maio 10, 2010

A História do Cinema I - The Great Train Robbery

Eu sei, eu sei, esta postagem foi publicada aqui mês passado. Na verdade, sua primeira aparição se deu em 2007 ou 2008, quando eu planejava uma looooonga série sobre a história do cinema. A looooonga série vai virar um curso na minha Escola de Artes Patrícia Evans, que teve sua primeira aula (de canto) hoje. Localizada na Princesa Isabel, em breve postarei as fotos da festa de inauguração e de suas (amplas e belas) instalações. O blogueiro vai ministrar sobre a sétima arte lá, em data e horário ainda a serem definidos. Enquanto isso, fica essa materinha aqui pro povo que vier do Orkut ou do Facebook ter uma ideia de como vai ser a coisa. Se você quiser ler mais dos meus textos sobre a tela prateada, clique na tag "cinema arte" e ignore a primeira entrada, que vai ser isto aqui de novo...



Diz uma história que preparava-se a adaptação de uma peça de sucesso para o cinema. Ainda em princípios de produção, o cineasta foi ao teatro assistir ao espetáculo e conversar com o autor-diretor da montagem. Em meio ao bate-papo, este virou para o sujeito dos 24 quadros por segundo e falou, "quer saber, vocês de cinema complicam tudo. Se eu fosse fazer um filme disto, eu simplesmente punha uma câmera numa cadeira e deixava rolar", ao que o "você do cinema" retrucou, "certo. Mas em QUAL cadeira você poria a câmera?"

Miríades de opções a mais que o cinema oferece à parte, na verdade o raciocínio do nosso teatrólogo era o mesmo dos primeiros cineastas. Começando uma nova arte do nada, ainda na aurora da arte moderna e das teorias futuristas e de avant-garde que revolucionariam o metiê nos anos 20, o povo com uma câmera na mão não tinha muita idéia na cabeça do que fazer com ela. As primeiras tentativas de contar historinhas com o cinematógrafo usavam a mídia como um teatro (mudo) a jato - os cenários podiam mudar instantaneamente (incluindo exteriores) e o uso inteligente de cortes e efeitos de montagem podia criar ilusões impensáveis num palco. No Rio de Janeiro, por exemplo, fez muito sucesso na década de 1900 a nacionalíssima película musical (sim, musical mudo) PAZ E AMOR. Durante a projeção, os atores ficavam atrás da tela fazendo a dublagem. Ou seja, o filme servia apenas para economizar na produção de uma revista musical!

E assim eram todas as fitas no alvorecer da sétima arte. A câmera ficava estática, aberta, enquadrando o que equivaleria aproximadamente a um palco, e com a ação acontecendo da esquerda para a direita (e vice-versa), para que nenhum ator ficasse de costas para a câmera (e no filme mudo, que é basicamente uma pantomima, a expressão do mímico é fundamental para a compreensão da história). À bidimensionalidade da tela somava-se a bidimensionalidade da ação, ficando tudo chapado e artificial ao extremo. Felizmente, logo algumas pessoas com generoso número de células gliais perceberam que tal abordagem era humilhante e degradante para toda a tecnologia envolvida na manufatura de películas. E começaram a experimentação que levaria à firme conclusão de que o cinema era a expressão do MOVIMENTO.

THE GREAT TRAIN ROBBERY é um filme de 1903, ainda bastante primitivo. A ação transcorre da esquerda para a direita. A pantomima é exagerada e risível para os nossos padrões. Durante o primeiro ato, a tecnologia é usada para criar superilusões teatrais (as projeções ao fundo na primeira cena (aos 20 segundos) e no tiroteio no vagão - 2 minutos) e a ação externa também transcorre bidimensionalmente. No entanto, alguns detalhes importantíssimos mostram o início da criação da LINGUAGEM DO CINEMA, independente e diferente da teatral.

Aos 2m48s, a câmera está presa em cima de um vagão. Está em movimento. E o bandido aparece em primeiro plano e move-se rumo ao fundo, de costas para ela. Subitamente o filme parece muito menos primitivo e tem um ar vagamente contemporâneo. Uma trucagem elementar termina a porrada com uma nota violentíssima. O enquadramento é ótimo e elegante e está criada a ação tridimensional. Está quebrada a bidimensionalidade da tela. A sétima arte torna-se uma experiência muito mais real e envolvente.

Aos 4m20s, os bandidos alinham os passageiros para assaltá-los. Para enquadrar esta ação de frente, a câmera, mesmo com a lente mais angular de que se dispunha na época, teria que ficar longe demais para que se distinguisse o que estava acontecendo. O diretor, Edwin S. Porter, sem alternativa, fez o que qualquer fotógrafo amador experiente faria - pegou a cena em diagonal. A composição é muito mais bonita e dinâmica e novamente está quebrada a bidimensionalidade da fita. Mais uma vez ela parece muito menos primitiva.

A cena seguinte também é diagonal, mas o que mais emociona os amantes do cinema é que, aos 6m09s, os bandidos saltam do trem. Em vez de mostrá-los saltando de lado, correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, cortar para uma cena adjacente, com eles novamente correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, tudo isso captado a uma distância respeitável, o que Edwin, o S. Porter, fez? Ele pegou a uma distância que, para a época, poderia ser considerada média, e FOI MOVENDO A CÂMERA PARA MANTER OS BANDIDOS EM QUADRO ENQUANTO ELES SUMIAM MONTANHA ABAIXO. A câmera estática está morta! Logo ela estaria sendo montada por Abel Gance no pescoço de cavalos. A ação é muito mais envolvente. A câmera segue o movimento como nossos olhos fariam - ela É nossos olhos! Nasce o cinema!

Infelizmente, Porter não seria o homem que levaria essas descobertas às últimas consequências. A cena é seguida por mais interiores bidimensionais, sem cortes, de longe. A patrulha persegue os bandidos atirando vindo de segundo plano para primeiro plano, mas não ocorreu ao diretor que a câmera poderia se movimentar não só da esquerda para a direita como também do fundo para a frente. Mesmo a quebra da quarta parede quando o bandido atira na platéia, na última cena, é apenas um efeito, não um manifesto de uma nova estética (e, apesar de tudo, um grande efeito, já que diz a lenda que espectadores se abaixavam ou saíam correndo neste momento).

Estávamos em 1903. Numa época em que o ritmo das descobertas era consideravelmente mais lento, o cinema avançava rapidamente. Passava de curiosidade a entretenimento de qualidade e firmava-se como arte, desenvolvendo sua estética e sua linguagem. Foram esses primeiros avanços que mostraram aos artistas modernos que eles poderiam usar aquela nova maneira de expressão, convenientemente de alta tecnologia, moderna como as concepções daqueles malucos do começo do século (vinte), poderia adaptar-se admiravelmente às suas propostas e teorias.

Ainda mais depois que um americano conservador e caretão chamado D. W. Griffith quebrasse a ação em planos rápidos e curtos que mostravam sempre exatamente aquilo que você precisava ver naquele momento, em vez de enquadrar uma cena inteira e deixar que o espectador escolhesse o que lhe interessava.

Plástico de Carro

Gastei quase toda minha fortuna com jogo, álcool e mulheres.
O resto eu desperdicei.

(George Best, um dos maiores jogadores britânicos de todos os tempos)

A Fronteira Final - A Série Original de Star Trek - A Clássica Jornada nas Estrelas



O Outro Lado do Espelho

Anteriormente: O Lamento de Adônis

Todo mundo gosta de universos paralelos. Quatro décadas atrás, então, quando o conceito ainda era novo na televisão, devia ser o maior barato. A ponto de transformar não só este episódio como também o cavanhaque de Spock em clássicos da cultura pop.

A hora de cinquenta minutos começa com Kirk tentando convencer uns alienígenas togados a cederem direitos de mineração pra Federação, mas os pacíficos etês não querem nada com frotas estelares cheias de naves capazes de obliterar planetas. Eles até estão conscientes de que a Enterprise poderia tomar o minério à força, mas nosso capitão estelar favorito assegura que jamais praticaria tal agressão – uma prova de que talvez eles pudessem reconsiderar sua decisão.



Em seguida Kirk sobe pra Enterprise, acompanhado de Scott, McCoy e Uhura, e o velho artifício de roteiro, o defeito no teletransporte, manda eles prum universo paralelo (e, assim como em “Inimigo Interior”, ainda se dá ao trabalho de mudar seus uniformes) onde todo mundo é mau, as mulheres envergam trejes ainda mais sucintos e Spock usa um cavanhaque. E onde, para seguir os procedimentos da Frota Estelar do Mal, Kirk tem que fazer toda a raça que negou direitos de mineração se chamar saudade.



O conceito é uma adaptação para ficção científica do doppelganger e da sombra junguiana, a personificação da parte de nossa personalidade que nosso subsconsciente percebe como nossos maiores vícios e defeitos. A projeção desta sombra sobre outras pessoas, segundo o discípulo de Freud, formaria a base de nossos preconceitos. Assim podemos aproveitar e ver o que Roddenberry e sua galera entendiam como piores traços de caráter da Humanidade.



Pra começar, o sexo. O criador de “Jornada nas estrelas”, espada e matador, sempre foi favorável a tal atividade, como bem demonstrado na série, mas aqui os uniformes já minúsculos das mulheres (a bem de Roddenberry, por exigência da rede, que vetou as calças compridas pra elas) viram top e minissaia (deixando ver que Uhura, lá nos anos 60, além dos coxões tem um abdome sarado) e é violentamente assediada por… Sulu! (faz sentido, como no universo-espelho tudo é ao contrário, ele é heterossexual). Além disso, Sulu tem uma cicatriz na face e é o chefe da Gestapo da nave, um serviço de segurança e repressão. E faz uma cara ótima quando a Uhura do nosso universo precisa distraí-lo seduzindo-o e depois negando seus favores, o que é mostrado como um comportamento típico das mulheres de lá… sacaram a mensagem, moças que gostam de provocar e rejeitar os outros, são…?

As promoções é que são fantásticas: os oficiais sobem de posto assassinando seus superiores, assim todo mundo abaixo do falecido sobe um posto. Qualquer falha também é punida pelo Alto Comando com a morte. Assim, a marujada toda permanece alerta e competente e, de uma maneira extrema, a competição torna todos tão eficientes quanto a cooperação no universo bonzinho. Neoliberais iam adorar o universo-espelho e sua ideia de que lobo comendo lobo acaba trazendo benefícios para a alcateia, dando rédeas livres para os melhores empurrarem a sociedade adiante.



Os vulcanos, pelo menos, se sentem à vontade. O Spock de lá está tão confortável em seu posto quanto na Frota Estelar benigna. O Spock de cavanhaque, acessório capilar que tornou-se tão famoso quanto o episódio (v. “Digno de nota”) justifica suas ações sob a lógica de que um único homem não pode fazer a diferença contra todo um império. Desculpa esfarrapada, como o nosso Kirk frisa para ele, já que no sistema de valores da nossa Federação o idealismo sempre fala mais alto e dá como recompensa uma consciência tranquila. Mas o Spock barbado é treinado para ignorar sentimentos como o remorso e tem noites de sono tão boas quanto as dos justos, deixando pairando no ar a noção de que o povo de Vulcano é realmente um bando de monstros insensíveis, como sempre faz questão de frisar o dr. McCoy, preocupados apenas com a sobrevivência e em empurrar seus genes adiante, da maneira que lhe pareça melhor – através da cooperação no nosso universo e descaradamente aderindo à brutal competição darwinista-social do universo-espelho.



Estarão os autores de “Jornada nas estrelas” insinuando que não existe ética se não há um julgamento emocional como base? Analisando fria e biologicamente, o comportamento vulcano é realmente exemplar para a sobrevivência da espécie. Sem que em algum momento se trace uma linha moral apriorística e entregando-se apenas à tarefa de sobreviver e prosperar geram-se os monstros vulcanos do universo-espelho. Não há um custo psicológico, graças ao seu treinamento de supressão de emoções.

Mas e os humanos, como sobrevivem nesse universo sem tal treinamento? Muito bem, obrigado. Como crianças a quem foram dadas as melhores armas disponíveis. Não há superego na Frota Imperial, todos vivem em função de seus desejos e instintos mais baixos. É o reino do Id. Não há mecanismos repressores sociais para o comportamento. Não há culpa. No mangá “Lobo Solitário”, o personagem principal pretende atingir o Nirvana dedicando-se ao mal absoluto, pois assim como o bem absoluto, ele leva à negação do “eu” e à sintonia com todo o cosmo. Aceitando, sem julgar, todos os trabalhos de assassinato que lhe sejam passados, e apenas estes, o samurai Itto Ogami torna-se através da sincronicidade um instrumento de Deus.



O mesmo acontece neste episódio. Sem culpa e dando completa vazão aos seus instintos, os tripulantes da Enterprise imperial sentem-se tão realizados e completos quanto suas contrapartes benignas. Tão atraente é a perspectiva de viver dando rédeas aos instintos que o capitão Kirk em dado momento sente-se completamente à vontade. Quando o Chekov malvado tenta matá-lo (e assim toda a oficialidade seria promovida um posto) e um guarda-costas o salva, pois achou que seria mais lucrativo ser o homem que salvou Kirk, o nosso herói o esmurra violentamente, para lembrá-lo de não cobiçar seu cargo. É uma cena inesperada para o espectador e coerente com o personagem, que progrediu através do controle de seus desejos mais baixos, e não de sua negação, como Roddenberry sempre enfatiza (cf., por exemplo, “Um pedaço da ação”, onde, num planeta dominado por gangsters e bandidos, Kirk também dá sinais de estar se sentindo em casa). Em contrapartida, o povo maligno que vem parar aqui não tem superego e nem autocontrole e são rapidamente descobertos como originários de outra dimensão, graças a seu comportamento.

O episódio, além de levantar essas questões, ainda é divertido, mantendo o suspense do disfarce de nossos heróis com o velho clichê da contagem regressiva – se não voltarem para seu universo em tantos minutos, nunca voltarão – e é cheio de detalhes interessantes: os guarda-costas dos oficiais, sendo que os de Spock são vulcanos; a horrenda cicatriz de Sulu; a câmara da agonia; os uniformes duas-peças das moças; e, principalmente, falando de roupas de moças, a lingerie da amante do capitão, em que a calcinha é apenas uma tira que desce desde o alto do abdome, coberta apenas por um negligée transparentíssimo. É impressionante como a desculpa esfarrapada de que os figurinos eram futuristas justificava a “Jornada nas estrelas” mostrar tanta mulher seminua (repare que os figurinos futuristas dos homens não eram tão esparsos) na rigidamente conservadora tevê dos anos 60. Havia mais do que a atração de um futuro onde todos encontrariam seu lugar e enredos cabeça para atrair os adolescentes nerds dos anos 70 para esta série.

Digno de nota:

Contagem de corpos: quatro tripulantes da Enterprise maligna.

Ao final a Federação continua sem ter os direitos de exploração do planeta pacífico abaixo. Ver os personagens não serem perfeitos o tempo todo (cf. o magnífico episódio “Missão de misericórdia”) na verdade ajuda a identificação com eles.




O cavanhaque de Spock para indicar que ele era maligno ficou tão marcado que uma banda de rock adotou esse nome (Spock’s Beard) e o artifício foi usado em todas as paródias possíveis. Só em Futurama apareceu duas vezes, quando os personagens caíam num universo alternativo e suas contrapartes chegavam à conclusão de que eles não eram malignos por não usarem cavanhaque, e quando Bender encontrava seu irmão gêmeo e ele usava um cavanhaque – embora neste caso, o gêmeo maligno fosse o próprio Bender.

A História da Copa do Mundo - A Evolução Tática, os jogos e os craques da Copa de 1954

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A EVOLUÇÃO TÁTICA - O WW HÚNGARO

Em 1952 um país com apenas 10 milhões de habitantes e pouca tradição no esporte surpreendeu todo o mundo ganhando 42 medalhas nas Olimpíadas de Helsinki. A Hungria chegou em terceiro, atrás apenas das superpotências EUA e URSS, ou em primeiro lugar entre países que não fossem conhecidos por suas iniciais.

A Hungria havia se tornado comunista ao ser "libertada" pelos soviéticos (atuais russos, ucranianos, bielarussos etc. etc.) na II Guerra Mundial. Compreendendo que conquistas esportivas seriam excelente propaganda para o socialismo, o governo instaurou o Comitê Nacional para a Educação Física e Esportes (lembra daquela história de que militarismo costuma estimular a prática esportiva?). Em 1949 os times de futebol foram nacionalizados, isto é, deixaram de ser clubes e passaram a fazer parte do Estado. Assim o mais popular deles, o Feréncvaros, passou a se chamar EDOSZ e a pertencer a uma associação de trabalhadores na indústria de alimentos. Seu principal rival foi para as mãos do Exército - seus jogadores ganhavam patentes de oficiais - e mudou seu nome para Honved.

Essa nacionalização foi perfeita para os planos do técnico da seleção húngara, Gusztav Sebes. Comunista ferrenho, atuante em toda a Europa desde os anos 30, ele acreditava firmemente no valor do esporte como propaganda. Estudando a Itália, que dominou o futebol nos anos 30, ele chegou à conclusão de que suas conquistas foram facilitadas porque quase todos seus jogadores vinham de apenas dois times - Juventus e Torino. Ele então concentrou seus melhores atletas no Honved para que pudessem treinar juntos até que formassem uma equipe coesa e perfeitamente entrosada, com movimentos perfeitamente coordenados e sincronizados.

Treinando juntos diariamente, os húngaros, aproveitando aquela geração de craques - Puskas, Hidegkuti, Kocsis - criaram um sistema de troca de passes curtos em triângulos, em que três jogadores iam avançando com a bola passando de pé em pé. Era uma tremenda novidade na época, em que todo mundo ainda jogava em WM, com cada atleta mantendo sua posição o tempo todo e marcando homem-a-homem o "seu" adversário. E era um reflexo das convicções socialistas de Sebes.



Acreditando cegamente nos conceitos de divisão igualitária de tarefas e de responsabilidade de todos, Sebes levou essas idéias aos gramados. Quando seu time atacava, o meio-campo e a defesa apoiavam avançando bem dentro do campo adversário, em trocas de passes curtos. É claro que isso deixava a retaguarda muito aberta. Arreganhada. Uma bola longa ou um sujeito rapidinho poderiam entrar sozinhos até a grande área. Mas a Hungria inovou também no gol. Seu goleiro, Grosics, foi o primeiro a jogar adiantado, para cortar os lançamentos ou fechar o caminho do jogador que passasse pela defesa. Funcionava quase como um líbero, como um último zagueiro. Como o Rogério Ceni faz no São Paulo.

Mas isso não era tudo. Sebes também inovou no plano tático, sendo o mais próximo ancestral do 4-2-4 brasileiro. O WM havia posto um sujeito paradão dentro da grande área com a única e exclusiva missão de parar o centroavante adversário, tanto que era conhecido com "stopper" (parador). Como consequência, os centroavantes ágeis, leves e ariscos desapareceram para dar lugar a atacantes mais pesadões e fortes, capazes de dividir bolas rasteiras e disputar cruzamentos com o beque. Sebes tinha um time de craques, mas não tinha esse "centroavante trombador".

Sebes então recuou seu centroavante para o meio-campo para ele armar jogadas para o ataque. O beque parado do adversário não sabia o que fazer. Deveria ir atrás do sujeito lá no meio ou ficar em seu lugar guardando a área e deixar aquele atacante desmarcado? E olha que era o Hidegkuti, outro que jogava muito.



Na linha de frente a modificação de Sebes criou o ataque contemporâneo, que se usa hoje. Puskas e Kocsis não eram pontas e nem centroavantes, mas podiam funcionar como ambos. Posicionados entre o beque central e o lateral, desarrumavam a marcação homem-a-homem. Habilidosos e inteligentes, podiam fazer uma jogada pela lateral, vir trocando passes com Hidegkuti, avançando desde o meio-campo, ou fechar para o meio para concluir. Exatamente como Bebeto e Romário faziam na Copa de 94. Ou Robinho e Adriano na Copa das Confederações de 2005.

Com todas essas modificações e o meio-campo tendo que providenciar também as jogadas pelas extremas, Sebes achou que sua defesa ficava muito exposta. Para tanto ele recuou o médio-esquerdo Joseph Zakarias para bem à frente da defesa, sem muitas funções ofensivas. Muita gente pedia para que ele fosse sacado do time, sem compreender que ele era o caminho que levaria ao 4-2-4 e ao futebol contemporâneo.

Com um monte de craques, muito treino e táticas inovadoras, os húngaros atropelaram a Europa nos anos 50. Os ingleses, que nunca haviam perdido em Wembley, tomaram em 1953 uma goleada de 6 x 3. Testemunhos da época garantem que o placar saiu barato para os britânicos. A revanche foi no ano seguinte em Budapeste. A Hungria fez 7 x 1. Era o começo do fim do WM e a confirmação do reinado dos "magiares mágicos", como aquele time ficou conhecido. Eles ficaram invictos por quase 6 anos e 31 jogos (27 vitórias), marca que só o Brasil conseguiu superar nos anos 90.

BOX

Um milhão de pessoas tentou comprar ingressos para assistir a Hungria x Inglaterra em Budapeste. Muitos torcedores entraram no estádio levando um pombo-correio, na esperança de que o pássaro levasse o bilhete de entrada para um amigo esperando do lado de fora. A história não registra se alguém conseguiu entrar com esse subterfúgio. Ou sobreterfúgio, já que era pelo ar...


A COPA DE 1954

A Suíça tinha ficado neutra na II Guerra Mundial. Um dos principais esconderijos de fortunas foram os bancos suíços, incluindo aquelas ganhas com o conflito. Assim, os suíços tinham dinheiro, não estavam reconstruindo nada e nem estavam traumatizados com as mortes de seus filhos. Quando se candidataram para sediar a Copa, todo mundo aceitou. Para os europeus, então, era só pegar um trem e em dez minutos eles estavam lá. E os torcedores poderiam ver os jogos não só nos minúsculos estádios como também em casa. O milagre da televisão levaria as partidas à sala de estar de vários países.

A Copa de 1954 foi a primeira realmente representativa, com 44 países se inscrevendo para as eliminatórias, que deixaram de ser um jogo eliminatório em que o vencedor ganhava vaga para se tornarem um torneio classificatório. O Brasil, pela primeira vez teve que disputá-las, eliminando Paraguai e Chile para manter sua ubiquidade no campeonato mundial. A Argentina não se interessou e o presidente da Federação justificou enigmaticamente dizendo "nosso futebol não deve nada ao de qualquer outro país deste planeta" (e nos outros?). Assim, os portenhos negaram à sua brilhantíssima geração dos anos 40 a chance de brilhar para o mundo, depois da pausa pela guerra e da ausência em 1950.

O sistema de disputa era complicadíssimo. Os 16 times foram divididos em 4 grupos. Estes grupos eram subdivididos em duas chaves. As duas seleções de cada chave jogavam com as duas da outra chave do mesmo grupo (hein?) e os dois que fizessem mais pontos no grupo, independente da chave, avançavam para as quartas-de-final. Ah, e em caso de empate haveria uma prorrogação. Se ainda assim não houvesse um vencedor aí sim era declarado empate. Ah, e mais uma coisa, se os dois países de cada chave terminassem empatados em pontos haveria uma partida-desempate. E=mc2. s=so+vot+at2/2.

Os favoritos eram os húngaros, invictos há 31 jogos, criadores do WW e da moderna linha de ataque. Os ingleses, com uma preparação muito melhor, também eram bem cotados. O campeão Uruguai e o Brasil, com a melhor campanha das eliminatórias (4 vitórias em 4 jogos), eram respeitados. E lá atrás vinha a Alemanha, que não participara da Copa de 1950 porque ainda estava de castigo por ter começado a II Guerra Mundial. No comando técnico, Sepp Herberger, desde 1936, quando substituiu o treinador anterior, que "desapareceu" durante o nazismo.

A derrota de 1950 teve consequências dramáticas no futebol brasileiro. Só a eliminação para a Itália em 1982 teria uma influência tão grande. Para começar, a seleção mudou seu elegante uniforme de camisa branca com gola e calções azuis. Fazia parte do passado, que deveria ser esquecido. Era preciso começar tudo do zero. Assim, o "professor" Flávio Costa perdeu o cargo de treinador que manteve incontestado durante anos. Do time que foi para a Suíça apenas um tinha sido titular quatro anos antes, Bauer. Até Zizinho ficou de fora. Seu talento não era necessário. O que era necessário era garra, raça e valentia. E amor à pátria.

Tornou-se uma obsessão para os brasileiros encontrar um "Obdulio", um líder. Foi a bofetada dele em Bigode (que não aconteceu) que deixou os brasileiros com medo de atacar. Foram seus gritos e berros que empurraram os uruguaios contra a amedrontada defesa brasileira. Não, Copa do Mundo não era para jogadores técnicos, elegantes e refinados que se assustavam frente a homens de verdade decididos a vencer. Era um prêmio para verdadeiros guerreiros, como os da Itália de Mussolini e do Uruguai de Obdulio Varela, os únicos países a vencerem o torneio até então.

O trauma de 1950 foi tão grande que a seleção não foi convocada durante dois anos. Reapareceu apenas em 1952, para disputar o Pan-Americano, sob o comando de Zezé Moreira, que criara sua própria variação do WM, mudando a marcação homem-a-homem para marcação por zona e atacando com apenas dois ou mesmo um jogador. Essa tática parecia mais uma covardia típica de quem nunca ganharia uma Copa do Mundo e o treinador só se manteve no cargo por ganhar o Pan-Americano, goleando o Uruguai por 4 x 2 na final. Mas o resultado não acabou com a obsessão. Era preciso encontrar um Obdulio e fazer os jogadores terem um irresistível amor à pátria para vencer. Getúlio Vargas, o presidente do Brasil, em seu discurso de despedida aos atletas que partiam para a Suíça, avisou, "se perderem, quem perderá será o Brasil".

Os outros times, que estavam lá para jogar bola, foram fazendo os resultados. A Áustria e o Uruguai eliminaram Escócia e Tcheco-Eslováquia, duas potências decadentes do esporte. A Inglaterra e a Suíça mandaram embora a Bélgica e a Itália, que ainda não se refizera da morte de mais de meio time no desastre aéreo de Superga em 1949. O único grupo que precisou de uma partida-desempate foi o da Alemanha e Hungria. Tudo parte do insidioso plano germânico para levar a taça para casa.

A Hungria atropelou os coreanos por 9 x 0. Os alemães fizeram 4 x 1 na Turquia. A segunda rodada (e última, com o regulamento maluco) seria Alemanha x Hungria e Turquia x Coréia. Sepp Herberger, o treinador alemão, não tinha sobrevivido ao fracasso de 1938, ao nazismo e à II Guerra Mundial sem prever bem seus movimentos. Ele calculou que a Turquia venceria a Coréia e que seu time tinha poucas chances contra os magiares mágicos. Assim, os germânicos e os turcos terminariam ambos com dois pontos, atrás da Hungria com quatro (até 1994 a vitória valia dois pontos).

Então Herberger, como um bom germânico, traçou sua estratégia fria e calculista: mandou às favas o jogo contra a Hungria. Botou um bando de reservas encarar a turma do Puskas e do Kocsis e poupou os principais jogadores para a partida-desempate contra os turcos. Um gesto desses seria impensável para nós, ainda mais que os húngaros fizeram 8 x 3. O técnico brasileiro que tomasse uma atitude dessas era posto na rua na hora. Mas tudo funcionou às mil maravilhas para Herberger. Os magiares ficaram com a impressão de que a Alemanha tinha um time fraco, os alemães venceram os turcos por 7 x 2 e, de brinde, a forte marcação e as seguidas faltas de Liebrich tiraram Puskas do restante da Copa. Ele só voltaria, fora de condições, para a final.

Quanto ao Brasil, a camisa canarinho estreou bem: 5 x 0 sobre o México. Os problemas daquela confusa campanha começaram contra a Iugoslávia. O jogo terminou 1 x 1 e foi para a prorrogação, mantendo-se o empate. Sem entender direito o regulamento estapafúrdio, os brasileiros não sabiam que o resultado classificava as duas equipes e correram os 120 minutos. Era preciso ter raça! Os iugoslavos, assustados, gesticularam durante todo o tempo extra para que eles parassem, se poupassem, fizessem jogo de compadres. Não adiantou nada. Alguns jogadores saíram de campo chorando, achando que estavam eliminados. Zezé Moreira ficou lamentando a necessidade de uma partida-desempate. Só mais tarde apareceu alguém para dizer que estávamos classificados. Beleza! A única preocupação agora é não cair no sorteio a Hungria nas quartas-de-final.

Caiu.

Dezessete gols em dois jogos. Campeões olímpicos. A sensação do futebol mundial. E era justo quem o Brasil tinha que enfrentar depois de correr 120 minutos. Zezé Moreira chegou pálido na concentração para avisar o resultado do sorteio. Os jogadores já estavam tensos e nervosos desde o início do torneio. Para aumentar a pressão, além do discurso de Varags, todo dia era cantado o hino nacional e a bandeira do Brasil hasteada. Ela também era beijada por cada atleta no vestiário, antes dos jogos. E agora, ainda por cima, a Hungria. Os comunistas. E a propaganda política da Guerra Fria ensinara a todos como comunistas eram diferentes - ateus truculentos e maus que precisavam ser derrotados, o que aumentava ainda mais a responsabilidade.

E foi nesse clima que os jogadores entraram em campo para enfrentar a Hungria. O locutor Geraldo José de Almeida, num dos discursos que eles foram obrigados a ouvir durante quarenta minutos no vestiário, clamou-os a "vingar os mortos de Pistóia", em referência a uma cidade onde estão enterrados pracinhas que tombaram enfrentando... alemães!!!! A única boa notícia é que eles não tinham Puskas. Mas tinham Hidegkuti, o centroavante recuado, o "ponta-de-lança" que viria a se transformar no "número 1" ou "meia-atacante" de hoje em dia. E ele abriu o placar logo aos quatro minutos. Kocsis ampliou aos sete. Novamente em uma Copa o Brasil estava perdendo de 2 x 0 antes de saber o que estava acontecendo. Os nervos estavam em estado tal que, quando houve um pênalti a favor do Brasil aos 18 minutos, o lateral Djalma Santos teve que cobrá-lo porque nenhum atacante se ofereceu para fazê-lo.

O jogo foi ficando nervoso. Didi jogou o primeiro tempo com chuteiras de travas baixas, que o faziam escorregar toda hora no campo molhado. No intervalo ele trocou-as e começou a liderar a seleção no segundo tempo. O Brasil corria atrás do empate, mas não ameaçava muito. Julinho, um dos maiores dribladores do futebol brasileiro, começou a ser caçado em campo. Os brasileiros também começaram a baixar o sarrafo. Numa jogada dentro da área Pinheiro e Czibor se chocaram. O juiz, Arthur Ellis, deu pênalti. Lantos converteu e os ânimos ficaram mais acirrados ainda. Julinho diminuiu aos 20, mas logo depois Boszik e Nilton Santos se desentenderam e foram expulsos. O ímpeto brasileiro esfriou e aos 43 Kocsis marcou mais um. Fim de papo? Infelizmente não.

Depois de mais uma expulsão, Humberto, por chutar um magiar sem bola, o jogo acabou. Maurinho, o ponta-esquerdo, foi cumprimentar um húngaro e o gesto não foi retribuído. O médico da delegação pegou uma garrafa de água e atirou, mas ela pegou em Pinheiro, que se virou para ver quem a tinha jogado. Alguém gritou "foi o húngaro" e começou a confusão para valer. Felizmente ninguém se machucou de verdade, mas Zezé Moreira conseguiu acertar uma chuteira em Gusztav Sebes e Paulo Planet Buarque, assessor de alguma coisa, deu uma rasteira num gendarme. A foto saiu em todos os jornais do mundo. Quando o gendarme se levantou, procurando algo no bolso, Paulo achou que ele fosse puxar uma arma, mas ele tirou apenas um lenço para limpar o uniforme. O episódio ficou mundialmente conhecido como "A Batalha de Berna" (e consta do DVD da FIFA sobre Copas do Mundo).

Nos outros jogos das quartas-de-final a Alemanha eliminou a Iugoslávia por 2 x 0, a Áustria fez 7 x 5 na Suíça e os bicampeões Uruguais, em busca do terceiro título, que lhes daria a posse definitiva da taça, tirou a Inglaterra fazendo 4 x 2. Obdulio Varela fez o segundo. Que diferença para os capitães brasileiros!

Na primeira semifinal a Áustria julgava-se favorita. Tomou de 6 x 1 dos alemães. Na outra o Uruguai, sem Obdulio Varela, encarou os magiares mágicos sem Puskas. E encarou mesmo. A Hungria ganhava por 2 x 0 até os 30 minutos do segundo tempo, mas deixou os bicampeões, mesmo com um time envelhecido, empatarem faltando 4 minutos para o fim. Os platinos não aguentaram correr atrás dos velozes húngaros na prorrogação e perderam por 2 x 0 (4 x 2 no total). Foi a primeira vez que os uruguaios perderam um jogo de Copa, dando fim a uma invencibilidade de 11 jogos, marca que só seria superada por quem? Brasil, em 1962.

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As maiores sequências de jogos sem derrota em Copas do Mundo foram:

13 jogos
Brasil (1958/1962/1966 - 11 vitórias e 2 empates)

11 jogos
Uruguai (1930/1950/1954 - 10 vitórias e 1 empate)
Brasil (1970/1974 - 9 vitórias e 2 empates)
Brasil (1978/1982 - 8 vitórias e 3 empates)
Alemanha (1990/1994 - 8 vitórias e 3 empates, um deles vencido na cobrança de pênaltis)

O Uruguai perdeu da Áustria também e acabou em quarto. Talvez com Obdulio a história da Hungria tivesse acabado antes. Mas ela prosseguiu até a final. Que seria contra a Alemanha, que eles tinham vencido por 8 x 3 na primeira fase. Parecia fácil, muito fácil. Mas a Copa do Mundo, como visto em 1950, adorava desprezar times técnicos, ofensivos e favoritos.

O capitão germânico, Fritz Walter havia sobrevivido à guerra na frente oriental para comandar o ataque de sua seleção. No dia da decisão ele acordou e sorriu ao olhar pela janela. O técnico Herberger lhe disse, "tempo bom para você, Walter". Chovia muito. O campo ficaria enlameado, prendendo a bola, o que atrapalharia os magiares, especialistas em trocar passes curtos e rasteiros. Para Walter, que enfrentara a estação russa do degelo, quando a neve de seu inclemente inverno derrete e transforma todos os caminhos em lama, paralisando exércitos e máquinas, ainda com bombas caindo e tudo, uma graminha molhada não era nada.

Na concentração húngara sua grande estrela não vivia tão bons momentos. Puskas ainda não tinha condições ideais de jogo. O time vinha se saindo bem sem ele, mas o craque não queria ficar de fora da final. Ainda mais contra os caras que perderam de oito na primeira fase. E tinham tirado ele da Copa. Ele forçou sua escalação. Ninguém teve coragem de negar.

E, a princípio, pareceu ser a coisa certa. O próprio Puskas fez o primeiro gol logo com cinco minutos. Czibor aumentou aos oito. Parecia que seria outra festa, igual à da primeira fase. Mas os húngaros vinham de dois jogos disputadíssimos. Em ambos abrira logo no começo uma vantagem de dois gols e deixaram o adversário chegar junto. Sinal de que seus oponentes estavam entrando nervosos, mas à medida em que o tempo passava começavam a se acostumar com o tipo de jogo dos magiares. Sinal também de que o time estava se desconcentrando, achando que as partidas já estavam ganhas, parando de se empenhar em campo. Os germânicos se aproveitaram do espaço que os húngaros deram e empataram também em oito minutos, aos dez e aos dezoito.

A decisão ficou nervosíssima. Ambos os times perderam chances de gol. Puskas sentiu a contusão e a partir dos dez minutos do segundo tempo ficou mancando em campo, praticamente inútil, deixando sua equipe virtualmente com dez. Ainda não havia substituições. Aos trinta e nove Rahn desempatou. Concretizava-se o que ficou conhecido como "Milagre de Berna". Puskas ainda empatou no finalzinho, mas o juiz anulou o gol. Os húngaros, como era de se esperar, juram que ele estava errado. Certo estava Sepp Herberger. Sua estratégia funcionou às mil maravilhas. Um plano a longo prazo que incluiu uma derrota humilhante levou a Alemanha à primeira vitória em Copas do Mundo, começando sua história como um dos grandes do torneio, ao lado de Brasil e Itália.

A Copa de 1954 teve a mais alta média de gols da história. O WM visivelmente não funcionava mais numa era de jogadores bem mais rápidos do que nos anos 20. Era preciso atualizar o futebol. Quem o faria?

O Brasil.

FRITZ WALTER

Pouquíssimos alemães sobreviveram aos campos de prisioneiros russos na II Guerra Mundial. Fritz Walter foi um deles. Nascido em 1920, Friedrich Walter aos 17 anos já era jogador profissional e aos 19 estava na seleção, marcando três vezes num 9 x 3 sobre a Romênia. Mas a guerra contra a União Soviética foi ficando cada vez mais complicada e os nazistas começaram a convocar até figuras públicas para a luta. E lá se foi Fritz Walter. Capturado, ele foi libertado em 1945 e voltou para casa e para o esporte.

A seleção alemã só voltou a jogar em 1950. Walter voltou ao time em 1951. Parecia que ele não teria chance de brilhar internacionalmente, mas sua impressionante visão de jogo e sua habilidade com a bola o mantiveram como capitão da equipe até a Copa de 1954. Como capitão ele não só era um líder dentro de campo, mas o representante do técnico Sepp Herberger, a quem o jogador sempre chamou de "chefe".

A vitória sobre a Hungria foi um dos primeiros passos para os alemães reconquistarem sua auto-estima depois de ficarem conhecidos como "nazistas miseráveis". Não à toa um garoto de escola, perguntado sobre quem fundara Kaiserslautern, cidade natal de Walter, respondeu "Fritz Walter". Foi o capitão que começou a mudar a imagem germânica aos olhos do mundo, que acompanharam o torneio pela televisão.

Walter ainda lideraria a Alemanha na Copa de 1958 até a semifinal, na qual saiu contundido. Mesmo jogando no meio-campo, marcou 33 gols em 61 partidas pela seleção. Recebeu diversas honrarias, incluindo a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, a maior condecoração alemã. O estádio do Kaiserslautern foi batizado com seu nome em 1985.

Fritz Walter faleceu em 2002.

FERENC PUSKAS

Puskas não deu muita sorte na Copa do Mundo. Em 1954 contundiu-se no segundo jogo e só voltou na final, sem condições, apenas para presenciar o "Milagre de Berna". Em 1956 seu time, o Honved, excursionava pelo mundo quando houve um golpe em seu país, instaurando um governo comunista ainda mais linha-dura. Puskas abandonou seu clube e foi suspenso um ano e meio pela FIFA. Após esse período juntou-se ao Real Madrid e naturalizou-se espanhol, disputando a Copa de 1962 já com 35 anos pela Espanha e acabou em último lugar. Baixinho, gordinho e incapaz de cabecear ou usar o pé direito para jogar, ele parecia um atacante pouco viável. E foi um dos maiores da história.

Puskas nasceu em 1927 em Budapeste e aos 16 anos já jogava na equipe principal do Kispet Budapest e aos 18 já estava na seleção, enfrentando a Áustria. Com a reorganização esportiva promovida pelo governo comunista, seu clube passou a chamar-se Honved, virou o time do exército e ele ganhou a patente de major, daí seu apelido de "Major Galopante". Sua técnica e habilidade, bem como seu chute forte e preciso, encaixaram-se perfeitamente nos planos de Gusztav Sebes para a seleção húngara.

Com o WW de Sebes, Puskas tornou-se o primeiro atacante da forma como entendemos hoje. Em seu tempo existiam os pontas, que corriam pela lateral para tentar cruzar para a área e o centroavante, que disputava a bola com o beque central, que o perseguia de perto o tempo todo. No Honved, Puskas passou a se movimentar por todo o setor esquerdo do ataque - na direita Kocsis fazia o mesmo. Os defensores não sabiam se guardavam posição ou corriam atrás deles, abrindo caminho para quem vinha do meio-campo. Foi a primeira vez que se percebeu que bastariam dois atacantes se eles não ficassem restritos à grande área, caíssem pelas laterais e construíssem jogadas um para o outro. O ataque pelas pontas poderia ser providenciado por meio-campistas que viessem de trás, sem marcação, porque os zagueiros estavam correndo atrás de Puskas e Kocsis.

Depois que se juntou ao Real Madrid, Puskas formou com Di Stefano um ataque que levaria o clube a vencer duas vezes a Liga dos Campeões da época, criando sua fama mundial. Ele deixou o time e pendurou as chuteiras em 1966, aos 39 anos. Como técnico, seu maior feito foi levar o modesto Panathinaikos, da Grécia, à final da Copa Européia. Em 1993, aos 66 anos, ele finalmente voltou à sua terra natal, a Hungria, onde vive até hoje.

abril 28, 2010

A História da Copa do Mundo - A Copa de 1950

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O SONHO NÃO ACABOU, NA VERDADE ESTAVA APENAS COMEÇANDO

A II Guerra Mundial, de 1939 a 1945, interrompeu a Copa. O Brasil havia apresentado sua candidatura para 1942, disputando com a Alemanha. Jules Rimet passou aqui no primeiro semestre de 1939 e encantou-se com a terra. Mas em 1o. de setembro, antes que pudesse viajar para a Alemanha para conhecer a infra-estrutura do país, estourou o conflito. Rimet levou a FIFA para a Suíça, para evitar que os nazistas a encampassem quando invadiram a França, e até hoje a sede da organização lá permanece.

Em 1948 nenhum país europeu estava interessado em organizar o torneio. O Brasil, durante a guerra, ficara sem poder importar todos os produtos que vinham da Europa e, sem opção, começou a produzi-los aqui mesmo. Além do mais, com toda a destruição dos combates, os europeus passaram a ter que comprar quantidade bem maior de alimentos e minérios para sua indústria, que os brasileiros tinham para vender. Como consequência, ao fim do conflito o Brasil tinha liquidado sua dívida externa, estava com dinheiro sobrando e começara definitivamente a se tornar uma nação industrializada. E para mostrar essa pujança toda para o mundo, nada melhor do que hospedar - e ganhar - uma Copa.

Sem outros candidatos disponíveis, a FIFA deu ao Brasil o direito de sediar o campeonato. Em um ano foi construído o maior estádio do mundo. Na verdade levou menos de um ano e foi tão rápida a construção que muita gente não foi ver a Copa porque tinha certeza de que aquilo iria cair. Ele não caiu em sua inauguração em 16 de junho de 1950. O mundo é que cairia exatamente um mês depois.

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A construção do Maracanã foi tão grandiosa e apressada que quantidades imensas de pastilhas azuis para o revestimento do estádio sobraram nos canteiros de obras. Elas acabaram sendo roubadas e, a partir da década de 1950 até hoje, começou uma tradição nos subúrbios cariocas de casas revestidas com pastilhas.

Os brasileiros sugeriram à FIFA uma mudança no regulamento. Em vez de jogos eliminatórios, a Copa de 1950 teria apenas jogos classificatórios. Ou seja, os participantes seriam distribuídos em 4 grupos. Em seguida os vencedores de cada chave jogariam todos entre si e quem fizesse mais pontos seria o campeão. Os europeus estranharam, mas acabaram aceitando. Não que eles viessem em grande quantidade. A maioria estava ocupada reformando a casa depois da passagem do furacão Hitler. Os argentinos, então em grande fase, não vieram porque o último Brasil x Argentina em 1946 tinha acabado numa pancadaria tão grande que eles temiam o que pudessem fazer aos seus jogadores. Mas, grande novidade, a Inglaterra, que depois da guerra bem que estava precisando dar uma arejada, iria pela primeira vez mandar seu time. E o mundo inteiro pôde ver que aqueles anos todos trancados em casa não tinham feito bem à seleção inglesa.

Numa das maiores zebras da história das Copas, os ingleses perderam para os Estados Unidos por 1 x 0. O time dos americanos era composto de imigrantes e seus descendentes e nenhum deles era profissional. Tão convictos estavam de sua derrota que passaram a véspera do jogo se encachaçando numa visita a uma fazenda, achando que não faria diferença se ficassem em casa descansando. Mas acabaram ganhando, motivando uma famosa manchete do Times: "Morreu e foi sepultada ontem num campo da distante Belo Horizonte a outrora respeitável seleção inglesa". Os britânicos perderam também para a Espanha, que venceu a chave.

O Brasil estreou contra o México e, apesar de ganhar por 4 x 0, não convenceu. O jogo seguinte seria em São Paulo e Flávio Costa, para agradar, escalou um time com mais paulistas. A "diagonal" do Professor troumbou de frente com o "Ferrolho" suíço e a partida foi um sufoco, acabando em 2 x 2. Precisando vencer, de novo no Rio e com a volta de Zizinho, Flávio descartou seu esquema. Voltou ao WM clássico e finalmente a seleção agradou, vencendo sua chave com uma vitória de 2 x 0 sobre a boa equipe da Iugoslávia, gols de Ademir e do Mestre Ziza.

Os outros grupos não tinham quatro times, por falta de competidores. Num deles a Suécia desclassificou Itália e Paraguai. O outro só tinha Uruguai e Bolívia, por causa do sorteio. A sorte começava a pender para os uruguaios. Eles não tiveram nenhum trabalho para fazer 8 x 0 nos bolivianos e se mandarem para a segunda fase.

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A Copa de 1950 foi a primeira em que os jogadores passaram a usar números atrás da camisa para facilitar a identificação.

A SEGUNDA FASE

Para os uruguaios deve ter parecido um daqueles exageradíssimos dramalhões, com final feliz inacreditável e tudo. Infelizmente para nós alguém tinha que ser escalado para ser o vilão todo-poderoso e pusilânime. E para fazer bem esse papel, deveríamos primeiro mostrar-nos invencíveis. Foi o que fizemos.

Contra a Suécia o Brasil fez inacreditáveis 7 x 1, a maior goleada brasileira em Copas até hoje. Ademir marcou quatro vezes, igualando a marca de Leônidas contra a Polônia. E sem prorrogação. Os próximos adversários, os espanhóis, provavelmente tinham espiões assistindo ao jogo, perceberam como o artilheiro jogava e devem ter feito algum esquema especial para marcá-lo, já que ele passou em branco na partida. Infelizmente para eles o resto do ataque fez seis gols. Final, 6 x 1, comprovando o que a maioria dos analistas dizia antes do jogo, que não iria ser a moleza que tivéramos contra os suecos. O Maracanã inteiro começou a cantar espontaneamente a marchinha "Touradas em Madri", de Braguinha, um sucesso da época. Os brasileiros mostravam seu lado todo-poderoso.

Foi depois dessas exibições que a imprensa mundial se encantou com o Brasil, com seu estilo ofensivo e vibrante, chegando a comparar Zizinho, o maestro da equipe, a Leonardo da Vinci, pintando com seus pés obras de arte na imensa tela que era o Maracanã. Nos outros jogos o Uruguai empatara com a Suécia (2 x 2) e vencera com dificuldades a Espanha por 3 x 2. Os suecos se despediram com uma vitória de 3 x 1 sobre os espanhóis. O jogo decisivo seria Brasil x Uruguai e os brasileiros tinham a vantagem do empate. Tudo e todos estavam contra os uruguaios.

Os jogadores da seleção brasileira, até então hospedados no longínquo Joá, para terem tranquilidade, foram transferidos para o estádio do Vasco, bem mais perto do centro da cidade. Durante toda a noite anterior ao jogo, políticos em busca de promoção, aproveitadores, bajuladores, jornalistas e torcedores acorreram a São Januário. O jornal A Noite estampou de véspera a manchete "Estes são os campeões do mundo", sob uma foto do time. Depois de sua aparente onipotência, os brasileiros mostravam sua pusilanimidade. Os vilões perfeitos. Ninguém lembrava que dois meses e meio antes, no Pacaembu, o Uruguai vencera o Brasil por 4 x 3.

Antes da decisão os jogadores foram levados por Flávio Costa para assistir a uma missa. Ficaram inexplicavelmente de pé por duas horas. No estádio as roletas foram quebradas. O público presente era muito maior do que os 173.850 pagantes. O Maracanã resistiu. A seleção brasileira não.

16 DE JULHO DE 1950 - O DIA EM QUE O MUNDO ACABOU

O primeiro tempo transcorreu sem gols. Tudo bem, a vantagem do empate era da gente. E os uruguaios correram atrás o tempo todo. Cederam 19 escanteios. Era só uma questão de tempo. O que ficou provado logo no primeiro minuto do segundo tempo, quando Friaça abriu o escore. Agora o Uruguai precisava de dois gols. Teria que partir para a frente e se abriria aos contra-ataques do Brasil.

Mas os contra-ataques não saíram. Talvez a equipe já se sentisse vitoriosa e tivesse se desconcentrado da partida. Não pensava mais no que estava ocorrendo em campo e assim não tinha mais o mesmo entusiasmo para correr. No segundo tempo de um jogo o corpo já está cansado e é preciso motivação para fazê-lo continuar correndo. Se o atleta não estiver concentrado no que está fazendo faltam-lhe pernas.

Não era o caso do Uruguai. Nas duas partidas anteriores o time saíra atrás e fora buscar o resultado, o que mostrava que os atletas estavam altamente motivados e em excelente forma. Quando um time vira seguidamente os jogos no final significa duas coisas: ou seus jogadores têm uma técnica superior que prevalece quando os adversários estão cansados demais para marcá-los ou têm um preparo físico muito melhor, que lhes permite continuar correndo quando os oponentes estão exaustos. Os uruguaios se encaixavam nos dois casos. Tinham defensores dedicados e atacantes velozes e habilidosos. E foi com um deles que começou a tragédia brasileira.

Ghiggia, o ponta-direita da Celeste, que havia marcado gols nos três jogos anteriores, chegou em velocidade à linha de fundo dentro da área e cruzou para Schiaffino marcar, aos 22 minutos. O placar ainda favorecia o Brasil, mas o estádio inteiro se calou. Aquele gol não estava nos planos de ninguém (exceto dos uruguaios, é claro). E quem acha o caminho para o gol uma vez acha outra. Um placar de 0 x 0 é muito mais confortável para quem precisa do empate do que 1 x 1. O time brasileiro começou a jogar preocupado, pensando como estivera tudo tão bem até aquela jogada de Ghiggia.

E ele fez outra treze minutos depois. Passou velozmente por Bigode e chegou à linha de fundo. Barbosa, o goleiro brasileiro, pensando que ele cruzaria novamente para um companheiro, deixou o gol para cortar o cruzamento. Ghiggia chutou entre ele e a trave e se tornou o primeiro jogador de um time finalista a marcar em todos os jogos de uma Copa.

Os brasileiros se desesperaram, se desorganizaram e não conseguiram empatar outra vez. O mundo acabou. Os uruguaios deram o nome de Maracanã a uma rua em Montevidéu e a uma tribuna do Estádio Centenário. Durante vários dias a melancolia podia quase ser sentida, pesada, no Rio de Janeiro. Outros dizem que era só a umidade.


EM BUSCA DE UM CULPADO

Ghiggia mesmo disse que em futebol, quando acaba um jogo começa a busca pelos culpados. Numa época ainda de preconceitos, Barbosa, o primeiro goleiro negro da seleção e um dos maiores da história brasileira, foi o primeiro. Qualquer garoto aprende logo que jogando no gol ele deve sempre se preocupar com o chute de quem está com a bola e não com o passe ou cruzamento. Se ele não tivesse saído o extrema não poderia ter chutado entre ele e a trave. Todas as outras opções disponíveis para o uruguaio, tais como realmente cruzar de novo, chutar cruzado ou fechar para o meio, escaparam aos críticos, e Barbosa morreu em 2000 magoado por ser lembrado não como o grande jogador que foi, mas como o homem que tomou o gol entre a bola e a trave.

Flávio Costa achava que o culpado era Juvenal, o zagueiro central, que deveria ter coberto Bigode. Mas foi o lateral quem ficou como o principal vilão no imaginário popular. Ele estaria jogando com medo, assustado, depois de levar um tapa do capitão uruguaio Obdulio Varela. Na verdade o centromédio passara a mão de leve no pescoço do defensor brasileiro, mas sem videotapes para mostrar o que realmente acontecera, a lenda cresceu e se tornou tão incontrolável quanto o Penta. E com ela cresceu também a de Obdulio Varela, o homem que arquitetou nossa derrocada, a alma da vitória platina, o comandante que nos faltara, o que nos impedira de ganhar nossa primeira Copa.

Piada Antiga de Laerte, Mas Cai Como uma Luva Para Recentes Eventos Envolvendo Gays e Fezes

A História da Copa do Mundo - Os Craques da Copa de 1950 parte II

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OBDULIO VARELA

Obdulio Varela passou o jogo inteiro gritando com seu time e, principalmente, com os brasileiros. Provocou-os, passou a mão no pescoço de Bigode, berrou o tempo inteiro e empurrou os jogadores para a frente, para a vitória. Conta a lenda que começou seu trabalho na véspera, trazendo para a concentração diversos exemplares de A Noite que trazia a seleção brasileira sob a manchete "Esses são os campeões do mundo". Juntando os companheiros, ele lhes teria ordenado que cuspissem nos jornais1.
Obdulio Varela era conhecido como "El Negro Jefe" pela sua liderança. Nascido em 1917, ainda com 37 anos era titular e capitão da Celeste Olímpica na Copa de 1954. Contundido nas quartas-de-final contra os ingleses, ficou de fora quando os uruguaios foram eliminados na prorrogação pelos húngaros, a sensação do certame. Ele nunca perdeu um jogo de Copa do Mundo. Muitos analistas crêem que com ele em campo a invencibilidade de quase seis anos da seleção húngara não teria chegado até a final.
Obdulio Varela foi um dos últimos e melhores centromédios atacantes. Já em 1950, na Hungria e no Brasil, novos esquemas estavam surgindo que relegariam seu tipo de jogo ao passado. Mas antes disso ele teve tempo de inscrever seu nome na história.
Obdulio faleceu em 1996. Ele marcou dez gols em 49 jogos pela Celeste Olímpica.

GHIGGIA

Ghiggia nasceu em 1926 e estreou na seleção uruguaia justamente quando ela venceu o Brasil por 4 x 3 no Pacaembu, 71 dias antes da decisão de 1950. Como em tragédia grega, um presságio do futuro: o novato marcou um dos gols.
Rápido, objetivo, com chute forte e bem colocado, o ponta-direita foi um dos melhores jogadores da Copa e o atacante mais decisivo, marcando gols em todas as partidas, fato só repetido por Jairzinho em 1970. Com todas suas qualidades, sua carreira com a Celeste não durou muito. Em 1952 agrediu um árbitro e para escapar de uma suspensão que poderia ser de anos, transferiu-se para o Roma, da Itália, conquistando em 1961 o campeonato europeu de clubes, atual Liga dos Campeões. No mesmo ano transferiu-se para o Milan, onde jogavam os brasileiros Dino Sani e Mazzola, e foi campeão italiano. Numa época em que as seleções européias estavam repletas de jogadores naturalizados, Ghiggia chegou a jogar pelo time da Itália em cinco partidas, entre 1957 e 1959, marcando um gol.
Ghiggia voltou para o Peñarol em 1963 e encerrou a carreira em 1968, aos 42 anos. Dois anos depois foi levado como talismã pelos uruguaios para assistir à semifinal contra o Brasil. Não deu tanta sorte fora de campo, sem uma bola para chutar entre Félix e a trave.
Ghiggia está vivo, acha que o futebol atual é muito defensivo e que Ronaldo, Ronaldinho, Zidane e Henry são os melhores do mundo. E que, pela ordem, Pelé, Di Stefano e Puskas foram os melhores da história.

ADEMIR

"Ademir pegou a bola e desapareceu/o goleiro está procurando onde a bola se meteu", cantava a torcida do Vasco (e, por algum tempo, a do Fluminense) nos anos 40 e 50, quando seu time era conhecido como "Expresso da Vitória". A marchinha fazia referência à jogada típica do atacante, a arrancada com a bola dominada, conhecida na época como "rush", finalizada com força e precisão já dentro da área.
Ademir não era um atacante driblador e clássico, mas era rápido, arrematava bem com os dois pés e dificilmente desperdiçava uma boa oportunidade. Como não precisava tomar grande distância da bola e nem mudar o passo para chutar, costumava surpreender os goleiros em suas finalizações, como Ronaldo na semifinal de 2002 contra a Turquia. Versátil e veloz, podia jogar em qualquer posição da frente.
Com seus "rushes", Ademir era o atacante perfeito para a "diagonal" de Flávio Costa. Jogando entre a linha média e o ataque, não precisava carregar demais a bola até chegar na grande área e tinha espaço para começar a jogada sem a marcação dos beques. Essa posição, na ponta do quadrado "entortado" de Flávio Costa, passou a ser conhecida como "ponta-de-lança", dando origem ao "número 1" e ao meia-atacante de hoje. Sua eficiência forçou à adoção de esquemas especiais que acabariam levando à marcação por zona e ao 4-2-4.
Ademir nasceu em 1922 no Recife e começou a carreira no Sport, onde o pai, vendedor de automóveis, era diretor de remo. Numa excursão ao Rio de Janeiro seu futebol chamou atenção e foi contratado pelo Vasco, clube com o qual seria sempre identificado. No entanto, teve uma passagem pelo Fluminense. Em 1946 o técnico Gentil Cardoso disse aos dirigentes tricolores, "dêem-me Ademir e eu lhes darei o campeonato". E ele deu. E o Vasco foi buscar de volta o ponta-de-lança.
Ademir continuou no Vasco até 1955 e voltou para o Sport, jogando como amador pelo clube até 1956. Ganhou praticamente tudo que disputou, sendo exceção a Copa do Mundo, da qual foi artilheiro, o maior até então, com 9 gols.
Ademir tornou-se jornalista e comentarista de futebol e faleceu em 1996.

Entendendo as Mulheres


Do blogue Meninas Malvadas

A História da Copa do Mundo - Os Craques da Copa de 1950

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FLÁVIO COSTA

Flávio Costa foi o primeiro "Professor". Brilhante, estudioso de teoria, de personalidade forte e autoritário, estava acima de qualquer discussão e dirigiria a seleção brasileira por mais de uma década, acabando por ficar marcado pela derrota de 1950.

Flávio Costa nasceu em 1906 e foi centromédio sem brilho, mais conhecido pela violência na marcação, que lhe valeu o apelido de "Alicate". Ao parar de jogar tornou-se assistente do técnico húngaro Dori Krueschner, que estava trazendo para o Flamengo as idéias mais novas surgidas no futebol mundial. Com a saída de Krueschner, Flávio assumiu o cargo e continuou aperfeiçoando as táticas do time rubro-negro, levando-o ao tricampeonato carioca.

Contratado pelo Vasco, assumindo uma equipe montada por Ondino Viera, transformou-o num esquadrão conhecido por "Expresso da Vitória", vencendo 4 dos 6 campeonatos estaduais seguintes e conquistando o Sul-americano de clubes, primeiro título do futebol brasileiro no exterior.

Flávio Costa criou a "diagonal", uma variação do WM que antecipava o 4-2-4, a primeira tática contemporânea, cuja origem pode ser traçada até um artigo que ele escreveu para a revista "Cruzeiro", em que pela primeira vez descreveu os esquemas de jogo da maneira que fazemos hoje, usando números e traços (4-2-4, 4-3-3, 4-4-2).

Flávio foi o treinador do Brasil na derrota para o Uruguai em 1950. Embora estigmatizado, continuou com alto prestígio nos clubes, mas a revolução tática a que dera início espalhava-se e ele deixou de ser figura de proa do desenvolvimento do futebol brasileiro. Autoritário e disciplinador, apressou o fim da carreira de Leônidas ao convocá-lo apenas para a reserva para a seleção, e suas brigas com Gérson levaram o jogador a abandonar o Flamengo.

Os últimos títulos de Flávio Costa foram em 1952, com o Vasco, e 1963, com o Flamengo, quando, além da briga com Gérson, pôs na reserva Dida, o maior goleador da história rubro-negra antes de Zico. Aposentou-se pouco depois, porque, como dizia, não tinha mais paciência para ser babá de jogadores. Morreu em 1999, aos 92 anos.

ZIZINHO

Depois de Friedenreich e Leônidas, o brasileiro seguinte candidato ao título de melhor jogador do mundo foi Zizinho. Assim como acontece com o "Diamante Negro", há quem garanta que o "Mestre Ziza" era um jogador tão bom como Pelé, embora nunca tenha atingido a fama e a popularidade de Leônidas. Infelizmente Zizinho jogou antes do videotape e da transmissão dos jogos pela tevê, restando muito pouco de suas jogadas para serem conferidas.

Zizinho nasceu em 1921, filho de um dono de um time de São Gonçalo, então distrito de Niterói, no Rio de Janeiro. Recusado no América por ser baixo e ter pernas grossas, foi tentar a sorte no Flamengo em 1939. Flávio Costa deixou-o entrar e disse "você tem 10 minutos para mostrar o que sabe". E ele mostrou.

Zizinho gostava de entrar em ziguezague pelas defesas adversárias. Tinha drible fácil e excelente visão de jogo e era esplêndido finalizador, principalmente nas cabeçadas. Participou da campanha do tricampeonato rubro-negro de 1942/43/44, mas foi ofuscado como estrela do time primeiro por Leônidas e depois por Domingos da Guia. Os anos seguintes marcariam a ascensão do Vasco e da popularidade de Ademir. Ainda assim Zizinho era um armador respeitado por ser um jogador completo, capaz de atacar e defender.

O grande momento de Zizinho foi na Copa de 1950, quando foi descrito pelo jornal milanês Gazzetta dello Sport como um Leonardo da Vinci, "criando obras de arte com seus pés na imensa tela do Maracanã". Foi a partir de sua volta ao time, após uma contusão, que o Brasil disparou a vencer e aplicou as históricas goleadas de 7 x 1 sobre a Suécia e 6 x 1 sobre a Espanha.

Mas não houve goleada contra o Uruguai. A derrota na final marcou todos os jogadores e Zizinho não foi exceção. O Flamengo, que se recusara a vendê-lo para o Coríntians por 3 milhões cedeu-o para o Bangu por menos de 500 mil. Jogando num time com pouca torcida, mesmo exibindo seu futebol de sempre não foi chamado para a Copa de 1954. Transferiu-se para o São Paulo em 1957 e foi mais uma vez campeão estadual, mas ao não ser convocado para a Copa de 1958, resolveu encerrar a carreira. Contratado para ser o técnico do time Ajax Italiano, acabou atuando como jogador por mais dois anos.

Zizinho faleceu em 2002, aos 80 anos. Suas outras paixões eram o samba e o basquete. Até sua morte, em todas as vésperas de 16 de julho tirava o telefone do gancho, para não ter que passar o dia explicando como o Brasil perdeu aquele jogo para o Uruguai.

Um Celular com Câmera (Reprise)

Latrodectos venomosas
Silvando em ares
de gonorréias maliciosas

Teu é o Deus
Teu é o Deus
Teu é o Deus

Invocava ela ao cravar
os lábios dela sobre os meus

A História da Copa do Mundo - A Evolução Tática de 1938 a 1950

Clique aqui para ler a história completa até agora (incluindo este capítulo)

Até os anos 40 os times brasileiros ainda jogavam na formação da pirâmide (2-3-5), da década de 1880. Gentil Cardoso começou a implantar o WM no Bonsucesso, mas a tática não se popularizou, nem mesmo quando o húngaro Dori Krueschner aplicou-a no Flamengo. Os jogadores não conseguiam se adaptar ao esquema, principalmente aquele escalado para fazer o zagueiro central. Além disso o time se ressentia da ausência do vital centromédio atacante.

Atrasados taticamente e com o futebol argentino em grande fase, os times brasileiros costumavam ser presas fáceis para os portenhos. Numa excursão com um combinado Fla-Flu os técnicos Flávio Costa e Ondino Viera, cansados de sofrer goleadas, resolveram modificar o estilo de marcação e a disposição dos jogadores em campo e inauguraram definitivamente a era do WM no Brasil.

No entanto, foi necessária uma adaptação para o estilo brasileiro. O quadrado do meio-campo, com dois médios e dois meias, foi "entortado" um pouco, preservando o centromédio à frente da defesa e transformando-se praticamente num losango. A formação 3-2-2-3 típica transformava-se num 3-1-2-1-3. Este jogador à frente da zaga acabaria tendo funções cada vez mais defensivas e se transformaria no cabeça-de-área, enquanto outros países sul-americanos preservariam a tradição do volante ofensivo, e na Europa a marcação feita no meio-campo não teria a característica de proteção aos beques de área.

A Diagonal. Flávio Costa era o técnico de Ademir, insuperável na arrancada com a bola dominada. Pô-lo no ataque o impediria de dar esses "rushes" e escalá-lo no meio-campo o deixaria muito longe da área. Foi necessária a criação de um novo esquema para aproveitar as qualidades do atleta e os dois viraram lenda com isso.

Para isso o vértice superior direito do "M", o médio direito, era empurrado para o baixo e toda a linha para a esquerda. O médio direito praticamente se transformava então num centromédio. O médio esquerdo passava a ter ao lado o meia-direita, recuado até o meio-campo, e o meia-esquerda transformava-se numa espécie de "número 1", jogando entre o meio-campo e ataque. Esta posição consagraria Ademir no Vasco e na Copa de 1950, pois aproveitaria ao máximo sua insuperável arrancada com a bola dominada.

Flávio Costa defenderia suas idéias num artigo na revista Cruzeiro, quando pela primeira vez na história usaria números para explicar as táticas, tais como 3-4-3 e 4-3-3. Nesse artigo ele dizia que o futebol moderno tolhia a improvisação e pregava que um time deveria defender bem para atacar ainda melhor, iniciando um desenvolvimento que acabaria levando ao revolucionário 4-2-4 de 1958.

abril 25, 2010

Artigo na página Logo de O GLOBO

Já que este mês saiu uma crônica minha na página LOGO, no jornal O GLOBO e como recordar é viver, minha primeira colaboração para a ilustre seção do diário, um texto sobre pirataria digital. Clique na imagem para ler o texto depois da edição ou leia-o abaixo, como originalmente enviado à redação. Saiu em setembro de 2007.



Não, não vi TROPA DE ELITE. Não por motivos éticos, afinal sempre poderia racionalizar que cinema no Brasil é feito às custas de dinheiro público e todo mundo já recebeu quando as fitas chegam - ou não! - nos cinemas, mas porque, desde que investi uma grana preta numa tevê widescreen, dou preferência a DVDs com ótima imagem. Nem sempre é possível. FACA NA ÁGUA e PLANETA PROIBIDO, por exemplo, tive que baixar, já que ninguém ameaçou até agora lançá-los por aqui. Também não aguentei esperar o longa dos Simpsons no cinema. Descobri que Bukowski não só é ótimo romancista, mas poeta ainda melhor. Não curto muito, mas tenho amigos que assistem a toda a temporada de sua série favorita antes de estrear por aqui. E MP3, então, nem vale a pena mencionar. Ainda não tenho um iPod, mas com certeza já o teria enchido com todos os CDs queimados com músicas guardados em estantes periclitantes lá em casa.

É que sou viciado em arte. Coisa de criação. Muitos pais ficam desgostosos quando vêem que o filho se dá melhor com livros do que com uma bola - e olha que tento até hoje! - mas os meus não tomaram nenhuma providência e logo eu estava num caminho sem volta - frequentando sebos, lendo gibis nos jornaleiros e gravando fitas K7 de discos de amigos. Meu presente de formatura foi um video-cassete e devo ter sido um dos 5 viventes que aprendeu a programar o temível aparelho sem evoluírem até seres de pura energia.

Mas ainda assim o mundo digital me pegou completamente desprevenido. A mim, às gravadoras, editoras e cinemíferas. Foi como o surgimento da pólvora, você não precisava mais enfiar uma espada na barriga de alguém, olho no olho, se sujando todo de sangue. Tudo passou a ser rápido, limpo e à distância, bastando apontar, disparar e esperar. Eu podia estar assaltando ou traficando para sustentar meu vício, mas estou apenas infringindo direitos autorais. Uma invenção recente. Coisa da revolução industrial. Segundo o saudoso João Bethencourt, as peças de Shakespeare são reconstruções de cabeça. Publicar o texto dos espetáculos significava que alguém poderia montá-los sem pagar um tostão. Teatros rivais contratavam sujeitos com boa memória para assistir às encenações e pô-las no papel. Graças a esses piratas hoje o Harold Bloom pode dizer que o velho Bill inventou a humanidade.

E o velho Bill tinha que tomar precauções mesmo, porque vivia dos ingressos. Parcamente. Artista rico só foi aparecer quando os irmãos Lumiére começaram a contar a verdade a 24 quadros por segundo e Edison girou um cilindro sob uma agulha. Até então ninguém seguia carreira artística por grana. Segundo os GÊNIOS DA PINTURA e VIDAS CÉLEBRES que eu lia quando moleque, esse povo morria tudo de tuberculose, era incompreendido pelos contemporâneos, tinha paixões não correspondidas e infelicidade geral. Raramente conseguiam uns trocados para uma existência decente e ainda assim tinham problemas familiares, com o álcool, com as autoridades...

Mas tudo isso mudou quando o cinema e o disco multiplicaram exponencialmente o público. Tudo bem, já tinha Gutenberg e a imprensa, mas quanta gente alfabetizada e com dinheiro para uma biblioteca existia antes da Segunda Revolução Industrial? Com essas novas tecnologias surgiram os astros - ricos, bonitos e famosos - e, quando Elvis rebolou aqueles quadris, foi a vez do superstar. É esse estilo milionário de vida de artista que está em risco com a pirataria digital. Ou não. Na verdade, nós não os idolatramos pelas suas obras. Ou pelo seu talento. A cultura pop, a grande ameaçada, não vive disso. Vive da atitude.

Muita gente era melhor do que Elvis, mas foi ele que virou o ícone. O mesmo de Marilyn. Ou muitos outros. Sua beleza, seu talento, mais do que sua obra, nos fizeram dar-lhes procuração para viver e simbolizar a vida que não podemos ou não conseguimos ter. Antes da cultura de massa, os valores eram outros, e artistas encarnavam profetas com uma visão coerente e desdém pelos valores materialistas da sociedade. Daí a tuberculose. O público mudou, os valores mudaram e o desdém agora é só pela sociedade, mas não pelo materialismo. Nós QUEREMOS que eles sejam ricos para projetarmos nossos sonhos, como já quisemos que fossem mártires miseráveis. E assim, que remédio, eles são ricos. Os conceitos de "Top Model" e "Big Brother" já pularam até a etapa da obra artística. Tudo bem, continua sendo uma vida difícil, cheia de álcool, drogas e relacionamentos vazios, mas pelo menos também cheia de grana, mansões e limusines.

Quanto à arte, vai ter sempre gente produzindo. Alguns anos atrás, eu explicava a um amigo que teria que ficar dias e dias enfunado em casa escrevendo uma peça sobre um assunto que não gostava, num estilo que não gostava, me matando para ganhar 500 reais. "Eu jamais escreveria uma peça por 500 reais", disse ele. "É porque você não é escritor", retruquei. Se você precisa saber por que escreve, não é escritor, já dizia um André desses, não me lembro se o Gide ou Malraux.

Mas tudo isso é racionalização. Pirataria é crime. É que nem gente que consome drogas e fica fazendo elocubrações para justificar-se. Não adianta. É contra a lei e ainda financia o crime organizado. Mais cedo ou mais tarde, vai ser que nem a Lei Seca, vai ter que liberar geral. Mas até lá é ilegal. O resto é desobediência civil. Essas coisas de artistas e profetas. Mas chega. Acabei de baixar MÓRBIDA CURIOSIDADE e pela primeira vez vou ver em seu aspecto original widescreen.

Espero que dê onda.

Gente na Gamboa






Um Dia na Igreja de Nossa Senhora da Saúde










Fundada em 1742, o bairro da Saúde desenvolveu-se em torno dela. Após ter sido impiedosamente saqueada, segundo o seu Antônio, ela foi restaurada e permanece sem usos sacros, com um portão fechado que desencoraja a maior parte dos visitantes - são poucos. Por uma incrível coincidência, os visitantes antes de nós, os únicos em mais de 20 dias, eram amigos nossos, como pudemos ver no livro de registros - Pedro, Bel e família. Breve fotos com detalhes da igreja.

Esquete de 1993

Uma mesa de bar. Um homem e uma mulher sentam-se nela. A Garçonete chega para atendê-los.

garçonete
Desejam alguma coisa para beber?

abelardo
Um gim-tônica, por favor.

garçonete
Infelizmente, nosso perfume acabou. Não deseja outra coisa?

abelardo
A gente pensa depois... o que tem para se comer?

garçonete
Sanduíche de mortadela.

abelardo
Sanduíche de mortadela? Como assim? O que tem de prato?

garçonete
Nada. No momento só temos sanduíche de mortadela.

abelardo
Mas como um restaurante pode só ter sanduíche de mortadela? Isso é um absurdo!

Garçonete
(PENSANDO QUE ELE ESTÁ SE REFERINDO À COMIDA E BEBIDA) Desculpe, mas, sabe, né, o senhor tem que compreender, nós temos passado por alguns problemas... nosso cozinheiro descobriu que o barman era na realidade João Alberto, o irmão de quem ele tinha sido separado na infância pela madrasta que estava de olho na herança que Jonas Ricardo ia deixar para Lucilene e aí os capangas de Renato Albuquerque sequestraram o infeliz e o levaram para a madame Márcia Alvarenga e desde então ele perdeu sua mão para temperos...

O homem e a mulher ficam olhando incrédulos para a garçonete

florisbela
A cozinha desse restaurante é sempre tão animada assim?

garçonete
O que vocês queriam de um restaurante mexicano?

florisbela
Oh!
Entra o dono do bar

Diego dolanogo
(ENCOLERIZADO) O que você está fazendo aí, Lupe Esmeralda? Conversando com os fregueses novamente?

garçonete
(AJOELHANDO-SE FRENTE A ELE) Não, Dom diego Dolanogo, eu estava apenas anotando o pedido deles! Juro pela alma da minha avó que morreu de tristeza ao saber que seu marido havia sido morto em combate quando as tropas de Emiliano Zapata atacaram o Palácio Presidencial!

diego Dolanogo
É mentira! Não vi você anotando nada em seu bloco! Lembre-se que está aqui apenas para me proporcionar lucro! Você não é nada, é apenas uma reles garçonete que nunca chegará a lugar algum! Anote imediatamente os pedidos ou eu a porei no olho da rua!

garçonete
Não, dom Diego Dolanogo, não! Se o senhor me puser no olho da rua, não terei como sustentar minha mãe, meus sete irmãos e meu padrinho de crisma que esperam há anos em vão pelo meu pai, que se juntou às tropas de Hugo Sanchéz e foi dado como desaparecido, mas que ela jura que está vivo e que a visitou numa noite, há muitos anos atrás, depois de seu desaparecimento!

diego Dolanogo
Então nunca se esqueça que você está aqui para trabalhar! Vamos, anote logo os pedidos... (TOM - INSINUANTE) e depois, apareça no meu escritório... se você for boazinha comigo... talvez até eu lhe dê um bônus... um dinheirinho extra para você levar para sua família... (SAI, RINDO PARA DENTRO)

garçonete
Oh! Um bônus! Que felicidade! Carmem Maura poderia até pagar sua operação para a correção do hipotálamo e voltar a andar... quem sabe até volte ao time de triatlo do colégio... e Pedro Rubiño poderia pagar sua matrícula na Escola de Pintura... oh! E tudo que eu tenho a fazer é ser boazinha com ele! Oh! (VAI SAINDO, MAS DE REPENTE PÁRA) O que será que ele quis dizer com isso? (SAI)

florisbela
Que lugar estranho, Abelardo...

abelardo
Até que nem tanto... Lembra do restaurante japonês que fomos outro dia e quando reclamamos que o sushi estava ruim, o cozinheiro veio até nossa mesa, gritou "estou desonrado" e começou a fazer hara-kiri?

florisbela
É... e o pior foi que por não ter faca, ele teve que abrir a barriga com os dois palitos...

abelardo
(PEGANDO AS MÃOS DELA, ROMÂNTICO) Florisbela... eu... eu a trouxe aqui... porque queria lhe pedir uma coisa...

florisbela
O quê, Abelardo?

abelardo
Eu... eu...

Entram dois mariachis, só que fantasiados de feijão e vestidos com roupa de aeróbica, cantando guantanamera. Abelardo e florisbela ficam olhando surpresos. A garçonete volta.

garçonete
E então? Já decidiram seus pedidos? Vão querer sanduíche de mortadela?

abelardo
O que é isto?

garçonete
Nossos Mariachis.

florisbela
Mas eles são feijões!

garçonete
Dom Diego Dolanogo é um homem muito parcimonioso com despesas... como um restaurante mexicano tem que ter mariachis e feijões saltitantes, ele resolveu contratar logo feijões saltitantes que fossem mariachis.

abelardo
E por que essa roupa de ginástica?

garçonete
Ah, é que como temos muitos fregueses publicitários moderninhos, ele achou que em vez de feijões saltitantes, seria melhor ter feijões aeróbicos...

feijões
Guantanamera... larila, Guantanamera... Guantanameeeeeera! Larila Guantanameeera!

garçonete
E então? Vão querer os sanduíches de mortadela?

abelardo
(ATÔNITO) Depois... depois...

garçonete
Está bem... (SAI)

Os feijões permanecem cantando guantanamera. Abelardo pega novamente na mão de florisbela.

abelardo
Florisbela... eu... eu... queria pedir sua mão em casamento!

florisbela
Oh! Abelardo! Mesmo sabendo que eu sou prima-irmã de Madame Márcia Alvarenga? E que nossas famílias não nos apoiarão nesse plano insano?

abelardo
Tudo por você, Florisbela... tudo!

florisbela
Eu... eu... eu preciso pensar, Abelardo... por favor... eu... eu vou ao banheiro... preciso de um pouco de ar... (LEVANTA-SE E VAI AO BANHEIRO)

UM DOS FEIJÕES PARA DE TOCAR E SENTA-SE À MESA COM ABELARDO. O outro continua com guantanamera.

FEIJÃO 1
É muito bom ter uma mulher que o ame...

abelardo
(ALGO ATÔNITO) Sim... sem dúvida...

feijão 1
Minha vida sempre foi a música... mas não tinha dinheiro para pagar a Escola de Música... então tive que ganhar a vida tocando em bares... e estudar sozinho, sonhando em um dia poder tocar na Orquestra Sinfônica Nacional... e nos bares, ninguém nunca prestava atenção em minha música... em alguns deles, nos sábados, eu tinha que ficar precavido e atento a tudo... pois era o dia da feijoada completa... e depois, voltava para casa e estudava... nunca tive tempo para o amor... até conhecer Maria...

abelardo
Maria?

feijão 1
Sim... Maria... uma das minhas alunas de música... cantora lírica... eu a amava, Deus, como a amava... até compus uma sinfonia para ela... mas meu irmão gêmeo descobriu tudo... seduziu Maria e roubou minha sinfonia... e ainda desfigurou meu rosto com ácido!
abelardo
Com... ácido?

feijão 1
Sim... isto é apenas uma máscara! (TIRA A MÁSCARA E MOSTRA SUAS FEIÇÕES DE FEIJÃO DESFIGURADO PARA ABELARDO)

abelardo
Oh!

feijão 1
Sim... esta é minha vida... de dia toco aqui, e, à noite, rondo pelos bastidores da Ópera onde minha sinfonia vai ser executada... eles querem dar o papel da solista para Zupe Barrios, mas vou fazê-la sofrer um acidente, e Maria, que é uma das coristas, terá o papel principal... ela merece... pode ter cedido ao meu irmão gêmeo, mas posso perdoá-la... ele é muito sedutor... ela merece tudo... e eu... nem sequer tenho um rosto para beijá-la (PÕE AS MÃOS NO ROSTO DESFIGURADO E CHORA)

florisbela volta do banheiro, em lágrimas.

abelardo
(VENDO FLORISBELA) E então, meu amor? Já decidiu?

florisbela
Abelardo... eu... eu... (CHORA) Perdi minha virtude!

abelardo
Isso é o de menos, Florisbela... pior seria se perdesse o cabaço...

florisbela
Você não entendeu, Abelardo... isso é uma metáfora!

abelardo
Metáfora? Metáfora? Quer dizer que Gerald Thomas está envolvido nisso?

florisbela
(CHORANDO) Não... era um Feijão... muito parecido com esse, se não fosse desfigurado... ele foi tão gentil e solícito pegando para mim a toalha de papel... quando dei por mim... já havia acontecido!

feijão 1
Meu irmão gêmeo! Preciso pegá-lo! (SAI, CORRENDO) Finalmente o farei pagar por tudo!

abelardo
Querida, do jeito que você está falando parece até que perdeu seu hímem...

florisbela
Mas foi, Abelardo! Perdi minha virgindade! Minha pureza!

abelardo
Oh! Oh! Oh, oh, oh! Oh, não! Nosso amor tão puro e casto... como pôde traí-lo assim? Como pôde se tornar uma caída?

Entra a garçonete

garçonete
O que aconteceu? Você parece chocado!

abelardo
Minha noiva... é uma caída! Não podemos mais nos casar!

florisbela
(IMPLORANDO À GARÇONETE) Eu não tenho para onde ir! Você sabe de algum lugar onde eu possa ficar?

garçonete
Bem, não posso levar você comigo... a vizinhança começaria logo a falar... mas posso falar com Madame Fifi... ela... (DISCRETA) cuida do andar de cima...

florisbela
É o que eu mereço agora... chame-a!

A garçonete acede e sai enquanto florisbela se senta e fica chorando copiosamente na mesa. entra madame fifi.

madame fifi
Soube que a menina tem um passado... vamos, não fique assim... você tem uma vida pela frente... uma menina bonita como você vai atrair muita atenção...

florisbela
Como uma pecadora como eu pode ter algum atrativo para um homem?

madame fifi
Você é muito inexperiente, menina... o mundo está cheio de casamentos sem amor... cujo fogo da paixão há muito já se apagou... muitos homens saem então de seus lares, em busca do afeto e da ternura que não mais encontram no recôndito doméstico e procuram casas como a minha... a maioria das vezes, apenas para conversar... com uma mulher que os escute, que lhes dê atenção e carinho... para eles, não interessa a vida pregressa dessas moças... eles querem apenas sonhar que têm uma companheira que os apóie em seus momentos de fraqueza, que não podem revelar em casa... (PEGA O ROSTO DE FLORISBELA PELO QUEIXO) Vamos, menina... deixe disso... Madame Fifi cuidará de você... eu lhe ensinarei tudo o que sei... e quem sabe, algum dia, mais experiente, você possa superar tudo isso e lutar por seu amor perdido?

florisbela
(OLHANDO ABELARDO) Isto... eu sei que é um sonho impossível... (LEVANTA-SE) Vamos, Mme. Fifi. Leve-me para minha nova casa...

madame fifi sai, levando florisbela. Abelardo começa a chorar. O mariachi continua tocando. Entra Pérola niegra.

garçonete
(VENDO PÉROLA NIEGRA) Oh! É Pérola Niegra, a antiga proprietária deste restaurante que Dom Diego Dolanogo enganou e levou à ruína.

pérola Niegra
Como vai, Lupe Esmeralda? Onde está seu patrão?

garçonete
Ele... está nos fundos...

pérola niegra
Traga-o. Diga que Pérola Niegra está aqui...(EXIBE UM ENVELOPE) E tem a carta!

A Garçonete sai, preocupada, enquanto pérola niegra espera. Ela vê abelardo.

Pérola Niegra
O que temos aqui, um maricas? Não sabe que homens não devem chorar?

abelardo
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida... e tornou-se o mais triste!

pérola Niegra
E tudo o que você sabe fazer é ficar aí nessa mesa, chorando? Não é à toa que o mundo está perdido! Os poucos homens que ainda têm tutano são os canalhas. Os outros sabem apenas sentar-se numa mesa e chorar. Qualquer decepção e acham que sua vida terminou, que está tudo acabado!

abelardo
Minha noiva... eu ia pedi-la em casamento hoje... mas quando ela foi ao banheiroperdeu a pureza e agora está numa casa de tolerância!



pérola niegra
E daí? Você acha que é o primeiro homem cuja noiva torna-se uma das meninas de Madame Fifi justo quando ia casar com ela? Isto é motivo para você ficar assim? Sua noiva perdeu a pureza, não o braço, a perna ou o intestino! Pior é você, que parece ter perdido todo o tutano. Pense bem, ela gostaria de vê-lo assim? É essa a imagem que você quer que ela tenha de você?

abelardo
Mas... eu queria tanto casar com ela!

pérola niegra
Então, case-se! Você é um homem ou um rato?

Entra Diego dolanogo.

diego dolanogo
Eu disse para que nunca mais pisasse aqui, Pérola Niegra.

pérola niegra
As coisas mudaram, Diego... eu tenho... a carta!

diego dolanogo
E você acha que eu teria medo de uma simples carta?

pérola Niegra
Esta não é uma simples carta, Diego... é uma carta falante!

diego dolanogo
(ASSUSTADO) Uma... uma carta falante?

pérola Niegra
(ENTREGANDO A CARTA PARA DIEGO) Veja você mesmo... se tiver coragem...

diego hesita em pegar a carta, mas a pega e, tremendo, suando, a abre. desdobra-a. Assim que acaba de desdobrá-la, uma voz em off começa a falar. Cada vez que ouve a voz, diego dolanogo treme, assustado.

carta
(OFF) Caro Diego... eu sei de tudo... sei como você sempre desejou Juanita Esmeralda... sei que você era companheiro de regimento do marido dela no exército de Hugo Sanchéz e fugiu covardemente quando ambos poderiam ter tomado o Palácio Presidencial sózinhos... ninguém ficou sabendo e você acabou sendo condecorado por isso... e, assim que deu baixa, disfarçou-se como o desaparecido marido de Juanita Esmeralda... e assim, conseguiu introduzir-se no leito dela, levando-a a crer que fora visitada pelo esposo, o que fez todos pensarem que era louca e encheu sua família de esperança... o que você não sabe, é que aquela noite de amor deu frutos... uma menina, com os olhos (DESCREVE A GARÇONETE)... uma menina, nascida exatamente nove meses depois daquela noite que você jamais esqueceu... uma menina, que para sustentar a família, teve que aceitar um humilde emprego de garçonete... no restaurante de seu pai! Sim, Lupe Esmeralda é sua filha, Diego Dolanogo! Sua filha! A única que você jamais terá, já que uma doença depois o tornou estéril! E você a vem maltratando todos esses anos!

diego dolanogo
Lupe Esmeralda... minha filha? E eu... todos esses anos... alimentando fantasias licenciosas a seu respeito... minha própria filha! Mas não, não era eu que a maltratava! Não, não era! Era aquele jovem covarde... que deixou Pablo Esmeralda morrer em combate... e levou a glória... aquele jovem que, por causa desta mancha em seu passado, nunca pôde revelar seu amor a Juanita Esmeralda... sim, era ele que a maltratava, que projetava nela todas as suas frustrações em relação a sua mãe... agora vejo claramente... estive louco estes anos todos... louco e cego... (A LUPE) Sei que você jamais poderá me perdoar, Lupe, mas acredite... meu arrependimento é sincero... toda minha vida foi um desperdício... Juanita, Juanita... você nunca saberá o quanto a amei... de toda a minha vida, apenas aquela noite pôde justificar minha vinda a este mundo... (VAI SAINDO, LENTAMENTE)

garçonete
Ele... ele é meu pai! Eu tenho um pai! Oh, agora poderemos fazer todas as coisas que pai e filha fazem juntos! Eu sentarei em seu colo e ele fará cavalinho comigo! Ele me levará a peças infantis de qualidade duvidosa e depois de um lanche de comida intragável no Mr. Croquette, levá-lo-ei à loucura conversando com todos os meninos com cara de marginal que encontrarmos no shopping!

Súbito, vindo do canto para onde diego dolanogo saiu, ouve-se um tiro.

GARÇONETE
Papai! (SAI, CORRENDO)

O feijão continua tocando. abelardo continua chorando. Pérola Niegra olha para ele.

PÉROLA NIEGRA
Bem, vou-me embora... já fiz aqui o que tinha que fazer... (PARA ABELARDO) E você, garoto?

abelardo
Deixe-me em paz...

pérola Niegra
Você pode falar isso para mim, garoto... mas não para a Vida! (SAI)

entra madame fifi. Senta-se à mesa de abelardo.


madame fifi
É, é hora de partir. Com Lupe Esmeralda como a nova dona deste restaurante, não haverá mais um "andar de cima". Mas isso não me afeta. Sempre haverá um lugar para as meninas da Madame Fifi. E fico feliz que Lupe Esmeralda não tenha acabado como uma delas...

abelardo
Como Florisbela...

madame fifi
Você sempre poderá visitá-la em minha casa...

abelardo
(PULANDO EM CIMA DELA) Como, como ousa falar assim? Eu a amava, eu a amo, e não posso mais tê-la! Só a teria como esposa, minha esposa, está entendendo? Meu amor, eu sempre guardei apenas para uma mulher, e esta mulher era Florisbela! Florisbela! Se não puder tê-la como esposa, não a terei como uma de suas... (COM NOJO) Meninas! Nem a ela, nem a nenhuma outra mulher! Nunca mais tocarei uma mulher! Florisbela pode ter ido, mas meu amor por ela continua!

Entra o feijão desfigurado, cambaleante.

feijão 1
É justo que morramos juntos, irmão... afinal de contas... sempre fomos como duas imagens num espelho... um espelho distorcido... porém um espelho...

madame fifi
Pois então, o que o impede? Ela também só pensa em você! Passa o tempo todo pensando em você, torcendo para que encontre uma mulher que o mereça e que possa realmente lhe dar uma família! Filhos sadios, saudáveis, sem as doenças com que o passado provavelmente marcou seu corpo! Vamos, deixe disso, case-se com ela!

feijão 1
(CAINDO AO CHÃO) Você pagou por seus crimes, irmão... e eu, pela minha omissão... estamos quites... com nós mesmos e com o Destino... nós, que amávamos a mesma mulher... Você já foi, irmão... agora é minha vez... Maria! Maria! Maria! (MORRE)

abelardo
Mas como posso perdoá-la? Como posso confiar nela depois disso tudo?

madame fifi
Foi um momento de fraqueza! Todos estamos sujeitos a isso! Ela já se arrependeu! E aquele que se aproveitou dela já pagou com a vida por isso! Ela agora sabe que o amor é muito maior e mais importante do que qualquer outra coisa! E você, como pode lhe cobrar algo? Já imaginou que, se tivesse ido ao banheiro com ela, nada disso teria acontecido?
abelardo
Eu... eu... eu não posso... eu não... eu... eu... (CHORA) eu te amo, Florisbela! Eu te perdoaria tudo, se pudesse tê-la de novo em meus braços! A vida sem você não tem sentido! Dane-se o que o mundo pensar! O que importa é que nós nos amamos! Oh, Deus, como nós nos amamos!

madame fifi
O mundo está cheio de ódio e desamor... um amor como o de vocês tem que se realizar... por que diz isso para ela?

abelardo
Depois do que eu lhe fiz, ela jamais me escutaria...

florisbela vem entrando, tímida, vestida como prostituta.

madame fifi
Veja quem está vindo aí. Vamos, fale com ela. Você nunca saberá se não tentar... (SAI)

abelardo
(LEVANTANDO-SE) Florisbela...

florisbela
Abelardo...

os dois se olham durante alguns momentos sem saber o que fazer. Então, subitamente correm ao encontro um do outro e se abraçam.

abelardo
Eu não posso viver sem você, Florisbela, não posso, não posso!

florisbela
Mas... o meu passado!

abelardo
Foi tudo culpa minha, Florisbela... tudo culpa minha... case-se comigo, por favor... esqueçamos tudo isso... por favor, faça de mim o homem mais feliz do mundo!

florisbela
Oh, Abelardo... como poderia lhe negar isso? Sim, sim, eu casarei com você, se é isso que você realmente deseja!

abelardo
Eu te amo, Florisbela, eu te amo!

lupe esmeralda, madame fifi e pérola niegra, que entraram e ficaram no canto durante diálogo, batem palmas, emocionadas. O feijão remanescente continua tocando. Abelardo levanta florisbela, pega-a no colo e a beija. os aplausos sobem. Ele vai levando-a embora.

FLORISBELA
Meu amor...

abelardo
Vamos, querida... um mundo de sonhos nos espera... tenho aqui comigo duas passagens para o nosso cruzeiro de lua-de-mel!

FLORISBELA
Oh, querido, que romântico!

abelardo
Sim... vamos, vamos logo! Nossa lua-de-mel será inesquecível... durante anos, contaremos a nossos netos nosso inolvidável cruzeiro... no TITANIC!

FLORISBELA
Oh, o Titanic! O mais luxuoso navio do mundo! Oh, Abelardo, o que poderia dar errado para nós agora!

Saem. o feijão continua tocando guantanamera. As mulheres que observavam a cena vão saindo. Lupe dá uma paradinha antes de deixar a cena.

garçonete
O Titanic... talvez eu devesse comprar uma passagem para minha mãe também... ela merece... e agora, que tenho este restaurante... ah, tolinha... deixe de invejar a felicidade deles... quantos anos de amor pela frente eles ainda vão ter... (SUSPIRA) Ah! Quem sabe eu não vou no Titanic também..? E encontro um amor? (SAI)