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agosto 18, 2019

A Antiga Catedral e a Ermida do Ó


Esta semana fiquei sabendo que, durante a restauração da antiga Catedral, ali na Primeiro de Março, tinham desencavado a antiga Ermida do Ó. Assim, munido da minha câmera e minha nova lente, que eu estava doido pra usar, fui visitar o local. Tem um Museu e Sítio Arqueológico, minúsculos, na velha Sé, mas vale a visita. Vai me dizer que nunca viajou e foi visitar uma igreja que mais tarde descobriu ser do século XX e a maior armadilha de turista, sem nada de interessante dentro?

A Ermida do Ó era uma capelinha tosca e simples, como muitas do primevo Rio de Janeiro. As suas ruínas são essas da primeira e da segunda fotos. Ao seu lado foi construído um Hospício e não, não era para alojar os meus amigos de faculdade, mas o nome que se dava na época à Casa dos Romeiros. Quem fazia romaria ou peregrinação ao Rio de Janeiro do século XVI ninguém nunca explicou, mas pelo menos casa pra recebê-los tinha. Talvez justamente pela parcimônia desses fiéis é que quando chegaram na década de 80 uns padres pra fundar a Ordem de São Bento, alojaram eles lá. Logo depois, Manuel de Brito, capitão português que veio pra cá com Estácio de Sá e assim se tornou dono de umas terras, doou-lhes um morro e os beneditinos estão lá até hoje. Aliás, por causa desse Manuel de Brito é que a praia que tinha ali onde hoje é a Praça XV se chamava Praia de D. Manuel e até hoje a rua do Fórum se chama rua D. Manuel.




Realojados os padres, o Hospício logo em seguida recebeu outros. Eram carmelitas, com o mesmo intento de estabelecer sua ordem por aqui. Ofereceram-lhes a princípio um morro, mas eles o acharam ermo e distante. Era o Morro hoje de Santo Antônio (ou o que restou dele). Lembrem-se que naquela época a área da Lapa – Passeio, Carioca e redondezas – era um pantanal, e daqueles malcheirosos. Tanto que abriram uma vala pra drenar aquelas águas e renová-las. Hoje é a rua Uruguaiana e por isso ela é uma das poucas retas daquele tempo.

Os carmelitas gostaram da área onde estavam e conseguiram permissão para construir seu convento ali mesmo, em 1611, começando a construção em 1619, quando receberam permissão da Câmara pra usar as pedras da hoje Ilha das Enxadas, onde fica a Escola Naval, mas que na época não tinha nome e passou a se chamar Ilha de Ruy Vaz Brito porque este foi o governador que concedeu a licença de exploração.

A concessão de terreno mencionava a construção do convento e sua “cerca”. Talvez fosse a paliçada, que está na terceira foto. Na base de pedra, podem se ver os buracos onde ficariam os troncos. Curiosamente, é parecida com aquela de “O Novo Mundo”, do Terence Malick, com as toras espaçadas (se bem que no filme estavam mais pra gravetos do que pra toras). A nossa ideia é que qualquer paliçada seja maciça, como um forte, mas provavelmente eles não estavam esperando ataques de artilharia dos índios (contra quem ela foi provavelmente erigida) e queriam poder ver o que estava acontecendo do outro lado – como, curiosamente, os agentes de imigração disseram que queriam o “muro” pro Trump.



Na época, o mar batia até ali. Frei Vicente de Salvador (1) conta que uma baleia certa feita encalhou em frente ao Convento. Por algum motivo de aquecimento global ou fosse lá o que fosse, ainda no século XVI o mar já estava começando a recuar. E, como era um costume tolerado pelos governantes na época, a área que se formou ali passou a ser extensão daquela dos Carmelitas, que dela se apossaram. Até que em 1683 a Câmara botou o olho naqueles terrenos valorizados e resolveu reparti-los e aforá-los. Os padrecos ficaram furiosos, disseram que iam perder a vista, o ar fresco, que teriam o claustro devassado, enfim, botaram a boca no trombone. E não era de bom tom mexer com os caras – podiam ser monges, mas não do tipo que pensamos. Bagunceiros, irredutíveis, insurretos, tinham por algum motivo uma rivalidade com a Ordem da Misericórdia, que já naquela época possuía o monopólio dos funerais. Quando passava um féretro em frente ao Convento do Carmo, eles desciam de porrete na mão pra tocar o terror, hábito esse que mereceu uma ordem real vinda de Portugal pra acabar. Pra dar mais jeito de Ordem religiosa a eles, mais tarde foi nomeado um interventor, que ficou famoso por sua rigidez, Joaquim José Justiniano. O que foi uma pena, porque provavelmente a Igreja Católica não estaria perdendo tantos fiéis hoje em dia se tivesse guardado esses rituais.

Mas a queixa dos padres desordeiros deu resultado. Conta Vieira Fazenda que lhes foi cedido o direito àquela várzea em frente pelo rei, que para tanto argumentou: os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.”

E tão enfezados eram os capuchinhos daquela época que, quando viram uma pedra fundamental erigida naquele terreno foram lá e arrancaram. As autoridades foram reclamar com eles, que era uma afronta, afinal era um marco real – e um marco real concedendo aquela área aos carmelitas. Os padres disseram que não estavam acima de reconhecer um erro e que a poriam de volta no lugar, o que fizeram.

O atual convento já foi alvo de muitas reformas, o que lhe descaracterizou a fachada. O mais próximo do aspecto original, segundo Vivaldo Coaracy, é a face que dá pra Sete de Setembro, que está na quarta foto. Os carmelitas ficaram instalados no Convento até a chegada da Família Real. Sendo o Paço muito pequeno pro tamanho e pros gostos dos portugueses, eles se adonaram também do edifício ali próximo e foi assim que eles foram sendo empurrados até a Tijuca, na igreja dos Capuchinhos.



Mas antes disso, no século XVIII, eles construíram a atual igreja de Nossa Senhora de Monte do Carmo, a antiga catedral. E como ela se tornou a antiga catedral, com tantas igrejas mais luxuosas, como a Candelária, dando mole? A primeira Sé do Rio, quando ele se tornou uma diocese, foi uma igreja no Morro do Castelo, no século XVII, que, com a mudança da cidade pra várzea e crescimento, foi se tornando cada vez menos frequentada, ainda mais com o templo dos Jesuítas, mais opulento e atraente, ali perto. Quando foi instituída na cidade a Ordem de São Benedito, dos “homens pretos”, foi-lhes concedido alojamento junto à Sé.

Os negros, obviamente, não recebiam um bom tratamento das autoridades eclesiásticas, que muitas vezes os tratavam como provavelmente os viam – seus escravos. Após alguns anos, eles se cansaram, e obtiveram permissão para construir sua própria igreja. Após obtê-la, conseguiram surpreendentemente levantar uma grande quantidade de fundos e construíram a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, aquela branca do lado do camelódromo – a da quinta foto. Mais próxima do Centro da cidade da época, e relativamente monumental, a turma do Bispo logo achou que ali seria um ótimo local para a nova Sé. Principalmente porque as outras irmandades não estavam a fim de receber ordens de estranhos dentro de sua própria casa, e ali era a casa dos negros mesmo.



Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também.

A Família Real chegou e ia assistir à primeira missa no Brasil. Deles, não do Brasil. Obviamente seria uma ocasião de gala, cheia de festança e jaez. O povo da Sé mandou avisar aos homens pretos que era pra eles se esconderem, para que os Bragança não se ofendessem com a presença de negros. O que, obviamente, levou-os a se enfileirarem de cada lado da rua do Rosário carregando palmas para saudar o rei. O espetáculo enfureceu tanto o bispado que a Matriz se mudou para a igreja dos carmelitas, que tinha a conveniência pros regentes que era ali do lado mesmo.

A Igreja sofreu várias reformas, e uma recente restauração. A torre direita é do começo do século XX e aquele Cristo (ou santo) realista lá em cima não tem nada a ver com o resto. Pelo menos ainda conserva o frontão que é considerado o mais bonito do Rio. A recente restauração foi a que desencavou a Ermida do Ó. Ela – e a catedral, é claro – estão abertas para visitas, aos sábados, de 9h30m a 12h30m. Seja um bom carioca e vá visitar. Não temos muito monumentos antigos e com história pra apreciar nesta cidade.

O restante das fotos são imagens variadas da igreja, incluindo os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, na cripta desde 1903. Esperamos que tenham se divertido e curtido o tour.















P. S.: a última foto é obviamente obra de um pedófilo pervertido do século XVIII.



(1) Escreveu uma história do Brasil, acho que em 1723, e, pela primeira vez, alguém escreve que o problema do Brasil é a mentalidade extrativista – os colonos vinham aqui somente pra extrair o que pudessem, lucrar o que pudessem, e voltar pra casa, sem intenção de construir uma nação ou permanecer. Certos conceitos da nossa terra são mais antigos do que pensamos.

julho 16, 2012

Virzi e o Edifício do Elixir Nogueira

No começo do século XX, a Glória era um lugar valorizado, tanto quanto os elixires e tônicos que curavam tudo ou ajudavam na saúde em geral. Um deles era o Elixir de Nogueira, que teve sua fábrica desenhada por um dos mais excêntricos e celerados arquitetos do Rio de Janeiro, Antonio Virzi, que projetou o monstreng, digo, o edifício abaixo.
Por incrível que pareça, essa construção existiu mesmo e ficava bem aqui, na rua da Glória: 


Não me leve a mal, podia ser extravante, rococó e exagerado demais, mas na nossa época de construções modernistas todas retas e iguais, seria ótimo que ele ainda existisse, como o fez até o final dos anos 60, quando era inclusive TOMBADO.
Imagina você estar andando no meio da rua e de repente dar de cara com essas visões dantescas...










Tudo bem, tinha seu charme, mas isso não era um tanto excessivo para um prédio fabril de elixires de nogueira? Se você duvida que era uma fábrica, eis aqui uma foto do interior do prédio.



Eu fico imaginando como eram os pesadelos desse vivente. E os do povo que trabalhava aí dentro...
No final dos anos 60, o prédio, que havia sido tombado, foi destombado pra construção de um edifício residencial estilo favelão - naquela época a Glória era ainda menos valorizada do que hoje. A construção com o Banco Itaú embaixo fica onde era esse surpreendente projeto. Compare a marquise à esquerda com a da quinta foto, lá em cima.

Outras obras de Virzi, já demolidas ou completamente descaracterizadas: o Cinema Americano, em Copacabana. Ainda já na minha época Copa tinha cerca de uma dúzia de cinemas (a contar da Princesa Izabel: Cinema I (hoje Hortifruti), Ricamar (hoje Centro Cultural), Rian (hoje um hotel), Condor (hoje Casa & Video), Joia (hoje cinema novamente, meio cineclube, só de projeção digital), Metro (hoje C & A - atualização: virou uma loja popular, até a C e A de lá acabou), Art-Palácio (hoje sapataria), Copacabana (um dos últimos cinemas de rua a ser construídos e o último a fechar, hoje academia de ginástica), Bruni (hoje loja), Roxy (o único sobrevivente do massacre), Cinema III (na galeria Alaska, não sei o que virou), Caruso (hoje um banco). Antes do meu tempo, tinha cinemas - no plural - até no Leme.

Esse aí depois virou o Cine Copacabana.
O Cinema América original, de 1918, é esse aí de baixo. Ficava na Saenz Pena, onde até os anos 90 funcionou no mesmo lugar outro cinema América, mais moderno e com um prédio em cima, hoje é uma igreja evangélica.

O Palacete Martinelli. Veja aqui fotos do interior da coisa. Extremamente impressionante, mas algo mórbido demais para se morar, não? Outro povo que devia viver tendo pesadelos...
E a Casa dos Smith, abaixo. Leia mais sobre Antonio Virzi aqui e aqui. Por incrível que pareça, ainda existem projetos dele em pé e um deles é colado no prédio da Manchete (aquele que está acabando de ser reformado) e pode ser conferido aqui. É a casinha amarela.
E outra casa dele disponível na internet:

março 19, 2012

junho 13, 2011

Rio Antigo


Mais um filmete exibindo o Rio dos anos 30.

O Chafariz do Lagarto


Esta foto aí de cima roubei do blogue de Rio Antigo do JB, que ainda funciona online. São os restos do aqueduto do Catumbi, na rua Santa Alexandrina. Isso mesmo, os Arcos da Lapa não foram a única obra do tipo no Rio. Dentre os outros, o que mais se destacava era este. Levava água até onde hoje é a Frei Caneca.


Mais exatamente aqui, atrás do Sambódromo e em frente ao Batalhão da Polícia Militar. Parece uma parede branca, mas é o famoso Chafariz do Lagarto, inaugurado em 1768 e tombado pelo Patrimônio Histórico. E pensar que você já cansou de estacionar o carro aí pra ver show na Apoteose e nunca reparou nele.



O lagarto acima era originalmente de bronze e teria sido fundido pelo próprio onipresente Mestre Valentim. Roubado nos anos 60, foi substituído por uma réplica de ferro, daí a ferrugem e os pedaços que já eram.



A água originalmente escorria pela boca do lagarto ao tanque abaixo.





Mestre Valentim, como todo mundo sabe, era excelente escultor, daí a beleza dos traços limpos e simplificados do lagarto, em linhas quase modernas - não há nada de primitivo nesta concepção.





O blogueiro foi recebido pela Jô, apelido de Josefa, a senhora abaixo, que toma conta do monumento. Até pouco tempo atrás, a casa no chafariz, segundo ela, era ocupada por bandidos e marginais, que foram desalojados pela polícia. Jô conta que fez um pacto com o Patrimônio Histórico e, em troca de residir nas instalações do chafariz, toma conta da estrutura.



Jô conta que ela é o único motivo de não ter sido ainda levado o lagarto de ferro.
Se uma moça tão delicada consegue tomar conta de um monumento é um ponto a se discutir, mas seu cachorro sem dúvida consegue. Foi ele quem impediu que o blogueiro e fotógrafo se aproximasse mais da guardiã do Chafariz do Lagarto. Apesar das assertivas dela de que o búfalo de guerr, digo, o cão não mordia, apenas brincava, este escriba preferiu manter uma distância segura da dupla, ainda mais que a besta peluda não tinha a menor dificuldade para arrastar pela coleira a sua suposta dona.



Abaixo a porta para a residência no Chafariz do Lagarto. Jô diz que pretende repintar toda a estrutura e principalmente plantar flores no tanque, para dar outra aparência ao monumento.



Com a chegada da família real ao Brasil e o crescimento da cidade, principalmente pros lados da Cidade Nova, o Chafariz do Lagarto começou a não dar conta para a população, razão pela qual foi construída logo do lado esta cisterna, também em frente ao Batalhão de Polícia Militar, mas ainda na Frei Caneca mesmo, e igualmente tombada pela IPHAN.






Só que esta cisterna parece não ter nenhuma Jô pra pelo menos dar uma esperança de alguém dar uma recuperada nela...