mônica: Por que que só a gente podia estar na fossa hoje?
Marisa: Homem prefere ir logo direto à questão...
Mônica: E acabou que a gente não trouxe nenhuma roupa. Nem de lembrancinha...
enquanto elas falam, ouve-se ao fundo o alarme da loja e vozes gritando ao longe "pega ladrão, pega ladrão", depois sirenes e sons de tiros.
Mônica: Ah, Marisa... valeu, amiga. Tô me sentindo melhor (ABRAÇA-A)
Marisa: O que eu te falei, Mônica... nada como uma visita a uma boa boutique pra animar uma garota...
a câmera vai fazendo zoom-out. as duas amigas riem no meio-fio. continua o som de tiros. pessoas passam correndo, algumas de pijama, curiosas para saberem o que está acontecendo. passa um carro de polícia.
Marisa: Olha que pessoal exagerado...
Mônica: Sabe de uma coisa, Marisa? Você precisa me ensinar a arrombar fechaduras...
fade-out. fim.
cena i
bar/noite
mônica/ rapaz/ marisa
uma moça - mÔnica - está sentada entediada olhando para o chope, para as pessoas e o cenário em geral. Num bar, claro. um sujeito - um garoto mal saído da adolescência, um pouco mais novo do que ela - se aproxima.
Sujeito: A gente nunca sabe o que fazer quando nos deixam sozinhos...
Mônica: (DISTRAÍDA) Como?
Sujeito: Ah, quando estamos conversando e se levantam pra ir ao banheiro... a gente nunca sabe o que fazer, no que pensar...
Mônica: Sexo.
Sujeito: Como?
Mônica: Quando eu fico sem assunto na cabeça, eu penso em sexo. É bom ter uma boa vida sexual pra isso. Pra arejar a cabeça.
Chega marisa do banheiro, pega a bolsa e se ajeita pra sair.
Marisa: Vamos nessa?
mônica aquiesce, termina de beber o chope e se levanta, vai saindo com marisa, mas antes passa a mão na cabeça do rapaz.
Mônica: Tenha uma boa vida sexual. Areja a cabeça e a gente não fica tão obcecada com sexo.
o gAROTO FICA OLHANDO UM POUCO ELAS SE AFASTAREM, SEM SABER COMO RESPONDER E FALA, ENTREDENTES.
Sujeito: Sapatão...
Vai se afastando. Uma voz o chama.O garoto vai na direção dela e sai de cena.
Voz: Thiago! Aí, cara! E aí, como é que vai a Ritinha?
cena ii
ruas/noite
mônica/marisa
as moças vão andando e sorrindo pelas ruas.
Marisa: Tu não vale nada, Mônica.
Mônica: Hoje não tô pra barbado. Muito menos pra imberbe.
Marisa: Hoje é a noite das mulheres.
Mônica: Hoje é noite de encher a cara, Marisa. Chega de me esconder, de ter que tomar cuidado com isso, com aquilo. Estou livre! (GRITA PELAS RUAS) Não namoro mais homem casado! Terminei tudo!
uma voz grita em resposta, dos prédios.
Voz: Vai arrumar alguém, então, porra!
As duas se olham e riem.
Marisa: Não adianta, tem sempre alguém policiando.
retomam a caminhada. passam em frente a uma boutique. Mônica pára e fica olhando. Marisa, que continuou andando até o carro, a vê e volta.
Marisa: Já se apaixonou de novo?
corte. aparecem os manequins e o soturno interior da loja.
Mônica: Quando a gente se conheceu, o Marcelo vivia me dando presente...
Marisa: Umas roupas dessa?
Mônica: Porra nenhuma, ele achava feio. Ficava me dando uns vestidos lindos, mas que eu vou conseguir usar uma vez por ano. Depois não deu mais nada.
Marisa: Claro. Passou a ser a vez de você dar.
Mônica: Sabe que eu sempre quis ter o corpo desses bonecos?
Marisa: (SURPRESA) Pra quê?
Mônica: Ah, ó só... tudo firme, olha as pernas, tudo certinho... e tão sempre elegantes. E, porra, tão sempre bem vestidos. Melhor do que eu.
Marisa: Gostou dos vestidos, hem?
Mônica: Ah, tô com saudade de botar umas roupinhas assim e sair pra matar... aquele ali, como é que você acha que eu ia ficar nele?
marisa olha para um lado e para o outro, morde o lábio inferior.
Marisa: Vamos ver, então, porra!
marisa se abaixa e começa a mexer no cadeado que fecha a porta de vidro. Mônica observa surpresa a amiga, olha para os lados assustada, tenta se esconder sob a marquise.
Mônica: Você ficou maluca, Marisa? Que que você tá fazendo?
Marisa: Abrindo a porta.
Mônica: E desde quando você é arrombadora?
Marisa: Quando eu tinha dezesseis anos, namorei um garoto que abria carro. Só pra gente dar uma voltinha, depois largava. Pela emoção. E ele me ensinou a abrir fechadura.
Mônica: E você não ficava com medo?
Marisa: Ficava era com tesão! Transei em tudo que era tipo de carro com ele! Fiquei até expert nessas coisas (CONSEGUE ABRIR O CADEADO. EMPURRA A PORTA). Vamos entrar?
Mônica: "Publicitária e arquiteta presas por arrombamento e furto..."
Marisa: Sabe o que aconteceu com aquele meu namorado?
Mônica: O quê? Virou um traficante rico e famoso?
Marisa: Um advogado rico e famoso. (ENTRA)
mônica olha para um lado e para o outro, assustada.
Mônica: Ah, droga, eu mereço parecer bonita! (ENTRA)
cena iii
loja/noite
mônica/Marisa/assaltante
a loja parece bem maior por dentro. a luz vem toda da rua e de algumas fracas luminárias em cima. os manequins estão dispostos de uma maneira quase lúgubre, alguns pela metade, outros semi-vestidos.
Mônica: (PROCURANDO MARISA) Marisa... Marisa...
uma silhueta surge por trás dela, saindo das sombras, a cabeça envolta num véu, sem que ela perceba.
Marisa: (ABRINDO OS BRAÇOS E ENVOLVENDO A CABEÇA DE MÔNICA COM O VÉU) Experimenta este véu de escuridão!
Mônica: (ASSUSTADA) Aaaaaahhhh!
Marisa: Quieta, Mônica. Vai acordar a vizinhança toda!
os manequins observam mudos.
Mônica: Eles nem se mexem.
Marisa: (SENTANDO-SE SOBRE O COLO DE UM MANEQUIM) E você queria ser sexy que nem eles...
Mônica: Elegante, Marisa. Elegante. (DESPE UM MANEQUIM E EXPERIMENTA A ROUPA QUE ELE USAVA) E bonita.
Marisa: Você é bonita...
Mônica: Nosso conceito de beleza é diferente do de homem...
Marisa: "Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:/ De almas estóicas a dureza louca/ Rirá dos teus lamentos/ Mas nos servos de Amor terás abrigo:/ Quando te ouvirem, chorarão contigo." Bocage.
Mônica: Bonito. Mas você não ia achar bonita a mesma mulher que ele.
Marisa: Que me importa a opinião dele? (GIRA A CABEÇA DE UM MANEQUIM EM SUA DIREÇÃO) Ele está morto e enterrado.
Mônica: E a gente, hem, Marisa? (EXPERIMENTANDO UMA BLUSA) Você acha que essa aqui tá boa preu ir presa?
Marisa: (APROXIMANDO-SE DELA, PERFIS LADO A LADO) Qual o problema? Sem dinheiro pra comprar roupas e sem ninguém que as dê de presente...
Mônica: É... (PEGA UMA BERMUDA. TIRA A CALÇA E COMEÇA A EXPERIMENTÁ-LA) Quando eu não trabalhava eu podia culpar meus pais por não ter dinheiro pra comprar essas roupas...
Marisa: Quando eu não trabalhava eu achava que nunca ia precisar trabalhar. (APÓIA-SE NUM MANEQUIM)
Mônica: Tinha um eterno pretendente rico?
Marisa: Não. Esse é um dos meus traumas. (PEGA UM DOS BONECOS) Eu era bonita e simpática. Os eternos pretendentes ricos tinham medo de mim. Todas as minhas amigas tinham um.
Mônica: E você ficou traumatizada com isso?
Marisa: Se não fossem os carros do Marcelo, ficaria mais. (TOCA AS MÃOS DE UM DOS BONECOS) "Marisa... em meu coração ardem chamas de revolta. O fogo da paixão abafa-se frente a seu calor. (DECLAMA PARA A AUDIÊNCIA MUDA DOS MANEQUINS) A fúria do desejo se envergonha frente à sua intensidade. E bate ele em meu tronco com força cada vez maior. Injusta é a força que o separou do seu" (ABRAÇA UM MANEQUIM) Ninguém nunca me disse isso.
Mônica: Nem a mim.
Marisa: E nem sentiu. Aí eu ficava escrevendo as coisas que esperava que dissessem. Daí achava que ia ser poeta e nunca ia trabalhar.
Mônica: Slogans não deixam de ser poesia.
Marisa: Mas trabalhar todo dia não deixa de ser trabalho. (DESPE UM DOS MANEQUINS, VESTE-SE COM A ROUPA DELE. EXAMINA O MANEQUIM) E se você tivesse esse corpo, afinal, ia trabalhar?
Mônica: Não sei. Se eu tivesse esse corpo, seria outra pessoa...
marisa vai até o interruptor e fica brincando com ele, acendendo e apagando, imitando flashes espoucando em cima dos manequins.
Marisa: Os homens perderiam a cabeça por você... os flashes espoucariam onde quer que você fosse... seu lar seria o mundo.
Mônica: E me pagariam pra usar essas roupas...
Marisa: (GIRA, MOSTRANDO CASACO QUE EXPERIMENTA) E dessa, o que diz? Sou uma mulher perfeita, agora?
Mônica: Alucinante... Faça uma mulher feliz: vista-a bem. Por que nos cobrindo nos sentimos melhores?
Marisa: Ó a mulher... fica deprimida, começa logo a querer ficar profunda... (ABRE UMA GAVETA) Ih! Vê só o que achei!
mônica continua trocando de roupa, observada pelos manequins, enquanto marisa vem caminhando em sua direção.
Mônica: O que foi?
Marisa: Poesias... "Alto; sobretudo, forte./ Faz noite em minha boca/ E as palavras se dissolvem em meu corpo/ Alto; sobretudo forte/ Faz escuridão em torno de nós/ E a linguagem escorre, afrodisíaca/ Pela garganta".
Mônica: Erótica.
Marisa: Vê se um homem vai querer se prestar a isso...
Mônica: "Descuidado; sobretudo apressado/ Sem imaginação, acende a luz/ Marcelo vai passando em minha vida".
Marisa: Deixa a poeta quieta, Mônica. Também já tive essa minha fase. Amores de papel.
Mônica: Logo você que eu sempre achei tão saidinha...
Marisa: Sempre fui muito crédula, Mônica. E quem acredita em alguma coisa, qualquer coisa, é sempre saidinha.
Mônica: A fé remove montanhas...
Marisa: Já foram tiradas todas, Mônica. Agora grandes são os desertos, minha alma, grandes são os desertos. (OLHA AS POESIAS) Vendendo essas roupas todos os dias... mulheres se embelezando para suas paixões... mulheres se reconstruindo na fossa... vestidas por poesias de sonhadoras...
Mônica: (AOS MANEQUINS) E muda, a assistência desfila magra e sedutora...
Marisa: E seus corpos perfeitos... também, não bebem, não fumam, não amam e não trepam...
Mônica: Um emprego e tanto. Beleza 24 horas por dia.
Marisa: As modas passam... e eles ficam.
Mônica: Mas não têm ninguém... por que que iriam se preocupar? Ó só essas pernas... vê as minhas... (SEGURA AS PERNAS DO MANEQUIM) tem gente que acha finas, outros acham grossas, uns dizem que sou leve, outros que sou muito terra... as pernas deles são as pernas deles. Ó os braços. Vê os meus. Dizia o Marcelo que tanto o apertavam... tanto o queriam para eles...
marisa pega uma jaqueta de um dos manequins e sai dançando pela loja.
Marisa: "All of me... why not take all of me... can't you see... I'm no good without you... take my lips... I want to lose them... take my arms... I never use them..."
Marisa continua dançanndo e cantando pela loja. mônica suspira abraçada a um manequim. murmura.
Mônica: ... Marcelo...
olha para o lado e, ao ver o manequim olhando para ela, vira-lhe o rosto. marisa pára de cantar. vai para próximo da amiga.
Marisa: Esquece, Mônica. Esta noite estamos ricas. Vamos nos alegrar fazendo todas as compras que queremos...
mônica olha para as roupas no chão.
Mônica: Não gostei de nenhuma dessas roupas... (OLHA OS MANEQUINS) Não gostei desses manequins... não gostei do garoto no bar... eu sinto falta do Marcelo...
marisa, que observava piedosa, abraça a amiga, que começa a chorar.
Mônica: Sempre falei tanto do Marcelo com aquele lenga-lenga da esposa e eu aqui não sei nem decidir que roupa levar...
Marisa: Se as pessoas realmente soubessem o que querem, Mônica, minha profissão não ia existir...
por sobre as imagens dos manequins imóveis, o som de passos. de alguém mexendo na fechadura. as duas meninas olham para a porta assustadas e vêem uma sombra mexendo na fechadura e entrando. com uma arma em punho. correm para o provador para se esconderem. o assaltante vai derrubando os manequins, espalhando as roupas. passa bem perto delas, que se encolhem assustadas dentro da cabine de provas. o assaltante vê as poesias da vendedora e as joga fora. Remexe mais nas gavetas. encontra corações flechados desenhados. também joga fora. por último, vê dinheiro. de sua sombra, vê-se apenas o brilho do sorriso. ele embolsa o dinheiro e vai embora. as amigas, assustadas, depois que ele saiu, também saem do provador e fogem.
cena iv
ruas/noite
mônica/marisa/passantes
na calçada, fora da loja, as amigas olham-se uma para a outra e sorriem. começam a rir. gargalham desbragadamente e sentam-se no meio-fio.
Mônica: Por que que só a gente podia estar na fossa hoje?
Marisa: Homem prefere ir logo direto à questão...
Mônica: E acabou que a gente não trouxe nenhuma roupa. Nem de lembrancinha...
enquanto elas falam, ouve-se ao fundo o alarme da loja e vozes gritando ao longe "pega ladrão, pega ladrão", depois sirenes e sons de tiros.
Mônica: Ah, Marisa... valeu, amiga. Tô me sentindo melhor (ABRAÇA-A)
Marisa: O que eu te falei, Mônica... nada como uma visita a uma boa boutique pra animar uma garota...
a câmera vai fazendo zoom-out. as duas amigas riem no meio-fio. continua o som de tiros. pessoas passam correndo, algumas de pijama, curiosas para saberem o que está acontecendo. passa um carro de polícia.
Marisa: Olha que pessoal exagerado...
Mônica: Sabe de uma coisa, Marisa? Você precisa me ensinar a arrombar fechaduras...
fade-out. fim.
setembro 24, 2007
Crônica minha em O Globo de domingo
A Crônica como saiu em O GLOBO
O Texto da Crônica
Não, não vi TROPA DE ELITE. Não por motivos éticos, afinal sempre poderia racionalizar que cinema no Brasil é feito às custas de dinheiro público e todo mundo já recebeu quando as fitas chegam - ou não! - nos cinemas, mas porque, desde que investi uma grana preta numa tevê widescreen, dou preferência a DVDs com ótima imagem. Nem sempre é possível. FACA NA ÁGUA e PLANETA PROIBIDO, por exemplo, tive que baixar, já que ninguém ameaçou até agora lançá-los por aqui. Também não aguentei esperar o longa dos Simpsons no cinema. Descobri que Bukowski não só é ótimo romancista, mas poeta ainda melhor. Não curto muito, mas tenho amigos que assistem a toda a temporada de sua série favorita antes de estrear por aqui. E MP3, então, nem vale a pena mencionar. Ainda não tenho um iPod, mas com certeza já o teria enchido com todos os CDs queimados com músicas guardados em estantes periclitantes lá em casa.
É que sou viciado em arte. Coisa de criação. Muitos pais ficam desgostosos quando vêem que o filho se dá melhor com livros do que com uma bola - e olha que tento até hoje! - mas os meus não tomaram nenhuma providência e logo eu estava num caminho sem volta - frequentando sebos, lendo gibis nos jornaleiros e gravando fitas K7 de discos de amigos. Meu presente de formatura foi um video-cassete e devo ter sido um dos 5 viventes que aprendeu a programar o temível aparelho sem evoluírem até seres de pura energia.
Mas ainda assim o mundo digital me pegou completamente desprevenido. A mim, às gravadoras, editoras e cinemíferas. Foi como o surgimento da pólvora, você não precisava mais enfiar uma espada na barriga de alguém, olho no olho, se sujando todo de sangue. Tudo passou a ser rápido, limpo e à distância, bastando apontar, disparar e esperar. Eu podia estar assaltando ou traficando para sustentar meu vício, mas estou apenas infringindo direitos autorais. Uma invenção recente. Coisa da revolução industrial. Segundo o saudoso João Bethencourt, as peças de Shakespeare são reconstruções de cabeça. Publicar o texto dos espetáculos significava que alguém poderia montá-los sem pagar um tostão. Teatros rivais contratavam sujeitos com boa memória para assistir às encenações e pô-las no papel. Graças a esses piratas hoje o Harold Bloom pode dizer que o velho Bill inventou a humanidade.
E o velho Bill tinha que tomar precauções mesmo, porque vivia dos ingressos. Parcamente. Artista rico só foi aparecer quando os irmãos Lumiére começaram a contar a verdade a 24 quadros por segundo e Edison girou um cilindro sob uma agulha. Até então ninguém seguia carreira artística por grana. Segundo os GÊNIOS DA PINTURA e VIDAS CÉLEBRES que eu lia quando moleque, esse povo morria tudo de tuberculose, era incompreendido pelos contemporâneos, tinha paixões não correspondidas e infelicidade geral. Raramente conseguiam uns trocados para uma existência decente e ainda assim tinham problemas familiares, com o álcool, com as autoridades...
Mas tudo isso mudou quando o cinema e o disco multiplicaram exponencialmente o público. Tudo bem, já tinha Gutenberg e a imprensa, mas quanta gente alfabetizada e com dinheiro para uma biblioteca existia antes da Segunda Revolução Industrial? Com essas novas tecnologias surgiram os astros - ricos, bonitos e famosos - e, quando Elvis rebolou aqueles quadris, foi a vez do superstar. É esse estilo milionário de vida de artista que está em risco com a pirataria digital. Ou não. Na verdade, nós não os idolatramos pelas suas obras. Ou pelo seu talento. A cultura pop, a grande ameaçada, não vive disso. Vive da atitude.
Muita gente era melhor do que Elvis, mas foi ele que virou o ícone. O mesmo de Marilyn. Ou muitos outros. Sua beleza, seu talento, mais do que sua obra, nos fizeram dar-lhes procuração para viver e simbolizar a vida que não podemos ou não conseguimos ter. Antes da cultura de massa, os valores eram outros, e artistas encarnavam profetas com uma visão coerente e desdém pelos valores materialistas da sociedade. Daí a tuberculose. O público mudou, os valores mudaram e o desdém agora é só pela sociedade, mas não pelo materialismo. Nós QUEREMOS que eles sejam ricos para projetarmos nossos sonhos, como já quisemos que fossem mártires miseráveis. E assim, que remédio, eles são ricos. Os conceitos de "Top Model" e "Big Brother" já pularam até a etapa da obra artística. Tudo bem, continua sendo uma vida difícil, cheia de álcool, drogas e relacionamentos vazios, mas pelo menos também cheia de grana, mansões e limusines.
Quanto à arte, vai ter sempre gente produzindo. Alguns anos atrás, eu explicava a um amigo que teria que ficar dias e dias enfunado em casa escrevendo uma peça sobre um assunto que não gostava, num estilo que não gostava, me matando para ganhar 500 reais. "Eu jamais escreveria uma peça por 500 reais", disse ele. "É porque você não é escritor", retruquei. Se você precisa saber por que escreve, não é escritor, já dizia um André desses, não me lembro se o Gide ou Malraux.
Mas tudo isso é racionalização. Pirataria é crime. É que nem gente que consome drogas e fica fazendo elocubrações para justificar-se. Não adianta. É contra a lei e ainda financia o crime organizado. Mais cedo ou mais tarde, vai ser que nem a Lei Seca, vai ter que liberar geral. Mas até lá é ilegal. O resto é desobediência civil. Essas coisas de artistas e profetas. Mas chega. Acabei de baixar MÓRBIDA CURIOSIDADE e pela primeira vez vou ver em seu aspecto original widescreen.
Espero que dê onda.
É que sou viciado em arte. Coisa de criação. Muitos pais ficam desgostosos quando vêem que o filho se dá melhor com livros do que com uma bola - e olha que tento até hoje! - mas os meus não tomaram nenhuma providência e logo eu estava num caminho sem volta - frequentando sebos, lendo gibis nos jornaleiros e gravando fitas K7 de discos de amigos. Meu presente de formatura foi um video-cassete e devo ter sido um dos 5 viventes que aprendeu a programar o temível aparelho sem evoluírem até seres de pura energia.
Mas ainda assim o mundo digital me pegou completamente desprevenido. A mim, às gravadoras, editoras e cinemíferas. Foi como o surgimento da pólvora, você não precisava mais enfiar uma espada na barriga de alguém, olho no olho, se sujando todo de sangue. Tudo passou a ser rápido, limpo e à distância, bastando apontar, disparar e esperar. Eu podia estar assaltando ou traficando para sustentar meu vício, mas estou apenas infringindo direitos autorais. Uma invenção recente. Coisa da revolução industrial. Segundo o saudoso João Bethencourt, as peças de Shakespeare são reconstruções de cabeça. Publicar o texto dos espetáculos significava que alguém poderia montá-los sem pagar um tostão. Teatros rivais contratavam sujeitos com boa memória para assistir às encenações e pô-las no papel. Graças a esses piratas hoje o Harold Bloom pode dizer que o velho Bill inventou a humanidade.
E o velho Bill tinha que tomar precauções mesmo, porque vivia dos ingressos. Parcamente. Artista rico só foi aparecer quando os irmãos Lumiére começaram a contar a verdade a 24 quadros por segundo e Edison girou um cilindro sob uma agulha. Até então ninguém seguia carreira artística por grana. Segundo os GÊNIOS DA PINTURA e VIDAS CÉLEBRES que eu lia quando moleque, esse povo morria tudo de tuberculose, era incompreendido pelos contemporâneos, tinha paixões não correspondidas e infelicidade geral. Raramente conseguiam uns trocados para uma existência decente e ainda assim tinham problemas familiares, com o álcool, com as autoridades...
Mas tudo isso mudou quando o cinema e o disco multiplicaram exponencialmente o público. Tudo bem, já tinha Gutenberg e a imprensa, mas quanta gente alfabetizada e com dinheiro para uma biblioteca existia antes da Segunda Revolução Industrial? Com essas novas tecnologias surgiram os astros - ricos, bonitos e famosos - e, quando Elvis rebolou aqueles quadris, foi a vez do superstar. É esse estilo milionário de vida de artista que está em risco com a pirataria digital. Ou não. Na verdade, nós não os idolatramos pelas suas obras. Ou pelo seu talento. A cultura pop, a grande ameaçada, não vive disso. Vive da atitude.
Muita gente era melhor do que Elvis, mas foi ele que virou o ícone. O mesmo de Marilyn. Ou muitos outros. Sua beleza, seu talento, mais do que sua obra, nos fizeram dar-lhes procuração para viver e simbolizar a vida que não podemos ou não conseguimos ter. Antes da cultura de massa, os valores eram outros, e artistas encarnavam profetas com uma visão coerente e desdém pelos valores materialistas da sociedade. Daí a tuberculose. O público mudou, os valores mudaram e o desdém agora é só pela sociedade, mas não pelo materialismo. Nós QUEREMOS que eles sejam ricos para projetarmos nossos sonhos, como já quisemos que fossem mártires miseráveis. E assim, que remédio, eles são ricos. Os conceitos de "Top Model" e "Big Brother" já pularam até a etapa da obra artística. Tudo bem, continua sendo uma vida difícil, cheia de álcool, drogas e relacionamentos vazios, mas pelo menos também cheia de grana, mansões e limusines.
Quanto à arte, vai ter sempre gente produzindo. Alguns anos atrás, eu explicava a um amigo que teria que ficar dias e dias enfunado em casa escrevendo uma peça sobre um assunto que não gostava, num estilo que não gostava, me matando para ganhar 500 reais. "Eu jamais escreveria uma peça por 500 reais", disse ele. "É porque você não é escritor", retruquei. Se você precisa saber por que escreve, não é escritor, já dizia um André desses, não me lembro se o Gide ou Malraux.
Mas tudo isso é racionalização. Pirataria é crime. É que nem gente que consome drogas e fica fazendo elocubrações para justificar-se. Não adianta. É contra a lei e ainda financia o crime organizado. Mais cedo ou mais tarde, vai ser que nem a Lei Seca, vai ter que liberar geral. Mas até lá é ilegal. O resto é desobediência civil. Essas coisas de artistas e profetas. Mas chega. Acabei de baixar MÓRBIDA CURIOSIDADE e pela primeira vez vou ver em seu aspecto original widescreen.
Espero que dê onda.
setembro 06, 2007
Por que a defesa dos Colts melhorou tanto?
Porque um dos 4 titulares que saíram está no Saints e nas costas dele já foram anotados 3 touchdowns. Jason David não vai deixar saudade em Indianapolis.
Jogada có-co-có-cococó-estou com medo
Começo do último quarto, 27 a 10 para os Colts, cujo ataque está demolindo a defesa, na terceira descida você fica a meia jarda de nova série e... você vai pro punt? Ou seja, você não confia no seu ataque pra ganhar meia jarda? Não é melhor mandar os reservas entrarem logo?
Resultado do punt: em cinco snaps os Colts fazem 34 a 10.
Mesmo quem achava que os Colts estavam tão bem ou melhor do que no ano passado previa um jogo 34 a 30, 30 a 27... ninguém, absolutamente ninguém tivesse idéia de que o ataque demoliria completamente a oposição e a defesa paralisaria Drew Brees, uma das maiores sensações da temporada passada. Joseph Addai cumpre a previsão de um comentarista que disse que ele, como titular, mostraria que Edgerrin James é mais do que passado. Mesmo levando em conta que o medo do passe (o TD que saiu agora foi de 50 jardas) do Manning faz as defesas adversárias darem espaço pros corredores (e foi assim que teve gente que começou a achar que Dominic Rhodes era craque ano passado), Addai tá mostrando que tem bola...
Que surra.
Resultado do punt: em cinco snaps os Colts fazem 34 a 10.
Mesmo quem achava que os Colts estavam tão bem ou melhor do que no ano passado previa um jogo 34 a 30, 30 a 27... ninguém, absolutamente ninguém tivesse idéia de que o ataque demoliria completamente a oposição e a defesa paralisaria Drew Brees, uma das maiores sensações da temporada passada. Joseph Addai cumpre a previsão de um comentarista que disse que ele, como titular, mostraria que Edgerrin James é mais do que passado. Mesmo levando em conta que o medo do passe (o TD que saiu agora foi de 50 jardas) do Manning faz as defesas adversárias darem espaço pros corredores (e foi assim que teve gente que começou a achar que Dominic Rhodes era craque ano passado), Addai tá mostrando que tem bola...
Que surra.
Recomeça a NFL
Peyton Manning, o maior quarterback da atualidade, enfrenta Drews Brees, o melhor comandante da conferência nacional. Estamos no meio do terceiro quarto. Pete Prisco havia comentado em sua coluna que a perda de 4 titulares da defesa dos Colts na verdade só a tinha melhorado, com uma agarrada muito superior. E não é que é verdade? Nenhum TD ofensivo dos Saints até agora. Só um field goal. E, se não fosse pelo apagão momentâneo, provaelmente psicológico, depois do fumble pra touchdown, ia estar sendo um massacre. Antes e depois do Wayne soltar a bola, a defesa está firme, tanto por cima como por baixo e o ataque está tão bem quanto em suas melhores apresentações nos últimos anos - corridas de muitas jardas, passes rápidos, passes longos, o bicho. Pete Prisco estava certo.
setembro 05, 2007
Domingo eu não vou ao Maracanã, vou no jornaleiro comprar O GLOBO
Para ler minha crônica que vai sair lá.
setembro 01, 2007
Meus Poemas Favoritos: Eu Não Sei Se Você Está Vivo ou Morto
Anna Akhmatova, poetisa russa da época da Revolução e depois perseguida por Stalin por ser "burguesa". Seu primeiro marido foi executado e seu filho passou a maior parte da infância nos gulags. Obviamente eu não sei russo (1), portanto a versão aqui abaixo é de uma livre tradução minha em cima de uma tradução para o inglês, ou seja, deve ter sobrado muito pouco do poema original. De qualquer forma, a versão anglófona está aí também:
Eu não sei se você está vivo ou morto
Será que você ainda é procurado sobre a terra
ou apenas quando o crepúsculo se esvai
serenamente lamentado em meus pensamentos?
Tudo é para você: a oração diária
O desejo nas noites insones
O alvo floco dos meus versos
O fogo azul de meus olhos
Ninguém foi mais estimado
Ninguém me torturou mais
Nem mesmo aquele que me traiu para meus torturadores
Nem mesmo aquele que me acariciou e esqueceu
I don't know if you're alive or dead.
Can you on earth be sought,
Or only when the sunsets fade
Be mourned serenely in my thought?
All is for you: the daily prayer,
The sleepless heat at night,
And of my verses, the white
Flock, and of my eyes, the blue fire.
No-one was more cherished, no-one tortured
Me more, not
Even the one who betrayed me to torture,
Not even the one who caressed me and forgot.
(1) Quando eu li pela primeira vez Dostoievski, OS IRMÃOS KARAMAZOV, vi que a tradução era da Rachel de Queiroz e fiquei estupefato, "caralho! A Rachel de Queiroz sabia até russo". Somente quando há alguns anos lançaram a primeira tradução do Velho Dosta direto de sua língua pátria é que soube que a nossa primeira acadêmica havia trabalhado em cima da tradução para o francês - segunda língua russa no século XIX.
Eu não sei se você está vivo ou morto
Será que você ainda é procurado sobre a terra
ou apenas quando o crepúsculo se esvai
serenamente lamentado em meus pensamentos?
Tudo é para você: a oração diária
O desejo nas noites insones
O alvo floco dos meus versos
O fogo azul de meus olhos
Ninguém foi mais estimado
Ninguém me torturou mais
Nem mesmo aquele que me traiu para meus torturadores
Nem mesmo aquele que me acariciou e esqueceu
I don't know if you're alive or dead.
Can you on earth be sought,
Or only when the sunsets fade
Be mourned serenely in my thought?
All is for you: the daily prayer,
The sleepless heat at night,
And of my verses, the white
Flock, and of my eyes, the blue fire.
No-one was more cherished, no-one tortured
Me more, not
Even the one who betrayed me to torture,
Not even the one who caressed me and forgot.
(1) Quando eu li pela primeira vez Dostoievski, OS IRMÃOS KARAMAZOV, vi que a tradução era da Rachel de Queiroz e fiquei estupefato, "caralho! A Rachel de Queiroz sabia até russo". Somente quando há alguns anos lançaram a primeira tradução do Velho Dosta direto de sua língua pátria é que soube que a nossa primeira acadêmica havia trabalhado em cima da tradução para o francês - segunda língua russa no século XIX.
agosto 30, 2007
Mais sobre matérias de O GLOBO
A coluna hoje do CONTROLE REMOTO no Segundo Caderno tem um editorial (???) dizendo que a tevê brasileira não produz obras-primas como ROMA (???) ou OS SOPRANOS (???) porque não pode tratar de assuntos como homossexualismo e violência.
Ainda esta semana, na coluna do genial comentarista de futebol americano .Gregg Easterbrook (clique, vale a pena, ele não fala só de futebol americana, fala de astrofísica, mulher pelada, ficção científica, história em quadrinhos, aviões a jato, o que lhe der na telha), ele justamente se indagava se as pessoas viam OS SOPRANOS pelo conteúdo de "soap opera" ou pelos peitinhos e assassinatos, considerando que bons só os primeiros episódios, com a premissa de um chefe da máfia tão cansado de assassinatos e violência que procurava uma analista.
Mas isso não vem ao caso, as séries que a mulher quer comparar com as novelas que a Globo passa às nove da noite são séries da HBO, uma tevê a cabo que nem faz parte dos pacotes básicos. Quem a compra sabe o que está fazendo e tem mecanismos no decodificador para gerar uma senha e tornar inassistíveis programas com certas classificações etárias - sim, eles TÊM classificação etária até em tevês a cabo. Tanto que OS SOPRANOS, ROMA e A SETE PALMOS todas TAMBÉM passam na tevê a cabo brasileira. Vi as duas temporadas de Roma e, apesar de bem escrita e tal, nada mais é que uma DALLAS com personagens históricos, muito mais peitinhos (e até uma ou outra boceta) e muito mais violência (com duelos de espada mal coreografados). A
HBO produz essas séries pra passar no seu canal fechado e se garante com o que cobra de patrocínio e vendas de DVDs. Nem ao menos passa comerciais (Embora o faça internacionalmente. Na Américao do Sul, por exemplo, o único país a exibir publicidade nos intervalos é o Brasil). Tal projeto é impensável pra Globo, que até pra fazer filmes sobre programas seus, usando atores da casa, roteiristas da casa e equipamento da casa, pedem patrocínio público. Na tevê aberta americana, o que passa são ER, CSI e sitcoms. Lá nas grandes redes nem peitinho tem, coisa que no Brasil está liberada desde o final dos anos 70 (anúncio do Sabonete Vale Quanto Pesa, 1979).
ROMA e, talvez (porque nunca vi, não sou de assistir telesséries) OS SOPRANOS e A SETE PALMOS são melhores do que as novelas brasileiras porque têm escritores melhores - os americanos são mais escolarizados e têm muito mais mercado de trabalho, o que garante uma disponibilidade maior de roteiristas de qualidade. E também porque não têm o formato de telenovela.
Filmar uma novela diária de 200 capítulos pode soar uma operação de guerra, mas barateia os custos. O uso dos mesmos cenários por meses a fio diminui o preço por episódio. Mostrando sempre os mesmos atores nos mesmos lugares, dá pra organizar a filmagem de modo a economizar tempo de estúdio. O uso de personagens já conhecidos do público há semanas facilita o trabalho do roteirista, que também não precisa se preocupar em fechar dramaticamente cada capítulo, ou ser sucinto, já que tempo é o que não falta. O preço que se paga é a falta de identidade visual e de qualidade na escrita. ROMA teve 22 capítulos. Cada temporada estreou já completamente escrita, com personagens coerentes e trama coesa e concisa. Mas esse formato é caro e não interessa a eles.
A queda da popularidade das telenovelas é firme e contínua. O formato está ultrapassado, não o conteúdo. Não adianta introduzir assuntos como homossexualismo, drogas e violência se as tramas continuarem conservadoras, vai parecer uma história em quadrinhos de super-herói da DC. A esperança talvez seja de que peitinhos e assassinatos atraiam homens e principalmente adolescentes. Não sou especialista, mas a impressão que tenho é de que novela é que nem jogo do bicho - vem caindo em popularidade e, principalmente, é coisa de gente mais velha, não vem formando novo público. Daí a esperança na carne - tripas e pele - para salvarem o ibope. Acho pouco provável. As redes abertas americanas praticamente desistiram da sitcom tradicional. É um formato ultrapassado. Estes são tempos de mudança. Internet, DVD barato e tevê paga em quantidade mudaram o gosto do público. E com a tevê em alta definição, mais mudanças virão. É preciso se adaptar, e não vai ser mais violência e peitinhos que trarão as crianças de volta
Ainda esta semana, na coluna do genial comentarista de futebol americano .Gregg Easterbrook (clique, vale a pena, ele não fala só de futebol americana, fala de astrofísica, mulher pelada, ficção científica, história em quadrinhos, aviões a jato, o que lhe der na telha), ele justamente se indagava se as pessoas viam OS SOPRANOS pelo conteúdo de "soap opera" ou pelos peitinhos e assassinatos, considerando que bons só os primeiros episódios, com a premissa de um chefe da máfia tão cansado de assassinatos e violência que procurava uma analista.
Mas isso não vem ao caso, as séries que a mulher quer comparar com as novelas que a Globo passa às nove da noite são séries da HBO, uma tevê a cabo que nem faz parte dos pacotes básicos. Quem a compra sabe o que está fazendo e tem mecanismos no decodificador para gerar uma senha e tornar inassistíveis programas com certas classificações etárias - sim, eles TÊM classificação etária até em tevês a cabo. Tanto que OS SOPRANOS, ROMA e A SETE PALMOS todas TAMBÉM passam na tevê a cabo brasileira. Vi as duas temporadas de Roma e, apesar de bem escrita e tal, nada mais é que uma DALLAS com personagens históricos, muito mais peitinhos (e até uma ou outra boceta) e muito mais violência (com duelos de espada mal coreografados). A
HBO produz essas séries pra passar no seu canal fechado e se garante com o que cobra de patrocínio e vendas de DVDs. Nem ao menos passa comerciais (Embora o faça internacionalmente. Na Américao do Sul, por exemplo, o único país a exibir publicidade nos intervalos é o Brasil). Tal projeto é impensável pra Globo, que até pra fazer filmes sobre programas seus, usando atores da casa, roteiristas da casa e equipamento da casa, pedem patrocínio público. Na tevê aberta americana, o que passa são ER, CSI e sitcoms. Lá nas grandes redes nem peitinho tem, coisa que no Brasil está liberada desde o final dos anos 70 (anúncio do Sabonete Vale Quanto Pesa, 1979).
ROMA e, talvez (porque nunca vi, não sou de assistir telesséries) OS SOPRANOS e A SETE PALMOS são melhores do que as novelas brasileiras porque têm escritores melhores - os americanos são mais escolarizados e têm muito mais mercado de trabalho, o que garante uma disponibilidade maior de roteiristas de qualidade. E também porque não têm o formato de telenovela.
Filmar uma novela diária de 200 capítulos pode soar uma operação de guerra, mas barateia os custos. O uso dos mesmos cenários por meses a fio diminui o preço por episódio. Mostrando sempre os mesmos atores nos mesmos lugares, dá pra organizar a filmagem de modo a economizar tempo de estúdio. O uso de personagens já conhecidos do público há semanas facilita o trabalho do roteirista, que também não precisa se preocupar em fechar dramaticamente cada capítulo, ou ser sucinto, já que tempo é o que não falta. O preço que se paga é a falta de identidade visual e de qualidade na escrita. ROMA teve 22 capítulos. Cada temporada estreou já completamente escrita, com personagens coerentes e trama coesa e concisa. Mas esse formato é caro e não interessa a eles.
A queda da popularidade das telenovelas é firme e contínua. O formato está ultrapassado, não o conteúdo. Não adianta introduzir assuntos como homossexualismo, drogas e violência se as tramas continuarem conservadoras, vai parecer uma história em quadrinhos de super-herói da DC. A esperança talvez seja de que peitinhos e assassinatos atraiam homens e principalmente adolescentes. Não sou especialista, mas a impressão que tenho é de que novela é que nem jogo do bicho - vem caindo em popularidade e, principalmente, é coisa de gente mais velha, não vem formando novo público. Daí a esperança na carne - tripas e pele - para salvarem o ibope. Acho pouco provável. As redes abertas americanas praticamente desistiram da sitcom tradicional. É um formato ultrapassado. Estes são tempos de mudança. Internet, DVD barato e tevê paga em quantidade mudaram o gosto do público. E com a tevê em alta definição, mais mudanças virão. É preciso se adaptar, e não vai ser mais violência e peitinhos que trarão as crianças de volta
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