setembro 04, 2019

As Pessoas-Algoritmo

Vocês já repararam que as pessoas no trabalho vêm se portando cada vez mais como um app? Qualquer imprevisto e mandam tudo de volta pro chefe decidir. Ninguém mais improvisa, demonstra iniciativa ou supõe. Bem-vindos à Idade do Algoritmo.

agosto 26, 2019

Os Homens que Odiavam as Mulheres II

Tem um episódio dos Simpsons em que o Homer faz amizade com o dono de um antiquário algo excêntrico e ele até começa a frequentar a casa deles. Tão amigos eles ficam que a Marge, achando estranho essa demonstração de mente aberta do marido, tenta avisá-lo sobre a orientação sexual do sujeito. Depois de tentar inutilmente várias metáforas, ela fala, “acho que ele prefere a companhia de homens”. Ao que o Homer ri, com aquela risada profunda do soberbo dublador original, responde, “ora, e quem não prefere?”

No mundo mais careta e binário, onde meninas vestem rosa e meninos vestem azul, estes últimos não têm muito estímulo pra ter amigas. Elas só falam de bonecas, não praticam esportes, não gostam de armas, não gostam de pescar, curtem moto, mas só pra andar na garupa, e preferem carros confortáveis a enormes jipossauros. E têm que cozinhar, cuidar dos filhos e da casa. Não são boa companhia pra sair, tomar umas cachaças e ficar falando de mulheres e filmes de ação.

O problema é que vivemos numa sociedade machista. E a principal constatação dessa nossa sociedade machista é que o sucesso de um homem é medido pelas mulheres que ele é capaz de arrumar. Dinheiro? Você precisa até uma certa quantidade – depois do suficiente pra poder viver sem ter preocupações financeiras, não faz tanta diferença assim. Embora teste de QI não seja tão confiável assim, vários estudos já apontaram que os rendimentos de uma pessoa correspondem ao seu QI até um certo patamar. Depois, começa a cair. É como se a galera mais cabeça achasse que depois dessa barreira, o esforço não vale a pena.

Não, dinheiro é na verdade um indicador que você é um macho atraente. Até o Trump diz isso com todas as letras em sua biografia. O importante não é o dinheiro que você ganha num negócio, o importante é levar a melhor num negócio. O dinheiro é só a medida disso. Não adianta você ter dinheiro e não ser um vencedor. E você só é um vencedor se arrumar a mulher certa.

Essa ideia é tão entranhada em nossa sociedade que as vivemos e experimentamos o tempo todo sem nos darmos conta. Nos filmes e livros, a recompensa do herói é no final conseguir a mocinha, principalmente se for um jovem solitário e incompreendido numa história de fantasia (inclusive se de repente ele for declarado por alguém que chega de repente que ele é o escolhido pralguma coisa, embora nunca tenha demonstrado nenhuma qualidade de liderança). Certa vez, levei uma amiga mexicana minha, punk, feminista, daquelas de me chamar a atenção o tempo todo, pra visitar o Museu Imperial de Petrópolis. Contei-lhe como Pedro II, ultimamente redescoberto como um monarca progressista, o imperador cidadão, o imperador filósofo, manteve o Brasil unido e relativamente estável enquanto a nação se consolidava. Mas, ao ver o busto da Teresa Cristina, ela comentou, rindo, automaticamente, “nossa, a mulher dele era feia”.

Assim se cria um veeeelho paradoxo da nossa sociedade, ultimamente relevado com a chegada da internet. Criamos um monte de garotos e homens que não gostam da companhia de mulheres, mas precisam delas pra garantir respeito. Gente que não gosta verdadeiramente de sexo, mas precisa fazê-lo. Existem milhões de maneiras de se usar seu corpo pra se ter um orgasmo, por várias vias. O que diferencia a relação sexual é justamente a palavra “relação”. No entanto, se usado pra comprar respeito (isso fica pra outra postagem), se torna algo vazio e vago.

Você deve conhecer o tipo. Aquele que só fala de mulher, julga a mulher dos outros, mas quando você aparece no aniversário dele, só tem homem. Aquele que te pergunta como é que você não se entedia viajando sozinho. Aquele que fica contando das conversas no aplicativo de pegação como se tivesse realmente pego alguém. Também são sujeitos que contraintuitivamente gostam de falar mal da promiscuidade da sociedade. O que eles entendem como promiscuidade muitas vezes é só um sexo casual, mesmo daqueles afetuosos, porque eles simplesmente não têm amigas casuais, ou relacionamentos afetivos com gente do outro sexo que não envolvam “quero te comer”.

Isso tudo, obviamente, pra falar do Inominável. Seus filhos estão sempre fazendo postagens acompanhados de outros amigos, varas de pescar, fuzis e afins. Casam-se, mas parecem nunca ter tempo prum programa a dois – sair pra dançar, prum show, pra passar pela cidade. Quem acompanha as viagens e os compromissos do Inominável pode ter a impressão de que ele é casado com o Hélio Lopes. Pelo menos estão sempre almoçando juntos, passeando juntos. Não é de se admirar, Hélio Lopes provavelmente entende mais de pesca, tiro e futebol do que qualquer mulher do clã. E, é claro, não é bom ficar levando a mulher pra passear por aí, pra se arriscar a alguém roubá-la. Vocês devem estar lembrados daquela nebulosa história do buquê de flores do Joesley pra Marcela Temer, envolvendo um avião ou algo parecido. Muito pior do que não arrumar uma mulher atraente é alguém passar a mão nela na sua frente. Aliás, é bom que ela não goste muito de sexo exatamente por isso. Pode querer variedade.

Você pode julgar o Macron. Pode dizer que, se os sexos fossem trocados, todo o mundo ia achar a história esquisita. Mas a graça é justamente que os sexos estão trocados. Ele é que é o homem poderoso. Não é uma jovem menina em busca de fortaleza e proteção como a sociedade diz que ela só vai encontrar em uma figura masculina de autoridade, mais velha e respeitável. E, pelo menos, eles estão sempre juntos. Por mais que seja um recurso publicitário, temos imagens deles de mãos dadas, comparecem a eventos e cerimônias um acompanhando o outro. Parece um relacionamento. Parece um casamento. Parece que o Macron não está entediado por ter que conviver com uma criatura chata pra poder ter seu lugar no mundo. Não parece que ele seja um incel, reclamando da liberdade sexual feminina que faz com que elas não deem pra eles, apesar deles serem legais e bons em videogame. Parece que eles conversam.

Parece que eles vivem, fora de um mundo de ganhar dinheiro e respeito.

agosto 18, 2019

A Antiga Catedral e a Ermida do Ó


Esta semana fiquei sabendo que, durante a restauração da antiga Catedral, ali na Primeiro de Março, tinham desencavado a antiga Ermida do Ó. Assim, munido da minha câmera e minha nova lente, que eu estava doido pra usar, fui visitar o local. Tem um Museu e Sítio Arqueológico, minúsculos, na velha Sé, mas vale a visita. Vai me dizer que nunca viajou e foi visitar uma igreja que mais tarde descobriu ser do século XX e a maior armadilha de turista, sem nada de interessante dentro?

A Ermida do Ó era uma capelinha tosca e simples, como muitas do primevo Rio de Janeiro. As suas ruínas são essas da primeira e da segunda fotos. Ao seu lado foi construído um Hospício e não, não era para alojar os meus amigos de faculdade, mas o nome que se dava na época à Casa dos Romeiros. Quem fazia romaria ou peregrinação ao Rio de Janeiro do século XVI ninguém nunca explicou, mas pelo menos casa pra recebê-los tinha. Talvez justamente pela parcimônia desses fiéis é que quando chegaram na década de 80 uns padres pra fundar a Ordem de São Bento, alojaram eles lá. Logo depois, Manuel de Brito, capitão português que veio pra cá com Estácio de Sá e assim se tornou dono de umas terras, doou-lhes um morro e os beneditinos estão lá até hoje. Aliás, por causa desse Manuel de Brito é que a praia que tinha ali onde hoje é a Praça XV se chamava Praia de D. Manuel e até hoje a rua do Fórum se chama rua D. Manuel.




Realojados os padres, o Hospício logo em seguida recebeu outros. Eram carmelitas, com o mesmo intento de estabelecer sua ordem por aqui. Ofereceram-lhes a princípio um morro, mas eles o acharam ermo e distante. Era o Morro hoje de Santo Antônio (ou o que restou dele). Lembrem-se que naquela época a área da Lapa – Passeio, Carioca e redondezas – era um pantanal, e daqueles malcheirosos. Tanto que abriram uma vala pra drenar aquelas águas e renová-las. Hoje é a rua Uruguaiana e por isso ela é uma das poucas retas daquele tempo.

Os carmelitas gostaram da área onde estavam e conseguiram permissão para construir seu convento ali mesmo, em 1611, começando a construção em 1619, quando receberam permissão da Câmara pra usar as pedras da hoje Ilha das Enxadas, onde fica a Escola Naval, mas que na época não tinha nome e passou a se chamar Ilha de Ruy Vaz Brito porque este foi o governador que concedeu a licença de exploração.

A concessão de terreno mencionava a construção do convento e sua “cerca”. Talvez fosse a paliçada, que está na terceira foto. Na base de pedra, podem se ver os buracos onde ficariam os troncos. Curiosamente, é parecida com aquela de “O Novo Mundo”, do Terence Malick, com as toras espaçadas (se bem que no filme estavam mais pra gravetos do que pra toras). A nossa ideia é que qualquer paliçada seja maciça, como um forte, mas provavelmente eles não estavam esperando ataques de artilharia dos índios (contra quem ela foi provavelmente erigida) e queriam poder ver o que estava acontecendo do outro lado – como, curiosamente, os agentes de imigração disseram que queriam o “muro” pro Trump.



Na época, o mar batia até ali. Frei Vicente de Salvador (1) conta que uma baleia certa feita encalhou em frente ao Convento. Por algum motivo de aquecimento global ou fosse lá o que fosse, ainda no século XVI o mar já estava começando a recuar. E, como era um costume tolerado pelos governantes na época, a área que se formou ali passou a ser extensão daquela dos Carmelitas, que dela se apossaram. Até que em 1683 a Câmara botou o olho naqueles terrenos valorizados e resolveu reparti-los e aforá-los. Os padrecos ficaram furiosos, disseram que iam perder a vista, o ar fresco, que teriam o claustro devassado, enfim, botaram a boca no trombone. E não era de bom tom mexer com os caras – podiam ser monges, mas não do tipo que pensamos. Bagunceiros, irredutíveis, insurretos, tinham por algum motivo uma rivalidade com a Ordem da Misericórdia, que já naquela época possuía o monopólio dos funerais. Quando passava um féretro em frente ao Convento do Carmo, eles desciam de porrete na mão pra tocar o terror, hábito esse que mereceu uma ordem real vinda de Portugal pra acabar. Pra dar mais jeito de Ordem religiosa a eles, mais tarde foi nomeado um interventor, que ficou famoso por sua rigidez, Joaquim José Justiniano. O que foi uma pena, porque provavelmente a Igreja Católica não estaria perdendo tantos fiéis hoje em dia se tivesse guardado esses rituais.

Mas a queixa dos padres desordeiros deu resultado. Conta Vieira Fazenda que lhes foi cedido o direito àquela várzea em frente pelo rei, que para tanto argumentou: os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.”

E tão enfezados eram os capuchinhos daquela época que, quando viram uma pedra fundamental erigida naquele terreno foram lá e arrancaram. As autoridades foram reclamar com eles, que era uma afronta, afinal era um marco real – e um marco real concedendo aquela área aos carmelitas. Os padres disseram que não estavam acima de reconhecer um erro e que a poriam de volta no lugar, o que fizeram.

O atual convento já foi alvo de muitas reformas, o que lhe descaracterizou a fachada. O mais próximo do aspecto original, segundo Vivaldo Coaracy, é a face que dá pra Sete de Setembro, que está na quarta foto. Os carmelitas ficaram instalados no Convento até a chegada da Família Real. Sendo o Paço muito pequeno pro tamanho e pros gostos dos portugueses, eles se adonaram também do edifício ali próximo e foi assim que eles foram sendo empurrados até a Tijuca, na igreja dos Capuchinhos.



Mas antes disso, no século XVIII, eles construíram a atual igreja de Nossa Senhora de Monte do Carmo, a antiga catedral. E como ela se tornou a antiga catedral, com tantas igrejas mais luxuosas, como a Candelária, dando mole? A primeira Sé do Rio, quando ele se tornou uma diocese, foi uma igreja no Morro do Castelo, no século XVII, que, com a mudança da cidade pra várzea e crescimento, foi se tornando cada vez menos frequentada, ainda mais com o templo dos Jesuítas, mais opulento e atraente, ali perto. Quando foi instituída na cidade a Ordem de São Benedito, dos “homens pretos”, foi-lhes concedido alojamento junto à Sé.

Os negros, obviamente, não recebiam um bom tratamento das autoridades eclesiásticas, que muitas vezes os tratavam como provavelmente os viam – seus escravos. Após alguns anos, eles se cansaram, e obtiveram permissão para construir sua própria igreja. Após obtê-la, conseguiram surpreendentemente levantar uma grande quantidade de fundos e construíram a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, aquela branca do lado do camelódromo – a da quinta foto. Mais próxima do Centro da cidade da época, e relativamente monumental, a turma do Bispo logo achou que ali seria um ótimo local para a nova Sé. Principalmente porque as outras irmandades não estavam a fim de receber ordens de estranhos dentro de sua própria casa, e ali era a casa dos negros mesmo.



Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também.

A Família Real chegou e ia assistir à primeira missa no Brasil. Deles, não do Brasil. Obviamente seria uma ocasião de gala, cheia de festança e jaez. O povo da Sé mandou avisar aos homens pretos que era pra eles se esconderem, para que os Bragança não se ofendessem com a presença de negros. O que, obviamente, levou-os a se enfileirarem de cada lado da rua do Rosário carregando palmas para saudar o rei. O espetáculo enfureceu tanto o bispado que a Matriz se mudou para a igreja dos carmelitas, que tinha a conveniência pros regentes que era ali do lado mesmo.

A Igreja sofreu várias reformas, e uma recente restauração. A torre direita é do começo do século XX e aquele Cristo (ou santo) realista lá em cima não tem nada a ver com o resto. Pelo menos ainda conserva o frontão que é considerado o mais bonito do Rio. A recente restauração foi a que desencavou a Ermida do Ó. Ela – e a catedral, é claro – estão abertas para visitas, aos sábados, de 9h30m a 12h30m. Seja um bom carioca e vá visitar. Não temos muito monumentos antigos e com história pra apreciar nesta cidade.

O restante das fotos são imagens variadas da igreja, incluindo os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, na cripta desde 1903. Esperamos que tenham se divertido e curtido o tour.















P. S.: a última foto é obviamente obra de um pedófilo pervertido do século XVIII.



(1) Escreveu uma história do Brasil, acho que em 1723, e, pela primeira vez, alguém escreve que o problema do Brasil é a mentalidade extrativista – os colonos vinham aqui somente pra extrair o que pudessem, lucrar o que pudessem, e voltar pra casa, sem intenção de construir uma nação ou permanecer. Certos conceitos da nossa terra são mais antigos do que pensamos.

julho 31, 2019

O Estado Sou Eu (e eu sou contra o Estado)

Certa vez, li uma postagem de um blogue de um jovem cabeludo conservador, uns 10 anos atrás, quando esse fenômeno estava apenas começando. O rapaz comentava as cobranças dos torcedores sobre Diego Hypólito por vitórias e dizia que, se fosse o Diego, mandava todo o mundo se danar, porque ele não devia nada ao Brasil ou aos torcedores, somente ao seu talento.

Obviamente o nubente reaça conheceu – provavelmente de segunda mão – o pensamento de Ayn Rand, e aplicou-o no caso do Diego. Não sei qual era a história pregressa do jovem blogueiro, mas é o tipo de pensamento que acomete pessoas sem muita experiência de diversidade no mundo. Tudo é muito simples, tudo é absoluto, navalha de Occam, o que interessa é simplificar e racionalizar. Por isso que, como diria Luke Skywalker, a postagem era “amazing. Every single word you said is wrong”.

Diego Hypólito não tem, como supostamente tinha Galt, algum talento ou conhecimento imprescindível para as massas. Ele apenas é capaz de dar pulinhos muito precisos. A utilidade prática desse tipo de conhecimento tende a zero. Imagina alguém chegando numa entrevista de emprego numa grande corporação, “muito bem, e qual sua maior qualidade?” “Posso, com apenas dois passos, saltar no ar, dar duas piruetas e cair com meus dois pés juntos”. “Certo, certo, mas você sabe usar o Word?”. A única razão pela qual existem atletas de esportes competitivos é porque existem torcedores. São eles que vão fornecer a grana pra movimentar o mundo. Entretenham-nos, façam-nos torcer por vocês, sejam nossos avatares e nos façam nos sentir vencedores. Se não for você, meu amigo, vai ser outro. Quantas pessoas você conhece que sabem se um duplo carpado com twist misto é melhor do que um mortal de costas 360? Ou que se importam? O que importa é a medalinha de ouro.

E, é claro, na postagem do blogueiro, além do desconhecimento de como funciona o esporte psicologicamente, há a total ignorância relativa a quem financia o esporte no Brasil. O governo, através de renúncia fiscal, e, no caso da ginástica olímpica, contratando técnicos estrangeiros e construindo centros de treinamento. O Diego deve tudo aos torcedores e aos brasileiros. Ele é pago pra gente por torcer por ele e ele ganhar medalhinha. Temos todo o direito de cobrar e, como aparentemente o neotene pretenso liberal que redigiu a matéria original nunca jogou nem uma peladinha com os amigos, se NINGUÉM COBRAR OU DER ATENÇÃO, O ESPORTISTA NÃO VAI ACHAR A MENOR GRAÇA. Esqueça os jogadores de futebol reclamando das vaias da torcida, é como briga de namorados adolescentes, aquelas que acontecem pra quebrar a rotina e depois dar umazinha tremendamente intensa.

Desculpem pela digressão tergiversada, mas isso tudo é pra mostrar que essas histórias de “liberdade de escolha” dos pais quanto a cadeirinhas de bebês é uma bobagem completa. Estamos vivendo num mundo em que, se não for de nossa vontade, precisamos cada vez menos interagir com gente diferente. Condomínios tipo Barra, com pequenos mundos trancafiados sob grades e segurança particular, com suas lojas, academias de ginástica, falta de calçadas e comércio variado, tornaram-se a norma. Assim, tudo é simples, direto, monocromático, sem nuances. Se você só vê gente como você, com os mesmos interesses que você, com a mesma cor que você, ganhando o mesmo que você, e só frequentam as mesmas praças de alimentação de shopping, então tudo é fácil de solucionar. Como já diz um dos meus ditados prediletos, se tudo que você tem é um martelo, todos os seus problemas se parecem com um prego.

Vejam então, o caso das cadeirinhas de bebês. Os pais que escolham, certo? À parte discussões teóricas sobre tutela de menores e deveres pátrios, existem pura e simplesmente as implicações práticas: assim como cigarros, capacetes, limites de velocidade, os idiotas que fazem essas merdas estão ME dando prejuízo. A mim, a você e todos nós. Porque nenhum homem é uma ilha. Vivemos em sociedade e todas nossas ações a influemciam – e vice-versa.

O que acontece com os pais que levam um bebê que sofrem um acidente? Quem irá resgatar o bebê das ferragens? O plano de saúde ou os bombeiros – ou paramédicos – pagos com o nosso dinheiro? Por experiência própria, sei que os paramédicos levam você para o pronto-socorro público mais próximo. Por irresponsabilidade de um casal que não quis gastar uma grana com bobagem, porque dirigem bem e jamais sofreriam um acidente, recursos que poderiam estar disponíveis para outros acidentes, leitos que poderiam estar sendo usados para outros pacientes, estão ocupados, médicos e paramédicos que poderiam estar atendendo outras pessoas, trabalhando numa via pública que tem que ser interditada, atrapalhando a vida das pessoas que querem ir pra casa.

E o que acontece com a criança que sofre sequelas pelo acidente? Vai abrir mão de qualquer suporte pelo Estado? Nenhuma pensão por invalidez? E a dificuldade para o mercado de trabalho? Não vai ocupar vagas de outros especiais que precisem mais? Será que os pais realmente estão completamente dispostos a abrir mão de tudo isso? De ficarem largados num local de acidente, sem atendimento, sem remoção para hospital, porque não quiseram usar cinto de segurança e nem cadeirinha?

Liberdade de escolha presse povo significa não abrir mão de seu conforto, não ter trabalho. Os outros, esses sim, podem ter trabalho por eles. Vivemos numa cultura que ensina a todo o mundo que eles são especiais e diferentes. O roteiro padrão desses livros de fantasia que tanto influenciam a mente da garotada que está crescendo é um garoto merda, vivendo em um lugar merda, que não parece dedicado particularmente a nenhum grande interesse ou aspiração, subitamente sendo contatado por algum mestre, força ou coincidência que mostra a ele que, secretamente, ele é o fodão das galáxias. Que se foda a sociedade, ninguém precisa deles. Eu tenho que salvar o universo. Por que será que depois esse povo cresce e se acha melhor do que os outros?

Afinal de contas, os outros, principalmente se forem pobres, com problemas ou afins, nunca tiveram tempo pra ler (caros) livros de fantasia na preadolescência.

abril 22, 2019

Enquanto isso, na Foz do Carioca...



A foz do Carioca hoje fica no Aterro. Era o rio que abastecia a cidade de água (os Arcos da Lapa foram construídos pra levar um braço dele até o Largo da Carioca) e, antes da cidade, onde os navios paravam pra se reabastecer (era conhecido como a "Aguada dos Marinheiros"). Somos conhecidos como "cariocas" por causa desse rio. Aparentemente um sapateiro ou algo parecido tinha uma casa de pedra perto da foz dele. Casa de Branco em tupi-guarani é Cari Oca (oca, sacou?) e daí o nome pelo qual o rio passou a ser conhecido. Mais tarde ele foi sendo cada vez mais coberto. A primeira ponte da cidade foi sobre ele, e tornou-se o que hoje é a praça José de Alencar. Antes do Aterro, a badalada praia do Flamengo só tinha um minúsculo trecho de areia, onde o rio desembocava. O resto era pedra, amurada e gente andando (e supostamente paquerando) de um lado pro outro. Nos anos 1990, fizeram uma estação de tratamento perto da foz, o que deixou a praia do Flamengo bem mais limpa. Do alto do Morro da Urca, dá pra ver as águas dele invadindo a praia. Vejam a maré atropelando-o na foto acima, bem no caminho do rastro luminoso da lua cheia...

abril 09, 2019

Como o Alpinismo de Autoestima Está nos Levando ao Fascismo

O nosso novo educador já processou um aluno porque numa discussão de Whatsapp que ele integrava, o discente falou pra pararem com a "briguinha de casal". E perdeu. O engraçado é que ele é um sujeito com estudo, formado, imagino que bem sucedido no mercado financeiro. Mas é careca e precisa que Olavo mostre a ele que numa discussão acirrada se deve... ofender o interlocutor! Pra alguém precisar mostrar esse caminho das pedras pra ele nessa idade, ele devia ser o nerd que não pegava ninguém. O nosso diplomata faz um discurso em várias línguas e no mais patético cabotinismo, declara que não fala basco arcaico, ou aramaico, ou sei lá o que ele disse. Ambos têm boa formação cultural, ainda assim idolatram o Olavo e acreditam em teorias estapafúrdias e ideias sem pé nem cabeça. Por que tão baixa autoestima intelectual - e no geral? 
Serão todos eles nerds que pegavam bem menos gente do que gostariam? (Lembrem-se que os incels idolatram o Inominável). Será que seus valores neoliberais e conservadores não lhes dava a paz de espírito apregoada em sitcoms americanas dos anos 50 e 60? 
Sun Tzu já dizia que um dos grandes indicadores de quem seriam os vencedores de uma guerra era saber o lado que tinha o motivo mais justo. Mesmo numa guerra, uma coisa tão cínica e cruel, isso faz diferença na cultura humana. Esse governo está cheio de intelectuais conservadores criados para viver nos anos 50, sem perceber as desigualdades culturais, sexuais e raciais. Parece aquela série do MadMen, um bando de gente vivendo uma vida aparentemente feliz, mas vazia (como nossas postagens no Facebook), à beira da contracultura devido a essa crise existencial. E o Inominável deu a eles um monte de slogans e frases pra justificar seus valores - e, principalmente sua infelicidade: os comunistas (!!!!). Outro dia eu disse que em 1964 estávamos no meio de uma revolução cultural e de costumes, numa recessão depois de anos de urbanização e crescimento econômico, que criou uma nova classe média. Também tinha aquele novo e revolucionário meio de comunicação que as crianças entendiam bem melhor do que os adultos, a televisão. E, com a Revolução Sexual batendo na porta, essa classe média foi defender os cabaços das filhas. Hoje em dia, olhando retrospectivamente, um Caetano Veloso pregando culto ao corpo, odara e só amor e amizade provavelmente fez muito mais pra derrubar os milicos que aquelas músicas de protesto todas. A ditadura caiu na mesma época em que a sociedade aceitou que homem que casava com mulher que não era virgem não era um macho beta com tendências a ser corno. Resta ver quanto tempo vamos levar pra descobrirem que ter mulher, gay, pansexual ou qualquer outro ser humano na família também é legal e não faz dos pais um bando de otários e manés.

junho 25, 2017

Maldição


Reaja furiosa, revoltada e irrevogável
Chore baixinho
Diga que não é verdade
E nunca será
Encaminhe-se ao espelho
Encare a verdade terminal
Dispa-se como uma puta
Vista-me como uma carapuça
E atravesse, em vivos 7 anos de sorte má
Uma interminável maré de bom azar.

outubro 11, 2015

Transcendental (Segunda Versão)


Meus dedos leem em teus lábios
Inúteis encantos de ilusão
Tentando esconder a verdade
Que saboreio em tua pele
E vejo teus mudos suspiros
Entrecortando o tempo
Em constantes de Planck

E, por uma vez, estes míseros sentidos
Que nos acorrentam a este reino
De Sombras e ilusão
Revelam a transcendência
Vendo você
Ouvindo você
Saboreando você
Sentindo você
Fodendo você

(... e o teu cheiro)

Transcendental


Meus dedos leem em teus lábios
 Inúteis encantos de ilusão
 Tentando esconder a verdade
 Que saboreio em tua pele
 E vejo teus mudos suspiros
 Entrecortando o tempo
 Em momentos de Planck

E, por uma vez, estes pobres sentidos
 Que nos acorrentam a este mísero mundo
 Revelam a transcendência
 Vendo você
 Ouvindo você
 Saboreando você
 Sentindo você
 Fodendo você

(... e o teu cheiro)

Ratos em Chamas

Esquizoides roedores
Em extasiada fúria
Espatifam viris enigmas contra a parede
Esmigalhando cérebros como crânios
Exumados de fetos abortados
Estilhaçados contra o muro
"Este é o nosso lema
Este é o nosso emblema
Este é o nosso brasão"
Escroquemente estroinam
Enquanto seus olhos escarlates
Ensanguentam a escuridão

abril 24, 2014

Taurina


 O touro
 A origem de toda carne
 Penetrando a mulher
 Com fúria, couro e suor
 E ela, num prazeiroso gozo pervertido
 apavorado e mitológico
 imaginando
 "Serei eu a patrona do Velho
- e sábio -
Mundo? A amante
 de Zeus Pai Todo-Poderoso
 Ou serei eu a mãe do monstro
 A Lenda do Labirinto
 O terror
 (e revelador de heróis)
 de Atenas?

novembro 11, 2013

Lady GaGa Depila Lá Embaixo


Clique para ampliar.

abril 08, 2013

Oração (Primeira Versão)

A mais bela visão
Teus lábios incréus
numa prece silenciosa
implorando para que nunca, jamais
nos seja concedida misericórdia

Tuas mãos infieis, postas
Juntas, em oração
Confessando todos os seus pecados
A glória de cada um deles

Teus olhos ateus fixados nos céus
E eu sinto a presença de Deus
Zen, Tao, Nirvana e Apocalipse
O verdadeiro nome de Deus - o Arauto do fim
Murmurado em êxtase iluminado e embevecido

Senhora, eu não sou digno
de que entreis em minha morada
mas dizei uma palavra e estarei perdido.

Incréus!

Para quem não acredita em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa

Uma Rua em Olinda

Clique para ampliar. Os carros sumidos é que isso é uma panorâmica de várias fotos que tiveram a perspectiva corrigida.

fevereiro 25, 2013

fevereiro 21, 2013

fevereiro 15, 2013

O Fim das Armas de Tiro Único


Foi mencionado alguns parágrafos acima a cápsula. A cápsula era já um produto da Revolução Industrial. Tinha a forma de uma pequeno balde, com fulminato de mercúrio por dentro. Essa substância tem a propriedade de “explodir” quando pressionada subitamente e era utilizada para gerar a faísca que deflagrava a pólvora. Na verdade, apesar do uso do pretérito, ela ainda existe e serve exatamente para isso, só que atualmente fica embutida na base dos cartuchos.

A cápsula tornou-se a base dos primeiros cartuchos para carga pela culatra. Eles eram feitos de papel e compunham-se da bala, uma base de cobre com a cápsula no meio, e a pólvora em seguida. Depois de carregado na arma, esse conjunto era disparado por uma agulha que atravessava a pólvora e atingia a cápsula, originando a faísca e deflagrando a carga.

O problema com a carga pela culatra sempre tinha sido a impossibilidade de se vedá-la completamente, uma vez feita nela uma abertura para entrar a munição. Um atirador receberia parte do impacto da explosão diretamente na cara. Os primeiros fuzis de agulha usavam a própria elasticidade do metal para fazer a vedação. A pressão fazia-o expandir-se e vedar os gases. Os franceses fizeram melhor e criaram o Chassepot, com um anel de borracha para desempenhar a função.

A vedação por borracha era tão mais eficiente do que a por metal puro que permitia o uso de uma carga maior e, portanto aumentava o alcance (e, simultaneamente, a precisão). Os Chassepot atiravam três vezes mais longe do que os Dreyser alemães e foram com aqueles que os gauleses partiram para a porradaria com seus vizinhos germânicos, crentes que seu fogo manteria seus oponentes à distância, incapazes de revidar. Não contavam que os hunos tivessem CANHÕES com carga pela culatra, que mantiveram a infantaria longe demais para usar seus fuzis.
O fuzil de agulha Chassepot, que tinha uma almofada de borracha pra selar a câmara. Repare no alto, à direta, embaixo da baioneta, o esquema de um cartucho de papel


Mas o cartucho de papel era frágil demais para ser usado num mecanismo que alimentasse a arma automaticamente. O rifle de repetição era o Santo Graal dos armeiros e buscado desde os primórdios da pólvora. Com o surgimento da cápsula fulminante, foram criados alguns sistemas que conseguiam fazer essa carga mecanicamente, mas eram complicados e, portanto, frágeis demais para o campo de batalha - e isso quando funcionavam. Por volta do meio do século XIX, a Volcanic Repeating Arms, nos Estados Unidos, começou a experimentar com “balas-foguete” - munições que encapsulavam a carga de pólvora e saíam “a jato” do cano. Essa ideia não vingou, mas seu criador, William Hunt, desenhou algumas armas para o cartucho, com recarga através de um mecanismo acionado por alavanca, que atingiria a glória mais tarde.


O cartucho de papel da Chassepot