A exposição não vale 15 pratas. Muito pra criança. Vai aí o que o celular registrou:
fevereiro 24, 2008
Mais sobre o Universo e a Humanidade
Uma vez eu discuti com um amigo que achava a raça humana algo assim, meio... desprezível. Que era muito imperfeita. E eu tentei explicar pra ele que amar a humanidade é amar o erro. É isso que ela tem de belo e divino, a capacidade de se reinventar, se recriar, a capacidade do livre-arbítrio, de fazer seu destino. De ser imprevisível. A perfeição está aí em todo lado - os planetas girando suas perfeitas órbitas elípticas, com o Sol em um dos focos e gastando o mesmo tempo percorrendo-a de acordo com a área do polígono. As estrelas queimando sua parcela de combustível e com sua morte podendo ser prevista, calculada e acontecendo exatamente como deveria, com toda pompa, circunstância e espetáculo que supernovas e gigantes vermelhas podem causar.
Já o amanhã de uma pessoa ninguém pode prever. À caótica biologia se junta a misteriosa consciência e ninguém sabe o que vai sair de lá. O erro - e a bela tentativa de se melhorar - são os dois grandes predicados da humanidade. Toda nossa arte é sobre o erro, o que parece escapar aos estetas entediados que amam a arte e não têm paciência para com os artistas.
E, além disso, qual o sentido da perfeição? Todos os planetas e estrelas e galáxias continuarão a girar muito tempo depois de nós nos termos ido. Para quê? Qual o barulho que uma árvore caindo na floresta faz quando não há ninguém para ouvir? Qual o Universo que existe se não há ninguém para saber que ele existe. Qual o valor da perfeição quando tudo é perfeito, tão perfeito que nem mesmo sobra espaço para um pouco de auto-apreciação, "puxa, eu não sou um Universo tão mecanicamente e relativisticamente perfeito?" Terá Deus (aqui entendido como metáfora do Todo e não um sujeito de longas barbas brancas sentado numa nuvem) criado a vida inteligente para validar sua perfeição? Para conhecer a si mesmo?
Quando eu tinha uns 13, 14 anos, já era um moleque estranho, daqueles que passavam o recreio na biblioteca. Certa feita um outro moleque desses estranhos, que já era comunista (eram os tempos da ditadura), me explicou porque não tinha medo da morte: nada sei do que existia antes de mim e nem saberei depois; não tenho consciência do meu começo e não terei do meu fim; logo, sou imortal". Pensamento incrivelmente complexo para um adolescente entrando na puberdade (Mauro Leão deve ter lido em algum lugar, ninguém pode ser assim tão mais inteligente do que eu). Imortal também é o Universo.
Apenas nós (e as outras vidas inteligentes que com certeza habitam a esporrada do Big Bang) estamos aqui para marcar a passagem do tempo.
Já o amanhã de uma pessoa ninguém pode prever. À caótica biologia se junta a misteriosa consciência e ninguém sabe o que vai sair de lá. O erro - e a bela tentativa de se melhorar - são os dois grandes predicados da humanidade. Toda nossa arte é sobre o erro, o que parece escapar aos estetas entediados que amam a arte e não têm paciência para com os artistas.
E, além disso, qual o sentido da perfeição? Todos os planetas e estrelas e galáxias continuarão a girar muito tempo depois de nós nos termos ido. Para quê? Qual o barulho que uma árvore caindo na floresta faz quando não há ninguém para ouvir? Qual o Universo que existe se não há ninguém para saber que ele existe. Qual o valor da perfeição quando tudo é perfeito, tão perfeito que nem mesmo sobra espaço para um pouco de auto-apreciação, "puxa, eu não sou um Universo tão mecanicamente e relativisticamente perfeito?" Terá Deus (aqui entendido como metáfora do Todo e não um sujeito de longas barbas brancas sentado numa nuvem) criado a vida inteligente para validar sua perfeição? Para conhecer a si mesmo?
Quando eu tinha uns 13, 14 anos, já era um moleque estranho, daqueles que passavam o recreio na biblioteca. Certa feita um outro moleque desses estranhos, que já era comunista (eram os tempos da ditadura), me explicou porque não tinha medo da morte: nada sei do que existia antes de mim e nem saberei depois; não tenho consciência do meu começo e não terei do meu fim; logo, sou imortal". Pensamento incrivelmente complexo para um adolescente entrando na puberdade (Mauro Leão deve ter lido em algum lugar, ninguém pode ser assim tão mais inteligente do que eu). Imortal também é o Universo.
Apenas nós (e as outras vidas inteligentes que com certeza habitam a esporrada do Big Bang) estamos aqui para marcar a passagem do tempo.
Feliz Aniversário, Ave!
fevereiro 20, 2008
Clodovil propõe exame de próstata para trabalhadores
Qua, 20 Fev, 11h54
O deputado Clodovil Hernandes (PR-SP) apresentou Projeto de Lei (2374/07) que acrescenta na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) exames de próstata para trabalhadores acima de 40 anos por conta do empregador e, em caso de resultado positivo, tratamento psicológico necessário (...)
Peraí? Tratamento psicológico para resultado positivo? Então não é pra câncer esse exame...
O deputado Clodovil Hernandes (PR-SP) apresentou Projeto de Lei (2374/07) que acrescenta na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) exames de próstata para trabalhadores acima de 40 anos por conta do empregador e, em caso de resultado positivo, tratamento psicológico necessário (...)
Peraí? Tratamento psicológico para resultado positivo? Então não é pra câncer esse exame...
fevereiro 19, 2008
fevereiro 17, 2008
O Imortal

O maior avião de todos os tempos foi criado em 1936. Nas minhas férias de novembro, quando faço a baldeação no Aeroporto de Salvador, quem está lá, com os motores atualizados para turboélice e antenas para pesquisa de mineração (conforme me explicou um funcionário)? O imortal Douglas DC-3, o melhor aparelho cargueiro da II Guerra Mundial (entre muitas outras versáteis funções) e o aeroplano que praticamente sozinho levantou a aviação comercial.
Esquetes para show do Dr. Porão e os N. Franks
O grupo de música e humor da minha irmã. Este seria um esquete para o show Dr. Porão Tevê a Cabo - DPTV.
locutor
O canal DPTV seriados apresenta o novo líder de audiência nos EUA! Hospital DPTV!
entra um médico acompanhando um paciente na maca. A mulher do paciente está preocupada enquanto o médico procura por algo com o estetoscópio.
mulher
Doutor... quais são as chances do meu marido?
o médico cobre o paciente com um lençol.
médico
Eu diria que são poucas...
mulher
Oh! Doutor, eu estou tão abalada... quer transar comigo?
médico
Só se for agora.
os dois saem. A maca é retirada.
locutor
Hospital DPTV... Onde se aposta uma corrida perdida contra a morte...
uma enfermeira entra carregando um acidentado deitado numa maca, correndo, apressada, assustada...
enfermeira
Doutor, doutor, temos um acidente de carro!
entra o médico. tanto o médico quanto a enfermeira estão usando máscaras cirúrgicas.
médico
Ei, mas isso não é um carro!
enfermeira
Claro que não, doutor, este é a vítima!
médico
Ainda bem, porque isto não é uma oficina... se fosse, estaríamos todos ricos, não é, ha, ha, ha?
o médico olha para a enfermeira, que não está achando a menor graça.
médico
(CONSTRANGIDO) Bem, vamos ver então sua vítima... (EXAMINA A VÍTIMA) Hmm... veja isso... dois profundos buracos no nariz... e, céus, veja que talho enorme e profundo aqui, debaixo do nariz!
enfermeira
Doutor... isto são as narinas do paciente... e esta é a boca.
médico
Você está tentando me ensinar medicina, enfermeira?
enfermeira
Não, senhor, mas...
médico
Então que história é essa de "boca"? Veja só que ferimento horroroso... os ossos debaixo dele estão todos quebrados...
enfermeira
Estes são os dentes, doutor...
médico
E veja como a área em redor do talho está vermelha e intumescida!
enfermeira
Doutor, estes são os lábios...
médico
Ha, ha, ha, enfermeira, todos nós sabemos que lábios... hmmmm... intumescidos... ficam bem mais embaixo...
enfermeira
(IRANDO-SE) Doutor, o senhor está falando da boca do paciente! Isto não é um ferimento! Isto tem na cara de todo mundo!
médico
Deixe de bobagens, enfermeira! Isto é sério, é um caso de vida e morte! Se esta "boca" tem na face de todo mundo, por que não tem na sua, por exemplo?
enfermeira
Porque estou usando uma máscara!
médico
Uma máscara? Por quê? Por que você usa uma máscara dentro do hospital, enfermeira? Por acaso está roubando drogas do estoque do hospital para viciados?
enfermeira
É lógico que não, doutor!
médico
Como "é lógico que não"? Por que alguém usaria uma máscara no local de trabalho? Já imaginou, você entra num banco e estão todos mascarados? (APROXIMA-SE E FALA BAIXINHO E COMPREENSIVO PARA A ENFERMEIRA) Algum residente jogou ácido no seu rosto e por isso você fica vagando pelos subterrâneos do hospital?
enfermeira
Não, doutor, não é nada disso! (OLHA O PACIENTE)
mÉDICO
Então por que você usa uma máscara? Pode me contar, se você tiver uma deformação tão horrível quanto essa... "boca"... que tem no paciente!
enfermeira
Boca não é uma deformação horrível! É o que a gente usa para falar! Como você acha que estamos nos comunicando?
médico
Ué, não é telepatia?
enfermeira
Não, não é telepatia! Estamos usando a boca!
médico
Você usa um ferimento para emitir pensamentos?
enfermeira
Eu não estou emitindo pensamentos! Eu estou falando! Falando!
a enfermeira tenta tirar a máscara, mas ela está muito bem presa.
enfermeira
Droga de máscara... não quer sair...
médico
Calma... não precisa tirá-la... eu entendo que você queria esconder esta terrível cicatriz da... "boca"...
a enfermeira agarra o médico pelo colarinho.
enfermeira
(GRITANDO) Minha boca não é uma cicatriz, idiota! Este paciente não tem um ferimento no rosto e você não está se comunicando comigo por telepatia!!!!!
médico
Como é que você faz para gritar tão alto comigo com o cérebro?
enfermeira
Eu não estou usando o cérebro para me comunicar com você, mesmo porque você não tem nenhum! Nenhum! Nenhum!
médico
Você viu minhas radiografias?
a maquininha que faz "ping" do paciente começa a tocar alto. A enfermeira olha e esquece a discussão.
enfermeira
Veja, doutor, estamos perdendo o paciente! A maquininha que faz "ping!" está fazendo "pong!"
médico
É verdade! (MEXE NA BOCA DO PACIENTE) É o talho, eu não disse, veja! Há um corpo estranho aqui... deve estar infeccionado e supurado... é uma espécie de apêndice...
enfermeira
É a língua, doutor!
médico
A língua? Céus! Ele está mostrando a língua para mim? (GRITA PARA FORA DE CENA) Companheiros! O paciente está mostrando a língua para mim!
entram os restantes integrantes do elenco e correm para o paciente, cobrindo-o da vista do público e de porrada. ouvem-se "ais" e "uis" enquanto ele é barbaramente espancado. A enfermeira anda até um canto. O médico se aproxima.
médico
Algum problema?
enfermeira
Era verdade, doutor...
médico
O quê?
enfermeira
Eu realmente uso uma máscara porque um residente ciumento jogou ácido em meu rosto... eu ia ser a maior médica do mundo, agora fico aqui, rondando o subterrâneo do hospital, disfarçada de enfermeira...
médico
Mas por quê?
enfermeira
Porque eu o amo!
médico
Oh!
enfermeira
Isso tudo me deixou muito abalada, doutor... vamos transar?
médico
Tudo bem...
os dois saem de cena. uma máscara voa para o palco do lado de onde eles vieram!
médico
Oh! Então isto que é uma boca!
locutor
Hospital DPTV... onde é necessário uma decisão a cada momento...
uma paciente sentado na maca é empurrada para o palco. entra um médico.
paciente
Olá, doutor...
médico
Olá...
paciente
Por que essa cara, doutor, o que houve?
médico
Eu tenho algo muito sério para lhe dizer, sra. Atkins...
paciente
O que foi, doutor?
médico
É aquela mancha que vimos na sua radiografia...
paciente
O que tem ela, doutor?
médico
Era o que temíamos.
paciente
Não!
médico
Sim. Seu clitóris só tem seis semanas de vida.
paciente
Mas, doutor... Disseram-me que havia tratamentos. Laser, quimioterapia...
médico
A medicina tem seus limites, sra. Atkins...
paciente
E não tem como se fazer uma... prótese?
médico
Bem, temos algumas experiências nos Estados Unidos em que se implantaram pênis ridiculamente pequenos, mas ainda está em fase experimental e há poucos doadores...
paciente
O que foi feito do que era da Roberta Close?
médico
Ah, naquela época a doação de órgãos ainda não era compulsória...
paciente
Oh, doutor... Isso me abalou demais... quer transar comigo enquanto ele ainda está vivo?
médico
Como a senhora quiser, sra. Atkins...
os dois saem de cena e roupas voam para o palco.
locutor
Hospital DPTV... Onde o drama da vida e da morte se repete a cada minuto...
a sonoplastia dá o som de bip... BIP... aquela maquininha que faz ping. Outra maca entra, com o paciente coberto. O bip bip continua, mas vai ficando cada vez mais fraco. Até que ele termina e fica só aquele PIIIIIIIIIIII de coração parado. o Médico entra, se vestindo, preocupado. Tira o pulso do paciente. Bate no peito dele. Tenta ressuscitá-lo. Finalmente desiste e grita, para fora do palco.
médico
Avisa o Coiote! O Bip Bip morreu!
entra a enfermeira.
enfermeira
Oh, doutor, isto me abala muito. Quer transar comigo?
médico
Claro, sim, por que não?
os dois saem de cena. roupas voam para o palco.
locutor
Hospital DPTV! Estréia amanhã!
locutor
O canal DPTV seriados apresenta o novo líder de audiência nos EUA! Hospital DPTV!
entra um médico acompanhando um paciente na maca. A mulher do paciente está preocupada enquanto o médico procura por algo com o estetoscópio.
mulher
Doutor... quais são as chances do meu marido?
o médico cobre o paciente com um lençol.
médico
Eu diria que são poucas...
mulher
Oh! Doutor, eu estou tão abalada... quer transar comigo?
médico
Só se for agora.
os dois saem. A maca é retirada.
locutor
Hospital DPTV... Onde se aposta uma corrida perdida contra a morte...
uma enfermeira entra carregando um acidentado deitado numa maca, correndo, apressada, assustada...
enfermeira
Doutor, doutor, temos um acidente de carro!
entra o médico. tanto o médico quanto a enfermeira estão usando máscaras cirúrgicas.
médico
Ei, mas isso não é um carro!
enfermeira
Claro que não, doutor, este é a vítima!
médico
Ainda bem, porque isto não é uma oficina... se fosse, estaríamos todos ricos, não é, ha, ha, ha?
o médico olha para a enfermeira, que não está achando a menor graça.
médico
(CONSTRANGIDO) Bem, vamos ver então sua vítima... (EXAMINA A VÍTIMA) Hmm... veja isso... dois profundos buracos no nariz... e, céus, veja que talho enorme e profundo aqui, debaixo do nariz!
enfermeira
Doutor... isto são as narinas do paciente... e esta é a boca.
médico
Você está tentando me ensinar medicina, enfermeira?
enfermeira
Não, senhor, mas...
médico
Então que história é essa de "boca"? Veja só que ferimento horroroso... os ossos debaixo dele estão todos quebrados...
enfermeira
Estes são os dentes, doutor...
médico
E veja como a área em redor do talho está vermelha e intumescida!
enfermeira
Doutor, estes são os lábios...
médico
Ha, ha, ha, enfermeira, todos nós sabemos que lábios... hmmmm... intumescidos... ficam bem mais embaixo...
enfermeira
(IRANDO-SE) Doutor, o senhor está falando da boca do paciente! Isto não é um ferimento! Isto tem na cara de todo mundo!
médico
Deixe de bobagens, enfermeira! Isto é sério, é um caso de vida e morte! Se esta "boca" tem na face de todo mundo, por que não tem na sua, por exemplo?
enfermeira
Porque estou usando uma máscara!
médico
Uma máscara? Por quê? Por que você usa uma máscara dentro do hospital, enfermeira? Por acaso está roubando drogas do estoque do hospital para viciados?
enfermeira
É lógico que não, doutor!
médico
Como "é lógico que não"? Por que alguém usaria uma máscara no local de trabalho? Já imaginou, você entra num banco e estão todos mascarados? (APROXIMA-SE E FALA BAIXINHO E COMPREENSIVO PARA A ENFERMEIRA) Algum residente jogou ácido no seu rosto e por isso você fica vagando pelos subterrâneos do hospital?
enfermeira
Não, doutor, não é nada disso! (OLHA O PACIENTE)
mÉDICO
Então por que você usa uma máscara? Pode me contar, se você tiver uma deformação tão horrível quanto essa... "boca"... que tem no paciente!
enfermeira
Boca não é uma deformação horrível! É o que a gente usa para falar! Como você acha que estamos nos comunicando?
médico
Ué, não é telepatia?
enfermeira
Não, não é telepatia! Estamos usando a boca!
médico
Você usa um ferimento para emitir pensamentos?
enfermeira
Eu não estou emitindo pensamentos! Eu estou falando! Falando!
a enfermeira tenta tirar a máscara, mas ela está muito bem presa.
enfermeira
Droga de máscara... não quer sair...
médico
Calma... não precisa tirá-la... eu entendo que você queria esconder esta terrível cicatriz da... "boca"...
a enfermeira agarra o médico pelo colarinho.
enfermeira
(GRITANDO) Minha boca não é uma cicatriz, idiota! Este paciente não tem um ferimento no rosto e você não está se comunicando comigo por telepatia!!!!!
médico
Como é que você faz para gritar tão alto comigo com o cérebro?
enfermeira
Eu não estou usando o cérebro para me comunicar com você, mesmo porque você não tem nenhum! Nenhum! Nenhum!
médico
Você viu minhas radiografias?
a maquininha que faz "ping" do paciente começa a tocar alto. A enfermeira olha e esquece a discussão.
enfermeira
Veja, doutor, estamos perdendo o paciente! A maquininha que faz "ping!" está fazendo "pong!"
médico
É verdade! (MEXE NA BOCA DO PACIENTE) É o talho, eu não disse, veja! Há um corpo estranho aqui... deve estar infeccionado e supurado... é uma espécie de apêndice...
enfermeira
É a língua, doutor!
médico
A língua? Céus! Ele está mostrando a língua para mim? (GRITA PARA FORA DE CENA) Companheiros! O paciente está mostrando a língua para mim!
entram os restantes integrantes do elenco e correm para o paciente, cobrindo-o da vista do público e de porrada. ouvem-se "ais" e "uis" enquanto ele é barbaramente espancado. A enfermeira anda até um canto. O médico se aproxima.
médico
Algum problema?
enfermeira
Era verdade, doutor...
médico
O quê?
enfermeira
Eu realmente uso uma máscara porque um residente ciumento jogou ácido em meu rosto... eu ia ser a maior médica do mundo, agora fico aqui, rondando o subterrâneo do hospital, disfarçada de enfermeira...
médico
Mas por quê?
enfermeira
Porque eu o amo!
médico
Oh!
enfermeira
Isso tudo me deixou muito abalada, doutor... vamos transar?
médico
Tudo bem...
os dois saem de cena. uma máscara voa para o palco do lado de onde eles vieram!
médico
Oh! Então isto que é uma boca!
locutor
Hospital DPTV... onde é necessário uma decisão a cada momento...
uma paciente sentado na maca é empurrada para o palco. entra um médico.
paciente
Olá, doutor...
médico
Olá...
paciente
Por que essa cara, doutor, o que houve?
médico
Eu tenho algo muito sério para lhe dizer, sra. Atkins...
paciente
O que foi, doutor?
médico
É aquela mancha que vimos na sua radiografia...
paciente
O que tem ela, doutor?
médico
Era o que temíamos.
paciente
Não!
médico
Sim. Seu clitóris só tem seis semanas de vida.
paciente
Mas, doutor... Disseram-me que havia tratamentos. Laser, quimioterapia...
médico
A medicina tem seus limites, sra. Atkins...
paciente
E não tem como se fazer uma... prótese?
médico
Bem, temos algumas experiências nos Estados Unidos em que se implantaram pênis ridiculamente pequenos, mas ainda está em fase experimental e há poucos doadores...
paciente
O que foi feito do que era da Roberta Close?
médico
Ah, naquela época a doação de órgãos ainda não era compulsória...
paciente
Oh, doutor... Isso me abalou demais... quer transar comigo enquanto ele ainda está vivo?
médico
Como a senhora quiser, sra. Atkins...
os dois saem de cena e roupas voam para o palco.
locutor
Hospital DPTV... Onde o drama da vida e da morte se repete a cada minuto...
a sonoplastia dá o som de bip... BIP... aquela maquininha que faz ping. Outra maca entra, com o paciente coberto. O bip bip continua, mas vai ficando cada vez mais fraco. Até que ele termina e fica só aquele PIIIIIIIIIIII de coração parado. o Médico entra, se vestindo, preocupado. Tira o pulso do paciente. Bate no peito dele. Tenta ressuscitá-lo. Finalmente desiste e grita, para fora do palco.
médico
Avisa o Coiote! O Bip Bip morreu!
entra a enfermeira.
enfermeira
Oh, doutor, isto me abala muito. Quer transar comigo?
médico
Claro, sim, por que não?
os dois saem de cena. roupas voam para o palco.
locutor
Hospital DPTV! Estréia amanhã!
Onipresença
Um naufrágio
corpos
agarrados a um
salva-vidas
entre céu e peixes.
Nós, sobreviventes
pela telefoto
vendo os que
buscam um ponto
de apoio
na salsa
e falsa
valsa
das ondas
Um maremoto
no Paquistão
remoto
quase um milhão
de mortos;
nós, sobreviventes
por onipresença
Uma explosão
na mina de carvão
em Guadalupe
200 soterrados
asfixiados
a quem Deus
tapou
o céu (da boca)
nós, sobreviventes
por telstar
(ou não'star)
Onde se está,
está
o centro, está-se
dentro do mesmo
acontecimento.
Não
é preciso estar
no epicentro
Dentro de cada
um de nós mora
o que acontece em
qualquer hora da
geografia
Piratas
po-voando
o céu, lado a lado.
Cada um de nós o
sobrevivente
de um avião
sequestrado.
(Cassiano Ricardo)
corpos
agarrados a um
salva-vidas
entre céu e peixes.
Nós, sobreviventes
pela telefoto
vendo os que
buscam um ponto
de apoio
na salsa
e falsa
valsa
das ondas
Um maremoto
no Paquistão
remoto
quase um milhão
de mortos;
nós, sobreviventes
por onipresença
Uma explosão
na mina de carvão
em Guadalupe
200 soterrados
asfixiados
a quem Deus
tapou
o céu (da boca)
nós, sobreviventes
por telstar
(ou não'star)
Onde se está,
está
o centro, está-se
dentro do mesmo
acontecimento.
Não
é preciso estar
no epicentro
Dentro de cada
um de nós mora
o que acontece em
qualquer hora da
geografia
Piratas
po-voando
o céu, lado a lado.
Cada um de nós o
sobrevivente
de um avião
sequestrado.
(Cassiano Ricardo)
Chapada Diamantina - Reveillon 2007/2008
Eu prefiro as curvas da estrada de Santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive
E que vi pelo espelho na distancia se perder
Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
E na Estrada de Santos nao vou mais passar
(Na verdade, a estrada do Vale de Jequitinhonha, um dos lugares mais pobres do Brasil. A Suzy me chamou a atenção para que eu reparasse que na beira da estrada havia vendinhas paupérrimas de frutas, cabaças ou afins; depois de um certo tempo, a miséria era tanta que nem isso - as pessoas simplesmente ficavam na beira da estrada erma, esperando um carro passar e pedindo esmola, sem nada para oferecer)
Vietnã
A morte
por acaso
ou
azul
no baralho
da sorte
a morte
sem
sul
nem
norte
sul e norte
uma coisa
só
num só vento
forte
cabeças
arrancadas
ceifadas
ao chão
seu
suporte
a morte
curinga
do sul
e
do
norte
o norte
sem
sul
o sul sem
norte
viagem
sem
passaporte
(Cassiano Ricardo)
por acaso
ou
azul
no baralho
da sorte
a morte
sem
sul
nem
norte
sul e norte
uma coisa
só
num só vento
forte
cabeças
arrancadas
ceifadas
ao chão
seu
suporte
a morte
curinga
do sul
e
do
norte
o norte
sem
sul
o sul sem
norte
viagem
sem
passaporte
(Cassiano Ricardo)
Scorpion
um buquê
de rostos
imóveis
no submarino
morto
sobreviventes?
só nós
ouvindo o
rádio
anunciar
que não houve
sobreviventes
(Cassiano Ricardo)
de rostos
imóveis
no submarino
morto
sobreviventes?
só nós
ouvindo o
rádio
anunciar
que não houve
sobreviventes
(Cassiano Ricardo)
Poema de Diane di Prima
PESADELO 5
Ban Ban Ban
Quem é perguntei
A pessoa diz que veio desligar o gás
Desculpe disse mas estou na cama volte mais tarde por favor
Eu espero disse ele
Está bom disse e lhe dou 57 horas e 40 minutos para desistir. Saio então, apressadamente, em direção ao banheiro
Olá diz ele
Olá digo
Desculpe ser obrigado a desligar o relógio diz ele. Tenho que ganhar a vida diz ele. Tenho uma família
Eu sei disse é sempre o que vocês dizem e vão em frente. Quando você sair vou arrancar esse maldito selo
Não vai conseguir disse ele agora é feito de uma nova liga. Gastaram 30 milhões de dólares para fazer essa liga. Não há jeito de arrancar diz ele
Está bem disse faça seu serviço e vá pra casa. Vou ao banheiro
Eu fui, ele fez, foi embora, subi numa cadeira. E tentei cortar o selo martelo formão tentei de novo escorregou quebrei as unhas tentei tentei cortar tentei. Sopa para cozinhar
Doze horas depois fui ao farmacêutico. Olá disse tenho uma conta a pagar de uns comprimidos de benzedrina dê-me um vidrinho de ácido fluorídrico
Olha disse ele não sei se posso. Comprimidos é uma coisa disse ele mas esse negócio de ácido é outra coisa
Seja bonzinho disse preciso fazer a comida e eles selaram o relógio do gás você sabe comida você entende
Está bem disse ele mas cuidado
Pingo
Buraco também na mesa no chão talvez no andar de baixo não sei mas buraco no selo também lata de sopa aberta. Oba
Mas vejam só não tenho fósforo uma piada o gás ligado e não tenho fósforos não faz mal.
Gás não falta mas não tenho apetite
Ban Ban Ban
Quem é perguntei
A pessoa diz que veio desligar o gás
Desculpe disse mas estou na cama volte mais tarde por favor
Eu espero disse ele
Está bom disse e lhe dou 57 horas e 40 minutos para desistir. Saio então, apressadamente, em direção ao banheiro
Olá diz ele
Olá digo
Desculpe ser obrigado a desligar o relógio diz ele. Tenho que ganhar a vida diz ele. Tenho uma família
Eu sei disse é sempre o que vocês dizem e vão em frente. Quando você sair vou arrancar esse maldito selo
Não vai conseguir disse ele agora é feito de uma nova liga. Gastaram 30 milhões de dólares para fazer essa liga. Não há jeito de arrancar diz ele
Está bem disse faça seu serviço e vá pra casa. Vou ao banheiro
Eu fui, ele fez, foi embora, subi numa cadeira. E tentei cortar o selo martelo formão tentei de novo escorregou quebrei as unhas tentei tentei cortar tentei. Sopa para cozinhar
Doze horas depois fui ao farmacêutico. Olá disse tenho uma conta a pagar de uns comprimidos de benzedrina dê-me um vidrinho de ácido fluorídrico
Olha disse ele não sei se posso. Comprimidos é uma coisa disse ele mas esse negócio de ácido é outra coisa
Seja bonzinho disse preciso fazer a comida e eles selaram o relógio do gás você sabe comida você entende
Está bem disse ele mas cuidado
Pingo
Buraco também na mesa no chão talvez no andar de baixo não sei mas buraco no selo também lata de sopa aberta. Oba
Mas vejam só não tenho fósforo uma piada o gás ligado e não tenho fósforos não faz mal.
Gás não falta mas não tenho apetite
Sob o Signo de Peixes

Quarta-feira dia 20 é meu aniversário. Dia 22 tem festa na casa do Glauber - Álvaro Ramos 535/202.
(Foto de Henrique Koifman)
fevereiro 10, 2008
Guantanamera!!!!!
Velho esquete besteirol de 1992.
Uma mesa de bar. Um homem e uma mulher sentam-se nela. A Garçonete chega para atendê-los.
garçonete
Desejam alguma coisa para beber?
abelardo
Um gim-tônica, por favor.
garçonete
Infelizmente, nosso perfume acabou. Não deseja outra coisa?
abelardo
A gente pensa depois... o que tem para se comer?
garçonete
Sanduíche de mortadela.
abelardo
Sanduíche de mortadela? Como assim? O que tem de prato?
garçonete
Nada. No momento só temos sanduíche de mortadela.
abelardo
Mas como um restaurante pode só ter sanduíche de mortadela? Isso é um absurdo!
Garçonete
(PENSANDO QUE ELE ESTÁ SE REFERINDO À COMIDA E BEBIDA) Desculpe, mas, sabe, né, o senhor tem que compreender, nós temos passado por alguns problemas... nosso cozinheiro descobriu que o barman era na realidade João Alberto, o irmão de quem ele tinha sido separado na infância pela madrasta que estava de olho na herança que Jonas Ricardo ia deixar para Lucilene e aí os capangas de Renato Albuquerque sequestraram o infeliz e o levaram para a madame Márcia Alvarenga e desde então ele perdeu sua mão para temperos...
O homem e a mulher ficam olhando incrédulos para a garçonete
florisbela
A cozinha desse restaurante é sempre tão animada assim?
garçonete
O que vocês queriam de um restaurante mexicano?
florisbela
Oh!
Entra o dono do bar
Diego dolanogo
(ENCOLERIZADO) O que você está fazendo aí, Lupe Esmeralda? Conversando com os fregueses novamente?
garçonete
(AJOELHANDO-SE FRENTE A ELE) Não, Dom diego Dolanogo, eu estava apenas anotando o pedido deles! Juro pela alma da minha avó que morreu de tristeza ao saber que seu marido havia sido morto em combate quando as tropas de Emiliano Zapata atacaram o Palácio Presidencial!
diego Dolanogo
É mentira! Não vi você anotando nada em seu bloco! Lembre-se que está aqui apenas para me proporcionar lucro! Você não é nada, é apenas uma reles garçonete que nunca chegará a lugar algum! Anote imediatamente os pedidos ou eu a porei no olho da rua!
garçonete
Não, dom Diego Dolanogo, não! Se o senhor me puser no olho da rua, não terei como sustentar minha mãe, meus sete irmãos e meu padrinho de crisma que esperam há anos em vão pelo meu pai, que se juntou às tropas de Hugo Sanchéz e foi dado como desaparecido, mas que ela jura que está vivo e que a visitou numa noite, há muitos anos atrás, depois de seu desaparecimento!
diego Dolanogo
Então nunca se esqueça que você está aqui para trabalhar! Vamos, anote logo os pedidos... (TOM - INSINUANTE) e depois, apareça no meu escritório... se você for boazinha comigo... talvez até eu lhe dê um bônus... um dinheirinho extra para você levar para sua família... (SAI, RINDO PARA DENTRO)
garçonete
Oh! Um bônus! Que felicidade! Carmem Maura poderia até pagar sua operação para a correção do hipotálamo e voltar a andar... quem sabe até volte ao time de triatlo do colégio... e Pedro Rubiño poderia pagar sua matrícula na Escola de Pintura... oh! E tudo que eu tenho a fazer é ser boazinha com ele! Oh! (VAI SAINDO, MAS DE REPENTE PÁRA) O que será que ele quis dizer com isso? (SAI)
florisbela
Que lugar estranho, Abelardo...
abelardo
Até que nem tanto... Lembra do restaurante japonês que fomos outro dia e quando reclamamos que o sushi estava ruim, o cozinheiro veio até nossa mesa, gritou "estou desonrado" e começou a fazer hara-kiri?
florisbela
É... e o pior foi que por não ter faca, ele teve que abrir a barriga com os dois palitos...
abelardo
(PEGANDO AS MÃOS DELA, ROMÂNTICO) Florisbela... eu... eu a trouxe aqui... porque queria lhe pedir uma coisa...
florisbela
O quê, Abelardo?
abelardo
Eu... eu...
Entram dois mariachis, só que fantasiados de feijão e vestidos com roupa de aeróbica, cantando guantanamera. Abelardo e florisbela ficam olhando surpresos. A garçonete volta.
garçonete
E então? Já decidiram seus pedidos? Vão querer sanduíche de mortadela?
abelardo
O que é isto?
garçonete
Nossos Mariachis.
florisbela
Mas eles são feijões!
garçonete
Dom Diego Dolanogo é um homem muito parcimonioso com despesas... como um restaurante mexicano tem que ter mariachis e feijões saltitantes, ele resolveu contratar logo feijões saltitantes que fossem mariachis.
abelardo
E por que essa roupa de ginástica?
garçonete
Ah, é que como temos muitos fregueses publicitários moderninhos, ele achou que em vez de feijões saltitantes, seria melhor ter feijões aeróbicos...
feijões
Guantanamera... larila, Guantanamera... Guantanameeeeeera! Larila Guantanameeera!
garçonete
E então? Vão querer os sanduíches de mortadela?
abelardo
(ATÔNITO) Depois... depois...
garçonete
Está bem... (SAI)
Os feijões permanecem cantando guantanamera. Abelardo pega novamente na mão de florisbela.
abelardo
Florisbela... eu... eu... queria pedir sua mão em casamento!
florisbela
Oh! Abelardo! Mesmo sabendo que eu sou prima-irmã de Madame Márcia Alvarenga? E que nossas famílias não nos apoiarão nesse plano insano?
abelardo
Tudo por você, Florisbela... tudo!
florisbela
Eu... eu... eu preciso pensar, Abelardo... por favor... eu... eu vou ao banheiro... preciso de um pouco de ar... (LEVANTA-SE E VAI AO BANHEIRO)
UM DOS FEIJÕES PARA DE TOCAR E SENTA-SE À MESA COM ABELARDO. O outro continua com guantanamera.
FEIJÃO 1
É muito bom ter uma mulher que o ame...
abelardo
(ALGO ATÔNITO) Sim... sem dúvida...
feijão 1
Minha vida sempre foi a música... mas não tinha dinheiro para pagar a Escola de Música... então tive que ganhar a vida tocando em bares... e estudar sozinho, sonhando em um dia poder tocar na Orquestra Sinfônica Nacional... e nos bares, ninguém nunca prestava atenção em minha música... em alguns deles, nos sábados, eu tinha que ficar precavido e atento a tudo... pois era o dia da feijoada completa... e depois, voltava para casa e estudava... nunca tive tempo para o amor... até conhecer Maria...
abelardo
Maria?
feijão 1
Sim... Maria... uma das minhas alunas de música... cantora lírica... eu a amava, Deus, como a amava... até compus uma sinfonia para ela... mas meu irmão gêmeo descobriu tudo... seduziu Maria e roubou minha sinfonia... e ainda desfigurou meu rosto com ácido!
abelardo
Com... ácido?
feijão 1
Sim... isto é apenas uma máscara! (TIRA A MÁSCARA E MOSTRA SUAS FEIÇÕES DE FEIJÃO DESFIGURADO PARA ABELARDO)
abelardo
Oh!
feijão 1
Sim... esta é minha vida... de dia toco aqui, e, à noite, rondo pelos bastidores da Ópera onde minha sinfonia vai ser executada... eles querem dar o papel da solista para Zupe Barrios, mas vou fazê-la sofrer um acidente, e Maria, que é uma das coristas, terá o papel principal... ela merece... pode ter cedido ao meu irmão gêmeo, mas posso perdoá-la... ele é muito sedutor... ela merece tudo... e eu... nem sequer tenho um rosto para beijá-la (PÕE AS MÃOS NO ROSTO DESFIGURADO E CHORA)
florisbela volta do banheiro, em lágrimas.
abelardo
(VENDO FLORISBELA) E então, meu amor? Já decidiu?
florisbela
Abelardo... eu... eu... (CHORA) Perdi minha virtude!
abelardo
Isso é o de menos, Florisbela... pior seria se perdesse o cabaço...
florisbela
Você não entendeu, Abelardo... isso é uma metáfora!
abelardo
Metáfora? Metáfora? Quer dizer que Gerald Thomas está envolvido nisso?
florisbela
(CHORANDO) Não... era um Feijão... muito parecido com esse, se não fosse desfigurado... ele foi tão gentil e solícito pegando para mim a toalha de papel... quando dei por mim... já havia acontecido!
feijão 1
Meu irmão gêmeo! Preciso pegá-lo! (SAI, CORRENDO) Finalmente o farei pagar por tudo!
abelardo
Querida, do jeito que você está falando parece até que perdeu seu hímem...
florisbela
Mas foi, Abelardo! Perdi minha virgindade! Minha pureza!
abelardo
Oh! Oh! Oh, oh, oh! Oh, não! Nosso amor tão puro e casto... como pôde traí-lo assim? Como pôde se tornar uma caída?
Entra a garçonete
garçonete
O que aconteceu? Você parece chocado!
abelardo
Minha noiva... é uma caída! Não podemos mais nos casar!
florisbela
(IMPLORANDO À GARÇONETE) Eu não tenho para onde ir! Você sabe de algum lugar onde eu possa ficar?
garçonete
Bem, não posso levar você comigo... a vizinhança começaria logo a falar... mas posso falar com Madame Fifi... ela... (DISCRETA) cuida do andar de cima...
florisbela
É o que eu mereço agora... chame-a!
A garçonete acede e sai enquanto florisbela se senta e fica chorando copiosamente na mesa. entra madame fifi.
madame fifi
Soube que a menina tem um passado... vamos, não fique assim... você tem uma vida pela frente... uma menina bonita como você vai atrair muita atenção...
florisbela
Como uma pecadora como eu pode ter algum atrativo para um homem?
madame fifi
Você é muito inexperiente, menina... o mundo está cheio de casamentos sem amor... cujo fogo da paixão há muito já se apagou... muitos homens saem então de seus lares, em busca do afeto e da ternura que não mais encontram no recôndito doméstico e procuram casas como a minha... a maioria das vezes, apenas para conversar... com uma mulher que os escute, que lhes dê atenção e carinho... para eles, não interessa a vida pregressa dessas moças... eles querem apenas sonhar que têm uma companheira que os apóie em seus momentos de fraqueza, que não podem revelar em casa... (PEGA O ROSTO DE FLORISBELA PELO QUEIXO) Vamos, menina... deixe disso... Madame Fifi cuidará de você... eu lhe ensinarei tudo o que sei... e quem sabe, algum dia, mais experiente, você possa superar tudo isso e lutar por seu amor perdido?
florisbela
(OLHANDO ABELARDO) Isto... eu sei que é um sonho impossível... (LEVANTA-SE) Vamos, Mme. Fifi. Leve-me para minha nova casa...
madame fifi sai, levando florisbela. Abelardo começa a chorar. O mariachi continua tocando. Entra Pérola niegra.
garçonete
(VENDO PÉROLA NIEGRA) Oh! É Pérola Niegra, a antiga proprietária deste restaurante que Dom Diego Dolanogo enganou e levou à ruína.
pérola Niegra
Como vai, Lupe Esmeralda? Onde está seu patrão?
garçonete
Ele... está nos fundos...
pérola niegra
Traga-o. Diga que Pérola Niegra está aqui...(EXIBE UM ENVELOPE) E tem a carta!
A Garçonete sai, preocupada, enquanto pérola niegra espera. Ela vê abelardo.
Pérola Niegra
O que temos aqui, um maricas? Não sabe que homens não devem chorar?
abelardo
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida... e tornou-se o mais triste!
pérola Niegra
E tudo o que você sabe fazer é ficar aí nessa mesa, chorando? Não é à toa que o mundo está perdido! Os poucos homens que ainda têm tutano são os canalhas. Os outros sabem apenas sentar-se numa mesa e chorar. Qualquer decepção e acham que sua vida terminou, que está tudo acabado!
abelardo
Minha noiva... eu ia pedi-la em casamento hoje... mas quando ela foi ao banheiroperdeu a pureza e agora está numa casa de tolerância!
pérola niegra
E daí? Você acha que é o primeiro homem cuja noiva torna-se uma das meninas de Madame Fifi justo quando ia casar com ela? Isto é motivo para você ficar assim? Sua noiva perdeu a pureza, não o braço, a perna ou o intestino! Pior é você, que parece ter perdido todo o tutano. Pense bem, ela gostaria de vê-lo assim? É essa a imagem que você quer que ela tenha de você?
abelardo
Mas... eu queria tanto casar com ela!
pérola niegra
Então, case-se! Você é um homem ou um rato?
Entra Diego dolanogo.
diego dolanogo
Eu disse para que nunca mais pisasse aqui, Pérola Niegra.
pérola niegra
As coisas mudaram, Diego... eu tenho... a carta!
diego dolanogo
E você acha que eu teria medo de uma simples carta?
pérola Niegra
Esta não é uma simples carta, Diego... é uma carta falante!
diego dolanogo
(ASSUSTADO) Uma... uma carta falante?
pérola Niegra
(ENTREGANDO A CARTA PARA DIEGO) Veja você mesmo... se tiver coragem...
diego hesita em pegar a carta, mas a pega e, tremendo, suando, a abre. desdobra-a. Assim que acaba de desdobrá-la, uma voz em off começa a falar. Cada vez que ouve a voz, diego dolanogo treme, assustado.
carta
(OFF) Caro Diego... eu sei de tudo... sei como você sempre desejou Juanita Esmeralda... sei que você era companheiro de regimento do marido dela no exército de Hugo Sanchéz e fugiu covardemente quando ambos poderiam ter tomado o Palácio Presidencial sózinhos... ninguém ficou sabendo e você acabou sendo condecorado por isso... e, assim que deu baixa, disfarçou-se como o desaparecido marido de Juanita Esmeralda... e assim, conseguiu introduzir-se no leito dela, levando-a a crer que fora visitada pelo esposo, o que fez todos pensarem que era louca e encheu sua família de esperança... o que você não sabe, é que aquela noite de amor deu frutos... uma menina, com os olhos (DESCREVE A GARÇONETE)... uma menina, nascida exatamente nove meses depois daquela noite que você jamais esqueceu... uma menina, que para sustentar a família, teve que aceitar um humilde emprego de garçonete... no restaurante de seu pai! Sim, Lupe Esmeralda é sua filha, Diego Dolanogo! Sua filha! A única que você jamais terá, já que uma doença depois o tornou estéril! E você a vem maltratando todos esses anos!
diego dolanogo
Lupe Esmeralda... minha filha? E eu... todos esses anos... alimentando fantasias licenciosas a seu respeito... minha própria filha! Mas não, não era eu que a maltratava! Não, não era! Era aquele jovem covarde... que deixou Pablo Esmeralda morrer em combate... e levou a glória... aquele jovem que, por causa desta mancha em seu passado, nunca pôde revelar seu amor a Juanita Esmeralda... sim, era ele que a maltratava, que projetava nela todas as suas frustrações em relação a sua mãe... agora vejo claramente... estive louco estes anos todos... louco e cego... (A LUPE) Sei que você jamais poderá me perdoar, Lupe, mas acredite... meu arrependimento é sincero... toda minha vida foi um desperdício... Juanita, Juanita... você nunca saberá o quanto a amei... de toda a minha vida, apenas aquela noite pôde justificar minha vinda a este mundo... (VAI SAINDO, LENTAMENTE)
garçonete
Ele... ele é meu pai! Eu tenho um pai! Oh, agora poderemos fazer todas as coisas que pai e filha fazem juntos! Eu sentarei em seu colo e ele fará cavalinho comigo! Ele me levará a peças infantis de qualidade duvidosa e depois de um lanche de comida intragável no Mr. Croquette, levá-lo-ei à loucura conversando com todos os meninos com cara de marginal que encontrarmos no shopping!
Súbito, vindo do canto para onde diego dolanogo saiu, ouve-se um tiro.
GARÇONETE
Papai! (SAI, CORRENDO)
O feijão continua tocando. abelardo continua chorando. Pérola Niegra olha para ele.
PÉROLA NIEGRA
Bem, vou-me embora... já fiz aqui o que tinha que fazer... (PARA ABELARDO) E você, garoto?
abelardo
Deixe-me em paz...
pérola Niegra
Você pode falar isso para mim, garoto... mas não para a Vida! (SAI)
entra madame fifi. Senta-se à mesa de abelardo.
madame fifi
É, é hora de partir. Com Lupe Esmeralda como a nova dona deste restaurante, não haverá mais um "andar de cima". Mas isso não me afeta. Sempre haverá um lugar para as meninas da Madame Fifi. E fico feliz que Lupe Esmeralda não tenha acabado como uma delas...
abelardo
Como Florisbela...
madame fifi
Você sempre poderá visitá-la em minha casa...
abelardo
(PULANDO EM CIMA DELA) Como, como ousa falar assim? Eu a amava, eu a amo, e não posso mais tê-la! Só a teria como esposa, minha esposa, está entendendo? Meu amor, eu sempre guardei apenas para uma mulher, e esta mulher era Florisbela! Florisbela! Se não puder tê-la como esposa, não a terei como uma de suas... (COM NOJO) Meninas! Nem a ela, nem a nenhuma outra mulher! Nunca mais tocarei uma mulher! Florisbela pode ter ido, mas meu amor por ela continua!
Entra o feijão desfigurado, cambaleante.
feijão 1
É justo que morramos juntos, irmão... afinal de contas... sempre fomos como duas imagens num espelho... um espelho distorcido... porém um espelho...
madame fifi
Pois então, o que o impede? Ela também só pensa em você! Passa o tempo todo pensando em você, torcendo para que encontre uma mulher que o mereça e que possa realmente lhe dar uma família! Filhos sadios, saudáveis, sem as doenças com que o passado provavelmente marcou seu corpo! Vamos, deixe disso, case-se com ela!
feijão 1
(CAINDO AO CHÃO) Você pagou por seus crimes, irmão... e eu, pela minha omissão... estamos quites... com nós mesmos e com o Destino... nós, que amávamos a mesma mulher... Você já foi, irmão... agora é minha vez... Maria! Maria! Maria! (MORRE)
abelardo
Mas como posso perdoá-la? Como posso confiar nela depois disso tudo?
madame fifi
Foi um momento de fraqueza! Todos estamos sujeitos a isso! Ela já se arrependeu! E aquele que se aproveitou dela já pagou com a vida por isso! Ela agora sabe que o amor é muito maior e mais importante do que qualquer outra coisa! E você, como pode lhe cobrar algo? Já imaginou que, se tivesse ido ao banheiro com ela, nada disso teria acontecido?
abelardo
Eu... eu... eu não posso... eu não... eu... eu... (CHORA) eu te amo, Florisbela! Eu te perdoaria tudo, se pudesse tê-la de novo em meus braços! A vida sem você não tem sentido! Dane-se o que o mundo pensar! O que importa é que nós nos amamos! Oh, Deus, como nós nos amamos!
madame fifi
O mundo está cheio de ódio e desamor... um amor como o de vocês tem que se realizar... por que diz isso para ela?
abelardo
Depois do que eu lhe fiz, ela jamais me escutaria...
florisbela vem entrando, tímida, vestida como prostituta.
madame fifi
Veja quem está vindo aí. Vamos, fale com ela. Você nunca saberá se não tentar... (SAI)
abelardo
(LEVANTANDO-SE) Florisbela...
florisbela
Abelardo...
os dois se olham durante alguns momentos sem saber o que fazer. Então, subitamente correm ao encontro um do outro e se abraçam.
abelardo
Eu não posso viver sem você, Florisbela, não posso, não posso!
florisbela
Mas... o meu passado!
abelardo
Foi tudo culpa minha, Florisbela... tudo culpa minha... case-se comigo, por favor... esqueçamos tudo isso... por favor, faça de mim o homem mais feliz do mundo!
florisbela
Oh, Abelardo... como poderia lhe negar isso? Sim, sim, eu casarei com você, se é isso que você realmente deseja!
abelardo
Eu te amo, Florisbela, eu te amo!
lupe esmeralda, madame fifi e pérola niegra, que entraram e ficaram no canto durante diálogo, batem palmas, emocionadas. O feijão remanescente continua tocando. Abelardo levanta florisbela, pega-a no colo e a beija. os aplausos sobem. Ele vai levando-a embora.
FLORISBELA
Meu amor...
abelardo
Vamos, querida... um mundo de sonhos nos espera... tenho aqui comigo duas passagens para o nosso cruzeiro de lua-de-mel!
FLORISBELA
Oh, querido, que romântico!
abelardo
Sim... vamos, vamos logo! Nossa lua-de-mel será inesquecível... durante anos, contaremos a nossos netos nosso inolvidável cruzeiro... no TITANIC!
FLORISBELA
Oh, o Titanic! O mais luxuoso navio do mundo! Oh, Abelardo, o que poderia dar errado para nós agora!
Saem. o feijão continua tocando guantanamera. As mulheres que observavam a cena vão saindo. Lupe dá uma paradinha antes de deixar a cena.
garçonete
O Titanic... talvez eu devesse comprar uma passagem para minha mãe também... ela merece... e agora, que tenho este restaurante... ah, tolinha... deixe de invejar a felicidade deles... quantos anos de amor pela frente eles ainda vão ter... (SUSPIRA) Ah! Quem sabe eu não vou no Titanic também..? E encontro um amor? (SAI)
Uma mesa de bar. Um homem e uma mulher sentam-se nela. A Garçonete chega para atendê-los.
garçonete
Desejam alguma coisa para beber?
abelardo
Um gim-tônica, por favor.
garçonete
Infelizmente, nosso perfume acabou. Não deseja outra coisa?
abelardo
A gente pensa depois... o que tem para se comer?
garçonete
Sanduíche de mortadela.
abelardo
Sanduíche de mortadela? Como assim? O que tem de prato?
garçonete
Nada. No momento só temos sanduíche de mortadela.
abelardo
Mas como um restaurante pode só ter sanduíche de mortadela? Isso é um absurdo!
Garçonete
(PENSANDO QUE ELE ESTÁ SE REFERINDO À COMIDA E BEBIDA) Desculpe, mas, sabe, né, o senhor tem que compreender, nós temos passado por alguns problemas... nosso cozinheiro descobriu que o barman era na realidade João Alberto, o irmão de quem ele tinha sido separado na infância pela madrasta que estava de olho na herança que Jonas Ricardo ia deixar para Lucilene e aí os capangas de Renato Albuquerque sequestraram o infeliz e o levaram para a madame Márcia Alvarenga e desde então ele perdeu sua mão para temperos...
O homem e a mulher ficam olhando incrédulos para a garçonete
florisbela
A cozinha desse restaurante é sempre tão animada assim?
garçonete
O que vocês queriam de um restaurante mexicano?
florisbela
Oh!
Entra o dono do bar
Diego dolanogo
(ENCOLERIZADO) O que você está fazendo aí, Lupe Esmeralda? Conversando com os fregueses novamente?
garçonete
(AJOELHANDO-SE FRENTE A ELE) Não, Dom diego Dolanogo, eu estava apenas anotando o pedido deles! Juro pela alma da minha avó que morreu de tristeza ao saber que seu marido havia sido morto em combate quando as tropas de Emiliano Zapata atacaram o Palácio Presidencial!
diego Dolanogo
É mentira! Não vi você anotando nada em seu bloco! Lembre-se que está aqui apenas para me proporcionar lucro! Você não é nada, é apenas uma reles garçonete que nunca chegará a lugar algum! Anote imediatamente os pedidos ou eu a porei no olho da rua!
garçonete
Não, dom Diego Dolanogo, não! Se o senhor me puser no olho da rua, não terei como sustentar minha mãe, meus sete irmãos e meu padrinho de crisma que esperam há anos em vão pelo meu pai, que se juntou às tropas de Hugo Sanchéz e foi dado como desaparecido, mas que ela jura que está vivo e que a visitou numa noite, há muitos anos atrás, depois de seu desaparecimento!
diego Dolanogo
Então nunca se esqueça que você está aqui para trabalhar! Vamos, anote logo os pedidos... (TOM - INSINUANTE) e depois, apareça no meu escritório... se você for boazinha comigo... talvez até eu lhe dê um bônus... um dinheirinho extra para você levar para sua família... (SAI, RINDO PARA DENTRO)
garçonete
Oh! Um bônus! Que felicidade! Carmem Maura poderia até pagar sua operação para a correção do hipotálamo e voltar a andar... quem sabe até volte ao time de triatlo do colégio... e Pedro Rubiño poderia pagar sua matrícula na Escola de Pintura... oh! E tudo que eu tenho a fazer é ser boazinha com ele! Oh! (VAI SAINDO, MAS DE REPENTE PÁRA) O que será que ele quis dizer com isso? (SAI)
florisbela
Que lugar estranho, Abelardo...
abelardo
Até que nem tanto... Lembra do restaurante japonês que fomos outro dia e quando reclamamos que o sushi estava ruim, o cozinheiro veio até nossa mesa, gritou "estou desonrado" e começou a fazer hara-kiri?
florisbela
É... e o pior foi que por não ter faca, ele teve que abrir a barriga com os dois palitos...
abelardo
(PEGANDO AS MÃOS DELA, ROMÂNTICO) Florisbela... eu... eu a trouxe aqui... porque queria lhe pedir uma coisa...
florisbela
O quê, Abelardo?
abelardo
Eu... eu...
Entram dois mariachis, só que fantasiados de feijão e vestidos com roupa de aeróbica, cantando guantanamera. Abelardo e florisbela ficam olhando surpresos. A garçonete volta.
garçonete
E então? Já decidiram seus pedidos? Vão querer sanduíche de mortadela?
abelardo
O que é isto?
garçonete
Nossos Mariachis.
florisbela
Mas eles são feijões!
garçonete
Dom Diego Dolanogo é um homem muito parcimonioso com despesas... como um restaurante mexicano tem que ter mariachis e feijões saltitantes, ele resolveu contratar logo feijões saltitantes que fossem mariachis.
abelardo
E por que essa roupa de ginástica?
garçonete
Ah, é que como temos muitos fregueses publicitários moderninhos, ele achou que em vez de feijões saltitantes, seria melhor ter feijões aeróbicos...
feijões
Guantanamera... larila, Guantanamera... Guantanameeeeeera! Larila Guantanameeera!
garçonete
E então? Vão querer os sanduíches de mortadela?
abelardo
(ATÔNITO) Depois... depois...
garçonete
Está bem... (SAI)
Os feijões permanecem cantando guantanamera. Abelardo pega novamente na mão de florisbela.
abelardo
Florisbela... eu... eu... queria pedir sua mão em casamento!
florisbela
Oh! Abelardo! Mesmo sabendo que eu sou prima-irmã de Madame Márcia Alvarenga? E que nossas famílias não nos apoiarão nesse plano insano?
abelardo
Tudo por você, Florisbela... tudo!
florisbela
Eu... eu... eu preciso pensar, Abelardo... por favor... eu... eu vou ao banheiro... preciso de um pouco de ar... (LEVANTA-SE E VAI AO BANHEIRO)
UM DOS FEIJÕES PARA DE TOCAR E SENTA-SE À MESA COM ABELARDO. O outro continua com guantanamera.
FEIJÃO 1
É muito bom ter uma mulher que o ame...
abelardo
(ALGO ATÔNITO) Sim... sem dúvida...
feijão 1
Minha vida sempre foi a música... mas não tinha dinheiro para pagar a Escola de Música... então tive que ganhar a vida tocando em bares... e estudar sozinho, sonhando em um dia poder tocar na Orquestra Sinfônica Nacional... e nos bares, ninguém nunca prestava atenção em minha música... em alguns deles, nos sábados, eu tinha que ficar precavido e atento a tudo... pois era o dia da feijoada completa... e depois, voltava para casa e estudava... nunca tive tempo para o amor... até conhecer Maria...
abelardo
Maria?
feijão 1
Sim... Maria... uma das minhas alunas de música... cantora lírica... eu a amava, Deus, como a amava... até compus uma sinfonia para ela... mas meu irmão gêmeo descobriu tudo... seduziu Maria e roubou minha sinfonia... e ainda desfigurou meu rosto com ácido!
abelardo
Com... ácido?
feijão 1
Sim... isto é apenas uma máscara! (TIRA A MÁSCARA E MOSTRA SUAS FEIÇÕES DE FEIJÃO DESFIGURADO PARA ABELARDO)
abelardo
Oh!
feijão 1
Sim... esta é minha vida... de dia toco aqui, e, à noite, rondo pelos bastidores da Ópera onde minha sinfonia vai ser executada... eles querem dar o papel da solista para Zupe Barrios, mas vou fazê-la sofrer um acidente, e Maria, que é uma das coristas, terá o papel principal... ela merece... pode ter cedido ao meu irmão gêmeo, mas posso perdoá-la... ele é muito sedutor... ela merece tudo... e eu... nem sequer tenho um rosto para beijá-la (PÕE AS MÃOS NO ROSTO DESFIGURADO E CHORA)
florisbela volta do banheiro, em lágrimas.
abelardo
(VENDO FLORISBELA) E então, meu amor? Já decidiu?
florisbela
Abelardo... eu... eu... (CHORA) Perdi minha virtude!
abelardo
Isso é o de menos, Florisbela... pior seria se perdesse o cabaço...
florisbela
Você não entendeu, Abelardo... isso é uma metáfora!
abelardo
Metáfora? Metáfora? Quer dizer que Gerald Thomas está envolvido nisso?
florisbela
(CHORANDO) Não... era um Feijão... muito parecido com esse, se não fosse desfigurado... ele foi tão gentil e solícito pegando para mim a toalha de papel... quando dei por mim... já havia acontecido!
feijão 1
Meu irmão gêmeo! Preciso pegá-lo! (SAI, CORRENDO) Finalmente o farei pagar por tudo!
abelardo
Querida, do jeito que você está falando parece até que perdeu seu hímem...
florisbela
Mas foi, Abelardo! Perdi minha virgindade! Minha pureza!
abelardo
Oh! Oh! Oh, oh, oh! Oh, não! Nosso amor tão puro e casto... como pôde traí-lo assim? Como pôde se tornar uma caída?
Entra a garçonete
garçonete
O que aconteceu? Você parece chocado!
abelardo
Minha noiva... é uma caída! Não podemos mais nos casar!
florisbela
(IMPLORANDO À GARÇONETE) Eu não tenho para onde ir! Você sabe de algum lugar onde eu possa ficar?
garçonete
Bem, não posso levar você comigo... a vizinhança começaria logo a falar... mas posso falar com Madame Fifi... ela... (DISCRETA) cuida do andar de cima...
florisbela
É o que eu mereço agora... chame-a!
A garçonete acede e sai enquanto florisbela se senta e fica chorando copiosamente na mesa. entra madame fifi.
madame fifi
Soube que a menina tem um passado... vamos, não fique assim... você tem uma vida pela frente... uma menina bonita como você vai atrair muita atenção...
florisbela
Como uma pecadora como eu pode ter algum atrativo para um homem?
madame fifi
Você é muito inexperiente, menina... o mundo está cheio de casamentos sem amor... cujo fogo da paixão há muito já se apagou... muitos homens saem então de seus lares, em busca do afeto e da ternura que não mais encontram no recôndito doméstico e procuram casas como a minha... a maioria das vezes, apenas para conversar... com uma mulher que os escute, que lhes dê atenção e carinho... para eles, não interessa a vida pregressa dessas moças... eles querem apenas sonhar que têm uma companheira que os apóie em seus momentos de fraqueza, que não podem revelar em casa... (PEGA O ROSTO DE FLORISBELA PELO QUEIXO) Vamos, menina... deixe disso... Madame Fifi cuidará de você... eu lhe ensinarei tudo o que sei... e quem sabe, algum dia, mais experiente, você possa superar tudo isso e lutar por seu amor perdido?
florisbela
(OLHANDO ABELARDO) Isto... eu sei que é um sonho impossível... (LEVANTA-SE) Vamos, Mme. Fifi. Leve-me para minha nova casa...
madame fifi sai, levando florisbela. Abelardo começa a chorar. O mariachi continua tocando. Entra Pérola niegra.
garçonete
(VENDO PÉROLA NIEGRA) Oh! É Pérola Niegra, a antiga proprietária deste restaurante que Dom Diego Dolanogo enganou e levou à ruína.
pérola Niegra
Como vai, Lupe Esmeralda? Onde está seu patrão?
garçonete
Ele... está nos fundos...
pérola niegra
Traga-o. Diga que Pérola Niegra está aqui...(EXIBE UM ENVELOPE) E tem a carta!
A Garçonete sai, preocupada, enquanto pérola niegra espera. Ela vê abelardo.
Pérola Niegra
O que temos aqui, um maricas? Não sabe que homens não devem chorar?
abelardo
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida... e tornou-se o mais triste!
pérola Niegra
E tudo o que você sabe fazer é ficar aí nessa mesa, chorando? Não é à toa que o mundo está perdido! Os poucos homens que ainda têm tutano são os canalhas. Os outros sabem apenas sentar-se numa mesa e chorar. Qualquer decepção e acham que sua vida terminou, que está tudo acabado!
abelardo
Minha noiva... eu ia pedi-la em casamento hoje... mas quando ela foi ao banheiroperdeu a pureza e agora está numa casa de tolerância!
pérola niegra
E daí? Você acha que é o primeiro homem cuja noiva torna-se uma das meninas de Madame Fifi justo quando ia casar com ela? Isto é motivo para você ficar assim? Sua noiva perdeu a pureza, não o braço, a perna ou o intestino! Pior é você, que parece ter perdido todo o tutano. Pense bem, ela gostaria de vê-lo assim? É essa a imagem que você quer que ela tenha de você?
abelardo
Mas... eu queria tanto casar com ela!
pérola niegra
Então, case-se! Você é um homem ou um rato?
Entra Diego dolanogo.
diego dolanogo
Eu disse para que nunca mais pisasse aqui, Pérola Niegra.
pérola niegra
As coisas mudaram, Diego... eu tenho... a carta!
diego dolanogo
E você acha que eu teria medo de uma simples carta?
pérola Niegra
Esta não é uma simples carta, Diego... é uma carta falante!
diego dolanogo
(ASSUSTADO) Uma... uma carta falante?
pérola Niegra
(ENTREGANDO A CARTA PARA DIEGO) Veja você mesmo... se tiver coragem...
diego hesita em pegar a carta, mas a pega e, tremendo, suando, a abre. desdobra-a. Assim que acaba de desdobrá-la, uma voz em off começa a falar. Cada vez que ouve a voz, diego dolanogo treme, assustado.
carta
(OFF) Caro Diego... eu sei de tudo... sei como você sempre desejou Juanita Esmeralda... sei que você era companheiro de regimento do marido dela no exército de Hugo Sanchéz e fugiu covardemente quando ambos poderiam ter tomado o Palácio Presidencial sózinhos... ninguém ficou sabendo e você acabou sendo condecorado por isso... e, assim que deu baixa, disfarçou-se como o desaparecido marido de Juanita Esmeralda... e assim, conseguiu introduzir-se no leito dela, levando-a a crer que fora visitada pelo esposo, o que fez todos pensarem que era louca e encheu sua família de esperança... o que você não sabe, é que aquela noite de amor deu frutos... uma menina, com os olhos (DESCREVE A GARÇONETE)... uma menina, nascida exatamente nove meses depois daquela noite que você jamais esqueceu... uma menina, que para sustentar a família, teve que aceitar um humilde emprego de garçonete... no restaurante de seu pai! Sim, Lupe Esmeralda é sua filha, Diego Dolanogo! Sua filha! A única que você jamais terá, já que uma doença depois o tornou estéril! E você a vem maltratando todos esses anos!
diego dolanogo
Lupe Esmeralda... minha filha? E eu... todos esses anos... alimentando fantasias licenciosas a seu respeito... minha própria filha! Mas não, não era eu que a maltratava! Não, não era! Era aquele jovem covarde... que deixou Pablo Esmeralda morrer em combate... e levou a glória... aquele jovem que, por causa desta mancha em seu passado, nunca pôde revelar seu amor a Juanita Esmeralda... sim, era ele que a maltratava, que projetava nela todas as suas frustrações em relação a sua mãe... agora vejo claramente... estive louco estes anos todos... louco e cego... (A LUPE) Sei que você jamais poderá me perdoar, Lupe, mas acredite... meu arrependimento é sincero... toda minha vida foi um desperdício... Juanita, Juanita... você nunca saberá o quanto a amei... de toda a minha vida, apenas aquela noite pôde justificar minha vinda a este mundo... (VAI SAINDO, LENTAMENTE)
garçonete
Ele... ele é meu pai! Eu tenho um pai! Oh, agora poderemos fazer todas as coisas que pai e filha fazem juntos! Eu sentarei em seu colo e ele fará cavalinho comigo! Ele me levará a peças infantis de qualidade duvidosa e depois de um lanche de comida intragável no Mr. Croquette, levá-lo-ei à loucura conversando com todos os meninos com cara de marginal que encontrarmos no shopping!
Súbito, vindo do canto para onde diego dolanogo saiu, ouve-se um tiro.
GARÇONETE
Papai! (SAI, CORRENDO)
O feijão continua tocando. abelardo continua chorando. Pérola Niegra olha para ele.
PÉROLA NIEGRA
Bem, vou-me embora... já fiz aqui o que tinha que fazer... (PARA ABELARDO) E você, garoto?
abelardo
Deixe-me em paz...
pérola Niegra
Você pode falar isso para mim, garoto... mas não para a Vida! (SAI)
entra madame fifi. Senta-se à mesa de abelardo.
madame fifi
É, é hora de partir. Com Lupe Esmeralda como a nova dona deste restaurante, não haverá mais um "andar de cima". Mas isso não me afeta. Sempre haverá um lugar para as meninas da Madame Fifi. E fico feliz que Lupe Esmeralda não tenha acabado como uma delas...
abelardo
Como Florisbela...
madame fifi
Você sempre poderá visitá-la em minha casa...
abelardo
(PULANDO EM CIMA DELA) Como, como ousa falar assim? Eu a amava, eu a amo, e não posso mais tê-la! Só a teria como esposa, minha esposa, está entendendo? Meu amor, eu sempre guardei apenas para uma mulher, e esta mulher era Florisbela! Florisbela! Se não puder tê-la como esposa, não a terei como uma de suas... (COM NOJO) Meninas! Nem a ela, nem a nenhuma outra mulher! Nunca mais tocarei uma mulher! Florisbela pode ter ido, mas meu amor por ela continua!
Entra o feijão desfigurado, cambaleante.
feijão 1
É justo que morramos juntos, irmão... afinal de contas... sempre fomos como duas imagens num espelho... um espelho distorcido... porém um espelho...
madame fifi
Pois então, o que o impede? Ela também só pensa em você! Passa o tempo todo pensando em você, torcendo para que encontre uma mulher que o mereça e que possa realmente lhe dar uma família! Filhos sadios, saudáveis, sem as doenças com que o passado provavelmente marcou seu corpo! Vamos, deixe disso, case-se com ela!
feijão 1
(CAINDO AO CHÃO) Você pagou por seus crimes, irmão... e eu, pela minha omissão... estamos quites... com nós mesmos e com o Destino... nós, que amávamos a mesma mulher... Você já foi, irmão... agora é minha vez... Maria! Maria! Maria! (MORRE)
abelardo
Mas como posso perdoá-la? Como posso confiar nela depois disso tudo?
madame fifi
Foi um momento de fraqueza! Todos estamos sujeitos a isso! Ela já se arrependeu! E aquele que se aproveitou dela já pagou com a vida por isso! Ela agora sabe que o amor é muito maior e mais importante do que qualquer outra coisa! E você, como pode lhe cobrar algo? Já imaginou que, se tivesse ido ao banheiro com ela, nada disso teria acontecido?
abelardo
Eu... eu... eu não posso... eu não... eu... eu... (CHORA) eu te amo, Florisbela! Eu te perdoaria tudo, se pudesse tê-la de novo em meus braços! A vida sem você não tem sentido! Dane-se o que o mundo pensar! O que importa é que nós nos amamos! Oh, Deus, como nós nos amamos!
madame fifi
O mundo está cheio de ódio e desamor... um amor como o de vocês tem que se realizar... por que diz isso para ela?
abelardo
Depois do que eu lhe fiz, ela jamais me escutaria...
florisbela vem entrando, tímida, vestida como prostituta.
madame fifi
Veja quem está vindo aí. Vamos, fale com ela. Você nunca saberá se não tentar... (SAI)
abelardo
(LEVANTANDO-SE) Florisbela...
florisbela
Abelardo...
os dois se olham durante alguns momentos sem saber o que fazer. Então, subitamente correm ao encontro um do outro e se abraçam.
abelardo
Eu não posso viver sem você, Florisbela, não posso, não posso!
florisbela
Mas... o meu passado!
abelardo
Foi tudo culpa minha, Florisbela... tudo culpa minha... case-se comigo, por favor... esqueçamos tudo isso... por favor, faça de mim o homem mais feliz do mundo!
florisbela
Oh, Abelardo... como poderia lhe negar isso? Sim, sim, eu casarei com você, se é isso que você realmente deseja!
abelardo
Eu te amo, Florisbela, eu te amo!
lupe esmeralda, madame fifi e pérola niegra, que entraram e ficaram no canto durante diálogo, batem palmas, emocionadas. O feijão remanescente continua tocando. Abelardo levanta florisbela, pega-a no colo e a beija. os aplausos sobem. Ele vai levando-a embora.
FLORISBELA
Meu amor...
abelardo
Vamos, querida... um mundo de sonhos nos espera... tenho aqui comigo duas passagens para o nosso cruzeiro de lua-de-mel!
FLORISBELA
Oh, querido, que romântico!
abelardo
Sim... vamos, vamos logo! Nossa lua-de-mel será inesquecível... durante anos, contaremos a nossos netos nosso inolvidável cruzeiro... no TITANIC!
FLORISBELA
Oh, o Titanic! O mais luxuoso navio do mundo! Oh, Abelardo, o que poderia dar errado para nós agora!
Saem. o feijão continua tocando guantanamera. As mulheres que observavam a cena vão saindo. Lupe dá uma paradinha antes de deixar a cena.
garçonete
O Titanic... talvez eu devesse comprar uma passagem para minha mãe também... ela merece... e agora, que tenho este restaurante... ah, tolinha... deixe de invejar a felicidade deles... quantos anos de amor pela frente eles ainda vão ter... (SUSPIRA) Ah! Quem sabe eu não vou no Titanic também..? E encontro um amor? (SAI)
Incêndio na Casa Cruz
Ecos do Carnaval
Que Deus sou eu?
E-mail da longa discussão no newsgroup que eu frequento, a Panelinha. Alguns excertos da discussão foram publicados na crônica de Arnaldo Bloch do sábado de carnaval, sob o título "E-Deus". Este foi cortado pelo exagerado tamanho:
Arnaldo, eles só reforçam o ponto de vista do Marquinhos, que começou tudo quando falou que religiões não são baseadas em dogmas, mas em revelações. Dogmas são os sujeitos que vieram depois dos profetas interpretando as palavras do cara.
Nõs vivemos a vida inteira numa sociedade tecnológica e às vezes nem lembramos que não existem "leis naturais", o que existe são inferências feitas por sujeitos a partir de axiomas. Em algum momento você vai ter que fazer uma proposição indemonstrável ou que não pode ser provada para embasar suas teorias. A Lei da gravidade, por exemplo, não rege os movimentos dos planetas - ela parte do princípio que, só porque desde que nos entendemos por gente, os planetas parecem se mover de uma certa forma, eles continuarão se movendo sempre assim. Isso pode parecer óbvio, mas não é necessariamente verdade. O fato de que sempre que você repetiu uma experiência, ela funcionou não é garantia de que ela vá funcionar da próxima. Mas isso é um axioma, que, no fundo, é a palavra que a ciência usa para dogma. A verdade é que a maioria dos cientistas simplesmente não está interessada em filosofia da ciência, mas, como o Marquinhos explicou, a ciência depende da filosofia para se validar. Filosofia e religião estão preocupadas em saber por que existe alguma coisa em vez de nada, enquanto a ciência parece mais interessada em explicar que existe alguma coisa em vez de nada.
Quando o Marcos fala que Deus existe, acho que isso é ponto pacífico. Existe um Universo que veio de nada e existe uma força que diferencia organismos vivos dos inertes. Um corpo morto tem as mesmas partículas que um corpo vivo, mas não está vivo. Alguma coisa o anima. E é uma força poderosa - cientistas costumam dizer que se há condições para a vida ela imediatamente aparece e que ela persiste sob as maiores adversidades. Inclusive a teoria de que bactérias marcianas teriam povoado a Terra é uma tentativa de explicar o surgimento precoce de vida no nosso planeta, já que o tempo que ela levou para aparecer foi muito mais curto do que o provável - o que reforça o fato de que a vida é uma força poderosa e persistente. Isso é "Deus", não um sujeito de barba branca que esculpiu Adão ou um super-Papai Noel que sabe quem foi bom ou mau e vai dar presentes ou não. A grande questão não é a existência dele, mas sua natureza: Deus é senciente? Tem consciência de Si mesmo? Um "não" a qualquer uma dessas perguntas significaria na prática a mesma coisa que se ele não existisse. Se a resposta a essas duas primeiras for "sim", continuam as dúvidas: ele tem ética? Tem um plano para a Criação? E, a que mais interessa às pessoas: ele tem um plano pra mim ou estou irremediavelmente preso neste segmento de tempo? Este é a única história que me cabe? Por que tenho que voltar ao pó? Por que estou preso a esta matéria em decadência se praticamente tudo que importa em minha vida - amor, sucesso, fama, liberdade, até mesmo dinheiro - é abstrato?
A base de todas as grandes religiões é tentar justamente negar sua individualidade e consciência para tentar "entrar em sintonia" com Deus (o Universo, a força vital, chame como você quiser), "presente em todas as coisas", "ele está no meio de nós", para tentar conhecê-la. Agora, imagine você conseguindo, o choque que seria um contacto com uma força ou entidade tão cósmica. Não por coincidência, todas as religiões têm advertências para a visão de Deus - A mãe de Baco que queima ao ver Zeus em toda sua glória, Moisés que só pode vislumbrar a sombra de Deus passando, ou a idéia hindu de que todos os deuses são as máscaras do único Deus, pois nenhum ser humano pode conseguir contemplá-lo face a face. E, depois, imagine os iluminados tentando descrever em palavras a experiência. Não é à toa que eles costumam ser incompreendidos e seus discípulos, sem entender a coisa direito, comecem a inventar histórias de milagres, ressurreições, lutas com demônios, ciclos de reencarnação e afins para vender mais fácil a idéia (associando Deus à figura paterna ou materna, o que basta para a maioria das pessoas). Basta uma olhada para verificar que a verdade nas grandes religiões é sempre parecida, adaptada para a cultura em que surgiu.
Existem diversos problemas filosóficos envolvendo a ciência que eu, que nunca li filosofia, não posso esclarecer a não ser de forma grosseira como no parágrafo acima, mas creio que o Sílvio poderá fazê-lo melhor. Existe o problema dos universais, o fato de que todas as ciências envolvem matemática - um construto abstrato, que a teoria dos conjuntos, base da lógica, contém erros estruturais (o conjunto de todos os conjuntos teria que conter a si mesmo e estar contido em si mesmo ou algo assim) e até o fato de que a nossa percepção de mundo é analógica. Mas já escrevi demais e digressionei demais.
Arnaldo, eles só reforçam o ponto de vista do Marquinhos, que começou tudo quando falou que religiões não são baseadas em dogmas, mas em revelações. Dogmas são os sujeitos que vieram depois dos profetas interpretando as palavras do cara.
Nõs vivemos a vida inteira numa sociedade tecnológica e às vezes nem lembramos que não existem "leis naturais", o que existe são inferências feitas por sujeitos a partir de axiomas. Em algum momento você vai ter que fazer uma proposição indemonstrável ou que não pode ser provada para embasar suas teorias. A Lei da gravidade, por exemplo, não rege os movimentos dos planetas - ela parte do princípio que, só porque desde que nos entendemos por gente, os planetas parecem se mover de uma certa forma, eles continuarão se movendo sempre assim. Isso pode parecer óbvio, mas não é necessariamente verdade. O fato de que sempre que você repetiu uma experiência, ela funcionou não é garantia de que ela vá funcionar da próxima. Mas isso é um axioma, que, no fundo, é a palavra que a ciência usa para dogma. A verdade é que a maioria dos cientistas simplesmente não está interessada em filosofia da ciência, mas, como o Marquinhos explicou, a ciência depende da filosofia para se validar. Filosofia e religião estão preocupadas em saber por que existe alguma coisa em vez de nada, enquanto a ciência parece mais interessada em explicar que existe alguma coisa em vez de nada.
Quando o Marcos fala que Deus existe, acho que isso é ponto pacífico. Existe um Universo que veio de nada e existe uma força que diferencia organismos vivos dos inertes. Um corpo morto tem as mesmas partículas que um corpo vivo, mas não está vivo. Alguma coisa o anima. E é uma força poderosa - cientistas costumam dizer que se há condições para a vida ela imediatamente aparece e que ela persiste sob as maiores adversidades. Inclusive a teoria de que bactérias marcianas teriam povoado a Terra é uma tentativa de explicar o surgimento precoce de vida no nosso planeta, já que o tempo que ela levou para aparecer foi muito mais curto do que o provável - o que reforça o fato de que a vida é uma força poderosa e persistente. Isso é "Deus", não um sujeito de barba branca que esculpiu Adão ou um super-Papai Noel que sabe quem foi bom ou mau e vai dar presentes ou não. A grande questão não é a existência dele, mas sua natureza: Deus é senciente? Tem consciência de Si mesmo? Um "não" a qualquer uma dessas perguntas significaria na prática a mesma coisa que se ele não existisse. Se a resposta a essas duas primeiras for "sim", continuam as dúvidas: ele tem ética? Tem um plano para a Criação? E, a que mais interessa às pessoas: ele tem um plano pra mim ou estou irremediavelmente preso neste segmento de tempo? Este é a única história que me cabe? Por que tenho que voltar ao pó? Por que estou preso a esta matéria em decadência se praticamente tudo que importa em minha vida - amor, sucesso, fama, liberdade, até mesmo dinheiro - é abstrato?
A base de todas as grandes religiões é tentar justamente negar sua individualidade e consciência para tentar "entrar em sintonia" com Deus (o Universo, a força vital, chame como você quiser), "presente em todas as coisas", "ele está no meio de nós", para tentar conhecê-la. Agora, imagine você conseguindo, o choque que seria um contacto com uma força ou entidade tão cósmica. Não por coincidência, todas as religiões têm advertências para a visão de Deus - A mãe de Baco que queima ao ver Zeus em toda sua glória, Moisés que só pode vislumbrar a sombra de Deus passando, ou a idéia hindu de que todos os deuses são as máscaras do único Deus, pois nenhum ser humano pode conseguir contemplá-lo face a face. E, depois, imagine os iluminados tentando descrever em palavras a experiência. Não é à toa que eles costumam ser incompreendidos e seus discípulos, sem entender a coisa direito, comecem a inventar histórias de milagres, ressurreições, lutas com demônios, ciclos de reencarnação e afins para vender mais fácil a idéia (associando Deus à figura paterna ou materna, o que basta para a maioria das pessoas). Basta uma olhada para verificar que a verdade nas grandes religiões é sempre parecida, adaptada para a cultura em que surgiu.
Existem diversos problemas filosóficos envolvendo a ciência que eu, que nunca li filosofia, não posso esclarecer a não ser de forma grosseira como no parágrafo acima, mas creio que o Sílvio poderá fazê-lo melhor. Existe o problema dos universais, o fato de que todas as ciências envolvem matemática - um construto abstrato, que a teoria dos conjuntos, base da lógica, contém erros estruturais (o conjunto de todos os conjuntos teria que conter a si mesmo e estar contido em si mesmo ou algo assim) e até o fato de que a nossa percepção de mundo é analógica. Mas já escrevi demais e digressionei demais.
Uma idéia para um filme ou uma peça
Um homem cheio de pó e desilusão caminha pelo Sertão em tempos particularmente inclementes. Um outro viajante junta-se a ele. O primeiro homem, Samuel, vai lhe contando que está fugindo de sua cidade natal. Envolveu-se numa confusão envolvendo, é claro, uma mulher.
Samuel reparte sua pouca comida com o estranho enquanto os dois perseveram debaixo do Sol causticante e conta sua história. De como era apaixonado por Isabel, que era desejada por Jeremias, o chefe dos jagunços do maior dono de terras da região, Sebastião. Com medo dele, o pai da moça, Antônio, ordena a ela que se afaste de Samuel e aceite se casar com Jeremias. Isabel, entretanto, tenta fugir com Samuel. Os dois são rastreados pelo capanga rejeitado, que dá a Antônio a honra de liquidar com o miserável que levou sua filha. Entretanto, mesmo pego de surpresa, Samuel consegue reagir e mata Antônio. Isabel fica horrorizada e, cercado, o rapaz é obrigado a fugir.
O estranho discute com Samuel sobre as traições que ele cometeu ou contra ele foram perpetradas e sobre a natureza dos homens. O viajante crê que o ódio é mais forte do que o amor e Samuel discorda, lembrando que repartira com ele sua comida, mesmo sem o conhecer. É então que o misterioso companheiro revela ser o Diabo e, concordando que realmente lhe fora feito um favor, oferece a Samuel também um presente: se algum dia ele desejasse que seus inimigos morressem, mais do que qualquer outra coisa, assim aconteceria, com uma ressalva, porém: se ele aceitar este oferecimento, estará aceitando o ponto de vista do demônio e condenando sua alma ao Inferno. Além disso, conta-lhe que está reservada para sua vida mandar muitos outros para as trevas e que, por isso, deseja ardentemente que Samuel junte-se a ele no Érebo, como um general de suas tropas. Samuel recusa, diz que jamais usará a dádiva e vai rodar o mundo e aprender, para algum dia voltar e lidar com Sebastião, Jeremias e quem mais fez mal a ele e à sua gente.
Muitos anos depois, Samuel realmente volta à sua terra. Tem agora fama de milagreiro e conhecedor de muita coisa deste mundo e do outro. Jeremias ainda é o capataz e jagunço do poderoso da região, também chamado Antônio, filho do primeiro. Isabel casara realmente com Jeremias, mas morrera logo, ao dar à luz a filha deles, Maria. O capanga conseguiu casá-la com Antônio. Um bando de cangaceiros independentes se aproxima e o apático Antônio não sabe se deve enfrentá-los ou acoitá-los. Jeremias prefere a segunda opção e o imaturo rapaz resolve assim o fazer. Depois, manda chamar o disfarçado Samuel, que chegou à região a pedido dele.
Samuel encontra o rapaz, que lhe revela o que julga ser a fonte de sua apatia e covardia: ele vem sofrendo de impotência. Se esta notícia se espalhar, juntamente com sua decisão de acoitar o bando de cangaceiros, ele perderá todo o respeito que o povo lhe tem, desconhecedor que é de sua personalidade. Samuel lhe faz um preparado e lhe dá conselhos sobre a vida. Depois, sai e encontra a prostituta que era a preferida de Antônio, já que os votos matrimoniais nada lhe significavam e lhe paga o suborno exigido - foi ela, sob ordens de Samuel, que drogou-o com um estranho elixir que é a verdadeira causa de seus problemas.
O preparado de Samuel cura o rapaz, que passa uma noite de amor com sua bela e vivaz esposa, ficando patente que ele a oprime e não a ama. Os cangaceiros começam a viver na cidade, festejando e movimentando o comércio. Antônio, numa dessas festas, junto com alguns cangaceiros, toma uma prostituta, mas não consegue consumar o ato. Sua esposa aparece e ele, irracionalmente, a culpa por ter sugado sua virilidade e chega mesmo a ofertá-la ao cangaceiro. O bandoleiro demonstra tremendo entusiasmo com a proposta, mas ela se rebela e se recusa e vai embora. Antônio discute com o líder do bando.
Mais tarde, Samuel procura Antônio, dizendo-se inteirado do que aconteceu e lhe oferece outra dose do preparado, dizendo que tem efeito temporário. Antônio toma a nova dose e vai festejar com prostitutas trazidas de fora especialmente para a ocasião, convidando os cangaceiros, mas o chefe deles não aparece, dizendo que não quer festejar com um indivíduo que trata daquela maneira sua esposa.
Furioso com esta atitude e sentindo-se inebriado de poder ao receber a notícia de que Maria estava grávida, Antônio decide mandar expulsar os cangaceiros da cidade, mesmo contra os conselhos do fiel Jeremias. A notícia do massacre de seus homens lhe chega justamente quando comemorava a gravidez de sua esposa e o elixir começava a perder seus efeitos. Pateticamente, acreditando que, se fosse viril o suficiente para liderar seus jagunços, mudaria o resultado do confronto, Antônio vai procurar Samuel e exigir que este lhe dê um grande estoque do preparado. O milagreiro responde que dadas as propriedades químicas e místicas de sua poção, é impossível preparar uma grande quantidade de uma vez. Os dois discutem e Antônio agride Samuel. No entrevero, o primeiro acaba morrendo. Testemunhas atestam que o curandeiro agira em legítima defesa.
Na qualidade de sogro de Antônio e avô de seu filho, Jeremias assume os bens do rapaz morto e negocia a paz com os cangaceiros, oferecendo-lhes metade das reses. Manda também convocar Samuel, que ele ainda não reconheceu como seu antigo rival, tentando fazê-lo passar para o seu lado. Samuel finge aceitar, mas incita as prostitutas locais a espalharem a notícia da impotência do falecido latifundiário e a gente da cidade, lembrando-se da noite em que este ofereceu Maria ao chefe dos bandoleiros, começa a falar que é este o verdadeiro pai da esperada criança.
A maledicência chega aos ouvidos de Jeremias. Coberto de ridículo e desonrado, expulsa furioso de casa Maria, que ele conservava como a única lembrança do grande amor de sua vida, a derradeira crença que ele possuía. Desiludido, ele a trata com requintes de crueldade. Estas notícias alcançam o chefe dos cangaceiros que, desde aquela outra noite, sentia-se atraído pela jovem. Ele procura Jeremias e exige a mulher. O velho jagunço concede-a, com ela ressentido, sem o menor pudor.
O líder dos cangaceiros leva Maria e tenta possuí-la à força. A jovem reage e agride seu raptor, o que o faz mudar da ternura para a irritação e os dois acabam se engalfinhando. O homem a agride violentamente e ela acaba perdendo seu filho. Ele abandona a mulher em dores à piedade dos moradores locais e, como compensação pela rejeição que sofreu, resolve saquear a cidade.
Neste ínterim, Samuel leva à gente local as notícias das negociações de Jeremias e de como ele cedeu sua filha - que eles adoram - ao cangaceiro. As pessoas se revoltam com as novas que, somadas ao destempero ainda recente de Antônio, levam-nos a se rebelar contra o terratenente e os cangaceiros que, surpresos com a reação, fogem do lugar.
O aborto de Maria lhe causa uma profunda infecção, mas Jeremias, ao ouvir a notícia, não lhe presta atenção. Ele vai procurar Samuel, que percebe ter tramado toda a situação contra ele e pergunta por que ele o fez perder tudo que tinha. Samuel finalmente lhe revela a identidade. Jeremias então parte para cima dele, para terminar o trabalho de décadas atrás. Samuel diz que de nada irá lhe adiantar, pois já está morto há anos. Os dois lutam. Jeremias morre e Samuel é gravemente ferido. Aparece então o Diabo para Samuel, com quem vez por outra ele discutia durante a peça, para lhe cobrar afinal o que ele acha mais forte - o amor ou o ódio. Samuel diz que fez tudo isso por amor à sua gente e à lembrança de Isabel, mas o Capeta argumenta que ele fez apenas por vingança. Samuel rejeita o ponto de vista do demônio, até que este lhe revela que a mulher que está morrendo de infecção é na verdade sua filha. Isabel casou-se grávida com Jeremias e o enganou para esconder sua virgindade perdida. Samuel está agonizante. Sua única chance de se vingar contra o líder do bando de cangaceiros é usar a dádiva que o Tinhoso lhe deu. Samuel não acredita no príncipe das mentiras e diz que precisa ver com seus próprios olhos.
Cambaleante e moribundo, o milagreiro se arrasta até onde está Maria, agonizante pelo ferimento. Os presentes se afastam, assustados. Ele se aproxima da cama de sua filha, observado pelo Príncipe das Trevas. Segura a mão dela e conversa com ela, até se convencer que ela é sua filha, ou de que, pelo menos, gostaria que sua filha fosse daquele jeito. Ele lhe fala que o futuro deve libertar-se das amarras do passado. O Senhor das Moscas pede a ele que use sua oferenda e vingue-se dos culpados de sua enfermidade. Samuel aperta mais a mão da filha e cai, exausto ao chão. Maria abre completamente os olhos e fala que se sente melhor. O médico se aproxima e constata que sua febre, milagrosamente, passou. Todos olham para Samuel, querendo saber que milagre ele fez. "Nenhum", ele responde, apenas usara o dom que o Diabo lhe dera - "Eu matei meus inimigos. Mais do que qualquer outro homem já enfrentou". Os cinco bilhões de germes que infestavam o corpo e a ferida de sua menina. Destruindo os micróbios, livrou o corpo dela da infecção e ela agora pode se recuperar. Satanás urra, furioso, revelando sua verdadeira identidade e diz que, de qualquer forma, Samuel aceitara a intervenção demoníaca. O trato se completara e a alma dele era agora do Demônio. Samuel diz pouco se importar, já que sua filha pode agora viver numa cidade que nada deve a ninguém. O Demo, entretanto, é interrompido quando começa a guiar Samuel à condenação. Isabel aparece, resplandescente. Ela é uma enviada dos Céus e o sacrifício feito por Samuel mostrou que, apesar de tudo porque passara, ainda era capaz de amar e honrar a memória de seu grande amor. Pesados os prós e os contras, ele não merecia o Inferno e sua condenação era injusta. O Diabo, furibundo, tenta argumentar, mas Isabel vem sob ordens de Deus, escoltada por dois anjos e ele nada pode fazer. Ela toma Samuel e, finalmente, os dois amantes se reencontram e partem para a Cidade Prateada.
Samuel reparte sua pouca comida com o estranho enquanto os dois perseveram debaixo do Sol causticante e conta sua história. De como era apaixonado por Isabel, que era desejada por Jeremias, o chefe dos jagunços do maior dono de terras da região, Sebastião. Com medo dele, o pai da moça, Antônio, ordena a ela que se afaste de Samuel e aceite se casar com Jeremias. Isabel, entretanto, tenta fugir com Samuel. Os dois são rastreados pelo capanga rejeitado, que dá a Antônio a honra de liquidar com o miserável que levou sua filha. Entretanto, mesmo pego de surpresa, Samuel consegue reagir e mata Antônio. Isabel fica horrorizada e, cercado, o rapaz é obrigado a fugir.
O estranho discute com Samuel sobre as traições que ele cometeu ou contra ele foram perpetradas e sobre a natureza dos homens. O viajante crê que o ódio é mais forte do que o amor e Samuel discorda, lembrando que repartira com ele sua comida, mesmo sem o conhecer. É então que o misterioso companheiro revela ser o Diabo e, concordando que realmente lhe fora feito um favor, oferece a Samuel também um presente: se algum dia ele desejasse que seus inimigos morressem, mais do que qualquer outra coisa, assim aconteceria, com uma ressalva, porém: se ele aceitar este oferecimento, estará aceitando o ponto de vista do demônio e condenando sua alma ao Inferno. Além disso, conta-lhe que está reservada para sua vida mandar muitos outros para as trevas e que, por isso, deseja ardentemente que Samuel junte-se a ele no Érebo, como um general de suas tropas. Samuel recusa, diz que jamais usará a dádiva e vai rodar o mundo e aprender, para algum dia voltar e lidar com Sebastião, Jeremias e quem mais fez mal a ele e à sua gente.
Muitos anos depois, Samuel realmente volta à sua terra. Tem agora fama de milagreiro e conhecedor de muita coisa deste mundo e do outro. Jeremias ainda é o capataz e jagunço do poderoso da região, também chamado Antônio, filho do primeiro. Isabel casara realmente com Jeremias, mas morrera logo, ao dar à luz a filha deles, Maria. O capanga conseguiu casá-la com Antônio. Um bando de cangaceiros independentes se aproxima e o apático Antônio não sabe se deve enfrentá-los ou acoitá-los. Jeremias prefere a segunda opção e o imaturo rapaz resolve assim o fazer. Depois, manda chamar o disfarçado Samuel, que chegou à região a pedido dele.
Samuel encontra o rapaz, que lhe revela o que julga ser a fonte de sua apatia e covardia: ele vem sofrendo de impotência. Se esta notícia se espalhar, juntamente com sua decisão de acoitar o bando de cangaceiros, ele perderá todo o respeito que o povo lhe tem, desconhecedor que é de sua personalidade. Samuel lhe faz um preparado e lhe dá conselhos sobre a vida. Depois, sai e encontra a prostituta que era a preferida de Antônio, já que os votos matrimoniais nada lhe significavam e lhe paga o suborno exigido - foi ela, sob ordens de Samuel, que drogou-o com um estranho elixir que é a verdadeira causa de seus problemas.
O preparado de Samuel cura o rapaz, que passa uma noite de amor com sua bela e vivaz esposa, ficando patente que ele a oprime e não a ama. Os cangaceiros começam a viver na cidade, festejando e movimentando o comércio. Antônio, numa dessas festas, junto com alguns cangaceiros, toma uma prostituta, mas não consegue consumar o ato. Sua esposa aparece e ele, irracionalmente, a culpa por ter sugado sua virilidade e chega mesmo a ofertá-la ao cangaceiro. O bandoleiro demonstra tremendo entusiasmo com a proposta, mas ela se rebela e se recusa e vai embora. Antônio discute com o líder do bando.
Mais tarde, Samuel procura Antônio, dizendo-se inteirado do que aconteceu e lhe oferece outra dose do preparado, dizendo que tem efeito temporário. Antônio toma a nova dose e vai festejar com prostitutas trazidas de fora especialmente para a ocasião, convidando os cangaceiros, mas o chefe deles não aparece, dizendo que não quer festejar com um indivíduo que trata daquela maneira sua esposa.
Furioso com esta atitude e sentindo-se inebriado de poder ao receber a notícia de que Maria estava grávida, Antônio decide mandar expulsar os cangaceiros da cidade, mesmo contra os conselhos do fiel Jeremias. A notícia do massacre de seus homens lhe chega justamente quando comemorava a gravidez de sua esposa e o elixir começava a perder seus efeitos. Pateticamente, acreditando que, se fosse viril o suficiente para liderar seus jagunços, mudaria o resultado do confronto, Antônio vai procurar Samuel e exigir que este lhe dê um grande estoque do preparado. O milagreiro responde que dadas as propriedades químicas e místicas de sua poção, é impossível preparar uma grande quantidade de uma vez. Os dois discutem e Antônio agride Samuel. No entrevero, o primeiro acaba morrendo. Testemunhas atestam que o curandeiro agira em legítima defesa.
Na qualidade de sogro de Antônio e avô de seu filho, Jeremias assume os bens do rapaz morto e negocia a paz com os cangaceiros, oferecendo-lhes metade das reses. Manda também convocar Samuel, que ele ainda não reconheceu como seu antigo rival, tentando fazê-lo passar para o seu lado. Samuel finge aceitar, mas incita as prostitutas locais a espalharem a notícia da impotência do falecido latifundiário e a gente da cidade, lembrando-se da noite em que este ofereceu Maria ao chefe dos bandoleiros, começa a falar que é este o verdadeiro pai da esperada criança.
A maledicência chega aos ouvidos de Jeremias. Coberto de ridículo e desonrado, expulsa furioso de casa Maria, que ele conservava como a única lembrança do grande amor de sua vida, a derradeira crença que ele possuía. Desiludido, ele a trata com requintes de crueldade. Estas notícias alcançam o chefe dos cangaceiros que, desde aquela outra noite, sentia-se atraído pela jovem. Ele procura Jeremias e exige a mulher. O velho jagunço concede-a, com ela ressentido, sem o menor pudor.
O líder dos cangaceiros leva Maria e tenta possuí-la à força. A jovem reage e agride seu raptor, o que o faz mudar da ternura para a irritação e os dois acabam se engalfinhando. O homem a agride violentamente e ela acaba perdendo seu filho. Ele abandona a mulher em dores à piedade dos moradores locais e, como compensação pela rejeição que sofreu, resolve saquear a cidade.
Neste ínterim, Samuel leva à gente local as notícias das negociações de Jeremias e de como ele cedeu sua filha - que eles adoram - ao cangaceiro. As pessoas se revoltam com as novas que, somadas ao destempero ainda recente de Antônio, levam-nos a se rebelar contra o terratenente e os cangaceiros que, surpresos com a reação, fogem do lugar.
O aborto de Maria lhe causa uma profunda infecção, mas Jeremias, ao ouvir a notícia, não lhe presta atenção. Ele vai procurar Samuel, que percebe ter tramado toda a situação contra ele e pergunta por que ele o fez perder tudo que tinha. Samuel finalmente lhe revela a identidade. Jeremias então parte para cima dele, para terminar o trabalho de décadas atrás. Samuel diz que de nada irá lhe adiantar, pois já está morto há anos. Os dois lutam. Jeremias morre e Samuel é gravemente ferido. Aparece então o Diabo para Samuel, com quem vez por outra ele discutia durante a peça, para lhe cobrar afinal o que ele acha mais forte - o amor ou o ódio. Samuel diz que fez tudo isso por amor à sua gente e à lembrança de Isabel, mas o Capeta argumenta que ele fez apenas por vingança. Samuel rejeita o ponto de vista do demônio, até que este lhe revela que a mulher que está morrendo de infecção é na verdade sua filha. Isabel casou-se grávida com Jeremias e o enganou para esconder sua virgindade perdida. Samuel está agonizante. Sua única chance de se vingar contra o líder do bando de cangaceiros é usar a dádiva que o Tinhoso lhe deu. Samuel não acredita no príncipe das mentiras e diz que precisa ver com seus próprios olhos.
Cambaleante e moribundo, o milagreiro se arrasta até onde está Maria, agonizante pelo ferimento. Os presentes se afastam, assustados. Ele se aproxima da cama de sua filha, observado pelo Príncipe das Trevas. Segura a mão dela e conversa com ela, até se convencer que ela é sua filha, ou de que, pelo menos, gostaria que sua filha fosse daquele jeito. Ele lhe fala que o futuro deve libertar-se das amarras do passado. O Senhor das Moscas pede a ele que use sua oferenda e vingue-se dos culpados de sua enfermidade. Samuel aperta mais a mão da filha e cai, exausto ao chão. Maria abre completamente os olhos e fala que se sente melhor. O médico se aproxima e constata que sua febre, milagrosamente, passou. Todos olham para Samuel, querendo saber que milagre ele fez. "Nenhum", ele responde, apenas usara o dom que o Diabo lhe dera - "Eu matei meus inimigos. Mais do que qualquer outro homem já enfrentou". Os cinco bilhões de germes que infestavam o corpo e a ferida de sua menina. Destruindo os micróbios, livrou o corpo dela da infecção e ela agora pode se recuperar. Satanás urra, furioso, revelando sua verdadeira identidade e diz que, de qualquer forma, Samuel aceitara a intervenção demoníaca. O trato se completara e a alma dele era agora do Demônio. Samuel diz pouco se importar, já que sua filha pode agora viver numa cidade que nada deve a ninguém. O Demo, entretanto, é interrompido quando começa a guiar Samuel à condenação. Isabel aparece, resplandescente. Ela é uma enviada dos Céus e o sacrifício feito por Samuel mostrou que, apesar de tudo porque passara, ainda era capaz de amar e honrar a memória de seu grande amor. Pesados os prós e os contras, ele não merecia o Inferno e sua condenação era injusta. O Diabo, furibundo, tenta argumentar, mas Isabel vem sob ordens de Deus, escoltada por dois anjos e ele nada pode fazer. Ela toma Samuel e, finalmente, os dois amantes se reencontram e partem para a Cidade Prateada.
janeiro 06, 2008
Ilusão de Ótica Assustadora
A maioria das pessoas leva menos de um minuto para perceber o que há de errado com esta foto.
janeiro 04, 2008
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