abril 19, 2010

Um Dia na Praia de Mauá III





Esquete de 1998

TRÊS MENDIGOS SUJOS E MUITO BÊBADOS CONVERSAM ENTRE SI. UM DELES ESTÁ DE PÉ SOBRE UM CAIXOTE, ASSISTINDO A UMA TEVÊ QUE DEVE ESTAR NOS BASTIDORES, MAS QUE ESTÁ NO ÚLTIMO VOLUME. UM QUARTO (MENDIGO) DORME, UM TANTO AFASTADO.
LOCUTOR
(OFF) Fracassou o cerco ao Morro do Bom Pardo. O chefe do tráfico, Trindade, não foi encontrado (em lugar algum)...
MENDIGO 1
(Claro!) Perguntaram pras pessoas erradas...
MENDIGO 2
(Por quê?) Você conhece alguma pessoa certa?
MENDIGO 1
Eu conheço. Aquela loura da novela.
MENDIGO 2
Tu não conhece ela, porra!
MENDIGO 1
Eu vejo na tevê do Alvo. Aumenta aí, Alvo! Hahahahahahaha!
ENTRA O TEMA DE ENCERRAMENTE DO JORNAL E, EM SEGUIDA O DE NOVELA.
ATRIZ
(OFF) Eu... quero você, Dado. Quero você agora...
MENDIGO 1
Você não perde a loura, hein, Alvo? Sabe o nome dela?
MENDIGO 2
Ele não sabe porra nenhuma. Olha lá. Lá vai ele começar a tocar punheta.
ALVO
(MASTURBA-SE - TUDO BEM, PODE SER POR CIMA DA ROUPA MESMO) Não enche.
MENDIGO 1
Tu ainda não tá cansado não, Alvo? Ter que ficar correndo hoje o dia todo pros PM não ver a gente e levar embora?
ALVO
Pra esporrar com ela eu não canso não.
ACABA O TEMA DA NOVELA.
ATOR
(OFF) Marisa... por favor... vista-se!
ATRIZ
(OFF) Não, Dado... eu quero você... hoje... você vai...
ALVO MASTURBA-SE COM MAIS ENTUSIASMO. ENTÃO A ATRIZ É INTERROMPIDA POR UM =CLIC= ALGUÉM MUDOU O CANAL DA TEVÊ.
ELIA JÚNIOR
(OFF) Muito bem, amigos da Band! Vai começar mais uma partida da Copa Mercosul... Universidad Católica e Independiente. Direto de La Bombonera.
ALVO
Filhos da puta!!!!!
OS DOIS MENDIGOS RIEM.
MENDIGO 1
Se fodeu, Alvo!
MENDIGO 2
Toca uma punheta pro Romário!
MENDIGO 1
Toca uma punheta pra mim!
ALVO
Por quê? Tu tá a fim?
MENDIGO 1
Ih, vem pra tu ver o que que é bom...
MENDIGO 2
Gosta de um cu também, Alvo?
ALVO
Porra! Depois dessa? Gosto! Qualquer coisa que eu possa foder, eu gosto agora. Puta que pariu, porra! Filhos da puta! (PARA FORA DE CENA) Muda o canal, seus veados!
MENDIGO 2
Então por que você não pega o Aleijado?
ALVO
Como é?
MENDIGO 2
O Aleijado. Tu não falou que topa qualquer coisa que possa foder?
ALVO OLHA PARA OS DOIS.
MENDIGO 1
Ele não gosta do Aleijado.
ALVO
Ninguém gosta. Mas eu tô com muito tesão.

MENDIGO 2
Vamos lá comer o cu do Aleijado então!
MENDIGO 1
Vamos! A gente pode até tirar um pedaço!
OS TRÊS CAMINHAM ATÉ O MENDIGO QUE DORME, RINDO FEROZMENTE.
ALVO
(COM VIOLÊNCIA) Acorda, Aleijado!
ALEIJADO
(MAL-HUMORADO) Que foi, ô Álvaro? Não tá na hora da tua punheta?
ALVO
Vou punhetar é o teu cu hoje!
MENDIGO 2
(PARA ALVO) Eu seguro ele!
O MENDIGO 1 TAMBÉM VAI AJUDAR A SEGURAR, MAS CORRE PARA O LADO ONDE O ALEIJADO NÃO TEM BRAÇO.
MENDIGO 1
Eu também seguro... (VÊ QUE NÃO TEM BRAÇO) Ué... Por onde? Hahahahahaha!
ALVO
Falou, caras, obrigado...
ALEIJADO
Seus filhos da puta!
O ALEIJADO PEGA ALGO QUE ESTAVA QUEIMANDO E ATIRA EM UM DOS MENDIGOS. ATIRA MAIS COISAS NO OUTRO, QUE AMEAÇOU AGREDIR. PEGA SUA MULETA E A USA PRIMEIRO ABRINDO O BRAÇO QUE LHE RESTA E NOCAUTEANDO UM DOS MENDIGOS E, EM SEGUIDA, A USA (A MULETA) COMO UMA LANÇA PARA ESMAGAR O PEITO DO SUJEITO, QUE CAIU COM O GOLPE.
MENDIGO SOBREVIVENTE
Seu filho da puta! Você matou ele! Matou!
O MENDIGO SOBREVIVENTE PULA EM CIMA DO ALEIJADO, MAS ESTE O FAZ TROPEÇAR COM A MULETA E LHE BATE NA NUCA REPETIDAS VEZES, ATÉ O SOBREVIVENTE PARAR DE SE DEBATER. MORTO COM O CRÂNIO ESMAGADO. ELE ENTÃO OLHA PARA ALVO.
ALVO
Não... não...
ALVO SAI CORRENDO, ASSUSTADO. DEIXA O ALEIJADO COM OS DOIS CORPOS NO PALCO. O ALEIJADO SE DIRIGE A ELES.
ALEIJADO
Merda... merda... agora ter que carregar esses porras... como se já não tivesse bastado aqueles porras de policiais atrás do Trindade o dia todo...
O ALEIJADO SAI DE CENA, ARRASTANDO OS DOIS CORPOS. OUVE-SE DE NOVO A TEVÊ.
ELIA JÚNIOR
(OFF) Bem, amigos do esporte, aqui o jogo terminou Independiente zero, Universidade Católica zero, adiando mais uma vez a decisão da terceira vaga para a segunda fase. Vamos agora ouvir o plantão do jornal da Band pra saber o que houve pelo mundo esta noite...
MUDA PARA UMA LOCUTORA.
LOCUTORA
(OFF) Dois corpos barbaramente espancados foram encontrados ainda há pouco perto do Morro do Bom Pardo, onde houve hoje um cerco policial, em busca do traficante Trindade.
ENQUANTO A LOCUTORA FALA, ÁLVARO, O ALVO, VOLTA À CENA E SENTA-SE NO MEIO DELA, AINDA APARVALHADO E ATÔNITO E PÕE A CABEÇA ENTRE AS MÃOS, SEM ACREDITAR MUITO NO QUE ACONTECEU. DE CADA PONTA DO PALCO, APARECEM MAL-ENCARADOS CAPANGAS AMEAÇADORES, MAS ALVO NEM OS PERCEBE. UM DOS CAPANGAS APONTA UM CONTROLE REMOTO PARA FORA DE CENA E DESLIGA A TEVÊ. FINALMENTE ALVO OS PERCEBE.
LOCUTORA
A polícia acredita que os corpos pertençam a informantes executados por Trindade por colaborarem com a operaç...
CLIC!
ALVO
Quem são vocês?
OS CAPANGAS NÃO SE DÃO AO TRABALHO DE RESPONDER(EM). UM DELES IMOBILIZA ALVO RAPIDAMENTE E O REVISTA BRUTALMENTE ENQUANTO O OUTRO FAZ O MESMO COM O CENÁRIO, COMO SE PROCURANDO ALGO. TERMINAM A INSPEÇÃO E ACENAM UM PARA O OUTRO.
ALVO
O que vocês estão procurando? Eu não tenho nada para esconder!
ENTRA TRINDADE. ALVO ESTÁ DE COSTAS E NÃO VÊ QUEM É.
TRINDADE
É claro que não. Nem tem nada pra mostrar também!
ALVO
(Quem são vocês?) Vocês são quem?

TRINDADE
Eles só respondem (a) pra mim.
ALVO
(SOFRENDO DOR) E você, (porra) , quem é, porra?
TRINDADE
Eu sou o que tenho pra mostrar. (eu tenho de tudo para mostrar). Dinheiro que ganhei, filhos que fiz em mulheres que comi e cicatriz que ganhei em briga e tiroteio. Tudo que um homem pode ter pra mostrar eu tenho.
ALVO
(SURPRESO) Trindade!
TRINDADE
E você se chama Álvaro e era amigo daqueles dois mendigos mortos.
ALVO
(ASSUSTADO) Não! Não era eu! Eu não era amigo deles!
TRINDADE
Me disseram que tu tava sempre com eles. Então só pode ter sido você quem matou os caras. (AOS CAPANGAS) Queima ele.
ALVO
Não! Não fui eu quem matou eles! Não fui!
TRINDADE
Quem mais? Quem ia ligar pra eles a ponto de nem ligar de enfiar a mão naquele monte de pereba suja pra matar eles?
ALVO
Não fui eu! Não fui! A gente era amigo! Eles deixavam eu ficar aqui nesse sinal porque eu sabia onde se esconder aqui perto quando desse batida!
TRINDADE
No buraco da laje.
ALVO
Você conhece?
TRINDADE
Todo mundo conhece. Eles deviam ser muito burros pra não saber.
ALVO
Você já se escondeu lá?
TRINDADE
(FURIOSO) Me esconder? Como um rato? Num buraco de laje?
ALVO
(ASSUSTADO) Quando novo... no início da carreira!
TRINDADE COMEÇA A RIR.

TRINDADE
Por isso que tu é um merda... ninguém se esconde "no início da carreira"... senão não aparece (chega a lugar nenhum). Só chefe pode se esconder, porque aí os cara sente (dele sentem) falta. Mas chefe não se esconde em buraco de laje. Chefe se esconde em buraco de mulher. Porque sempre tem uma... pra acoitar ele... agora, fala... quem matou teus amigos?
ALVO (GAGUEJANDO) Você acredita que não fui eu?
TRINDADE
(Claro), você não mata ninguém. Você morre. Eles também. (APONTA OS CAPANGAS SILENCIOSOS). (Morrem) . Eu sou de outra constituição. Meu pai também morria. Todo dia.
ALVO
(ASSUSTADO) Seu pai?
TRINDADE
É, ele era peão de obra. Cada tijolo que ele punha, era um pouco dele que não voltava pra casa. Até o dia em que ele fez a parede grande demais pro pouco que sobrava dele, ela caiu em cima dele e acabou. Meus irmãos todos também, ele empregou, tão empilhando tijolo até hoje. Foi assim que minha mãe ensinou a eles. Dizia que a gente tinha que ser que nem o pai, morrendo e sofrendo todo dia. Ela dizia que essa é que era a vida. Eu sabia que não, que tava do outro lado. Eu deixei eles todos morrendo lá e eu fui viver. Eu fui ver a vida. Você acha que você vive? Essa vida que tu leva?
ALVO
Não...
TRINDADE
Pois é. Se tu não vive, como é que pode matar? Eu vivo. Eu mato. Desde pequeno. Aprendi a atirar. Atirar pra caralho. Rápido. Agora me diz... quem matou aqueles caras?
ALVO
O Aleijado. Não fui eu, eu era amigo deles, (eles eram meus únicos amigos), foi o Aleijado.
TRINDADE
Que aleijado?
ALVO
O que dorme aqui. Ele não tem um braço e uma perna. Não gosta(va) de ninguém e ninguém gosta(va) dele. Era metido a besta.
TRINDADE
Como é que um aleijado pode matar dois caras só com as mãos?
ALVO
E as muletas.
TRINDADE DÁ UMA BOFETADA EM ALVO.
ALVO
Eu não matei eles! Eu juro! Eu não matei!
TRINDADE
Eu sei. É que eu não posso esbofetear eles. Tinham que apanhar muito! Deixar que um aleijado te mate! Com uma muleta!
ALVO
A gente não tava esperando... Ele veio de repente...
TRINDADE ACERTA ALVO NOVAMENTE.
TRINDADE
E daí, seu filho da puta? Vocês não sabem se defender? Só sabem correr pro buraco da laje? Uma porra dum aleijado? Vocês fodem com a minha vida porque (se deixam matar) por um puto de um aleijado?
ALVO
Desculpa! Desculpa! A gente não tava esperando!
TRINDADE
E agora vai ter polícia, vai ter jornal, vai ter tevê, vai ter um monte de gente aqui de novo. Pensei que ia sossegar depois do cerco, vai sossegar porra nenhuma, porque vocês não conseguem ficar vivos cinco minutos! Agora vai dar tudo isso na minha área de novo!
ALVO
Me desculpa... me desculpa!
TRINDADE
Não pode ter assalto aqui na área. Roubo. Estrupo. E muito menos morte. Chama a atenção e eu não quero atenção. (Mas vocês continuam se deixando matar). Tá bom. Então tá. Avisa por aí que esse aleijado é bola da vez. Que o Trindade quer ele morto. Meus homens também. Vão catar ele. Mas eu quero tu nisso. Eu quero tu atrás dele.
ALVO
Eu?
TRINDADE
Tu. Tu mesmo. Vão avisar também que foi tu que entregou o Aleijado. Vamos ver se tu aprende a não morrer.
ALVO
Eu não tenho nada a ver com isso. Foi ele que tava puto com a gente que a gente ficava no sinal, foi...
TRINDADE DERRUBA ALVO COM UM TABEFE MUITO BEM DADO. OLHA PARA ELE COM DESPREZO. FAZ UM SINAL PARA OS CAPANGAS E TODOS SAEM DE CENA. ALVO FICA EM CENA, CHORANDO ASSUSTADO.

ALVO
Ele vai me pegar... ele vai me pegar...
ALEIJADO
(OFF) Vou mesmo.
ALVO PÁRA DE CHORAR E COMEÇA A PROCURAR EM TORNO, ASSUSTADO.
ALVO
Eu... eu não tenho nada a ver com isso!
ALEIJADO
(OFF) É, Álvaro, você não tem mesmo... é só uma peça na engrenagem... uma mola no relógio... um cartucho no pente... o problema... é que eu também. Eu sou uma peça na engrenagem... que vai foder com a tua vida!
ALVO TENTA SAIR POR UM DOS LADOS DO PALCO, MAS DESISTE AO VER NO FUNDO DO CENÁRIO, DAQUELE LADO, A SOMBRA DE UMA MULETA. CORRE COMO UMA BARATA ATÉ O OUTRO LADO, MAS SE DEPARA COM OUTRA MULETA, QUE VAI EMPURRANDO-O PARA O CENTRO DO PALCO. É O ALEIJADO.
ALVO
Foi o Trindade, Aleijado. Foi ele quem me forçou a fazer isso. (fazer o que, Luis)
ALEIJADO
E tu não reage, não é? Não aprende a reagir. (DÁ-LHE UMA PORRADA) Como é que tu ainda queria me enrabar se tu não é homem?
ALVO
Eu tenho tuberculose, caganeira, sífilis, barriga d'água, fome, muita fome... de onde é que eu vou tirar força pra reagir, porra?
ALEIJADO
E eu? Eu não tenho um puto nessa vida. Não tenho casa, não tenho carro, não tenho tevê. Não tenho um braço, não tenho uma perna, não tenho mulher, meu pau não sobe mais e vocês ainda querem o meu cu? Quem você pensa que é pra querer me tirar a última força pra reagir?
ALVO
Foram eles, Aleijado... eles que queriam te pegar. Você sabe que ele te odiava (por que o passado, Luis) ? . Te achava metido pra caralho. Te achava muito esperto. Ele era o mais esperto daqui antes de tu chegar.
ALEIJADO
Mais esperto daqui? E ele tinha orgulho? Tinha orgulho disso? (passado?)
ALVO
E tu chega, sem braço, sem perna e é mais esperto do que ele.



ALEIJADO
Claro que eu sou mais esperto, otário! Eu perdi uma perna e um braço pra aprender. É isso que é esperteza! Isso! Era disso que aquele puto se orgulhava? Ser o bêbado imundo mais esperto da sarjeta????
ALVO
Era.
O ALEIJADO VOA PRA CIMA DE ALVO E O DERRUBA.
ALEIJADO
Tu merece morrer! Tu quis me enrabar. Tu me dedurou. Me matou. Mas tu vai junto! Tu não é homem! Se fosse não vivia só de punheta pra loura!
O ALEIJADO COMEÇA A SUFOCAR ALVO COM O OUTRO LADO DA MULETA. ESTE SE DEBATE PARA FALAR.
ALVO
Me deixa sair daqui...
ALEIJADO
Pra quê? Pra tu matar sem querer mais alguém? Pra tu querer ser homem em cima de alguém? Tu não é homem. Tu nem é vivo mais, aliás, tu vai morrer, tô te tirando teu ar. Tu devia ter ficado na punheta, tu não é homem. Quis ser macho, viu no que deu?
ALVO
Eu faço o que você quiser. Eu não quero morrer.
ALEIJADO
Nem eu. Mas tu fodeu com tudo. Tu podia tá vivo agora, Alvo. Tu podia tá tocando a tua punheta pra menina. Tu podia tocar muita punheta ainda, mas não podia gozar com a menina da tevê, tinha que enfiar tua vara em algum lugar. E agora, tá gostando que te enfiem uma vara? Tá bom aí?
ALVO
Hrmpf... êu... Arblrgwmprphgpft...
ALEIJADO
Tu não consegue falar, Alvo, que tu tá morrendo. Tu não tem mais nada pra falar, Alvo, porque tu nunca teve nada pra falar. Nunca. Tu vai morrer, Alvo. Morrer... Tu nunca teve nada pra falar, tu nem sabia o nome da putinha que tu gostava de se punhetar... morre, vai, Alvo. Morre.
ALVO FAZ UM ESFORÇO INAUDITO E CONSEGUE GRITAR UM ÚLTIMO NOME ANTES DE MORRER.
ALVO
Luana... Piovani... Luana... Luana... (PAUSA) L U A N A !!!!! (MORRE)
ALEIJADO
É... me enganei. Tu sabia o nome.
O ALEIJADO OLHA UM POUCO PARA ÁLVARO MORTO. COSPE NELE E SAI. ENTRAM OS CAPANGAS. OLHAM UM PARA O OUTRO COM AR DE DESAPROVAÇÃO. EM SEGUIDA, ENTRA TRINDADE QUE TAMBÉM OLHA PARA O CORPO, ESBOFETEIA OS DOIS CAPANGAS E GRITA.
TRINDADE
Será que ninguém consegue pegar meio homem, seus bostas? Será que eu tô cercado de veados? Tirem essa porra daqui, era só o que faltava, a polícia me encontrar mais um presunto! Vai, tira!
OS CAPANGAS VÃO LEVANDO O CORPO (DE ALVO) PARA FORA DE CENA. O CELULAR DE TRINDADE TOCA. ELE SE VIRA PARA O OUTRO LADO DO PALCO E NÃO VÊ QUE SEUS CAPANGAS, QUANDO QUASE JÁ JUNTO À SAÍDA, SE DEPARAM COM A AMEAÇADORA SOMBRA DO ALEIJADO E SÃO POR ELE DOMINADOS. O ALEIJADO REVISTA O CORPO DE UM DOS CAPANGAS - OU DO CAPANGA, CASO LIMITAÇÕES DO ELENCO TRANSFORMEM O PLURAL EM SINGULAR - E TIRA UMA PISTOLA. TUDO ISSO ENQUANTO TRINDADE ESTÁ AO CELULAR, ALHEIO AO QUE SE PASSA ÀS SUAS COSTAS.
TRINDADE
(AO CELULAR) Oxto? Tudo bem. Polícia porra nenhuma, tava todo mundo no bolso, mas com a tevê em cima, eles tinham que dar uma satisfação. Não, que cerco nada, tava na casa da Raia. Que Cláudia Raia o caralho, se fosse, tu acha que eu tava te pagando? E aí, armou a porra do show? Lá com a turma dela e tudo? É, que tu me garantiu que ela sempre tá nessas porras de show... lembra de enviar a porra do convite, não vai me esquecer. É, ela
mesma. A loura da novela. É o que eu quero agora, cansei dessas baixinhas, eu quero aquela boca, cansei também de peito pequeno, eu quero apertar aquele peitão. Aquele coxão... É, você e a torcida do Flamengo, mas tu tá sendo pago pra armar e olhar. Nem brinca, tu sabe que que acontece se brincar comigo...
ALEIJADO
O que que acontece?
TRINDADE
(VIRANDO-SE) Quem é você? Cadê meus homens?
ALEIJADO
Morreram sem abrir a boca.
TRINDADE
É. Eu escolho bem meus homens.
ALEIJADO
(Acho que tu não entendeu). A bola da vez agora é tu.
TRINDADE
Eu? Tu acha mesmo que Trindade, o traficante que a polícia inteira tá catando, vai morrer na tua mão?
ALEIJADO
A polícia inteira não tava (realmente) a fim de te encarar e pagar o preço. Tu é só um homem e todo mundo sabe onde te encontrar.
TRINDADE
Tu é o Aleijado, não é? Tu é macho, cara, tenho que admitir. Meio homem e traçou todo mundo na tua frente. Até chegar até eu (a mim). Quer trabalhar pra mim?
ALEIJADO
Não. Eu não morro quieto.
TRINDADE
E daí? Se morre do mesmo jeito(?)
ALEIJADO
Quem tá na mira é você.
TRINDADE
E depois? Mesmo que tu conseguisse me matar, só com uma mão. E que treme. Tu acha que iam te deixar em paz? Vão querer pegar o cara que matou o Trindade. Vão querer garantir que ele não fique com a boca. Não fique com cartaz. Vão querer mostrar que são macho em cima de você. Quanto tempo tu acha que tu vive?
ALEIJADO
Eu sei disso tudo. Eu me viro. Tô nessa vida antes de tu nascer. Tu sabe quem eu sou?
TRINDADE
Um aleijado que vai morrer.
ALEIJADO
(Tu) Já ouviu falar no Olho do Diabo?
TRINDADE
Já.
ALEIJADO
Pois tu tá olhando pra ele.
TRINDADE GIRA EM TORNO DO ALEIJADO.
ALEIJADO
Não vai duvidar?
TRINDADE
Depois da zona que tu fez, não.
ALEIJADO
Pois é. Tu ainda acha que vai se dar bem?
TRINDADE
Pelo que sobrou de você, parece que (teve gente que já conseguiu) outros já conseguiram.
ALEIJADO
Foi preciso muitos (Só todos os outros), Trindade. (Em 73, quando começaram a trazer cocaína e a dividir a cidade). Tiveram que se juntar todo mundo pra me deixar assim.
TRINDADE
Pois agora basta eu pra acabar contigo.
ALEIJADO
Tu acha? Tu acha mesmo, Trindade? Que porra de bandido tu acha que é? Um merdinha que fica mandando nego que morre quieto pra fazer teus serviços. Que fica pagando espetáculo pra loura de novela. Tu é muito mais fraco do que eu pensei. Eu esperava (que tu fosse mais forte (achar alguém mais forte).
TRINDADE
Forte que nem tu?
ALEIJADO
Forte que nem eu fui. Eu me meti em muita briga, Trindade. Aprendi a usar e atirar faca. Sei cortar um homem que ele morre sem nem sentir. Sei onde bater no rim que ele vai sangrar até morrer. Sei furar o olho de alguém que me agarre por trás. Eu aprendi tudo sobre matar cara a cara.
TRINDADE
Eu matei meu primeiro homem com doze anos.
ALEIJADO
Tu viu a cara dele? Viu a cara dele se contorcendo? Tu atirou de longe. Hoje em dia é fácil. Muito fácil. Todo mundo tem uma pistola. Uma pistola que acerta de longe. No meu tempo, quando a gente conseguia andar com uma, ela era inútil a mais de dez metros e muito pesada. Hoje é de plástico, até um guri pode mirar. É que nem soltar pião.
TRINDADE
(Pois é) Os tempos mudaram, Olho do Diabo. Tu não conseguiu se adaptar, é esse aleijado aí.
ALEIJADO
Não foi só as armas que mudou, bandidinho. Sabe porque eu te pego e a polícia não? Eles não se interessam. O dono de uns barraquinhos no morro. O pessoal da pesada vive em cobertura. Se tu morrer, outro chega e toma conta. Mata uns favelados que ninguém se importa. Com tua pistolinha de plástico. Eu, eu matei gente muito mais importante.
TRINDADE, LENTA E ESTUDADAMENTE, VAI APROXIMANDO O CELULAR DO BOLSO COMO QUE PARA GUARDÁ-LO. ELE TEM UMA ARMA ESCONDIDA NESTE BOLSO E ESTÁ PENSANDO EM PEGÁ-LA.
TRINDADE
E daí? Tu acha que eles não têm medo da gente? Por que que tu acha que eles trabalham com a gente? Tu é um aleijado fodido. Por que esse papo todo? Tu não ia me matar? Não vai apertar o gatilho? Tá tremendo? Tu não mata cara a cara?
ALEIJADO
Eu mato. Sempre matei. Nunca esqueci uma cara dos que mandei pro Inferno. Esqueci o rosto das mulheres que amei, mas não de quem eu matei. De quem eu matei e de uma, uma (única) mulher. Uma só.... aquela uma que eu amei.(A mulher que eu mais amei). (Eu tive muita mulher, sabia?
TRINDADE CONTINUA TENTANDO PEGAR A ARMA.
TRINDADE
Agora tu não tem mais mulher, (Tu teve), Olho do Diabo. Agora não tem mais nada. Nem colhão pra matar.
ALEIJADO
(Calma), eu ainda não acabei de contar. Essa uma (foi a) que eu amei. A que eu gostava, não era só de comer, de foder não. Mas ela não ficou comigo não, que tinha medo dessa vida. Me largou, me trocou por um bundão. Eu ia matar o bundão, mas me pegaram antes. Tavam dividindo a cocaína que ia começar a entrar no Rio e tavam com medo que eu quisesse uma área. Consegui fugir, mas deixei um braço e uma perna. O Olho do Diabo acabou. O bundão continou.
(Luis, eu acho que tem que haver uma pista melhor para o Trindade se dar conta. Quem sabe: O bundão continuou... É... continuou pedreiro até morrer...
TRINDADE
E daí? Que que tem isso a ver com tu tá sem colhão pra matar? Tu acha que a gente tem que ser tudo bundão, que nem meu (minha) ... (SUBITAMENTE, DÁ-SE CONTA)... pai...?! (mãe)...
ALEIJADO
É, Trindade, tua mãe (ela) já tava prenhe quando casou com teu padrasto. Tu é o meu filho. Eu pensava que tu era mais forte.
TRINDADE
Eu sabia. Eu sabia que aquele bundão não podia ser meu pai. Tinha que ser outro. Valente. (eu era filho de alguém importante). Eu sabia! Eu sou o filho do Olho do Diabo!
ALEIJADO
Tu não é porra nenhuma. Eu era forte. Eu não estuprava ninguém. Eu não matava inocente, eu não escorchava morador, eu não era amigo de polícia, não queria comer atriz.
TRINDADE
É? É isso que tu vai fazer agora? Me convencer a ser bundão que nem o cara que te levou a mulher?
ALEIJADO
Tu já tá na mira de um revólver. De um aleijado.
TRINDADE
(Pois é). Se tu ainda fosse o Olho do Diabo, eu já tava morto e o pessoal me respeitava. Só o Olho do Diabo pra acabar comigo. Mas aleijado me pegar vai ser foda. Aleijado não pode ser. Aleijado também não pode ser meu pai. Vai ser foda.
ALEIJADO
Do que que tu tá falando?
TRINDADE
Tu não me mete medo, pai. Tu é meio homem. Parece veado, pra matar alguém tem que tá cara a cara. Fica cara a cara comigo!
TRINDADE SALTA LEPIDAMENTE. O ALEIJADO TEM DIFICULDADE EM ACOMPANHAR O MOVIMENTO COM A ARMA.
TRINDADE
Tá vendo? Tu consegue me pegar?
ALEIJADO
Eu já peguei teus garotos.
TRINDADE
Ora, papai, aqueles não contam. São os fodidos que tu falou que nem conta matar. E eu?
ALEIJADO
(Respeite) Respeita (o) teu pai. Tu é um garoto brincando com revolvinho de plástico!
TRINDADE
Até dinheiro é de plástico!
TRINDADE PULA DE NOVO. OS DOIS FICAM SE ESTUDANDO.
ALEIJADO
Pára! Pára ou eu te mato!
TRINDADE
Tenta.
ALEIJADO
Tu quer morrer, não é? Tu não é que nem a gente. Perdi tudo. Dinheiro, mulher, braço, perna. Mas vivo. Tu não se importa, não é? Tu não se importa.
TRINDADE
Claro que eu me importo, pai. É que eu tô armado. Eu acho que pego a arma no meu bolso e te mato e tu não consegue me pegar. Quer apostar?
ALEIJADO
Eu não sou criança brincando com brinquedo de plástico!
TRINDADE
Então mostra!
(TRINDADE) ALEIJADO
Não me força, garoto!
TRINDADE SORRI MALICIOSAMENTE. OS DOIS SE ESTUDAM. TUDO ACONTECE MUITO RÁPIDO. TRINDADE SACA. O ALEIJADO DISPARA. OS DOIS FICAM PARADOS UNS INSTANTES E TRINDADE FINALMENTE VAI CAINDO. O ALEIJADO FECHA OS OLHOS, SACODE A CABEÇA, OLHA A ARMA SIGNIFICATIVAMENTE, ATIRA-A LONGE E VAI SAINDO.
ALEIJADO
A loura da novela. Só pensam nela. Garotos malcriados e burros. No meu tempo, vê se alguém queria aquela mulher. Só se fosse por ser loura. Magra, dura. Nada pra apertar, parece homem. Uma mulher daquelas, no meu tempo, a primeira coisa que a gente fazia era alimentar. É, porque pra tá magra daquele jeito, era que o homem dela não tava conseguindo o sustento (sustentar). Devia estar magra daquele jeito porque se rasgava toda pra trabalhar (até por ter que trabalhar) na rua (pra garantir colaborar no sustento). Não devia estar dando pra comprar comida. Pra sustentar a casa. Se conseguisse, ela ia pra casa. Ia ficar mais gordinha. Bunduda. Gostosa. Gostosa de se comer. No meu tempo. Hoje em dia, parece que gostam. Parece que tão com tesão no (querem trepar com o) Júnior Baiano. Tudo duro e magro. No meu tempo...
O ALEIJADO SENTE DORES ENQUANTO ANDA. APALPA-SE E RETIRA A MÃO COM SANGUE. ELE ESTÁ SANGRANDO. DESFALECE, TROPEÇA, FALHA, MESMO ASSIM LUTA E CONTINUA TENTANDO ANDAR.
ALEIJADO
Merda, o filho da puta me pegou. Não, a Miriam não era puta não. Isso é que era nome de mulher. Miriam. Não esse negócio de, Luana. Parece cachorro. Imagina. Filho da puta. Filho do puto, isso sim. O resto dos garotos dela vai bem, obrigado. Mas o resto não é filho meu. O resto é filho do peão. Vão viver mal pra caralho, mas de repente vivem mais do que eu. É foda. É uma merda. É tudo uma merda. O mundo é uma merda. É uma merda sim. É que nem uma vez eu ouvi falar. Você sabe que o mundo tá uma merda quando os pais enterram os filhos. Virou zona. Acabou. Tá foda. É uma merda. Os pais enterrando os filhos. Puta merda, filho da puta, filho de um milhão de putas. Luana. Luana é nome de puta. De puta. Os pais. Os pais enterrando os filhos. Ha. Ninguém enterra ninguém hoje em dia. Pagam pra isso. Pagam.
O ALEIJADO CAI DEFINITIVAMENTE. NÃO SE AGUENTA MAIS. MORRE. ESCURECE.

Onipresença

Cassiano Ricardo

Um naufrágio
corpos
agarrados a um
salva-vidas
entre céu e peixes.
Nós, sobreviventes
pela telefoto
vendo os que
buscam um ponto
de apoio
na salsa
e falsa
valsa
das ondas

Um maremoto
no Paquistão
remoto
quase um milhão
de mortos;
nós, sobreviventes
por onipresença

Uma explosão
na mina de carvão
em Guadalupe
200 soterrados
asfixiados
a quem Deus
tapou
o céu (da boca)
nós, sobreviventes
por telstar
(ou não'star)

Onde se está,
está
o centro, está-se
dentro do mesmo
acontecimento.
Não
é preciso estar
no epicentro

Dentro de cada
um de nós mora
o que acontece em
qualquer hora da
geografia

Piratas
po-voando
o céu, lado a lado.
Cada um de nós o
sobrevivente
de um avião
sequestrado.

Águas de Março



Que fim levou o Adult Swin? Coisas como esse clipe de Águas de Março com o povo do Laboratório Submarino 2021 eram sensacionais. E olha que não é brasileiro, foi feito nos autênticos USA!

Os Bons Companheiros com Charlie Brown e sua turma

Quem viu o clássico "Os Bons Companheiros" do Scorsese há de lembrar bem da cena em que o Ray Liotta fala pro Joe Pesci que ele é "funny" e o Joe Pesci, com seu tradicional jeitão psicopata retruca, ameaçador, "funny? Funny how?"



Pois bem, um dos 5.843.434 desocupados que gostam de VocêTubo montou o vídeo acima com o áudio original e uma cena do desenho de Peanuts. Vê e diz se não é engraçado pra burro.

abril 17, 2010

Plástico de Carro

Experiência é aquilo que nos permite reconhecer um erro quando o cometemos novamente
Earl Wilson

abril 13, 2010

Silhuetas




Love the one you're with




The Great Train Robbery

Diz uma história que preparava-se a adaptação de uma peça de sucesso para o cinema. Ainda em princípios de produção, o cineasta foi ao teatro assistir ao espetáculo e conversar com o autor-diretor da montagem. Em meio ao bate-papo, este virou para o sujeito dos 24 quadros por segundo e falou, "quer saber, vocês de cinema complicam tudo. Se eu fosse fazer um filme disto, eu simplesmente punha uma câmera numa cadeira e deixava rolar", ao que o "você do cinema" retrucou, "certo. Mas em QUAL cadeira você poria a câmera?"

Miríades de opções a mais que o cinema oferece à parte, na verdade o raciocínio do nosso teatrólogo era o mesmo dos primeiros cineastas. Começando uma nova arte do nada, ainda na aurora da arte moderna e das teorias futuristas e de avant-garde que revolucionariam o metiê nos anos 20, o povo com uma câmera na mão não tinha muita idéia na cabeça do que fazer com ela. As primeiras tentativas de contar historinhas com o cinematógrafo usavam a mídia como um teatro (mudo) a jato - os cenários podiam mudar instantaneamente (incluindo exteriores) e o uso inteligente de cortes e efeitos de montagem podia criar ilusões impensáveis num palco. No Rio de Janeiro, por exemplo, fez muito sucesso na década de 1900 a nacionalíssima película musical (sim, musical mudo) PAZ E AMOR. Durante a projeção, os atores ficavam atrás da tela fazendo a dublagem. Ou seja, o filme servia apenas para economizar na produção de uma revista musical!

E assim eram todas as fitas no alvorecer da sétima arte. A câmera ficava estática, aberta, enquadrando o que equivaleria aproximadamente a um palco, e com a ação acontecendo da esquerda para a direita (e vice-versa), para que nenhum ator ficasse de costas para a câmera (e no filme mudo, que é basicamente uma pantomima, a expressão do mímico é fundamental para a compreensão da história). À bidimensionalidade da tela somava-se a bidimensionalidade da ação, ficando tudo chapado e artificial ao extremo. Felizmente, logo algumas pessoas com generoso número de células gliais perceberam que tal abordagem era humilhante e degradante para toda a tecnologia envolvida na manufatura de películas. E começaram a experimentação que levaria à firme conclusão de que o cinema era a expressão do MOVIMENTO.

THE GREAT TRAIN ROBBERY é um filme de 1903, ainda bastante primitivo. A ação transcorre da esquerda para a direita. A pantomima é exagerada e risível para os nossos padrões. Durante o primeiro ato, a tecnologia é usada para criar superilusões teatrais (as projeções ao fundo na primeira cena (aos 20 segundos) e no tiroteio no vagão - 2 minutos) e a ação externa também transcorre bidimensionalmente. No entanto, alguns detalhes importantíssimos mostram o início da criação da LINGUAGEM DO CINEMA, independente e diferente da teatral.


Aos 2m48s, a câmera está presa em cima de um vagão. Está em movimento. E o bandido aparece em primeiro plano e move-se rumo ao fundo, de costas para ela. Subitamente o filme parece muito menos primitivo e tem um ar vagamente contemporâneo. Uma trucagem elementar termina a porrada com uma nota violentíssima. O enquadramento é ótimo e elegante e está criada a ação tridimensional. Está quebrada a bidimensionalidade da tela. A sétima arte torna-se uma experiência muito mais real e envolvente.

Aos 4m20s, os bandidos alinham os passageiros para assaltá-los. Para enquadrar esta ação de frente, a câmera, mesmo com a lente mais angular de que se dispunha na época, teria que ficar longe demais para que se distinguisse o que estava acontecendo. O diretor, Edwin S. Porter, sem alternativa, fez o que qualquer fotógrafo amador experiente faria - pegou a cena em diagonal. A composição é muito mais bonita e dinâmica e novamente está quebrada a bidimensionalidade da fita. Mais uma vez ela parece muito menos primitiva.

A cena seguinte também é diagonal, mas o que mais emociona os amantes do cinema é que, aos 6m09s, os bandidos saltam do trem. Em vez de mostrá-los saltando de lado, correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, cortar para uma cena adjacente, com eles novamente correndo da direita para a esquerda até sair de quadro, tudo isso captado a uma distância respeitável, o que Edwin, o S. Porter, fez? Ele pegou a uma distância que, para a época, poderia ser considerada média, e FOI MOVENDO A CÂMERA PARA MANTER OS BANDIDOS EM QUADRO ENQUANTO ELES SUMIAM MONTANHA ABAIXO. A câmera estática está morta! Logo ela estaria sendo montada por Abel Gance no pescoço de cavalos. A ação é muito mais envolvente. A câmera segue o movimento como nossos olhos fariam - ela É nossos olhos! Nasce o cinema!

Infelizmente, Porter não seria o homem que levaria essas descobertas às últimas consequências. A cena é seguida por mais interiores bidimensionais, sem cortes, de longe. A patrulha persegue os bandidos atirando vindo de segundo plano para primeiro plano, mas não ocorreu ao diretor que a câmera poderia se movimentar não só da esquerda para a direita como também do fundo para a frente. Mesmo a quebra da quarta parede quando o bandido atira na platéia, na última cena, é apenas um efeito, não um manifesto de uma nova estética (e, apesar de tudo, um grande efeito, já que diz a lenda que espectadores se abaixavam ou saíam correndo neste momento).

Estávamos em 1903. Numa época em que o ritmo das descobertas era consideravelmente mais lento, o cinema avançava rapidamente. Passava de curiosidade a entretenimento de qualidade e firmava-se como arte, desenvolvendo sua estética e sua linguagem. Foram esses primeiros avanços que mostraram aos artistas modernos que eles poderiam usar aquela nova maneira de expressão, convenientemente de alta tecnologia, moderna como as concepções daqueles malucos do começo do século (vinte), poderia adaptar-se admiravelmente às suas propostas e teorias.

Ainda mais depois que um americano conservador e caretão chamado D. W. Griffith quebrasse a ação em planos rápidos e curtos que mostravam sempre exatamente aquilo que você precisava ver naquele momento, em vez de enquadrar uma cena inteira e deixar que o espectador escolhesse o que lhe interessava.

abril 12, 2010

Noite de Segunda-Feira 21

Anna Akhmatova

Vinte e um. Noite. Segunda-feira
A silhueta do capitólio na escuridão
Algum inútil - sabe-se lá o porquê -
inventou que existe amor na terra.

Acreditaram, talvez por preguiça
Ou tédio, e vivem de acordo:
Esperam ansiosamente por um encontro, temem despedidas
E, quando cantam, cantam sobre o amor

Mas o segredo se revela a alguns
e neles o silêncio se instala...
Eu descobri por acidente
E agora parece que estou doente o tempo todo

Abaixo, a tradução do russo pro inglês que usei como base para a minha tradução apressada. NÃO ESTOU NA FOSSA, PELO CONTRÁRIO, mas estava na vez deste poema subir pro blogue.

Twenty-first. Night. Monday.
Silhouette of the capitol in darkness.
Some good-for-nothing -- who knows why --
made up the tale that love exists on earth.

People believe it, maybe from laziness
or boredom, and live accordingly:
they wait eagerly for meetings, fear parting,
and when they sing, they sing about love.

But the secret reveals itself to some,
and on them silence settles down...
I found this out by accident
and now it seems I'm sick all the time.

Praia de Botafogo


Muita gente não sabe, mas a Praia de Botafogo tal como existe hoje (bem como a do Flamengo) são artificiais. Sim, claro, têm que ser, afinal foi feito um aterro ali, mas o que quero dizer é que elas não existiam antes. A praia do Flamengo era um minúsculo areal na foz do Rio Carioca (onde hoje há uma estação de tratamento no Aterro, ficava em frente à rua Barão do Flamengo). E a Praia de Botafogo também era só um pequeno trecho, na foz do rio Berquó - que ainda hoje pode ser vista, se você caminhar pela grama no fim da praia até atrás do posto de gasolina no começo do Aterro. Repare nesta foto de 1935 o começo da invasão da Baía da Guanabara: uma piscina de água salgada invade as águas protegidas e há um trampolim para saltos. O sal aumenta a flutuação e nesta piscina muitos recordes foram "quebrados" por brasileiros.



Na foto de cima, se você clicar e ampliar, vai ver que no lugar onde hoje é a praia existe só uma amurada e pedras, como na maior parte da Urca. Já em 1953-1954, data dessas fotografias, uma grande modificação havia sido feita em cima do aterro inicial que construíra a rua Praia de Botafogo no começo do século XX: foi criada uma via expressa que saía da Oswaldo Cruz, passava por baixo do então favelizado Morro do Pasmado (pelo recém-aberto Túnel do Pasmado) e seguia, sem sinais de trânsito (havia uma passagem subterrânea que ficava no meio do caminho, antes do Rio-Sul a ampliar bastante), até o então recentemente duplicado Túnel Novo. A piscina do Clube Guanabara dançou e tanto ele quanto o Botafogo estavam reconstruindo suas sedes, que haviam sido desapropriadas. Repare que do Edifício Pimentel Duarte (na esquina da Marquês de Olinda, onde hoje fica o Caemi) até a Sears, só havia casas - estava sendo levantado um prédio comercial do lado do grande magazine americano. Inexplicavelmente, uma orla com uma das mais belas e mundialmente reconhecíveis paisagens em todo o mundo foi preenchida com favelões como o Edifício Coral e o Rajá e em 15 anos todo esse trecho havia sido emparedado por verdadeiros cortiços verticalizados com áreas mínimas (o Coral pelo menos tem a desculpa de ter sido originalmente planejado como prédio comercial), quitinetes que foram apinhadas de pessoas tentando subir de vida nos anos 60. A Freda, como boa francesa socialista, acha que com isso foi democratizada a moradia no litoral às classes menos favorecidas - pura ingenuidade, não era esse o pensamento dos construtores.



Em 1964, a Praia de Botafogo já virando um caos. Agora, a parte interna que restava e a área relativamente preservada em torno da minha rua, na Fernandes Guimarães/Álvaro Ramos/Arnaldo Quintela, que durante muito tempo foi ignorada pelas construtoras, está sendo barbarizada, já que o que desvalorizava a região, as eternas obras do metrô, com tapumes e mais tapumes, que permitiam até o funcionamento de bocas de fumo e transformavam num caos o urbanismo, acabaram há cerca de oito anos. Mudei-me para cá há sete e desde então subiram uns doze prédios nos quarteirões adjacentes, inclusive dois na minha pequena rua de dois quarteirões e muitos sobrados.

As Crianças de Hoje

O chato era quando a gente rodava o prédio todo e não achava ninguém que tivesse bola. O jeito então era sentar em cima dos carros na garagem e ficar conversando e ouvindo a música que vinha de uma das janelas:

- Eu sou um moço velho... que já viveu muito... que já amou muito... que já sofreu tudo...

Devia vir lá do terceiro ou quarto andar, nunca deu muito pra saber direito, ricocheteava no bloco de trás e aí é que confundia tudo, lá tinha eco à beça. A gente até gostava de ficar berrando em frente ao segundo bloco, mas quase sempre aparecia o porteiro pra dar esporro. Menos o seu Geraldo, que era legal, mas também pedia pra gente parar.

A cara dela eu fiquei conhecendo um dia de Cosme e Damião, quando ela apareceu com uma sacola do Mar & Terra distribuindo os saquinhos pra garotada, foi aquele empurra-empurra, então um colega meu depois falou que achava que era ela quem ficava o dia inteiro ouvindo música lá no apartamento dela e ficava no terceiro andar.

Nessa época, depois do jantar, a gente ficava conversando sobre naves espaciais e robôs e outros assuntos. Discos-voadores, todo mundo já tinha visto pelo menos um, em casa ou na casa dos parentes no interior do Rio ou de Minas e eu via ela à beça, tava sempre saindo com um garotão, os dois entravam no fusca dele e iam embora.

Depois veio as aulas e depois do jantar a gente ficava em casa vendo televisão e fazendo o dever de casa, que, por mais que a gente se esforçasse, acabava sempre por fazer na véspera do dia da entrega, à noite. Só no começo das aulas é que dava pra ser mais organizado.

A gente então gostava já tanto de conversar quanto de jogar bola, até mesmo por hábito, porque sempre descia o síndico com problema na perna do segundo bloco quando a gente começava, reclamando do barulho, dizendo que a gente ia estragar os carros e que já éramos muito grandes praquilo, íamos machucar as crianças menores ou o maluco mais velho que a gente do quinto andar, argumentos que ele não parava de usar nem quando a gente falava que quando passava alguém o jogo parava, ficava todo mundo paralisado (se bem que havia um pessoal que aproveitava a hora de passagem de gente ou carro pra se aproximar da bola), pois é, nessa época ela parou de sair na noitinha, a gente não via nem o sujeito e nem o fusca, apenas ouvíamos a música dela o tempo inteiro, você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços o que eu nunca esqueci. Inclusive a aparelhagem de som dela dela deve ter mudado na época, parecia ter trocado sua eletrola por um PHILIPS estéreo, devia ser um daqueles que tinha uma luz verde retangular para avisar que a vitrola tava ligada e que tinha duas caixas pequenininhas de madeira. Eu tive uma dessas, tinha aquele cabeçote prateado e preto e aquele braço de uma espécie de plástico. Tinha até aqueles garfos pra você botar vinte discos empilhados e ia caindo um por um, era automático.

Depois a gente acabou se desinteressando de jogar bola e, pensando bem, como é que a gente conseguia jogar dentro daquela garagem, cheia de quebra-molas, com o gol sendo marcado pela altura do goleiro, usando a parede pra tabelar e enganar o marcador, tendo que ficar a três passos do jogador quando a bola caía embaixo do carro? Foi nessa época que eu fiquei sabendo o nome dela, Neyla, foi um amigo meu que contou, a gente tava conversando encostados num pára-lama de fusca, a música tava tocando, quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem, com Agnaldo Timóteo e tudo. Aí ele virou pra mim e disse, puxa, a Neyla não pára de ouvir essa música, eu falei hum e não dei atenção, nesses grupinhos a gente sempre sabia quem é que toda noite subia lá no terceiro andar e só aparecia em casa horas depois e além disso ele gostava de ficar se gabando dessas coisas, falando dessas coisas e eu não gostava de dar papo pra ele, ele era um metido a besta desgraçado.

Foi na época em que ela escutava muito Minha História, aquela do minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, com a Ângela Maria cantando uma música em volta, que fiquei sabendo o número do apartamento dela. Ela passou por mim na saída da portaria e falou "você não era aquele menino que ficava aqui embaixo jogando bola, puxa, como você está grande, já tem namorada?" e eu pensei na Bia e disse "tenho" e ela falou dos discos dela, das músicas dela que ela tinha no apartamento, eu tinha que ver. Naquela noite, antes do jantar deu pra ouvir "Se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim" lá de casa. Ela tinha mesmo um monte de discos lá. Eu vi.

Depois ela se mudou. Engraçado. As crianças de hoje não gostam de jogar bola aqui no prédio. Graças a Deus também não têm a mania de ficar gritando pra ver se tem eco.

A Historia da Copa do Mundo

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GENTIL CARDOSO

Cansado com um atleta que teimava em passar somente bolas altas, que o ataque invariavelmente não conseguia dominar, Gentil Cardoso chegou para ele e perguntou:

- A bola é feita de quê?
- De couro.
- O couro vem de onde?
- Da vaca.
- E a vaca come o quê?
- Grama.
- Então bota a bola na grama. No chão. Rasteira. Como ela gosta.

Gentil Cardoso introduziu no Brasil o WM e o quadro-negro para explicar aos jogadores onde deveriam se posicionar e para armar as jogadas, hoje substituído pelo laptop. Mas, apesar de tudo isso e de ter colecionado títulos por onde passou, nunca teve o reconhecimento devido. O próprio Gentil sabia um dos motivos, quando se apresentava como "o moço preto dos pequenos". Se até hoje é difícil encontrar um técnico negro no comando de um grande time, nas décadas de 30 a 50 era quase impossível.

Gentil, nascido em 1901, foi um centromédio medíocre e marinheiro. Em suas viagens esteve em Londres, viu o Arsenal jogar e quando voltou foi o primeiro a aplicar o WM em nossas terras, no Bonsucesso, em 1931. Com a nova tática e Leônidas na linha de frente, o clube teve o ataque mais positivo do campeonato, com 58 gols, aplicando uma histórica goleada de 6 x 2 sobre o Flamengo. Mas ainda assim, a cada derrota de sua equipe - e eram muitas, afinal era um time pequeno - os jornais não perdoavam, sempre com uma caricatura de Gentil, seu quadro-negro, seus "W" e seus "M".

Gentil Cardoso chegou a ser cogitado para a seleção e treinar clubes grandes, mas nunca durou muito neles. Defensor dos direitos dos jogadores, os dirigentes o chamavam de "crioulo sestroso" e "papagaio falador". Nem mesmo o histórico título com o Fluminense em 1946 ajudou muito. O Vasco, achando que tinha atacantes demais, após vencer invicto o campeonato de 1945, dispensou Ademir. Gentil prometeu "dêem-me Ademir e eu lhes darei o campeonato". Promessa cumprida, o Vasco voltou correndo para trazer de volta o craque. Não o técnico.

Mas Gentil treinou o Vasco e levou-o ao título, em 1952. Durante a comemoração disse "o povo está comigo e quem está com o povo não perde o poder". Foi o motivo que os dirigentes vascaínos deram para trazer de volta Flávio Costa, a antítese de Gentil, que o chamava de "moço branco dos grandes".

Gentil também criou outras grandes frases e expressões do futebol. "Quem se desloca, recebe. Quem pede tem preferência" sintetiza a idéia do ataque no futebol moderno. "Zebra" e "cartola" são outros termos criados por ele. Resumindo sua visão de vida, disse certa vez: "Gandhi, Cristo, Comte e Vargas foram a razão de ser da inteligência, do amor e da pureza. Vivo com Deus no coração, mas não me afasto de nenhum deles''

Gentil faleceu em 1970, vítima de úlcera gástrica. Foi cotado pela última vez para dirigir a seleção na Copa de 1958. Passou seus últimos anos dirigindo clubes menores, justificando sua auto-definição de "moço preto dos pequenos".

A COPA DE 1930

Estava tudo pronto para começar a Copa do Mundo. Só faltavam os participantes. Sul-americanos e até norte-americanos estavam prontos para encarar, mas os europeus não estavam lá com essa animação toda. Eles tinham vários motivos: o Uruguai era longe, longe, muito longe, o que exigiria duas semanas para ir e duas para voltar. Somando com os vinte dias de torneio, seriam dois meses sem os jogadores no país. E grande parte deles era ainda de amadores, o que significava que eles não podiam ficar tanto tempo longe dos empregos!

Mas o principal motivo era que aqueles dignos europeus tinham medo de vir para um rincão tão distante sem as benesses da civilização, tais como o cinema sonoro, a sulfa, a pílula com lombriga para emagrecer (existiu mesmo!) e a guerra mundial. Ninguém tinha muita idéia do que seria a América do Sul naquela época sem tevê e na infância do rádio. Foi preciso muito esforço de Jules Rimet, o presidente da FIFA, para convencer a federação de seu país, a França, do país do vice-presidente, Bélgica, e uma ajudinha dos amigos para trazer Iugoslávia e Romênia. À essa turma européia juntaram-se Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Brasil, da América do Sul e Estados Unidos e México, da América do Norte. A Inglaterra, apesar de ter perdido para a Espanha no ano anterior, continuava a ignorar a FIFA e a Copa, por se julgar muito acima dos outros times.

O Brasil não mandou seu melhor time para o Uruguai. Para quem acha que hoje em dia é muito grande a rivalidade entre cariocas e paulistas, basta saber que nenhum jogador de São Paulo foi com a seleção porque não havia nenhum paulista na comissão técnica. A Federação Paulista proibiu todos os atletas a ela filiados de se apresentarem. Esta briga idiota acabou com a chance de Friedenreich de jogar uma Copa.

A primeira fase do torneio era classificatória. Com treze participantes, eles foram divididos em um grupo com quatro e os outros com três. O vencedor de cada chave se classificava para as semifinais eliminatórias. O Uruguai ganhou sua vaga com 1 x 0 sobre o Peru e 3 x 0 sobre a Romênia. A Argentina se classificou fazendo 1 x 0 sobre a França, 6 x 3 sobre o México e 3 x 1 sobre o Chile. Os americanos, com um time de jogadores de ligas semiprofissionais que em breve desapareceriam, fez 3 x 0 sobre a Bélgica e sobre o Paraguai, e seguiram adiante.

O Brasil, com seu meio-time, mal preparado devido ao tempo que se perdeu discutindo, sob uma temperatura de -2 graus centígrados, estreou contra os iugoslavos acostumados ao frio. Antes que os jogadores pudessem aquecer, já estavam perdendo por 2 a 0. Somente se destacaram Fausto, "a Maravilha Negra", o nosso centromédio atacante, e Preguinho, que marcou para a seleção aos 16 minutos do segundo tempo. Os brasileiros, digo, os cariocas, se entusiasmaram, avançaram, ignoraram a violência adversária e chutaram mais de dez bolas ao gol, mas não conseguiram empatar. No jogo seguinte a Iugoslávia fez 4 x 0 na Bolívia e garantiu a vaga. Sobrou para a equipe brasileira golear a Bolívia também por 4 x 0 num jogo que não valia mais nada.

Os uruguaios arrasaram nas semifinais nossos carrascos, pelo placar de 6 x 1, curiosamente o mesmo escore da outra semifinal, Argentina 6 x 1 Estados Unidos. Estava armada a reprise da final olímpica de 1928.

BOX

A final aponta o único vencedor de um torneio. As semifinais são conhecidas como meias-finais em outros países, porque serve para indicar dois times para as finais, ou seja, é metade do que se decide numa final, daí o nome. Do mesmo modo, as quartas-de-final indicam quatro times para as semifinais, ou seja, é um quarto do que se decide numa final, e as oitavas-de-final indicam oito times para as quartas, ou seja, é um oitavo do que se decide numa final. O nome dos jogos que indicam dezesseis participantes para as oitavas é... hm... deixa eu ver... jogo eliminatório e não se fala mais nisso.

O Uruguai saiu na frente, mas a Argentina virou para 2 x 1. Os uruguaios empataram e passaram a jogar recuados, aguardando os portenhos em seu campo para partir para o contra-ataque. A tática deu resultado e o jogo acabou 4 x 2 para os anfitriães. Com o futebol ainda nos primórdios dos sistemas de jogo, várias seleções começaram a jogar assim, porque afinal era a maneira do campeão do mundo.

Por causa das brigas idiotas o futebol brasileiro perdeu uma excelente chance de conquistar seu primeiro título mundial. Três dos times que jogaram a Copa excursionaram pelo Brasil, que os enfrentou com a equipe completa. A Iugoslávia foi derrotada por 4 x 1, os americanos por 4 x 0 e a França por 3 x 2. Em 1931, na Copa Rio Branco, a seleção bateu os campeões do mundo no Rio de Janeiro por 2 x 0, com gols de Nilo. Na revanche, em Montevidéu, no ano seguinte, Nilo não jogou, mas seu substituto fez os dois gols da vitória brasileira, iniciando seu período como grande ídolo do esporte nacional. Mas, ao contrário de Friedenreich, Leônidas da Silva deixaria seu nome indelevelmente inscrito na história da Copa do Mundo, em 1934 e 1938.

ANDRADE

Preto, pobre e centromédio, poderia ser este o slogan de José Leandro Andrade. Nascido em Montevidéu em 1901, Andrade saiu da miséria para o mundo e se tornou o primeiro astro negro internacional. Os europeus o descobriram nas Olimpíadas de 1924, quando o Uruguai, único país sul-americano no torneio do bárbaro esporte bretão, foi o campeão. Eles nunca haviam visto um negro jogar e causava-lhes surpresa que ele desarmasse os adversários apenas com sua agilidade, sem lhes tocar o corpo, ao contrário da maneira que se jogava no Velho Mundo, com muita força e contacto físico, tradição herdada dos tempos em que rugby e futebol compartilhavam regras.

Também era novidade para os europeus as fintas e dribles de Andrade e seus companheiros. Segundo uma testemunha da época, o jogador da seleção alemã Richard Hoffman, "ele era um sujeito alto com movimentos elásticos, que sempre preferiu o jogo direto e elegante, sem contacto físico, e estava sempre vendo vários lances à frente. Ele visivelmente se divertia jogando (...) mesmo durante o jogo estava sempre distribuindo sorrisos amigáveis". Foi com Andrade e a seleção uruguaia que se cunhou a distinção entre o jogo sul-americano, bonito e cheio de improviso, e o europeu, disciplinado taticamente, físico e eficiente.

Em suas viagens pelo mundo Andrade ficou conhecido como um consumidor desenfreado e frequentador da noite, chegando a ensinar passos de tango a Josephine Baker em Paris. Mas sua carreira acabou em 1938 e o futebol ainda estava nos primórdios do profissionalismo. Em 1956 um jornalista conseguiu localizá-lo morando num porão, cego de um olho e doente, acompanhado apenas por sua bela e leal esposa. No ano seguinte ele faleceria. Suas únicas posses eram uma velha cama, uma cômoda e uma caixa de sapatos repleta de medalhas.

abril 06, 2010

A História da Copa do Mundo IV

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AS PRIMEIRAS TÁTICAS DO FUTEBOL:

O Penta sempre que pega a bola tenta driblar todo mundo. Infelizmente até a trave consegue desarmá-lo. Dizem alguns que a linha do círculo central também já conseguiu tomar a bola dele. Mas quando o futebol surgiu essa era a tática. Qualquer jogador à frente da bola estava impedido, logo virtualmente não existia o passe. A única instrução tática nos manuais era que quem perdesse a bola tinha que correr atrás do sujeito que a pegou. O jogo era tão chato que mudaram a regra em 1866 e o jogador só estava impedido se estivesse à frente da bola e tivesse menos de três adversários entre ele e o gol.

Em pouco tempo os atletas começaram a descobrir o passe. A princípio curto, porque ninguém nunca tinha visto nada parecido e a imaginação deles ainda não tinha se alargado tanto. Mesmo assim os jogadores tiveram que começar a pensar onde ficar em campo, para evitar - ou usar - essa nova arma dos atacantes. E, em 1883, o Blackburn foi o campeão da Copa da Inglaterra massacrando os adversários porque descobriu que podia usar o passe longo. Principalmente para inverter a jogada de uma ponta para outra. Parece que os oponentes corriam todos para o sujeito com a bola, ele mandava para o outro lado do campo e os defensores, irados, iam perguntar para o juiz, "ei, isso não é antiesportivo, mandar a bola para longe de nós?"

Não, não era. Em pouco tempo os jogadores de futebol tinham que saber dar passes, lançamentos, dominar uma bola no peito, pelo alto, na corrida, ou, no caso do beque, interceptar e cortar essas jogadas. E os times começaram a se organizar no sistema que dominaria o mundo até princípios dos anos 50. A pirâmide, ou 2-3-5.



A princípio, olhando para o esquema, parece quase uma pelada. Dois beques para marcar cinco atacantes? Até o Penta poderia organizar um time melhor. Mas é preciso lembrar que para um jogador não estar impedido ele precisava ter entre ele e o gol pelo menos dois zagueiros além do goleiro. E se estivesse na mesma linha que eles também era impedimento. Ou seja, se qualquer um dos dois defensores na última linha se adiantasse um pouquinho, os atacantes todos ficavam sem condições de jogo.

Além disso, a "linha média" não era um meio-campo de verdade. Era uma espécie de primeira linha de defesa, totalizando cinco defensores. Cada um marcava o seu, a marcação "homem-a-homem". Os médios esquerdo e direito marcavam os pontas, os beques marcavam os meias e o centromédio marcava o centroavante. Os atacantes evitavam jogar entre as duas linhas de defesa porque poderiam ficar impedidos facilmente.

Ninguém tinha muito preparo físico e coisas como antibióticos, raios-x e cápsulas de vitaminas ainda não tinham sido inventadas. Então todo mundo jogava muito parado e o jogo funcionava assim: o beque pegava a bola e passava para os médios, que lançavam um dos atacantes, que cruzava para a área. Este sistema foi criado na Inglaterra e até hoje os britânicos preferem jogar com bolas altas em lançamentos longos e cruzamentos.

Como o centromédio ficava no meio ele podia lançar tanto pela esquerda quanto pela direita, o que o tornou o principal organizador do time e deu-lhe mais liberdade para avançar. Como ele também marcava o atacante mais perigoso, o centroavante, ele logo se tornou o grande jogador em campo. Foi a época de ouro do centromédio atacante, posição que no Brasil consagrou Fausto, "a Maravilha Negra" e Danilo, "o Príncipe" (e que, além de bater um bolão, inventou o corte de cabelo "príncipe Danilo". É sério).

Mas em 1925, depois de anos e anos com a média de gols caindo mundo afora, a regra do impedimento foi mudada novamente. Com apenas dois jogadores entre ele e o gol um atacante não estava mais impedido. No primeiro campeonato inglês com o novo regulamento foram marcados 60% a mais de gols. E o técnico do Arsenal, Herbert Chapman, resolveu estudar o caso. Após muita pesquisa, descobriu que o centroavante, o atacante que jogava mais perto da meta, era quem mais estava marcando gols. E, provavelmente após mais longos e demorados estudos, chegou à brilhante conclusão de que alguém precisava marcá-lo.

Tudo bem, não parece uma dedução difícil ou uma conclusão brilhante, mas aquele era um tempo em que ninguém ainda tinha aprendido a falar, pelo que se vê nos filmes da época. De qualquer forma, Chapman conseguiu contar suas idéias e criou no Arsenal a primeira mudança no futebol: o W-M, que, pelos padrões modernos, seria conhecido como 3-4-3, ou, mais exatamente, 3-2-2-3.



Chapman recuou o centromédio para a última linha de defesa, com a missão de marcar o centroavante. Seus companheiros, os laterais, deveriam marcar os pontas adversários. A nova formação dava mais solidez à defesa, pois se o ataque viesse pela direita, o lateral marcaria o atacante em seu setor e o centromédio poderia ficar na sobra, enquanto o outro lateral cobria o meio.

O novo defensor, agora chamado de "stopper", "beque parado" ou "zagueiro central" (denominação herdada até hoje) mudaria a forma do jogo. O centroavante leve e técnico como Matthias Sindelar, tão magro que era conhecido como "homem de papel", daria seu lugar a um mais forte fisicamente, capaz de dividir a bola ou disputar um cruzamento com seu marcador. A nova linha média, agora encarregada de marcar os meias, ficou com apenas dois jogadores, pouco para criar as jogadas para os cinco atacantes. Assim, Chapman, para equilibrar a armação, recuou os meias, formando o primeiro meio-campo de verdade de que se tem notícia.

Com esse novo meio-campo a criação de jogadas de ataque foi dividida pelos meias e as distâncias ficaram menores. Uma vez com a bola, a defesa passava-a para os médios, que passavam para os meias, que passavam para os atacantes. Jogadores capazes de lançamentos longos ou de carregar a bola desde a defesa até o ataque, os centromédios atacantes, já não eram mais tão fundamentais para o time. Era o começo da tática sobrepondo-se à técnica.

Se enfrentasse uma equipe que usasse a pirâmide, o time em WM poderia usar os meias enfiados entre as duas linhas de defesa adversária e, quando perdesse a bola, teria quatro jogadores para marcar a criação adversária. Como já vimos, no 2-3-5 quem realmente armava o time era o centromédio atacante e, quando ele recebesse a bola, sofreria combate dos dois meias. Ao avançar teria os médios pela frente para atrapalhá-lo. Ou seja, quem usasse o WM estaria em vantagem tanto no ataque quanto correndo atrás da bola. No caso de um jogo contra outro WM a marcação seria homem-a-homem, com cada atleta tendo um oponente para marcar exatamente em sua posição.

Entre 1927 e 1938 o Arsenal, usando o WM venceria cinco vezes a Liga Inglesa e duas vezes a Copa da Inglaterra, na época os melhores campeonatos do mundo. No final dos anos 30 a tática de Herbert Chapman seria o padrão nas ilhas britânicas, espalhando-se pelo planeta nos anos 40. No Brasil, os primeiros a usá-la foram o húngaro Dori Krueschner, no Flamengo e Gentil Cardoso, no Bonsucesso.

Um Dia na Praia de Mauá II







Alguns anos atrás, tirando uma com o filho de um amigo meu, tinha uns 14 anos na época!", perguntei, "e aí, Fernando, já perdeu esse cabaço?" "Ainda não?" "Não? Que coisa!". A desculpa dele, a qual nem levei em consideração, foi "pô, no teu tempo não tinha tanta lésbica". Devo desculpas a ele: outro dia fui tomar um chopinho no Carlitos da Lapa e tenho a impressão de que passaram muito mais casais de moças do que heterossexuais. E, enquanto um casal de gays significa duas mulheres a mais no mercado, um de lésbicas significa duas a menos disponíveis!!!!!

Mauá de Magé tem a maior cara de interior brabo, sem o ar globalizado de lugares turísticos. Apesar de poluída, a baía de Guanabara é muito visual, suas águas calmas emolduradas por intermináveis morros. Pra se ter uma ideia, ainda tem bares com fliperamas - fliperamas mesmo, de bolinha de metal e tudo, Tommy iria adorar. Ainda assim, a moda já chegou lá, mesmo entre adolescentes, como aqui no Rio. A diferença é que as moças foram hostilizadas por garotos que passavam de bicicleta durante sua caminhada no calçadão, e viraram as cabeças do pessoal mais velho na última foto. Espero que elas - principalmente as com os coxão - estejam apenas brincando de experimentação. De qualquer forma, fica o aviso pro pessoal que estimulava essas coisas na esperança de fazer uma suruba com duas mulheres: cuidado com o que você deseja, pois às vezes seu sonho pode se tornar realidade (1).

(1) Nos anos 90, um amigo meu assinou o canal erótico "pro filho". Por ser dirigido a um público heterossexual, o tal canal (não me lembro o nome) tinha uma dieta quase exclusiva de mulheres transando com mulheres, para não ter que mostrar machos nus (e eretos). Outro amigo meu comentou que o filho dele, vendo aquela programação, não ia saber o que fazer quando chegasse sua hora...

Mais Pintores Primitivos

Mês passado postei este artigo sobre um grande pintor primitivo, Henry Darger, que passou a vida escrevendo e ilustrando uma saga sobre meninas nuas enquanto ganhava a vida como faxineiro. Pois desta vez vou lhes apresentar trabalhos de um artista ainda mais primitivo e que ganha a vida de forma ainda mais inesperada.









Que tal? Eis o artista, agora, em seu ateliê:



Isto não é uma fraude, nem uma montagem. Alguns especulam que o artista (artistas, na verdade as obras são de vários deles) foi ensinado a pintar assim, mas quando crianças não somos todos treinados para pintar de uma maneira e nossa autoexpressão acaba criando nosso estilo próprio? Se você ficou impressionado com as telas do paquidérmico sujeito, pode encontrar mais aqui e aqui. As pinturas estão à venda, com o lucro revertido para organizações para preservação da espécie.

O velho ditado diz "os elefantes não esquecem", mas na minha infância cansei de passar por informações de almanaque e afins avisando que o dito estava errado e que paquidermes não aprendiam rápido. Ainda bem que vivemos na época do Discovery Channel. Lá descobri que esses bichos têm medo da morte, assustando-se quando veem esqueletos de sua espécie e honrando e enterrando os falecidos - inclusive humanos! Até agora são os únicos, além dos homens, a entenderem esse conceito de finitude. Eles também têm uma complexa cultura e uma grande capacidade de empatizar. Alta inteligência é esperada em predadores, que precisam aprender a caçar, mas nós, o elefante e o polvo, de looooooonge o mais esperto dos invertebrados, compartilhamos um detalhe anatômico - um apêndice altamente hábil e flexível para interagir com o mundo: em nós, a mão com polegar opositor, no polvo o tentáculo e no elefante a tromba. O que nos deixa pennsando: alguém já pôs um pincel na mão, digo, no tentáculo de um cefalópode?

Sam a Gaivota Gatuna



Na Escócia, uma gaivota, que o povo lá batizou de Sam, aprendeu a assaltar lojas de conveniências. Ela espera o dono não estar olhando para entrar, roubar um Doritos de queijo (sempre e unicamente o Doritos de queijo), pra depois arrebentar a sacola e comer os salgadinhos.

O detalhe é o jeitão da gaivota: ela parece realmente um ladrão de loja. Entra casualmente e sai apressada, depois de roubar o que lhe interessa. E pensar que eu sempre achei pássaros burros...

Macacos em 2001

O filme, não o ano. Essa fita atrai um culto tão cego que seus fãs mais radicais adoram contar a anedota de que o Oscar de maquiagem lhe foi negado porque a Academia achou que os macacos da sequência inicial eram de verdade e, assim, as não tão perfeitas máscaras de "Planeta dos Macacos" teriam levado o prêmio.

Pra começar, não existia Oscar de maquiagem até 1981. Planeta dos Macacos levou um Oscar honorário por inovação artística em maquiagem. E nunca foi objetivo dos criadores do longa fazer seus atores parecerem macacos de verdade, mas sim antropomorfizados. A genuína inovação, que tanto impacto causou, foi o fato de que as máscaras eram extremamente flexíveis e permitiam que os sujeitos usando-as pudessem ATUAR. Seus cenhos se movem, seus olhos são expressivos, os cantos de suas bocas permitem esgares.

Já as máscaras de 2001 têm excelente e realistas bocas dentro da maquiagem, mas seus cenhos e faces são imóveis. O que não é demérito, já que seus hominídeos não precisam atuar, apenas berrar e usar muita expressão corporal, como semibestas que são. Talvez sejam os quarenta anos de efeitos especiais cada vez mais realistas e sofisticados, mas provavelmente apenas crianças poderiam achar que aqueles antropoides são macacos de verdade. As proporções dos membros e dos troncos são claramente humanas. A maneira como as criaturas se sentam e agacham - e pior, andam -traem claramente que são bípedes tentando simular quadrúpedes(1). Os pelos das fantasias claramente ombreiam com os de Konga, a Mulher Gorila.

Nada disso é problema para 2001. Seus hominídeos aparecem quase sempre em contraluz ou no escuro, não atuam, apenas berram e somem depois de 15 minutos de fita. Planeta dos Macacos contou com um maneiríssimo design para suas criaturas e máscaras que nos permitem acompanhar os personagens por duas horas com interesse em suas emoções. Kubrick era sensacional, mas não era deus, portanto parem com essa história ridícula.

(1) Os hominídeos, sabe-se hoje em dia, primeiro tornaram-se bípedes e depois humanos. Os macacoides de Kubrick são claramente bípedes tentando andar como quadrúpedes, o que não faz sentido nenhum do ponto de vista evolucionário. É muito mais cansativo pra quem tem os ossos do quadril como os nossos andar curvado ou utilizar os braços para auxiliar na locomoção. Kubrick preferiu no caso uma licença poética para que aqueles australopitecos parecessem bem primitivos para o público médio, que provavelmente acharia estranho antropoides andando como gennte (a primeira vez que vi num documentário no Discovery também achei).

Artigo na Logo de O Globo


Como anunciado, o artigo que saiu no Globo no domingo. Clique na foto para ampliar e poder ler.

abril 02, 2010

Neste Domingo...

... tem artigo meu na página Logo do Globo - o assunto é relativo a um dos tópicos do cabeçalho do blogue...

abril 01, 2010

Um Dia na Praia de Mauá I


Os fundos da baía de Guanabara




Lucinda Matlock

Edgar Lee Masters

I WENT to the dances at Chandlerville,
And played snap-out at Winchester.
One time we changed partners,
Driving home in the moonlight of middle June,
And then I found Davis.
We were married and lived together for seventy years,
Enjoying, working, raising the twelve children,
Eight of whom we lost
Ere I had reached the age of sixty.
I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick,
I made the garden, and for holiday
Rambled over the fields where sang the larks,
And by Spoon River gathering many a shell,
And many a flower and medicinal weed—
Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys.
At ninety-six I had lived enough, that is all,
And passed to a sweet repose.
What is this I hear of sorrow and weariness,
Anger, discontent and drooping hopes?
Degenerate sons and daughters,
Life is too strong for you—
It takes life to love Life.


E minha pobre tradução:


Eu fui aos bailes em Chandlersville
E joguei cartas em Winchester
Uma vez mudamos de parceiros
A caminho de casa sob o luar de junho
E então encontrei Davis
Casamos e vivemos juntos por 70 anos
Divertindo-nos, labutando, criando 12 filhos
Oito dos quais perdemos
Até que alcancei os sessenta anos
Eu fiei, eu bordei, cuidei da casa e dos doentes
E do jardim, e nos momentos de folga
Perambulei pelos campos onde cantam as cotovias
E perto do Rio Spoon, recolhendo conchas
E flores e ervas medicinais
Gritando às colinas verdejantes, cantando para os vales verdes
Aos noventa e seis havia vivido muito, só isso,
E tive finalmente meu doce repouso
E que é isso que ouço de desespero e cansaço
Fúria, descontentamento e esperanças perdidas?
Filhos e filhas degenerados
Vida é forte demais pra vocês –
É preciso uma vida para amar a Vida.