outubro 06, 2008
Woody Allen é um Velho Pedófilo e Incestuoso
A Revista Zé Pereira mudou. Agora é online, quer dominar o mundo e para isso chamou megalômanos paranóicos de toda a Web para colaborar. Fui chamado para cobrir o Festival do Rio 2008 e vou publicar simultaneamente aqui e lá tudo a que eu for assistir.
Matheus Souza resolveu se antecipar às críticas ao seu filme e faz a garota bonita comentar que leu o roteiro do namorado estudante de cinema e que parece peça de teatro, não acontece nada. A referência é à própria fita, é claro, o problema é outro, é que desde quando não acontece nada em “Henrique V”, “Peer Gynt”, “Cyrano de Bergerac”, “Rasga coração” ou “Os 7 gatinhos”?
Mas não é mais esse tipo de peça que se vê nos palcos. A herança do besteirol, o teatro que esqueceu a politização e começou a fazer humor com referências da cultura pop e dos rituais diários de uma classe média mais globalizada e sofisticada urbana, foi o espetáculo sobre relacionamentos com um viés cômico. Exigia pouca gente, nada de cenários suntuosos ou efeitos elaboradíssimos de luz, muito menos coreografias ou cenas de luta e duelo. A coisa foi se radicalizando até que os atores começaram a se produzir buscando textos que fossem monólogos e se encaixassem nesse perfil confessional. Assim sairia barato e daria chance à estrela de brilhar. E esse formato, explorado à exaustão, sobrevive até hoje, com vários deles habitando neste momento os tijolinhos dos cadernos culturais e alguns lotando os teatros. Transpor isso para as telas é complicado porque o cinema não tem a presença física do ator junto à platéia. Mesmo com essa vantagem poucas dessas produções arriscam-se a ir além de uma hora de duração.
Por isso “Apenas o fim” desde o começo avisa que a história durará uma hora. Com cinco minutos de filme os personagens já estão delineados e já sabemos tudo que vai acontecer com eles. A garota bonita resolve terminar tudo com o namorado nerd e sensível e os dois se despedem durante uma hora, relembrando o namoro. Não há nenhuma explicação plausível e os flashbacks e memórias, menos do que esclarecer a história emocional dos dois, são um veículo para o estudante de cinema falar de si próprio. Sua namorada, mesmo levando-se em conta que é mostrada pelo ponto de vista do garoto, é apenas uma escada para os ditos espirituosos e comentários irônicos do sujeito. Alguns excelentes e engraçadíssimos, outros nem tanto, todos contando com um Gregório Duvivier que extrai o máximo de cada um. Já nos momentos dramáticos o elenco não rende tanto, até porque eles aparecem forçada e subitamente no meio da história, como se quem estivesse escrevendo lembrasse de repente que era preciso um pouco de emoção.
Mas essa crítica aí em cima está sendo feita como se a fita tivesse saído de Hollywood, das mãos de veteranos artesãos. “Apenas o fim” é um longa de um rapaz de 19 anos que juntou os amigos de faculdade e botou um filme em pé, assim como o Colombo fez com o ovo – falar é fácil, quero ver fazer. Precisando de uma historinha que prendesse a emoção, pudesse ser filmada no campus da universidade e tivesse pouca gente, é quase impossível para um adolescente conseguir pensar em outro enredo que parecesse verossímil. Há excelentes diálogos e o esquete com o sonho da menina no quadro-negro é hilariante. Argumentando-se agora como um universitário com menos de 20 anos, a grande reclamação é que o rapaz repete várias vezes como sua namorada é a moça mais louca que ele já encontrou e em qualquer curso superior de ciências humanas aquela personagem não pega nem banco de time juvenil; aliás, os dois mais parecem namoradinhos de segundo do que de terceiro grau.
O estudante de cinema é um nerd sensível, não é bonito, sente-se meio desajustado e um perdedor; é óbvia a influência de Woody Allen, sendo desnecessário para se chegar a essa conclusão a aparição do poster do cineasta no que provavelmente é a casa do protagonista. Allen é a grande influência que criou o filme sobre relacionamento, quando nos anos 70 a mudança de valores, inclusive sobre responsabilidade e maturidade (veja a crítica sobre “Juventude”) fez as pessoas passarem a encarar casamento como apenas outro tipo de namoro. Assim como o teatro lá em cima, Allen começou fazendo besteirol e depois resolveu falar sobre as pessoas. Como já disse uma dramaturga ianque cujo nome me escapa agora, nos anos 90 o buraco na camada de ozônio aumentou, a CIA teve o orçamento aumentado e age em cada vez mais países, com mais abundância do que nunca na história, cada vez maior é a desigualdade social, o fascismo, a intolerância religiosa e o racismo estão voltando no mundo inteiro e qual a grande obssessão dos autores e do público americanos? Os relacionamentos.
Woody Allen costuma pintar um mundo injusto com as pessoas mais sensíveis e desajustadas, com mulheres, grandes, incompreensíveis e assustadoras demais. Os personagens de Allen são sempre obcecados com elas, sendo os que mais genuinamente as amam e por isso os que normalmente se dão mal, vítimas de um destino injusto e arbitrário. Para os adolescentes nerds a identificação é automática, afinal as mães lhes dão (ou deram até ontem) a sua mesada, moram com eles e os controlam (ou o fizeram até ontem), e eles ainda estão (ou não) começando a descobrir a independência e a vida lá fora.
Mas isso é uma fase que acaba com a juventude. Depois as pessoas crescem, tomam boa parte da vida nas próprias mãos e tornam-se responsáveis por seus atos. Existe sorte, é verdade, mas ela sempre está do lado de quem realmente quer alguma coisa. Com o tempo se descobre que as pessoas são vítimas apenas do que elas fazem com suas próprias vidas. "Nada acontece a uma pessoa que não se pareça com ela", já dizia Aldous Huxley. Sempre que alguém pensasse em fazer uma história de relacionamento meio Woody Allen, deveria ser contando o que leva um velho rico, bem-sucedido, famoso e respeitado a comer a própria filha menor de idade, pelas costas da mãe, e ainda por cima passar o tempo todo reclamando como a vida é injusta para com ele. Esse seria um filme interessante.
Festival de Cinema do Rio 2008 - Se Nada Mais Der Certo
Rapaz, estava falando ainda outro dia, na crítica do “Vingança”, do povo que cresceu nos anos 80 vendo filme noir, lendo Bukowski, então sendo lançado aqui pela Braziliense, e colecionando as primeiras “graphic novels” a aparecer nestas plagas, e de como suas tentativas de contar histórias transpondo o herói sensível, cínico e ultra-romântico que eles tanto admiravam para as telas trouxe resultados aquém do esperado. Pois não é que 20 anos depois finalmente eles estão conseguindo?
E a influência desses ícones aí em cima no “Se nada mais der certo”, de José Eduardo Fonseca, é tanta que em dado momento os personagens se embebedam com a ajuda da “vodka Bukowski”. O velho Buk não tinha simpatias por povo de classe média metido a ser verdadeiro marginal, como o jornalista duro protagonista do longa, mas a coisa (quase) toda é tão bem feita que consegue desviar-se da auto-exaltação e da auto-piedade, as armadilhas escondidas na folhagem de quem resolve contar uma história seguindo com esse tipo de herói.
Sim, porque o jornalista que Cauã Reymond defende bem é claramente alter ego dos criadores e figura de identificação da platéia. Vez por outra o roteiro escorrega em seu romantismo ético, como quando deixa claro que ele não se deita com nenhuma das duas mulheres de quem passa o filme cuidando, uma delas inclusive morando com ele, uma moça bem neurótica, e não é pra menos, o sujeito por quem ela obviamente sente atração não toma nenhuma atitude...
Mas isso é detalhe. Usando a hoje em dia já tradicional câmera de vídeo tremida e desfocada e edição nervosa, a fita segue a vida de alguns personagens que se encontram por acaso – a moça de sexualidade duvidosa que faz alguns aviões, um taxista depressivo, o jornalista duro, e como eles formam uma família postiça. O jornalista volta e meia mostra romantismo e dignidade demais, como quando faz um discurso contra se vender à sociedade de consumo (felizmente de apenas umas duas linhas) ou não consegue desempenhar quando um amigo patrocina uma ida ao bordel, mas a vontade dele de fazer amizade com todo mundo e a óbvia alegria que ele e os outros habitantes da fita sentem em companhia um dos outros conseguem nos vender esse universo fílmico de desajustados felizes por encontrar seus iguais.
Como sói acontecer nos filmes noir e graphic novels que influenciaram os criadores de “Se nada mais der certo”, a história acaba descambando para crimes, aventuras e armadilhas do destino. A trama é bem recheada de incidentes e não se detém muito em nenhum deles a ponto de nos fazer pensar em sua verossimilhança ou se são tão importantes, mantendo nosso interesse e atração. E, importante, mantém o ar regional, escapando de outro erro normal nesse tipo de fita, a exposição da alienação do artista, incapaz de se libertar da influência da cultura americana, presente o tempo todo, é claro, mas filtrada por olhos de metrópole do terceiro mundo.
outubro 04, 2008
Festival de Cinema do Rio 2008 - Glória ao Cineasta, de Takeshi Kitano
Pois alguma coisa deve ter acontecido, tipo ele levou um pé na bunda, ficou meio arrasado e resolveu se trancar em casa algumas semanas com uns DVDs do Monty Python, de uns filmes-cabeça e nos intervalos entre os disquinhos ficou zapeando e vendo os animês e programas de auditório, tudo regado a bastante substâncias estupefacientes, que ninguém deve consumir, pois seria uma infração da Lei e estaria ainda por cima financiando o crime organizado. Aí, no meio da fumaça e da sala escura, o Kitano ficou com o pensamento nostálgico, lembrando como eram bons os tempos em que ele ficava fazendo aquelas comédias, como as coisas eram mais fáceis naquela época... e resolveu fazer uma. Detonando filmes-cabeça, os arrasa-quarteirão de bilheteria, ele mesmo, com um jeitão Monty Python, mas com aquelas coisas de cultura pop bem japonesa, saca assim? “E como é que a gente vai chamar isso”, perguntou o japa doidão fumando com ele. “Glória”, respondeu o Kitano. “Não aguento mais você falando dessa mulher”, respondeu o interlocutor, “mas ela tinha que voltar pra mim... de que adianta ser cineasta sem ela?” “Por que você não chama o filme de GLÓRIA AO CINEASTA pra ela se tocar que você ainda sente falta dela?”
E assim começou a produção. O filme sacaneia Ozu (em preto-e-branco e com câmera parada, parando a história no meio porque hoje em dia ninguém aguenta ver pessoas tomando chá e saquê durante meia hora), as fitas de Yakuza do próprio diretor, os chineses voadores e os super-samurais, a enxurrada do terror japa, até o final over-over-over-over-over-over-(...)-over-over-over, com piadinhas que lembram o estilo absurdo e exagerado do finado programa de apostas “Banzai” (que, aliás, era uma falsificação japonesa), embora sem incursões na escatologia (como aquela vez em que o show perguntava, “qual desses sujeitos é um farsante e está apenas fingindo ser um veterinário com o braço enfiado no cu da vaca, já que na verdade é maneta?”). Pra se ter a idéia da coisa, uma das cenas é quando o dublê boneco de Kitano (não pergunte) está sendo espancado violentamente; seu cabelo falso cai aos poucos; depois é a vez de seu uniforme japonga, revelando uma camisa branca com detalhes em vermelho e azul; os agressores olham aterrorizados; a câmera recua e revela-se que o boneco virou um boneco de Zinedine Zidane, com a 10 da França, que cabeceia e nocauteia todo mundo.
Isso, é claro, é só o começo; não vamos entrar em detalhes sobre o anúncio perseguindo o trem ou o robô com o soco-foguete que enfrentou Saddam Hussein. Não dá pra contar as paródias das delicadas composições das fitas sensíveis que inundam o Estação não só durante o festival, nem da sátira ao próprio último drama pesadão (em que Kitano só atua), “Consumido pelo ódio”. “Glória ao cineasta” é o tipo do filme que as piadas só funcionam (e muitas não) vistas, e não contadas. Na metade final, tudo é tão absurdamente overmente exageradamente demais que cansa e se perde um pouco. Mas, em casa, um dia, com os amigos, a fim de curtir, vai ser um barato.
outubro 03, 2008
O Aterro Não é um Lugar Seguro para Mamíferos





a) O artista buscava uma metáfora poderosa sobre a decadência do Rio;
b) Vacilou na mão do CV e os elementos resolveram submetê-lo ao "Golfinhos de Miami" (v. Tropa de Elite V);
c) Foí vítima de atropelamento e fuga;
d) Foi vítima de um assalto;
e) Foi fazer seu jogging, mas estava fora de forma e acabou botando as tripas para fora;
f) Estava em casa depois que o pai e a madrasta saíram, quando apareceu um terceiro homem e o atirou pela janela.
Ex-centricidade
que as estrelas continuarão a brilhar
e que as ruas continuarão sendo trilhadas
depois de mim
O pior é constatar
que nada disso
foi criado para mim
Outras Grandes Produções do Cinema Brasileiro
outubro 02, 2008
Festival de Cinema do Rio 2008 - Premiere Brasil
De Volta para o Futuro
Demorou cinco filmes e uma semana, mas finalmente apareceu mulher pelada na Première Brasil. O que houve com o cinema brasileiro dos anos 70 e 80 pra cá?
E talvez por não coincidência o primeiro longa com tais atributos acabou sendo justamente um com jeitão de anos 80. Aquela foi a época em que a primeira geração criada com televisão chegou às telas, fascinada com quadrinhos da “Heavy Metal” e o “film noir” que passava no Corujão (antes da cinematografia em preto-e-branco ser banida da tevê aberta e refugiar-se no solitário TCM). Urbana e globalizada via satélite, não tinha muita intimidade com miséria e regionalismo, daí uma tentativa de transpor os angustiados anti-heróis de classe média das fitas dos anos 40 e 50 para o Brasil que, passando pela década perdida, parecia se prestar muito bem a tal papel.
Mas a enorme dificuldade na obtenção de fundos, a inexperiência, os engasgos naturais ao se tentar uma estética nova, os problemas e custos muito maiores da película sobre o vídeo digital e, por que não dizer, em alguns casos a falta de talento, deixaram como herança um punhado de fitas esforçadas porém esquecíveis. Vinte anos depois, “Vingança” leva às telas em alta definição uma trama policialesca de louca paixão, ironias do destino e mulheres irresistíveis com muito mais competência e profissionalismo, mas bem menos preocupação com claro-escuro (ou mesmo escuro, o filme é muito luminoso evocando a radiante personalidade da Carol), e, infelizmente, menos mulher pelada também.
Guta Stresser, aliás, não deve ter tido o menor problema em ser convencida a tirar a roupa (yes!) depois de ler a quantidade de boas linhas reservadas a seu personagem – e aí começam as vantagens de “Vingança” sobre a turma oitentista, um roteiro bem melhor. Pena que, apesar da ótima atuação da garota – trajada e despida (não o suficiente) – a direção não tenha imposto um ritmo mais acelerado às falas dela, bem como às do taciturno protagonista. Depois de uma semana de Premiére Brasil, apesar da qualidade dos filmes, seria bom alguém lembrar que personagem angustiado não precisa necessariamente se mover ou falar lentamente (cf. Bogart, Humphrey, ou Gabin, Jean, ou Newman, Paul), tampouco moças charmosas de uma maneira encantadoramente alternativa (cf. Bacall, Lauren).
Aliás, depois do pós-modernismo MTV de “Rinha” e dos dois exemplares do cinema neonovo, foi muito estranho entrar no Odeon e assistir a uma narrativa convencional. Convencional até talvez demais. Com ênfase em planos médios e closes a fita tem um ar inegavelmente televisivo, como se ideada para caber confortavelmente numa tela pequena. A boa trama, as boas atuações e os bons diálogos, entretanto, carregam o espectador pela história confortavelmente e, principalmente, com uma sensação de satisfação de história policial bem resolvida ao final (qual o problema se tem algumas coincidências? Aposto que você adora “Casablanca”), o que é raro aqui onde canta o sabiá.
O protagonista, apesar de seu permanente ar sorumbático e macambúzio traindo sua aflição interna, acaba se revelando uma construção coerente e interessante. O bem escrito patriarca de José de Abreu permite ao veterano exibir seus dotes tespianos. E a moça encarnada pela Guta Stresser pode ser mais a personificação de sonhos masculinos do que uma mulher de verdade, mas assim também o são grandes personagens do cinema e da literatura (e você acredita realmente que tinha tanta mulher atrás do Bukowski mesmo?) e, tirando a parte na rua da cena de sedução, é otimamente redigida. E ainda por cima ela tira a roupa. Legal.
Festival de Cinema 2008 - "Feliz Natal", de Selton Mello
A coisa melhorou com o patrocínio e as leis de incentivo, e muito mais ainda com a introdução das câmeras de vídeo digital, que dispensaram a caríssima película, mas continua sendo muito difícil fazer cinema no Brasil. Uma das consequências é que o sujeito talentoso, quando tem sua oportunidade, precisa de qualquer maneira provar suas qualidades e fazer se possível logo sua obra-prima, pois sabe lá o Santinho quando vai aparecer outra chance. Assim o vivente logo na estréia tem não só que mostrar pleno domínio da técnica, da linguagem como ainda por cima ter algo de relevante a dizer, mesmo com toda sua inexperiência.
Selton Mello, talentoso, bem-sucedido, famoso, gente boa etc., podia ter seguido a trilha de boa parte dos atores que resolve se bancar em teatro e cinema e ter buscado um caminho comercial que servisse para destacar seus dons tespianos (quantas e quantas vezes não me foi pedido por gente de teatro um texto que fosse monólogo, por barato de produzir e dar a chance do ator brilhar, e, “ça va sans dire”, uma comédia, assim, meio besteirol, por ter mais apelo de público). Mas resolveu correr o risco, mostrar o que tinha a dizer e “Feliz Natal”, que esteticamente pode ser posto junto do cinema neonovo de Chico Assis, Beto Brant, e agora também Mateus [AUTOTEXTO], entre outros, encara aqueles obstáculos lá do lide e acaba revelando a inexperiência de seu diretor.
Denise Lopes se aproxima das bolas já com o taco na mão, na festa de lançamento de Feliz Natal
A fita quer mostrar o vazio na vida de uma família durante a comemoração de Natal, mas o roteiro indeciso não define exatamente como as coisas chegaram a isso. Há uma menção a um acontecimento importante que mudou a vida de um dos personagens, mas tudo é muito vago e boa parte é deixada à imaginação dos espectadores, embora outros pontos óbvios sejam reforçados à exaustão (exemplo: o protagonista, no dia de Natal, deixa a família e os amigos para procurar um túmulo num cemitério. O vigia da necrópole então comenta, “puxa, nunca vi ninguém deixar a família e os amigos no dia de Natal para procurar um túmulo num cemitério. Deve ser alguém bem importante para você”).
A câmera tenta fugir de qualquer maneira do lugar-comum, mas em sua busca incessante de ângulos originais e interessantes muitas e muitas vezes acaba descambando para hipercloses, ou para silhuetas conversando que deixam no espectador dúvida sobre quem está falando. Como a maioria dos diálogos é banal, esta pode ter sido justamente a intenção do diretor, mas num roteiro em que tão pouco é dito claramente, a sensação é de que pode se perder informação importante, não sabendo quem comentou o quê em determinado momento. Em meio a tanta gente sussurrando, os personagens que saem desse molde acabam se sobressaindo e permitindo a Lúcio Mauro, o pai, e Darlene Glória, a mãe, embolsarem a fita. Por esse mesmo motivo também se destacam os amigos doidões do protagonista.
O longa também é carregado de simbolismo do começo ao fim – Um ferro-velho, Caio martelando e destruindo carros, fazendo amor sem entusiasmo debaixo do chuveiro, como para lavar velhas culpas, Darlene Glória se maquiando, fazendo discurso ignorado sobre o espírito de Natal e por aí vai. Mais uma vez não condiz com o roteiro tão avaro em nos explicar como a família se desagregou tanto. Embora as imagens sejam inegavelmente melancólicas, falta substância a tanto quieto desespero. Angústia e depressão são sentimentos exatamente assim, vagos e indefinidos, e a turma do Freud fez a fortuna justamente tentando identificar a fonte deles. Mais do que mostrar os atos, nos são exibidas apenas as consequências, sem maiores detalhes. Os autores não quiseram ou não conseguiram lidar com o que seria muito mais trabalhoso e, principalmente, doloroso, ainda mais para pessoas tão jovens (doloroso sim. Pensa que escrever sobre suas emoções é moleza?).
Da forma como está, a sensação ao final do angustiado “Feliz Natal” é como se alguém mostrasse Nova Orleans inundada ou Sumatra arrasada ou Nova Iorque sem as torres gêmeas e não contasse o que tinha acontecido, fazendo a elipse do Katrina, do tsunami e dos jatos. A sensação de quem chegou depois do vendaval e encontrou a casa destruída sem nenhuma explicação.
outubro 01, 2008
Festival de Cinema 2008 - JUVENTUDE, de Domingos de Oliveira
Pois é, o Pete Townshend alcançou a fama com esse verso aí em cima. Quando ele chegou lá pelos sessentinha, alguém perguntou, “e aí, e aquele papo de preferir morrer a envelhecer?”, ao que o escrevinhador de “Tommy” respondeu, “ué, mas eu AINDA prefiro morrer a envelhecer!”
Antigamente as coisas eram mais fáceis. Você era rico e passava a vida espezinhando os inferiores, dormindo com a mulher dos menos favorecidos e festejando, até a gota, a arterosclerose, os parasitos e as doenças infecto-contagiosas transformarem-no numa ruína, quando então descobria sua espiritualidade e sabedoria e esperava a morte que chegava logo, ou você era pobre e trabalhava feito um condenado até, na provecta idade de trinta e cinco anos, ser um ancião. Tudo simples. Mas aí veio a Revolução Industrial, a classe média apareceu e a expectativa de vida começou a subir.
Era mais fácil lidar com a decadência e a morte. Não existiam UTIs ou asilos. Os clãs viviam todos na mesma casa e cuidavam dos parentes mais velhos, bem anciãos (alguns com quase setenta anos!). Quando chegava a hora deles, normalmente após uma longa doença, as crianças eram levadas junto à cama para se despedirem. No século XX, com o crescimento das cidades e o surgimento do apartamento, bem como dos eletrodomésticos que dispensavam a enorme criadagem necessária anteriormente, as famílias se separaram. Em cada residência passou a morar apenas a família nuclear – o pai, a mãe, os filhos (muitas vezes até sem um dos pais). Até a empregada passou a ser diarista. Sem crescerem lidando com a morte (até porque é uma idéia abominada pela sociedade de consumo) e relacionando-se com um número bem menor de parentes (o que agrava os complexos de édipo e outras neuroses surgidas no âmbito familiar), começou a surgir a o perfil da personalidade neurótica de classe média globalizada sensível que fez a fama de Woody Allen.
A princípio eram os jovens que chegavam ao fim de seus estudos e não sabiam bem o que queriam da vida, não se casavam e se enquadravam imediatamente. Esses jovens cresceram e lá pelo final dos anos 70, início dos 80, fez sucesso uma série americana, “Thirty-something”, enfocando o pessoal que mesmo depois dos trinta ainda não sabia muito bem o que fazer quando crescer (curiosidade: o elenco de “trintões” hoje em dia seria escalado pra representar gente do lado de cima dos quarenta). E hoje seriados como “Desperate Housewives”, “Once and Again” e afins ganham prêmios e público falando do pessoal de quarenta anos que não sabe muito bem o que fazer quando crescer. Adiantando-se à tendência, Domingos de Oliveira mostra neste Festival do Rio “Juventude”, contando a história de três sessentões que não sabem muito bem o que fazer quando crescer.
O ditado clássico diz “the spirit is willing, but the flesh is weak”, o espírito até quer, mas a carne é fraca. Hoje em dia está completamente desatualizado, deveria ser “the spirit is willing, but the flesh is strong”, o espírito até quer, mas a carne é forte. Até o começo do século XX, depois dos quarenta anos, suas artérias entupidas, o cigarro, a alimentação ruim, as lesões acumuladas em longas infecções ao curso de décadas cobravam seu preço. Ano após ano, mais e mais se fazia alguma coisa pela última vez. Dificuldade de locomoção, de concentração, impotência (ainda mais porque a mulher, depois de cinco, seis filhos seguidos, parecia um barril), a vida era como uma casa da qual um a um iam sendo retirados todos os móveis e objetos, até que se tornava apenas um espaço vazio e sombrio e não restava nada a não ser a porta da saída.
Mas os avanços da medicina, a melhor alimentação, os antibióticos, drogas anti-colesterol, ênfase na malhação, mudaram tudo. Com o barateamento do Botox, do lifting, do implante de seios, de cabelos, da injeção de silicone contra rugas, até a aparência pode se manter quase indefinidamente na maturidade. Na própria fita em questão, Domingos, apesar de seus setenta e dois anos, tem uma cara que poderia levá-lo a ser escalado tranquilamente como um sujeito de 45 anos. Somando-se a isso a revolução sexual, o fim do casamento para sempre e a disponibilidade de parceiras, quem é que quer assumir a velhice e a proximidade da morte?
E esse é o cerne de “Juventude”. A idade que antigamente delimitava a vida (depois era lucro) foi empurrada dos 60 para os 80 anos (para gente de classe média pra cima, é claro). Numa sociedade capitalista onde perdeu-se completamente o vínculo com o sistema produtivo (o que vocês acham de um sujeito que ganha a vida escrevendo sobre entretenimento?), a alienação em relação ao funcionamento da sociedade traz também uma ausência de senso de responsabilidade. Num mundo em que qualquer sujeito de classe média leva uma vida bem mais luxuosa do que qualquer príncipe pré-revolução industrial (sem o poder, é claro), secularizado e consumista, esse povo que não precisa trabalhar o tempo todo para viver acaba com uma certa sensação de vazio, uma ansiedade que antigamente acabava com a adolescência quando a preocupação passava a ser pagar as contas no fim do mês e arrumar o leitinho das crianças (que hoje também chegam só depois dos trinta). E assim a adolescência pode ser empurrada adiante com a barriga, cada vez mais para longe.
O filme? Divertidíssimo. Domingos de Oliveira bebe há mais de 50 anos com gente interessantíssima. Tem histórias boas pra contar pra filme e peça que não acaba mais. A fita fica com esse clima de papo de amigos interessantes contando velhas histórias até mesmo no final. Porque esses papos não são arcos dramáticos, eles normalmente acabam sem mais nem menos, com o pessoal do bar virando as cadeiras e jogando água no chão, senão iam noite adentro. E o mesmo acontece com o filme, encerrado meio de sopetão, meio arbitrariamente. Como essa crítica.
setembro 29, 2008
Festival de Cinema do Rio 2008
A Festa da Menina Morta
Ontem RINHA veio dizer que a abundância e a riqueza numa sociedade miserável (ou semi-miserável, afinal a classe C agora compra computadores) transformam o sujeito, por trás de um verniz de sofisticação e elegância, numa besta-fera, presa de deus desejos. Hoje A FESTA DA MENINA MORTA veio mostrar que a miséria transforma as pessoas em bestas-feras, presas de seus desejos. Sobrou pra classe média acuada dos dois lados fazer filmes denunciando seus predadores antes que sua predação contumaz acabe transformando-a numa besta-fera, presa de seus desejos.
Tudo bem, estou sendo meio injusto com A FESTA DA MENINA MORTA. Antes de se transformarem definitivamente em bestas-feras, os miseráveis de Lá Onde o Afilhado de Crisma do Judas Perdeu as Botas agarram-se à religião para sobreviverem. Não exatamente, religião, mais a variante supersticiosa do cristianismo. Vinte anos atrás, um vira-lata sarnento trouxe na mão de um moleque o vestido rasgado de uma linda menina desaparecida e as pessoas (ou talvez o próprio menino) disseram que foi uma intervenção do sobrenatural e hoje o garoto é cultuado como milagreiro, tanto que nem tem mais um nome, sendo conhecido apenas como Roque Santeir... oooops, Santinho (e seu pai, como... Pai; a menina, revela-se no final, chamava-se Maria; assim pelo jeito sobra para Tadeu ser o Espírito Santo).
Homem feito, Santinho usa há vinte anos como traje o vestido da menina morta e a responsabilidade de ser a única esperança de um comunidade sem perspectivas, onde a única edificação de alvenaria parece ser a igreja, transformou-o num monstro egoísta, homossexual e incestuoso (desculpe se estou estragando a surpresa contando algo que só é mostrado com trinta segundos de filme). Ainda assim, Pai e Filho são hipócritas o suficiente para promoverem aquilo que dá nome à fita, lucrando com vendas de bebidas, comidas e até mesmo propaganda e show de música (paupérrimo, remetendo a BYE BYE BRAZIL).
O Zé já comentou algumas postagens abaixo que teve gente que se sentiu enganada, achando que ia ver um filme do Mateus [AUTOTEXTO] e acabou vendo um do Cláudio Assis, mas [AUTOTEXTO] opta por um ritmo ainda mais lento. As cenas “de ação” usam câmera na mão; as de “diálogo” são muitas vezes rígidas e formalistas. A edição entra nas sequências antes do começo da ação e saem depois e os ângulos escolhidos deixam personagens que falam ou acontecimentos fora de quadro, deliberadamente buscando um clima tão arrastado quanto a vida daqueles interioranos. O problema com essa estética é que exige uma concisão narrativa absoluta, sob as penas da Teoria da Relatividade: o tempo se estica e os minutos tornam-se horas. E o roteiro de FESTA DA MENINA MORTA não consegue resistir a ser um tanto redundante ao mostrar os ataques de fúria injustificada do Santinho com suas beatas e sua hipocrisia. A história “fatia-da-vida”, em que a maioria das pessoas que aparece não passa por um arco dramático completo, mas é mostrada como é, também colabora um pouco para aumentar a vagareza do longa. Felizmente os belos visuais do filme – cor, fotografia, iluminação, composição, sem falar nas uniformemente excelentes atuações – distraem o espectador nesses momentos.
Em suma, FESTA DA MENINA MORTA mostra a interligação entre miséria, conformismo e religião. Alguns personagens não têm fé no Santinho, mas vão pedir sua bênção porque, afinal de contas, “não custa nada”. Outros, como suas tias beatas, agarram-se a ele como única esperança numa vida vazia e sem sentido; a santidade dele torna não só o garoto especial, mas, por extensão, também elas e, por isso elas suportam seu egoísmo e suas inseguranças (às vezes até com o roteiro forçando a barra um pouco). Jackson Antunes, como o Pai, tem talvez a melhor atuação; mesmo com sua hipocrisia, explorando a venda de cervejas no ponto onde o pai da menina morta costumava ficar e esticando faixas com patrocinadores, é tão sedutor e charmoso que leva todo mundo a perdoar seus defeitos. No final, a festa é o grande momento, onde pode por um momento escapar-se da realidade de uma existência paupérrima. Enquanto o Santinho fala, abalado por um acontecimento que esse não, eu não vou falar qual é, vemos na multidão as moças do show, um garoto que gosta de dançar break (ou sabe-se lá que nome tem isso hoje em dia), envoltos pela transcendência do momento, ainda que talvez tudo aquilo seja falso e que quem mais comemore sejam o Pai e o Vendedor de Cerveja. Nesse momento [AUTOTEXTO] mostra algum entendimento do que é o misticismo cristão, além de toda a hipocrisia, comercialismo, superstição e vícios dos quais é acusado. O nome da menina é revelado e o Santinho mergulha na água, porque, no começo dos tempos, o Espírito de Deus caminhava livremente sobre as águas.
P. S.: Eu sei, eu sei, eu tinha prometido que não faria piadinhas óbvias com o nome de Mateus [AUTOTEXTO], mas não resisti. .
setembro 28, 2008
Festival de Cinema 2008 - RINHA
O primeiro e até agora melhor longa de ficção da Première Brasil tem um careca esquisito que adotou um porco, mas não é OS SIMPSONS – O FILME.
Antes da sessão, o diretor Marcelo Galvão explicou que há três anos está tentando levantar recursos para fazer o filme que realmente queria fazer, sobre um menino com síndrome de Down. Não tendo conseguido até agora, decidiu então juntar os amigos e com recursos próprios fazer um longa que ganhasse dinheiro suficiente para o seu projeto pessoal. Entretanto, assistindo ao extremamente bem-cuidado RINHA, o espectador fica imaginando que, se a outra fita vai ser tão mais cara, no mínimo o moleque problemático se envolve com um arqueólogo às voltas com extraterrestres, bombas atômicas e cientistas loucos querendo dominar o mundo.
É claro que não, é tudo mérito de "Marcelo Galvão e equipe", como RINHA é assinado. Com inteligência e boas escolhas, alguns smokings, vestidos de noite e uma casa talvez não em seus melhores dias dão uma aparência de orçamento muito maior ao longa. As boas escolhas começam com a câmera tremida na mão e a montagem nervosa, recurso hoje em dia usado até em novela das oito, mas que no caso disfarça a aparição de qualquer detalhe que mostre que a festa não se passa num lugar tão luxuoso assim, a falta de continuidade dramática de algumas cenas e personagens e a inexperiência de alguns atores, esta também suavizada pela decisão de filmar quase todos os diálogos em inglês, o que ainda por cima ajuda a posicionar a fita no mercado mundial - por isso pode-se perdoar seu uso como metáfora óbvia, de uma burguesia que nem sequer fala a língua de seu país, ainda mais por soar irônica num filme tão cheio de claras influências do cinema anglófono.
Assim, ajudado por excelentes iluminação e direção de arte, RINHA envereda por uma estética moderninha um tanto gasta, mas que justamente por isso não tem dificuldade em prender a atenção da platéia. O principal defeito da fita é o roteiro, com influências aparentes que vão desde o já citado SIMPSONS até CÃO DE BRIGA. A preocupação maior é em alinhavar detalhes bizarros, cínicos, irônicos e violentos, sem lhes dar continudade dramática. Manias esquisitas não substituem uma personalidade de verdade e nenhum dos personagens decola. O sujeito que faz a narração em off virtualmente só aparece na história para UMA cena. A maioria dos playboys e patricinhas da festa são tão intercambiáveis que o espectador tem dificuldade em distinguir um do outro e seguir suas histórias. O longa abre com uma violenta e bizara cena do anfitrião, que em seguida quase desaparece do enredo. Até o careca que adotou um porco desaparece completamente depois de cinco minutos de projeção. Parte do problema pode ter sido a vontade de mostrar os ricos como criaturas tão abjetas e elitistas que acabaram transformando-nos em caricaturas - não por acaso os melhores personagens são os garotos de classe média baixa que tentam várias vezes penetrar na casa. A falta de sinceridade é agravada pela escolha da direção de se afastar das cenas de maior voltagem emocional, que ocorrem em grande parte fora de cena, o que costuma indicar um certo de medo encarar a tarefa por pouca experiência.
RINHA foi feito com poucos recursos, confessadamente para ganhar dinheiro. Moderninho, cínico e violento, tem grandes qualidades para o mercado mundial, nem que seja no segmento "direct-to-video", o que leva a perdoar-se a inexperiência e a obviedade em certas áreas, até mesmo no tema – num mundo em que o Vale-Tudo e as lutas em jaulas viraram uma mania mundial, têm canais de tevê exclusivos e um episódio de Jornada nas Estrelas, OCTAGON, contra a violência, virou nome de programa de porradaria, burgueses elitistas insensíveis se comprazendo com seus lutadores proletários brigando até a morte não soam tão chocantes assim. A única coisa realmente imperdoável na fita, completamente dispensável, é a cena final em câmera lenta, sem diálogos, com personagens reencontrando sua humanidade ao som de uma escandalosa música emo. Instintivamente fica se esperando o anúncio do Sony Channel anunciando a próxima atração.
setembro 27, 2008
Festival de Cinema 2008
É uma cena que passa meio desapercebida. Antony Moraes, o pai do editor e roteirista Marcelo Moraes, assiste em casa a um documentário do National Geographic. Não há ironia nenhuma na cena, nenhum humor negro. A imensa maioria desses programas pode ser acompanhada apenas pelo áudio, ainda mais agora que os reality shows invadiram os Discoverys e afins da tevê a cabo. Foram-se quase todos aquelas trabalhosas filmagens mostrando em close a larva do cabefistão dourado esperando durante 16 anos a passagem de uma joaninha-do-pé-vermelho para imobilizá-la com sua cusparada paralisante e lentamente moer seus espiráculos traqueais para poder pôr seus ovos (um amigo meu dizia preu não acreditar em nada disso, obviamente eles pagavam os bichinhos todos pra fingir isso em frente à câmera). Com os novos formatos de hoje em dia, meu primo era capaz de acompanhar Mythbusters sem pagar um tostão – a TVA bloqueava a imagem, mas o som era liberado e ele só sentia falta de saber a cara do Buster.
E é esse justamente o problema de Sentidos à Flor da Pele – a imagem é desnecessária na maior parte do tempo. O longa se desenrola como um programa do GNT, feito para as pessoas acompanharem sem completa dedicação, conversando com alguém, zapeando de vez em quando ou levantando pra pegar um pouco de arroz integral com ricota na geladeira. A câmera exibe o entrevistado durante seus depoimentos sem outro propósito que não ilustrar a voz do sujeito. A intenção do filme é mostrar como eles conseguiram se ajustar e levar uma vida normal, o que virtualmente exclui a chance de momentos de grande emotividade; num filme sobre cegueira é curioso justamente a parte visual ser tão pobre. Compare-se-o com o curta que o precede, Dreznica, em que cenas de velhos super-8 decaídos para uma dominante magenta se contrapõem às declarações dos cegos, questionando a relação entre ver, sonhar e existir, bem como entre visão e alma. Um brilhante curta, que, por uma incrível e não-relacionada coincidência, é da produtora que patrocina este saite.
E, já que falamos de documentários de tevê a cabo, seja por coincidência ou por estarmos viciados no formato, na marca de 60 minutos a fita começa também a soar redundante. Os entrevistados são aparentemente todos de classe média e bem ajustados à sociedade e cada novo personagem pouco acrescenta, com exceção do curto segmento de Ethel e seu cão-guia Gem, que acabaram levando à lei do cão-guia e a um cachorro de smoking no Municipal – enfim um pouco de humor na solenidade do documentário!
Desenrolando-se como um documentário educativo, Sentido à Flor da Pele é por demais preocupado em parecer respeitoso e solene e por isso abre mão de imagens ou montagens mais experimentais e ousadas. Competente e profissional, gasta seu tempo sem aborrecer o espectador, embora também sem o conquistar. A grande ironia final é que, dada a preocupação do diretor em mostrar a normalidade da vida de seus sujeitos, a imagem mais impressionante da fita acaba sendo a dos claros e grandes olhos da bela cantora Giovana, que remetem inescapavelmente a soturnas bonecas antigas de biscuit com seus brilhantes olhos de vidro e sugestões de mansões vitorianas mal-assombradas.
setembro 22, 2008
Urgente!!!!
Assunto: SANCIONARAM LEI MUNICIPAL NO RIO EXTINGUINDO O PARQUE NATURAL DO MENDANHA!!!!!!
Pessoal:
Fui tomado de surpresa!!!!!
Acredite se quiser. Foi sancionada a Lei Municipal 4.899/08 e publicada no Diário Oficial da Cidade do Rio de Janeiro no dia 18/08/08, após ser sancionado pelo Prefeito César Maia, que extingue o Parque Ecológico do Mendanha (atual Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha - renomeado devido ao SNUC), para transformá-lo em uma Área Especial de Interesse Social. Esta categoria se destina a dar títulos de propriedades e para implantar programas sociais, tais como: conjuntos habitacionais, favela bairro, etc.
Este Unidade de Conservação era a mais bem preservada do município e uma das raras com a situação fundiária resolvida. Ela é coberta com a Floresta Ombrófila Densa mais bem conservada da Cidade do Rio de Janeiro e de toda a Região Metropolitana do Estado do RJ. E por incrível que pareça só agora está sendo estudada, inclusive com a descoberta de uma nova espécie de anfíbio (ainda em descrição).
A área precisaria de reassentamentos (ou redelimitação) e até de ampliação, para proteger o restante da floresta que está fora do parque e para excluir uma área rural (veja foto).
Toda a Secretaria de Meio Ambiente foi tomada de surpresa, pois uma consulta havia sido realizada e todos foram contra o projeto, totalmente sem propósito. Mas ao apagar das luzes de um mandato, o VEREADOR JORGE FELIPPE (gravem este nome!!!) submeteu um projeto que vai na corrente contrária da conscientização ambiental mundial. Pior é que a Câmara de Vereadores aprovou e o Prefeito sancionou.
E agora como fica a preservação da área???? E o dinheiro público investido até então???? E as pesquisas em andamento?????
Peço à todos que enviem mensagens de repudio para a câmara, para o prefeito e para o indigníssimo vereador (jorge.felippe@camara.rj.gov.br). Mas também divulguem, pois não podemos ficar de braços cruzados e entregar uma área pública que tem vocação para a preservação, ecoturismo e fins científicos, que foi solicitada por iniciativa popular ficar sem uma proteção mais restritiva, como um Parque Natural.
Agradeço, desde já a atenção e qualquer ajuda possível.
Obrigado.
setembro 21, 2008
1999

A última vez em que vi Bagaceira. Foto tirada com a minha avançadíssima Casio Digital com resolução de 320 x 240. Nesta noite um amigo nosso presente bebendo com a gente, depois de vários telefonemas para uma moça, deu a seguinte declaração: "putz, tenho que comer uma mulher e não tô nem um pouco a fim", antes de virar-se pra mim, "Ei, Uruba, quer comer uma mulher perto da tua casa? Mais gostosa que a tua namorada!" (mentira, se fosse ele não teria a minima falta de vontade).
Depois do Fim
Em meus sonhos
outra vez
Virei História


setembro 19, 2008
Furtivo e Covarde
Tudo que está morto torna-se pai
Tudo que vive é o filho
Nunca devorei a carne dos inimigos caídos
Para herdar sua coragem
Nunca brindei bebendo nos crânios
dos inimigos por mim abatidos
por sua valentia que me enobrecia
Nunca amei
Nunca amei de verdade
Amei como nos ensinam a matar
nas escolas nas creches no emprego no governo na tevê
Amei furtivamente
A sangue-frio
Amei pelas costas
Covardemente
Mantendo o colarinho os punhos o paletó
impecáveis
Amamos como vivemos
Vivemos como matamos
Pois tudo que está morto torna-se pai
E só o filho está vivo
setembro 18, 2008
setembro 17, 2008
Grandes Frases de Amigos
(Minha mãe, vendo um filme em que uma moça se despedia - eles nunca mais se encontrariam - do sujeito com quem perdera a virgindade e dizia: "você sempre será meu primeiro")
setembro 16, 2008
Eagles x Cowboys
Michael Vick está preso por matar cachorro a grito, mas mesmo antes da prisão ele nunca cumpriu a promessa de genialidade que levou os Falcões a apostarem tudo nele. E ainda tem histórico de contusões sérias e perna quebrada. O Daunte Culpepper foi outro que destrambelhou o joelho e nunca se recuperou direito, acabando por se aposentar este ano. Steve McNair, que não era um sujeito tão dado a correr com a bola como esses, mas ainda assim gostava de dar suas escapulidas, encerrou a carreira com 34 anos - prematuramente para um armador (2). E Vince Young perdeu a vaga de titular nos Titans para o medíocre veterano Kerry Collins. Sumiu na segunda-feira passada umas horas e o seu time e família ligaram para a polícia, porque ele já tinha mencionado suicídio com a sua psicoterapeuta (!!!!).
Os armadores simplesmente não aguentam levar as cacetadas que os corredores (3) levam. Os corredores são baixos, troncudos e atarracados, musculosíssimos. Os armadores são protegidíssimos pelas regras justamente por causa disso, já que são o cérebro do time. Talvez por causa do Steve Young - que não cheguei a ver jogando - chegou-se a acreditar no sucesso desse híbrido armador-corredor, do qual o Vick era o exemplo mais extremado. Todos eles foram quebrados ou mostraram-se pouco mais do que um efeito especial. Mobilidade é ótima para fugir dos saques, mas não dá pra fugir da defesa toda, a toda hora. Melhor só lançar a bola e deixar o resto com quem tem o corpo (movido a hormônios ilegais) pra isso.
(1) pass rusher - normalmente os defensive ends.
(2) quarterback, dã.
(3) running back, dã.
setembro 14, 2008
Grandes Poemas
Aqui, a tradução das legendas:
há bastante traição, ódio violência, absurdo, no homem
médio para todo um exército, a qualquer hora ou momento
e os melhores na matança são os que pregam contra ela
e os melhores no ódio são os que pregam o amor
e os melhores na guerra são finalmente aqueles que pregam a paz
(Esta parte não está na leitura:
aqueles que pregam deus, precisamm de deus
aqueles que pregam paz não têm paz
aqueles que pregam paz não têm amor
cuidado com os pregadores
cuidado com os eruditos
cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidado comaqueles que ou detestam a pobreza
ou têm orgulho dela
cuidado com aqueles sempre prontos a elogiar
pois precisam de elogios em troca
cuidado com aqueles sempre prontos a censurar
eles têm medo do que não conhecem
cuidado com aqueles que gostam das multidões
pois eles não são ninguém quando sós
(o vídeo continua aqui)
cuidado com o homem médio a mulher média
cuidado com seu amor, seu amor é médio
procura a média
mas há gênio em seu ódio
há gênio suficiente em seu ódio para matar você
para matar qualquer um
não querendo solidão
eles vão tentar destruir tudo
que divirja deles
não conseguindo criar arte
eles não entenderão arte
e considerarão sua falha como criadores
como uma falha do mundo
não sendo capaz de amar completamente
acreditarão que seu amor é incompleto
e então vão odiar você
e seu ódio será perfeito
como um cegante diamante
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como uma erva venenosa
sua grande arte
Um Bêbado e Sua Mulher
Quem leu MULHERES e HOLLYWOOD ou pesquisou na net sabe que o Bukowski, lá pelos seus cinquenta e poucos anos arrumou uma quase adolescente - segundo ele, virgem - bonitinha e natureba. Ele escreveu um dos mais belos poemas de amor pra ela, Yes Yes, mas sendo ele um velho bêbado e irascível, isso não o impedia de ser um tanto... indelicado com a Linda Lee de vez em quando. O vídeo acima estava no Youtube e não faço a mínima idéia de por que alguém estaria filmando (com som e cor) um casal discutindo em casa, mas os dois eram malucos, logo...
setembro 13, 2008
Um Ídolo da Juventude

Pro Marquinhos ainda teve coisa melhor do que andar de trem - ele encontrou seu ídolo de juventude, o Edinho, sentado atrás da gente. Eu e ele não tínhamos caneta, então ofereci o celular pro Marcos poder tirar uma foto pro sujeito que o encheu de alegria até 1982. Começou a contar que era vizinho do Cristóvão, que no campeonato de 1980 foi lá em casa me sacanear, que fomos à festa do Cristóvão (onde também estava Pintinho, do time perdedor)... quase falei que vinte e dois anos atr[as, nos meus tempos de jornalista esportivo, fiz uma entrevista de página inteira com ele (enquanto ele, fascinado, brincava com sua mini-câmera de vídeo, que trouxera da Itália, na época em que essas coisas só entravam aqui por contrabando). Mas a tecnologia avançou muito de lá pra cá e câmeras no telefone portátil acabam trazendo melhores recordações do que um autógrafo.
Se Maomé Não Vai à Boate, a Boate Vai à Maomé
Bem que sempre disseram que os jogadores da seleção brasileira são obcecados com boates e noitadas, mas não pensei que a CBF chegaria ao ponto de montar uma tenda-boate dentro do Engenhão pra mantê-los felizes!!!!
(A tenda-boate é de verdade, tinha até um mestre-sala e uma porta bandeira evoluindo do lado de fora)
Engenhão 2008
Eu Viajei de Trem

Fugi pela porta do apartamento
Nas ruas, estátuas e monumentos
O sol clareava num céu de cimento
As ruas, marchando, invadiam meu tempo
Viajei de trem
Viajei de trem
Viajei de trem
Viajei de trem, eu vi...
O ar poluído polui ao lado
A cama, a dispensa e o corredor
Sentados e sérios em volta da mesa
A grande família e o dia que passou
Viajei de trem, eu viajei de trem
Eu viajei de trem, mas eu queria
Eu viajei de trem, eu não queria...
Eu vi...
Um aeroplano pousou em Marte
Mas eu só queria é ficar à parte
Sorrindo, distante, de fora, no escuro
Minha lucidez nem me trouxe o futuro
Viajei de trem
Viajei de trem
Viajei de trem
Viajei de trem, eu vi...
Queria estar perto do que não devo
E ver meu retrato em alto relevo
Exposto, sem rosto, em grandes galerias
Cortado em pedaços, servido em fatias
Viajei de trem
Eu viajei de trem
Mas eu queria
É viajar de trem
Eu vi...
Seus olhos grandes sobre mim
Seus olhos grandes sobre mim
setembro 09, 2008
Brett Favre nos Jets
O primeiro jogo que vi com o gamepass que comprei pra temporada.
Chad Pennington é o quarterback com o maior percentual de passes certos DA HISTÓRIA da NFL. É técnico e inteligente, mas a torcida sempre reclamou que ele tem um braço fraco, incapaz de mandar uma bomba lá embaixo, e que lhe falta sangue.
Na segunda série de sua estréia, Brett Favre fez um TD num lançamento longo que rendeu 56 jardas. Logo em seguida, frente a uma quarta-e-13, rifou desequiibrado e quase sacado uma bola que rendeu um TD a 22 jardas de distância.
Foi por isso que o elegante Pennington perdeu lugar pro maluco do Green Bay.
Detalhe: muita gente criticou o segundo TD do Favre, rifando uma bola que tinha toda a probabilidade de ser interceptada. Ora, ele só etava fazendo o lançamento porque estavam sem o kicker/punter, momentaneamente fora de combate por uma contusão. Já que o time ia perder a bola mesmo de qualquer jeito, por que não tentar uma maluquice pra ver se dá certo? Chad Pennington jamais cometeria tal insensatez.
Mas a notícia da semana foi mesmo a contusão de Tom Brady, o melhor jogador da liga do ano passado e indubitavelmente um dos dois melhores deste século (ao lado de Peyton Manning ou, na minha opinião, um pouquinho atrás). Rompeu os ligamentos do joelho e a dúvida é se acabou a temporada ou a carreira dele com a porrada que levou. Um leitor do saite da ESPN diz que parece que encontraram este bilhete no meio das coisas dele:
MEMO
De: Satanás
Para: T. Brady
Assunto: Re: Pacto
A minha parte já foi cumprida, falta a sua. Se possível, alertar Bill Belichick que passarei para coletar a alma dele logo depos que pegar a de Archie Manning.
P. S.: Manning foi o maior motivo preu começar a acompanhar a NFL. Com essa contusão de Brady, a decadência dos Colts e o fim de carreira de Favre, está começando a parecer a NBA quando os Bulls do Jordan, Pippen, Longley, Kukoc e Rodman desbandaram, Magic Johnson e Larry Bird tinham parado pouco antes, Barkley e Malone entravam em seus anos de decadência e eu quase nunca mais acompanhei o basquete americano...
ALERTA VERMELHO!
Acabo de descobrir que minha rede sem fio não funciona quando eu ligo o forno de microondas. E agora? Ah, tanto faz, amanhã ligam o Large Hadron Collider e vão criar um big bang que vai sugar a existência mesmo...
Sobre Denílson e a Beleza das Mulheres
Mas digressiono, o que é a vantagem de escrever num blogue com espaço ilimitado. Denílson apareceu como um furacão, driblando pela esquerda. Foi levado para a seleção e vendido como craque, já que era habilidosíssimo nos dribles. E nada mais. Galvão Bueno e Casagrande exaltavam seu talento, mas não os culpemos, pois a maioria dos torcedores concordava com eles. Ele foi vendido por um preço récorde para a Espanha e começou a não mostrar muita utilidade com a amarelinha, indo parar na reserva.
Mesmo no clube, acho que o Bétis, começava a ser questionado. Atrasava as jogadas com firulas desnecessárias e sempre pensava primeiro na finta e nunca no passe rápido que poderia dar origem ao contra-ataque. Quando criticado, dizia que fora driblando que chegara à seleção e assim continuaria. Perdeu a vaga na seleção, acabou na reserva e até chegou a campeão mundial. Sua função era pegar a bola e ficar rodando com ela matando o tempo quando faltavam uns dez minutos. Exemplar foi o jogo contra a Bélgica. Denílson entrou e em três ou quatro contra-ataques pela esquerda, fintou, fintou e fintou até perder a bola. Kléberson entrou e no primeiro contra-ataque pela direita, simplesmente rolou a bola para o Fenômeno completar sozinho, matando a partida e selando a classificação. Kléberson não saiu mais do time.
Agora, aos 30 anos, ele voltou ao Brasil e finalmente se disse arrependido e entendeu que jogou sua carreira no lixo. Talvez se ele fosse menos habilidoso, não tivesse tanta facilidade de driblar, tivesse se dedicado mais a aprender tática, estratégia, a passar de primeira, a ajudar na marcação. Um amigo meu costumava dizer que, se tivesse metade da habilidade do Denílson, seria um dos cinco melhores jogadores do mundo. Provavelmente se o Denílson mesmo tivesse tido metade do talento com que nasceu pra jogar bola também teria sido um atleta bem superior.
O que nos leva à beleza das mulheres. No famoso filme CIDADE NUA todo mundo lembra da frase dita em off - "Nova York tem cinco milhões de histórias. Esta é apenas mais uma delas". A outra cena que todo mundo lembra é quando os pais do interior vêm reconhecer o corpo da filha assassinada. Ela era tão atraente que largou sua cidade e foi tentar a vida de modelo na cidade grande, caindo no mundo das drogas, festas e marginalidade. Os pais a reconhecem e a mãe se lamenta, "por que ela tinha que nascer tão bonita?"
Mulheres bonitas têm um poder sobre os homens que podem levá-las - enquanto a beleza e a juventude durarem - a subir de vida com uma facilidade inacreditável para quem acredita que importante é a beleza interior. Ao mesmo tempo, como o talento de Denílson, podem arrasar sua carreira. Como um executivo cercado de sicofantas incapazes de dizer "não", podem ir de decisão errada em decisão errada ladeira abaixo.
Em Natal conheci uma menina de 22 anos, de família com grana. Ela tinha um filho que morava com a mãe dela ("já ouviu falar de crianças criando crianças? Por isso que ele fica com a minha mãe"). Morava sozinha num apartamento meio vazio. Por que meio vazio? Porque alguns meses antes ela cheirara tudo que tinha em casa - uma tevê de 33 polegadas (uma fortuna naquela época), uma aparelhagem de som, um DVD... ela parara com as drogas depois que o noivo e a mãe a internaram numa clínica de recuperação e estava feliz que a mãe confiara nela o suficiente para lhe dar uma tevê de 20 polegadas.
Mas não confiava o suficiente para lhe dar mais dinheiro do que o estritamente necessário para as despesas. Se ia precisar pegar um ônibus, ela dava o dinheiro da passagem e mais nada. Quando nos conhecemos, ela me pediu uma grana pra comprar um pouco de maconha e, olhando praquele corpão (e ainda por cima inteligentíssima, o tipo da mulher que amedronta muitos homens e com certeza me amedrontaria nos meus 22 anos), como dizer não? Ainda tentei racionalizar usando o argumento dela, de que "maconha não é droga", mas a verdade é que eu queria comê-la e não iria discutir o que achava que fosse melhor pra ela.
E esse era o problema. Fomos a uma praia onde ela encontrou um sujeito mais velho e conhecido dela que imediatamente lhe ofereceu drogas ("volta aqui semana que vem que vai chegar um ácido"). Ele provavelmente não falava isso pra todos os amigos dele, mas com certeza para todas as meninas gostosas que ele conhecesse. Em quanto tempo aquela garota, numa cidade em que não se tinha nada pra fazer, iria cair de novo no seu problema?
Outro exemplo foi uma menina muito bonita, inteligente e talentosa que namorei anos atrás (suspiro - por que mulheres inteligentes normalmente são problemáticas? Por que pessoas inteligentes normalmente são problemáticas. Ora, seu idiota, é o contrário, pessoas problemáticas acabam tornando-se inteligentes). Na mesma época, como sói acontecer, ela terminou um casamento de dez anos e encontrou-se desempregada (a vida é assim - meses e meses se passam sem que nada aconteça e de repente então tudo ao mesmo tempo agora. Tenho uma peça premiada sobre o assunto) e quando ficamos juntos ela estava fazendo seus planos para o futuro, o que incluía fazer uma faculdade. Minha sugestão foi que ela fizesse Direito (na verdade, uma sugestão também não muito boa, já que ela não tinha a menor afinidade com isso, mas eu estava pensando em termos práticos), mas ela queria fazer jornalismo. Tendo eu feito jornalismo, expliquei pra ela que ela entraria na faculdade aos 30 anos e se formaria aos 34 e que numa carreira em que as vagas de verdade são muito poucas e mal pagas, ninguém que realmente valesse a pena iria contratar uma foca ou estagiária de 34 anos. A resposta foi, "mas tenho um amigo jornalista que acha que eu tenho tudo pra dar certo como jornalista!" Sim, ela era talentosa, mas é óbvio que qualquer macho heterossexual iria concordar com ela quando ela perguntasse algo assim. Quantas vezes eu mesmo já concordei com coisas que iam diametralmente contra o que eu pensava apenas para me aproximar de uma mulher bonita?
Algumas mulheres bonitas sobem na vida usando seu poder sobre os homens. Quantas promoters, produtoras culturais, modelos e marias-chuteira não vieram do nada cavalgando apenas sua esplêndia aparência? Outras deixam-se enredar justamente por esse tremendo poder(principalmente quando de famílias com recursos que lhes permitam sonhar com objetivos maiores do que ganhar o pão de cada dia), tão coisa mais maior de grande que ele é. Pergunta pra gente como Gene Tierney ou Veronica Lake (1).
(1) Lendo sobre a vida de Gene Tierney, a LAURA do famoso filme noir, chocou-me saber que o marido a traía desbragadamente. O primeiro pensamento é "por que alguém casado com a Gene Tierney iria querer dormir com outra mulher?" No entanto, ela não foi a única a sofrer por um marido bem menos famoso que a corneava, embora ela fosse perdidamente apaixonada por ele. Um pouco de raciocínio lógico, entretanto, esclarece a questão. A imensa maioria dos mortais fica intimidada com mulheres lindíssimas, ricas e famosas. O único tipo capaz de cair matando em cima de uma presa dessas é aquele sujeito meio canalha, meio mulherengo, com muita fé em seu taco. O tipo de cara que faz da traição e da poligamia um princípo de vida. Não faz sentido?
setembro 08, 2008
A Vingança dos Sith
O Terra Magazine publicou uma matéria um ou dois dias depois que Dantas foi preso dizendo que o banqueiro teria, na confissão, dito que iria entregar tudo. O Luís Nassif, por exemplo, foi um dos que se animou com o bom rumo que a coisa iria tomando, o que só prova que ele nunca viu muito filme de gangster e não sabe que quando o bandidão quer ser libertado logo de uma vez, avisa que vai confessar tudo.
No dia seguinte ele ganhou o segundo habeas-corpus e todos os seus acusadores estão tendo todo o seu passado levantado pela empresa. E há dias e dias Dantas saiu do noticiário.
Se este blogue sair do ar nos próximos dias, vocês já sabem o porquê.
Reclamações dos Leitores
De: orlando danilo paes [mailto:ksaldany49le42@ibest.com.br]
Enviada em: sexta-feira, 5 de setembro de 2008 11:40
Para: Rio Show - O GLOBO
Assunto: FESTA 18A - DE MENTIRA (PROGRAMA FURADO)
PROMOVIDA 5@ FEIRA PARA CASAIS SWINGER, AFIRMAM (ESTA NO SITE) A PRESENÇA DE MAIS DE 100 CASAIS E POUCOS SOLTEIROS. O QUE VIMOS FOI MAIS DE 100 HOMENS E 20 MULHERES GORDAS OU VELHAS. KSAL DANY49LE42@IBEST.COM.BR
Detalhe 1: O casal que reclama que só tinha velhas tem 49 e 42 anos;
Detalhe 2: Reclamam com razão. Olhem abaixo as fotos de um suposto casal frequentador:


(clique para mais fotos dela na praia, na rua e na estrada)
setembro 04, 2008
Em Breve Seremos Seres de Pura Energia
Essas coisas me vieram à cabeça porque estava lendo sobre o projetado substituto do Blu-Ray (o substituto do DVD). O Blu-ray guarda cerca de 50 gigabytes de dados, contra os 8.5 do DVD. O HVD pode guardar até 3.900 gigabytes (3,9 terabytes), pra isso usando apenas o mesmo disquinho prateado que o CD (0,7 gigabytes ou 700 megabytes). Só que dessa vez, não é um avanço na tecnologia de gravação de zeros e uns no disco que possibilita o aumento na capacidade, é um novo conceito.
O CD guarda dados digitalmente, ou seja, todos transformados em zeros e uns (depois eu explico como em outro artigo, mas tente pensar como se fossem as palavras transformadas nos pontos e traços do código Morse). O disco funciona assim: de um lado tem um espelho e em cima desse espelho tem uma máscara com alguns furinhos. Um laser de baixa intensidade é disparado contra o disco. Se houver um furinho na máscara, o raio vai até o espelho, é refletido de volta e marca um UM; caso contrário, o aparelho marca um zero. O DVD e o blu-ray usaram basicamente lasers mais finos pra apertarem mais dados no mesmo espaço. O HVD não faz nada disso. Ele guarda nele apenas um holograma.
Isso mesmo, o que tem gravado nele é um holograma de um disco bem mais espesso, com várias e várias camadas de dados, como se fossem vários discos empilhados. O LASER ENTÃO LÊ OS DADOS GRAVADOS NO HOLOGRAMA COMO SE OS DISCOS ESTIVESSEM REALMENTE LÁ.
Isso não é assustador? A realidade está um passo mais longe. Em vez de ler dados codificados digitalmente, você lê um holograma codificado digitalmente de dados codificados digitalmente. Quanto tempo pro computador inteiro ser um holograma? E nós? Como já dizia um dos muitos ditados colhidos no livro A LEI DE MURPHY, alta tecnologia está cada vez mais indistinguível de magia.
Recomeça a NFL
Como não consigo acompanhar times que não joguem no Sunday ou Monday Night Football, não entendo o que todo mundo vê nos Vikings de Minnesota. Nem os Jaguares me parecem tão favoritos tampouco. Os Potros de Indianápolis (Indianapolis Colts) continuam tendo o melhor jogador do mundo, um grande técnico e um time inteligente, mas estão cheios de confusões e o técnico está treinando em meio expediente. E os Jatos, os New York Jets? Como vão ser com o Brett Favre, que vai colecionando mais despedidas que Frank Sinatra, Dorival Caymmi, Sílvio Caldas JUNTOS?
Com todos esses dados (completo desconhecimento do que se passa nos campos de treinamento ou quem sejam 99% dos jogadores das equipes) à minha disposição, posso dizer que sou completamente neutro, então vão aí embaixo meus chutes pra temporada que começa:
1 - Os Gigantes não vão jogar tão mal quanto todo mundo pensa; Eli Manning pode ter tido uma epifania na pós-temporada passada após lançar tão brilhantemente nos jogos finais e dar vazão a todo o talento que ficava à sombra do irmãozão Peyton;
2 - Os Patriotas vão ficar bem aquém do ano passado;
3 - Favre vai ser melhor do que se pensava nos Jatos;
4 - Os Vikings vão ficar aquém do que se pensa, assim como os Jaguares;
5 - Os Potros mal e mal vão chegar na pós-temporada; se o fizerem relativamente inteiros, cuidado! - o negócio deles é ser o azarão;
6 - Os Denver Broncos vão botar pra quebrar.
É isso aí. Tenho que adiantar o trabalho porque daqui a pouco tenho que ir.
Vai, Eli!
setembro 02, 2008
Vocês têm certeza de que querem deixar cuidando disso nerds sem amigos, sem mulheres e que acabaram de saber que Lost está na última temporada?
Agora falando sério, a revista Science Daily publicou recentemente um artigo declarando que se o Large Hadron Collider produzir um microburaco negro, provavelmente não causará nenhum problema. Provavelmente? Por algum motivo, eu não fiquei nem um pouco tranquilo com essa declaração.
Neste linque você pode ver a ativação do acelerador de partículas. Cuidado: se aparecerem faíscas e tudo que a câmera mostrar parecer estar afunilando e sumindo rumo a um ponto no centro da tela, pode não ser uma animação em flash maneira. É melhor dar uma conferida mesmo, afinal de contas, se os seus átomos começarem a decair em quarks e hadrons você pode pelo menos querer saber o porquê.
(tudo bem, chupei esta postagem do genial comentarista de futebol americano, Gregg Easterbrook. Se eu tivesse uma coluna esportiva gostaria que fosse parecida com a dele: epistemologia do esporte, política, mulher gostosa, ficção científica e filosofia).
Starship Troopers
Como diz um amigo meu, nenhum filme que começa com a total e completa obliteração de Buenos Aires pode ser ruim, mas pelo menos lá fora a crítica caiu de pau em cima do longa. A aparição de um dos heróis do filme num uniforme que lembra o dos SS lá pelo final os indignou, pois se o mocinho gente-boa inteligente da história veste aquilo, o diretor só poderia estar endossando o fascismo! Além de terem perdido os uniformes nazistas desde o treinamento, perderam as miríades de ironias da fita. Desde toda a eugenia na high school globalizada (argentinos, americanos e quetais todos misturados, porém com todos parecendo americanos) ao oficial recrutador aleijado ("A infantaria estelar fez de mim o homem que sou hoje" - no livro, mais sutil, o sujeito reaparece depois com próteses, andando normalmente na rua, e explica que só vai todo mutilado pro escritório para separar os homens dos meninos no alistamento).
Mesmo os personagens que parecem inimigos no começo, como o piloto que quer comer a Denise Richards, por quem nosso herói suspira, e o louro que quer ser o líder do esquadrão a qualquer custo, revelam-se amigos e camaradas depois. As atuações são um capítulo à parte: muita gente reclamou da inexpressividade dos protagonistas nas críticas, mas isso era justamente o que Verhoeven desejava: em uma das cenas, Denise Richards, no auge de sua beleza, com seu sorriso de anúncio de pasta de dente, pilota o manche como se estivesse fingindo dirigir, exatamente como se fôra uma daquelas marionetes dos Tracy pilotando os Thunderbirds.
O crítico Glenn Erickson, em sua análise, entretanto, oferece uma tese bastante plausível: os filmes de ação aos quais estamos acostumados desde o segundo Rambo são tão fascistóides e caricatos que a maioria das pessoas só se dá conta da glorificação militarista fascista na hora do uniforme SS. Trezentos de Esparta está pros jiujidocas como Star Trek ou Senhor dos Anéis para nerds. O dramaturgo João Bethencourt já ensinava que não adiantava fazer sátiras a programas do Chacrinha, do Sílvio Santos ou à ralé dos programas religiosos - tudo que já é engraçado naturalmente não tem graça satirizado. E foi essa a grande falha do Verhoeven.
Glenn Erickson é pai de adolescentes e, em algum canto de seu saite que eu não achei agora pra botar o linque, mostra os prospectos que vem recebendo das Forças Armadas desde que seus filhos completaram 14 anos (o alistamento nos EUA é voluntário). Um deles mostra uma festa na praia com vários casais jovens e atraentes - "Guarda Nacional - Sim, você pode". Outro é um sujeito esquiando numa foto radical, com alguma coisa dizendo que você se junta aos Fuzileiros e conhece o mundo (provavelmente em algum canto, com letras miúdas está escrito que a foto apenas implica que o alistado poderá ser enviado para qualquer clima extremo, tanto frio quanto quente, como, por exemplo, o Iraque).
E o filme é exatamente assim, um almanaque de jovens atraentes de cabo a rabo. Parece que a cena do chuveiro misto deixou também muita gente constrangida e achando que era apelação. A cena na verdade remete a um vestiário misto que aparece ao fundo em uma cena de Robocop, com uma policial trocando de roupa (e exibindo os seios) em meio a um monte de machos e remete à supressão e ao controle do sexo - os sujeitos perderam sua sexualidade (e individualidade) a tal ponto que um chuveiro cheio de gente bonita e heterossexual (implicitamente) e sem roupa convive normalmente. Note que o Casper van Diem vai receber mais tarde uma autorização do Michael Ironside para comer a morena loura de cabelos encaracolados. Totalitarismo é isso aí.
(1) Será que Godard tinha lido STARSHIP TROOPERS quando em Alphaville põe um personagem dizendo que estamos virando uma sociedade de cupins e formigas - e que os cupins e as formigas, em tempos imemoriais, já tinham tido também seus artistas, seus poetas, seus escritores..














