julho 14, 2010

Meu Editorial no Globo de 11 de Julho

Neste domingo, 11 de julho, saiu na página de Opinião do Globo, um texto meu defendendo o Dunga. A ideia foi do Arnaldo, que apesar de odiar o futebol-pragmático do ex-volante, achou que alguém tinha que contrabalançar todas as críticas que o jornal andara fazendo a ele - na página oposta, por exemplo, Aldir Blanc descia-lhe o malho. Abaixo o texto e mais abaixo ainda, a matéria como saiu no jornal - basta clicar na foto pra ver em tamanho que permita a leitura.




Clique nas imagens acima para ampliar e ler


A página dupla, com Aldir Blanc atacando Dunga embaixo à esquerda


A página completa com o texto. Clicando nele você poderá ler a coluna na extrema esquerda, SEM PERDÃO, ou leia abaixo:

Tudo bem, o Dunga é grosseirão, mas quanto você aguentaria se há vinte anos o tratassem como se tivesse desencadeado o Dilúvio sobre a Idade de Ouro do futebol, transformando com seus poderes malignos a beleza do jogo em uma sucessão de lances ríspidos sem significado, fazendo de uma saga mitológica uma metáfora para a banalidade da vida? Outro jogador teria dado a volta por cima ao levantar a taça em 94, mas Dunga nunca foi perdoado pelo que nunca disse. Pelo contrário, passou a ser tratado como se aquele título fosse uma ofensa pessoal ao mítico time de 82, para mostrar que Zico & cia. eram uns incompetentes.

Não vale a pena aqui falar de Dunga como jogador, nunca errando um passe, apoiando os laterais, fazendo gols e lançamentos e demonstrando quase uma onipresença na marcação. A maioria do público só presta atenção em quem faz os gols ou dá os dribles inúteis (cf. Denílson). Mas, para um treinador principiante jogado aos leões no comando da seleção, seu saldo foi muito mais para o lado positivo. Com as carreiras de Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo e os Ronaldos encerradas de fato ou na prática, o Brasil perdeu os pilares que tinha desde 1995. Às vésperas da Copa, Adriano fez uma vigorosa campanha por sua ausência. Sem nenhuma revelação de supercraque no quadriênio, algo que não acontecia há mais de duas décadas, ainda assim ele montou uma equipe respeitada, temível, e que durante quatro jogos e meio teve os adversários no Mundial exatamente onde quis ­ e talvez tivesse até a final não fosse por um frango de Júlio César.

Seu tão criticado esquema de três volantes e um armador é basicamente o mesmo de 94, 98 e 2002, que nos levou a três finais consecutivas, só que mais rápido e incisivo no contra-ataque, mesmo sem tantos craques na criação. E, por favor, não vamos falar de Neymar e Ganso, cujas únicas credenciais são um título paulista sobre um time sem tradição, enquanto os mais tradicionais estavam mais preocupados com a Libertadores. Os dois foram incapazes de levar a seleção sub-20 ao título, o que levaria a crer que menos de um ano depois, sem nenhuma preparação, poderiam ser melhor sucedidos jogando contra gente grande? Em 2002 Diego e Robinho fizeram do Santos o campeão brasileiro e hoje só um deles é titular ­ e olha que Dunga insistiu bem com o primeiro ­ e mesmo assim longe de ser unanimidade. Em 1990 Lazaroni levou Bismarck para preparar o próximo supercraque brasileiro (ha, ha, há) e em 2002 Felipão levou um jovem Kaká que jogou cinco minutos tão catastróficos que não foi cogitado para mais nada no resto do Mundial.

Por falar em Felipão, sua possível volta parece contentar a todos. Se olharmos de perto, veremos que ele é um técnico grosso, que manda bater, que durante muito tempo tratou mal a imprensa, que foi criticado por montar um time que jogava feio, que não levou um craque que a torcida queria (Romário), que escalou apenas um armador no meio-campo e que proibiu sexo aos jogadores. Afinal de contas, qual a diferença dele para o Dunga?

O título.

Futebol-arte é volta olímpica, o resto é Cirque du Soleil.

Ballad of the Despairing Husband

Robert Creeley


Esta é a minha tradução capenga. Normalmente eu tento traduzir mantendo a ideia central, mandando pras cucuias as rimas. Mas achei que elas eram importantes aqui, portanto mudei bastante a métrica e algumas das linhas do poema. Quem não gostar da poesia, eu garanto, ela é maneira, eu é que traduzi mal, por isso quem falar inglês deve conferir o texto original, abaixo da minha versão rimada.

Minha esposa e eu vivíamos sozinhos
Nossa maior diversão era a discussão
Eu discutia com ela, ela comigo
E no final rolava o maior tesão

Mas agora vivo aqui sozinho
E mal tenho um dinheirinho
E passo os dias em tristeza
Desde que deixei minha princesa

Oh, volte logo, escrevo pra ela
Vá se foder, mané, é a resposta
É isso que acontece quando se dá trela
Tomara que ela se afogue num monte de bosta

Mas eu ainda a amo, oh, sim
Amo ela e as crianças também
E ainda acho que depois de tudo, no fim
Nós dois estaremos juntos e bem

Porra nenhuma, ela diz, durona
E com isso ela me faz beijar a lona
Porra nenhuma, nada de volta no fim
Depois de tudo que você fez pra mim

Oh, mulher, mulher, falo sério
nunca amei de nenhuma outra o mistério
Nem antes nem agora, para mim não é crível
Que me seja outra mulher possível

Pode ser, ela diz então
Mas agora outros homens eu quero
E com eles não vai ter discussão
E nem o menor lero-lero

E vestirei a roupa que quiser
E dançarei a música que tocar
Estou livre de você pro que der e vier
Sem ninguém para me atazanar!

Será mesmo esse o anjo que eu amei tanto
Que me veio como uma graça do céu
Cuja passagem fazia as flores abrirem ao léu
E meu velho e gasto corpo recomeçar seu canto?

Sim, é ela, com certeza.
E já que ainda a amo, com presteza
Celebrá-la-ei com toda beleza

Oh, amável moça, noite, tarde ou manhã
Oh, amável moça, com gosto de maçã
Oh, mais amável das moças, vestida, despida ou nua
Oh, mais amável das moças, levantando, deitando ou na sua

Oh, mais amável das moças, que nenhuma é mais bela ou graciosa
Oh, mais amável das moças, injusta, cruel ou caprichosa
Oh, mais amável das moças, vendo, fazendo, ou apenas sendo
Oh, mais amável das moças, sob o sol ou chovendo

Oh, moça, conceda-me tempo
Para que eu termine minha rima


Aqui a versão original


My wife and I lived all alone,
contention was our only bone.
I fought with her, she fought with me,
and things went on right merrily.

But now I live here by myself
with hardly a damn thing on the shelf,
and pass my days with little cheer
since I have parted from my dear.

Oh come home soon, I write to her.
Go fuck yourself, is her answer.
Now what is that, for Christian word?
I hope she feeds on dried goose turd.

But still I love her, yes I do.
I love her and the children too.
I only think it fit that she
should quickly come right back to me.

Ah no, she says, and she is tough,
and smacks me down with her rebuff.
Ah no, she says, I will not come
after the bloody things you've done.

Oh wife, oh wife -- I tell you true,
I never loved no one but you.
I never will, it cannot be
another woman is for me.

That may be right, she will say then,
but as for me, there's other men.
And I will tell you I propose
to catch them firmly by the nose.

And I will wear what dresses I choose!
And I will dance, and what's to lose!
I'm free of you, you little prick,
and I'm the one to make it stick.

Was this the darling I did love?
Was this that mercy from above
did open violets in the spring --
and made my own worn self to sing?

She was. I know. And she is still,
and if I love her? then so I will.
And I will tell her, and tell her right . . .

Oh lovely lady, morning or evening or afternoon.
Oh lovely lady, eating with or without a spoon.
Oh most lovely lady, whether dressed or undressed or partly.
Oh most lovely lady, getting up or going to bed or sitting only.

Oh loveliest of ladies, than whom none is more fair, more gracious, more beautiful.
Oh loveliest of ladies, whether you are just or unjust, merciful, indifferent, or cruel.
Oh most loveliest of ladies, doing whatever, seeing whatever, being whatever.
Oh most loveliest of ladies, in rain, in shine, in any weather.

Oh lady, grant me time,
please, to finish my rhyme.

A História do Widescreen I

Agora que pra essa Copa que passou um monte de gente finalmente comprou sua tevê widescreen, está na hora de saber um pouco mais sobre os formatos panorâmicos, como e por que eles surgiram, e por que alguns deles ainda mostram na televisão as odiadas tarjas pretas:

O primeiro formato widescreen foi o cinerama. No começo dos anos 50, na tentativa de reverter a perda de público, atribuída à televisão. Em 1946-1948, a audiência média semanal era de 90 milhões de pessoas. Em 1953, havia caído à metade - 46 milhões. Simultaneamente, entre 1948 e 1955 houve um aumento de 88% na quantidade de lares com tevês e certamente essas estatísticas estavam correlacionadas.

A primeira tentativa de oferecer na tela grande algo que a pequena não pudesse imitar foi o 3-D. Os primeiros filmes foram muito bem-sucedidos, mas não dispunham da tecnologia de projeção digital hoje existente. Eram necessários dois projetores, cada um exibindo a fita relativa a cada olho. Se eles não estivessem perfeitamente alinhados e sincronizados, o efeito ia pras cucuias. Além disso, a maioria dos cinemas tinha só dois projetores - pra exibir um rolo enquanto se trocava o outro. Sem nenhum projetor na reserva, os longametragens tinham que parar no meio pra que houvesse a troca.

Com essas dificuldades - sem contar os incômodos óculos, ainda por cima difíceis de usar pelos já naturalmente quatro-olhos - o 3D saiu de moda tão logo os "grandes formatos" - inicialmente anunciados como "3D sem óculos" tomaram conta dos cinemas.

O primeiro a aparecer foi o Cinerama. De Abel Gance a produtores americanos, um monte de gente já tinha tentado aumentar a largura da projeção desde os anos 20, mas as modificações que seriam necessárias nos exibidores e nas telas inviabilizaram a ideia. Foi preciso o clima de salve-se quem puder do início dos anos 50 - não só a chegada da tevê como a lei que proibia os grandes estúdios de terem seus próprios cinemas - para que alguém pensasse em investir nesse rumo.

Durante os anos 30 Fred Waller desenvolveu um sistema em que cinco câmeras filmavam um arco completo de 180 graus, como uma meia-abóbada, algo como o cinema em 180 graus exibido em parques de diversões eventualmente. O governo americano se interessou pela coisa e a usou para treinar artilheiros de bombardeiros num simulador extremamente realista para a época. Passado o conflito, Waller começou a tentar interessar gente do ramo de entretenimento na sua ideia.

Um dos que se interessou foi Lowell Thomas - o repórter que imortalizou Lawrence da Arábia, interpretado no filme homônimo por Burt Kennedy. O sistema foi adaptado para três câmeras filmando uma tira com um arco de 140 graus, cada uma usando um fotograma com seis furos de altura - 50 por cento a mais do que o normal, quatro furos, ou seja, no total, cada imagem teria 4,5 mais área do que um negativo comum.


A projeção em cinerama

As câmeras usavam uma única lente, assim como os projetores. A tela seria semicircular, envolvendo o espectador. E pela primeira vez desde o fracasso de Disney em FANTASIA, seria usado som multicanal. A ideia básica era a de que, com todo o campo de visão preenchido, inclusive a visão periférica, quem assistisse teria a sensação de estar dentro da cena. E pelo jeito funcionou às mil maravilhas. Com uma imagem nítida, clara e radiante abraçando o público numa tela muuuuuito maior do que a normal, o documentário ISTO É CINERAMA, com diversos esquetes - o mais famoso deles uma viagem de montanha-russa filmada de dentro de um carro - tornou-se o filme mais lucrativo de 1954, apesar de ser exibido em apenas uma sala (mas com os ingressos sensivelmente majorados).

Assim começou a febre do Cinerama. Domos para exibição foram abertos em todos os Estados Unidos. O sufixo "rama" passou a ser usado pra qualquer coisa - pizzarama, ferrorama, autorama. Mas antes de 1970 o sistema estaria completamente extinto. Se a sincronização de dois projetores já era um problema no 3D, com três era um pesadelo - embora as salas exibidoras, que tinham lugares marcados como no teatro e ingressos muito mais caros, fossem muito mais capacitadas pra enfrentar obstáculos na projeção. Havia até mesmo um curtametragem para exibição no caso de qualquer interrupção.

Mas filmar em cinerama acabou mostrando-se quase completamente inviável. Embora vários documentários, altamente rentáveis, fossem feitos, e a primeira película dramática do sistema, A CONQUISTA DO OESTE, fosse um sucesso, a produção mostrou-se altamente problemática. A distância focal fixa só permitia closes com os atores bem de perto, o que distorcia seus rostos com as lentes grande-angulares. E com a tela semicircular, a composição das cenas era virtualmente impossível.


Quando esta cena foi filmada, os atores estavam frente a frente, olhando um para o outro. Com a exibição na tela curva, seus olhares parecem estar perdidos na distância. Isto tornava um filme dramático em cinerama um verdadeiro problema de logística, afora todas as dificuldades inerentes - câmera gigantesca, uma única lente, uma única distância focal...

Se dois atores estivessem lado a lado durante a filmagem, com um olhando para o outro, na projeção em semicírculo, seus olhares se perderiam no infinito, como no exemplo acima. Cada cena tinha que ser montada levando esse efeito em consideração, o que praticamente descartava elaboradas cenas de ação filmadas de perto. Em A CONQUISTA DO OESTE, pra se superar esse obstáculo, usou-se um outro formato, o CAMERA 65, que nada mais era que uma única câmera com um negativo de grande formato. Perdia-se a claridade da imagem, perdia-se o ângulo de 146 graus que simulava a visão humana e criava o envolvimento do espectador, mas mantinha-se a tela grande e facilitava-se sobremaneira a produção.

Infelizmente, com mais cinemas especiais do que as parcas produções em cinerama conseguiam preencher nos anos 60, essa ideia de adaptar fitas em grande formato para o sistema acabou tornando-se a única maneira de se fazer um filme pra mostrar nos domos. Aos poucos o público foi ficando frustrado, já que pagava um preço muito mais caro pra ver um longa numa tela enorme, é verdade, mas sem o estéreo, sem a inimitável qualidade de imagem e sem o efeito de envolvimento causado pelo arco de visão de 146 graus. Isso eles já podiam ver por um ingresso bem mais em conta com o cinemascope, o panavision e o 70 mm. Sem material pra exibir, as casas foram fechando as portas, e as poucas que sobrevivem são salas de arte com programação infrequente pra dar ideia às novas gerações do que era a coisa. Que, segundo quem já viu, é muito mais impressionante do que o IMAX, o formatão mais popular de hoje em dia.


Mesmo nesta imagem reduzida, fica patente a extraordinária beleza pictórica dos quadros do cinerama. O formato côncavo foi criado para exibições alternativas em telas planas, para dar mais coerência à perspectiva, que sofre por três pontos de fuga diferentes. Note que os olhares do índio em primeiro plano e de James Stewarte não estão perfeitamente alinhados; durante a filmagem o nativo americano provavelmente estava bem mais à frente de para onde Jimmy Stewarte olhava.

O formato do cinerama era de 2.59:1, o que quer dizer que a largura dele era 2,59 vezes maior que a altura. Pra se ter uma ideia, a antiga tevê de tubo era 1.33:1, e os aparelhos de tela plana são 1.78:1. Isso significa que o cinerama é bem mais largo do que as televisões contemporâneas e mesmo nelas o espectador verá tarjas negras - bem menores, é verdade - em cima e embaixo. Mas em compensação, que imagem. A CONQUISTA DO OESTE foi lançado em blu-ray e recomendo pra quem quiser ver a capacidade de seu home-theater - a fotografia e a beleza do quadro é nada menos que espetacular. Com a ajuda dos computadores, ficou bem mais fácil suavizar as junções, onde os três filmes se juntavam pra fazer a cena inteira, mas quem prestar atenção localiza facilmente. Também é digno de nota o efeito bizarro que os três pontos de fuga proporcionam. Numa cena, por exemplo, uma diligência parece vir da esquerda, fazer uma volta no centro e voltar pra de onde veio, devido à perspectiva distorcida.

De qualquer forma, o cinerama abriu as portas pra inovação tecnológica mais bem-sucedida no cinema depois do som e da cor, a tela panorâmica (widescreen). Impressionados com o sucesso do sistema, a Fox foi pedir emprestado a um francês uma lente anamórfica, capaz de comprimir dentro de um negativo normal uma imagem quase duas vezes mais larga, o que deu origem ao Cinemascope, hoje o Panavision, outro incômodo para os donos de tevês de tela plana.

Um Thunderbolt no Aterro do Flamengo


O Republic P-47 Thunderbolt foi provavelmente o maior caça monomotor e monoposto a pistão jamais construído. Como o Sherman, vê-lo em fotos não dá ideia de seu tamanho - recomendo visitar respectivamente o Museu Militar Conde de Linhares, em frente à Quinta, e o Museu Aeroespacial de Campo dos Afonsos, pra confirmar como os bichos são grandes. Esse Thunderbolt, aliás, é lá do último museu, e saiu pra passear no dia da aviação de caça, quando é homenageado no Aterro do Flamengo, em frente ao Monumento aos Mortos da II Guerra. Por coincidência ou não, foi no mesmo fim de semana da Red Bull Air Race.


Como já disse em uma postagem anterior, a abordagem americana para armamentos era fazê-los grandes, blindados, cheios de potência e bem armados. O P-47 não era ágil, não subia tão rápido (pelo menos não antes de algumas modificações), mas era quase impossível de derrubar e era o único monoposto monomotor da II Guerra a carregar OITO metralhadoras de .50 polegadas (outros caças levavam no máximo seis), além de poder carregar foguetes e bombas, tornando-o na prática um avião de ataque.


Meus dedos - que não são pequenos, não é, Marissa? - mostram a escala do calibre do armamento do Thunderbolt. Os ianques foram lutar uma guerra longe de casa e certamente não seriam bombardeados por aparelhos inimigos grandes e bem blindados. Assim, em vez de usar os canhões que os ingleses usavam, capazes de derrubar bombardeiros mais facilmente, deram preferência a metralhadoras, com maior cadência de tiro, ideal para abater caças monomotores, mais rápidos, ágeis e difíceis de acertar... mas também mais vulneráveis e fáceis de derrubar uma vez atingidos.


Havia uma fita cercando o avião, mas bastou o guardinha deixar um sujeito cruzá-la pra tirar uma foto e logo estavam montando na fuselagem, nas asas e até nos ailerons. O vigia tentou tirar, mas sempre pediam pra deixar tirar um último retrato e, quando isso acontecia, outras pessoas aproveitavam pra cruzar a linha. Acabei convencendo o soldado a ser antipático e tirar todo mundo - assim eu poderia tirar minhas fotos sem ninguém atrapalhando meu enquadramento. Aqui outra tentativa de se dar uma escala do caça.


Já que todo mundo entrou, também entrei pra fotografar a cabine do P-47.


Imagino que aí todo mundo saiba que o P-47 foi o avião que a FAB usou na II Guerra Mundial, carregando esse escudo.


Pra quem duvida da eficácia da FAB na II Guerra, cada bombinha pintada dessas equivale a uma missão de bombardeio bem-sucedida. O Thunderbolt podia carregar até mais de uma tonelada de bombas, o mesmo que um bombardeiro médio durante boa parte do conflito, com a vantagem de poder se defender sozinho uma vez livre de sua carga, ou causar confusão metralhando as linhas inimigas.


O Thunderbolt e o Monumento aos Pracinhas.

julho 12, 2010

Manchete Surreal do Dia

BOLA APARECE PARA DEPOR NO CASO BRUNO

O que ela ia dizer? "Ele vivia tentando me agarrar, me chutava e me jogava pros companheiros tentarem me matar"?

julho 11, 2010

Vocês Já Repararam...

... que a história de um super-homem fracassado, no momento de transição de uma nação para a modernidade, abraçando erradamente o materialismo, cometendo crimes e sendo consumido pela culpa é o tema tanto de CRIME E CASTIGO quanto do excelente À MEIA-NOITE LEVAREI TUA ALMA?

TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS

Maria Madalena saiu da crucificação, viu esse anúncio e entrou...

julho 07, 2010

Posso estar errado, mas...

O Messi ainda vai ganhar muitos títulos, talvez ainda seja eleito o melhor do mundo uma ou mais vezes, mas essa Copa provavelmente vai marcar o ponto onde ficou claro que ele não seria um dos melhores de todos os tempos. Pela primeira vez ouvi gente dizendo desde que ele é fominha até que tudo que ele sabe fazer é correr mudando de direção rápido.

Só pode ser sacanagem...

julho 02, 2010

A Culpa...

... obviamente foi do Júlio César. O Dunga burro não entendeu que pra jogo de mata-mata tinha que ter levado o Bruno.

julho 01, 2010

Amanhã Tem Mais

Linhas de Naszca


O Leitor II





Veja aqui a primeira postagem de um leitor similar.

junho 30, 2010

Um Celular com Câmera no Aterro





Um Celular com Câmera no Aniversário da Bel


Brasil x Costa do Marfim






O salmão no azeite e a salada de macarrão no molho de iogurte fizeram tanto sucesso - além de dar sorte - que vou repetir a dose nesta sexta!

junho 29, 2010

E dei a todas as coisas um nome
E elas me deram o meu

Saberei que estou morto
Não quando não mais puder escutar, tatear
Ver, saborear ou cheirar
Mas quando não puder mais pronunciar o meu nome
No universo de minha mente

Eu existo neste mundo
Ou como um som não pronunciado
Flutuando em meu crânio?

Serei eu um homem
Serei eu o Deus de minha criação

Ou serei eu uma palavra?

Abaixo o Futebol-Força e o Futebol-Arte: Viva o Futebol-Bauhaus

Entre 1998 e 2003 fui colunista do finado site www.futbrasil.com. A idéia era não só comentar e analisar jogos, jogadas e jogadores, mas tentar ensinar o leitor a fazer sua própria análise. Eis aqui, por exemplo, uma coluna de 1999 sobre futebol-arte, futebol-força e Denílson, uma das maiores focas amestradas da história do futebol (sabe fazer tudo que é malabarismo com a bola, mas jogar que é bom...):

Só os loucos e os mortos não mudam de opinião. Um dia ainda lembro do autor desta frase, mas até lá ela vai continuar apócrifa. Como esta coluna é meio louca, ainda não mudou de opinião. Quem o fez, dia desses, talvez justamente por ter pós-graduação em Psicologia, foi o Tostão. Quanto ao Denílson, com seu individualismo exacerbado, seus dribles inúteis e sua infantil maneira de rebater qualquer instrução tática - que os jogadores nesta situação normalmente chamam de "críticas" - respondendo que foi jogando desta maneira que chegou à seleção, ao estrelato, à cama da modelo e atriz da vez e assim por diante. Pois bem, o genial cegueta finalmente chegou à conclusão que o mascarado não é o craque que muita gente julgava ser. Para tanto, valeu-se de critérios de um antigo treinador seu, que perguntava a seus comandados se achavam que tinham jogado bem, "quantos gols você fez? Pelo menos passe para gol? Sofreu pênalti? Não? Nada?" Conceitos um tanto rudimentares, talvez, mas ainda assim, reconhecivel e inegavelmente os mesmos que se usam em estética. O técnico do ex-cruzeirense, quem diria, não estava admoestando seus jogadores, estava fazendo crítica de arte.

Arte? Como assim, arte? Estes conceitos parecem mais afeitos ao futebol-força, ao futebol de resultados, ao Parreira e ao Zagallo. Essa história, na verdade, já acabou há muito tempo. Não existe mais futebol, arte, ou não, sem força. Qualquer habilidoso e técnico driblador vai precisar de arranque, velocidade e massa corporal para se equilibrar hoje em dia. Iranildo que o diga. Ou o anabolizado Zico. Os defensores do jogo ofensivo "tipicamente brasileiro" estão prestes a esfolar o Parreira quando ele diz que o gol é apenas um detalhe, mas quando o Denílson, com seus dribles desnecessários, para o lado e para trás antes de seus passes laterais, demonstra na prática que para ele o tento é apenas uma minudência no objetivo maior que é mostrar ao mundo suas qualidades com a bola, quase tão grandes quanto as de uma foca amestrada, aqueles mesmos apologistas do à l'outrance, à l'outrance acham que estamos diante da mais pura essência do esporte.

É claro que esta posição, além de uma contradição, é um erro. Denílson é um exagero barroco no edifício bauhaus que deveria ser a seleção brasileira. A digressão kitsch destoando do eficaz circuito Élber/Amoroso do primeiro tempo contra a Rússia. E quando digo que Denílson é kitsch, não é por causa de suas sobrancelhas ou do seu corte de cabelo. É porque ele encarna em campo o significado original da palavra, como é usado em estética e linguística. Qualquer meio de comunicação carrega uma mensagem. Tudo que não for absolutamente necessário para a compreensão desta mensagem é o kitsch. Na obra de arte, qualquer recurso usado somente para causar um efeito desnecessário. Nos grandes trabalhos, a forma está unida indissoluvelmente ao conteúdo. Nos menores, tenta-se valorizar um conteúdo banal com uma embalagem valiosa. Um personagem que declama poesia, apenas porque é bonito, numa novela. Um abridor de garrafas com a efígie do Ronaldinho, também - neste caso, o indicado seria que o punho fosse anatômico e não cheio de protuberâncias imitando os dentes dele. O atacante estaria insculpido no artefato sem nenhuma função aparente.

O kitsch é ideologica e politicamente conservador, já que tenta dar a trabalhos vazios ou superficiais alguma importância adicionando-lhes trechos inofensivos de obras culturais reconhecidamente mais relevantes. O caso do personagem que lê poesia, por exemplo. Ou usar música clássica num filme do Van Damme. Ou o do pintor francês do século passado que pintava retratos com o rosto em estilo realista e o corpo impressionista. Assim, o burguês que comprava a tela tinha seu rosto inexpressivamente reconhecível da forma mais rasteira enquanto podia dizer aos amigos que era "inteligente" por ter se deixado pintar de forma impressionista.
É esse falso valor que não se deve agregar ao futebol. Denílson é o símbolo mais atual de uma concepção atrasada de se jogar. Como já dizia o movimento bauhaus, a linha reta é a grande conquista da humanidade. Não existe na natureza. A beleza na arte está na concisão e simplicidade. Em como algumas centenas de palavras ou pinceladas podem remeter aos mais complexos sentimentos. Em como alguns tons de amarelo dos milharais de Van Gogh podem evocar tanta angústia. E não em desnecessárias excrescências ali apostas apenas para mostrar como seu autor é culto e inteligente.

Está na hora de acabar com esta divisão entre futebol-arte e futebol-força. Está na hora de começarmos a clamar pela perfeição do futebol-bauhaus.
*****
Dizem que Oswald - ou Mário, não me lembro bem - de Andrade não gostava de esportes, mas se encantava com futebol. Futebol brasileiro. Que ia e vinha como se num balé, que serpenteava até encontrar o caminho para o gol. Será que este Andrade modernista não entendia nada de futebol ou de arte?

Entendia. Entendia até de guerra. Porque além de ter princípios comuns a arte, futebol tem também conceitos militares. O que não deveria causar surpresa a ninguém, já que wargames como xadrez são hoje em dia parte integrante do currículo de administradores, corretores e gerentes das empresas reengenheiradas e downsizeadas do nosso globalizado mundo neo-liberal.
Essa negação da linha reta que celebra as idas e vindas do jogador brasileiro só é verdadeira se tomarmos literalmente as declarações da turma bauhaus. Além de concisão, outra grande qualidade da obra de arte é a simplicidade. E a simplicidade é a criatividade de descobrir o óbvio, que para pôr o ovo em pé é só quebrá-lo. O caminho mais fácil nem sempre é o mais curto. Há que se buscar aquele que opõe a menor resistência.

Voltemos ao Denílson. Observemos seu jogo. Ele não se movimenta muito pelo campo. Vamos encontrá-lo quase sempre parado no mesmo lugar, na ponta-esquerda. Quando ele receber a bola com dois jogadores em cima, ele vai tentar dominá-la e driblá-los, mesmo consciente de que se há dois defensores nele, em alguém tem um ou menos. Isto é buscar o ponto de menor resistência? Isto é simplificar a jogada? O drible é para encurtar o espaço até o gol, não para alongar.

Há alguns anos, antes da Olimpíada de 96 e daquele jogo com o Japão que desestruturou todo o belo trabalho que Zagallo vinha fazendo pós-94, ainda farei uma coluna sobre este assunto, o Brasil fez um amistoso contra um time olímpico dinamarquês. Um dos mais belos gols foi uma jogada que começou com o avanço de Zé Maria pela lateral. Ao se ver cercado, ele voltou à bola ao meia direita, que tocou de lado para o meia-esquerda, que lançou Roberto Carlos, que correu e cruzou para Ronaldinho fazer o gol. Como foi tudo rápido e de primeira, a defesa que se organizara do lado direito não teve tempo de se rearmar. Isto é a simplicidade. A busca do caminho mais curto, mais direto, mais fácil, de menor resistência. Fundamental nesta anabolizada época em que vivemos, lembrem-se do que eu disse lá em cima, não há mais arte sem força. E para ver o quanto se evolui no campo da preparação física e desenvolvimento muscular, é só assistir aos tapes da Copa de 82, por exemplo, como todo mundo era mais magro. O Brasil, por exemplo, era composto de jogadores de pouco mais de 1m70. O metro e oitenta e três fariam de Ronaldinho um gigante naquele time.

E é aqui que acontece o paralelo com a guerra. Cheguei a citar o à l'outrance, à l'outrance quando falei dos defensores do futebol ofensivo acima de tudo. À l'outrance era a doutrina equivocada do exército francês na I Guerra Mundial. Privilegiava o ataque amplo e ilimitado como única forma de se obter vantagem no campo de batalha. Tal filosofia se baseava na guerra franco-prussiana de 1870. Os gauleses, detentores do primeiro bom rifle de carga pela culatra, que atirava duas vezes mais rápido e mais longe que os dos outros países, acreditaram que uma tática defensiva, usando o alcance do fuzil Chassepot, manteria os teutônicos à distância. Tal não aconteceu e os franceses foram atropelados pelos prussianos. Analisando o acontecido, cônscios de que mais cedo ou mais tarde iriam lutar novamente contra o mesmo inimigo, chegaram à conclusão que os defensores, mesmo com uma arma superiorm, não conseguiriam reunir poder de fogo suficiente para derrubar uma longa linha de atacantes determinados. Era também o conceito do Clausewitz, o grande pensador militar da época (http://www.monumental.com/cbassfrd/CWZHOME/CWZBASE.htm), que preconizava que uma nação deveria concentrar o máximo de sua força e jogá-la contra as tropas mais importantes do inimigo para decidir tudo logo de uma vez. Era o chamado "encontro decisivo".
Pois os franceses passaram quarenta e quatro anos incutindo na cabeça de seus soldados à l'outrance, à l'outrance, atacar a qualquer preço e sem parar. Nestes quarenta e quatro anos inventou-se o canhão de tiro rápido e bala explosiva e o fuzil de repetição, capaz de atirar mais longe, com muito mais precisão e cinco vezes mais rápido. E a metralhadora. Entrincheirados, quase inatingíveis para um infante caminhando em sua direção, os defensores podiam varrer seus inimigos em rajadas, podiam derrubá-los com precisos e rápidos tiros de rifle e despedaçá-los com cargas de canhão explosivas. Por sorte, o pensamento militar alemão também parara em Clausewitz e a carnificina acabou acontecendo dos dois lados, embora os gauleses insistissem por mais tempo que os germânicos na ofensiva guerra-arte, o que causou um motim de tropas e quase acabou com a França.

Foi assim que começou a predominar o pensamento militar de Sun Tzu. Um general chinês das antigas, autor de A Arte da Guerra (http://www.mit.edu/people/dcctdw/AOW/toc.html, em inglês), que previa que o objetivo da guerra era estar antes do inimigo onde devia estar. Procurar o ponto fraco de suas tropas. Procurar o elo quebradiço na cadeia de comando oponente. Velocidade, habilidade em enganar, iludir, preparação moral e psicológica dos exércitos, em suma, um estudo surpreendentemente amplo, atual e açambarcador dos mais diversos ramos da atividade humana, num texto de cerca de sessenta páginas. Vários de seus ditos se assestam perfeitamente ao futebol, principalmente quando ele fala de moral e sistema de recompensas. Mas o melhor nestes tempos de Van der Ley e Marcelinho não está no ensaio de Sun Tzu, desabusadamente usado em ensino de administração. O melhor está numa lenda sobre o grande comandante oriental:

Contam que um imperador, sabendo que Sun Tzu era conhecido como o maior general de seu tempo, capaz de organizar qualquer exército, pediu-lhe que treinasse militarmente suas concubinas, somente para ridicularizar o militar. Este sabia que não poderia recusar, mas exigiu que lhe fosse dada carta branca, como teria se estivesse treinando soldados normalmente. O imperador concordou. Depois de algumas instruções básicas e de nomear uma subcomandante, Sun ordenou-lhes "Tropas! Marchem!" e as mulheres começaram imediatamente a rir. Sun Tzu disse "se os comandados não seguem as ordens, ou estas não foram suficientemente claras, ou o oficial que as expediu não se fez compreender ou o comandante direto não soube manter a disciplina". E repetiu a ordem. As mulheres voltaram a rir daquele velhinho tão solene no meio daquela brincadeira toda. Sun disse "as ordens foram perfeitamente claras. Ou o oficial que as expediu não se fez compreender ou o oficial responsável não sobue manter a disciplina". E repetiu a ordem, da maneira mais límpida possível, causando novo acesso de riso na mulherada. O calejado soldado então disse, "se os comandados não seguem as ordens, que foram claras e o oficial que as expediu se fez compreender perfeitamente, então o comandante das tropas não soube manter a disciplina" e ordenou imediatamente que cortassem a cabeça da subcomandante. O imperador tentou impedir, mas Sun Tzu foi inflexível. A moça foi executada, o mulherio todo depois saiu marchando direitinho e o imperador achou que já estava bom e dispensou nosso sábio.
Talvez tivéssemos alguns atacantes a menos, mas com certeza teríamos melhores times.

Bolhas


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