novembro 26, 2006

666 -Os Microcontos

A revista americana WIRED convidou um monte de escritores de ficção científica, fantasia, quadrinhos e afins prum desafio de concisão: escrever contos de seis palavras. Você pode lê-los em www.melhoresdomundo.net/arquivos/004434.php ou http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords_pr.html

A maior parte deles são ditos espirituosos, piadinhas e afins, mas alguns realmente conseguiram escrever verdadeiros CONTOS de seis palavras, como Frank Miller (pra quem não sabe, o autor de CAVALEIRO DAS TREVAS e 300 DE ESPARTA), que criou uma bela história "noir" de sexo, romance e violência ("com mãos ensanguentadas eu dou-lhe adeus"). Ben Bova (que não faço a mínima idéia de quem seja) montou um épico religioso ("Para salvar a humanidade, ele morreu novamente" - em inglês isso cabe em meia dúzia de vocábulos). David Brin fez um épico sobre viagens no tempo ("O Vingador do tempo estava errado! Não fui eu..."). Aliás, curiosamente, Alan Moore (V de Vingança, Watchmen) e Darren Arronofsky (Réquim para um sonho, Pi) tiveram a mesma idéia sobre paradoxos temporais ("do tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina", a versão de Moore, e "loop temporal! Socorro, estou preso num", a micro-historieta do cineasta). O genial autor fantástico Michael Moorcock (criador da impressionante saga ELRIC DE MELNIBONÉ) conseguiu concatenar uma verdadeira odisséia de história alternativa ("Que grande cantor Hitler em 1940!")

Obviamente fiquei tentado com a idéia também e escrevi os meus próprios microcontos, tentando me ater mais à idéia de realmente contar uma história em seis palavras (Não que não houvesse bons não-contos na antologia da Wired, como "Prazo estourando! Servem cinco palavras?"). Também lancei o desafio para alguns amigos, mas apenas a poeta (a maioria das mulheres odeia ser chamada de poetisa) Patrícia Evans (patevans.blogspot.com) e o filósofo Antônio Rogério da Silva (www.discursus.cjb.net) toparam. Eis aí os resultados:

EU, LUIZ HENRIQUES NETO:

Suas mãos, já mortas, arrastaram-me junto.

Ela fechou a porta.
E ficou.

Confesso! Fui eu!
Não aguentava mais!

Seus muros, inviolados, defendiam apenas morte.

- M-me... ensssina-ram... a... and-d-dar... na l-linha.

Ele sobrevivera.
Toda a humanidade pagaria.

Pode divulgar minha confissão agora, padre.

Gás.
Ridículo.
Como morrer numa sauna.

Vi-a uma única vez.
Décadas atrás.

Adeus, minha adorada.
Adeus, meus inimigos.

O presente esmagou, impiedosamente, o futuro.

Aventava pessoas naquela mui estranha tempestade.

O copo!!!!
Era o copo errado!!!!

Mas seria o Benedito?
E era!

Enfim livres.
Porém nus.

Só.
Afogada num mar de cabeças.

O zumbi sorriu.
O lobisomem chegara.

Prometo sempre dizer-lhe adeus, meu amor.

As plantas todas estavam mortas.
Sortudas.

Não ouvia seu coração.
Assim morreu.

Peças - e sexos! - encaixando com precisão.

- Filho, prometa que nunca se apaixonará!

Acendi um derradeiro cigarro e apaguei.

Nasci, cresci, envelheci... mas jamais morrerei!!!!!!!!


OS MICROCONTOS DE PATRÍCIA EVANS (patevans.blogspot.com):


Desta vez preferiu matar a morrer.

Com olhos cada vez mais parecidos.

Um conto inteiro - início, meio, início.

Se alguém gritasse em mim... Ecoaria.
Por amor negado desespera, assassina, chora.

Jogou aquilo fora, foi ser feliz.
Eu te amo, tenho esse direito!

E entregou-lhe a rosa morta.

Como foi o princípio, o fim.

Filetes rubros em vez de olhos.

Desatento, permanece sempre a me deixar.

Costurou o último orifício - lacrou-a.

Aliás, nenhum trem virá de Londres.

Aqueles meus olhos serenos, nunca mais.

Que os mortos possam perdoar-me.
Pois só assim a espécie perpetuaria.

Voltaram ao normal, porque eu rezei.

Tarde para dizer que estava errado.

Poderiam finalmente sentirem-se aliviados.

E preservou-a com sua saliva.
Mas aquilo, como isto, também passaria.

Mas não deitou, dormiu em pé.

Feito caem as tardes sem romance.

Eternidade!!!!!!!! Eu sou a eternidade agora!

E eu me lembro que ri.

Restou-lhe oferecer ao diabo solidariedade.


OS MICROCONTOS DE PATRÍCIA EVANS E LUIZ HENRIQUES:

E, esquálida, a mão trancou a porteira.

Restava-lhe apenas oferecer às formigas solidariedade.

Lembro-me que ri. Pela última vez.


OS MICROCONTOS DE ANTÔNIO ROGÉRIO DA SILVA (www.discursus.cjb.net)

Caro Urubu,
Eis seis palavras sobre:

1) História espartana, "Voltar com escudo ou sobre este";

2) Os Waltons, "Contou até seis e virou escritor";

3) Teoria econômica, "Almoço grátis lhe valeu um Nobel";

4) Fracasso filosófico, "Nasce Hipácia, humana mortal: silogismo trágico";

5) Big Bang, "Entre clarão e escuridão, o universo";

6) RIP, "Na lápide lisa, uma vida apagada";

Um abraço,
Antônio Rogério da Silva

Alguma sugestão sua?

novembro 20, 2006

Os Mais Belos Poemas de Amor

Quando você for velha e grisalha e cheia de sono
E cabeceando junto ao fogo pegar este livro
Lê devagar; e sonha com o suave olhar que teus olhos um dia tiveram
E suas sombras profundas

Quantos homens não amaram teus momentos de adorável graça
E amaram tua beleza, com amor falso ou verdadeiro
Mas um homem amou a alma peregrina em ti
E amou cada tristeza do teu rosto que mudava

E então, curvando-se junto às barras incandescentes
Murmurarás, um tanto triste, como o amor fugiu
E tomou seu caminho montanha acima
E escondeu seu rosto entre uma multidão de estrelas

(Tradução livre minha, a partir do original abaixo, WHEN YOU´RE OLD, de meu favorito Yeats. Para dizer a verdade, foi por causa deste poema, lido por um personagem de um ALÉM DA IMAGINAÇÃO, que fui querer saber quem era o Yeats)

When you´re old and grey and full of sleep
And nodding by the fire take down this book
Read slowly; and dream of the soft look your eyes had once
And of their shadows deep

How many men loved your moments of glad grace
And loved your beauty with love false or true
But one man loved the pilgrim soul in you
And loved the sorrows of your changing face

And now, bending down beside the glowing bars
Murmur, a little sadly, how love fled
And took its pace the mountains overhead
And hid its face amid a crowd of stars

novembro 15, 2006

Blonde Bombshell



(Minha irmã posa para minhas lentes no Museu Aeroepacial de Campo dos Afonsos)

Abaixo os DVDs "ao vivo"

Sou o feliz possuidor de um home-theater. Embora já saiba que são uma merda, vez por outra ainda caio na asneira de comprar um DVD "ao vivo" de algum artista que eu goste, só para poder curtir a plenitude do som em cinco canais (mais um somente para os subgraves).

Tremenda perda de tempo. As gravadoras devem adorar, porque não custa nada. Zero, chongas. Nem negativo. Pega-se três câmeras digitais - ou, pior ainda, mini-DV, dada a qualidade pobre de vídeo da maioria dos discos - e filma-se uma performance do sujeito. Temos então de uma hora a hora e meia do sujeito no palco e tomadas dele, do guitarrista solando, do percussionista batendo e um plano geral do público. Só músicas consagradas. Nada de novo. Os arranjos normalmente mais pobres por não poderem contar com todos os recursos de um estúdio. E como a produção de show dos artistas brasileiros normalmente não conta com toda a pirotecnia de uma apresentação, digamos, do Prince (que tem um DVD de 9,90 que vale a pena), fica o artista lá, muitas vezes sentado, cantando suas musiquinhas. Se você desligar a televisão é melhor, porque não tem nada pra se ver!!!!

Preferia sinceramente assistir a coletâneas de clipes com som surround a essas produções de 500 dólares pelas quais eles ainda têm o desplante de cobrar quase 50 pratas (é claro que só compro se estiver a menos de 15 pilas). Se bem que a maioria dos clipes pouco mostra além dos sujeitos tocando suas musiquinhas.

Fica a minha dúvida: se a quantidade de brasileiros que tem home-theater é ínfima, nego tá gastando essa grana toda pra ver uma imagem que não vale nada e curtir um som de alto-falante de tevê? Melhor comprar o CD.

Lindsay Lohan depila lá em baixo...

Lindsay Lohan depila lá em baixo...

Jennifer Lopez também...

NÃO TE ENTREGUES GENTIL À DOCE NOITE

(de Dylan Thomas, livre tradução de Luiz Henriques Neto)

Não se entregue gentil à doce noite
A idade deveria queimar e brilhar ao fim do dia
Lute, enfureça-se contra o morrer da luz

Embora os sábios ao fim saibam que a escuridão é o certo
Porque suas palavras não convocaram o trovão
Eles não se entregam gentis à doce noite

Bons homens, vendo a última onda se aproximando, gritando
quão brilhantemente seus frágeis feitos balançaram na baía esverdeada
Lutam, enfurecem-se contra o morrer da luz

Homens ferozes que seguiram e cantaram a luz do sol
E aprenderam, tarde demais, que ela lhes escaparia sempre
Não se entregam gentilmente à doce noite

Homens sérios, perto da morte, que enxergam com cegante clareza
Que olhos cegos podem brilhar como estrelas cadentes e serem felizes
Lutam, enfurecem-se contra o morrer da luz

E tu, meu pai, no Monte das Lamentações,
Amaldiçoa-me, abençoa-me com furiosas lágrimas, imploro
Não te entregues gentil à doce noite
Luta, enfurece-te contra o morrer da luz

DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

-- Dylan Thomas

novembro 13, 2006

Objeto de Amar

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

(Adélia Prado)

novembro 07, 2006

Festa a fantasia



Branca de Neve e eu, o hippie velho.
E sim, eu estava fantasiado.

outubro 31, 2006

Jam Session

Meio de semana de férias, meio de verão em meio de caminho de viagem, meio de noite, noite de meio de fim de caso para David, apto e inepto, abrindo seu coração para as cervejas e cachaças e manjubinhas fritas no trailer esvaziado dominando do alto da grama a praia deserta.
A falta de Ana, a falta de gente da praia, mas o calor da noite de Lua cheia e ligeira tonteira de álcool e limão sobre peixe. Cálida melancolia em hora de abrigo, para David não era o melhor e nem o pior dos tempos.
Um homem, uma estranha figura que bebera apenas cachaça - ou teria sido água - o tempo todo desde o anoitecer, uma mesa um passo acima na grama e na mesa inclinada, cumprimentou o jovem a pensar na vida e na desamada e no que fazer nas noites desocupadas do restante das férias.
- Boa noite.
- Boa.
E silenciaram de novo.
- Comendo peixe?
- Adoro.
- Os peixes também.
- É mesmo? Aqui eles não costumam comer.
- Mas fazem na ponta da minha vara.
"Prefiro que o façam as mulheres"
- Você pesca?
- E caço. Adoro animais.
- Ainda bem que você não adora judeus.
- Mas onde mais você poderia ser tão animal a não ser caçando um bicho? A caçada é a coisa mais natural do mundo. E a pesca. Seus sentidos estão alertas. Seu corpo está alerta. Você sente a pulsação da terra e com isso sente todos os viventes que caminham sobre ela.
- Ou nadam.
- Ou nadam.
- Ou voam.
- Ou voam. E quando você pega um desses bichos, você está sendo ele, nem que por um minúsculo instante. Você pega o peixe e você é um tubarão nadando como um bólido. Um golfinho violento e irascível. Você captura o pombo e você é uma águia sobrevoando o chão lá em baixo. Um falcão impiedoso afundando-se em sangue e universo.
- Então você não deveria caçar falcões, tubarões e golfinhos?
- Não. Nós matamos para nos tornar os animais que queremos ser. Todos nós, todos temos um bicho que admiramos. O cachorro de estimação, o gato da casa. Todos queremos ser animais. Nós também somos viventes. Parte da terra.
Vivente. Ana. Vivendo por aí, vivendo mais do que ele, andando não com desconhecidos, mas com prestes a conhecê-la, ele cada vez menor no corpo e alma dela.
Mas o homem não o pensar, não o deixa lembrar, não o deixa afundar em pena de si mesmo (gostoso, ótimo de fazer em praia deserta e calma à noite) e pergunta, indaga, insiste.
- Se você fosse um bicho, que bicho você seria?
- Um homem.
A estranha figura levantou os olhos - escleróticas brilhantes no azulado da Lua - por baixo de sua cabeleira e sorriu - esmalte brilhante entre os lábios acinzentados pela noite - contente e desarmado.
Cada vez mais, até rir.
Uma (e somente uma) quase gargalhada. Gostosa e sonora.
- Um homem? Ha Ha!
E o David sorriu também.
- Uma coisa difícil. Conheci poucos que conseguiram.
e
- Afinal são poucos os que tentam. E menos ainda os que conseguem.
- Eu nunca disse que ia conseguir - o David.
E outra vez, o sujeito levanta a cabeça e sorri.
- Ha ha!
E olha David e
- E nem eu. - põe-lhe a mão no ombro. - Não poderia lhe dizer o que fazer. - Pára e
- E nem saberia - Termina enquanto já andando. A mão já pesa menos no ombro do David até que se solta quando ele já começa a deixá-lo para trás.
David se volta e vê a figura caminhando para o mato deixando rastros leves pela areia - rastros de alguém sem pressa, de passos curtos e tranquilos, rastros de animal saciado que não quer deixar pistas para outros.
E aí o David se cansa e vai caminhar mais um pouco pela brisa noturna.
O mar bate.
Os peixes acham que é uma superfície sólida e imutável.
Como bons animais que são.

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Jam Session

- Eu sei o seu segredo.
- De novo esse papo?
- Como assim, de novo?
- Eu não tenho segredos. Nada tenho a esconder.
- Então por que fica na defensiva?
- Me larga.
O Carlos desliga o telefone. Mas há algo de bastante estranho. Sua vida está bastante estranha. Sua casa está bastante estranha e até o café que ele anda tomando está bastante estranho.
Principalmente porque é chá.
E ele nunca comprou chá, então como o chá foi parar, pronto e preparado, em seu colo, enquanto ele atendia o telefonema de um estranho que sabia dizer o seu segredo?
Só havia uma explicação.
Este era o seu segredo.
O chá.
O bina! Talvez o bina tivesse o número de quem ligou e que poderia explicar o segredo do chá!
Então ele lembra que não tem o bina.
E que Obina era uma banda de world music nos anos oitenta. Obina Shok. Ou algo assim. E seu maior hit tinha o refrão Obina Obina Obina... Obina Obina Obina.
Eles cantavam em africano, mas eram brasileiros.
E africano não é exatamente uma língua, todos nós sabemos.
São várias. Mais dialetos. E outras formas de comunicação não-convencional que mal cabem em nossa ocidentalizada mentalidade.
Porque temos as nossas próprias comunicações não-verbais.
O que mais aquele telefone teria comunicado secretamente, não-verbalmente, intrinsecamente?
Ele precisava adivinhar.
O chá!
Adivinhar!
O chá!
Adivinhar!
O chá!
Adivinhar!
O chá!
Isso! Adivinhos liam o futuro nas folhas de chá na xícara.
Mas as folhas de chá estavam no saquinho.
Como os adivinhos faziam?
Se ele ao menos soubesse.
Se ao menos soubesse o seu segredo, que aquele misterioso interlocutor sabia, ele saberia.
Mas ele não sabia.
Não sabia nem como voltar pra casa.
Porque aquela não era a casa dele.
Ele tinha certeza.
Então ele pousou a chávena de chá perto do samovar de prata czarista, vestiu-se, cobriu o cadáver da bela e jovem mulher nua ao seu lado na cama e saiu.
E o dia mal começara.

Meus Poemas Favoritos - UNWANTED, de Edward Field

The poster with my picture on it
Is hanging on the bulletin board in the Post Office.
I stand by it hoping to be recognized
Posing first full face and then profile

But everybody passes by and I have to admit
The photograph was taken some years ago.

I was unwanted then and I'm unwanted now
Ah guess ah'll go up echo mountain and crah.

I wish someone would find my fingerprints somewhere
Maybe on a corpse and say, You're it.

Description: Male, or reasonably so
White, but not lily-white and usually deep-red

Thirty-fivish, and looks it lately
Five-feet-nine and one-hundred-thirty pounds: no physique

Black hair going gray, hairline receding fast
What used to be curly, now fuzzy

Brown eyes starey under beetling brow
Mole on chin, probably will become a wen

It is perfectly obvious that he was not popular at school
No good at baseball, and wet his bed.

His aliases tell his history: Dumbell, Good-for-nothing,
Jewboy, Fieldinsky, Skinny, Fierce Face, Greaseball, Sissy.

Warning: This man is not dangerous, answers to any name
Responds to love, don't call him or he will come.


Livre Tradução Minha:

O cartaz com meu retrato
enfeita o quadro de avisos dos Correios

Paro ao lado dele esperando ser reconhecido
Posando de frente e depois de perfil

Mas todo mundo passa sem ver e tenho que admitir
A foto foi tirada já faz alguns anos

Eu já não era procurado então e ninguém me procura hoje em dia
Acho que vou gritar e ouvir o eco nas paredes de minha solidão

Gostaria que alguém encontrasse minhas digitais em algum lugar
Talvez num cadáver e dissesse, "é ele"

Descrição: Sexo masculino ou bem perto
Branco, mas normalmente vermelho de vergonha

Por volta de trinta e cinco e aparentando talvez até mais
Um metro e setenta e sessenta quilos: físico nenhum

Cabelos negros embranquecendo e rareando rapidamente
Costumavam ser cacheados, estão cada vez mais apenas desgrenhados

Olhos castanhos sob cenho inexpressivo
Gordura no queixo, provavelmente vai virar uma papada

É perfeitamente óbvio que ele era impopular na escola
Não jogava bola e molhava sua cama

Seus apelidos contam tudo:
Bobão, Imprestável, Judeuzinho, Trautemberg, Fiapo, Feioso, Marica

Atenção: O elemento não é perigoso e responde quando abordado
Vulnerável ao amor; não o chame ou ele virá


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outubro 30, 2006

Tudo que existe
É um chiste
Pensou o rimador
Imerso em sua dor

Poesia sem Título

Há vida
Ávida
Em meus porões

Um louco acorrentado grita
"Deixe-me sair, tolo, você não sabe
o que está perdendo"

Mas eu nem levanto os olhos do jornal encostado no balcão do bar
Para ver a monumental morena passando requebrando
E nem noto nela os vestígios dos grilhões arrebentados


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Meus Poemas Favoritos: Um Aviador Irlandês Prevê sua Morte

Eu sei que vou encontrar meu destino
Lá em cima nas nuvens em algum lugar
Aqueles que combato não odeio
Aqueles que defendo não amo
Minha terra é Kiltartan Cross
Minha gente, os pobres de Kiltartan
Nenhum fim que eu tivesse os entristeceria
Ou os deixaria melhores do que estão agora

Nem o dever nem a lei me fizeram lutar
Nem multidões delirando nem políticos discursando
Um solitário impulso de deleite
Levou-me a este tumulto nas nuvens

Eu pesei tudo, pensei em tudo
Os anos por vir me soaram vazios
Vazios os anos passados
Em comparação com esta vida
Esta morte

de William Butler Yeats, livre tradução de mim mesmo. Eis o original, obviamente infinitamente mais eufônico:

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love

My country is Kiltartan Cross
My people, Kiltartan´s poor
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before

Nor duty nor law made me fight
Nor public men nor cheering crowds
A lonely impulse of delight
Drove me to this tumult in the clouds

I balanced it all, brought all to mind
The years to come seemed waste of breath
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death

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Fanáticos Religiosos Podem Ser Bons Críticos de Arte

Lá na Alemanha, não sei se vocês leram, cancelaram uma peça de um diretor de vanguarda por medo de atentados de radicais islâmicos durante a apresentação. A peça mostrava Jesus, Maomé, Buda e Poseidon sendo decapitados, para mostrar, conforme seu criador explicou, seu desprezo pelas religiões.

É claro que virou mais tópico do debate sobre o radicalismo muçulmano, sobre o cerceamento da liberdade de expressão e sobre o medo que o terrorismo islâmico está conseguindo impor ao mundo. Vivendo no Rio de Janeiro, já vi uma mulher tentar largar o carro em pânico num sinal fechado porque viu um garotinho vindo em sua direção para vender bala e ela interpretou errado, bem como um outro garoto roubar a carteira de um sujeito crescido e vitaminado simplesmente chegando na janela do automóvel parado no cruzamento e dizer que era um assalto.

Também já sofri uma tentativa de assalto em sinal fechado. Estava com uma garota, que dirigia, o Maciel, de 60 anos, no banco da frente, e eu atrás. Um adolescente manco e mal-vestido, comendo com a mão arroz e farofa de uma quentinha, chegou na janela do Maciel e disse, juro, com a mesma entonação daquele pessoal vendendo bala em ônibus: "não-quero-sua-vida-nem-seu-carro-apenas-sua-carteira-e-sua-bolsa-e-nada-mais". O Maciel fechou o vidro e o sinal abriu, deixando-nos pensando se ele tomaria nossa vida enfiando a quentinha em nossa cara e sufocando-nos com farofa. Mas, se ele tenta isso é porque em algum lugar alguém está entrando em pânico e entregando a carteira, pra evitar complicações. Outra ridícula tentativa de roubo foi sofrida por minha irmã, quando um pivete parou-a e disse prela entregar a bolsa ou o primo dele, que estava escondido, iria atirar nela, ao que minha irmã respondeu que ela não ia dar a bolsa porque o tio dela estava atrás do primo dele, apontando uma arma pra ele.

Mas conheço gente que teria entregue a bolsa. E o Ocidente vem entregando tudo assim, na maior. Medrando geral. Mas não é este o ponto que me interessa. Nesse caso em questão da decapitação dos líderes religiosos, os fanáticos assassinos muçulmanos estão na verdade fazendo um favor ao artista. Estão lhe dando a chance de realmente ousar.

Eu não gosto muito de SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. É um filme extremamente bem-feito por pessoas talentosas, mas que atira contra alvos fáceis e tenta se passar por mais profundo e revolucionário do que realmente é. Mas tem uma cena que eu realmente aprecio. Está tendo uma missa ou algo parecido, bem solene, na igreja, e um telefone começa a tocar. Um dos alunos do Robin Williams levanta com um telefone de brinquedo e diz "ei, reitor, é um telefonema de Deus". Ele finge um pouco ouvir alguém no fone e completa: "e ele está mandando admitir garotas no colégio".

Obviamente ele vai parar no gabinete do diretor e recebe a visita de Robin Williams, a óbvia má influência no adolescente. O garoto fica feliz quando o professor chega e claramente espera a aprovação dele, mas o mestre explica que ele vem tentando ensinar seus alunos a ousarem, não a fazerem simples molecagens. O que o moleque fez foi uma travessura, uma malcriação, não uma ousadia. O homem mais velho se levanta e vai saindo após deixar o jovem um tanto desapontado. Quando está abrindo a porta, não resiste a comentar: "um telefonema de Deus, hein? Engraçado. Tinha que ser a cobrar. ISSO seria ousadia".

Qual a diferença? Ora, a primeira foi apenas uma brincadeira. Um desrespeito a um ritual, para se mostrar engraçado e, visivelmente, para impressionar os colegas e o professor que o garoto idolatrava. A segunda cortaria muito mais fundo. Poderia levar a uma reflexão sobre os verdadeiros ideais da igreja e a milionária religião organizada. Além, é claro, de exigir muito mais coragem, por ser um questionamento muito mais ofensivo e profundo. ISSO seria uma ousadia, não seria só se mostrar mau para os amiguinhos.

E assim voltamos para o decapitador de messias. Para grande parte da população, a religião é tudo que eles têm. Tudo mesmo e justamente por isso tem gente que é tão fanática e quer voltar ao século XII. É muito fácil você ser MUITO emotivo quanto à coisa mais importante em sua vida. Pra grande parte desse povo, a idéia religiosa deles é relativamente rasteira - Deus (ou Alá, ou o Bodissátiva da vez) é uma espécie de super-herói que mora no Céu e ajuda os fracos e oprimidos que estão do lado dele. E ele sabe quem é bom e quem é mau, incluindo entre estes últimos os que não lhe prestam a devida homenagem. Ou seja, mais para um Papai Noel onipotente do que para a força vital que anima cada partícula do universo, mas realmente não dá para você ter uma grande iluminação sem ter o que comer (aliás, essa foi uma das grandes descobertas de Sidarta Gautama, o Buda que fundou o budismo. É, porque tem outros budas também, mas essa é uma longa história) e a idéia subjacente é correta, se algum dia você progredir espiritualmente. É como ensinar à gente no ginásio a física newtoniana, que já está ultrapassada, ou aquele átomo errado, com os elétrons orbitando elipticamente em volta do núcleo. Não é exatamente o certo, mas você não vai precisar saber mais do que isso a não ser que o assunto realmente lhe interesse.

É claro que o mundo ocidental está bastante secularizado. A Europa mais ainda. A naturalidade deles em deixar a namorada gostosa conversar nua na praia com um amigo heterossexual ainda não me subiu à cabeça, mas deixemos isso pra lá. De qualquer forma, o público que você espera que vá a uma peça de vanguarda na Alemanha será muito mais materialista do que religioso. Ou, se religioso, muito mais provável de pertencer a alguma corrente mística alternativa do que a uma religião tradicional organizada. Muito possivelmente terá uma meia dúzia de praticantes de adoradores do deus cornudo, um culto que eu não posso deixar de pensar que está na moda porque adorar o diabo, mesmo que explicando que "diabo" era o disfarce que a igreja católica inventou para execrar o antigo deus da fertilidade e da criação, mostra o quanto o sujeito é alternativo e acima da mediocridade geral.

Enfim, o que o diretor moderninho estava querendo fazer nada mais era do que mostrar desrespeito e desprezo. Nada a acrescentar. Mas desrespeito e desprezo ao quê? No século XVIII, quando - tudo bem, ninguém mais ia parar na fogueira, mas ainda dava pra pegar uma cadeia - dava merda mexer com a Igreja, era uma coisa com conteúdo ser desrespeitoso com religião, mas hoje em dia?

Bem, a Al Qaeda e seus consectários estão aí.

Eis a chance do sujeito mostrar que realmente acredita no que está dizendo. Que não é uma traquinagem vazia. Ou uma molecagem de adolescente tão inconsequente quanto arrotar alto. Ele quer decapitar figuras sagradas. Sua convicção estará à altura.

Claro que não.

Nos Estados Unidos tem gente explodindo clínicas de aborto e matando médicos aborteiros. Tem escola que ensina lado a lado criacionismo (ou "design inteligente") ao lado da teoria da evolução. E o cara quer combater isso decapitando Poseidon? Jesus e Buda nunca levantaram um dedo contra ninguém (está bem, Jesus saiu dando porrada nos vendilhões do templo. Teria também secado a figueira, mas se você, como eu, não acredita muito nessas histórias de milagres, não vai levar isso em conta). E Maomé fez o que pôde para mandar a mesma mensagem, dadas as circunstâncias, a época e o local em que viveu. Poseidon... bem, o destino dele está naquele filme.
Esses fanáticos religiosos muçulmanos estão dando a chance a artistas provocadores de mostrarem que são realmente provocadores e não apenas moleques mostrando que são espertos. Buñuel, em "A Via Láctea - o Estranho Caminho de São Tiago", mostrava como fazer um filme anticlerical. Jesus é mostrado como ingênuo e ele foi pesquisar heresias de várias épocas para ridicularizar os dogmas católicos ("Jesus está nessa hóstia como o coelho está nesse patê" é a minha preferida). Vai muito além do choque fácil. O choque fácil só tem repercussão e importância se o artista o sustentar contra qualquer força que se levante contra ele. Se à primeira ameaça ele foge da raia, qual o valor do que ele faz? Os adolescentes também, alguns anos depois, arrumam um emprego, casam-se e acomodam-se direitinho na mediocridade geral.

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outubro 22, 2006

E-mail a um amigo explicando meu voto

Não, Sílvio, eu nunca gostei do PT, desde os tempos de faculdade, quando os petistas todos odiavam a gente e eu já discordava de suas atitudes paternalistas e messiânicas. Não gosto do Lula e acho o atual governo equivocado na política econômica e corrupto. Temer que eles assumam uma postura totalitária é paranóia de maluco, já que o exército continua sendo conservador e reacionário e, como já visto, nem a PF é controlada por eles. Totalitarismo sem controlar forças armadas é impossível.

Eu vou votar no Lula porque discordo da visão do mundo de von Mises e não acredito que o capitalismo selvagem e desenfreado seja a resposta pra tudo. Essa é a visão encampada pelas grandes empresas e pela mídia. Se eles dominarem também o governo, não se importarão a mínima mais com nada, vão se achar de vez os donos de tudo e impor esta visão. Estou de saco cheio de ouvir falar que qualquer mínima politica assistencialista ou preocupação social é um avanço no bolso alheio, uma invasão de privacidade e caminho certo para uma ditadura sanguinária. Estou de saco cheio de darwinismo social pregando que os fracos que se fodam. Uma vez você me falou que eu não gostava de cultura corporativa por nunca ter trabalhado numa grande corporação, mas note que justamente os três caras com essa visão neoliberal na Panelinha são justamente três filhos de donos de empresas. Eu vou votar no Lula preles verem que existem alternativas a eles, por mais que a política econômica seja neoliberal, e que eles ainda não controlam os corações e mentes de todo mundo. Simples assim.

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