dezembro 04, 2010

Semente

Ara-me
Meu amor

dezembro 01, 2010

Isto Não é Photoshop...



É só uma câmera paralela a uma ladeira em San Francisco. Os melhores efeitos são sempre os mais simples...

novembro 30, 2010

Proibido Estuprar o Vigia

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novembro 29, 2010

um celular com.camera no.centro

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novembro 28, 2010

Eu e Suzy no Show do Paul


Filmado com o celular. Estávamos pertinho, na pista VIP. Sorry, periferia...

novembro 27, 2010

Sim, Eu Fui ao Show do Paul

A camisa definitiva dos Beatles

Eu e Suzy e a foto óbvia
Ladies and Gentlemen, Paul McCartney!

Na saída encontramos o Paulinho. Não quis levar minha câmera grande porque os seguranças poderiam implicar que ela era profissional e levei só o celular - tive que me virar com seus 8 megapixels sem zoom, mas deu pra trazer lembranças. E ainda tenho que pegar as fotos e os vídeos da Suzy (o celuba agora grava em alta definição!)

Liberdade, Liberdade

E Affonso com a blusa que ele comprou na mesma loja que eu comprei a minha da postagem de baixo (você pode vê-lo com a camisa do Estudiantes atrás de mim, escolhendo o que levar).
Da esquerda para a direita: Heitor, Raquel, eu, Affionso, Guta e Adriana. Suzy só chegaria no dia seguinte.

Minha Blusa Nova


Guta, Adriana e Suzy acharam fashion, mas quando a ex-europeia viu, falou que nunca tinha visto homem usando camisas assim. Mas depois emendou, "ah, como você tá meio gordinho e com esse teu jeitão todo mundo vê logo que você não é gay". Sei não, mas isso não me soou muito como elogio...
Adriana na Bienal

Recuerdos de Sampa

Cubismo
A toalete de Vênus
Paralelas

Carrinhos para comunistas

Recuerdos de Sampa




Amor e Mondrian (faz sentido, debaixo do MASP...)






Quatro dias em SP pra ver os amigos e o show do Paul...

Enquanto Isso, Naquela Estranha Cidade ao Sul...




Faz sentido, é claro, afinal de contas todos nós andamos por aí com picaretas pra escavar em meio-fios a esmo pela cidade, não?

Enquanto isso, na EAPE...


A Escola de Canto vai bem obrigado.

novembro 25, 2010

Plástico de Carro

O mundo é uma bola porque se fosse duas seria um saco (Patricia Evans, minha irmã).
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novembro 21, 2010

Telefones

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Cubismo

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bienal

Adriana
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novembro 20, 2010

Amigos em Sampa em tempo real

Raquel, heitor, max e guta
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novembro 16, 2010

Roberto e Erasmo, os Alienados Caretões

Roberto e Erasmo fazem a apologia da maconha em 1971 e só a censura e a patrulha ideológica não veem - Eu quero maria joana, só ela me traz beleza neste mundo de incerteza, o amor vem como nuvem de fumaça, eu estou bem mais alto do que ela... nada sutil...



Só ela me traz beleza
Neste mundo de incerteza
Eu quero fugir mas não posso
Esse mundo inteirinho é só nosso

Eu quero Maria Joana
Eu quero Maria Joana

Eu vejo a imagem da lua
Refletida na poça da rua
E penso da minha janela
Eu estou bem mais alto que ela

Eu quero Maria Joana
Eu quero Maria Joana

Eu sei que
Na vida tudo passa
O amor
Vem como nuvem de fumaça

Eu quero Maria Joana
Eu quero Maria Joana

A Culpa é do Lula



Deixando claro o subtexto de um monte de reportagens por aí, o Jornal do Almoço da RBS (afiliada da Tv Globo) de Santa Catarina diz que a culpa dos acidentes na estrada é do governo Lula que deu condições a miseráveis sem instrução de comprar um carro.

novembro 15, 2010

Odisseia

Ouvindo meu iPod
Passo incólume pelo canto das sereias

Meu capitão amarrado ao mastro
com algemas, correias
e fio dental de couro
Implora,
"Voltai e deixai-me provar
as delícias prometidas"

Enquanto um solitário rochedo
deixa cair uma lágrima
pelos seus amados navios
Que nunca mais atirar-se-ão
a todo pano, mastros em riste
rumo ao seu abraço mortal

uma gringa ecoando o rio

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novembro 12, 2010

Conheça o Mais Novo Mercado Emergente - O Inferno

Esta seria a cena de abertura de uma peça minha chamada PANDEMÔNIO, com a frase de chamada "Conheça o mais novo mercado emergente - o Inferno". A ideia seria a de que teria sido aberto um canal de comunicação com o inferno, os habitantes de lá se alimentariam de energia e estavam interessados em comprar da gente isso e bens de consumo. Só que imigrantes ilegais começariam a fornecer serviços proibidos e a polícia eclesiástica é que teria que manter os elementos na linha. Daí descobri que isso seria impraticável num palco e comecei a pensar num romance ou algo parecido, envolvendo uma trama política em que haveria uma eleição e um dos candidatos teria como ponto programático um tratado de livre comércio com o Hades, embora isso fosse bastante polêmico, pois grande parte das pessoas teria ainda a crença de que os demônios eram intrinsecamente maus e não apenas criaturas que se alimentavam de energia - normalmente bioenergia - e sabiam manipulá-la bem. Daí ficou muito complicado e mercados emergentes saíram de moda. Mas de qualquer maneira, deem uma olhada aí no comecinho do projeto, é interessante.

uma mulher e um demônio quase humano conversam no escritório dele. paulo chega durante a conversa e fica em pé, num canto, olhando, após cumprimentar com um aceno de cabeça ao ente sobrenatural.

mulher
Como assim, você não pode dar um jeito?

ashalzas
Pactos de sangue não podem ser modificados assim. É preciso energia...

mulher
Mais do que eu já te dei? Você tem idéia do trabalho que custou?

ashalzas
Sim, eu sei, mas eu também tive muito trabalho. E sem o nível de energia adequado, não podemos modificar o que foi pactuado...

mulher
O que foi pactuado é que você ia me dar muita beleza! Não essas gorduras localizadas! Esses peitos enormes, ainda ficou um maior do que o outro! Será que no Inferno vocês não tenham idéia do que seja uma mulher bonita?

ashalzas
Sim, temos, faz parte do currículo demoníaco estudar as obras de Rubens e Rafael...

mulher
Que Rubens e Rafael o quê! Nunca ouvi falar! Vocês têm que saber é de Casablancas, Lagerfeld, isso é que importa! Rubens e Rafael! Isso lá é nome de estilista! Eu quero minha alma de volta! Droga, eu devia é ter feito uma cirurgia plástica, mas minhas amigas falaram tanto que aqui eu ia poder guardar o dinheiro...

ashalzas
Magia não é uma ciência exata, senhorita. E, na verdade, a senhorita só me forneceu 50% de uma alma e ainda assim não era sua...

mulher
Claro que é minha! O Clôdinho fala o tempo todo que me ama tanto, que é coisa de espírito, claro que é minha! Não me vem de papo não! Você vai ter que acertar isso! Onde eu vou arrumar um desfile com essas ancas moles que você me arrumou?

ashalzas
Estes pactos de sangue não deveriam ser feitos por motivos tão frívolos...

mulher
Que que você queria que eu fizesse? Eu já tinha um monte de homem atrás de mim, eu não precisava de mais nada, agora é que eu preciso, até o Clodinho já me perguntou porque que eu parei a ginástica! Isso não pode ficar assim! Eu quero o meu corpo de volta, do jeito que era, junto com a alma do Clodinho, ou então eu quero que você faça tudo certinho!

ashalzas
Senhorita, o pacto não especifica...

mulher
O pacto não especifica nada, mas eu já falei com o meu advogado! Uma vez que foi com o meu sangue que assinei, o padrão de beleza que deve ser usado deve ser o meu! E como a alma não era de quem assinou também, o pacto pode ser cancelado...

ashalzas
A senhorita tem advogado? Peça para ele falar com o meu...

mulher
Você tem advogado?

ashalzas
Todos os demônios têm um. Eles não vêem problema em trabalhar conosco, não têm alma a perder mesmo...

mulher
O meu é muito bom... e você sabe como são os juízes aqui... eles odeiam demônios... acho bom você pensar bem no meu caso...

ashalzas
(SUSPIRANDO) Eu não posso fazer nada sem consultar o meu advogado. Vou ver o que pode ser feito. Mas os níveis de energia andam muito baixos... talvez com uns 10% de alma a mais...

mulher
Nem um pouco. Eu vou precisar de tudo que sobrou da alma do Clodinho daqui a uns dez anos...
ashalzas
Está bem, está bem. Eu vou consultar o meu advogado. Ligar-lhe-ei amanhã, pode ser?

mulher
É bom que ligue. Ou um oficial de justiça irá trazer um bilhetinho meu depois. Boa tarde. (SAI)

paulo olha para ashalzas, sorrindo e senta-se.

paulo
Pactos de beleza, Ash? Você sabe que isso é proibido. A associação dos cirurgiões plásticos pode pedir a tua extradição...

ashalzas
Antigamente era o modo mais fácil de se conseguir uma alma... hoje em dia fica difícil, o que pode um demônio saber o que as mulheres querem? Damos-lhe o corpo das mais belas musas renascentistas e elas reclamam...

paulo
O problema de demônios não terem sexo é essa incompreensão da cabeça das mulheres...

ashalzas
Fossem os homens capazes de entendê-las e o Inferno seria bem mais vazio... veja só, essa queixosa roubou a alma do namorado e ainda vem reclamar...

paulo
Roubou? Como, roubou? Tirou da carteira dele enquanto ele estava dormindo?

ashalzas
Não, deitando com ele. Ensinei-lhe alguns rituais tântricos. Ela não queria arriscar a alma dela - e nem eu acho que valha grande coisa. Uns movimentos, umas invocações, uns rituais e - voilá! - lá se vai um pedaço da sua alma com a sua ejaculação.

paulo
Mais um motivo pra se usar camisinha...

ashalzas
Não ia adiantar nada, somente se um homem santo a consagrasse. E não creio que um homem santo faria isso.

paulo
A maioria das pessoas também não acreditava em demônios e anjos...

ashalzas
É que nós não existíamos... sabe, você deveria tentar algum dia... dizem que um orgasmo com dreno de alma é inesquecível...

paulo
Eu não faço questão. Se eu pudesse me lembrar com detalhes dos meus orgasmos sempre que quisesse, eu não iria querer mais fazer sexo...

ashalzas
Faz sentido... De qualquer maneira, deve ser uma experiência interessante. É uma pena que eu não tenha alma.

paulo
Vocês não têm sexo nem alma. Nunca se perguntaram se havia uma ligação?

Um Celular com Câmera na Uruguaiana


Uma freira perdida...

Nickelback - Savin' Me


A música é um lixo, mas a ideia e a historinha do clipe são um barato...

Petrópolis 2010


d'après Vênus de Botticelli

Sapatão


novembro 10, 2010

Adagio

Norman McLaren, o genial animador canadense, que experimentou de tudo - animação quadro a quadro com pessoas, animação rabiscando direto na película, animação abstrata - prova mais uma vez que os melhores efeitos são os mais simples e dá ideia pra milhões de diretores de videoclipe nessa filmagem do pas de deux de Adagio, do Albinoni, a música barroca que todo mundo conhece.

Recordar é Viver...


Guta faz uma rara pose sexy em sua despedida do Rio... e eu estou lá para clicar com minha avançadíssima câmera digital com resolução de 320 x 240 - 0,08 megapixels! Dá pra ver na hora! Você não paga nada pela foto! Nunca vi nada parecido!!!

Biscoitos Globo



Encontrei numa padaria na cidade esses biscoitos Globo embalados em plástico. Pensei que fosse uma contrafação, mas o vendedor me explicou que a produção distribuída em padarias e afins vai em plástico mesmo por ser mais barato e prático. Como em praia o pessoal é meio bárbaro mesmo e deixa tudo jogado pela areia, eles ensacam com papel porque é biodegradável - papel é orgânico e se decompõe relativamente rápido. Maneiro, não?

novembro 07, 2010

Plástico de Carro

Sexo e dinheiro parecem muito mais importante quando você não tem do que quando você tem (Charles Bukowski).

White on white translucent black capes
Back on the back
Bela lugosi's dead
The bats have left the bell tower
The victims have been bled red velvet lines the black box
Bela lugosi's dead
Bela lugosi's dead
Undead, undead, undead
Undead, undead, undead
The virginal brides file past his tomb
Strewn with time's dead flowers bereft in deathly bloom
Alone in a darkened room, the count
Bela lugosi's dead
Bela lugosi's dead
Bela lugosi's dead
Undead, undead, undead
Undead, undead, undead
Undead
oh, Bela, Bela's undead

As Crianças de Hoje

O chato era quando a gente rodava o prédio todo e não achava ninguém que tivesse bola. O jeito então era sentar em cima dos carros na garagem e ficar conversando e ouvindo a música que vinha de uma das janelas:

- Eu sou um moço velho... que já viveu muito... que já amou muito... que já sofreu tudo...

Devia vir lá do terceiro ou quarto andar, nunca deu muito pra saber direito, ricocheteava no bloco de trás e aí é que confundia tudo, lá tinha eco à beça. A gente até gostava de ficar berrando em frente ao segundo bloco, mas quase sempre aparecia o porteiro pra dar esporro. Menos o seu Geraldo, que era legal, mas também pedia pra gente parar.

A cara dela eu fiquei conhecendo um dia de Cosme e Damião, quando ela apareceu com uma sacola do Mar & Terra distribuindo os saquinhos pra garotada, foi aquele empurra-empurra, então um colega meu depois falou que achava que era ela quem ficava o dia inteiro ouvindo música lá no apartamento dela e ficava no terceiro andar.

Nessa época, depois do jantar, a gente ficava conversando sobre naves espaciais e robôs e outros assuntos. Discos-voadores, todo mundo já tinha visto pelo menos um, em casa ou na casa dos parentes no interior do Rio ou de Minas e eu via ela à beça, tava sempre saindo com um garotão, os dois entravam no fusca dele e iam embora.

Depois veio as aulas e depois do jantar a gente ficava em casa vendo televisão e fazendo o dever de casa, que, por mais que a gente se esforçasse, acabava sempre por fazer na véspera do dia da entrega, à noite. Só no começo das aulas é que dava pra ser mais organizado.

A gente então gostava já tanto de conversar quanto de jogar bola, até mesmo por hábito, porque sempre descia o síndico com problema na perna do segundo bloco quando a gente começava, reclamando do barulho, dizendo que a gente ia estragar os carros e que já éramos muito grandes praquilo, íamos machucar as crianças menores ou o maluco mais velho que a gente do quinto andar, argumentos que ele não parava de usar nem quando a gente falava que quando passava alguém o jogo parava, ficava todo mundo paralisado (se bem que havia um pessoal que aproveitava a hora de passagem de gente ou carro pra se aproximar da bola), pois é, nessa época ela parou de sair na noitinha, a gente não via nem o sujeito e nem o fusca, apenas ouvíamos a música dela o tempo inteiro, você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços o que eu nunca esqueci. Inclusive a aparelhagem de som dela dela deve ter mudado na época, parecia ter trocado sua eletrola por um PHILIPS estéreo, devia ser um daqueles que tinha uma luz verde retangular para avisar que a vitrola tava ligada e que tinha duas caixas pequenininhas de madeira. Eu tive uma dessas, tinha aquele cabeçote prateado e preto e aquele braço de uma espécie de plástico. Tinha até aqueles garfos pra você botar vinte discos empilhados e ia caindo um por um, era automático.

Depois a gente acabou se desinteressando de jogar bola e, pensando bem, como é que a gente conseguia jogar dentro daquela garagem, cheia de quebra-molas, com o gol sendo marcado pela altura do goleiro, usando a parede pra tabelar e enganar o marcador, tendo que ficar a três passos do jogador quando a bola caía embaixo do carro? Foi nessa época que eu fiquei sabendo o nome dela, Neyla, foi um amigo meu que contou, a gente tava conversando encostados num pára-lama de fusca, a música tava tocando, quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem, com Agnaldo Timóteo e tudo. Aí ele virou pra mim e disse, puxa, a Neyla não pára de ouvir essa música, eu falei hum e não dei atenção, nesses grupinhos a gente sempre sabia quem é que toda noite subia lá no terceiro andar e só aparecia em casa horas depois e além disso ele gostava de ficar se gabando dessas coisas, falando dessas coisas e eu não gostava de dar papo pra ele, ele era um metido a besta desgraçado.

Foi na época em que ela escutava muito Minha História, aquela do minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, com a Ângela Maria cantando uma música em volta, que fiquei sabendo o número do apartamento dela. Ela passou por mim na saída da portaria e falou "você não era aquele menino que ficava aqui embaixo jogando bola, puxa, como você está grande, já tem namorada?" e eu pensei na Bia e disse "tenho" e ela falou dos discos dela, das músicas dela que ela tinha no apartamento, eu tinha que ver. Naquela noite, antes do jantar deu pra ouvir "Se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim" lá de casa. Ela tinha mesmo um monte de discos lá. Eu vi.

Depois ela se mudou. Engraçado. As crianças de hoje não gostam de jogar bola aqui no prédio. Graças a Deus também não têm a mania de ficar gritando pra ver se tem eco.

Trendsetter ou Cool Hunter?

Megalomaníaco

Coral e Scala

Outro dia fiz uma conta e descobri que cerca de 40 cinemas de rua aos quais me lembro ter ido já viraram saudade. Esta série é pra relembrar essas salas tombadas no cumprimento do dever...



Eram dois cinemas na Praia de Botafogo. Embora tenham aberto como cinemas chiques, decaíram rapidamente - provavelmente o fato de ficarem embaixo de um favelão tenha contribuído pra isso. O Edifício Coral (1), construído sobre a antiga casa do dr. Miguel Couto, foi originariamente pensado como prédio comercial, mas durante a construção decidiram que seria misto e, apesar de agora estar bem mais arrumadinho, durante anos foi um pardieiro.

O Coral/Scala foi aberto em 1965, onde hoje é o Arteplex, mas quando me mudei pra Marquês de Olinda, no meio dos anos 70, ele - pelo menos um deles - já passou um verão fazendo um festival com dois filmes por dia e depois dois por semana. Na foto ele ainda está no auge do vigor, mostrando um dos grandes blockbusters da época, O PODEROSO CHEFÃO PARTE 2. Lembro que ele tinha sessões às onze horas pra atender ao público sequioso que lotava as parcas sessões diárias (somando os trailers e telejornal, acho que o curta ainda não era obrigatório, era por volta de quatro horas sentado na cadeira).

Note que embaixo da marquise havia espaço para um cartaz pintado com o longa da semana. Em alguns lançamentos de ponta, a marquise seria também coberta por uma enorme pintura. Pra se ter uma ideia de como a década de 70 era estranha, um dos sucessos de bilheteria que mereceram esse tratamento foi um filme com o Burt Reynolds, em que se pôs um outdoor, com ele recortado abrindo a camisa e mostrando seu supostamente irresistível peito cabeludo. Mais ou menos na mesma época, o seriado KOJAK fez tal estardalhaço na tevê que desencavaram uma produção televisiva com o Telly Savalas (aquela em que ele tinha que invadir Spandau, sequestrar o Hess, fazê-lo contar onde estava o tesouro, devolvê-lo e ir pegar a grana) e, em vez do nome do longa, tinha só TELLY SAVALAS em letras garrafais e, embaixo, onde deveria estar o elenco, estava escrito KOJAK.

Os cinemas tinham aquela mesma longa entrada que o Arteplex, só que o chão era quadriculado em preto e branco, e havia duas fileiras de cartazes (que na época ainda mostravam fotos), além daqueles pregados em caixas de vidro nas paredes. À medida em que ia se aproximando a data do lançamento da fita, seu cartaz ia se aproximando da entrada, em fila ordeira, embora vez por outra quebrada por uma estreia de emergência. Eu adorava caminhar até o fim do corredor pra me inteirar do que me esperava nas telas, antes de coisas como revistas importadas sobre cinema nos jornaleiros e Internet.

Nos anos 70, antes da invenção do videocassete, a única chance de ver clássicos sem depender da vontade do programador da tevê era em reapresentações, e mesmo cinemas comerciais não tinham pudores em passar filmes em preto e branco. No Coral/Scala vi (com certeza, fora os que esqueci) Uma Noite em Casablanca, Uma Noite na Ópera, Marcelino Pão e Vinho, La Violetera, As Férias do sr. Hulot, King Kong, O Satânico dr. No, A Noviça Rebelde. Não vi na época por não ter idade o festival Hitchcock, mas vi o Festival Jerry Lewis e descobri que já não gostava mais tanto do comediante americano. O primeiro longa que me lembro de ter visto lá com certeza foi A GUERRA DAS FORMIGUINHAS, um desenho em que, ao que me recordo, uma formiguinha problemática que gostava de Batman salvava todas elas.

Lá também assisti a um lançamento obscuro que ficou duas semanas em cartaz (na época quase nada, filmes como Guerra nas Estrelas podiam ocupar uma sala por mais de seis meses) e acabou virando um marco fundamental da cultura pop contemporânea, MONTY PYTHON (na época ainda sem o adendo E O CÁLICE SAGRADO). E, no começo dos anos 80, num festival de musicais contemporâneos, assisti em uma semana a WOODSTOCK, TOMMY, HAIR, FAMA e ALL THAT JAZZ (fechando a programação tinha O FANTASMA DO PARAÍSO, o único que pulei, de Brian de Palma). Curiosamente descobri depois que vários amigos que conheci na faculdade tempos depois também perderam suas virgindades para esses clássicos do rock no mesmo festival E NA MESMA SESSÃO, a de oito horas. Eu, Suzy, Roger e Ivan estávamos em Woodstock, e os três primeiros também em TOMMY.

Mas esses constantes festivais de reapresentações podiam ser ótimos pra mim, que morava ali do lado, mas eram já sinal de que aqueles cinemas já não eram de ponta. O último grande lançamento que me lembro que passou lá foi O ESPIÃO QUE ME AMAVA (ah, também vi vários 007 num festival James Bond que teve neles), depois eles passaram a exibir estreias com expectativas medianas de público, como OS BANDIDOS DO TEMPO, um dos últimos longas do qual esperava alguma coisa que assisti em suas salas. Logo depois houve a explosão do filme pornográfico, graças à liminar que garantiu o lançamento de CALÍGULA e que virou o caminho fácil pra liberar todos os pornôs, e aquela dupla da Praia de Botafogo encampou de braços abertos a novidade. Pornografia era novidade na época e eu, minha primeira namorada de verdade (que adorava ver essas coisas, tinha a maior curiosidade) e uma galera da faculdade (incluindo outras menininhas de 17, 18 anos) assistimos lá a uma sessão dupla A B... PROFUNDA/O DIABO NA CARNE DE MISS JONES 2. São as últimas fitas as quais tenho certeza de ter acompanhado naquelas salas. O clima ainda não era totalmente decadente - funcionários uniformizados ainda comandavam a bombonière onde durante anos comprei balinhas de bonequinho, cigarrinhos de chocolate (que certamente me ajudaram a me tornar fumante durante vinte anos, inclusive fumando dentro do cinema, o que era muito comum na época, apesar de proibido) e Frumelo.

Logo depois o Scala, além dos filmes, passou a exibir espetáculos de sexo explícito em sua sala, durante um bom tempo - a minha primeira namorada queria ir, mas achamos que a barra devia ser pesada demais pra ela e acabamos desistindo. As salas irmãs continuaram com a pornografia durante anos a fio, aparentemente um bom negócio, mesmo pro tamanho enorme de suas salas, até que César Maia proibiu tal tipo de casa perto de colégios, e o Andrews era colado ali (e ainda tinha o São Pedro de Alcântara no mesmo quarteirão), o que o levou a fechar as portas. E, curiosamente, nessa época, ainda nos anos 90, a bilheteira era a mesma que nos anos 70 me proibiu de entrar, preadolescente, por estar de short.

(1) O Coral e o Scala, ao lado de seu vizinho Ópera, eram já da geração de cinemas que ficavam embaixo de prédios, ao contrário dos imóveis que só serviam pra isso, como o Guanabara, no final da Praia. Eles, o Paissandu e o Star, depois Botafogo, hoje Estação Botafogo, foram os últimos cinemas de rua a serem erguidos, os únicos depois dos anos 50, quando começou a onda dos "cinemas de galeria", como os Condor, os Bruni e o Joia. Embora todo mundo com mais de 30 hoje reclame dos cinemas de shopping, o cinema de galeria era a mesma ideia de juntar lojas, comida e filme, só que sem a grandiosidade dos enormes shoppings construídos a partir do Rio-Sul.

outubro 26, 2010

A Última Viagem do Bonde para a Samaria

- Não pára não, Marcos, por favor...

Toquei a rua, mas tinha sido um dia muito, muito quente. Podia ser uma mancha de sangue, podia ser uma mancha de óleo, a mesma dúvida que eu sempre tinha quando entrava no carro e sentia cheiro de gasolina e ia olhar embaixo e sempre, sempre descobria que todo chão guardava suas marcas, suas cicatrizes, suas manchas de velhice, apenas nunca reparamos nelas.

- Não pára.

Agachado no meio da rua, toco manchas no asfalto com os dedos, os carros passando perto, seus motoristas olhando desconfiados, desconfiados como a mulher da banca de flores no insulado canteiro da curva, que antigamente fazia parte da calçada, antes de uma das muitas reformas de tráfego no lugar.

- Carol, ele não tá fingindo.

- E se estiver?

Eu levanto, caminho até a mulher de bermuda jeans, camiseta azul-escura, sandália e cabelos desgrenhados começando a embranquecer, ela está me sacando desde que cheguei, ela sabe que não vou conseguir carregar flores na bicicleta, ela sabe que não vou querer comprar nada.

Não consigo lembrar se a banca estava aberta na véspera, só tinha olhos para Carolina, doce e bela Carolina, com o minivestido e as belas e grossas coxas de fora, coxas naturalmente belas, imalhadas, nem o noivo dela conseguira fazer dela uma atleta, para quê, ganhava dinheiro como modelo de fotografia, fazia pós-graduação de psicologia, gostava de música eletrônica e filmes do Estação Botafogo e tinha uma história estranha, uma história esquisita, uma história não muito bem-contada envolvendo alguma coisa que nunca revelava, mantinha em brumas e névoas, alguma coisa que acontecera a ela quando se mudara do Espírito Santo para o Rio de Janeiro, para ganhar dinheiro fotografando, sendo fotografada, aliás, viera morar sozinha depois da morte do pai, um segredo que não seria eu a forçá-la a desvelar.

E só tendo olhos para ela eu mal vira o homem se arrastando na frente do carro na rua.

E sangrando, parecia estar sangrando, sangrando muito.

Pergunto para a florista cansada se ela soube de alguma coisa, se alguém foi atropelado ou baleado ali na véspera, se aconteceu alguma coisa, a mulher olha pra bicicleta, diz que não, não sabe de nada, não viu nada no jornal, não ficou sabendo de nada, não sabe de nada, quando chegou não tinha nada.

Quando cheguei também não tinha nada. Tinha na véspera, o homem se arrastando pela rua, mas Carolina, a belíssima Carolina, a Carolina cujo namorado era mais novo e mais bonito do que eu jamais fora, mas que ela traía despudoradamente, comigo, Carolina pediu pra não parar, não diminuir.

- Ele não está, Carolina!

A florista não sabe de nada.

Ele não estava fingindo, eles não sabem fingir, eles só sabem falar a verdade, eles declamam como péssimos atores sempre que têm que interpretar um personagem que não seja eles mesmos, uma vez saí com o pessoal do trabalho, nos bancos da frente uma amiga jovem dirigindo e no carona um amigo velho, o garoto não me viu saudável e ainda jovem, ele chegou mancando, ele tinha uma perna torta, vestia só um short, o carro parado no sinal, avenida Atlântica, ele chegou carregando uma quentinha da qual comia com a mão arroz, feijão e farofa, ele chegou na janela do amigo coroa e falou exatamente no mesmo tom que os vendedores de ônibus falavam, exatamente no mesmo tom completamente falso e artificial, eles não são bons em blefe, eles não dariam bons jogadores de pôquer, ele disse “eu-não-quero-seu-carro-ou-sua-vida-apenas-sua-carteiera-e-você-pode-ir”, um garoto manco, de short e quentinha, incapaz de dar verdade ao seu personagem.

O amigo coroa fechou a janela.

A florista fecha a porta quando volta para dentro do quiosque.

E eu nem abri o vidro elétrico.

- E se estiver?

Carolina, tão bela Carolina, tão belas coxas de Carolina, tão jovem e bela, tão boa de cama, tão carente, tão apaixonada.

- Quando você estiver sozinho você pode parar, Marcos, mas lembra que eu tô aqui contigo!

E aquela história mal-explicada, aquele segredo do qual ela só dava a mais vaga das pistas, alguma coisa à qual ela fazia uma vaga alusão sempre que eu queria experimentar mais da entrega dela, quando queria ser mais violento, furioso, sexual, como um homem bem-sucedido de idade e experiência frente àquela carne macia, firme, jovem e completamente entregue, completamente submissa ao macho viril e potente nu à sua frente.

E não parei.

Ela pediu.

Ela tinha aquela história.

Anos atrás, nem tantos assim, aliás, quando comprei meu primeiro carro, saí com Márcia, que viajara o mundo todo, atriz, poetisa, musicista, que em Paris mergulhava entre tubarões para ganhar dinheiro, era a primeira vez que ela entrava num carro meu, e um homem em convulsões andou até o meio da rua. Contra todos os protestos do homem pusemos ele no carro, uma toalha de praia que andava sempre na mala forrando o banco de trás, e o levamos ao Rocha Maia, deixando-o numa cadeira de rodas rumo ao raio-X, enquanto ele continuava protestando dizendo que estava tudo bem.

Naquela noite jantamos na Cantina Bolognesa, à luz de velas, trocamos nosso primeiro beijo e terminamos no Bambina e, com Márcia descansando aninhada e satisfeita em meu peito, eu só conseguia pensar se o homem não estaria drogado a ponto de ser preso, se não teríamos ferrado com ele, estragado a vida dele, de tanto e tanto que ele protestara e demonstrara medo.

Apenas para apaziguar nossa consciência imersa em tantos pedintes e tiroteios.
Mas Márcia não tinha as coxas de Carolina e nem a juventude de Carolina e nem o segredo de Carolina.

Por isso fiz como ela pediu.

E ainda tinha aquela história obscura da vida dela.

Não parei o carro, segui na rua escura e deserta, Carolina estava atrasada, saltou correndo ao chegar em casa e o porteiro, que tanto gostava do namorado dela, me olhou atravessado como sempre fazia.

E eu fui para casa, esperei amanhecer, peguei a bicicleta e vim.

E ninguém vira nada.

E eu não tinha parado.

Carolina dorme às vezes lá em casa.

Ela acordava mais cedo do que eu. Normalmente a encontro na sala, assistindo a algum DVD, ou, mais raramente, lendo o jornal, ela não era tão culta ou lida assim, nem sabia o que tinha sido a Revolução de 64, descobri uma vez.

Mas meu computador é protegido. Tem arquivos que eu gostaria que ninguém mais visse.

Eu sei que ela acorda cedo para ficar trocando e-mails com o namorado virtual francês. Ela adora a Europa. Ela já viajou à Europa a trabalho, fotografando, e outra vez, quando juntara dinheiro.

Em menos de um ano ela abandonará o namorado, eu e outro amante eventual que também descobri através do computador, e se mudará para a França, permanentemente tantalizando-me com a imagem de suas coxas emoldurando sua boceta sem pelos andando nua pelas praias liberadas francesas, feliz em sua beleza e juventude.

Enquanto eu rodarei as ruas do Rio, os vidros levantados, cada vez mais parecendo um alvo fácil para pivetes de short armados de quentinhas, porque cada vez mais velho e assustado, seguindo sempre adiante, nunca parando em cruzamentos depois do anoitecer, amedrontado e protestando contra a violência, dizendo que ninguém mais ousa sair à noite e falando mal da geração mais nova, tentando chegar em casa vivo a cada dia
entre assaltantes, floristas cansadas, epilépticos atirados no meio da rua e feridos ensanguentados largados ao asfalto como num antigo enterro ritual, o corpo deixado na pedra quente para que os abutres, carniceiros e larvas de moscas o devorem completamente, deixando o morto como marca neste mundo apenas as lembranças dos que o conheceram.

Enquanto Carolina nua beijará seu namorado na praia deserta ao anoitecer, completamente alheia a qualquer segredo obscuro e traumático de sua vida.

Um Celular com Câmera e as Dez Estratégias da Mídia pra Controlar o Público (segundo Noam Chomsky)



8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público que é moda ser estúpido, vulgar e inculto…



As outras estratégias podem ser vistas aqui

outubro 18, 2010

Ele Está Entre Nós!

O CCBB começou no dia 18 uma mostra de John Ford que vai até 7 de outubro. A programação completa está aqui.

Ajoelhai-vos e orai, crentes e pagãos, pois John Ford está entre nós. Arrependei-vos de vossos pecados e atirai no lixo vossos DVDs de Woody Allen; ateai fogo a vossos ingressos para filmes de relacionamentos e desviai-vos de cinemas exibindo fitas experimentando novas linguagens - prostrai-vos, cobri-vos de cinzas e implorai clemência ao único e verdadeiro Senhor. E vós a recebereis, pois John Ford ama toda a humanidade.

E é esse humanismo que torna John Ford tão irresistível. Irlandês católico numa indústria de protestantes e judeus, sua filmografia é repleta de um lirismo amoroso de quem compreende todas as suas crianças. Suas fitas são mitologias, contando histórias de moralidade para engrandecer o caráter. Mesmo os seus personagens perdidos são redimíveis e dignos de compaixão - até seu mais desprezível vilão, o Velho Clanton, é digno de pena ao ter seus planos e sonhos destruídos. Outros diretores podem ter feito de seus caubóis lendas titânicas, como Fred Zinnemann e Anthony Mann, mas os pistoleiros de Ford não lamentam seu destino imutável - suas vidas são consequências de suas escolhas, de sua livre escolha frente a Deus e ao mundo.

Tudo de bom encompassado pelo termo "cinema americano" está em John Ford. A direção invisível, o entretenimento garantido, fé na humanidade e nos bons valores morais, qualidade de produção, bela fotografia... tanto que muita gente às vezes considera Ford um artesão competente que sabia encenar um roteiro. A aparente falta de personalidade na condução das cenas é apenas ilusórias, entretanto. Um ator certa vez resolveu desafiar a marcação do falso caolho (1) e, em vez de por a mão sobre um corrimão enquanto falava, resolveu segurá-lo. Ford repetiu o take SETENTA E SEIS VEZES até que o rebeldezinho desistiu e finalmente fez como o velho irlandês queria. Ford não chamava, como Hitchcock, a atenção das pessoas para seus truquezinhos pessoais, mas concatenava belíssimas metáforas visuais, como, por exemplo, em "Rastros de ódio", quando dois jovens pioneiros brigões são separados, levados para dentro de casa e recomeçam a briga, os golpes espalhando a poeira de seus corpos - simbolizando que mesmo dentro de uma casa, mesmo sob o teto da civilização, eles carregam ainda a selvageria da vida na fronteira. Ou o ataque aéreo minimalista de "A longa viagem de volta". Sempre acompanhado de grandes câmeras, como Gregg Tolland, a eminência parda de "Cidadão Kane", seus filmes são visualmente esplendorosos, tanto em preto e branco (experimente "Paixão dos fortes" e "Vinhas da ira") como coloridos ("Rastros de ódio" ou "E o céu mandou alguém").

A influência católica é visível também nos comportamentos ritualizados de seus personagens. O primeiro encontro entre Doc Holliday e Wyatt Earp, em "Paixão dos Fortes", em que os pistoleiros se medem com jogos de gestos e palavras; a luta final em "Depois do vendaval"; a preparação para o ataque dos índios em "Rastros de ódio"; o desafio de Liberty Vallance em "O homem que matou o facínora". Os atores movem-se sempre de forma expressiva, muitas vezes tão languidamente que parece quase uma dança, como Henry Fonda em "Paixão dos fortes". Com tal controle sobre a movimentação em cena, Ford não tem problema nenhum em favorecer os planos gerais, sem precisar abusar de closes e mais closes para conseguir emoção, evitando cortes desnecessários e deixando as fitas fluirem com espontaneidade, sem nunca cansar o espectador. Tão precisa era sua edição, aliás, que para evitar que o editor contratado resolvesse inventar com suas tomadas, ele filmava normalmente apenas um take, com uma câmera, e começava e terminava a cena exatamente onde queria que ela iniciasse e parasse. O pobre montador não tinha muita escolha a não ser ir colando os pedacinhos de celuloide.

O tema favorito de John Ford é contar uma mitologia humanista positivista, a civilização vencendo a barbárie e conquistando o bem mais importante de todos, a terra. Tanto que a grande tragédia da família em um de seus melhores filmes (existem poucos que não podem ser considerados assim), "As vinhas da ira", é justamente a perda de suas terras, enquanto em "A longa viagem de volta", o drama dos marinheiros é não terem raízes, viverem errando nos oceanos. Mas isso é muita simplificação e algumas de suas fitas vão desde a defesa da revolução socialista, como no "vinhas...", até a kafkiana metáfora de "A patrulha perdida", quando um destacamento da Legião Estrangeira, após a perda de seu oficial comandante, o único que sabia qual era sua missão secreta, fica cercado num oásis, a mercê de atiradores árabes que nunca são vistos, enquanto um Boris Karloff em modo ator subleva os soldados com um discurso religioso fanático.

Compassivo, humanista, crente, expressivo, Ford foi a grande inspiração do Arcanjo Kurosawa e da galera da Nouvelle Vague, talvez os primeiros pseudointelectuais a dizer que aquele sujeito era um dos gênios da sétima arte, o grande pilar do que se entende por cinema americano, um artista desprovido de cinismo e que amava toda a humanidade. E, se alguém como Ford (e seu arcanjo Kurosawa) acredita no homem, nós também podemos ter alguma fé na grande comunidade. Portanto ide em paz, filhos, lotar todas as sessões da Mostra de John Ford no CCBB. Pois John Ford está novamente entre nós.

(1) Nas imagens de divulgação, Ford está comumente usando um tapa-olho, mas, ao contrário de Raoul Walsh, ele não tinha nenhum problema de visão - servia apenas para descansar a vista enquanto olhava pelo visor da câmera. Mas o diretor gostava de ser fotografado assim porque achava que... ficava com cara de mau!

outubro 14, 2010

Give me love give me love give me love
E diga-me que me ama
Pois eu nunca soube reconhec�-lo
Nunca confiei que pudesse fazer

voc�

me amar

Eu sou indigno eu sou o erro eu sou o fim
do seu amor
da sua paix�o
de voc�
de mim

Give me love give me love give me love
Me d� amor por pena de mim
Pois n�o mais como homem eu sei amar
Meu amor n�o � bom
Meu amor n�o � feliz
Meu amor n�o � o seu
S� parece ser

Give me love give me love give me love
De profundis clamavi
Enquanto aqui
Neste latif�ndio infecundo que chamo de corpo
Afasto voc� e me afasto da ra�a humana
E a dor eu sinto a dor a dor � grande

E quando ela � grande, grande demais
� apenas sentimento e sensa��o
J� nem sei mais o porqu�
Apenas me sinto vivo outra vez

Pois se a dor � infinita
Eu tamb�m sou

Give me love
give me love
gimme love
gimmelo
gim
g

give me love give me love give me love give me love give me love
Eu imploro

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outubro 07, 2010

why are you doing this to me?
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outubro 04, 2010

Senhor, dai-me paz.
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outubro 03, 2010

Festival de Cinema do Rio de Janeiro: Luz nas Trevas, de Helena Ignez e Icaro C. Santos



"Luz", para os íntimos. Afinal, era como a hilariante locutora de "O bandido da luz vermelha" explicava para o público. Daí que o título desta continuação não é só pra dizer que existe salvação, mas que para alcançá-la, o protagonista vai ter que atravessar um inferno. Bem-vindo à visão de um brilhante homem doente, pesando sua mortalidade com quase sessenta anos, mais de três décadas depois de ter concatenado o maior clássico do udigrudi da Boca do Lixo ainda rapazola de vinte aninhos.

Mas Rogério Sganzerla não viveu o suficiente para por de pé este estimado projeto, e ele acabou na mão da starlet do longa original, a lendária musa do cinema marginal, Helena Ignez, sua viúva, que há dois Fest-Rios mostrou intensidade e talento fazendo de "A canção de Baal", com parquíssimo orçamento, quase uma viagem no tempo a anos mais cabeça. "Quase" porque longe de ser um fóssil, o filme tem uma linguagem atualizada e deixou o povo que adora o meliante com a lanterna encarnada cheio de água na boca. Afinal, com acesso a muito mais recursos do que o original, o roteiro de Sganzerla e uma diretora talentosa afinada com as ideias da trama, a fita ameaçava tornar-se referência de época como sua primeira parte.


Paulo Vilaça e a própria Helena Ignez no filme original

Sim, porque "O bandido da luz vermelha" é uma colagem vibrante e irresistível do final dos anos 60. Cheia de politização, revolução armada, revolução sexual, existencialismo, jovem guarda, bangue-bangue, filme de monstro japonês, rádio, tevê, cafonice, símbolos de status, a fita é como "Ulysses" ou "A divina comédia" uma viagem à sua época, um dos melhores retratos do Brasil em processo de urbanização e industrialização, cheio de vigor, originalidade, revolta e irreverência.

E é justamente essa irreverência que faz mais falta na continuação. A abertura com a marquise luminosa levou o blogueiro emocionado à beira da poltrona e deixou claro logo de cara o clima mais místico do longa: o anúncio avisava que o filme era um melodrama e seu protagonista era infinito. E, para explicitar ainda mais a diferença de tom, eis que entra o novo intérprete do marginal da lâmpada rubra, Ney Matogrosso, trazendo o primeiro problema da obra: ele está A-T-U-A-N-D-O. Inclusive está atuando bem, mas a cada aparição do ex-seco & molhado o público pode perceber todas as fibras do seu ser flexionando-se e contorcendo-se em agonia enquanto ele tenta demonstrar P-R-O-F-U-N-D-I-D-A-D-E e logo os espectadores começam a sentir falta do tranquilo desprezo agressivo e viril de Paulo Vilaça (será que Tarcísio Meira não toparia?).

Essa reverência na atuação de MT contagia boa parte da continuação, que vai aos poucos afundando-se em referências à sua alma mater, como o político populista, ou a viagem a Santos, ou o policial corrupto, sem contar, é claro, a marquise luminosa e os locutores de rádio. A televisão aparece muito pouco e não há referência à internet. Luz está reavaliando sua vida e o passeio é mais pelo passado emocional do personagem do que pela metrópole BRIC. O delinquente com a luminária escarlate da vez é o filho dele, protegido de São Jorge, que toma o caminho do crime para escapar da miséria, mas é muito menos angustiado e politizado do que o pai - sua relação com a prostituta/namorada da vez é muito mais saudável (como ele mesmo diz, ele faz tudo com amor, inclusive amor) e ele chega a prometer à moça, como os velhos malsinados caubóis ou gangsteres da velha Hollywood que apenas mais um trabalho e uma grana e ele larga essa vida.



É claro que quando você encontra na rua e começa a namorar uma prostituta com o visual e a personalidade da Djin Sganzerla você diz qualquer coisa pra ela. Não fosse a pontinha de Mojica Marins e ela não teria rivais na fita. A moça continua ótima atriz, sem esforço, com um jeitão irresistível e recomenda-se aos cardíacos que abandonem o recinto quando ela começar a tirar a roupa - ou mesmo dançar só de lingerie para o facínora com a lâmpada com o mais baixo comprimento de onda luminosa visível. Por falar em dançar, a trilha sonora do longa é tão irresistível quanto a Djin e ajuda a evocar o clima do original e a jornada sentimental de Luz nas trevas do presídio.

Justamente essa jornada e a ênfase na salvação de Jorge Prado, mais as constantes referências e a reverência pela fita original acabam roubando a produção do vigor daquela e ralentando o ritmo - alguns incidentes são altamente episódicos e parecem aparecer somente para homenagear a alma mater, como a invasão da casa do político. E um roteiro altamente estilizado como este pede a alta voltagem, por exemplo, de "A canção de Baal". Ou então dos últimos 15 minutos, quando finalmente montagem, atuações e trama decolam com a intensidade quase perfeita fazendo um final quase inesquecível - o herdeiro semialienado de Luz reinando no inferno, enquanto Jorge Prado se redime e se torna o somatório de toda a sua existência e explode num excelente aproveitamento do cantor-ator e estado do centro-oeste brasileiro. O blogueiro só não achou irretocável porque quando ouviu rotores de helicópteros atrás dele nas caixas surround, ficou esperando as aeronaves sobrevoando o protagonista no topo de um (provável) arranha-céu, com naves espaciais e afins cruzando os ares. Eu sei que isso é caro, mas não dava pra fazer uma computação gráfica meio picareta?

De qualquer forma, a sequência final é irresistível e deixa o público saindo do cinema eufórico. A diretora Helena Ignez foi musa de vários diretores e adolescentes, mas em vez de com a idade tentar tornar-se uma boneca de cera embotocada, mostra que aproveitou bem a vida e que ainda está numa excelente forma - como Prado, ela é orgulhosamente a soma de toda a sua existência. Seus filmes refletem sua sinceridade, seu talento, seu encanto e, mesmo que não tenha alcançado seu potencial nesta continuação, é mais por ter tentado medir-se com os gigantes. Como em seminários de autoajuda, ela visou as estrelas, falhou, e ainda assim fez uma fita interessante, cheia de qualidades e acima da média.

Oração

Perdoe-me, Pai, pois eu cometi atos... questionáveis... muito amor prometi a mulheres apenas para tê-las a meu lado. Muitas levei a mostras de filmes... de livros... restaurantes caros e lojas caras e as afoguei num mar de citações, pois esqueci que mesmo sabendo a língua dos Anjos, sem amor eu nada seria. Mesmo em presença delas, desejei outras e na realidade nenhuma desejava, pois da minha vida em meio à jornada, achei-me em selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada. Escolhi os líderes errados e segui Verdades tão confusas quanto eu. Odiei os que me queriam bem por serem felizes e não me fazerem feliz e chamei de invejosos àqueles que não se curvaram aos meus caprichos. Fomentei o desprezo por todos os atos de piedade e compreensão para que eu não tivesse que me apiedar ou compreender os outros. Eu pequei, Pai, reneguei tudo em que acreditava - por dinheiro, poder e sexo, eu menti, enganei e trapaceei - e, em minha mesquinhez chamei meus pecados de maturidade... e êxito. Perdoa, Pai, este teu filho tão cruel, egoísta e covarde que nem mesmo perder-se conseguiu. Perdoa-me por, com tudo que me deste, não Te agradar nem desagradar. Perdoa-me por aceitar que outros se penitenciassem por mim. Que outras o fizessem... Perdoa-me por nunca ter-lhes dito o quanto as amava... o quanto...

Senhor, abençoai os mesquinhos e os egoístas, pois eles também queriam muito poder Vos amar...

outubro 02, 2010

O Interrogatório

Acenda o refletor em meu rosto
Até que eu fique cego com a luz brilhante
Amarre minhas mãos à cadeira para que eu não possa reagir
E então extraia de mim toda a minha verdade

Esbofeteie-me se eu resistir
Acerte meu estômago se eu omitir
Pressione-me, aperte-me, pergunte-me
Até eu delatar quem eu sou realmente

Jogue água em meu rosto se eu dormir
Não me deixe hesitar, vacilar ou mentir
Até eu confessar todos os pecados que cometi

Vem, Vida, violenta e brutal
Extrair de mim minha grande e derradeira confissão
Que eu vivo - Réu confesso

(Texto final da minha peça A ARTE, OS AMIGOS, A MORTE E AS MULHERES, ganhadora do concurso da FUNARTE de 1995)