setembro 16, 2010

Um Celular com Câmera na Saara







Tentando Deter o Naufrágio do Titanic com um Balde

Quanto à minha opinião sobre o assunto, clique aqui para ler a minha primeira página Logo em O Globo, em 2007

Polícia Civil fecha “xerox” na Praia Vermelha
Qua, 15 de Setembro de 2010 08:32
Diretora da Escola de Serviço Social reage com indignação ao acontecimento

Uma operação da Polícia Civil no campus da Praia Vermelha, na noite do último dia 13, causou espanto na comunidade acadêmica. Movidos por uma denúncia anônima de violação a direitos autorais, os policiais foram a uma loja copiadora da Escola de Serviço Social, apreenderam todo o acervo (inclusive as pastas com o material pedagógico deixado pelos professores daquela Unidade) e detiveram o proprietário da copiadora, que foi encaminhado para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), na Lapa. O rapaz, identificado apenas como Henrique, foi indiciado e responderá ao processo em liberdade.

Diretora da ESS reage com indignação
“Inadmissível!”. Foi com essa palavra que a diretora da ESS, professora Mavi Pacheco, classificou a operação policial. Para ela, em um país extremamente desigual como o Brasil, onde a produção e o acesso ao conhecimento estão na mão de poucos, a popular “xerox” é um pedaço da realidade em todas as universidades. Mavi acredita que a situação se torna ainda mais grave quando se considera a renda média dos estudantes do curso de Serviço Social: “É inadmissível que tenhamos sido objeto de uma ação da Polícia Civil, dentro de uma universidade pública, e, sobretudo, motivada por isso”, criticou. A dirigente acredita que o que está por trás de uma operação desse tipo é o interesse das grandes editoras em resguardar os direitos autorais, em contraposição aos estudantes empobrecidos que querem ter acesso ao conhecimento.

A diretora conta que não estava na Unidade quando os policiais chegaram, mas retornou assim que possível e atuou no sentido de serenar os ânimos dos presentes. A delegada responsável pela operação falava abertamente sobre a intenção de prender o rapaz da xerox: “Os estudantes estavam muito revoltados, porque o Henrique foi homenageado em uma cerimônia de colação de grau, no sábado”, contou.

Segundo um papel exibido pelos policiais, que não pôde ler mais detalhadamente, a diretora viu o registro, datado de 26 de maio deste ano, por volta de uma da manhã, através do Disque-denúncia, afirmando que havia uma copiadora na Escola de Serviço Social onde um funcionário desrespeitava direitos autorais.

Mavi explicou que o local ficou fechado durante todo o dia seguinte e que, agora, os professores do curso devem pensar em resoluções imediatas e de médio prazo para o problema: “Ficavam lá as pastas de todos os docentes, programas das disciplinas, tudo, tudo! Agora, temos que pensar um caminho que não nos exponha a essa brutalidade e garantindo o acesso à leitura. Isso é um direito que temos de assegurar; a universidade, o Estado brasileiro”, observou.

Diretoria acredita em quebra da autonomia universitária
“Estamos aterrorizados com esta situação. Entrada da polícia civil na universidade pública fere sua autonomia. Nós não podemos deixar isso ocorrer como fato natural, independentemente de discutir a questão da lei. Não podemos achar que isso é um problema meramente legal, é problema político. A universidade tem que defender sua autonomia e o direito ao acesso ao conhecimento. Não pode tornar natural um fenômeno como esse”, analisou.

setembro 13, 2010

Liberdade, Liberdade

É claro que liberdade política é um direito básico, mas não é a única liberdade. De que adianta poder chamar o governo (ou a oposição) de ladrão se na prática você não pode porque o seu patrão não deixa? Liberdade vai muito além de liberdade política, também inclui a econômica (Pelo Direito de Poder Dizer que o Chefe é um Idiota), mas sempre que se fala em liberdade é em relação ao Estado - principalmente se ele for governado pelo seu inimigo político.

Estamos vivendo no Rio na prática um Estado de Sítio. Intimações em favelas não são mais entregues pela Justiça. O correio deixa na mão da Associação de Moradores e os Oficiais de Justiça não as entregam, em vez disso devolvendo o mandado com uma certidão informando que o local é perigoso. Mas a preocupação é sempre com a liberdade política e, pra dizer a verdade com o PT. Afinal, qual liberdade que perdemos nesses oito anos?

A mesma coisa aconteceu durante décadas com direitos humanos. A carta da ONU prevê como direitos alienáveis o direito a trabalho, moradia e constituir família, mas sempre que os americanos falavam de direitos humanos era quanto a liberdade política. Que é fundamental, mas os outros também existem.

Liberdade é mais do que isso. Nâo é uma calça velha azul e desbotada.

Guerra de Atrito (Primeira Versão)

Os anos passam
Como soldados recrutados às pressas
Partindo para a linha de frente
Rumo a uma batalha desesperada
E dos quais nunca mais ouvimos falar.

Descontração





Plástico de Carro

Gastei quase toda minha fortuna com mulheres, bebidas e apostas. O resto eu desperdicei (George Best)

E, Por Falar em Nostalgia...

,
Todo mundo tem saudade do tatuí, que fora um revival no final dos anos 80, está fora das praias do Rio desde os anos 70 (1), mas parece que ninguém sente falta do besourinho de praia. Você aí, que frequenta Ipanema, quando foi a última vez que viu esse bichinho?


Tudo bem, o tatuí era comestível e famílias enchiam garrafas plásticas de água mineral com eles na época de sua volta às areias escaldantes, mas o besourinho foi por muito mais tempo um personagem bem mais frequente. Será que a poluição o expulsou? Ou foram os pombos, aqueles ratos voadores, que tomaram a orla na mesma época do começo da decadência desses artrópodes?


Uma das mais tradicionais diversões da praia era cavar um buraco, jogar o besourinho lá dentro, tapar com alguns grãos de areia e ver o coleóptero de cerca de 3 mm valentemente abrir caminho para fora como de fora um zumbi reanimado.



Inseparável companheiro era essa larvinha que parecia queimar quem ficasse muito tempo deitado na areia - mas agora lendo na Internet descobri que a criatura acima era realmente ligada ao besourinho: era a larva dele. E a queimadura não era queimadura, era uma mordida! Ô bichinho invocado e metido! Onde foram parar?

Um Celular com Câmera no Inverno do Aterro


Um Celular com Câmera no TRT

Estou saindo pra almoçar e descubro que vai ter uma apresentação de um coral da Justiça Federal no hall do prédio do TRT. Obviamente tinha que ter um amigo meu metido nesse mico...

A Lendária Philco Amazonas


Essa daí foi a primeira tevê transistorizada do Brasil. Lembro dos anúncios de página inteira no jornal anunciando "inteiramente transistorizada", com um "splash" mostrando o tal do transístor - pra mim parecia um banquinho de cozinha. Ela era minúscula, uma tela de 10 polegadas (ou 12, não medi) e quase nada em volta - na época os televisores eram cercados por um enorme chassis cheio de válvulas. Na minha postagem sobre televisões pleistocenas um guia pra compra explicava que o comprador de um desses avançadíssimos e excitantes aparelhos que trariam o mundo para sua casa precisava levar em consideração os custos de manutenção: devido à sua tremenda complexidade, elas teriam mais afinidades com os intrincadíssimos radares militares do que com rádios, com os quais qualquer entusiasta de eletrônica caseira poderia lidar. Elas chegavam a ter 17 válvulas!!!!

Frente e Verso

O comercial de tevê enfatizava a portabilidade da traquitana: um sujeito, no meio do nada, saltava do carro e assistia a um jogo de futebol, gritando goooooool feito um louco, sozinho no meio de uma imensa planície. O carro era porque as baterias de níquel-cádmio ainda eram um distante sonho, monitores de cristal líquido uma utopia e o voraz tubo de imagem dela precisava ser alimentado pelo menos por uma bateria de automóvel.

Um design modernista clássico, típico dos anos 70. Não era com certeza aquela década de 50 ou 60 dos seus pais...

E essa tevê também foi muito importante culturalmente. O final dos anos 60, começo dos anos 70 foi a época em que o aparelho realmente tornou-se onipresente na classe média, incluindo a baixa. Meus pais compraram sua primeira quando eu tinha cerca de 1 ano. Quando eu tinha uns 7 o preço baixo advindo da tecnologia do transistor - bem como o pequeno tamanho mesmo - tornou viável a compra de um SEGUNDO televisor, por vários motivos: o monstrengo usado que minha família tinha vivia queimando válvula e precisávamos ficar dias sem ela normalmente, a Philco podia funcionar como substituta; e as emissoras tornaram-se modernas e competentes o suficiente pra apresentarem programas concurrentes com qualidade suficiente para rachar os lares - eu quero ver isso, eu quero ver aquilo! - numa época sem as reprises dos canais por assinatura e vídeo-cassete. A Amazonas foi não somente a primeira televisão de muita gente graças a seu baixo custo, como também inaugurou nos lares não tão abastados assim o hábito da "segunda tevê".

A tela nem um pouco plana tornava difícil ver alguma coisa nela um pouco mais de lado...

Com a televisão colorida lançada logo depois, em pouco tempo as tevês em preto e branco estariam relegadas aos quartos das crianças e até das empregadas. A Philco Amazonas foi demovida a terceiro aparelho da casa pouco depois e a nossa terminou seus dias sendo dada prum parente que estava internado num hospital. Já nessa época tínhamos o clássico tevezão colorido, mais uma monocromática pra cada filho - a minha era uma Telefunken que tinha um chassis bem maior do que a Amazonas e não era portátil - embora eu nunca tenha me aproveitado da portabilidade da bichinha a não ser em 1982, quando a levei pra faculdade pra assistirmos a alguns jogos no CA. E vou te contar - de portátil aquele troço não tinha nada, vai carregar ela até o ponto de ônibus...

Os botões low tech analógicos costumavam quebrar com facilidade - principalmente o seletor de canais, que tinha uma trava de mola. Os botões de vertical e horizontal ficavam atrás, pra manter o visual limpo. Quem tem menos de 30 anos não deve fazer a menor idéia do que estou falando, "vertical" ou "horizontal". Pois imaginem então que o anel em volta do seletor era para a "sintonia fina"

Não sendo valvulada, a Philco Amazonas era extremamente mais robusta do que suas congêneres contemporâneas. Mesmo as primeiras tevês coloridas (a nossa foi uma Colorado RQ - Reserva de Qualidade. Minha mãe um dia deu um ataque de consumismo e levou meu pai numa terça - as lojas de Copacabana fechavam mais tarde nas terças e sextas - pra comprar uma. Ele se endividou todo pra isso, coitado. Pra aumentar a nostalgia, compramos a bichona no Rei da Voz) ainda eram eivadas do que os maus tradutores de hoje chamam de "tubo de vácuo". Um tributo à sua durabilidade foi que a última vez em que a vi foi no meio dos anos 90, em Iriri, no ES, mais de 20 anos depois de encerrada sua produção, numa barraca que vendia batidas, ligada a uma bateria de carro. Na época já era difícil ver televisores monocromáticos e aparelhos dos anos 70 nem de longe tinham a resistência a quebras que os simples chassis das máquinas de hoje apresentam. Valente, democrática e lendária, a Philco Amazonas marcou seu lugar no imaginário da minha geração.

setembro 09, 2010

E, por falar nisso...

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Um Celular com Câmera na Igreja da Rua Uruguaiana


Altamente simbólico.

Um Celular com Câmera no Aeroporto Santos Dumont

Depois de caminhar pelo Aterro, passei no Aeroporto pra tomar um capuccino e tirei umas fotos desse painel do começo dos anos 50. Tudo bem, não é uma grande pintura, mas justamente por ser tosco tem um ar nostálgico de um Brasil de outra época, subdesenvolvido e meio assustado com o futuro.


O retrato de uma época em que se voava em aparelhos que eram consertados por mecânicos de rua pouco antes de decolar e o pessoal achava tudo normal... mas tudo bem, era um DC-3, o fusca da aviação, o melhor avião de todos os tempos...



Uma época em que as pessoas ainda se produziam para voar, beeeeem antes da onipresença das calças de moleton (gnaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)

É impressionante como se achava natural a porta de entrada da capital nacional ter uma pintura com uma técnica em par com aquelas em botecos mostrando os campeões do mundo (sim, porque é claramente inferior à daqueles murais com panoramas do inesquecível Nilton Bravo - ou mesmo de seus imitadores.

Clicando na panorâmica acima, você poderá ver em detalhe todos os aviões, alguns quase irreconhecíveis - Os maravilhosos DC-3 pousados, um zepelim, um Constellation (apenas a cauda dá a dica), um Boeing B-47, o primeiro bombardeiro com asas enflechadas e uma aparência escandalosamente futurista para a época (a grande pista pra saber que é ele são os seis motores, com os quatro internos agrupados dois a dois), um troço que não consegui adivinhar o que era, mas que vou chutar que seja o B-45 Tornado, um DeHavilland Comet, o primeiro jato comercial do mundo, da Inglaterra, que perdeu a dianteira no segmento depois que ele sofreu vários acidentes seguidos (depois descobriram que as janelas muito grandes causavam rachaduras em grandes altitudes por causa da pressurização, depois de algumas viagens, por fadiga do metal), um C-119 Boxcar, aeronave militar de transporte, e um Cutlass pintado de preto e completamente fora de escala - levei horas pra chegar à sua identidade, depois de levar em conta a configuração sem empenagem e suas asas típicas. Estou ou não estou virando um nerd de aviação?

Um Celular com Câmera no Aniversário do Marquinhos





setembro 08, 2010

"Roma" Não Saiu do Armarius



* pelo blogueiro convidado Pedro Mílvio

As produções HBO e o antigo mundo greco-romano adoram sexo e violência. Daí, nada mais natural que aquele canal por assinatura tenha produzido a série Roma e usado e abusado de cenas e enredos envolvendo surubas, gladiadores, legionários brutais, incestos, bestialismos, estupros, assassinatos a sangue-frio e, de preferência, se possível, tudo isso junto na mesma cena. Mas, se você parar pra contar, tem pouca, pra não dizer nenhuma, viadagem entre os personagens masculinos principais: Marco Antônio não sai de casa sem fornicar com mulher – qualquer mulher; César é matador; Pompeu, apesar da idade avançada, não dispensa coroas nem gatinhas; o jovem Otávio transa com a própria irmã, porém sente-se ofendido quando sugerem que ele poderia se iniciar sexualmente com um homem (a série faz questão de deixar claro que Otávio nunca teve nada com seu tio Júlio, tudo não passou de mal-entendido criado por uma escrava bisbilhoteira); o legionário Tito Pulo emprenha Cleópatra e faz a Rainha suspirar com a lembrança da rapidinha. Na Roma HBO, a sodomia só existe mesmo entre escravos e bandidos. Resultado: um destes é castrado, o outro barbaramente torturado e em seguida morto, o capanga idem. Interessante comparar esse padrão com produções mais antigas como Spartacus, onde os patrícios eram adeptos do amor entre iguais e a ralé é que gostava de mulé. Dito assim, Roma parece uma série homofóbica mas, se analisarmos mais cuidadosamente, é outra coisa bem diferente: ela simplesmente não saiu do armário.

Duas personagens femininas, Átia e Servília, são inimigas figadais e as verdadeiras donas do Forum. Estas duas aristocratas, a primeira sobrinha de César e mãe de Augusto, a outra mãe de Brutus e amante de César, manipulam todos os homens poderosos, jogam uns contra os outros, criam guerras, promovem assassinatos, intrigas, traições. Vejamos: Átia assassina o genro para que Pompeu se case com sua filha; induz César a atravessar o Rubicão e ameaçar a República; mais tarde faz César, naturalmente tolerante e disposto ao perdão, confrontar Brutus; seduz Marco Antônio para que ele, que já programava uma aposentadoria bem-remunerada na Grécia, não largue o cargo de cônsul e inicie a segunda guerra civil. Servília não fica atrás: por pura vingança, faz seu filho Brutus assassinar o pai adotivo que tanto amava; insufla a primeira guerra civil etc etc. Há também uma plebéia, Niobe, que destroi a vida e a carreira ascendente do marido, o centurião Lucius Vorenus, chefe de família dedicado, cidadão patriota e militar exemplar. Segundo o release da HBO sobre a série: “In a culture in which women lack formal power and men leave for years on military campaigns, the wives, daughters, and mothers have built powerful networks and alliances completely independent of the men's worlds. Atia (e também Servília) is among the women who serve as the shadow rulers of Rome.”

Se você não tivesse lido A Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, poderia achar que os homens romanos eram uns fofos, sempre dedicados à paz mundial, ao progresso de sua cidade, à convivência familiar, ao debate político civilizado e à alternância do poder. Que o seu real pecado, e o que prejudicou a sua imagem para a posteridade e a continuidade de seu império, foi terem se apaixonado e dado ouvidos às mulheres, essas jararacas horrorosas, feias, rachadas, intrigantes. Morram, morram, morram, bruxas ! O problema maior do homossexualismo enrustido é que ele acaba se convertendo num ódio às mulheres muito maior do que o machismo mais obtuso poderia conceber.

Veja, nós gostamos de mulher! Vamos botar um monte delas nuas e nenhum homem!

As produções HBO e o antigo mundo greco-romano adoram sexo e violência. Daí, nada mais natural que aquele canal por assinatura tenha produzido a série Roma e usado e abusado de cenas e enredos envolvendo surubas, gladiadores, legionários brutais, incestos, bestialismos, estupros, assassinatos a sangue-frio e, de preferência, se possível, tudo isso junto na mesma cena. Mas, se você parar pra contar, tem pouca, pra não dizer nenhuma, viadagem entre os personagens masculinos principais: Marco Antônio não sai de casa sem fornicar com mulher – qualquer mulher; César é matador; Pompeu, apesar da idade avançada, não dispensa coroas nem gatinhas; o jovem Otávio transa com a própria irmã, porém sente-se ofendido quando sugerem que ele poderia se iniciar sexualmente com um homem (a série faz questão de deixar claro que Otávio nunca teve nada com seu tio Júlio, tudo não passou de mal-entendido criado por uma escrava bisbilhoteira); o legionário Tito Pulo emprenha Cleópatra e faz a Rainha suspirar com a lembrança da rapidinha. Na Roma HBO, a sodomia só existe mesmo entre escravos e bandidos. Resultado: um destes é castrado, o outro barbaramente torturado e em seguida morto, o capanga idem. Interessante comparar esse padrão com produções mais antigas como Spartacus, onde os patrícios eram adeptos do amor entre iguais e a ralé é que gostava de mulé. Dito assim, Roma parece uma série homofóbica mas, se analisarmos mais cuidadosamente, é outra coisa bem diferente: ela simplesmente não saiu do armário.

Duas personagens femininas, Átia e Servília, são inimigas figadais e as verdadeiras donas do Forum. Estas duas aristocratas, a primeira sobrinha de César e mãe de Augusto, a outra mãe de Brutus e amante de César, manipulam todos os homens poderosos, jogam uns contra os outros, criam guerras, promovem assassinatos, intrigas, traições. Vejamos: Átia assassina o genro para que Pompeu se case com sua filha; induz César a atravessar o Rubicão e ameaçar a República; mais tarde faz César, naturalmente tolerante e disposto ao perdão, confrontar Brutus; seduz Marco Antônio para que ele, que já programava uma aposentadoria bem-remunerada na Grécia, não largue o cargo de cônsul e inicie a segunda guerra civil. Servília não fica atrás: por pura vingança, faz seu filho Brutus assassinar o pai adotivo que tanto amava; insufla a primeira guerra civil etc etc. Há também uma plebéia, Niobe, que destroi a vida e a carreira ascendente do marido, o centurião Lucius Vorenus, chefe de família dedicado, cidadão patriota e militar exemplar. Segundo o release da HBO sobre a série: “In a culture in which women lack formal power and men leave for years on military campaigns, the wives, daughters, and mothers have built powerful networks and alliances completely independent of the men's worlds. Atia (e também Servília) is among the women who serve as the shadow rulers of Rome.”


Cuidado! Ela tem um útero e sabe como usá-lo!

Se você não tivesse lido A Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, poderia achar que os homens romanos eram uns fofos, sempre dedicados à paz mundial, ao progresso de sua cidade, à convivência familiar, ao debate político civilizado e à alternância do poder. Que o seu real pecado, e o que prejudicou a sua imagem para a posteridade e a continuidade de seu império, foi terem se apaixonado e dado ouvidos às mulheres, essas jararacas horrorosas, feias, rachadas, intrigantes. Morram, morram, morram, bruxas ! O problema maior do homossexualismo enrustido é que ele acaba se convertendo num ódio às mulheres muito maior do que o machismo mais obtuso poderia conceber.

* As opiniões dos blogueiros convidados não refletem necessariamente a do blogueiro titular

Retrospectiva do Blogue: Alteridade e Neoliberalismo

Quanto desse povo quarentão que acha que tinha que matar esses pivetinhos de rua ajudou a fazer de CAPITÃES DE AREIA o grande sucesso teatral jovem no verão de 1982/1983? Será que se os pivetinhos fossem todos parecidos com Alexandre Frota e Bianca Byington, protagonistas da peça, eles mudariam de idéia?

Há coisa de dez anos atrás, fui arrastado por uma menina que eu estava pegando para ver a adaptação de Gabriel Vilela para MORTE E VIDA SEVERINA. Ela fazia questão de assistir porque era parente distante do João Cabral de Mello Neto (um ou dois "l"?). O ator que fazia Severino era um jovem adulto, malhadaço, o que dava para ver porque seu figurino era apenas um saiote mezzo aborígene mezzo africano e uma espécie de touca com a mesma inspiração. O sujeito andava com um grande cajado e sua dicção era em tom profundo e épico. Gabriel Vilela deve ter adorado os livros do Joseph Campbell e, em sua concepção, o protagonista de João Cabral, em vez de um retirante miserável e subnutrido, era um herói em busca da verdade.

Após quase duas horas de entediante espetáculo (o sotaque surfista do Severino não ajudava muito e os peitinhos da deusa-rio Capibaribe - não pergunte - não foram o suficiente para aliviar), saímos à rua. Posso contar de positivo da moça que ela também não gostou do musical, mas tivemos a chance de ouvir ao nosso lado um pessoal mais velho comentando como apreciara a peça, com uma mulher ressaltando que tinha visto outra montagem muitos anos atrás, mas "nem se compara, era um horror, todo mundo esfarrapado, todo mundo se arrastando pelo chão"...

Quando moleque, li um clássico de psicologia para adolescentes, NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS, mostrando o início do processo de cura de uma garota esquizofrênica judia. Um dos momentos interessantes do livro era quando a protagonista contava que, conversando com uma amiga, falou que fulana parecia estar num purim (ou coisa parecida, eu não conheço tão a fundo a cultura judaica) e sua amiga não entendera; só então se tocara que sempre percebera todas as pessoas à sua volta como judias, como tendo a mesma criação e cultura que ela tivera.

Na verdade, isso se aplica praticamente a todos nós. Eu, enquanto branco (para os padrões brasileiros, é claro), sempre pensei em negros como brancos com mais melanina. O conceito "preto de alma branca" vem dessa idéia. Nós não os enxergamos como sujeitos com outra cultura, que são encarados de forma diferente pelo mundo e, portanto, encaram-no também de forma diferente. E assim agimos também em relação a pobres - eles são iguais a nós, só que com menos dinheiro.

É assim que adolescentes de Zona Sul podem se identificar com meninos de rua da Salvador dos anos 30, 40. Os espectadores vêem aquela garotada que não tem pais para encher o saco, que tem desprezo pelo "sistema", que não precisam trabalhar para viver, mas usam seus talentos e astúcia superiores para conseguir uns trocados, e passam o dia à toa com os amigos, namorando, transando e fazendo festas e pensam "sou eu! Essa é a vida que eu gostaria de ter!". É assim que Gabriel Vilela pode pegar um clássico da miséria nordestina e fazer uma saga épica de alguém bestificado com Campbell. É assim que podemos eventualmente chegar a pensar que se esses pobres todos resolvessem estudar, seriam alguém na vida.

Mas tentar negar esse dito de que "pobre é pobre porque quer" costuma ser acompanhado de uma história de que "meu pai veio do interior de não-sei-onde, vendia verduras que catava no Morro do Chapéu, depois abriu uma lojinha (...)". Meu amigo Carlos Henrique, de direita, neoliberal e tudo, certa vez me explicou o que achava ser o motivo para a diferença de personalidade entre o Romário e o Ronaldo Fenômeno - o Ronaldinho é ex-suburbano pobre, o Romário é ex-favelado. A diferença pode parecer mínima pra turma da Zona Sul, mas pra quem cresceu em Valqueire como o Carlos (e estudou e foi ser alguém na vida), é imensa. Pobre e miserável são duas coisas muito diferentes. Têm culturas diferentes. Aprendem a ter objetivos de vida diferentes. São diferentes. Como homens e mulheres, negros e brancos, pivetes de rua da Salvador dos anos 40 e Alexandre Frota e Bianca Byington. O povo que viu aquela peça cresceu, deixou a rebeldia pra trás, formou família e hoje fica preocupado com esses pivetinhos que estão vivendo de verdade o sonho que esses senhores de classe média tinham na adolescência. Só que são mais feios e sujos.

P.S.:

1. Pra fazer Morte e Vida Severina, Gabriel Villela, que era o administrador do Teatro Glória, onde a montagem estreou, recebeu uma grana de patrocínio, pegou o enorme elenco e foi passar uma temporada no Nordeste, para que todos pudessem ver e sentir de perto a atmosfera do poema. (Lá eles descobriram que o Nordeste brasileiro é puro Campbell).

2. Meu pai é uma dessas histórias de sujeito que subiu na vida trabalhando. Um dos cinco filhos de um casal de portugueses que veio pra cá nos anos 30, eram tão pobres que moravam na rua Sambaíba, no Alto Leblon - e eu não estou ironizando. Lááááááá em cima, um local ermo e desolado (1). Embora as duas irmãs de meu pai ainda vivam (uma é dona de um pequeno salão de cabeleireiro no Sol Ipanema), ele e seus dois irmãos já faleceram. Meu pai, mesmo completando apenas o Ensino Fundamental conseguiu fazer um patrimônio e botar os filhos no maravilhoso mundo da casa própria, carro zero quilômetro e faculdade; seus irmãos não foram tão bem-sucedidos.

Meu pai era um sujeito que, embora fosse bem-humorado, era fechado e não tinha nada dessa história de demonstrar sentimentos. Uma das poucas vezes que se permitiu fazê-lo contou uma história de quando tinha sete anos e estava na escola e a professora deu para a turma ilustrações mimeografados (um aparelho para fazer cópias a álcool, para o povo com menos de 35 anos) dos personagens Disney para colorir. A figura paterna sempre teve talento e gosto para o desenho e, quando recebeu o Mickey, começou a chorar, porque o camundongo era todo preto, não tinha nada para colorir, e ele estava certo que a professora lhe dera justo o ratinho porque ele era pobre. É desse tipo de vivência que eu não tenho conhecimento. É isso o que eu quero dizer quando digo que pobres não são como nós, só que com menos dinheiro (e estudo).

Quando as Mulheres Tinham Boceta

Saiu hoje a Playboy de Larissa Riquelme. E o melhor do ensaio não é o efeito 3D, mas a (re)invenção da boceta!

Faz parte do marquetím da Playboy ser classuda e classe quando se trata de vender fantasias masturbatórias significa fotos sensuais, fortemente influenciadas pelo que é considerado "in" no momento (geralmente em fotografias de moda) e, principalmente, evitar mostrar genitálias ginecologicamente, como fazem a maioria das revistas do gênero.


Que sorte que essa sombra bateu bem aí, hein, Mônica Apor? O que a está causando?


Mais! Incline-se mais!!!!


Está faltando uma coisa em mim/ lararalaia...

O problema é que de uns anos pra cá, depois do "bigodinho de Hitler" e da "brazilian wax", começou a entrar em moda a depilação total - tendência da qual o blogueiro é grande apreciador, por achar que pelo e mulheres não têm muito a ver (1). Com os pelos, os editores sempre podiam dar uma retocada, aumentar uma sombra, ou mesmo fotografar só a parte de cima da virilha e dar a impressão aos leitores de que eles tinham visto alguma coisa. Mas quando algumas moças aderiram ao visual lisinho, a coisa começou a ficar difícil.

Mas, afinal, qual o problema em se mostrar a boceta das mulheres? Mostrar uma boceta não necessariamente significa baixaria. A proposta da revista sempre foi a de que sexo era uma atividade inocente, que não deveria ser cercada de tabus e preconceitos. Certamente nos anos 50 e 60 Hugh Heffner não poderia exibir genitálias sem manter a aura de "não sujo" de seu magazine, mas em pleno século XXI?
Não vamos mostrar uma coisa sórdida e pervertida como uma boceta, mas em compensação iremos compor a foto para dar a impressão de que a Juju do Pânico está empalada sobre uma estaca a ponto de nem poder se mexer
Acho que vi alguma coisa! Tragam um microscópio!

Ser uma publicação de sexo que não pode mostrar o sexo não só é uma hipocrisia como vai contra a pretensa vocação libertária da Playboy - ela estaria promovendo a erotização da mulher assexuada, uma Barbie sem o principal instrumento biológico da atividade - bundas, peitos e lábios sem útero, sem o mistério da reprodução, sem o objeto penetrado, sem o vínculo carnal, sem a ligação animal: sem a boceta. Um fetiche ambulante de fantasias exclusivamente masturbatórias, etéreo e abstrato. Uma tremenda perversão sob um viés conservador para dar um mérito "artístico" ao que é - e sempre será - uma revista de muié pelada (2).





Essa pervertida hipocrisia da Editora Abril chegou ao ápice na edição com Karina Bacchi, em que a fetichização era despudoradamente o cerne do ensaio, totalmente focado no piercing genital da moça, mas com um hercúleo esforço para evitar mostrar a parte do corpo que ele estava ali para enfeitar. Mulher pelada sem sexo, a suprema fantasia da Censura dos anos 70, que liberava as pornochanchadas de Lando Buzzanca (as brasileiras não, muitas delas eram surpreendementemente subversivas) e proibia O Império dos Sentidos.


E provavelmente a política não é só por exigência das estrelas. Aqui temos Marion Melody (quem?), daquelas modelos que topariam qualquer coisa pra aparecer na Playboy

É por isso que é bom sinal essa edição da Larissa Riquelme. Logo em duas das quatro fotos pode se observar claramente a boceta da moça. E, quod erat demonstrandum (3), bocetas não são necessariamente sinônimo de "sujeira" e "baixaria". Para o blogueiro, a boceta de Larissa Riquelme traz bons augúrios não só para as próximas Playboy como para a cultura de nossa sociedade em geral, prenunciando uma pré-sexualidade provavelmente mais saudável nos adolescentes contemporâneos.

A não ser, é claro, que isso tudo seja uma exceção porque esta é uma revista paraguaia...


Ah, então isso é que é uma boceta? Da maneira que vocês falavam eu pensava que soltava fogo ou tinha dentes enormes...

(1) Dispenso comentários sobre infantilização da genitália e sexualidade imatura (mesmo porque sou réu confesso). A prática se propagou a partir dos filmes pornôs, onde servia pra deixar o mais explícito possível a trepada. Praticamente todas as mulheres depilam pernas - pelos não são exatamente coisas femininas.

(2) Essa ideia de que sexo é "sujo" e de que as modelos só estão ali para serem apreciadas como bonecas assexuadas é reforçada pelo visual "plastificado" e "etéreo" da maioria dos ensaios (reforçado pelas alterações no Photoshop), pela fetichização das fotos (com "temas" como câmeras, strip-teases, bordéis etc.) e por detalhes significativos: reparem como a revista há décadas não usa mulheres oleadas - suor sugere sexo e atividades biológicas!

(3) A Playboy não é a única publicação que usa de artifícios patéticos pra parecer classuda tratando de assuntos sexuais.

setembro 05, 2010

Uma Leitura para "A Origem"


* pelo blogueiro convidado Marcos Pedrosa

O casal principal é “Dom” e “Mal”. Desde Bom-bom e Mau-mau, nunca vi nomes tão explícitos para personagens.

Tá bem, a coisa só faz sentido em português mas, considerando que o próximo vídeo game da Microsoft se chamará “Natal”, que o próximo desenho da Dream Works é “Rio”, que o Brasil está na moda de modo geral e, principalmente, que todo filme Cult precisa de pequenas charadas a serem decifradas, seria perfeito deixar a chave do enigma escrita numa língua relativamente obscura – assim como os segredos guardados nas caixas-fortes do filme.

O filme é sobre a luta pela alma de Dom Cobb. Fala da Queda do Homem e da Queda do Anjo, o Portador da Luz. Mas em uma perspectiva gnóstica: se na Bíblia, é o Anjo Caído (Lúcifer) que tenta e provoca a Queda de Adão, aqui se inverte a relação. Antes de o Coisa Ruim tentar o Homem, foi o Homem que tentou e causou a Queda do Cramulhão. Este, aliás, é o segredo que o filme guarda para revelar no final. Adão (Dom = Adam?) é duplamente culpado: pecou contra o Anjo E contra Deus. Lembremos do enredo: Dom e Mal passaram 50 anos vivendo em um mundo como o nosso mas bem diferente. Esse “outro mundo possível” é perfeito. Ali o tempo (quase) não passa. Não há velhice, não há dor, não há morte, não há trabalho, não há humano além dos dois. É o Jardim do Éden ! Mas Adom começa a achar tudo muito certinho, aborrecido e sem cerveja após o expediente, daí inventa uma potoca para o Anjo Mal: aquele mundo não é real, eles devem morrer e voltar à realidade. Adom e Mal se matam, se expulsam do paraíso e caem no nosso mundo real, onde há velhice, dor, morte, 6 bilhões de humanos, trabalho, Espanha campeã do mundo. Mal não aceitará a ordem natural do universo e se rebelará – rebelião contra Deus, o Ordenador. O Anjo cai. Cai mesmo, literalmente: Mal se joga do alto de um prédio e morre, lembrando Machado de Assis (“melhor cair das nuvens que cair do sexto andar”). Vai habitar agora as profundezas, tentando diariamente o Homem, que tem até um elevadorzinho para encontrar diariamente seu Demônio, assustador e sedutor. Confesso aqui uma dúvida: Eva e o Demônio são a mesma pessoa ?

Dom fica bem mal. Expulso do Paraíso (sim, foi ele mesmo que quis sair de lá, mas o mesmo pode ser dito sobre nosso pai Adão: apesar de expressamente avisado por Deus em Pessoa que a única coisa, só uminha, que ele não podia tocar em todo o Paraíso era a Árvore, ele e ela vão lá e tocam...), torturado pela culpa, ele precisa agora “ganhar o sustento com o suor do próprio rosto”, no caso emprestando seu talento para criminosos.


Muitas peripécias se seguirão, é preciso atrair público com cenas de ação e artifícios de universos paralelos, mas, no final, Dom se redime – pelo sacrifício pessoal, ora, que é o que todos nós pecadores devemos fazer para escapar do inferno. Para salvar a alma do japa presa no limbo, Dom se desprende de seus objetivos imediatos, arrisca a vida e vai resgatá-lo mesmo sem saber se o criminoso honrará o pagamento. Saito o honra e Dom é enfim um homem livre – livre da justiça humana, mas principalmente da culpa e do pecado. Só assim ele pode reencontrar seus filhos e ver suas faces, que nunca mais apareciam nos sonhos: “Agora vejo em parte, mas então veremos face a face”. Ao final o peão, clara citação do unicórnio de Blade Runner, nos lembra de nossa condição humana. O mundo em que vivemos é real mas ainda não é O Real: Deus.