Edward Field, autor do maravilhoso poema UNWANTED, deixa clara sua formação pop na obra abaixo de 1967, CURSE OF THE CAT WOMAN. A tradução, pra variar, foi feita por mim nas coxas e está abaixo do original em inglês.
It sometimes happens
that the woman you meet and fall in love with
is of that strange Transylvanian people
with an affinity for cats.
You take her to a restuarant, say, or a show,
on an ordinary date, being attracted
by the glitter in her slitty eyes and her catlike walk,
and afterwards of course you take her in your arms
and she turns into a black panther
and bites you to death.
Or perhaps you are saved in the nick of time
and she is tormented by the knowledge of her tendency:
That she daren't hug a man
unless she wants to risk clawing him up.
This puts you both in a difficult position--
panting lovers who are prevented from touching
not by bars but by circumstance:
You have terrible fights and say cruel things
for having the hots does not give you a sweet temper.
One night you are walking down a dark street
And hear the pad-pad of a panther following you,
but when you turn around there are only shadows,
or perhaps one shadow too many.
You approach, calling, "Who's there?"
and it leaps on you.
Luckily you have brought along your sword
and you stab it to death.
And before your eyes it turns into the woman you love,
her breast impaled on your sword,
her mouth dribbling blood saying she loved you
but couldn't help her tendency.
So death released her from the curse at last,
and you knew from the angelic smile on her dead face
that in spite of a life the devil owned,
love had won, and heaven pardoned her.
Às vezes acontece
que a mulher que você encontra e por quem se apaixona
é daquele estranho povo da Transilvânia
com uma afinidade por gatos
Você a leva a um restaurante, ou talvez um show
num encontro comum, atraído
pelo brilho em seus olhos e seu andar felino,
e depois, é claro, você a toma em seus braços
e ela se transforma numa pantera
E o morde, matando-o.
Ou talvez você seja salvo na hora H
e ela é atormentada pelo conhecimento de sua conformação:
ela não ousa abraçar um homem
pois corre o risco de nele cravar suas garras.
Isto põe você numa difícil posição -
amantes arfantes cujo toque é proibido
não por barras, mas pelas circunstâncias
Vocês têm terríveis discussões e dizem coisas cruéis
Pois tesão frustrado não os deixa bem humorados
Uma noite você caminha pela rua
E escuta o almofadado pisar de uma pantera o seguindo,
mas quando você se volta só há sombras
ou talvez haja sombras demais .
Você se aproxima perguntando "quem está aí?"
E ela salta em você.
Felizmente você trouxe sua espada
E a crava nela de uma vez.
E diante de seus olhos ela se transforma em seu amor
Seu peito empalado em sua espada,
sua boca jorrando sangue dizendo que ela amava você
mas não podia contrariar sua conformação.
E então a morte a liberta de sua maldição enfim,
e você sabe pelo sorriso angélico em seu rosto
que a despeito de uma vida dominada pelo demônio
o amor venceu, e os Céus a perdoaram.
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agosto 22, 2011
julho 22, 2011
Três Poemas de Aviadores de Guerra
De quando os poetas não só eram artistas sensíveis como machos!
A Morte do Artilheiro da Torreta Ventral
From my mother's sleep I fell into the State,
And I hunched in its belly till my wet fur froze.
Six miles from earth, loosed from its dream of life,
I woke to black flak and the nightmare fighters.
When I died they washed me out of the turret with a hose.
Tradução instantânea minha:
Do colo de minha mãe caí nas mãos do Estado
E me acocorei em seu ventro até que meu pelo molhado congelasse
Acordeu ao som da negra artilharia antiaérea e dos pesadelares caças
Quando eu morri eles me lavaram da torreta com uma mangueira
Um Aviador Irlandês Prevê sua Morte
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
Tradução instantânea:
Eu sei que devo encontrar meu destino
Lá em cima em algum lugar
Aqueles que combato não odeio
Aqueles que defendo não amo
Minha terra é Kiltartan Cross
Meu povo os miseráveis de Kiltartan
Nenhum fim que tivesse lhes causaria perda
Ou os deixaria mais felizes
Nem o dever nem a lei me fizeram lutar
Nem os homens públicos nem a multidão a delirar
Um solitário impulso de prazer
Trouxe-me a este tumulto nas nuvens
Eu pesei tudo, trouxe tudo à mente
Os anos por vir me soaram vazios
Vazios os anos passados
Em comparação com esta vida, esta morte!
Artilheiro
Did they send me away from my cat and my wife
To a doctor who poked me and counted my teeth,
To a line on a plain, to a stove in a tent?
Did I nod in the flies of the schools?
And the fighters rolled into the tracer like rabbits,
The blood froze over my splints like a scab --
Did I snore, all still and grey in the turret,
Till the palms rose out of the sea with my death?
And the world ends here, in the sand of a grave,
All my wars over? How easy it was to die!
Has my wife a pension of so many mice?
Did the medals go home to my cat?
Tradução porca:
Eles me afastaram de meu gato e minha esposa
Para um médico que me cutucou e contou meus dentes
Para uma fila numa planície, um forno numa tenda?
Será que acedi nos voos da escola?
E os caças rolavam por dentro das traçadoras como coelhos
O sangue congelou sobre minhas feridas como uma crosta
Será que ronquei, imóvel e cinza na torreta,
Até que o mar se ergueu com minha morte?
E o mundo termina aqui, na terra da sepultura,
Todas as minhas guerras acabadas?
Como foi fácil morrer!
Será que minha esposa tem uma pensão de quantos ratos?
Será que minhas medalhas foram para meu gato?
A Morte do Artilheiro da Torreta Ventral
Randall Jarrel
From my mother's sleep I fell into the State,
And I hunched in its belly till my wet fur froze.
Six miles from earth, loosed from its dream of life,
I woke to black flak and the nightmare fighters.
When I died they washed me out of the turret with a hose.
Tradução instantânea minha:
Do colo de minha mãe caí nas mãos do Estado
E me acocorei em seu ventro até que meu pelo molhado congelasse
Acordeu ao som da negra artilharia antiaérea e dos pesadelares caças
Quando eu morri eles me lavaram da torreta com uma mangueira
Um Aviador Irlandês Prevê sua Morte
William Butler Yeats
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
Tradução instantânea:
Eu sei que devo encontrar meu destino
Lá em cima em algum lugar
Aqueles que combato não odeio
Aqueles que defendo não amo
Minha terra é Kiltartan Cross
Meu povo os miseráveis de Kiltartan
Nenhum fim que tivesse lhes causaria perda
Ou os deixaria mais felizes
Nem o dever nem a lei me fizeram lutar
Nem os homens públicos nem a multidão a delirar
Um solitário impulso de prazer
Trouxe-me a este tumulto nas nuvens
Eu pesei tudo, trouxe tudo à mente
Os anos por vir me soaram vazios
Vazios os anos passados
Em comparação com esta vida, esta morte!
Artilheiro
Randall Jarrel
Did they send me away from my cat and my wife
To a doctor who poked me and counted my teeth,
To a line on a plain, to a stove in a tent?
Did I nod in the flies of the schools?
And the fighters rolled into the tracer like rabbits,
The blood froze over my splints like a scab --
Did I snore, all still and grey in the turret,
Till the palms rose out of the sea with my death?
And the world ends here, in the sand of a grave,
All my wars over? How easy it was to die!
Has my wife a pension of so many mice?
Did the medals go home to my cat?
Tradução porca:
Eles me afastaram de meu gato e minha esposa
Para um médico que me cutucou e contou meus dentes
Para uma fila numa planície, um forno numa tenda?
Será que acedi nos voos da escola?
E os caças rolavam por dentro das traçadoras como coelhos
O sangue congelou sobre minhas feridas como uma crosta
Será que ronquei, imóvel e cinza na torreta,
Até que o mar se ergueu com minha morte?
E o mundo termina aqui, na terra da sepultura,
Todas as minhas guerras acabadas?
Como foi fácil morrer!
Será que minha esposa tem uma pensão de quantos ratos?
Será que minhas medalhas foram para meu gato?
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junho 19, 2011
Amor Elementar
Conte-me uma chuva
Macia, fina
Um pouco melancólica
E envolvente
Beije-me uma tempestade
Um temporal de verão
O sabor da grama molhada
O cheiro do ozônio
Os raios estourando
O ar abundando de água
Até que a terra encharcada
Seja uma lama indistinta de nossos pés
Uma úmida pasta de pó, planeta
E restos de mortos enterrados
E nós o fogo
Macia, fina
Um pouco melancólica
E envolvente
Beije-me uma tempestade
Um temporal de verão
O sabor da grama molhada
O cheiro do ozônio
Os raios estourando
O ar abundando de água
Até que a terra encharcada
Seja uma lama indistinta de nossos pés
Uma úmida pasta de pó, planeta
E restos de mortos enterrados
E nós o fogo
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maio 30, 2011
O Poema Bipolar (Reprise)
Playground e balões e começo de noite
Primeiro aniversário do filho de minha prima
Andando um pouco se chega à escada e as paredes
Estão nuas
E sem balões
No canto dos olhos, na fresta da visão,
no limiar do que se enxerga sob a luz
Sombras de outras eras passam,
Rápidas demais, indetectadas, inobservadas
Ignoradas por todos os outros
Um homem comenta comigo sobre travestis e homossexualidade
E que ele jamais seria homossexual porque tem pêlos, muitos pêlos
É tudo genética, ele explica, por isso travestis são lisinhos
(Eles não se depilam?)
Pergunto se todos os índios são gays
E ele diz que índios são diferentes
Miles Davis e Gil Evans e o concerto de Aranjuez
Somos todos profissionais aqui
Pais, mães e avós e tios
E perto da escada tudo permanece vazio
Sombras passam nas frestas, nas brechas
Nos cantos dos envolventes sorrisos quentes
Um amigo meu que morreu de overdose dois anos atrás
Passa incólume e indiferente como sempre
frente a essa gente
Os balões estouram
E as crianças devem se assustar
Mas os pais, os pais todos riem
Uma jovem de belos seios tira um deles para amamentar
Somos todos profissionais aqui
Economistas neoliberais de botequim explicam
A incerteza e a prisão do cooperativismo
Eleitores de Lula culpam os tucanos de tudo
Tudo posto assim em preto e branco
As sombras que passam são negras
E ao caminhar em direção à luz você encontra seus parentes mortos
A verdade, afinal, qual é a verdade?
Abracem-me, dúvidas, destruam meus profundos conhecimentos
Faça-me gargalhar
(para espanto geral)
Com o teatro de fantoches
Pelo qual o pai pagou tão caro
Distraia-me dos belos seios da mãe amamentando
(Será que ela não queria chamar a atenção de ninguém)
Perto da escada
Fumando um cigarro
Uma última moça de blusa e saia curte o cigarro
(Não se deve fumar perto de tanta criança)
Ela sorri quando eu chego perto
Como uma amiga minha internada
Que também não me reconhece
Mas sempre sorri feliz quando chego
Não falo nada
Meu amigo morto de overdose já teria puxado conversa
Ela se vai
Sombra luminosa em paredes sem balões
(Como já as outras vão ficando enquanto vão estourando)
Advogada e poetisa,
Minha prima explica depois
Uma história triste, você não ouviu?
O pai largou a mãe, a mãe ligou o gás
Com ela e a irmã em casa
Mas mudou de idéia ao ver as filhas vomitando
Que ela vote no PSDB
Que ela coma nos restaurantes indicados pelo RioShow
E veja filmes búlgaros que o bonequinhos aplaudiu de pé
Pode fingir gostar de filmes que pessoas inteligentes gostam
Pode fingir apreciar jazz e Marisa Monte e Miles Davis e Gil Evans
Porque ela talvez ao fim
Até goste
Ela já esteve lá
Ela já viu nem que fosse por um momento
Ela já esteve lá
Ela já esteve aqui
Comigo
Comigo
Comigo
Na fronteira da sensação de impotência
E onipotência
Onde na periferia da visão as sombras caminham em um
fugidio instante de tempo
Como nós vivemos
num fugidio instante do tempo
Escapulindo por uma ampulheta grão por grão
Uma ampulheta de amplo busto e quadris
E fina cintura
Como ela
Bafejando a fumaça do cigarro
E mais balões estouram ao som de risadas
Fugindo do tempo
Primeiro aniversário do filho de minha prima
Andando um pouco se chega à escada e as paredes
Estão nuas
E sem balões
No canto dos olhos, na fresta da visão,
no limiar do que se enxerga sob a luz
Sombras de outras eras passam,
Rápidas demais, indetectadas, inobservadas
Ignoradas por todos os outros
Um homem comenta comigo sobre travestis e homossexualidade
E que ele jamais seria homossexual porque tem pêlos, muitos pêlos
É tudo genética, ele explica, por isso travestis são lisinhos
(Eles não se depilam?)
Pergunto se todos os índios são gays
E ele diz que índios são diferentes
Miles Davis e Gil Evans e o concerto de Aranjuez
Somos todos profissionais aqui
Pais, mães e avós e tios
E perto da escada tudo permanece vazio
Sombras passam nas frestas, nas brechas
Nos cantos dos envolventes sorrisos quentes
Um amigo meu que morreu de overdose dois anos atrás
Passa incólume e indiferente como sempre
frente a essa gente
Os balões estouram
E as crianças devem se assustar
Mas os pais, os pais todos riem
Uma jovem de belos seios tira um deles para amamentar
Somos todos profissionais aqui
Economistas neoliberais de botequim explicam
A incerteza e a prisão do cooperativismo
Eleitores de Lula culpam os tucanos de tudo
Tudo posto assim em preto e branco
As sombras que passam são negras
E ao caminhar em direção à luz você encontra seus parentes mortos
A verdade, afinal, qual é a verdade?
Abracem-me, dúvidas, destruam meus profundos conhecimentos
Faça-me gargalhar
(para espanto geral)
Com o teatro de fantoches
Pelo qual o pai pagou tão caro
Distraia-me dos belos seios da mãe amamentando
(Será que ela não queria chamar a atenção de ninguém)
Perto da escada
Fumando um cigarro
Uma última moça de blusa e saia curte o cigarro
(Não se deve fumar perto de tanta criança)
Ela sorri quando eu chego perto
Como uma amiga minha internada
Que também não me reconhece
Mas sempre sorri feliz quando chego
Não falo nada
Meu amigo morto de overdose já teria puxado conversa
Ela se vai
Sombra luminosa em paredes sem balões
(Como já as outras vão ficando enquanto vão estourando)
Advogada e poetisa,
Minha prima explica depois
Uma história triste, você não ouviu?
O pai largou a mãe, a mãe ligou o gás
Com ela e a irmã em casa
Mas mudou de idéia ao ver as filhas vomitando
Que ela vote no PSDB
Que ela coma nos restaurantes indicados pelo RioShow
E veja filmes búlgaros que o bonequinhos aplaudiu de pé
Pode fingir gostar de filmes que pessoas inteligentes gostam
Pode fingir apreciar jazz e Marisa Monte e Miles Davis e Gil Evans
Porque ela talvez ao fim
Até goste
Ela já esteve lá
Ela já viu nem que fosse por um momento
Ela já esteve lá
Ela já esteve aqui
Comigo
Comigo
Comigo
Na fronteira da sensação de impotência
E onipotência
Onde na periferia da visão as sombras caminham em um
fugidio instante de tempo
Como nós vivemos
num fugidio instante do tempo
Escapulindo por uma ampulheta grão por grão
Uma ampulheta de amplo busto e quadris
E fina cintura
Como ela
Bafejando a fumaça do cigarro
E mais balões estouram ao som de risadas
Fugindo do tempo
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abril 12, 2011
A Intrusa (Segunda Versão)
Finalmente cheguei em casa
E encontrei uma mulher que não estava lá
Ela também não estava lá no dia seguinte
E nem no outro e nem no outro
Ó, Senhor, será que algum dia ela irá embora
E finalmente me deixará em paz?
E encontrei uma mulher que não estava lá
Ela também não estava lá no dia seguinte
E nem no outro e nem no outro
Ó, Senhor, será que algum dia ela irá embora
E finalmente me deixará em paz?
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abril 04, 2011
Richard Cory
A primeira vez que ouvi falar de Richard Cory era uma (ótima) música do bom álbum triplo WINGS OVER AMERICA. Depois descobri que era na verdade do Paulo Simon e, mais tarde, finalmente, que era um poema belíssimo de Edwin Arlington Robinson, como os angloparlantes podem conferir abaixo e os angloprejudicados mais abaixo ainda, na minha pobre e livre tradução (as duas coisas sempre parecem andar juntas).
Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.
And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.
And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.
So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.
Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio
E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar
E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar
E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça
Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.
And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.
And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.
So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.
Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio
E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar
E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar
E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça
Cutting Glass
Jared Carter
It takes a long, smooth stroke practiced carefully
over many years and made with one steady motion.
You do not really cut glass, you score its length
with a sharp, revolving wheel at the end of a tool
not much bigger than a pen-knife. Glass is liquid,
sleeping. The line you make goes through the sheet
like a wave through water, or a voice calling in a dream,
but calling only once. If the glazier knows how to work
without hesitation, glass begins to remember. Watch now
how he draws the line and taps the edge: the pieces
break apart like a book opened to a favorite passage.
Each time, what he finds is something already there.
In its waking state glass was fire once, and brightness;
all that becomes clear when you hold up the new pane.
Minha tradução feita nas coxas:
É preciso um longo, suave golpe praticado por anos
e aplicado com um único movimento contínuo
Você não realmente corta vidro, mas demarca seu comprimento
com uma afiada roda girando na ponta de um instrumento
Não maior do que um estilete. Vidro é líquido,
adormecido. A linha que você traça atravessa a folha
como uma onda pela água, ou uma voz chamando num sonho,
mas apenas uma única vez. Se o vidraceiro pratica seu ofício
sem hesitação, o vidro começa a lembrar. Observe
como ele traça a linha e contorna a borda: as peças
separam-se como um livro se abre na passagem favorita.
Todas as vezes, o que ele encontra é algo já lá.
Em seu estado desperto vidro foi uma vez fogo, e brilho;
tudo isso se torna claro quando você segura o novo painel.
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março 27, 2011

Presentiment is that long shadow on the lawn
Indicative that suns go down;
The notice to the startled grass
That darkness is about to pass.
(Emily Dickinson)
Pressentimento é a longa sombra na grama
Indicativa do por do Sol;
O aviso à alarmada grama
De que a escuridão está para chegar.
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janeiro 22, 2011
Vida
Você não vive sua vida
A vida vive você
O ar respira você
E você ilumina o destino
dos raios do sol
As mulheres amam você
E seus inimigos odeiam você
Seus filhos o criam
E você é um instrumento
de sua arte e seu ofício
A mão que segura o formão
Para que a pedra possa exibir
sua verdadeira forma
A vida faz você, ama você,
gasta você, mata você
E o mundo dela gira alegremente
Em torno de você
Enquanto a vida te cerca em todos os lugares
E ninguém e nada sob o sol consegue fugir dela
A vida vive você
O ar respira você
E você ilumina o destino
dos raios do sol
As mulheres amam você
E seus inimigos odeiam você
Seus filhos o criam
E você é um instrumento
de sua arte e seu ofício
A mão que segura o formão
Para que a pedra possa exibir
sua verdadeira forma
A vida faz você, ama você,
gasta você, mata você
E o mundo dela gira alegremente
Em torno de você
Enquanto a vida te cerca em todos os lugares
E ninguém e nada sob o sol consegue fugir dela
dezembro 17, 2010
Leonard Cohen
Como a imensa maioria da população do planeta, a única coisa que eu conhecia até ontem era o Aleluia do Leonard Cohen - maravilhoso, por sinal. Você pode ver a versão ao vivo aqui e abaixo a do disco mesmo, só com a foto dele:
Nunca tinha prestado atenção na letra, olha que bonito:
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Maybe there’s a God above
But all I’ve ever learned from love
Was how to shoot at someone who outdrew you
It’s not a cry you can hear at night
It’s not somebody who has seen the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah
Olha que coisa de chorar, esse final:
Fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não conseguia sentir, então tentei tocar
Eu contei a verdade, não vim para enganar você
E ainda que
Tudo tenha dado errado
Vou permanecer frente ao Senhor da Música
Com nada em minha voz além de Aleluia.
As estrofes todas são lindas, aliás:
Sua fé era forte, mas você precisava de prova
Você a viu banhando-se no telhado
Sua beleza e o luar avassalaram você
Ela amarrou você
A uma cadeira de cozinha
Ela quebrou seu trono, ela cortou seu cabelo
E de seus lábios ela arrancou o Aleluia
As letras dele são quilométricas, ele é poeta também - e ainda desenha bem - e sabe ir de um poema curtinho tipo mimeógrafo a coisas como a canção acima, as músicas em geral sendo bem mais longas do que ao que estamos acostumados porque ele TEM algo a dizer.
Eis aí um poema dele, seguido da tradução apressada de sempre:
For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town
For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid
For you
I will be a banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line
For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter
For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans for foreskins
to sew back again
For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
Por você
Serei um judeu de gueto
E dançarei
E porei meias brancas
Em meus membros tortos
E envenenarei os poços
Pela cidade
Por você
Serei um judeu apóstata
E direi ao padre espanhol
Do juramento de sangue
No Talmude
E onde os ossos das crianças
Estão escondidos
Por você
Serei um banqueiro judeu
E trarei à ruína
Um orgulhoso velho rei caçador
E darei um fim à sua linhagem
Por você
Serei um judeu da Broadway
E chorarei em teatros
Pela minha mãe
E venderei produtos baratos
Atrás do balcão
Por você
Serei um médico judeu
E procurarei
Em todas as latas de lixo por prepúcios
Para costurá-los de volta
Por você
Serei um judeu de Dachau
A jazer na cal
Com membros tortos
E uma dor tão intensa
Que mente alguma pode compreender
Você pode encontrar mais poemas dele nesta página em inglês. Então, pra se despedir, o sensacional intérprete canta mais uma de suas grandes canções abaixo. mas não deixe de conferir o er... bem... algo delicado Rufus Wainwright cantando "Everybody Knows" no vocêtubo...
Nunca tinha prestado atenção na letra, olha que bonito:
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Maybe there’s a God above
But all I’ve ever learned from love
Was how to shoot at someone who outdrew you
It’s not a cry you can hear at night
It’s not somebody who has seen the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah
Olha que coisa de chorar, esse final:
Fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não conseguia sentir, então tentei tocar
Eu contei a verdade, não vim para enganar você
E ainda que
Tudo tenha dado errado
Vou permanecer frente ao Senhor da Música
Com nada em minha voz além de Aleluia.
As estrofes todas são lindas, aliás:
Sua fé era forte, mas você precisava de prova
Você a viu banhando-se no telhado
Sua beleza e o luar avassalaram você
Ela amarrou você
A uma cadeira de cozinha
Ela quebrou seu trono, ela cortou seu cabelo
E de seus lábios ela arrancou o Aleluia
As letras dele são quilométricas, ele é poeta também - e ainda desenha bem - e sabe ir de um poema curtinho tipo mimeógrafo a coisas como a canção acima, as músicas em geral sendo bem mais longas do que ao que estamos acostumados porque ele TEM algo a dizer.
Eis aí um poema dele, seguido da tradução apressada de sempre:
For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town
For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid
For you
I will be a banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line
For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter
For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans for foreskins
to sew back again
For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
Por você
Serei um judeu de gueto
E dançarei
E porei meias brancas
Em meus membros tortos
E envenenarei os poços
Pela cidade
Por você
Serei um judeu apóstata
E direi ao padre espanhol
Do juramento de sangue
No Talmude
E onde os ossos das crianças
Estão escondidos
Por você
Serei um banqueiro judeu
E trarei à ruína
Um orgulhoso velho rei caçador
E darei um fim à sua linhagem
Por você
Serei um judeu da Broadway
E chorarei em teatros
Pela minha mãe
E venderei produtos baratos
Atrás do balcão
Por você
Serei um médico judeu
E procurarei
Em todas as latas de lixo por prepúcios
Para costurá-los de volta
Por você
Serei um judeu de Dachau
A jazer na cal
Com membros tortos
E uma dor tão intensa
Que mente alguma pode compreender
Você pode encontrar mais poemas dele nesta página em inglês. Então, pra se despedir, o sensacional intérprete canta mais uma de suas grandes canções abaixo. mas não deixe de conferir o er... bem... algo delicado Rufus Wainwright cantando "Everybody Knows" no vocêtubo...
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novembro 15, 2010
Odisseia
Ouvindo meu iPod
Passo incólume pelo canto das sereias
Meu capitão amarrado ao mastro
com algemas, correias
e fio dental de couro
Implora,
"Voltai e deixai-me provar
as delícias prometidas"
Enquanto um solitário rochedo
deixa cair uma lágrima
pelos seus amados navios
Que nunca mais atirar-se-ão
a todo pano, mastros em riste
rumo ao seu abraço mortal
Passo incólume pelo canto das sereias
Meu capitão amarrado ao mastro
com algemas, correias
e fio dental de couro
Implora,
"Voltai e deixai-me provar
as delícias prometidas"
Enquanto um solitário rochedo
deixa cair uma lágrima
pelos seus amados navios
Que nunca mais atirar-se-ão
a todo pano, mastros em riste
rumo ao seu abraço mortal
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setembro 13, 2010
Guerra de Atrito (Primeira Versão)
Os anos passam
Como soldados recrutados às pressas
Partindo para a linha de frente
Rumo a uma batalha desesperada
E dos quais nunca mais ouvimos falar.
Como soldados recrutados às pressas
Partindo para a linha de frente
Rumo a uma batalha desesperada
E dos quais nunca mais ouvimos falar.
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julho 14, 2010
Ballad of the Despairing Husband
Robert Creeley
Esta é a minha tradução capenga. Normalmente eu tento traduzir mantendo a ideia central, mandando pras cucuias as rimas. Mas achei que elas eram importantes aqui, portanto mudei bastante a métrica e algumas das linhas do poema. Quem não gostar da poesia, eu garanto, ela é maneira, eu é que traduzi mal, por isso quem falar inglês deve conferir o texto original, abaixo da minha versão rimada.
Minha esposa e eu vivíamos sozinhos
Nossa maior diversão era a discussão
Eu discutia com ela, ela comigo
E no final rolava o maior tesão
Mas agora vivo aqui sozinho
E mal tenho um dinheirinho
E passo os dias em tristeza
Desde que deixei minha princesa
Oh, volte logo, escrevo pra ela
Vá se foder, mané, é a resposta
É isso que acontece quando se dá trela
Tomara que ela se afogue num monte de bosta
Mas eu ainda a amo, oh, sim
Amo ela e as crianças também
E ainda acho que depois de tudo, no fim
Nós dois estaremos juntos e bem
Porra nenhuma, ela diz, durona
E com isso ela me faz beijar a lona
Porra nenhuma, nada de volta no fim
Depois de tudo que você fez pra mim
Oh, mulher, mulher, falo sério
nunca amei de nenhuma outra o mistério
Nem antes nem agora, para mim não é crível
Que me seja outra mulher possível
Pode ser, ela diz então
Mas agora outros homens eu quero
E com eles não vai ter discussão
E nem o menor lero-lero
E vestirei a roupa que quiser
E dançarei a música que tocar
Estou livre de você pro que der e vier
Sem ninguém para me atazanar!
Será mesmo esse o anjo que eu amei tanto
Que me veio como uma graça do céu
Cuja passagem fazia as flores abrirem ao léu
E meu velho e gasto corpo recomeçar seu canto?
Sim, é ela, com certeza.
E já que ainda a amo, com presteza
Celebrá-la-ei com toda beleza
Oh, amável moça, noite, tarde ou manhã
Oh, amável moça, com gosto de maçã
Oh, mais amável das moças, vestida, despida ou nua
Oh, mais amável das moças, levantando, deitando ou na sua
Oh, mais amável das moças, que nenhuma é mais bela ou graciosa
Oh, mais amável das moças, injusta, cruel ou caprichosa
Oh, mais amável das moças, vendo, fazendo, ou apenas sendo
Oh, mais amável das moças, sob o sol ou chovendo
Oh, moça, conceda-me tempo
Para que eu termine minha rima
Aqui a versão original
My wife and I lived all alone,
contention was our only bone.
I fought with her, she fought with me,
and things went on right merrily.
But now I live here by myself
with hardly a damn thing on the shelf,
and pass my days with little cheer
since I have parted from my dear.
Oh come home soon, I write to her.
Go fuck yourself, is her answer.
Now what is that, for Christian word?
I hope she feeds on dried goose turd.
But still I love her, yes I do.
I love her and the children too.
I only think it fit that she
should quickly come right back to me.
Ah no, she says, and she is tough,
and smacks me down with her rebuff.
Ah no, she says, I will not come
after the bloody things you've done.
Oh wife, oh wife -- I tell you true,
I never loved no one but you.
I never will, it cannot be
another woman is for me.
That may be right, she will say then,
but as for me, there's other men.
And I will tell you I propose
to catch them firmly by the nose.
And I will wear what dresses I choose!
And I will dance, and what's to lose!
I'm free of you, you little prick,
and I'm the one to make it stick.
Was this the darling I did love?
Was this that mercy from above
did open violets in the spring --
and made my own worn self to sing?
She was. I know. And she is still,
and if I love her? then so I will.
And I will tell her, and tell her right . . .
Oh lovely lady, morning or evening or afternoon.
Oh lovely lady, eating with or without a spoon.
Oh most lovely lady, whether dressed or undressed or partly.
Oh most lovely lady, getting up or going to bed or sitting only.
Oh loveliest of ladies, than whom none is more fair, more gracious, more beautiful.
Oh loveliest of ladies, whether you are just or unjust, merciful, indifferent, or cruel.
Oh most loveliest of ladies, doing whatever, seeing whatever, being whatever.
Oh most loveliest of ladies, in rain, in shine, in any weather.
Oh lady, grant me time,
please, to finish my rhyme.
junho 21, 2010
Êxtase
Na pilha de corpos nus
Recobertos de pus
Devorados pelos urubus
Seus olhos viram a luz
Recobertos de pus
Devorados pelos urubus
Seus olhos viram a luz
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junho 17, 2010
Furtivo e Covarde
Tudo que está morto torna-se pai
Tudo que vive é o filho
Nunca devorei a carne dos inimigos caídos
Para herdar sua coragem
Nunca brindei com os crânios
dos inimigos
por sua valentia que me enobrecia
Nunca amei de verdade
Amei como nos ensinam a matar
nas escolas nas creches no emprego no governo na tevê
Amei furtivamente
A sangue-frio
Amei pelas costas
Covardemente
Mantendo o colarinho os punhos o paletó
impecáveis
Vivemos como matamos
Pois tudo que está morto torna-se pai
E só o filho está vivo
Tudo que vive é o filho
Nunca devorei a carne dos inimigos caídos
Para herdar sua coragem
Nunca brindei com os crânios
dos inimigos
por sua valentia que me enobrecia
Nunca amei de verdade
Amei como nos ensinam a matar
nas escolas nas creches no emprego no governo na tevê
Amei furtivamente
A sangue-frio
Amei pelas costas
Covardemente
Mantendo o colarinho os punhos o paletó
impecáveis
Vivemos como matamos
Pois tudo que está morto torna-se pai
E só o filho está vivo
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Splash
Charles Bukowski
A ilusão é de que você está simplesmente
lendo este poema
a realidade é que isto é
mais que um
poema.
isto é o canivete de um mendigo
isto é uma tulipa
isto é um soldado marchando
através de Madrid.
isto é você em seu próprio
leito de morte
isto é Li Po rindo
lá embaixo
isto não é a porra de um
poema.
isto é um cavalo adormecido
uma borboleta em
sua mente
isto é o circo do
demônio
você não está lendo isto
numa folha
a folha está lendo
você
pode sentir?
é como uma serpente. é uma águia esfomeada rodando pela sala
isto não é um poema. poemas são chatos
fazem você dormir
estas palavras forçam você
a uma nova
loucura
você foi abençoado, você foi atirado em uma
cegante área de
luz
o elefante sonha
com você
agora
a curva do espaço
se dobra e
gargalha
você pode morrer agora
você pode morrer agora como
todas as pessoas deveriam
morrer:
grandes,
vitoriosas,
escutando a música,
sendo a música,
retumbando,
retumbando,
retumbando.
Abaixo, o original:
The illusion is that you are simply
reading this poem.
the reality is that this is
more than a
poem.
this is a beggar's knife.
this is a tulip.
this is a soldier marching
through Madrid.
this is you on your
death bed.
this is Li Po laughing
underground.
this is not a god-damned
poem.
this is a horse asleep.
a butterfly in
your brain.
this is the devil's
circus.
you are not reading this
on a page.
the page is reading
you.
feel it?
it's like a cobra. it's a hungry eagle circling the room.
this is not a poem. poems are dull,
they make you sleep.
these words force you
to a new
madness.
you have been blessed, you have been pushed into a
blinding area of
light.
the elephant dreams
with you
now.
the curve of space
bends and
laughs.
you can die now.
you can die now as
people were meant to
die:
great,
victorious,
hearing the music,
being the music,
roaring,
roaring,
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junho 13, 2010
Da Moça para seu Amante (Primeira Versão)
Vivaz
Me entrego
às suas sevícias
Você decide
o que vamos jantar
onde encomendar
onde vamos passear
onde vamos fazer compras
quando vamos descansar
quando EU vou descansar
Não há outro lugar
onde eu possa realmente descansar
Você me tira a roupa
me amarra me segura os braços com as mãos
e me beija devagar
Você escolhe o momento em que você vai gozar
e sabe o melhor momento para eu gozar
Você me faz mulher
Me entrego
às suas sevícias
Você decide
o que vamos jantar
onde encomendar
onde vamos passear
onde vamos fazer compras
quando vamos descansar
quando EU vou descansar
Não há outro lugar
onde eu possa realmente descansar
Você me tira a roupa
me amarra me segura os braços com as mãos
e me beija devagar
Você escolhe o momento em que você vai gozar
e sabe o melhor momento para eu gozar
Você me faz mulher
junho 06, 2010
Ciúme
Guilherme de Almeida
A minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal
Depois passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal
Agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei
Agora que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei
Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não me podes dar a impressão que me deste
A primeira impressão que me fizeste
Louco talvez
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E cedo ou tarde te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!
Poema enviado pelo leitor (este blogue tem leitores! Tem leitores!) num comentário na postagem CIÚME
. Muito bom!
junho 05, 2010
Poema para uma Moça que Pensa que Tem Trinta Anos
Ogden Nash
Contra a vontade Miranda acorda
Sentindo o sol com terror
Um involuntário passo ela dá
Tremendo rumo ao espelho
Miranda aos olhos de Miranda
É velha e grisalha e suja
Vinte e nove ela tinha ontem à noite
Trinta ela tem esta manhã
Brilhando como Vênus
ou como o crepúsculo
Apavorada com o calendário
Miranda sente-se perdida
Tola e argêntea moça
Traga o espelho para perto
O tempo que turbilhona os anos
Adorna e adora você
O tempo é intemporal para ti
Calendários para os humanos
O que é um ano, ou trinta,
para o amor feito mulher?
Oh, a noite não verá trinta novamente
Mas relaxe, Miranda,
Pegue sua taça e me diga, então,
Qual a idade da primavera, Miranda?
Abaixo, para os anglófonos que não suportam minhas traduções apressadas, o original em inglês:
Unwillingly Miranda wakes,
Feels the sun with terror,
One unwilling step she takes,
Shuddering to the mirror.
Miranda in Miranda's sight
Is old and gray and dirty;
Twenty-nine she was last night;
This morning she is thirty.
Shining like the morning star,
Like the twilight shining,
Haunted by a calendar,
Miranda is a-pining.
Silly girl, silver girl,
Draw the mirror toward you;
Time who makes the years to whirl
Adorned as he adored you.
Time is timelessness for you;
Calendars for the human;
What's a year, or thirty, to
Loveliness made woman?
Oh, Night will not see thirty again,
Yet soft her wing, Miranda;
Pick up your glass and tell me, then--
How old is Spring, Miranda?
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