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maio 04, 2012

Minha Viagem Sentimental por Minhas Câmeras - A Olympus Trip 35



Anteriormente: a Xereta

Numa época em que fotografia era um hobby caríssimo e câmeras um aparelho que exigia certo conhecimento do metiê (sic), a Xereta era um brinquedo com o qual você hesitava bastante pra brincar. O filme custava grana, o flash custava grana, a revelação custava grana e a lente escura usando película pouco sensível significava que havia pouca chance de se conseguir uma chapa decente fora de exteriores ensolarados. Ainda assim, a lente pobre (talvez de plástico) e o pequeno tamanho do quadro produziam imagens pobres e granuladas. Tirando uma lembrança de uma viagem ou algo do gênero, havia pouca utilidade no produto da Kodak, principalmente pra crianças. O blogueiro começou a perder interesse nela quando, numa das poucas vezes em que teve grana pra gastar num filme (de 12 poses), na revelação só três saíram.

Uma foto com a Xereta. Mesmo nas condições ideais, exterior ensolarado e a favor do Sol, não consigo divisar as feições de meu pai. O canhão em primeiro plano nesta fotografia clássica num ponto turístico de Cabo Frio está mais nítido por estar em melhor foco, embora o escaneamento não mostre (a imagem ameaçou rasgar e tive que escanear do álbum mesmo, sem que a página ficasse totalmente plana)

Aproveitando que seus pais haviam aberto uma loja, aumentando a renda familiar até então limitada à microempreiteira de marcenaria de meu pai, o blogueiro começou a desejar um objeto de consumo então em voga entre vários de seus amigos: a Olympus Trip 35. Ela – milagre! - nunca perdia uma foto por falta de luz porque tinha um fotômetro incluso que avisava quando estava escuro. Ainda por cima, tinha uma sapata para flash de verdade (1): eu poderia usar um que não fosse descartável, quantas vezes quisesse em interiores. É bem verdade esses eram bem caros até o final dos anos 70 (custavam mais do que uma Xereta, por exemplo), mas o meu pai já tinha um!

Mesmo com toda a relativa bonança financeira de minha família, o preço da Olympus Trip ainda era salgado pros meus pais – provavelmente equivalente hoje a uns 350 a 500 reais. E a minha acabou vindo do Paraguay, já que os primos Cabral e Janete iam lá fazer um contrabandinho básico e trouxeram uma pra gente. E foi assim que obtive minha primeira câmera 35 mm.
 A tradição manda que a primeira foto que você bata com uma câmera nova seja de você em frente a um espelho (4). Eu saí fora de foco porque esqueci que o espelho dobra a distância. Mantive a tradição até minha penúltima câmera. Esqueci de fazê-lo com a minha nova Sony digital

A Olympus era a coisa mais parecida com as point-and-shoot digitais de hoje em dia. Um anel envidraçado em torno da objetiva incluía um fotômetro de selênio aparentemente enorme. Grande o suficiente pra gerar sua própria energia e dispensar bateria. Quando você punha o sistema em automático, ele decidia a abertura (de excelentes 2.8 a 22) e a velocidade (de aceitáveis 1/40 a 1/200). Se não houvesse luz suficiente na cena, o disparador travava e uma lingueta vermelha subia no visor ótico direto.

Minha Olympus Trip 35, viva até hoje. Veja o amplo fotômetro de selênio em volta da lente. Ainda tenho a tampa da lente e a bolsa originais. Veja a sapata para o flash bem em cima da lente, na parte superior da máquina, e o visor direto, à direita

Os controles eram apenas 3, sendo que dois deles eram mudados raramente. O primeiro era o ajuste de sensibilidade do filme, a antiga ASA e atual ISO, medida presente até nas digitais. Num anel em cima do fotômetro, você escolhia entre 25, 64, 100, 125, 200 e 400 ASA, mais do que suficiente prum fotógrafo amador portando uma não-reflex. Abaixo ou acima disso só alguns profissionais. Mesmo 200 ASA era difícil de achar na época e os dois primeiros, só pra slide (e alguns preto-e-branco). Apesar de ser uma regulagem obrigatória, uma vez carregada a película, você não mexia mais nela
Os controles da Olympus

O segundo controle era mais perto do corpo. Rodando o anel do diafragma pra "A", você ajustava pra exposição automática, como explicado acima. Mas havia também o sistema manual, com incrementos de 1 stop de 2.8 a 22. A velocidade fixava em 1/40, porque, a princípio, você só faria esses ajustes pra fotos com flash. Não era uma regulagem que causasse problemas - se você tentasse bater uma foto em ambiente escuro sem flash, a lingueta vermelha iria aparecer e você lembraria de ajustar a abertura. O trabalho era facilitado porque todos os flashes de antigamente vinham com uma tabelinha indicando qual f/stop usar dependendo da distância: 2.8 pra 5 metros, 4 pra 4,5, 5.6 pra 3 e assim por diante (embora alguns, como o do meu pai, que era maior do que a câmera, prometessem iluminar até mais de 10 metros (2)).

O último controle era o único que precisava ser feito em toda foto: o ajuste de foco. Sem visor reflex, não havia telêmetro, então o fotógrafo precisava calcular no olho se o objeto a ser focalizado estava a 1 metro, 1 metro e meio, 3 metros ou mais. Não era tão difícil assim. Pros esquecidos, o visor ótico da bichinha tinha uma janelinha embaixo que mostrava os controles de abertura e de foco. O usuário da Trip rapidamente se acostumava a checá-los antes de apertar o disparador.

Os controles da câmera: 1 - ajuste de sensibilidade do filme (regulado para 200, pois é o ISO da película atualmente dentro dela, já que filme 100 ASA é difícil de encontrar); 2 - ajuste de foco (em ícones: um busto de bonequinho era pra 1 metro; 1 busto de bonequinho próximo e outro bonequinho atrás era pra 1 metro e meio; dois bonequinhos inteiros com um minibonequinho entre eles (supostamente uma criança) era pra 3 metros; montanhas era pra infinito. Em caso de dúvida, você podia ver do lado de baixo as marcações em metros e pés; 3 - ajuste de abertura, configurado para o modo automático "A"; se você clicar pra ampliar, vai poder ver claramente os primeiros números f: 2.8, 4, 5.6... 4 - a janelinha no visor que lhe permitia ter uma visão direta das regulagens de foco e abertura

O filme não era em cartucho. Para carregá-lo você tinha que fazer os orifícios nos lados da película encaixarem em engrenagens de transporte e fixar a ponta livre no carretel. Felizmente tanto o carretel quanto as engrenagens da Trip eram soberbamente desenhados e nunca perdi um filme por ele ter se soltado (acontecimento relativamente comum porque duros como eu sempre prendiam só a pontinha do filme e avançavam no máximo uma foto antes de fechar a câmera pra ganhar mais 2 ou 3 poses). Depois de carregada a câmera e ajustada a sensibilidade, era só fazer aquele foco básico e sair fotografando - e avançando a película girando um botão na traseira.

A primeira coisa que fez valer a pena ter comprado a Olympus foi o aproveitamento. O primeiro filme de 12 poses rendeu 11, o que era impensável na época da Xereta. Mas essa consideração passou a ser secundária ao se ver a impressionante nitidez das fotos. Mesmo a câmera SLR do meu pai não tirava fotos tão impressionante nítidas e com um alcance dinâmico tão agradável. Não era só o formato maior do 35 mm, portanto. Somente anos mais tarde eu saberia, mas a Trip 35 tinha uma lente de primeiríssima qualidade, capaz de se ombrear com qualquer SLR de sua época.
O agradável tom de cinza com algo de sépia que somente os filmes analógicos com prata podiam proporcionar. Esta foto manteve-os na digitalização porque foi escaneada a cores (ao contrário da maioria das outras aqui postadas). É este o efeito que os Instagrams da vida e seus congêneres buscam imitar. O modelo é o Fábio, o irmão do Marquinhos PCVU falso primo.

A lente, pelo que dizem hoje os saites de fotografia, era uma cópia da lendária Tessar de 4 elementos. Fabricada no Japão como a Zuiko 2.8, ela tinha uma distância focal de 40 mm, a meio caminho entre uma grande angular e uma normal. Ou seja, era um compromisso entre enquadrar um grupo de pessoas próximas ao fotógrafo e manter a perspectiva sem distorção o suficiente pra soberbos retratos de gente.

Uma covardia: comparar a Xereta com a Trip 35. Duas viagens pra Região dos Lagos. Acima, a casa onde ficamos em Araruama, em 1977. A favor da Xereta, diga-se que a foto foi aparentemente batida contra o sol. Mas isso não importa muito, já que ela tinha abertura e velocidade fixas e não existe coisa como "contraluz" nesse contexto. Abaixo, a casa onde ficamos em Cabo Frio em 1978, pelas lentes da Olympus Trip. A nitidez, o contraste, os tons de cinza são muito melhores e ricos do que na Instamatic da Kodak. Clicando nas fotos, você pode ampliá-las e ver o salto quântico na imagem de uma pra outra

A lente era multicoated, o que significava que as cores eram suaves e naturais - nada da saturação cheia de aberração das lentes simples da Xereta. Na verdade, ao ver as primeiras fotos da Olympus eu fiquei quase chocado. Nunca tendo comprado uma caríssima SLR de ponta na era analógica, posso dizer que de todas as câmeras de filme que tive, a Olympus era sem uma sombra (que ela registraria com precisão e beleza) de dúvida sequer a que produzia as melhores imagens.

Chegando às minhas mãos em 1978, o mesmo ano da minha puberdade, era inevitável que o maior controle sobre as fotos e as inevitáveis veleidades artísticas dos adolescentes se chocassem com aquelas lindas fotos pra me fazer interessar pelo assunto. Junte-se a isso dois acontecimentos quase simultâneos: o lançamento da coleção FOTOGRAFIA pela Rio Gráfica Editora, em fascículos, nas bancas, e a chegada da promoção revele 1 filme ganhe 1 filme da Curt.

Uma foto colorida de uma lâmpada lá em casa. Lâmpadas davam fotos diferentes, por isso comecei a tirá-las, mas o spot desfocou um pouco por estar a menos de 1 metro. A cor alaranjada é por usar filme daylight em luz de tungstênio

A coleção FOTOGRAFIA começou a me fazer crescer o olho pela câmera SLR totalmente manual do meu pai. E a Curt barateou a foto de tal modo que usei a Trip com uma frequência muito maior do que a Xereta (ajudado pela bonança financeira da família). O segredo da Curt era a automatização dos laboratórios. Até o final dos anos 70, você ia a uma papelaria ou lugar onde vendesse filme e deixava pra revelar. Um boy sem moto passava lá uma ou duas vezes por semana, pegava as encomendas e levava para um laboratório onde um sujeito revelava as fotos e as ampliava, manualmente, assim que pudesse. Normalmente dava tempo pro boy sem moto levar na próxima viagem àquele local e uma revelação, dependendo do dia em que você entregava sua película, podia levar de 3 dias a uma semana.

No entanto, na década de 70, foram desenvolvidas aquelas máquinas automáticas de revelação. A Curt obviamente não tinha uma em cada ponto de venda, já que na época eram caríssimas, mas mandava no mesmo dia pra uma e recebia no dia seguinte. Esse era o primeiro chamariz dela: revelação em um dia. E o outro era que, revelando um filme colorido, você recebia outro grátis.

Usando laboratórios automáticos, a Curt podia oferecer isso tudo sem ser particularmente mais cara que a média das outras revelações (por serem vários sujeitos revelando manualmente, os preços variavam bastante). Foi aí que o mundo começou a ficar colorido. Até então, o filme preto e branco, mais barato na compra e muito mais ainda na revelação (3). A Curt também vendia películas fabricadas sei lá por quem e com sua própria marca pra baratear a coisa. Além de liquidações de filmes vencidos. Em poucos anos o filme monocromático só seria encontrado em lojas especializadas em fotografia profissional e, ironia das ironias, sua revelação seria mais cara e mais difícil do que a colorida, por continuar sendo manual.

Tenho muito mais fotos tiradas com a Trip do que com a Xereta, mesmo só a tendo usado por pouco mais de dois anos. Eu podia tirar fotos dentro de casa, mesmo sem flash, confiando em seu fotômetro. Eu podia tirar fotos ao ar livre. Podia tirar fotos de paisagens sabendo que elas sairiam belas e impressionantes. Eu podia confiar na sua magnífica lente Zuiko de 4 elementos. E podia confiar na sua construção de metal. Tanto que a tenho até hoje e estou saindo com minha prima pra tirarmos fotos com filmes (até agora tem sido engraçado ver como ela fica nervosa pra bater a foto - não sabe como vai sair e custa dinheiro, não dá pra bater várias). Postarei os resultados assim que terminarmos as fotos e as revelarmos.



A qualidade das fotos e as leituras sobre fotografia me encorajaram a tentar enfoques artísticos. Logo aprendi a fazer duplas exposições na câmera. Embora o disparador travasse se você não avançava o filme, observei que a manivela de rebobinamento dava uma volta completa ao avançar pra próxima pose. E raciocinei que, apertando o botão que soltava a engrenagem pra você poder rebobinar a película ao final, enquanto avançasse o filme, eu estaria avançando-o em falso. Deu certo. Em pouco tempo estava fazendo quíntuplas e décuplas exposições. Nenhuma memorável, mas pelo menos eram diferentes. Também aprendi a tirar fotos enigmáticas com uma fonte forte de luz. Tentei fazer só uma silhueta com o Playmobil que acompanha esta postagem, mas não deu certo. Não achei as melhores fotos nem as duplas exposições agora, só peguei um álbum e tirei todas essas fotos de lá, mas prometo que, se achar, eu escaneio e ponho aqui.

Quadros de meu pai fotografados em 1978. A pintura moderna é minha, feita quando eu tinha 7 anos por não ter muita capacidade pra desenhar na época, mas foi praticamente toda refeita pelo meu pai, também. O toque "artístico" era a flor por baixo da moderna, significando como o progresso estava destruindo a natureza. Por favor, gente, eu tinha 13 anos!!!!

Com essas brincadeiras todas, em pouco tempo comecei a desejar uma câmera com maior controle manual. Inicialmente, pegava emprestado às vezes a SLR do meu pai. Completamente manual, sem fotômetro, com uma lente de 50 mm 2.8-22 (sem chegar perto da qualidade da Zuiko e acho que até com um funguinho de estimação) e outra de 200 mm. Uma das primeiras vezes em que a usei foi pra fotografar o papa. Ele fez seu discurso em 1980 no Aterro e eu pedalei até lá, escolhi o Outeiro da Glória como bom ponto de observação e, com um filme de 400 ASA, uma tele de 200 e com exposições de 1 segundo ou mais apoiadas na mureta do caminho até a igreja, tirei várias fotos (que postarei no capítulo sobre a Exa IIA). A sensação de liberdade - eu, sozinho, com 14 anos, indo até lá na minha Caloi Sprint 10, com um equipamento fotográfico de adulto, à noite, trabalhando quase como um fotojornalista - era maravilhosa e até hoje sua recordação traz um sentimento agradável a este maduro corpo.

Uma foto do meu quarto, com quatro aparelhos vintage numa das prateleiras: um gravador cassete mono e portátil Transicorder, um radinho de pilha e um projetor super-8 de plástico, que durou até a lente quebrar e pro qual eu só tinha 2 filmes PB - um desenho do Pernalonga e um clipe de Abott e Costello meet Frankenstein. Ambos me deixavam impressionados com a qualidade da imagem frente à tevê da época. Clique pra ampliar e repare na quarta engenhoca ali presente: a caixa da Xereta, embaixo do rádio!

Eu comecei a precisar de mais do que a Trip podia me oferecer - não em qualidade de imagem, mas em controle sobre a máquina. Ao mesmo tempo, meu pai já não tinha mais tanto interesse em fotografia. Ele tinha também o hábito de fotografar os móveis que fazia com sua firma de marcenaria e descobriu que a Olympus, com sua distância focal menor, tinha mais facilidade em enquadrá-los dentro de apartamentos. Além de bater fotos mais bonitas, é claro. Como naquela época era inimaginável ter duas câmeras, uma pra fotografias artísticas e outra pra instantâneos (pelo menos não uma pra instantâneos tão boa e cara quanto a Trip), nós as trocamos. Eu ficaria com a SLR e ele com a valente japonesa. E foi aí que comecei realmente minha jornada sem volta pelo mundo da fotografia.

Uma foto com flash do meu quarto. Repare em outro aparelho vintage, a Philco Amazonas, a primeira tevê portátil transistorizada do Brasil, com sua pujante tela de 12 polegadas. Mas em 1978 era um luxo você ter sua própria tevê no quarto.

Depois que abrimos uma loja maior e meu pai acabou largando sua marcenaria, ele encostou a Trip. A família não precisava de dois fotógrafos e eu estava muito mais entusiasmado do que ele (ele tinha sido um tremendo fotógrafo; excelente desenhista, tinha um olho brilhante pra composição, como pode ser conferido nas minhas fotos e slides de criança; certa feita montei uma historinha de aventuras em slides com uma narração dublada que funcionava perfeitamente, graças aos belos enquadramentos cinematográficos que o seu Luiz usava). Minha irmã começou a usá-la no meio dos anos 80, mas sempre achou-a "complicada", tendo dificuldades até pra carregar o filme. Ela ficou guardada e, valente e metálica como só ela, sobreviveu até minha mãe me dar alguns anos depois que me mudei. Tentei dispará-la, mas ela parecia não funcionar, então usei-a algum tempo apenas como enfeite de estante. Até que um dia apertei o disparador até o fim e - voalá (sic) - ela pareceu estar operando perfeitamente!

Então, assim que acabar com o filme de 200 ASA momentaneamente nela, prometo postar as fotos. E, em breve, meu ingresso no mundo maravilhoso das câmeras reflex manuais com a Exa II A de meu pai. E se você tem interesse em máquinas analógicas, seja por ser diferente, seja por criar imagens diferentes daquelas digitais, a Olympus é uma ótima e barata opção - você pode comprar uma em praticamente qualquer brechó ou feira de antiguidades por menos de 50 reais. Afinal de contas foram vendidas mais de DEZ MILHÕES DE UNIDADES num tempo em que esses aparelhos eram muito menos ubíquos do que hoje em dia. E uma vez adquirida, ela irá ser em troca uma companheira confiável e valente pra fotografia em 35 mm.

Veja mais do que a Trip 35 póde fazer ainda hoje em dia aqui, aqui e aqui.

(1) Curiosamente, outro dia, procurando fotos pra escanear, encontrei em meio aos meus apetrechos fotográficos um adaptador para usar um flash de verdade na Xereta. Não sei de onde ele saiu, pois tenho absoluta certeza que nunca o usei na minha. Talvez tenha emprestado pra Cláudia, a quem dei de presente de aniversário uma Instamatic, mas a que usava filme 126, não 110.

(2) Na verdade, o flash de meu pai era tão potente que o vidro em frente à lâmpada era fosco e almofadado. A luz assim era difundida e raramente apresentava aquela iluminação dura e chapada dos pequenos flashes de hoje em dia, acentuando rugas e linhas do rosto. E ainda assim tinha um alcance enorme. Mas como há sempre um "em compensação", ele devorava pilhas - 4, pequenas, duravam pouco - e demorava entre 20 segundos e mais de 1 minuto pra recarregar, fazendo um típico assobio durante o processo pra avisar ao fotógrafo - mais um dos charmes do hobby ou profissão que a garotada de hoje não tem.

(3) Até mesmo meu tio tinha um quarto escuro pra revelar fotos preto-e-branco em casa - ampliar era um pouco mais complicado, mas exequível. Laboratórios coloridos caseiros eram muito mais exigentes e caros. Pra se ter ideia, a temperatura não podia variar mais do que entre 22 e 24 graus centígrados, segundo a coleção FOTOGRAFIA da Rio Gráfica Editora.

(4) Parece que Jaclyn Smith, a atriz morena de AS PANTERAS (a série) conhecia a tradição. O que ela parece estar segurando (e batendo a foto com) é a Olympus Pen, antecessora da Trip 35. E abaixo parece ser uma Pentax SLR. Ela curtia fotografia e ficar pelada pelo jeito. Era das minhas!!!


Na hora em que eu fechava essa postagem, surgiu essa foto de supostamente Carolina Dieckmann na rede. Hoje em dia mulher batendo foto de si mesma nua no espelho não tem mais o mesmo apelo da era do filme (que o diga Scarlet Johansson), mas pelo menos não é um telefone que está batendo a foto. Um amigo disse que essa imagem não parece ser realmente da Carolina, já que não aparece a pinta no peito esquerdo, mas ele esquece que espelhos invertem lados e ela é visível, embora meio escondida, no seio direito da moça, entre o cabelo, a sombra e a alça da máquina. Pra efeitos de comparação, abaixo uma foto em que o rosto (e a pinta) dela aparece(m).




março 12, 2012

Xereta, Xereta, Xereta!!!!

Todo mundo sempre gostou de fotos. O problema é que antigamente você tinha que comprar uma câmera cara, filme e ainda pagar a revelação. Como meu pai me disse quando eu tinha uns 7, 8 anos, “fotografia é um hobby muito caro”. Até os flashes eram caros, o que propiciou o surgimento do magicubo. Quando tento explicar pra nova geração o que era isso eles arregalam os olhos em pura incredulidade, mas já, já, chego lá. Voltemos às câmeras. Ainda por cima elas eram pesadas, grandes e complicadas de usar. O candidato a fotógrafo precisava saber o que significavam palavras como “diafragma”, “distância focal” e “profundidade de campo”. O termo “velocidade”, então, era uma covardia contra o povo que, em sua maioria, até hoje ainda fica dando espaços pra centralizar textos em computador. Tinha a velocidade do obturador, do filme e da lente, e cada uma tinha um significado diferente.

Levando-se em conta que, uma vez que você tenha um computador e uma câmera digital, que hoje em dia vem em qualquer telefone e MP3, o seu gasto com fotos é zero. Os chatos luditas, aquele mesmo povo que dizia que a câmera digital jamais substituiria a de filme (o Zé, por exemplo, indignava-se quando eu dizia isso e atualmente carrega pra todo lado sua point-and-shoot pra nunca perder a oportunidade de uma boa fotografia), adoram criticar essa geração que clica tudo e filma tudo. Mas na boa, se formos raciocinar sensatamente, muito mais fanática éramos nós, que queimávamos uma grana preta pela chance de ter uma imagenzinha. Sim, apenas pela chance, porque não se via na hora como tinha ficado a foto e ela podia ter queimado, tremido, ou borrado além de qualquer reconhecimento.

Também se fala que a qualidade das câmeras digitais é inferior à de filmes. Hoje em dia este é um ponto extremamente discutível, mas mesmo assim, pra maioria das pessoas, que não tinha grana pra comprar um corpo Leica, lentes Zeiss e trabalhar com slides, as imagens obtidas não chegavam aos pés do que seu celular pode fazer. Sim, slides, pois negativos precisavam ser ampliados, o que basicamente era uma foto de uma foto, o que piorava o resultado final.

Mas foi um longo caminho chegar até essas maquininhas maravilhosas que proporcionam montes de diversão pra tanta gente – e, explicavelmente, quando o povão consegue mais meios de se divertir, aquela turma mais elitista sempre fica irritada que as coisas eram muito melhores antigamente etc etc. E, mesmo que isso não tenha nenhum interesse pra você, leitor do blogue, vou começar minha jornada sentimental pelo mundo da fotografia. Começando pela minha primeira máquina. A Xereta. Uma grande campanha de marquetingue, um novo formato de filme facilitando o uso de câmeras e o inacreditável magicubo tornaram-se tão icônicas que a palavra “xereta” até pelo menos recentemente ainda era usada pra denominar as câmeras mais simples e portáteis.

Como eu expliquei anteriormente, as câmeras eram difíceis de usar, caras, grandes e pesadas. Até que nos anos 1960, a Kodak, pra alavancar a venda de filmes, assim como fizera no início do século com a sua Brownie, lançou a linha Instamatic. Eram câmeras de plástico, com visor direto, sem espelho, foco fixo e angular e, pra facilitar as coisas ainda mais, o filme vinha dentro de um cartucho. Assim, não era preciso nem o trabalho de carregar a película (1). Bastava encaixar o cartucho dentro da máquina e pronto.

Pra baratear a coisa ainda mais, a Kodak criou o filme 110 no começo dos anos 70. Ele era consideravelmente menor que o filme de cartucho anterior, o 126, o que permitia câmeras ainda menores. Assim surgiu a Xereta, ou a Instamatic 101. Seu tamanho, tão pequeno quanto o preço, era irresistível pra crianças. E foi assim que pedi uma de Natal quando tinha 9 anos.

O cartucho de filme 110. As câmeras de 35 mm tinham uma mola que pressionava uma chapa contra as costas do filme pra mantê-lo plano. Já o 110 dispunha apenas da boa vontade do cartucho para isso, o que piorava ainda mais a qualidade que podia ser obtida a partir de um negativo tão pequeno.

Repare na janela que avisava em que foto o rolo estava ou que era necessário avançar o filme.

ando como uma câmera miniatura podia flagrar as situações mais engraças aumentaram ainda mais minha vontade de ter uma. E fotografia, como já disse antes, é uma tremenda diversão. Sermos seres basicamente visuais, ao invés da dependência do olfato de quase todos os outros, é um dos motivos que nos fez racionais. Então, a vontade de guardar imagens é intuitiva e instintiva entre nós! E eu nunca saberia usar aquela reflex do meu pai, com suas lentes de trocar, inúmeros controles e botões e até mesmo um outro troço que você tinha que apontar antes de bater o retrato. Só olhar por aquele visor escuro e dividido com o que me parecia uma alça de mira já me parecia complicado.

Mas a Xereta. Ah, a Xereta. Seu visor direto não tinha marca nenhuma. Minto, tinha umas marquinhas pra corrigir a paralaxe em fotos próximas, já que o visor não via exatamente o mesmo que a lente. Isto até eu podia entender. Só tinha dois ajustes: dia de sol e dia nublado. E uma janelinha na traseira me avisava quantas fotos eu já tinha tirado. Era apertar o disparador, empurrar um controle deslizante embaixo pra avançar o filme (enquanto tivesse setinhas na janelinha) até o próximo número. E pronto.

A minúscula lente da Xereta e o visor direto. Em cima dela, os dois círculos são o disparador e a sapata para o magicubo. A chave é um ajuste para o diafragma de duas posições: sol e nublado.

Obviamente, com um negativo tão pequeno, uma lente tão limitada e sem a mola traseira, a foto não tinha muita qualidade. Devido ao cartucho, o 110 era mais caro do que o 135. Uma vez eu consegui comprar um filme de slides, mas a lente escura fez eu queimá-lo todo por usá-lo em tarde nublada.

A Xereta e seu kit: um filme colorido de 12 fotos, um magicubo, uma pulseira. Falta nesse estojo o extensor do flash, que pode ser visto abaixo. Teoricamente, o extensor deveria evitar o brilho vermelho nos olhos dos fotografados, mas na prática não funcionava. Até hoje consigo me lembrar do cheiro dessa caixinha.

Aliás, a quantidade de fotos perdidas me irritava profundamente. Lembro de ter tirado uma na Floresta da Tijuca que se perdeu porque estava na sombra, apesar de ser um dia claríssimo. E isso porque era filme preto e branco, com mais latitude do que o colorido. Na minha cabeça, eu queimava essas fotografias porque não tinha flash. E não tinha flash porque ele também era caro. Era descartável.

O magicubo, que deixa a garotada de hoje tão surpresa, era um cubo (dã) com um encaixe embaixo e uma tampa em cima. As outras quatro faces eram lâmpadas disparadas mecanicamente, usando fulminato de mercúrio como praimer. Se um garoto de 10 anos já tinha dificuldade pra comprar filmes (que eram muito caros na época), somar a isso ainda esses magicubos que eram mais caros que a película tornavam a fotografia um hobby muito caro. O que me levava a usar a câmera muito pouco.



O magicubo é o da esquerda, o da direita é seu antecessor, o flashcubo. O magicubo não precisava de eletricidade. Quando você apertava o disparador, uma lingueta subia da câmera e se introduzia entre aquelas fendas na base do cubo e liberava uma mola que batia num fulminato e ativava a lâmpada. Ao avançar o filme, o cubo girava automaticamente pra próxima face.



E, quando a usava, o resultado era ao nível disso aí embaixo. Imagens sem nitidez e granuladas. O único filme colorido que usei foi o que veio no estojo com a máquina. As cores eram puxadas para o magenta e borradas. O sistema ótico era muito primitivo pra coisa melhor, mas qual o moleque que realmente se importava com isso quando a alternativa era aprender a usar uma reflex?

Eu comecei a ficar cada vez mais obcecado em arrumar uma maneira de usar um flash de verdade na Xereta. Eu achava que com ele não perderia mais fotos (certa vez, de 12 poses só consegui 3). E embora flashes de verdades fossem caríssimos, quase o preço de uma câmera, meu pai já tinha um. Vi anúncios de adaptadores de magicubos para flash, mas nunca consegui achar o produto.




Até que descobri que câmeras como a Olympus Trip já vinham com fotômetros. Elas mediam a luz e diziam se a foto ia sair ou não. Inacreditável! Não tinha como perder filme à toa assim! Era uma dessas que eu queria. Mas as Olympus eram muito caras. Mesmo meus pais já tendo melhorado de vida nos 4 anos que separaram as duas máquinas, o preço ainda era um tanto salgado e um primo é que trouxe a minha do... Paraguay! O que só mostra como somos preconceituosos – a bichinha está comigo até hoje e ainda funciona. E vai ser o assunto do próximo capítulo.

(1) Pensa que carregar o filme era uma tarefa que qualquer idiota podia fazer? Antes de uma viagem no final dos anos 80, início dos anos 90, minha irmã comprou um filme pra sua câmera automática, mas não sabia como carregá-lo. Eu me ofereci pra fazê-lo, mas ela achou melhor que o cara da loja o fizesse. Ele olhou pra câmera, pro filme, com uma cara de quem não sabia se cortava o fio azul ou o vermelho, botou ele dentor da máquina e fechou a tampa. O filme ficou solto e minha irmã não iria bater nenhuma foto se eu não tivesse visto e consertado.


novembro 10, 2010

Biscoitos Globo



Encontrei numa padaria na cidade esses biscoitos Globo embalados em plástico. Pensei que fosse uma contrafação, mas o vendedor me explicou que a produção distribuída em padarias e afins vai em plástico mesmo por ser mais barato e prático. Como em praia o pessoal é meio bárbaro mesmo e deixa tudo jogado pela areia, eles ensacam com papel porque é biodegradável - papel é orgânico e se decompõe relativamente rápido. Maneiro, não?

novembro 07, 2010

Coral e Scala

Outro dia fiz uma conta e descobri que cerca de 40 cinemas de rua aos quais me lembro ter ido já viraram saudade. Esta série é pra relembrar essas salas tombadas no cumprimento do dever...



Eram dois cinemas na Praia de Botafogo. Embora tenham aberto como cinemas chiques, decaíram rapidamente - provavelmente o fato de ficarem embaixo de um favelão tenha contribuído pra isso. O Edifício Coral (1), construído sobre a antiga casa do dr. Miguel Couto, foi originariamente pensado como prédio comercial, mas durante a construção decidiram que seria misto e, apesar de agora estar bem mais arrumadinho, durante anos foi um pardieiro.

O Coral/Scala foi aberto em 1965, onde hoje é o Arteplex, mas quando me mudei pra Marquês de Olinda, no meio dos anos 70, ele - pelo menos um deles - já passou um verão fazendo um festival com dois filmes por dia e depois dois por semana. Na foto ele ainda está no auge do vigor, mostrando um dos grandes blockbusters da época, O PODEROSO CHEFÃO PARTE 2. Lembro que ele tinha sessões às onze horas pra atender ao público sequioso que lotava as parcas sessões diárias (somando os trailers e telejornal, acho que o curta ainda não era obrigatório, era por volta de quatro horas sentado na cadeira).

Note que embaixo da marquise havia espaço para um cartaz pintado com o longa da semana. Em alguns lançamentos de ponta, a marquise seria também coberta por uma enorme pintura. Pra se ter uma ideia de como a década de 70 era estranha, um dos sucessos de bilheteria que mereceram esse tratamento foi um filme com o Burt Reynolds, em que se pôs um outdoor, com ele recortado abrindo a camisa e mostrando seu supostamente irresistível peito cabeludo. Mais ou menos na mesma época, o seriado KOJAK fez tal estardalhaço na tevê que desencavaram uma produção televisiva com o Telly Savalas (aquela em que ele tinha que invadir Spandau, sequestrar o Hess, fazê-lo contar onde estava o tesouro, devolvê-lo e ir pegar a grana) e, em vez do nome do longa, tinha só TELLY SAVALAS em letras garrafais e, embaixo, onde deveria estar o elenco, estava escrito KOJAK.

Os cinemas tinham aquela mesma longa entrada que o Arteplex, só que o chão era quadriculado em preto e branco, e havia duas fileiras de cartazes (que na época ainda mostravam fotos), além daqueles pregados em caixas de vidro nas paredes. À medida em que ia se aproximando a data do lançamento da fita, seu cartaz ia se aproximando da entrada, em fila ordeira, embora vez por outra quebrada por uma estreia de emergência. Eu adorava caminhar até o fim do corredor pra me inteirar do que me esperava nas telas, antes de coisas como revistas importadas sobre cinema nos jornaleiros e Internet.

Nos anos 70, antes da invenção do videocassete, a única chance de ver clássicos sem depender da vontade do programador da tevê era em reapresentações, e mesmo cinemas comerciais não tinham pudores em passar filmes em preto e branco. No Coral/Scala vi (com certeza, fora os que esqueci) Uma Noite em Casablanca, Uma Noite na Ópera, Marcelino Pão e Vinho, La Violetera, As Férias do sr. Hulot, King Kong, O Satânico dr. No, A Noviça Rebelde. Não vi na época por não ter idade o festival Hitchcock, mas vi o Festival Jerry Lewis e descobri que já não gostava mais tanto do comediante americano. O primeiro longa que me lembro de ter visto lá com certeza foi A GUERRA DAS FORMIGUINHAS, um desenho em que, ao que me recordo, uma formiguinha problemática que gostava de Batman salvava todas elas.

Lá também assisti a um lançamento obscuro que ficou duas semanas em cartaz (na época quase nada, filmes como Guerra nas Estrelas podiam ocupar uma sala por mais de seis meses) e acabou virando um marco fundamental da cultura pop contemporânea, MONTY PYTHON (na época ainda sem o adendo E O CÁLICE SAGRADO). E, no começo dos anos 80, num festival de musicais contemporâneos, assisti em uma semana a WOODSTOCK, TOMMY, HAIR, FAMA e ALL THAT JAZZ (fechando a programação tinha O FANTASMA DO PARAÍSO, o único que pulei, de Brian de Palma). Curiosamente descobri depois que vários amigos que conheci na faculdade tempos depois também perderam suas virgindades para esses clássicos do rock no mesmo festival E NA MESMA SESSÃO, a de oito horas. Eu, Suzy, Roger e Ivan estávamos em Woodstock, e os três primeiros também em TOMMY.

Mas esses constantes festivais de reapresentações podiam ser ótimos pra mim, que morava ali do lado, mas eram já sinal de que aqueles cinemas já não eram de ponta. O último grande lançamento que me lembro que passou lá foi O ESPIÃO QUE ME AMAVA (ah, também vi vários 007 num festival James Bond que teve neles), depois eles passaram a exibir estreias com expectativas medianas de público, como OS BANDIDOS DO TEMPO, um dos últimos longas do qual esperava alguma coisa que assisti em suas salas. Logo depois houve a explosão do filme pornográfico, graças à liminar que garantiu o lançamento de CALÍGULA e que virou o caminho fácil pra liberar todos os pornôs, e aquela dupla da Praia de Botafogo encampou de braços abertos a novidade. Pornografia era novidade na época e eu, minha primeira namorada de verdade (que adorava ver essas coisas, tinha a maior curiosidade) e uma galera da faculdade (incluindo outras menininhas de 17, 18 anos) assistimos lá a uma sessão dupla A B... PROFUNDA/O DIABO NA CARNE DE MISS JONES 2. São as últimas fitas as quais tenho certeza de ter acompanhado naquelas salas. O clima ainda não era totalmente decadente - funcionários uniformizados ainda comandavam a bombonière onde durante anos comprei balinhas de bonequinho, cigarrinhos de chocolate (que certamente me ajudaram a me tornar fumante durante vinte anos, inclusive fumando dentro do cinema, o que era muito comum na época, apesar de proibido) e Frumelo.

Logo depois o Scala, além dos filmes, passou a exibir espetáculos de sexo explícito em sua sala, durante um bom tempo - a minha primeira namorada queria ir, mas achamos que a barra devia ser pesada demais pra ela e acabamos desistindo. As salas irmãs continuaram com a pornografia durante anos a fio, aparentemente um bom negócio, mesmo pro tamanho enorme de suas salas, até que César Maia proibiu tal tipo de casa perto de colégios, e o Andrews era colado ali (e ainda tinha o São Pedro de Alcântara no mesmo quarteirão), o que o levou a fechar as portas. E, curiosamente, nessa época, ainda nos anos 90, a bilheteira era a mesma que nos anos 70 me proibiu de entrar, preadolescente, por estar de short.

(1) O Coral e o Scala, ao lado de seu vizinho Ópera, eram já da geração de cinemas que ficavam embaixo de prédios, ao contrário dos imóveis que só serviam pra isso, como o Guanabara, no final da Praia. Eles, o Paissandu e o Star, depois Botafogo, hoje Estação Botafogo, foram os últimos cinemas de rua a serem erguidos, os únicos depois dos anos 50, quando começou a onda dos "cinemas de galeria", como os Condor, os Bruni e o Joia. Embora todo mundo com mais de 30 hoje reclame dos cinemas de shopping, o cinema de galeria era a mesma ideia de juntar lojas, comida e filme, só que sem a grandiosidade dos enormes shoppings construídos a partir do Rio-Sul.

setembro 13, 2010

E, Por Falar em Nostalgia...

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Todo mundo tem saudade do tatuí, que fora um revival no final dos anos 80, está fora das praias do Rio desde os anos 70 (1), mas parece que ninguém sente falta do besourinho de praia. Você aí, que frequenta Ipanema, quando foi a última vez que viu esse bichinho?


Tudo bem, o tatuí era comestível e famílias enchiam garrafas plásticas de água mineral com eles na época de sua volta às areias escaldantes, mas o besourinho foi por muito mais tempo um personagem bem mais frequente. Será que a poluição o expulsou? Ou foram os pombos, aqueles ratos voadores, que tomaram a orla na mesma época do começo da decadência desses artrópodes?


Uma das mais tradicionais diversões da praia era cavar um buraco, jogar o besourinho lá dentro, tapar com alguns grãos de areia e ver o coleóptero de cerca de 3 mm valentemente abrir caminho para fora como de fora um zumbi reanimado.



Inseparável companheiro era essa larvinha que parecia queimar quem ficasse muito tempo deitado na areia - mas agora lendo na Internet descobri que a criatura acima era realmente ligada ao besourinho: era a larva dele. E a queimadura não era queimadura, era uma mordida! Ô bichinho invocado e metido! Onde foram parar?

A Lendária Philco Amazonas


Essa daí foi a primeira tevê transistorizada do Brasil. Lembro dos anúncios de página inteira no jornal anunciando "inteiramente transistorizada", com um "splash" mostrando o tal do transístor - pra mim parecia um banquinho de cozinha. Ela era minúscula, uma tela de 10 polegadas (ou 12, não medi) e quase nada em volta - na época os televisores eram cercados por um enorme chassis cheio de válvulas. Na minha postagem sobre televisões pleistocenas um guia pra compra explicava que o comprador de um desses avançadíssimos e excitantes aparelhos que trariam o mundo para sua casa precisava levar em consideração os custos de manutenção: devido à sua tremenda complexidade, elas teriam mais afinidades com os intrincadíssimos radares militares do que com rádios, com os quais qualquer entusiasta de eletrônica caseira poderia lidar. Elas chegavam a ter 17 válvulas!!!!

Frente e Verso

O comercial de tevê enfatizava a portabilidade da traquitana: um sujeito, no meio do nada, saltava do carro e assistia a um jogo de futebol, gritando goooooool feito um louco, sozinho no meio de uma imensa planície. O carro era porque as baterias de níquel-cádmio ainda eram um distante sonho, monitores de cristal líquido uma utopia e o voraz tubo de imagem dela precisava ser alimentado pelo menos por uma bateria de automóvel.

Um design modernista clássico, típico dos anos 70. Não era com certeza aquela década de 50 ou 60 dos seus pais...

E essa tevê também foi muito importante culturalmente. O final dos anos 60, começo dos anos 70 foi a época em que o aparelho realmente tornou-se onipresente na classe média, incluindo a baixa. Meus pais compraram sua primeira quando eu tinha cerca de 1 ano. Quando eu tinha uns 7 o preço baixo advindo da tecnologia do transistor - bem como o pequeno tamanho mesmo - tornou viável a compra de um SEGUNDO televisor, por vários motivos: o monstrengo usado que minha família tinha vivia queimando válvula e precisávamos ficar dias sem ela normalmente, a Philco podia funcionar como substituta; e as emissoras tornaram-se modernas e competentes o suficiente pra apresentarem programas concurrentes com qualidade suficiente para rachar os lares - eu quero ver isso, eu quero ver aquilo! - numa época sem as reprises dos canais por assinatura e vídeo-cassete. A Amazonas foi não somente a primeira televisão de muita gente graças a seu baixo custo, como também inaugurou nos lares não tão abastados assim o hábito da "segunda tevê".

A tela nem um pouco plana tornava difícil ver alguma coisa nela um pouco mais de lado...

Com a televisão colorida lançada logo depois, em pouco tempo as tevês em preto e branco estariam relegadas aos quartos das crianças e até das empregadas. A Philco Amazonas foi demovida a terceiro aparelho da casa pouco depois e a nossa terminou seus dias sendo dada prum parente que estava internado num hospital. Já nessa época tínhamos o clássico tevezão colorido, mais uma monocromática pra cada filho - a minha era uma Telefunken que tinha um chassis bem maior do que a Amazonas e não era portátil - embora eu nunca tenha me aproveitado da portabilidade da bichinha a não ser em 1982, quando a levei pra faculdade pra assistirmos a alguns jogos no CA. E vou te contar - de portátil aquele troço não tinha nada, vai carregar ela até o ponto de ônibus...

Os botões low tech analógicos costumavam quebrar com facilidade - principalmente o seletor de canais, que tinha uma trava de mola. Os botões de vertical e horizontal ficavam atrás, pra manter o visual limpo. Quem tem menos de 30 anos não deve fazer a menor idéia do que estou falando, "vertical" ou "horizontal". Pois imaginem então que o anel em volta do seletor era para a "sintonia fina"

Não sendo valvulada, a Philco Amazonas era extremamente mais robusta do que suas congêneres contemporâneas. Mesmo as primeiras tevês coloridas (a nossa foi uma Colorado RQ - Reserva de Qualidade. Minha mãe um dia deu um ataque de consumismo e levou meu pai numa terça - as lojas de Copacabana fechavam mais tarde nas terças e sextas - pra comprar uma. Ele se endividou todo pra isso, coitado. Pra aumentar a nostalgia, compramos a bichona no Rei da Voz) ainda eram eivadas do que os maus tradutores de hoje chamam de "tubo de vácuo". Um tributo à sua durabilidade foi que a última vez em que a vi foi no meio dos anos 90, em Iriri, no ES, mais de 20 anos depois de encerrada sua produção, numa barraca que vendia batidas, ligada a uma bateria de carro. Na época já era difícil ver televisores monocromáticos e aparelhos dos anos 70 nem de longe tinham a resistência a quebras que os simples chassis das máquinas de hoje apresentam. Valente, democrática e lendária, a Philco Amazonas marcou seu lugar no imaginário da minha geração.

novembro 02, 2008

Mais Morro do Castelo


Outra grande foto pra dar idéia de sua localização e tamanho. Confira outras duas, de ângulos diferentes, inclusive uma rara imagem do século XIX, a partir da Primeiro de Março algumas postagens abaixo.
(Foto tirada de onde hoje é o edifício Avenida Central e na época era o Hotel Avenida, com direito à Galeria Cruzeiro)

Uma Moda que Passou


Outro dia fui na galeria do antigo Cine Hora, depois Cine Jóia, depois Estação alguma coisa, ao lado da Galeria Menescal. De curioso, esse espelho d'água no subsolo, como você pode conferir pelo reflexo da loja à direita.

Esse tipo de laguinho esteve muito em moda nos anos 70 - feito de pastilhas, com meio palmo de profundidade e povoado por alguns peixes meio gordos, que mais rastejavam do que nadavam nele, por algum motivo os arquitetos encheram churrascarias, clubes, restaurantes e galerias com eles quando eu era bem pequeno. Se não me engano, essa galeria também tinha aqueles filetes d'água simulando uma cachoeirinha. Água e luz estavam muito em voga à época.



A maioria desses laguinhos sumiu ou foi esvaziada. A dessa galeria do cine Jóia permanece, embora atualmente povoada por tartarugas. Os peixes dançaram. Por que será que essa moda veio e foi tão sem explicação assim?

As fotos foram tiradas com meu antigo Lg Shine. Perceba a distinta inferioridade da imagem frente às fotos com o Nokia.