outubro 09, 2011

Filmes Que Moldaram os Anos 80: Mad Max 2



Eu perdi o primeiro Mad Max. Imagina, eu já era um pseudointelectual e pseudointelectual que se prezasse não ia ver uma fita com aquele cartaz rudimentar e uma frase de chamada com alguma coisa do tipo “se você estiver em perigo na estrada, reze para que Mad Max esteja por perto”. Numa época cheia de filmes - e séries - de batidas de carro (a franquia “agarre-me se puderes”, os seriados “os gatões” e “xerife lobo”) celebrando o automóvel e tiras vigilantes atirando em hippies, essa propaganda parecia o epíteto do anti-intelectualismo fascistoide de filme de ação americano.

Porém calhou de alguns anos depois eu estar andando a esmo em Copacabana (minto, pretendia encontrar “acidentalmente” uma menina de quem estava a fim, recurso que acabou funcionando na semana seguinte, embora nunca tenha pego a moça; tenho amigos que já chegaram ao cúmulo de acordar sábado às 5 da manhã pra correr no calçadão do Leblon com a mesma pérfida intenção de dar de cara coincidentemente com a vivente do sexo oposto) e, um tanto melancólico por meu intento não ter tido êxito, passei em frente a um cinema (o saudoso Rian, bem na Atlântica) exibindo o segundo filme da franquia. Começando a sessão naquele momento, acabei resolvendo entrar, na falta do que fazer em casa. E, naquela sala escura tive uma visão inesquecível do futuro. O futuro do cinema.


Sérgio Leone reduziu o bangue-bangue a uma trama básica que deixava claramente à mostra sua estrutura mitológica, realçada pela ritualização da ação. George Miller, um médico australiano que gostava de cinema, substituiu isso tudo por um fetichismo escandalosamente sexual - Mad Max 2 foi o primeiro longa comercial a exibir vilões em roupas de couro de clara inspiração sadomasoquista. Sem contar, é claro, os planos luxuriosos de automóveis, motores roncando alto e batidas de carro, com as inclusas e consequentes mutilações (qualquer psicólogo de botequim pode relacionar o treinamento em medicina de Miller, cortando e costurando corpos, com essa fascinação por carnificina, com metal, carne e ossos se rasgando e quebrando).

Com mais grana do que pro filme original e o know-how australiano forjado em road movies de exploração (1), Miller e seu time de dublês encenam inacreditáveis cenas de perseguição em belíssimos planos no desoladíssimo outback australiano, que fazem as higways americanas parecer o auge da civilização e cria um dos mais convincentes cenários pós-apocalípticos já postos em película. Não há menção à família ou ao passado de Mad Max nesta fita. Quem perdeu a primeira não se perde nesta (como eu), até porque, como já dito, o enredo é reduzido ao essencial.

Como nos filmes de Leone não há romances para distrair. Uma belíssima australiana (tão bela que mais tarde seria Bond Girl) aparece, troca poucas palavras e olhares. E só. Sua principal cena é uma morte agoniante durante a perseguição climática, para realçar a crueldade da história. A Austrália depois do fim do mundo não é uma terra para fracos: a única criança da fita é uma besta-fera desprovida de fala mas extremamente competente com um afiado bumerangue assassino; os sujeitos que conseguiram extrair petróleo e criar um vilarejo rudimentar (indisfarçavelmente parecido com um forte apache cercado por índios) são tão inclementes quanto os vilões psicopatas sexualmente pervertidos e o próprio herói.


Seco, perverso, fetichista, com abundantes cenas de violenta ação filmadas com extrema competência num cenário tão fabulosamente minimalista quanto o enredo, Mad Max 2 levava a outros níveis a brutalidade na sétima arte. Essa redução ao mínimo levaria a incontáveis imitações, mas nenhuma com a competência de George Miller e seu time de dublês. Nenhuma capaz de destilar tanta agressividade. Quando tempos depois consegui encontrar outros pseudointelectuais que haviam visto o longa, a opinião foi unânime: você saía do cinema com vontade de quebrar alguma coisa. É sério, o blogueiro jura que saiu do Rian e ficou olhando tantalizado para as vitrines das lojas fechadas de Copacabana (era um tempo distante em que lojas fechavam nos fins de semana).

Mad Max 2 mudaria tanto as regras do jogo que em pouco tempo o gênero chamado de “aventura” passaria a ser conhecido simplesmente como “filme de ação”. Não haveria Rambo 2, Comando para Matar, Predador, Exterminador do Futuro e toda aquela pancadaria interminável dos anos 80 sem o copioso jorro de adrenalina que aquele médico australiano despejou nas telas. Raios, não haveria nem o Michael Bay e seus Transformers, uma versão infantilizada daquele fetichismo sexual por carros e batidas, uma consequência típica do cinema americano ultracaro e megaproduzido. Dirty Harry era uma moça perto de Mad Max - que podia não ser um frasista tão brilhante quanto o vigilante de “make my day”, mas tinha um autêntico psicopata interpretando o papel, pelo menos.

(1) Duvida? Confira este documentário.

Born to Be Wild na Gamboa




Repare nos pés descalços...

outubro 03, 2011

Paraty 2011

Praia do Engenho Velho

Panorâmicas de Paraty

Por causa dos mistérios da informática, as panorâmicas não baixaram direito, mas se você clicar nas imagens elas aparecem em toda sua glória.


Vista da pousada

Praia Grande

Trindade

Programinha Pano para Android. Tudo foto de celular.

Cachoeira do Tobogã, em Paraty

Clique na imagem pra ampliar e aproveitar o efeito panorâmico, mané

Sempre que eu vou a Paraty eu passo nessa cachoeira. E sempre assisto a um show. Essa garotada aí já devem ser os filhos dos moleques que vi pela primeira vez no final dos anos 80. Segundo os locais, muita gente já morreu aprendendo a sutil arte de deslizar assim pela pedra, mas basta uma conversa com os praticantes pra ver a quantidade de dentes e ossos quebrados que a prática proporciona. Mas sem dúvida deve ser um barato ser parte dessa confraria. É muito divertido vê-los conversando sobre técnicas e estilos, no mesmo padrão que eu via o povo de arco e flecha na época em que praticava o esporte.


O fodão.




O master mostra que quem foi rei nunca perde a majestade com essa sensacional acrobacia. Pena que eu perdi o sujeito que saiu correndo com um cipó e PULOU CORDA com ele (uma vez só, pelo menos) enquanto descia pela pedra.


Essa moça, que acabara de arrancar o gesso do braço que quebrou no futebol e, apesar de parecer o Neymar e se vestir como menino falava com graciosidade, movia-se com os mesmos predicados na cachoeira.

Os Eleitos

Primeiro rascunho

Irresponsabilidade não é rebeldia
Muito pelo contrário

Imaturidade não é contestação
Muito pelo contrário

Misantropia não é inteligência
Muito pelo contrário

Humilhar os outros não é classe
Muito pelo contrário

Indiferença não é amor
Muito pelo contrário

E você não é o Escolhido

Faça sua escolha agora

outubro 02, 2011

Molhadinha no Rock in Rio

Joss Stone


Sim, eu fui no dia do Stevie Wonder, mas como os vídeos são muito pesados e estou com preguiça de botar pra subir, vai demorar vir tudo. Enquanto isso, vão se divertindo com a maravilhosa ruivinha que deu um puta show. Eu, Sílvio e Suzy chegamos à conclusão de que ela parece aquelas hippies gostosinhas do colégio se esbaldando no palco no sarau e faz o gênero one of the guys fofinha (porque, como lembrou a Suzy, tem aquelas mais masculinas), ou seja, a moça que acompanha os rapazes nas roubadas, bebe com eles, ou, como comentou um sujeito comigo na fila do banheiro, "fuma unzinho com a rapaziada na boa". O sujeito ouviu eu falar Joss Stone e foi logo exclamando, NOSSA, ELA É LINDA! Vou ter que me prover com a obra completa dela agora, depois desse show.

setembro 25, 2011

Martin Scorsese Discorre Longamente sobre "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro"

Dica da Denise Lopes no Caralivro. Não se preocupem, está legendado:



Louise Borgeois no MAM


Sambistas no Aterro

Meu Canhão é Maior do que sua Metralhadora - Parte II


Além do semifracassado Airacobra, o outro caça americano com canhões era o P-38, o Lightning. Só que esse era bimotor e carregava seu canhão de 20 mm e suas quatro metralhadoras .50 no nariz. Com todas as armas alinhadas ele tinha mais facilidade em concentrar o fogo e acertar o alvo, portanto não precisava de uma cadência de fogo tão alta. Os monomotores carregavam seu armamento nas asas, convergindo para um ponto “ideal” entre 150 e 400 metros à frente (1), o que exigia bastante colaboração do inimigo na hora dos disparos - boa parte das balas se perdia no vazio, por mais que a mira estivesse correta. Ademais, com a artilharia alinhada longitudinalmente com o avião, ele se tornava uma plataforma mais estável de tiro.

Assim, os americanos mantiveram em praticamente todos os seus aparelhos as metralhadoras, ideais para uso antipessoal e acertar ariscos interceptadores. Quando os alvos terrestres se tornaram maiores e melhor protegidos, foram instalados lançadores de foguetes nos caças. Somente a era do jato iria modificar essa preferência. E tudo por causa da robustez dos desenhos soviéticos.

Sim, os soviéticos sabiam que sua indústria não era a mais refinada do mundo e que tampouco davam a seus operários o melhor treinamento possível. Então, em vez de desenhos complexos e difíceis de produzir, os comunas gostavam de equipamento bélico com construção simples e robusta, ainda que o acabamento precário diminuísse o tempo médio entre falhas e a durabilidade. Mas enquanto funcionava, era uma beleza.

Nesta linha se incluía o pequeno Mig-15. Mais rápido, com melhor razão de subida e mais manobrável do que qualquer caça contemporâneo, ele apareceu de surpresa na Guerra da Coreia e fez um estrago enorme em todos os jatos do lado dos capacetes azuis que não se chamasse Sabre. Os americanos inicialmente, para evitar a escalada do conflito, evitavam engajar em combate seu melhor equipamento, mas tiveram que apelar para seu transônico de asas enflechadas para impedir que a força aérea chinesa dominasse os ares.

O Mig já era difícil de atingir, mas o pior é que engolia balas .50 como se fosse o Ronaldo Fenômeno frente a um punhado de bombons. Os frustrados pilotos americanos entupiram seus superiores pedindo armamento mais pesado e desprezando a alta cadência de fogo das metralhadoras. Os aviões haviam ingressado de vez na era eletrônico e o Sabre já possuía mira por radar, um dos motivos normalmente apontados para um caça com teoricamente menor desempenho que o Mig-15 ter ganho uma superioridade tão incontestável nos céus (o outro era o melhor treinamento das tripulações). (continua...)

As Mil e Uma Utilidades das Bicicletas



Louise Borgeois no MAM

setembro 21, 2011

Aceito Sugestões para Título

Eu existo neste mundo
Ou como um som não pronunciado
Flutuando em meu crânio?

Serei eu um homem
Serei eu o Deus de minha criação

Ou serei eu uma palavra?

setembro 19, 2011

Arrigo Barnabé Viu o Futuro e Ele Era Babaca


Soa familiar? Ora, é a concretização do clássico de Arrigo Barnabé e Luís Gê dos anos 80!!!!



Feche a janela Joãozinho,
Ou seremos comidos pelos...
Tubarões voadores

São os tubarões voadores
Eles surgem repentinamente

Tubarões voadores!

Sua caixa craniana
Esculpida num único peçado cartilaginoso
Forma uma estrutura poderosamente sólida!

Aaaah!

Qualquer movimento os atrai
De nada adianta fugir!
Estes são os:

Tubarões voadores!

8, 3, 5, 9..
Gritar não é recomendável.

Não!
A minha filha não!
A minha "filhr"...

Afinal, esta é a harmonia da vida.
Iááá!

Por isso,
Feche portas e janelas Joãozinho.
Não adianta nada deixar a janela apenas entreaberta.
As janelas devem ter grades.
E as porta, trancas.
As trancas, cadeados.
E os cadeados, fechos de segurança.

Pois no coração do prudente
Descansa a sabedoria.

Saiba mais sobre esta babaquice aqui.

setembro 18, 2011

O Sósia

Cassiano Ricardo

Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.

A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.

Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.

Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.

O Morro do Alemão e a Blitzkrieg Alemã

Já que a ocupação militar do Morro do Alemão voltou à berlinda esta semana, vale aqui republicar uma análise sobre a operação inicial, quando houve por uma parcela da população um certo ressentimento por não terem sido os criminosos fugitivos alvejados pelas costas ao deixarem seus covis:

Teve gente chamando a ocupação do Morro do Alemão de blitzkrieg. É uma comparação extremamente incorreta, com o articulista citando o elemento surpresa como a principal semelhança. No entanto, qual exatamente o elemento surpresa se os órgãos de segurança já haviam avisado com antecedência que iriam invadir a comunidade e usando blindados para ultrapassar as barreiras?

Não, na verdade, sob este aspecto, a operação foi na verdade um antiquado e pouco criativo ataque frontal, na melhor tradição clausewitziana de concentração de forças, ou seja, "junta todo mundo e vamos dar um pau nesses caras!" Este conceito foi justamente o que foi ultrapassado na blitzkrieg, conforme artigos aqui já postados, mas, apesar de tudo, pode-se dizer que, pelo menos em seu espírito de aproximação indireta, o povo que concatenou a invasão do complexo de favelas baseou-se na guerra-relâmpago dos homônimos do Morro.



Aproximação indireta, defendida no clássico "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, com sua versão moderna preconizada por Samuel Fuller, desenvolvida por Sir Basil Liddel Hart e aplicada pela Wermacht na II Guerra, consiste justamente em evitar custosos ataques frontais às posições mais fortes do inimigo. O pensamento militar em voga desde o século XIX era o de aniquilar o exército adversário com um golpe poderoso, buscando-se atingi-lo em seu ponto mais forte para obter uma vitória decisiva. Ataques a posições secundárias seriam perda de tempo, sob este ponto de vista.

Então, quando se fala em "surpresa" na blitzkrieg alemã da II Guerra, não é para dizer que os nazistas atacavam quando ninguém esperava - pelo contrário, os anglofrancos ficaram esperando desde 1939 o ataque na frente ocidental que só se concretizou em maio de 1940, e sim porque os hunos buscavam os pontos fracos do inimigo, para se infiltrar em suas linhas e desbaratar seus exércitos sem a necessidade de ficar trocando golpes justamente onde o adversário era mais forte e mais baixas poderia causar.

Por exemplo, no fronte ocidental, estando toda a fronteira franco-alemã fortificada com a Linha Maginot, os aliados esperavam que os teutões repetissem o Plano Schlieffen de 1914 e avançassem pela Bélgica. Assim, os anglogauleses mandaram a maior parte de seus exércitos para os Países Baixos, no Norte, e deixaram apenas forças leves para dar apoio aos fortes fronteiriços, no Sul. Entre os dois grupamentos de forças, havia uma florestinha cheia de morrotes, as Ardenas, que os estrategistas do lado de cá julgavam um obstáculo que atrasaria a marcha da infantaria e proibiria o uso de blindados.

Mas para os alemães aquela região era mais ondulada do que intransponível e jogou suas forças blindadas por ali, escoando-as entre os exércitos aliados na Bélgica e os fortes Maginot, passando a menos de 15 quilômetros das fortificações. No entanto, a velocidade dos blindados tornou qualquer reação francesa impraticável e, mesmo com a infantaria vindo bem atrás, foi impossível um contra-ataque de flanco porque os tanques desbaratavam e desorganizavam os quartéis-generais e as forças de infantaria por onde passavam, mesmo que não viesse ninguém imediatamente atrás para ocupar o terreno.

Deixando então os alemães de lado e voltando ao Morro do Alemão, a aproximação indireta usada pelas polícias foi justamente avisar que iria entrar de qualquer jeito e usando blindados, para dar tempo para os traficantes fugirem. Um ataque repentino certamente causaria uma reação instintiva do Movimento e poderia acarretar baixas não só entre os combatentes (a que ponto chegamos) como também entre os civis, justamente o que o governo não queria e que sempre atravancou os planos para se pacificar aquelas imensas comunidades. Trabalhadores mortos às pencas e suas famílias acusando os PMs inviabilizaria qualquer tentativa ulterior de se repetir a operação, desmoralizaria as forças governamentais e aumentaria a aura de invencibilidade dos criminosos.

Da maneira que foi, a vitória foi completa e total. Os traficantes fugiram da Vila Cruzeiro atônitos e atarantados, carregando somente o que podiam levar nas mãos e sem tempo de planejar uma contraofensiva. A invasão do Morro do Alemão em seguida desbaratou completamente suas forças. Sem dinheiro, armamento, contatos, drogas, base de operações e sob contínua pressão, há muito pouca coisa que os traficantes fugitivos possam fazer, a não ser que alguém acredite que eles realmente sejam super-homens, entes com força de vontade e intelecto superiores, capazes de, do nada, construir em poucos dias um Império do Mal. Nem o Imperador Palpatine foi tão rápido.

Agora, o que aconteceria se a polícia metralhasse os traficantes em fuga, o movimento com que tanta gente sonhava e que aparentemente causaria orgasmos de vingança nos apresentadores da tevê cristã que fazia a cobertura?

Belisário, o mais genial general da Antiguidade Tardia, o homem que reconquistou a Itália pro Império Bizantino, que destruiu os poderosíssimos persas partas, sempre com forças numericamente inferiores, certa vez impediu um flanqueamento por estes últimos com uma rápida movimentação estratégica. Tendo construído uma rede de estradas e treinado incessantemente suas forças priorizando sempre a mobilidade, conseguiu alcançar Antioquia antes que os partas, aliados aos sarracenos, lá chegassem, numa manobra de aproximação indireta, atravessando o "intransponível" deserto.


Belisário viveu na Antiguidade Tardia, antes da invenção da perspectiva

Longe de suas bases e com suas linhas de comunicação e suprimentos esgarçada e sob pressão, os persas desistiram de tentar a conquista de Antioquia (o que forçaria uma divisão das forças bizantinas, já que era a segunda cidade mais rica do império) e começaram a recuar de volta para sua terra. Belisário considerava o caso encerrado, mas suas tropas não estavam nem um pouco satisfeitas. O grande e (então) jovem estrategista procurou demonstrar a seus comandados, como conta Sir Basil Liddel Hart em seu livro "Strategy" que "a verdadeira vitória consiste em se obrigar o adversário a abandonar o cumprimento de sua missão, com o mínimo de perdas. Se tal resultado for obtido, não existe necessidade real de vencer batalhas. 'Qual a razão, em consequência, para se querer derrotar um fugitivo?' A tentativa iria criar um risco desnecessário, e um fracasso poderia deixar o império aberto a uma invasão mais perigosa. Não deixar a um exército em retirada um meio de fuga é a maneira mais segura de forçar sua coragem pelo desespero".

Então, o que aconteceria se houvesse o metralhamento dos traficantes? Eles certamente não iriam ficar parados que nem patinhos em estande de tiro, esperando serem derrubados. Iriam reagir e talvez conseguissem novamente derrubar um helicóptero. Qual teria sido o efeito de uma catástrofe como essas na moral de ambos os lados? De fugitivos correndo como baratas assustadas a criaturas perigosíssimas em um pulo. E a reação dos criminosos entrincheirados no Alemão, sabedores de que a única escolha era resistência ou morte? Será que simplesmente iriam fugir se misturando aos moradores ou iriam receber a bala as forças de ocupação? Quantas baixas civis inaceitáveis decorreriam dessa resistência?

Quando finalmente as forças de segurança do Rio conseguem uma vitória tática e estratégica total, com perfeito planejamento do ponto de vista militar, fica um povo exigindo reações irracionais e emocionais por pura vingança. Vingança nunca, NUNCA foi boa conselheira em operações de guerra. Napoleão não planejava suas batalhas dando chutes em mapas e dizendo que ia ferrar com aqueles filhos da mãe todos. Finalmente a inteligência do governo está fazendo jus a seu nome e arriscar-se a sofrer uma derrota tática, ainda que improvável, quando a vitória é total e completa, é uma tolice que levou alguns dos melhores exércitos que o planeta já viu à completa desmoralização e desintegração.

Belisário, por exemplo, para manter o controle sobre suas tropas, a contragosto atacou os persas em retirada e sofreu a única derrota em toda sua longa carreira. Felizmente os partas sofreram também tantas baixas que não tiveram opção a não ser recolherem-se a suas bases. O império ficou aberto a um inimigo que, por sorte, não teve como aproveitar. O Rio de Janeiro não podia se arriscar a tanto.

Meu Canhão é Maior do que sua Metralhadora - Parte I

Os americanos sempre favoreceram as metralhadoras no armamento de seus caças porque seus inimigos em potencial moravam do outro lado do oceano.





É o tipo de frase que exige um pouco de reflexão antes que se fique pensando que essas metralhadoras deviam ter um tremendo alcance. A questão é que praticamente durante quase toda a era pré-míssil balístico intercontinental, o território estadunidense estava fora de alcance das forças aéreas adversárias, sendo improvável que bombardeiros hostis tivessem que ser interceptados a caminho de Nova Iorque ou Washington. Portanto, os caças não precisavam ter canhões de pelo menos 20 mm - o menor calibre em que vale a pena ter uma ogiva explosiva - e tiro relativamente lento, mas armas capazes de disparar rapidamente contra alvos esguios, velozes e fugidios, como interceptadores inimigos. Incidentalmente, esse armamento ainda era ótimo contra infantaria, caminhões e centros de comando de campanha, tornando-o perfeitamente adequado ao apoio cerrado do exército, outro papel muito valorizado por uma filosofia militar voltada para a atuação em território dos outros. De preferência, bem longe de casa.



Havia, é claro, exceções. O P-39 Airacobra tinha um para a época pesadíssimo canhão de 30 mm, que ainda por cima disparava pelo cubo da hélice. O motor ficava no meio do aparelho, tornando-o agradavelmente estável. Tão estável que era difícil de manobrar e, quando apareceu para assustar aqueles japoneses, que os ocidentais julgavam possuidores de equipamento inferior, tornou-se um patinho de estande de tiro para os Zero. Totalmente desprestigiado e desprezado pela força aérea ianque, o estoque restante foi empurrado para os soviéticos que obviamente constataram que aquilo não era um caça, viram o tamanho do armamento e, como lá se acreditava que os maiores são melhores, transformaram-no num avião de ataque ao solo. Não tão bom quanto o Shturmovik, é claro, mas bastante capaz como arma antitanque, Para ser justo com os estrategistas estadunidenses, não havia muitos blindados contra os quais ele pudesse ser usado no Pacífico (continua)