fevereiro 17, 2008

Poema de Diane di Prima

PESADELO 5

Ban Ban Ban
Quem é perguntei
A pessoa diz que veio desligar o gás
Desculpe disse mas estou na cama volte mais tarde por favor
Eu espero disse ele
Está bom disse e lhe dou 57 horas e 40 minutos para desistir. Saio então, apressadamente, em direção ao banheiro

Olá diz ele
Olá digo

Desculpe ser obrigado a desligar o relógio diz ele. Tenho que ganhar a vida diz ele. Tenho uma família
Eu sei disse é sempre o que vocês dizem e vão em frente. Quando você sair vou arrancar esse maldito selo

Não vai conseguir disse ele agora é feito de uma nova liga. Gastaram 30 milhões de dólares para fazer essa liga. Não há jeito de arrancar diz ele
Está bem disse faça seu serviço e vá pra casa. Vou ao banheiro

Eu fui, ele fez, foi embora, subi numa cadeira. E tentei cortar o selo martelo formão tentei de novo escorregou quebrei as unhas tentei tentei cortar tentei. Sopa para cozinhar

Doze horas depois fui ao farmacêutico. Olá disse tenho uma conta a pagar de uns comprimidos de benzedrina dê-me um vidrinho de ácido fluorídrico

Olha disse ele não sei se posso. Comprimidos é uma coisa disse ele mas esse negócio de ácido é outra coisa

Seja bonzinho disse preciso fazer a comida e eles selaram o relógio do gás você sabe comida você entende

Está bem disse ele mas cuidado

Pingo

Buraco também na mesa no chão talvez no andar de baixo não sei mas buraco no selo também lata de sopa aberta. Oba

Mas vejam só não tenho fósforo uma piada o gás ligado e não tenho fósforos não faz mal.

Gás não falta mas não tenho apetite

Sob o Signo de Peixes


Quarta-feira dia 20 é meu aniversário. Dia 22 tem festa na casa do Glauber - Álvaro Ramos 535/202.

(Foto de Henrique Koifman)

Fatalismo na Rua da Passagem

fevereiro 10, 2008

Concurso de Fantasias de Automóvel - 1971



Do siteCarioca da Gema

Copacabana e Bairro Peixoto nos anos 30


Acredite se quiser.

Cláudia Belém e David França estão amando


E aí, Cláudia, quem mandou dizer que frequentava o blog?

Guantanamera!!!!!

Velho esquete besteirol de 1992.

Uma mesa de bar. Um homem e uma mulher sentam-se nela. A Garçonete chega para atendê-los.

garçonete
Desejam alguma coisa para beber?

abelardo
Um gim-tônica, por favor.

garçonete
Infelizmente, nosso perfume acabou. Não deseja outra coisa?

abelardo
A gente pensa depois... o que tem para se comer?

garçonete
Sanduíche de mortadela.

abelardo
Sanduíche de mortadela? Como assim? O que tem de prato?

garçonete
Nada. No momento só temos sanduíche de mortadela.

abelardo
Mas como um restaurante pode só ter sanduíche de mortadela? Isso é um absurdo!

Garçonete
(PENSANDO QUE ELE ESTÁ SE REFERINDO À COMIDA E BEBIDA) Desculpe, mas, sabe, né, o senhor tem que compreender, nós temos passado por alguns problemas... nosso cozinheiro descobriu que o barman era na realidade João Alberto, o irmão de quem ele tinha sido separado na infância pela madrasta que estava de olho na herança que Jonas Ricardo ia deixar para Lucilene e aí os capangas de Renato Albuquerque sequestraram o infeliz e o levaram para a madame Márcia Alvarenga e desde então ele perdeu sua mão para temperos...

O homem e a mulher ficam olhando incrédulos para a garçonete

florisbela
A cozinha desse restaurante é sempre tão animada assim?

garçonete
O que vocês queriam de um restaurante mexicano?

florisbela
Oh!

Entra o dono do bar

Diego dolanogo
(ENCOLERIZADO) O que você está fazendo aí, Lupe Esmeralda? Conversando com os fregueses novamente?

garçonete
(AJOELHANDO-SE FRENTE A ELE) Não, Dom diego Dolanogo, eu estava apenas anotando o pedido deles! Juro pela alma da minha avó que morreu de tristeza ao saber que seu marido havia sido morto em combate quando as tropas de Emiliano Zapata atacaram o Palácio Presidencial!

diego Dolanogo
É mentira! Não vi você anotando nada em seu bloco! Lembre-se que está aqui apenas para me proporcionar lucro! Você não é nada, é apenas uma reles garçonete que nunca chegará a lugar algum! Anote imediatamente os pedidos ou eu a porei no olho da rua!

garçonete
Não, dom Diego Dolanogo, não! Se o senhor me puser no olho da rua, não terei como sustentar minha mãe, meus sete irmãos e meu padrinho de crisma que esperam há anos em vão pelo meu pai, que se juntou às tropas de Hugo Sanchéz e foi dado como desaparecido, mas que ela jura que está vivo e que a visitou numa noite, há muitos anos atrás, depois de seu desaparecimento!

diego Dolanogo
Então nunca se esqueça que você está aqui para trabalhar! Vamos, anote logo os pedidos... (TOM - INSINUANTE) e depois, apareça no meu escritório... se você for boazinha comigo... talvez até eu lhe dê um bônus... um dinheirinho extra para você levar para sua família... (SAI, RINDO PARA DENTRO)

garçonete
Oh! Um bônus! Que felicidade! Carmem Maura poderia até pagar sua operação para a correção do hipotálamo e voltar a andar... quem sabe até volte ao time de triatlo do colégio... e Pedro Rubiño poderia pagar sua matrícula na Escola de Pintura... oh! E tudo que eu tenho a fazer é ser boazinha com ele! Oh! (VAI SAINDO, MAS DE REPENTE PÁRA) O que será que ele quis dizer com isso? (SAI)

florisbela
Que lugar estranho, Abelardo...

abelardo
Até que nem tanto... Lembra do restaurante japonês que fomos outro dia e quando reclamamos que o sushi estava ruim, o cozinheiro veio até nossa mesa, gritou "estou desonrado" e começou a fazer hara-kiri?

florisbela
É... e o pior foi que por não ter faca, ele teve que abrir a barriga com os dois palitos...

abelardo
(PEGANDO AS MÃOS DELA, ROMÂNTICO) Florisbela... eu... eu a trouxe aqui... porque queria lhe pedir uma coisa...

florisbela
O quê, Abelardo?

abelardo
Eu... eu...

Entram dois mariachis, só que fantasiados de feijão e vestidos com roupa de aeróbica, cantando guantanamera. Abelardo e florisbela ficam olhando surpresos. A garçonete volta.

garçonete
E então? Já decidiram seus pedidos? Vão querer sanduíche de mortadela?

abelardo
O que é isto?

garçonete
Nossos Mariachis.

florisbela
Mas eles são feijões!

garçonete
Dom Diego Dolanogo é um homem muito parcimonioso com despesas... como um restaurante mexicano tem que ter mariachis e feijões saltitantes, ele resolveu contratar logo feijões saltitantes que fossem mariachis.

abelardo
E por que essa roupa de ginástica?

garçonete
Ah, é que como temos muitos fregueses publicitários moderninhos, ele achou que em vez de feijões saltitantes, seria melhor ter feijões aeróbicos...

feijões
Guantanamera... larila, Guantanamera... Guantanameeeeeera! Larila Guantanameeera!

garçonete
E então? Vão querer os sanduíches de mortadela?

abelardo
(ATÔNITO) Depois... depois...

garçonete
Está bem... (SAI)

Os feijões permanecem cantando guantanamera. Abelardo pega novamente na mão de florisbela.

abelardo
Florisbela... eu... eu... queria pedir sua mão em casamento!

florisbela
Oh! Abelardo! Mesmo sabendo que eu sou prima-irmã de Madame Márcia Alvarenga? E que nossas famílias não nos apoiarão nesse plano insano?

abelardo
Tudo por você, Florisbela... tudo!

florisbela
Eu... eu... eu preciso pensar, Abelardo... por favor... eu... eu vou ao banheiro... preciso de um pouco de ar... (LEVANTA-SE E VAI AO BANHEIRO)

UM DOS FEIJÕES PARA DE TOCAR E SENTA-SE À MESA COM ABELARDO. O outro continua com guantanamera.

FEIJÃO 1
É muito bom ter uma mulher que o ame...

abelardo
(ALGO ATÔNITO) Sim... sem dúvida...

feijão 1
Minha vida sempre foi a música... mas não tinha dinheiro para pagar a Escola de Música... então tive que ganhar a vida tocando em bares... e estudar sozinho, sonhando em um dia poder tocar na Orquestra Sinfônica Nacional... e nos bares, ninguém nunca prestava atenção em minha música... em alguns deles, nos sábados, eu tinha que ficar precavido e atento a tudo... pois era o dia da feijoada completa... e depois, voltava para casa e estudava... nunca tive tempo para o amor... até conhecer Maria...

abelardo
Maria?

feijão 1
Sim... Maria... uma das minhas alunas de música... cantora lírica... eu a amava, Deus, como a amava... até compus uma sinfonia para ela... mas meu irmão gêmeo descobriu tudo... seduziu Maria e roubou minha sinfonia... e ainda desfigurou meu rosto com ácido!
abelardo
Com... ácido?

feijão 1
Sim... isto é apenas uma máscara! (TIRA A MÁSCARA E MOSTRA SUAS FEIÇÕES DE FEIJÃO DESFIGURADO PARA ABELARDO)

abelardo
Oh!

feijão 1
Sim... esta é minha vida... de dia toco aqui, e, à noite, rondo pelos bastidores da Ópera onde minha sinfonia vai ser executada... eles querem dar o papel da solista para Zupe Barrios, mas vou fazê-la sofrer um acidente, e Maria, que é uma das coristas, terá o papel principal... ela merece... pode ter cedido ao meu irmão gêmeo, mas posso perdoá-la... ele é muito sedutor... ela merece tudo... e eu... nem sequer tenho um rosto para beijá-la (PÕE AS MÃOS NO ROSTO DESFIGURADO E CHORA)

florisbela volta do banheiro, em lágrimas.

abelardo
(VENDO FLORISBELA) E então, meu amor? Já decidiu?

florisbela
Abelardo... eu... eu... (CHORA) Perdi minha virtude!

abelardo
Isso é o de menos, Florisbela... pior seria se perdesse o cabaço...

florisbela
Você não entendeu, Abelardo... isso é uma metáfora!

abelardo
Metáfora? Metáfora? Quer dizer que Gerald Thomas está envolvido nisso?

florisbela
(CHORANDO) Não... era um Feijão... muito parecido com esse, se não fosse desfigurado... ele foi tão gentil e solícito pegando para mim a toalha de papel... quando dei por mim... já havia acontecido!

feijão 1
Meu irmão gêmeo! Preciso pegá-lo! (SAI, CORRENDO) Finalmente o farei pagar por tudo!

abelardo
Querida, do jeito que você está falando parece até que perdeu seu hímem...

florisbela
Mas foi, Abelardo! Perdi minha virgindade! Minha pureza!

abelardo
Oh! Oh! Oh, oh, oh! Oh, não! Nosso amor tão puro e casto... como pôde traí-lo assim? Como pôde se tornar uma caída?

Entra a garçonete

garçonete
O que aconteceu? Você parece chocado!

abelardo
Minha noiva... é uma caída! Não podemos mais nos casar!

florisbela
(IMPLORANDO À GARÇONETE) Eu não tenho para onde ir! Você sabe de algum lugar onde eu possa ficar?

garçonete
Bem, não posso levar você comigo... a vizinhança começaria logo a falar... mas posso falar com Madame Fifi... ela... (DISCRETA) cuida do andar de cima...

florisbela
É o que eu mereço agora... chame-a!

A garçonete acede e sai enquanto florisbela se senta e fica chorando copiosamente na mesa. entra madame fifi.

madame fifi
Soube que a menina tem um passado... vamos, não fique assim... você tem uma vida pela frente... uma menina bonita como você vai atrair muita atenção...

florisbela
Como uma pecadora como eu pode ter algum atrativo para um homem?

madame fifi
Você é muito inexperiente, menina... o mundo está cheio de casamentos sem amor... cujo fogo da paixão há muito já se apagou... muitos homens saem então de seus lares, em busca do afeto e da ternura que não mais encontram no recôndito doméstico e procuram casas como a minha... a maioria das vezes, apenas para conversar... com uma mulher que os escute, que lhes dê atenção e carinho... para eles, não interessa a vida pregressa dessas moças... eles querem apenas sonhar que têm uma companheira que os apóie em seus momentos de fraqueza, que não podem revelar em casa... (PEGA O ROSTO DE FLORISBELA PELO QUEIXO) Vamos, menina... deixe disso... Madame Fifi cuidará de você... eu lhe ensinarei tudo o que sei... e quem sabe, algum dia, mais experiente, você possa superar tudo isso e lutar por seu amor perdido?

florisbela
(OLHANDO ABELARDO) Isto... eu sei que é um sonho impossível... (LEVANTA-SE) Vamos, Mme. Fifi. Leve-me para minha nova casa...

madame fifi sai, levando florisbela. Abelardo começa a chorar. O mariachi continua tocando. Entra Pérola niegra.

garçonete
(VENDO PÉROLA NIEGRA) Oh! É Pérola Niegra, a antiga proprietária deste restaurante que Dom Diego Dolanogo enganou e levou à ruína.

pérola Niegra
Como vai, Lupe Esmeralda? Onde está seu patrão?

garçonete
Ele... está nos fundos...

pérola niegra
Traga-o. Diga que Pérola Niegra está aqui...(EXIBE UM ENVELOPE) E tem a carta!

A Garçonete sai, preocupada, enquanto pérola niegra espera. Ela vê abelardo.

Pérola Niegra
O que temos aqui, um maricas? Não sabe que homens não devem chorar?

abelardo
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida... e tornou-se o mais triste!

pérola Niegra
E tudo o que você sabe fazer é ficar aí nessa mesa, chorando? Não é à toa que o mundo está perdido! Os poucos homens que ainda têm tutano são os canalhas. Os outros sabem apenas sentar-se numa mesa e chorar. Qualquer decepção e acham que sua vida terminou, que está tudo acabado!

abelardo
Minha noiva... eu ia pedi-la em casamento hoje... mas quando ela foi ao banheiroperdeu a pureza e agora está numa casa de tolerância!



pérola niegra
E daí? Você acha que é o primeiro homem cuja noiva torna-se uma das meninas de Madame Fifi justo quando ia casar com ela? Isto é motivo para você ficar assim? Sua noiva perdeu a pureza, não o braço, a perna ou o intestino! Pior é você, que parece ter perdido todo o tutano. Pense bem, ela gostaria de vê-lo assim? É essa a imagem que você quer que ela tenha de você?

abelardo
Mas... eu queria tanto casar com ela!

pérola niegra
Então, case-se! Você é um homem ou um rato?

Entra Diego dolanogo.

diego dolanogo
Eu disse para que nunca mais pisasse aqui, Pérola Niegra.

pérola niegra
As coisas mudaram, Diego... eu tenho... a carta!

diego dolanogo
E você acha que eu teria medo de uma simples carta?

pérola Niegra
Esta não é uma simples carta, Diego... é uma carta falante!

diego dolanogo
(ASSUSTADO) Uma... uma carta falante?

pérola Niegra
(ENTREGANDO A CARTA PARA DIEGO) Veja você mesmo... se tiver coragem...

diego hesita em pegar a carta, mas a pega e, tremendo, suando, a abre. desdobra-a. Assim que acaba de desdobrá-la, uma voz em off começa a falar. Cada vez que ouve a voz, diego dolanogo treme, assustado.

carta
(OFF) Caro Diego... eu sei de tudo... sei como você sempre desejou Juanita Esmeralda... sei que você era companheiro de regimento do marido dela no exército de Hugo Sanchéz e fugiu covardemente quando ambos poderiam ter tomado o Palácio Presidencial sózinhos... ninguém ficou sabendo e você acabou sendo condecorado por isso... e, assim que deu baixa, disfarçou-se como o desaparecido marido de Juanita Esmeralda... e assim, conseguiu introduzir-se no leito dela, levando-a a crer que fora visitada pelo esposo, o que fez todos pensarem que era louca e encheu sua família de esperança... o que você não sabe, é que aquela noite de amor deu frutos... uma menina, com os olhos (DESCREVE A GARÇONETE)... uma menina, nascida exatamente nove meses depois daquela noite que você jamais esqueceu... uma menina, que para sustentar a família, teve que aceitar um humilde emprego de garçonete... no restaurante de seu pai! Sim, Lupe Esmeralda é sua filha, Diego Dolanogo! Sua filha! A única que você jamais terá, já que uma doença depois o tornou estéril! E você a vem maltratando todos esses anos!

diego dolanogo
Lupe Esmeralda... minha filha? E eu... todos esses anos... alimentando fantasias licenciosas a seu respeito... minha própria filha! Mas não, não era eu que a maltratava! Não, não era! Era aquele jovem covarde... que deixou Pablo Esmeralda morrer em combate... e levou a glória... aquele jovem que, por causa desta mancha em seu passado, nunca pôde revelar seu amor a Juanita Esmeralda... sim, era ele que a maltratava, que projetava nela todas as suas frustrações em relação a sua mãe... agora vejo claramente... estive louco estes anos todos... louco e cego... (A LUPE) Sei que você jamais poderá me perdoar, Lupe, mas acredite... meu arrependimento é sincero... toda minha vida foi um desperdício... Juanita, Juanita... você nunca saberá o quanto a amei... de toda a minha vida, apenas aquela noite pôde justificar minha vinda a este mundo... (VAI SAINDO, LENTAMENTE)

garçonete
Ele... ele é meu pai! Eu tenho um pai! Oh, agora poderemos fazer todas as coisas que pai e filha fazem juntos! Eu sentarei em seu colo e ele fará cavalinho comigo! Ele me levará a peças infantis de qualidade duvidosa e depois de um lanche de comida intragável no Mr. Croquette, levá-lo-ei à loucura conversando com todos os meninos com cara de marginal que encontrarmos no shopping!

Súbito, vindo do canto para onde diego dolanogo saiu, ouve-se um tiro.

GARÇONETE
Papai! (SAI, CORRENDO)

O feijão continua tocando. abelardo continua chorando. Pérola Niegra olha para ele.

PÉROLA NIEGRA
Bem, vou-me embora... já fiz aqui o que tinha que fazer... (PARA ABELARDO) E você, garoto?

abelardo
Deixe-me em paz...

pérola Niegra
Você pode falar isso para mim, garoto... mas não para a Vida! (SAI)

entra madame fifi. Senta-se à mesa de abelardo.


madame fifi
É, é hora de partir. Com Lupe Esmeralda como a nova dona deste restaurante, não haverá mais um "andar de cima". Mas isso não me afeta. Sempre haverá um lugar para as meninas da Madame Fifi. E fico feliz que Lupe Esmeralda não tenha acabado como uma delas...

abelardo
Como Florisbela...

madame fifi
Você sempre poderá visitá-la em minha casa...

abelardo
(PULANDO EM CIMA DELA) Como, como ousa falar assim? Eu a amava, eu a amo, e não posso mais tê-la! Só a teria como esposa, minha esposa, está entendendo? Meu amor, eu sempre guardei apenas para uma mulher, e esta mulher era Florisbela! Florisbela! Se não puder tê-la como esposa, não a terei como uma de suas... (COM NOJO) Meninas! Nem a ela, nem a nenhuma outra mulher! Nunca mais tocarei uma mulher! Florisbela pode ter ido, mas meu amor por ela continua!

Entra o feijão desfigurado, cambaleante.

feijão 1
É justo que morramos juntos, irmão... afinal de contas... sempre fomos como duas imagens num espelho... um espelho distorcido... porém um espelho...

madame fifi
Pois então, o que o impede? Ela também só pensa em você! Passa o tempo todo pensando em você, torcendo para que encontre uma mulher que o mereça e que possa realmente lhe dar uma família! Filhos sadios, saudáveis, sem as doenças com que o passado provavelmente marcou seu corpo! Vamos, deixe disso, case-se com ela!

feijão 1
(CAINDO AO CHÃO) Você pagou por seus crimes, irmão... e eu, pela minha omissão... estamos quites... com nós mesmos e com o Destino... nós, que amávamos a mesma mulher... Você já foi, irmão... agora é minha vez... Maria! Maria! Maria! (MORRE)

abelardo
Mas como posso perdoá-la? Como posso confiar nela depois disso tudo?

madame fifi
Foi um momento de fraqueza! Todos estamos sujeitos a isso! Ela já se arrependeu! E aquele que se aproveitou dela já pagou com a vida por isso! Ela agora sabe que o amor é muito maior e mais importante do que qualquer outra coisa! E você, como pode lhe cobrar algo? Já imaginou que, se tivesse ido ao banheiro com ela, nada disso teria acontecido?
abelardo
Eu... eu... eu não posso... eu não... eu... eu... (CHORA) eu te amo, Florisbela! Eu te perdoaria tudo, se pudesse tê-la de novo em meus braços! A vida sem você não tem sentido! Dane-se o que o mundo pensar! O que importa é que nós nos amamos! Oh, Deus, como nós nos amamos!

madame fifi
O mundo está cheio de ódio e desamor... um amor como o de vocês tem que se realizar... por que diz isso para ela?

abelardo
Depois do que eu lhe fiz, ela jamais me escutaria...

florisbela vem entrando, tímida, vestida como prostituta.

madame fifi
Veja quem está vindo aí. Vamos, fale com ela. Você nunca saberá se não tentar... (SAI)

abelardo
(LEVANTANDO-SE) Florisbela...

florisbela
Abelardo...

os dois se olham durante alguns momentos sem saber o que fazer. Então, subitamente correm ao encontro um do outro e se abraçam.

abelardo
Eu não posso viver sem você, Florisbela, não posso, não posso!

florisbela
Mas... o meu passado!

abelardo
Foi tudo culpa minha, Florisbela... tudo culpa minha... case-se comigo, por favor... esqueçamos tudo isso... por favor, faça de mim o homem mais feliz do mundo!

florisbela
Oh, Abelardo... como poderia lhe negar isso? Sim, sim, eu casarei com você, se é isso que você realmente deseja!

abelardo
Eu te amo, Florisbela, eu te amo!

lupe esmeralda, madame fifi e pérola niegra, que entraram e ficaram no canto durante diálogo, batem palmas, emocionadas. O feijão remanescente continua tocando. Abelardo levanta florisbela, pega-a no colo e a beija. os aplausos sobem. Ele vai levando-a embora.

FLORISBELA
Meu amor...

abelardo
Vamos, querida... um mundo de sonhos nos espera... tenho aqui comigo duas passagens para o nosso cruzeiro de lua-de-mel!

FLORISBELA
Oh, querido, que romântico!

abelardo
Sim... vamos, vamos logo! Nossa lua-de-mel será inesquecível... durante anos, contaremos a nossos netos nosso inolvidável cruzeiro... no TITANIC!

FLORISBELA
Oh, o Titanic! O mais luxuoso navio do mundo! Oh, Abelardo, o que poderia dar errado para nós agora!

Saem. o feijão continua tocando guantanamera. As mulheres que observavam a cena vão saindo. Lupe dá uma paradinha antes de deixar a cena.

garçonete
O Titanic... talvez eu devesse comprar uma passagem para minha mãe também... ela merece... e agora, que tenho este restaurante... ah, tolinha... deixe de invejar a felicidade deles... quantos anos de amor pela frente eles ainda vão ter... (SUSPIRA) Ah! Quem sabe eu não vou no Titanic também..? E encontro um amor? (SAI)

Dezembro de 2007



O povo da escola de samba desce do ônibus em frente à casa Turuna para comprar as fantasias.

Feliz Aniversário, Andréa!

Desfile do Barbas


Vendo o bloco passar.

Incêndio na Casa Cruz



Tudo bem. foi em dezembro, mas nenhum jornal conseguiu foto do fogo. Eu estava passeando de bicicleta por lá.

Bolsas no Camelódromo

Brinquedos de Natal legais


O Bom Velhinho e a Ceifadora.

Grandes Momentos de 2007


Keith Richards declara que, após o enterro do pai, foi para casa e cheirou as cinzas do velho.

Ecos do Carnaval


Glauber, Priscila, Ana Sílvia, Samarone e Panameño no churrasco de peru (Peru do Glauber) na Álvaro Ramos, aquecendo para a saída do Barbas.



O quepe era autêntico - do Exército Vermelho - eu inspecionei. Segundo o garoto, era do avô dele que foi partisan na II Guerra. O quepe voltou, o avô não.

Que Deus sou eu?

E-mail da longa discussão no newsgroup que eu frequento, a Panelinha. Alguns excertos da discussão foram publicados na crônica de Arnaldo Bloch do sábado de carnaval, sob o título "E-Deus". Este foi cortado pelo exagerado tamanho:

Arnaldo, eles só reforçam o ponto de vista do Marquinhos, que começou tudo quando falou que religiões não são baseadas em dogmas, mas em revelações. Dogmas são os sujeitos que vieram depois dos profetas interpretando as palavras do cara.

Nõs vivemos a vida inteira numa sociedade tecnológica e às vezes nem lembramos que não existem "leis naturais", o que existe são inferências feitas por sujeitos a partir de axiomas. Em algum momento você vai ter que fazer uma proposição indemonstrável ou que não pode ser provada para embasar suas teorias. A Lei da gravidade, por exemplo, não rege os movimentos dos planetas - ela parte do princípio que, só porque desde que nos entendemos por gente, os planetas parecem se mover de uma certa forma, eles continuarão se movendo sempre assim. Isso pode parecer óbvio, mas não é necessariamente verdade. O fato de que sempre que você repetiu uma experiência, ela funcionou não é garantia de que ela vá funcionar da próxima. Mas isso é um axioma, que, no fundo, é a palavra que a ciência usa para dogma. A verdade é que a maioria dos cientistas simplesmente não está interessada em filosofia da ciência, mas, como o Marquinhos explicou, a ciência depende da filosofia para se validar. Filosofia e religião estão preocupadas em saber por que existe alguma coisa em vez de nada, enquanto a ciência parece mais interessada em explicar que existe alguma coisa em vez de nada.

Quando o Marcos fala que Deus existe, acho que isso é ponto pacífico. Existe um Universo que veio de nada e existe uma força que diferencia organismos vivos dos inertes. Um corpo morto tem as mesmas partículas que um corpo vivo, mas não está vivo. Alguma coisa o anima. E é uma força poderosa - cientistas costumam dizer que se há condições para a vida ela imediatamente aparece e que ela persiste sob as maiores adversidades. Inclusive a teoria de que bactérias marcianas teriam povoado a Terra é uma tentativa de explicar o surgimento precoce de vida no nosso planeta, já que o tempo que ela levou para aparecer foi muito mais curto do que o provável - o que reforça o fato de que a vida é uma força poderosa e persistente. Isso é "Deus", não um sujeito de barba branca que esculpiu Adão ou um super-Papai Noel que sabe quem foi bom ou mau e vai dar presentes ou não. A grande questão não é a existência dele, mas sua natureza: Deus é senciente? Tem consciência de Si mesmo? Um "não" a qualquer uma dessas perguntas significaria na prática a mesma coisa que se ele não existisse. Se a resposta a essas duas primeiras for "sim", continuam as dúvidas: ele tem ética? Tem um plano para a Criação? E, a que mais interessa às pessoas: ele tem um plano pra mim ou estou irremediavelmente preso neste segmento de tempo? Este é a única história que me cabe? Por que tenho que voltar ao pó? Por que estou preso a esta matéria em decadência se praticamente tudo que importa em minha vida - amor, sucesso, fama, liberdade, até mesmo dinheiro - é abstrato?

A base de todas as grandes religiões é tentar justamente negar sua individualidade e consciência para tentar "entrar em sintonia" com Deus (o Universo, a força vital, chame como você quiser), "presente em todas as coisas", "ele está no meio de nós", para tentar conhecê-la. Agora, imagine você conseguindo, o choque que seria um contacto com uma força ou entidade tão cósmica. Não por coincidência, todas as religiões têm advertências para a visão de Deus - A mãe de Baco que queima ao ver Zeus em toda sua glória, Moisés que só pode vislumbrar a sombra de Deus passando, ou a idéia hindu de que todos os deuses são as máscaras do único Deus, pois nenhum ser humano pode conseguir contemplá-lo face a face. E, depois, imagine os iluminados tentando descrever em palavras a experiência. Não é à toa que eles costumam ser incompreendidos e seus discípulos, sem entender a coisa direito, comecem a inventar histórias de milagres, ressurreições, lutas com demônios, ciclos de reencarnação e afins para vender mais fácil a idéia (associando Deus à figura paterna ou materna, o que basta para a maioria das pessoas). Basta uma olhada para verificar que a verdade nas grandes religiões é sempre parecida, adaptada para a cultura em que surgiu.

Existem diversos problemas filosóficos envolvendo a ciência que eu, que nunca li filosofia, não posso esclarecer a não ser de forma grosseira como no parágrafo acima, mas creio que o Sílvio poderá fazê-lo melhor. Existe o problema dos universais, o fato de que todas as ciências envolvem matemática - um construto abstrato, que a teoria dos conjuntos, base da lógica, contém erros estruturais (o conjunto de todos os conjuntos teria que conter a si mesmo e estar contido em si mesmo ou algo assim) e até o fato de que a nossa percepção de mundo é analógica. Mas já escrevi demais e digressionei demais.

Uma idéia para um filme ou uma peça

Um homem cheio de pó e desilusão caminha pelo Sertão em tempos particularmente inclementes. Um outro viajante junta-se a ele. O primeiro homem, Samuel, vai lhe contando que está fugindo de sua cidade natal. Envolveu-se numa confusão envolvendo, é claro, uma mulher.

Samuel reparte sua pouca comida com o estranho enquanto os dois perseveram debaixo do Sol causticante e conta sua história. De como era apaixonado por Isabel, que era desejada por Jeremias, o chefe dos jagunços do maior dono de terras da região, Sebastião. Com medo dele, o pai da moça, Antônio, ordena a ela que se afaste de Samuel e aceite se casar com Jeremias. Isabel, entretanto, tenta fugir com Samuel. Os dois são rastreados pelo capanga rejeitado, que dá a Antônio a honra de liquidar com o miserável que levou sua filha. Entretanto, mesmo pego de surpresa, Samuel consegue reagir e mata Antônio. Isabel fica horrorizada e, cercado, o rapaz é obrigado a fugir.

O estranho discute com Samuel sobre as traições que ele cometeu ou contra ele foram perpetradas e sobre a natureza dos homens. O viajante crê que o ódio é mais forte do que o amor e Samuel discorda, lembrando que repartira com ele sua comida, mesmo sem o conhecer. É então que o misterioso companheiro revela ser o Diabo e, concordando que realmente lhe fora feito um favor, oferece a Samuel também um presente: se algum dia ele desejasse que seus inimigos morressem, mais do que qualquer outra coisa, assim aconteceria, com uma ressalva, porém: se ele aceitar este oferecimento, estará aceitando o ponto de vista do demônio e condenando sua alma ao Inferno. Além disso, conta-lhe que está reservada para sua vida mandar muitos outros para as trevas e que, por isso, deseja ardentemente que Samuel junte-se a ele no Érebo, como um general de suas tropas. Samuel recusa, diz que jamais usará a dádiva e vai rodar o mundo e aprender, para algum dia voltar e lidar com Sebastião, Jeremias e quem mais fez mal a ele e à sua gente.

Muitos anos depois, Samuel realmente volta à sua terra. Tem agora fama de milagreiro e conhecedor de muita coisa deste mundo e do outro. Jeremias ainda é o capataz e jagunço do poderoso da região, também chamado Antônio, filho do primeiro. Isabel casara realmente com Jeremias, mas morrera logo, ao dar à luz a filha deles, Maria. O capanga conseguiu casá-la com Antônio. Um bando de cangaceiros independentes se aproxima e o apático Antônio não sabe se deve enfrentá-los ou acoitá-los. Jeremias prefere a segunda opção e o imaturo rapaz resolve assim o fazer. Depois, manda chamar o disfarçado Samuel, que chegou à região a pedido dele.

Samuel encontra o rapaz, que lhe revela o que julga ser a fonte de sua apatia e covardia: ele vem sofrendo de impotência. Se esta notícia se espalhar, juntamente com sua decisão de acoitar o bando de cangaceiros, ele perderá todo o respeito que o povo lhe tem, desconhecedor que é de sua personalidade. Samuel lhe faz um preparado e lhe dá conselhos sobre a vida. Depois, sai e encontra a prostituta que era a preferida de Antônio, já que os votos matrimoniais nada lhe significavam e lhe paga o suborno exigido - foi ela, sob ordens de Samuel, que drogou-o com um estranho elixir que é a verdadeira causa de seus problemas.

O preparado de Samuel cura o rapaz, que passa uma noite de amor com sua bela e vivaz esposa, ficando patente que ele a oprime e não a ama. Os cangaceiros começam a viver na cidade, festejando e movimentando o comércio. Antônio, numa dessas festas, junto com alguns cangaceiros, toma uma prostituta, mas não consegue consumar o ato. Sua esposa aparece e ele, irracionalmente, a culpa por ter sugado sua virilidade e chega mesmo a ofertá-la ao cangaceiro. O bandoleiro demonstra tremendo entusiasmo com a proposta, mas ela se rebela e se recusa e vai embora. Antônio discute com o líder do bando.

Mais tarde, Samuel procura Antônio, dizendo-se inteirado do que aconteceu e lhe oferece outra dose do preparado, dizendo que tem efeito temporário. Antônio toma a nova dose e vai festejar com prostitutas trazidas de fora especialmente para a ocasião, convidando os cangaceiros, mas o chefe deles não aparece, dizendo que não quer festejar com um indivíduo que trata daquela maneira sua esposa.

Furioso com esta atitude e sentindo-se inebriado de poder ao receber a notícia de que Maria estava grávida, Antônio decide mandar expulsar os cangaceiros da cidade, mesmo contra os conselhos do fiel Jeremias. A notícia do massacre de seus homens lhe chega justamente quando comemorava a gravidez de sua esposa e o elixir começava a perder seus efeitos. Pateticamente, acreditando que, se fosse viril o suficiente para liderar seus jagunços, mudaria o resultado do confronto, Antônio vai procurar Samuel e exigir que este lhe dê um grande estoque do preparado. O milagreiro responde que dadas as propriedades químicas e místicas de sua poção, é impossível preparar uma grande quantidade de uma vez. Os dois discutem e Antônio agride Samuel. No entrevero, o primeiro acaba morrendo. Testemunhas atestam que o curandeiro agira em legítima defesa.

Na qualidade de sogro de Antônio e avô de seu filho, Jeremias assume os bens do rapaz morto e negocia a paz com os cangaceiros, oferecendo-lhes metade das reses. Manda também convocar Samuel, que ele ainda não reconheceu como seu antigo rival, tentando fazê-lo passar para o seu lado. Samuel finge aceitar, mas incita as prostitutas locais a espalharem a notícia da impotência do falecido latifundiário e a gente da cidade, lembrando-se da noite em que este ofereceu Maria ao chefe dos bandoleiros, começa a falar que é este o verdadeiro pai da esperada criança.

A maledicência chega aos ouvidos de Jeremias. Coberto de ridículo e desonrado, expulsa furioso de casa Maria, que ele conservava como a única lembrança do grande amor de sua vida, a derradeira crença que ele possuía. Desiludido, ele a trata com requintes de crueldade. Estas notícias alcançam o chefe dos cangaceiros que, desde aquela outra noite, sentia-se atraído pela jovem. Ele procura Jeremias e exige a mulher. O velho jagunço concede-a, com ela ressentido, sem o menor pudor.

O líder dos cangaceiros leva Maria e tenta possuí-la à força. A jovem reage e agride seu raptor, o que o faz mudar da ternura para a irritação e os dois acabam se engalfinhando. O homem a agride violentamente e ela acaba perdendo seu filho. Ele abandona a mulher em dores à piedade dos moradores locais e, como compensação pela rejeição que sofreu, resolve saquear a cidade.

Neste ínterim, Samuel leva à gente local as notícias das negociações de Jeremias e de como ele cedeu sua filha - que eles adoram - ao cangaceiro. As pessoas se revoltam com as novas que, somadas ao destempero ainda recente de Antônio, levam-nos a se rebelar contra o terratenente e os cangaceiros que, surpresos com a reação, fogem do lugar.

O aborto de Maria lhe causa uma profunda infecção, mas Jeremias, ao ouvir a notícia, não lhe presta atenção. Ele vai procurar Samuel, que percebe ter tramado toda a situação contra ele e pergunta por que ele o fez perder tudo que tinha. Samuel finalmente lhe revela a identidade. Jeremias então parte para cima dele, para terminar o trabalho de décadas atrás. Samuel diz que de nada irá lhe adiantar, pois já está morto há anos. Os dois lutam. Jeremias morre e Samuel é gravemente ferido. Aparece então o Diabo para Samuel, com quem vez por outra ele discutia durante a peça, para lhe cobrar afinal o que ele acha mais forte - o amor ou o ódio. Samuel diz que fez tudo isso por amor à sua gente e à lembrança de Isabel, mas o Capeta argumenta que ele fez apenas por vingança. Samuel rejeita o ponto de vista do demônio, até que este lhe revela que a mulher que está morrendo de infecção é na verdade sua filha. Isabel casou-se grávida com Jeremias e o enganou para esconder sua virgindade perdida. Samuel está agonizante. Sua única chance de se vingar contra o líder do bando de cangaceiros é usar a dádiva que o Tinhoso lhe deu. Samuel não acredita no príncipe das mentiras e diz que precisa ver com seus próprios olhos.

Cambaleante e moribundo, o milagreiro se arrasta até onde está Maria, agonizante pelo ferimento. Os presentes se afastam, assustados. Ele se aproxima da cama de sua filha, observado pelo Príncipe das Trevas. Segura a mão dela e conversa com ela, até se convencer que ela é sua filha, ou de que, pelo menos, gostaria que sua filha fosse daquele jeito. Ele lhe fala que o futuro deve libertar-se das amarras do passado. O Senhor das Moscas pede a ele que use sua oferenda e vingue-se dos culpados de sua enfermidade. Samuel aperta mais a mão da filha e cai, exausto ao chão. Maria abre completamente os olhos e fala que se sente melhor. O médico se aproxima e constata que sua febre, milagrosamente, passou. Todos olham para Samuel, querendo saber que milagre ele fez. "Nenhum", ele responde, apenas usara o dom que o Diabo lhe dera - "Eu matei meus inimigos. Mais do que qualquer outro homem já enfrentou". Os cinco bilhões de germes que infestavam o corpo e a ferida de sua menina. Destruindo os micróbios, livrou o corpo dela da infecção e ela agora pode se recuperar. Satanás urra, furioso, revelando sua verdadeira identidade e diz que, de qualquer forma, Samuel aceitara a intervenção demoníaca. O trato se completara e a alma dele era agora do Demônio. Samuel diz pouco se importar, já que sua filha pode agora viver numa cidade que nada deve a ninguém. O Demo, entretanto, é interrompido quando começa a guiar Samuel à condenação. Isabel aparece, resplandescente. Ela é uma enviada dos Céus e o sacrifício feito por Samuel mostrou que, apesar de tudo porque passara, ainda era capaz de amar e honrar a memória de seu grande amor. Pesados os prós e os contras, ele não merecia o Inferno e sua condenação era injusta. O Diabo, furibundo, tenta argumentar, mas Isabel vem sob ordens de Deus, escoltada por dois anjos e ele nada pode fazer. Ela toma Samuel e, finalmente, os dois amantes se reencontram e partem para a Cidade Prateada.

janeiro 06, 2008

Ilusão de Ótica Assustadora

A maioria das pessoas leva menos de um minuto para perceber o que há de errado com esta foto.

Minhas Férias de Novembro I - Itapoã





janeiro 04, 2008

Feliz 2008


Terra, água, ar e o fogo sagitariano da Suzy pra começar bem o ano na Chapada Diamantina.

dezembro 26, 2007

Zen Contemporâneo

Um discípulo de Shunryu Suzuki-Roshi se aproximou dele e perguntou:

"Se você preza tanto a liberdade, por que mantém um passarinho trancado na gaiola?"

Suzuki-Roshi foi até a gaiola, abriu-a e o passarinho voou para longe. Em seguida, virou-se para o discípulo e falou:

"O passarinho está livre - Você me deve um passarinho"

Zen Contemporâneo

Um discípulo estava tentando consertar um computador simplesmente ligando e desligando a máquina. Um mestre se aproximou e explicou:

"Você não pode consertar um aparelho simplesmente ligando-o e desligando-o sem saber o problema".

Então o mestre se aproximou do computador, desligou-o e ligou-o e ele funcionou.

(Tommy Knight)

dezembro 19, 2007

Meus Poemas Favoritos - Richard Cory

A primeira vez que ouvi falar de Richard Cory era uma (ótima) música do bom álbum triplo WINGS OVER AMERICA. Depois descobri que era na verdade do Paulo Simon e, mais tarde, finalmente, que era um poema belíssimo de Edwin Arlington Robinson, como os angloparlantes podem conferir abaixo e os angloprejudicados mais abaixo ainda, na minha pobre e livre tradução (as duas coisas sempre parecem andar juntas).

Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.

And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.

And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.

So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.


Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio

E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar

E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar

E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça

dezembro 06, 2007

A História do Cinema I - The Great Train Robbery

Diz uma história que preparava-se a adaptação de uma peça de sucesso para o cinema. Ainda em princípios de produção, o cineasta foi ao teatro assistir ao espetáculo e conversar com o autor-diretor da montagem. Em meio ao bate-papo, este virou para o sujeito dos 24 quadros por segundo e falou, "quer saber, vocês de cinema complicam tudo. Se eu fosse fazer um filme disto, eu simplesmente punha uma câmera numa cadeira e deixava rolar", ao que o "você do cinema" retrucou, "certo. Mas em QUAL cadeira você poria a câmera?"

Miríades de opções a mais que o cinema oferece à parte, na verdade o raciocínio do nosso teatrólogo era o mesmo dos primeiros cineastas. Começando uma nova arte do nada, ainda na aurora da arte moderna e das teorias futuristas e de avant-garde que revolucionariam o metiê nos anos 20, o povo com uma câmera na mão não tinha muita idéia na cabeça do que fazer com ela. As primeiras tentativas de contar historinhas com o cinematógrafo usavam a mídia como um teatro (mudo) a jato - os cenários podiam mudar instantaneamente (incluindo exteriores) e o uso inteligente de cortes e efeitos de montagem podia criar ilusões impensáveis num palco. No Rio de Janeiro, por exemplo, fez muito sucesso na década de 1900 a nacionalíssima película musical (sim, musical mudo) PAZ E AMOR. Durante a projeção, os atores ficavam atrás da tela fazendo a dublagem. Ou seja, o filme servia apenas para economizar na produção de uma revista musical!

E assim eram todas as fitas no alvorecer da sétima arte. A câmera ficava estática, aberta, enquadrando o que equivaleria aproximadamente a um palco, e com a ação acontecendo da esquerda para a direita (e vice-versa), para que nenhum ator ficasse de costas para a câmera (e no filme mudo, que é basicamente uma pantomima, a expressão do mímico é fundamental para a compreensão da história). À bidimensionalidade da tela somava-se a bidimensionalidade da ação, ficando tudo chapado e artificial ao extremo. Felizmente, logo algumas pessoas com generoso número de células gliais perceberam que tal abordagem era humilhante e degradante para toda a tecnologia envolvida na manufatura de películas. E começaram a experimentação que levaria à firme conclusão de que o cinema era a expressão do MOVIMENTO.



THE GREAT TRAIN ROBBERY é um filme de 1903, ainda bastante primitivo. A ação transcorre da esquerda para a direita. A pantomima é exagerada e risível para os nossos padrões. Durante o primeiro ato, a tecnologia é usada para criar superilusões teatrais (as projeções ao fundo na primeira cena (aos 20 segundos) e no tiroteio no vagão - 2 minutos) e a ação externa também transcorre bidimensionalmente. No entanto, alguns detalhes importantíssimos mostram o início da criação da LINGUAGEM DO CINEMA, independente e diferente da teatral.

Aos 2m48s, a câmera está presa em cima de um vagão. Está em movimento. E o bandido aparece em primeiro plano e move-se rumo ao fundo, de costas para ela. Subitamente o filme parece muito menos primitivo e tem um ar vagamente contemporâneo. Uma trucagem elementar termina a porrada com uma nota violentíssima. O enquadramento é ótimo e elegante e está criada a ação tridimensional. Está quebrada a bidimensionalidade da tela. A sétima arte torna-se uma experiência muito mais real e envolvente.

Aos 4m20s, os bandidos alinham os passageiros para assaltá-los. Para enquadrar esta ação de frente, a câmera, mesmo com a lente mais angular de que se dispunha na época, teria que ficar longe demais para que se distinguisse o que estava acontecendo. O diretor, Edwin S. Porter, sem alternativa, fez o que qualquer fotógrafo amador experiente faria - pegou a cena em diagonal. A composição é muito mais bonita e dinâmica e novamente está quebrada a bidimensionalidade da fita. Mais uma vez ela parece muito menos primitiva.

A cena seguinte também é diagonal, mas o que mais emociona os amantes do cinema é que, aos 6m09s, os bandidos saltam do trem. Em vez de mostrá-los saltando de lado, correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, cortar para uma cena adjacente, com eles novamente correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, tudo isso captado a uma distância respeitável, o que Edwin, o S. Porter, fez? Ele pegou a uma distância que, para a época, poderia ser considerada média, e FOI MOVENDO A CÂMERA PARA MANTER OS BANDIDOS EM QUADRO ENQUANTO ELES SUMIAM MONTANHA ABAIXO. A câmera estática está morta! Logo ela estaria sendo montada por Abel Gance no pescoço de cavalos. A ação é muito mais envolvente. A câmera segue o movimento como nossos olhos fariam - ela É nossos olhos! Nasce o cinema!

Infelizmente, Porter não seria o homem que levaria essas descobertas às últimas consequências. A cena é seguida por mais interiores bidimensionais, sem cortes, de longe. A patrulha persegue os bandidos atirando vindo de segundo plano para primeiro plano, mas não ocorreu ao diretor que a câmera poderia se movimentar não só da esquerda para a direita como também do fundo para a frente. Mesmo a quebra da quarta parede quando o bandido atira na platéia, na última cena, é apenas um efeito, não um manifesto de uma nova estética (e, apesar de tudo, um grande efeito, já que diz a lenda que espectadores se abaixavam ou saíam correndo neste momento).

Estávamos em 1903. Numa época em que o ritmo das descobertas era consideravelmente mais lento, o cinema avançava rapidamente. Passava de curiosidade a entretenimento de qualidade e firmava-se como arte, desenvolvendo sua estética e sua linguagem. Foram esses primeiros avanços que mostraram aos artistas modernos que eles poderiam usar aquela nova maneira de expressão, convenientemente de alta tecnologia, moderna como as concepções daqueles malucos do começo do século (vinte), poderia adaptar-se admiravelmente às suas propostas e teorias.

Ainda mais depois que um americano conservador e caretão chamado D. W. Griffith quebrasse a ação em planos rápidos e curtos que mostravam sempre exatamente aquilo que você precisava ver naquele momento, em vez de enquadrar uma cena inteira e deixar que o espectador escolhesse o que lhe interessava.

novembro 20, 2007

Um Celular com Câmera

Pichação






Urubumóvel (nada a ver comigo)








Lagartão em Copacabana. Provavelmente caiu no mar nas Cagarras ou no Pão
de Açúcar










O Golfista da Praça Cuauhtemoc

Chama-se Rui. Foi fazer um exame no hospital e não o deixaram sair - puseram-lhe cinco safenas. Enquanto aguarda pelo dia em que poderá voltar a realment praticar exercícios, treina seu drive e seu putting na praça Cuauhtemoc. Tem que tomar cuidado com as crianças, porque as bolas são pesadas, e com os cachorros, que querem correr atrás delas. Já machucou dois e teve que pedir muitas desculpas.





novembro 19, 2007

A Propaganda é a Alma do Negócio

Subjetivismo Concretista embaixo da Rocinha

Indo pro motel saindo do Dois Irmãos
Da favela jogam uma pedra que pega no pára-brisa do carro
(E o estilhaça, não o quebra)

"Meu amor", digo eu, "você me enlouquece,
o mundo vira um quebra-cabeças, tudo me são
apenas pedaços de um todo incompleto.
Estou esquizofrênico".

"Meu amor", responde ela, "você me inspira.
Vejo o mundo com os olhos
de uma pintora cubista".

E quem olha de fora pensa
"O amor dele os enredou
como uma teia de aranha"

Os Videntes

Não é que os cegos não vejam
Eles vêem o futuro
O tempo todo

novembro 05, 2007

Morro de São Paulo

Confio na palavra tanto quanto numa lâmina afiada
Se o diabo atenta, ela entra


Poesia (boa) pichada na Vila, de Ângela Toledo.



O Jardim de Manequins

Oi, gente. Voltei agora de férias e estou fazendo uns frilas que me deixaram sem tempo pra vocês. Assim que selecionar as melhores entre as mais de 600 fotos que tirei em Morro de São Paulo (malditas memórias de câmeras digitais) e reduzi-las, postá-las-ei aqui. Pra vocês não reclamarem que os abandonei, um texto meu do começo dos anos 90, um projeto de curta. Como ainda se iniciavam os 90, tem uma cara tremenda de década de 80 e confesso que na época andava meio sem saber sobre o quê escrever exatamente. Parei de escrever contos porque sentia-os ficando muito técnicos, com narrativas fantásticas, mas sem substância, muito glacê e pouco conteúdo. Salvou-me escrever para teatro, que me realinhou com a objetividade, com o compromisso com a narrativa e o melodrama barato. Aí vai, portanto, O JARDIM DOS MANEQUINS

cena i

bar/noite

mônica/ rapaz/ marisa



uma moça - mÔnica - está sentada entediada olhando para o chope, para as pessoas e o cenário em geral. Num bar, claro. um sujeito - um garoto mal saído da adolescência, um pouco mais novo do que ela - se aproxima.

Sujeito: A gente nunca sabe o que fazer quando nos deixam sozinhos...

Mônica: (DISTRAÍDA) Como?

Sujeito: Ah, quando estamos conversando e se levantam pra ir ao banheiro... a gente nunca sabe o que fazer, no que pensar...

Mônica: Sexo.

Sujeito: Como?

Mônica: Quando eu fico sem assunto na cabeça, eu penso em sexo. É bom ter uma boa vida sexual pra isso. Pra arejar a cabeça.

Chega marisa do banheiro, pega a bolsa e se ajeita pra sair.

Marisa: Vamos nessa?

mônica aquiesce, termina de beber o chope e se levanta, vai saindo com marisa, mas antes passa a mão na cabeça do rapaz.

Mônica: Tenha uma boa vida sexual. Areja a cabeça e a gente não fica tão obcecada com sexo.

o gAROTO FICA OLHANDO UM POUCO ELAS SE AFASTAREM, SEM SABER COMO RESPONDER E FALA, ENTREDENTES.

Sujeito: Sapatão...

Vai se afastando. Uma voz o chama.O garoto vai na direção dela e sai de cena.

Voz: Thiago! Aí, cara! E aí, como é que vai a Ritinha?



cena ii

ruas/noite

mônica/marisa



as moças vão andando e sorrindo pelas ruas.

Marisa: Tu não vale nada, Mônica.

Mônica: Hoje não tô pra barbado. Muito menos pra imberbe.

Marisa: Hoje é a noite das mulheres.

Mônica: Hoje é noite de encher a cara, Marisa. Chega de me esconder, de ter que tomar cuidado com isso, com aquilo. Estou livre! (GRITA PELAS RUAS) Não namoro mais homem casado! Terminei tudo!

uma voz grita em resposta, dos prédios.

Voz: Vai arrumar alguém, então, porra!

As duas se olham e riem.

Marisa: Não adianta, tem sempre alguém policiando.

retomam a caminhada. passam em frente a uma boutique. Mônica pára e fica olhando. Marisa, que continuou andando até o carro, a vê e volta.

Marisa: Já se apaixonou de novo?

corte. aparecem os manequins e o soturno interior da loja.

Mônica: Quando a gente se conheceu, o Marcelo vivia me dando presente...

Marisa: Umas roupas dessa?

Mônica: Porra nenhuma, ele achava feio. Ficava me dando uns vestidos lindos, mas que eu vou conseguir usar uma vez por ano. Depois não deu mais nada.

Marisa: Claro. Passou a ser a vez de você dar.

Mônica: Sabe que eu sempre quis ter o corpo desses bonecos?

Marisa: (SURPRESA) Pra quê?

Mônica: Ah, ó só... tudo firme, olha as pernas, tudo certinho... e tão sempre elegantes. E, porra, tão sempre bem vestidos. Melhor do que eu.

Marisa: Gostou dos vestidos, hem?

Mônica: Ah, tô com saudade de botar umas roupinhas assim e sair pra matar... aquele ali, como é que você acha que eu ia ficar nele?

marisa olha para um lado e para o outro, morde o lábio inferior.

Marisa: Vamos ver, então, porra!

marisa se abaixa e começa a mexer no cadeado que fecha a porta de vidro. Mônica observa surpresa a amiga, olha para os lados assustada, tenta se esconder sob a marquise.

Mônica: Você ficou maluca, Marisa? Que que você tá fazendo?

Marisa: Abrindo a porta.

Mônica: E desde quando você é arrombadora?

Marisa: Quando eu tinha dezesseis anos, namorei um garoto que abria carro. Só pra gente dar uma voltinha, depois largava. Pela emoção. E ele me ensinou a abrir fechadura.

Mônica: E você não ficava com medo?

Marisa: Ficava era com tesão! Transei em tudo que era tipo de carro com ele! Fiquei até expert nessas coisas (CONSEGUE ABRIR O CADEADO. EMPURRA A PORTA). Vamos entrar?

Mônica: "Publicitária e arquiteta presas por arrombamento e furto..."

Marisa: Sabe o que aconteceu com aquele meu namorado?

Mônica: O quê? Virou um traficante rico e famoso?

Marisa: Um advogado rico e famoso. (ENTRA)

mônica olha para um lado e para o outro, assustada.

Mônica: Ah, droga, eu mereço parecer bonita! (ENTRA)



cena iii

loja/noite

mônica/Marisa/assaltante



a loja parece bem maior por dentro. a luz vem toda da rua e de algumas fracas luminárias em cima. os manequins estão dispostos de uma maneira quase lúgubre, alguns pela metade, outros semi-vestidos.

Mônica: (PROCURANDO MARISA) Marisa... Marisa...

uma silhueta surge por trás dela, saindo das sombras, a cabeça envolta num véu, sem que ela perceba.

Marisa: (ABRINDO OS BRAÇOS E ENVOLVENDO A CABEÇA DE MÔNICA COM O VÉU) Experimenta este véu de escuridão!

Mônica: (ASSUSTADA) Aaaaaahhhh!

Marisa: Quieta, Mônica. Vai acordar a vizinhança toda!

os manequins observam mudos.

Mônica: Eles nem se mexem.

Marisa: (SENTANDO-SE SOBRE O COLO DE UM MANEQUIM) E você queria ser sexy que nem eles...

Mônica: Elegante, Marisa. Elegante. (DESPE UM MANEQUIM E EXPERIMENTA A ROUPA QUE ELE USAVA) E bonita.

Marisa: Você é bonita...

Mônica: Nosso conceito de beleza é diferente do de homem...

Marisa: "Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:/ De almas estóicas a dureza louca/ Rirá dos teus lamentos/ Mas nos servos de Amor terás abrigo:/ Quando te ouvirem, chorarão contigo." Bocage.

Mônica: Bonito. Mas você não ia achar bonita a mesma mulher que ele.

Marisa: Que me importa a opinião dele? (GIRA A CABEÇA DE UM MANEQUIM EM SUA DIREÇÃO) Ele está morto e enterrado.

Mônica: E a gente, hem, Marisa? (EXPERIMENTANDO UMA BLUSA) Você acha que essa aqui tá boa preu ir presa?

Marisa: (APROXIMANDO-SE DELA, PERFIS LADO A LADO) Qual o problema? Sem dinheiro pra comprar roupas e sem ninguém que as dê de presente...

Mônica: É... (PEGA UMA BERMUDA. TIRA A CALÇA E COMEÇA A EXPERIMENTÁ-LA) Quando eu não trabalhava eu podia culpar meus pais por não ter dinheiro pra comprar essas roupas...

Marisa: Quando eu não trabalhava eu achava que nunca ia precisar trabalhar. (APÓIA-SE NUM MANEQUIM)

Mônica: Tinha um eterno pretendente rico?

Marisa: Não. Esse é um dos meus traumas. (PEGA UM DOS BONECOS) Eu era bonita e simpática. Os eternos pretendentes ricos tinham medo de mim. Todas as minhas amigas tinham um.

Mônica: E você ficou traumatizada com isso?

Marisa: Se não fossem os carros do Marcelo, ficaria mais. (TOCA AS MÃOS DE UM DOS BONECOS) "Marisa... em meu coração ardem chamas de revolta. O fogo da paixão abafa-se frente a seu calor. (DECLAMA PARA A AUDIÊNCIA MUDA DOS MANEQUINS) A fúria do desejo se envergonha frente à sua intensidade. E bate ele em meu tronco com força cada vez maior. Injusta é a força que o separou do seu" (ABRAÇA UM MANEQUIM) Ninguém nunca me disse isso.

Mônica: Nem a mim.

Marisa: E nem sentiu. Aí eu ficava escrevendo as coisas que esperava que dissessem. Daí achava que ia ser poeta e nunca ia trabalhar.

Mônica: Slogans não deixam de ser poesia.

Marisa: Mas trabalhar todo dia não deixa de ser trabalho. (DESPE UM DOS MANEQUINS, VESTE-SE COM A ROUPA DELE. EXAMINA O MANEQUIM) E se você tivesse esse corpo, afinal, ia trabalhar?

Mônica: Não sei. Se eu tivesse esse corpo, seria outra pessoa...

marisa vai até o interruptor e fica brincando com ele, acendendo e apagando, imitando flashes espoucando em cima dos manequins.

Marisa: Os homens perderiam a cabeça por você... os flashes espoucariam onde quer que você fosse... seu lar seria o mundo.

Mônica: E me pagariam pra usar essas roupas...

Marisa: (GIRA, MOSTRANDO CASACO QUE EXPERIMENTA) E dessa, o que diz? Sou uma mulher perfeita, agora?

Mônica: Alucinante... Faça uma mulher feliz: vista-a bem. Por que nos cobrindo nos sentimos melhores?

Marisa: Ó a mulher... fica deprimida, começa logo a querer ficar profunda... (ABRE UMA GAVETA) Ih! Vê só o que achei!

mônica continua trocando de roupa, observada pelos manequins, enquanto marisa vem caminhando em sua direção.

Mônica: O que foi?

Marisa: Poesias... "Alto; sobretudo, forte./ Faz noite em minha boca/ E as palavras se dissolvem em meu corpo/ Alto; sobretudo forte/ Faz escuridão em torno de nós/ E a linguagem escorre, afrodisíaca/ Pela garganta".

Mônica: Erótica.

Marisa: Vê se um homem vai querer se prestar a isso...

Mônica: "Descuidado; sobretudo apressado/ Sem imaginação, acende a luz/ Marcelo vai passando em minha vida".

Marisa: Deixa a poeta quieta, Mônica. Também já tive essa minha fase. Amores de papel.

Mônica: Logo você que eu sempre achei tão saidinha...

Marisa: Sempre fui muito crédula, Mônica. E quem acredita em alguma coisa, qualquer coisa, é sempre saidinha.

Mônica: A fé remove montanhas...

Marisa: Já foram tiradas todas, Mônica. Agora grandes são os desertos, minha alma, grandes são os desertos. (OLHA AS POESIAS) Vendendo essas roupas todos os dias... mulheres se embelezando para suas paixões... mulheres se reconstruindo na fossa... vestidas por poesias de sonhadoras...

Mônica: (AOS MANEQUINS) E muda, a assistência desfila magra e sedutora...

Marisa: E seus corpos perfeitos... também, não bebem, não fumam, não amam e não trepam...

Mônica: Um emprego e tanto. Beleza 24 horas por dia.

Marisa: As modas passam... e eles ficam.

Mônica: Mas não têm ninguém... por que que iriam se preocupar? Ó só essas pernas... vê as minhas... (SEGURA AS PERNAS DO MANEQUIM) tem gente que acha finas, outros acham grossas, uns dizem que sou leve, outros que sou muito terra... as pernas deles são as pernas deles. Ó os braços. Vê os meus. Dizia o Marcelo que tanto o apertavam... tanto o queriam para eles...

marisa pega uma jaqueta de um dos manequins e sai dançando pela loja.

Marisa: "All of me... why not take all of me... can't you see... I'm no good without you... take my lips... I want to lose them... take my arms... I never use them..."

Marisa continua dançanndo e cantando pela loja. mônica suspira abraçada a um manequim. murmura.

Mônica: ... Marcelo...

olha para o lado e, ao ver o manequim olhando para ela, vira-lhe o rosto. marisa pára de cantar. vai para próximo da amiga.

Marisa: Esquece, Mônica. Esta noite estamos ricas. Vamos nos alegrar fazendo todas as compras que queremos...

mônica olha para as roupas no chão.

Mônica: Não gostei de nenhuma dessas roupas... (OLHA OS MANEQUINS) Não gostei desses manequins... não gostei do garoto no bar... eu sinto falta do Marcelo...

marisa, que observava piedosa, abraça a amiga, que começa a chorar.

Mônica: Sempre falei tanto do Marcelo com aquele lenga-lenga da esposa e eu aqui não sei nem decidir que roupa levar...

Marisa: Se as pessoas realmente soubessem o que querem, Mônica, minha profissão não ia existir...

por sobre as imagens dos manequins imóveis, o som de passos. de alguém mexendo na fechadura. as duas meninas olham para a porta assustadas e vêem uma sombra mexendo na fechadura e entrando. com uma arma em punho. correm para o provador para se esconderem. o assaltante vai derrubando os manequins, espalhando as roupas. passa bem perto delas, que se encolhem assustadas dentro da cabine de provas. o assaltante vê as poesias da vendedora e as joga fora. Remexe mais nas gavetas. encontra corações flechados desenhados. também joga fora. por último, vê dinheiro. de sua sombra, vê-se apenas o brilho do sorriso. ele embolsa o dinheiro e vai embora. as amigas, assustadas, depois que ele saiu, também saem do provador e fogem.



cena iv

ruas/noite

mônica/marisa/passantes



na calçada, fora da loja, as amigas olham-se uma para a outra e sorriem. começam a rir. gargalham desbragadamente e sentam-se no meio-fio.

Mônica: Por que que só a gente podia estar na fossa hoje?

Marisa: Homem prefere ir logo direto à questão...

Mônica: E acabou que a gente não trouxe nenhuma roupa. Nem de lembrancinha...

enquanto elas falam, ouve-se ao fundo o alarme da loja e vozes gritando ao longe "pega ladrão, pega ladrão", depois sirenes e sons de tiros.

Mônica: Ah, Marisa... valeu, amiga. Tô me sentindo melhor (ABRAÇA-A)

Marisa: O que eu te falei, Mônica... nada como uma visita a uma boa boutique pra animar uma garota...

a câmera vai fazendo zoom-out. as duas amigas riem no meio-fio. continua o som de tiros. pessoas passam correndo, algumas de pijama, curiosas para saberem o que está acontecendo. passa um carro de polícia.

Marisa: Olha que pessoal exagerado...

Mônica: Sabe de uma coisa, Marisa? Você precisa me ensinar a arrombar fechaduras...

fade-out. fim.

setembro 24, 2007

Crônica minha em O Globo de domingo



Na data acima, saiu uma crônica minha no Segundo Caderno, na seção LOGO - A PÁGINA MÓVEL, como se pode ver na foto aqui. A página inteira e a crônica estão à disposição logo a seguir

A Crônica como saiu em O GLOBO

Clique na foto abaixo para ampliá-la e ler a crônica como saiu no jornal. Se preferir, o texto original, antes da edição, e digitado bonitinho, em vez de fotografado, está logo a seguir no blog.

O Texto da Crônica

Não, não vi TROPA DE ELITE. Não por motivos éticos, afinal sempre poderia racionalizar que cinema no Brasil é feito às custas de dinheiro público e todo mundo já recebeu quando as fitas chegam - ou não! - nos cinemas, mas porque, desde que investi uma grana preta numa tevê widescreen, dou preferência a DVDs com ótima imagem. Nem sempre é possível. FACA NA ÁGUA e PLANETA PROIBIDO, por exemplo, tive que baixar, já que ninguém ameaçou até agora lançá-los por aqui. Também não aguentei esperar o longa dos Simpsons no cinema. Descobri que Bukowski não só é ótimo romancista, mas poeta ainda melhor. Não curto muito, mas tenho amigos que assistem a toda a temporada de sua série favorita antes de estrear por aqui. E MP3, então, nem vale a pena mencionar. Ainda não tenho um iPod, mas com certeza já o teria enchido com todos os CDs queimados com músicas guardados em estantes periclitantes lá em casa.

É que sou viciado em arte. Coisa de criação. Muitos pais ficam desgostosos quando vêem que o filho se dá melhor com livros do que com uma bola - e olha que tento até hoje! - mas os meus não tomaram nenhuma providência e logo eu estava num caminho sem volta - frequentando sebos, lendo gibis nos jornaleiros e gravando fitas K7 de discos de amigos. Meu presente de formatura foi um video-cassete e devo ter sido um dos 5 viventes que aprendeu a programar o temível aparelho sem evoluírem até seres de pura energia.

Mas ainda assim o mundo digital me pegou completamente desprevenido. A mim, às gravadoras, editoras e cinemíferas. Foi como o surgimento da pólvora, você não precisava mais enfiar uma espada na barriga de alguém, olho no olho, se sujando todo de sangue. Tudo passou a ser rápido, limpo e à distância, bastando apontar, disparar e esperar. Eu podia estar assaltando ou traficando para sustentar meu vício, mas estou apenas infringindo direitos autorais. Uma invenção recente. Coisa da revolução industrial. Segundo o saudoso João Bethencourt, as peças de Shakespeare são reconstruções de cabeça. Publicar o texto dos espetáculos significava que alguém poderia montá-los sem pagar um tostão. Teatros rivais contratavam sujeitos com boa memória para assistir às encenações e pô-las no papel. Graças a esses piratas hoje o Harold Bloom pode dizer que o velho Bill inventou a humanidade.

E o velho Bill tinha que tomar precauções mesmo, porque vivia dos ingressos. Parcamente. Artista rico só foi aparecer quando os irmãos Lumiére começaram a contar a verdade a 24 quadros por segundo e Edison girou um cilindro sob uma agulha. Até então ninguém seguia carreira artística por grana. Segundo os GÊNIOS DA PINTURA e VIDAS CÉLEBRES que eu lia quando moleque, esse povo morria tudo de tuberculose, era incompreendido pelos contemporâneos, tinha paixões não correspondidas e infelicidade geral. Raramente conseguiam uns trocados para uma existência decente e ainda assim tinham problemas familiares, com o álcool, com as autoridades...

Mas tudo isso mudou quando o cinema e o disco multiplicaram exponencialmente o público. Tudo bem, já tinha Gutenberg e a imprensa, mas quanta gente alfabetizada e com dinheiro para uma biblioteca existia antes da Segunda Revolução Industrial? Com essas novas tecnologias surgiram os astros - ricos, bonitos e famosos - e, quando Elvis rebolou aqueles quadris, foi a vez do superstar. É esse estilo milionário de vida de artista que está em risco com a pirataria digital. Ou não. Na verdade, nós não os idolatramos pelas suas obras. Ou pelo seu talento. A cultura pop, a grande ameaçada, não vive disso. Vive da atitude.

Muita gente era melhor do que Elvis, mas foi ele que virou o ícone. O mesmo de Marilyn. Ou muitos outros. Sua beleza, seu talento, mais do que sua obra, nos fizeram dar-lhes procuração para viver e simbolizar a vida que não podemos ou não conseguimos ter. Antes da cultura de massa, os valores eram outros, e artistas encarnavam profetas com uma visão coerente e desdém pelos valores materialistas da sociedade. Daí a tuberculose. O público mudou, os valores mudaram e o desdém agora é só pela sociedade, mas não pelo materialismo. Nós QUEREMOS que eles sejam ricos para projetarmos nossos sonhos, como já quisemos que fossem mártires miseráveis. E assim, que remédio, eles são ricos. Os conceitos de "Top Model" e "Big Brother" já pularam até a etapa da obra artística. Tudo bem, continua sendo uma vida difícil, cheia de álcool, drogas e relacionamentos vazios, mas pelo menos também cheia de grana, mansões e limusines.

Quanto à arte, vai ter sempre gente produzindo. Alguns anos atrás, eu explicava a um amigo que teria que ficar dias e dias enfunado em casa escrevendo uma peça sobre um assunto que não gostava, num estilo que não gostava, me matando para ganhar 500 reais. "Eu jamais escreveria uma peça por 500 reais", disse ele. "É porque você não é escritor", retruquei. Se você precisa saber por que escreve, não é escritor, já dizia um André desses, não me lembro se o Gide ou Malraux.

Mas tudo isso é racionalização. Pirataria é crime. É que nem gente que consome drogas e fica fazendo elocubrações para justificar-se. Não adianta. É contra a lei e ainda financia o crime organizado. Mais cedo ou mais tarde, vai ser que nem a Lei Seca, vai ter que liberar geral. Mas até lá é ilegal. O resto é desobediência civil. Essas coisas de artistas e profetas. Mas chega. Acabei de baixar MÓRBIDA CURIOSIDADE e pela primeira vez vou ver em seu aspecto original widescreen.

Espero que dê onda.

Cláudia Belém


Se esbaldando no 7 de setembro no samba da Santa Luzia

setembro 06, 2007

Por que a defesa dos Colts melhorou tanto?

Porque um dos 4 titulares que saíram está no Saints e nas costas dele já foram anotados 3 touchdowns. Jason David não vai deixar saudade em Indianapolis.

Jogada có-co-có-cococó-estou com medo

Começo do último quarto, 27 a 10 para os Colts, cujo ataque está demolindo a defesa, na terceira descida você fica a meia jarda de nova série e... você vai pro punt? Ou seja, você não confia no seu ataque pra ganhar meia jarda? Não é melhor mandar os reservas entrarem logo?

Resultado do punt: em cinco snaps os Colts fazem 34 a 10.

Mesmo quem achava que os Colts estavam tão bem ou melhor do que no ano passado previa um jogo 34 a 30, 30 a 27... ninguém, absolutamente ninguém tivesse idéia de que o ataque demoliria completamente a oposição e a defesa paralisaria Drew Brees, uma das maiores sensações da temporada passada. Joseph Addai cumpre a previsão de um comentarista que disse que ele, como titular, mostraria que Edgerrin James é mais do que passado. Mesmo levando em conta que o medo do passe (o TD que saiu agora foi de 50 jardas) do Manning faz as defesas adversárias darem espaço pros corredores (e foi assim que teve gente que começou a achar que Dominic Rhodes era craque ano passado), Addai tá mostrando que tem bola...

Que surra.

Recomeça a NFL

Peyton Manning, o maior quarterback da atualidade, enfrenta Drews Brees, o melhor comandante da conferência nacional. Estamos no meio do terceiro quarto. Pete Prisco havia comentado em sua coluna que a perda de 4 titulares da defesa dos Colts na verdade só a tinha melhorado, com uma agarrada muito superior. E não é que é verdade? Nenhum TD ofensivo dos Saints até agora. Só um field goal. E, se não fosse pelo apagão momentâneo, provaelmente psicológico, depois do fumble pra touchdown, ia estar sendo um massacre. Antes e depois do Wayne soltar a bola, a defesa está firme, tanto por cima como por baixo e o ataque está tão bem quanto em suas melhores apresentações nos últimos anos - corridas de muitas jardas, passes rápidos, passes longos, o bicho. Pete Prisco estava certo.

setembro 05, 2007

setembro 01, 2007

Meus Poemas Favoritos: Eu Não Sei Se Você Está Vivo ou Morto

Anna Akhmatova, poetisa russa da época da Revolução e depois perseguida por Stalin por ser "burguesa". Seu primeiro marido foi executado e seu filho passou a maior parte da infância nos gulags. Obviamente eu não sei russo (1), portanto a versão aqui abaixo é de uma livre tradução minha em cima de uma tradução para o inglês, ou seja, deve ter sobrado muito pouco do poema original. De qualquer forma, a versão anglófona está aí também:

Eu não sei se você está vivo ou morto
Será que você ainda é procurado sobre a terra
ou apenas quando o crepúsculo se esvai
serenamente lamentado em meus pensamentos?

Tudo é para você: a oração diária
O desejo nas noites insones
O alvo floco dos meus versos
O fogo azul de meus olhos

Ninguém foi mais estimado
Ninguém me torturou mais
Nem mesmo aquele que me traiu para meus torturadores
Nem mesmo aquele que me acariciou e esqueceu



I don't know if you're alive or dead.
Can you on earth be sought,
Or only when the sunsets fade
Be mourned serenely in my thought?

All is for you: the daily prayer,
The sleepless heat at night,
And of my verses, the white
Flock, and of my eyes, the blue fire.

No-one was more cherished, no-one tortured
Me more, not
Even the one who betrayed me to torture,
Not even the one who caressed me and forgot.


(1) Quando eu li pela primeira vez Dostoievski, OS IRMÃOS KARAMAZOV, vi que a tradução era da Rachel de Queiroz e fiquei estupefato, "caralho! A Rachel de Queiroz sabia até russo". Somente quando há alguns anos lançaram a primeira tradução do Velho Dosta direto de sua língua pátria é que soube que a nossa primeira acadêmica havia trabalhado em cima da tradução para o francês - segunda língua russa no século XIX.