junho 13, 2011

O Chafariz do Lagarto


Esta foto aí de cima roubei do blogue de Rio Antigo do JB, que ainda funciona online. São os restos do aqueduto do Catumbi, na rua Santa Alexandrina. Isso mesmo, os Arcos da Lapa não foram a única obra do tipo no Rio. Dentre os outros, o que mais se destacava era este. Levava água até onde hoje é a Frei Caneca.


Mais exatamente aqui, atrás do Sambódromo e em frente ao Batalhão da Polícia Militar. Parece uma parede branca, mas é o famoso Chafariz do Lagarto, inaugurado em 1768 e tombado pelo Patrimônio Histórico. E pensar que você já cansou de estacionar o carro aí pra ver show na Apoteose e nunca reparou nele.



O lagarto acima era originalmente de bronze e teria sido fundido pelo próprio onipresente Mestre Valentim. Roubado nos anos 60, foi substituído por uma réplica de ferro, daí a ferrugem e os pedaços que já eram.



A água originalmente escorria pela boca do lagarto ao tanque abaixo.





Mestre Valentim, como todo mundo sabe, era excelente escultor, daí a beleza dos traços limpos e simplificados do lagarto, em linhas quase modernas - não há nada de primitivo nesta concepção.





O blogueiro foi recebido pela Jô, apelido de Josefa, a senhora abaixo, que toma conta do monumento. Até pouco tempo atrás, a casa no chafariz, segundo ela, era ocupada por bandidos e marginais, que foram desalojados pela polícia. Jô conta que fez um pacto com o Patrimônio Histórico e, em troca de residir nas instalações do chafariz, toma conta da estrutura.



Jô conta que ela é o único motivo de não ter sido ainda levado o lagarto de ferro.
Se uma moça tão delicada consegue tomar conta de um monumento é um ponto a se discutir, mas seu cachorro sem dúvida consegue. Foi ele quem impediu que o blogueiro e fotógrafo se aproximasse mais da guardiã do Chafariz do Lagarto. Apesar das assertivas dela de que o búfalo de guerr, digo, o cão não mordia, apenas brincava, este escriba preferiu manter uma distância segura da dupla, ainda mais que a besta peluda não tinha a menor dificuldade para arrastar pela coleira a sua suposta dona.



Abaixo a porta para a residência no Chafariz do Lagarto. Jô diz que pretende repintar toda a estrutura e principalmente plantar flores no tanque, para dar outra aparência ao monumento.



Com a chegada da família real ao Brasil e o crescimento da cidade, principalmente pros lados da Cidade Nova, o Chafariz do Lagarto começou a não dar conta para a população, razão pela qual foi construída logo do lado esta cisterna, também em frente ao Batalhão de Polícia Militar, mas ainda na Frei Caneca mesmo, e igualmente tombada pela IPHAN.






Só que esta cisterna parece não ter nenhuma Jô pra pelo menos dar uma esperança de alguém dar uma recuperada nela...

Mãe e Filha

















junho 09, 2011

The Matrix



O Marquinhos passou sábado aqui com o filho Lucas. Pra distrair o moleque de 6 anos, liguei meu Wii e botei o jogo acima, a luta de espadas do disco do Sports Resort. Pra quem não está ligando o nome à pessoa, o Wii é aquele console em que, em vez de apertar teclas direcionais, você segura o controle como se fosse um bastão e os seus movimentos são espelhados pelo seu avatar na tela. O blogueiro não jogava games desde a época do primeiro The Sims, mas essa sacada da Nintendo me fez comprar um aparelho pra mim - e valeu a pena, até minha mãe, que nunca tinha posto as mãos num jogo eletrônico, se amarrou no boxe.

O Sports Resort contém um aparelhinho que torna os movimentos na tela ainda mais fieis ao que você faz com o controle, dando ainda mais realismo. Com uma tela de 50 polegadas na sua frente rodando esse ataque de esgrima aí em cima, a sensação é de que você é o Toshiro Mifune abrindo caminho entre inanes adversários. Em suma, o joguinho é um barato e o Lucas ficou fascinado pelo jogo, não queria nem ir embora. Ainda falei com o Marquinhos que podíamos descer até o Praia Shopping comprar o disquinho (o Marcos tem o Wii (1), mas ele estava com pressa e disse que veria depois isso no Shopping Center da Gávea. Que, obviamente, não tinha o game. Assim, ele chegou em casa e encomendou imediatamente pelo Submarino o seu exemplar.

Isso foi no sábado. Como o joguinho só chegaria na quarta, o Lucas, ansioso demais para esperar, fez o pai comprar espadinhas de plástico para lutar com ele. O garoto até regulamentou que eles teriam dez "vidas" - cada toque de espada valeria uma vida (e imagino o Marquinhos, cada vez que deixava que seu herdeiro o acertasse com aquela delicadeza típica das crianças de seis anos, me maldizia entredentes), mas é claro que a brincadeira foi apenas um pálido paliativo até a chegada do disquinho. Como me disse o Marquinhos, na quarta, quando o game chegou:

- Como ele estava sem a opção do mundo virtual, teve que se contentar com o real mesmo...

O futuro chegou em três eixos...

(1) Mostrando como adultos são criaturas muito mais maduras e complexas do que crianças de seis anos, no dia em que comprei meu Wii, o Marcos veio me visitar, ficou fascinado com o boxe, o tênis e o boliche do jogo original Wii Sports e, no dia seguinte me pediu preu comprar um Wii pra ele, digo, pro filho (que tinha então quase três anos).

A Segunda Temporada de Jornada nas Estrelas - A Série Original



Dia das Bruxas


A Enterprise está cuidando de sua vida quando é feita refém por entidades semidivinas exigindo a presença de Kirk no planeta abaixo. Vem cá, se você fosse uma entidade semidivina, será que você não teria nada melhor pra fazer do que ficar pentelhando o orgulho da Frota Estelar? Os organianos, por exemplo, preferem ficar na sua a interagir com esses primitivos carboniformes, o que é algo muito mais sensato pelo ponto de vista de uma criatura altamente evoluída e poderosa além de nossa compreensão, mas eles parecem ser exceção num universo onde a diversão favorita de semideuses é mexer com o capitão Kirk – e obviamente levar uma trolha.

Robert Bloch escreveu Psicose e redigiria um dos melhores episódios de Jornada, o do Jack, o Estripador. Mas aqui alguma coisa saiu terrivelmente errada, ou na sua concepção ou nas sucessivas alterações que o roteiro sofreu em seu caminho do papel para a tela. Misturados na confusão estão um marido corno, as três bruxas de Macbeth, uma mulher que vira pantera como em Cat People (1943), um clássico do cinema de terror refilmado em 1981 com Nastassja Kinski, e muita, muita enrolação.

Diz a lenda que, ao filmar o maravilhoso film noir “À Beira do Abismo”, Bogart perguntou ao diretor, Howard Hawks, quem cometia um dos assassinatos da intrincadíssima trama. Hawks não sabia, mesmo depois de perguntar ao roteirista William Faulkner (que equipe, hein?), e resolveram ligar no meio da noite pro autor do livro original, Raymond Chandler (1), que também disse que não fazia a menor ideia. O mesmo provavelmente aconteceria se alguém perguntasse exatamente o quê esses alienígenas de fora da galáxia vieram fazer aqui. Eles falam algumas bobagens sobre querer saber como funciona a ciência humana, mas sem muita convicção. Mais decidida parece a mulher extragalática em aprender a trepar, mas o corno deixa bem claro que essa é uma deturpação da missão original.

Capazes de criar qualquer coisa do nada e fazer de uma astronave gato e sapato com o que parece ser magia, os alienígenas parecem estar perdendo tempo querendo dominar a ciência. Talvez a ideia original para o roteiro abordasse um velho questionamento místico, de que você só pode compreender o universo científica ou magicamente, mas não de ambas as maneiras, o que, de qualquer maneira, perdeu-se completamente no tratamento final.

Sem nada realmente ocorrendo durante a maior parte do episódio, os tripulantes da Enterprise são controlados, libertados, recapturados, e Kirk faz uma de suas melhores interpretações de “Flash-Gordon-desejado-pela-bandida-o-que-possibilita-uma-fuga”, mas nem isso chega ao fim. O corno é quem acaba abrindo as portas da cela, o que dá chance para uma horrorosa perseguição de um gato preto perseguindo nossos heróis, sendo exigido dos espectadores que imaginem que o bichaninho é uma gigantesca e ameaçadora pantera. Em “Cat People”, pelo menos no original, a repressão sexual da protagonista a fazia crer que ela viraria uma fera incontrolável se abrisse as pernas até mesmo para o marido, mas aqui, embora a atriz convidada (mais velha do que a média) exiba uma forte curiosidade sobre o que significa aquele estranho calor na bacurinha nunca antes experimentado, o tema também se perde completamente.



O episódio, como diz o nome, “Dia das Bruxas”, está mais para terror do que para ficção científica, exceto no pavoroso final, quando Kirk destrói (outra vez) a fonte de poder das criaturas e elas mostram o que realmente são: marionetes que seriam recusadas para fazer figuração no Muppet Show por muito trash. O blogueiro não lembra como elas pareciam na tevê, mas num DVD remasterizado, com resolução aumentada pelo player, num monitor de alta definição de 50 polegadas, os fios controlando-as são absurdamente visíveis. Sem contar que o desenho dos pobres fantoches lembra o Garibaldo de porre indo para uma festa new wave. É lamentável que a obsessão de Roddenberry de fazer sua tripulação encontrar Deus (ou uns feiticeiros poderosos) tenha levado a isso. Felizmente o próximo encontro de Robert Bloch com a Enterprise seria muito mais memorável, embora também com uma temática de horror e alienígenas incorpóreos e poderosos.




Digno de nota:

Contagem de corpos: um oficial da Enterprise e dois alienígenas extragaláticos.

O cabelo de Chekhov é inacreditável. Este foi o segundo episódio a ser filmado na segunda temporada; felizmente o penteado mudaria nos próximos.

O corno tenta subornar a galera da Enterprise com pedras preciosas, o que leva a turma de Kirk a rir com desprezo, já que eles podem fazer o mesmo no replicador da nave. É a primeira alusão da série (e do universo trekkie) à inexistência de dinheiro no século XXIII. O tema seria levado mais adiante nas séries posteriores e é curioso por contrastar fortemente com vários dos episódios, claramente anticomunistas (estávamos no auge da Guerra Fria, lembra?), e com o positivismo humanista, porém claremente capitalista (e mais diria – libertariano, até), de Roddenberry.

(1) Como disse meu crítico online preferido, Glenn Erickson (www.dvdsavant.com), se alguém me ligasse no meio da madrugada perguntando um detalhe sobre algo que eu escrevi anos atrás, eu provavelmente também não faria a mínima ideia.

Christina Aguilera


Acima ela vestida, só com uma vista translúcida de seu famoso piercing de mamilo...




Mais nham-nham do que se estivesse nua...

junho 07, 2011

Fortaleza 2011























Um Celular com Câmera no Cine Joia


A galeria do Cine Joia é tipicamente moderna, e uma das maiores bandeiras é esse tanque de pouca profundidade em que as carpas pareciam não nadar e sim rastejar, uma caracteristica abundante na arquitetura da época. Só que da última vez em que passei por lá, as carpas tinham sido todas substituídas por... tartarugas!


A maior parte desses laguinhos foi esvaziada de peixes ou de água mesmo, mas este ainda resiste.


A boa notícia é que, talvez pela volta do cinema, as carpas retornaram ao tanque!


Fazia tanto tempo que eu não ia ao Joia que jurava que ele ficava na sobreloja, quando na verdade fica no primeiro subsolo.


O Joia originariamente era o Cine Hora e eu quando criança o frequentava domingos de manhã, as famosas matinês, normalmente com desenhos de Tom & Jerry. Mas o Hora - que aparentemente tinha este nome por ter sessões desde as dez da manhã, um conceito de cinema que desapareceu, aquele em que você entrava pra passar o tempo - se mudou para o Avenida Central, onde resistiu até a década de 90. Ambas as salas eram minúsculas e tinham cheiro de mofo.


O Joia retornou recentemente até com um certo alarde da mídia, já que era a volta de um cinema de rua - o que é irônico, já que ele fica dentro de uma galeria. O último cinema verdadeiramente de rua inaugurado no Rio foi o Copacabana, em meados da década de 50. A partir da popularização da televisão, o quase monopólio que esse tipo de diversão tinha sobre o público foi se esvaindo lentamente. Nos anos 60, as salas que abriram no Rio eram todas dentro de galerias, ou seja, o conceito de que ir ver um filme deveria envolver também comer um lanchinho e passear em lojas, tudo no mesmo lugar, é mais antigo do que os saudosistas querem nos fazer crer. De qualquer forma, é sempre bom ter um lugar com uma tela grande (em termos, maior do que a minha tevê... mas... até quando?). O blogueiro foi à sessão das dez, daí que a galeria já estava fechada. Ajudaria a frequência se tivesse onde fazer uma boquinha por ali. O pessoal que vai a multiplex em shopping não deixa de ter certa razão. De qualquer forma, oito pessoas pra ver uma projeção digital de um documntário do Joy Division não deixa de ser um público significativo pruma quarta-feira em que o Flamengo decidia com o Ceará a vaga na Copa do Brasil.


O cheiro de mofo continua (o Hora também tinha). E puseram uma estatuazinha da Marilyn Monroe - ou uma pin-up que remete a ela - pra dar uma bossa.


Divertido passeio. Espero que o Joia continue aí por um bom tempo.

Lua Cheia em Jericoacoara











junho 06, 2011

Filmes Que Moldaram os Anos 80

Blade Runner

Raríssimos filmes conseguem ser tão a cara da década quanto este. Woodstock era documentário e Sem Destino tinha um fatalismo pouco hippie. Embora a escola Memphis já estivesse em andamento e os New Wave já favorecessem calças de pregas de cós alto, foi este filme quem levou às massas (está bem, à garotada cabeça bem-nascida e afins) os figurinos dos anos 40, o art-decó, o film noir e até o jazz.

É bem verdade que na fita tudo é de segunda mão - embora os exteriores abusem de sombras e formas recortando a cena, Scott abusa de closes e teleobjetivas e PVs normais, ao contrário dos ângulos inusitados, iluminação de alto contraste e planos gerais dos noirs de verdade. A trilha de Vangelis é de música eletrônica sugerindo jazz. Os figurinos de anos 40 ganham tinturas punk. Mas isso é que foram os anos 80!

Comerciais de qualquer coisa tocavam jazz. Calças de cós alto deixavam as meninas com aparência mais gordinha (mais condizente com o visual hiperbombado de malhação da época, ao contrário dos definidos finos de hoje em dia). E a volta do film noir (conjugada com a popularização do VHS) acabou trazendo à moda o cinema americano clássico - até então a nouvelle vague reinava. Ford, Hawks e Huston voltaram à tona e substituiram os então mortos e inativos Godard, Truffaut e Pasolini, que aos poucos foram perdendo sua preponderância. Parte infalível da programação da TV Globo era o clássico americano preto e branco legendado de sexta à noite - às vezes em sessão dupla, no Sessão de Gala e Classe A, em seguida. Num gesto impensável atualmente, quando até o Telecine Cult ignora películas monocromáticas e canais por assinatura de cinema alardeiam que são totalmente dublados, a então Bandeirantes e a Manchete também investiram no filão com longas antigos e com subtítulos!

Mas nem aí acaba a influência de Blade Runner. A direção de arte mudaria para sempre a cara dos filmes de ficção científica. Compare-se o visual que Ridley Scott engendrou para a fita e os do cult "No Mundo de 2020", que também retrata um tira cínico num futuro superpopulado. Escuridão, sujeira, anúncios luminosos, figurinos pós-punk, androginia, até Matrix rende homenagem ao mundo pós-industrial e globalizado do Caçador de Androides. Que, como em toda boa película futurista, está cada vez mais parecida com o nosso dia a dia.

E, last but not least, depois de anos com os heróis brutais e cínicos (quando não amorais) em voga desde o sucesso do grande Sérgio Leone, Rick Deckard (segundo um amigo meu, neto do Rick Blaine) trouxe de volta o romantismo idealista dos anos 40. A versão do diretor, cortando o final feliz, incluiria também o fatalismo. Curiosamente, embora da primeira vez em que tenha visto a fita, tenha achado o fim completamente incoerente com o resto da película, ele acabou se tornando parte tão indissolúvel da história que o corte de Ridley Scott é que acabou virando uma decepção (1) - a negação do "felizes para sempre" acaba soando a uma traição não só ao nosso investimento emocional no ultrarromântico personagem como também ao sacrifício de Rutger Hauer alguns momentos antes.

Quando estreou, Blade Runner deixou muita gente sem entender direito. Até hoje, o povo que tinha mais de uns 25 anos na época não o considera essa coca-cola toda. A Veja e a IstoÉ, na época em que faziam longas resenhas de filmes, praticamente o ignoraram, e o JB o classificou como três estrelas em cinco; somente o Globo pôs o bonequinho de pé batendo palmas. A fita realmente é um tanto desencontrada, com um romance um tanto arbitrário, um protagonista demasiadamente passivo e cenas algo constrangedoras, como Harrison Ford se passando por um inspetor de voyeurs quando visita a replicante stripper. O excesso de estilo disfarça essas falhas e pode predispor gente sem o zeitgeist da era a considerá-lo um pegatrouxa (como o blogueiro considera por exemplo, o patético CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch). Mas o estilo no Caçador de Androides é muito mais do que o glacê. É ele quem torna o ambiente tão opressor que deixa claro ao espectador que chegou-se a um mundo onde não é mais necessária a repressão política - a perda de liberdade tornou-se muito mais econômica, e aí fica a grande diferença entre o algo semelhante (e igualmente brilhante) "Alphaville" de Godard. O risco à democracia não é mais a ditadura, nem o ostensivo poder econômico das multinacionais, mas sim a despersonalização da sociedade de consumo. Tudo isso faz da película um clássico do cinema e imperdível pra quem quer ter a mínima ideia do que foi a década de 80.

(1) Outros detalhes que atestam contra o corte do diretor, na opinião do blogueiro, é a falta da narração em off. Sim, ela é mal escrita; sim, ela não informa nada que não saibamos pelo filme, com exceção do estado civil de Deckard e que aquela língua que o Edward James Olmos fala é um dialeto - que ele também entende, mas é fundamental na criação da atmosfera noir. E também a controversa sugestão (obscuríssima pra quem não ler nada sobre ela) de que Deckard é um replicante - o que, segundo o roteirista, é a completa negação de todo o roteiro!

Cuidado! Seus Genes Vão Pegar Sua Filha!


O casal com diferença de idade aí em cima, segundo o programa de Steve Wilkos, da tevê americana, são pai e filha. Ela tem 18 anos e ficou sem vê-lo entre os 6 e os 16 anos, quando se encontraram no MySpace e acabaram na cama - no sentido carnal mesmo. Segundo a matéria do G1, reproduzida neste saite, eles teriam mostrado ao apresentador um video deles entregando-se vorazmente aos reclames da carne pra provar que estavam falando a verdade.

Nos anos 70 e 80, a corrente mais em voga da psicologia, condizente com a contracultura, era a antipsiquiatria. Tudo era questão de criação, falta de compreensão e solidariedade, essas coisas. Com a emergência dos novos psicotrópicos pra controlar a cabeça dos perturbados, o pêndulo se inverteu novamente e os motivos para aflições mentais e até para a formação da personalidade e do caráter passaram a ser todos genéticos. O principal argumento dessa turma era a de que gêmeos idênticos separados no nascimento tinham boa chance de desenvolver certas características pessoais semelhantes.

Antes desse papo entrar em moda eu nunca tinha sequer considerado que um grupo tão específico fosse tão relevante estatisticamente. O estudo comparava os gêmeos da seguinte forma: se 70% dos pares eram tímidos, então timidez era 70% genética e 30% ambiental. É claro que isso deve ser uma simplificação exagerada das matérias jornalísticas sobre o assunto, ou então esses cientistas ignoraram completamente as mais básicas noções de estatística e desvio-padrão. Para não falar na classificação de timidez e afins. A coisa anda tão eugênica que até homossexualismo está sendo atribuído aos genes, sem explicar como um genótipo que tende a não se reproduzir faça parte de uma parcela tão grande da população.

Mas, face ao caso de irmãos que se reencontram após anos separados e acabam se pegando, foi desenvolvida outra teoria: a da impressão sexual reversa. Todo mundo que já assistiu a um vídeo de vida selvagem sabe que uma ave como galinha ou pato reconhece como sua mãe a primeira coisa que vir ao sair do ovo. Nos humanos, seria o inverso: gente que for criada junta até os seis anos de idade é incapaz de sentir atração sexual mútua. Inverte-se Freud: não se cria um tabu para reprimir o incesto, mas sim o incesto geneticamente reprimido é que cria o tabu.

É claro que isso não explica porque tanto pai pega os filhos, principalmente nos Estados Unidos, onde, a se julgar pelas autobiografias (ou biografias não-autorizadas) de gente famosa o esporte mais popular das terras gringas é carcar a filharada, inclusive no caso acima, em que o careca morou com a garotinha até os seis anos. Dez minutos de pesquisa na Web vão revelar que incesto é uma das fantasias preferidas de pornografia escrita e normalmente quanto mais reprimido é um impulso mais excitante ele se torna...

junho 02, 2011

Alexeieff e sua Pinscreen Apresentam O NARIZ, baseado no conto de Gogol

Você sabe o que é uma pinscreen? Não. É essa traquitana aí embaixo.



É provável que você já tenha brincado com uma dessas. Você a posiciona contra um objeto ou uma parte do corpo (epa!) e os pinos sobem através de orifícios, criando um volume quase semelhante à coisa original. Quase porque obviamente os pinos são em número limitado e não podem recriar cada curva, detalhe e nuance.

Em compensação, com uma boa iluminação lateral a pinscreen pode dar uma textura muito mais rica do que o original, já que cada pino projeta sua própria sombra. Mesmo no brinquedinho aí em cima o efeito é visível e dá uma aparência de estranheza à mão fazendo o símbolo do paz & amor. O que aconteceria então se fosse usada uma tela com muito mais pinos e maior resolução? O video da vernissage de inauguração da maior do mundo aí embaixo dá uma demonstração:

Largest Pin Screen from Thomas Hofer on Vimeo.



Nos anos 30, o animador Alexander Alexeieff, junto com sua esposa Claire Parker, teve essa ideia e resolveu dedicar-se à "menos popular e mais cara maneira de se fazer animação", segundo suas próprias palavras. E isto em um meio onde antes da invenção do computador eram usadas as mais exaustivas e arcanas técnicas possíveis para se dar vida a rabiscos, massa de modelar, objetos domésticos, barbantes, fios, em suma, qualquer coisa que não fosse inamovível.

Os primeiros esforços de Alexeieff usavam uma tela de 600 x 400. Parece uma baixa resolução, menos que VGA, mas leve-se em conta que são 240.000 pinos! Para cada quadro da animação os pinos eram movidos um a um ou em grupos, utilizando-se ferramentas especialmente desenvolvidas pelo casal de celerados. Não havia acetatos transparentes para se por em cima de cenários pintados ou personagens movendo-se em planos diferentes - fundo, primeiro plano, segundo plano, tudo tinha que ser animado simultaneamente. Cada frame tinha que ser planejado com antecedência e não se podia mudar nada na sequência - era impossível refazer um desenho depois que ele era desmontado. Além do mais, com uma pinagem prateada projetando sombras sobre uma tela branca, qualquer filmete seria inapelavelmente monocromático.

Com tantas dificuldades e limitações, por que então sequer tentar alguma coisa com essas malditas telas de pinos? A resposta é justamente a textura da luz. Trabalhando com sombras ao invés de linhas de contorno, o animador podia criar ilustrações em claro-escuro com muito mais profundidade e realismo do que qualquer artista traçando uma linha em volta de um desenho. O artista da pinscreen trabalhava com massas de cor, como um pintor, não como um desenhista, ainda que a cor fosse somente tons de cinza. O efeito é fascinante e remete a águas-fortes e gravuras (que seriam ainda mais impraticáveis do que essa insana técnica).



No curta acima, baseado no famoso conto O NARIZ, de Gógol (1) (que nos anos 90 saiu sozinho em um livreto aqui no Brasil, entre inúmeras edições), Alexeieff usa uma pinscreen com uma quantidade ainda maior de pinos, mais de um milhão, o que tornava além de tudo as telas caras e difíceis de confeccionar. Tão exaustiva era a técnica que Alexeieff em quatro décadas de atividade fez apenas seis filmetes assim. Como todo animador maluco, Alexeieff trabalhou para o National Film Board do Canadá (a casa de Norman Mclaren). O resultado é que o único artista que ainda faz animações assim hoje em dia é de lá, Jacques Drouin. Existem também sujeitos que programaram computadores para simular o resultado. É óbvio que não fica a mesma coisa e nem sequer nos fascina pela paciência e pelo esforço investidos na obra.

Uma Noite no Monte Calvo

O insano Alexander Alexeieff e sua celerada esposa Claire Parker continuam dando vazão às suas mais pervertidas pulsões e, cuidadosa e angustiosamente, posicionam um a um os pinos de uma pinscreen, como visto na postagem acima, pra formar cada quadro da animação aqui embaixo. Este curta parece utilizar também outras técnicas, como miniaturas e dupla exposição, com efeitos igualmente impressionantes. E, sem dúvida, Bill Tytla (1) deu uma conferida no filmete antes de por de pé sua inesquecível sequência de Fantasia da Disney, com o demônio Chernobog, utilizando a mesma música de Mussorgsky.



(1) Adrienne Le Clerc, modelo de 22 anos com quem Tytla se casou aos 34, afirmou numa entrevista que, para conseguir atenção do seu marido quando dedicado a seus esboços e rabiscos, tinha que ficar exibindo-se nua no portal. Não é à toa que o casamento durou até a morte. Eu não imaginava que senhoras casadas dos anos 30 tivessem atitudes assim...