maio 11, 2009

Lucinda Matlock

Edgar Lee Masters


I WENT to the dances at Chandlerville,
And played snap-out at Winchester.
One time we changed partners,
Driving home in the moonlight of middle June,
And then I found Davis.
We were married and lived together for seventy years,
Enjoying, working, raising the twelve children,
Eight of whom we lost
Ere I had reached the age of sixty.
I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick,
I made the garden, and for holiday
Rambled over the fields where sang the larks,
And by Spoon River gathering many a shell,
And many a flower and medicinal weed—
Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys.
At ninety-six I had lived enough, that is all,
And passed to a sweet repose.
What is this I hear of sorrow and weariness,
Anger, discontent and drooping hopes?
Degenerate sons and daughters,
Life is too strong for you—
It takes life to love Life.



E minha pobre tradução:


Eu fui aos bailes em Chandlersville
E joguei cartas em Winchester
Uma vez mudamos de parceiros
A caminho de casa sob o luar de junho
E então encontrei Davis
Casamos e vivemos juntos por 70 anos
Divertindo-nos, labutando, criando 12 filhos
Oito dos quais perdemos
Até que alcancei os sessenta anos
Eu fiei, eu bordei, cuidei da casa e dos doentes
E do jardim, e nos momentos de folga
Perambulei pelos campos onde cantam as cotovias
E perto do Rio Spoon, recolhendo conchas
E flores e ervas medicinais
Gritando às colinas verdejantes, cantando para os vales verdes
Aos noventa e seis havia vivido muito, só isso,
E tive finalmente meu doce repouso
E que é isso que ouço de desespero e cansaço
Fúria, descontentamento e esperanças perdidas?
Filhos e filhas degenerados
Vida é forte demais pra vocês –
É preciso uma vida para amar a Vida.

A Fronteira Final - O Novo Filme de JORNADA NAS ESTRELAS


Ca-pi-tão-quir-que! Ca-pi-tão-quir-que! Olê olê olê olá a Frota Estelar tá botando pra quebrar!

O valente editor da Zé Pereira saiu do cinema e comentou com o blogueiro, "e agora, quando é que vamos chutar a bunda de alguns klingons?"

Sim, porque o novo Jornada nas Estrelas é um barato. Mais de um século depois que o pai e a mãe do capitão Kirk passam uma noite animada e cheia de consequências, a estrela de Romulus explode, destrói o planeta e joga no passado um romulano, Nero, e o mais famoso vulcano de todos, Spock, que tentava salvar o planeta. Nero reaparece em frente a uma nave da Federação onde Kirk está nascendo e a destrói, ao descobrir o que lhe aconteceu. O pai do maior capitão estelar da história se sacrifica numa cena belamente redigida e dirigida, comprando tempo pra tripulação se salvar, mas deixando seu filho sem a figura paterna que forjaria seu caráter.

Mas isso não impede que Kirk se torne o James Tiberius a que todos nós estamos acostumados; depois de um período de comportada rebeldia, o capitão Christopher Pike assume o papel de figura paterna e o leva a alistar-se na Frota Estelar. Como a história mudou com a aparição de Nero, a equipe criativa não precisa seguir cada vírgula do cânone de Trek e traz de volta com delicada competência a melhor tripulação a jamais pilotar uma Enterprise.

Em seu tempo muito se escreveu sobre o inusitado (para a época) personagem de Spock, mas para a garotada nerd, como o editor da Zé Pereira e eu, o superstar (depois dos roteiros e do conceito) era mesmo o capitão Kirk. Com sua canastrice encaixada em scripts sofisticados, Shatner encheu de vitalidade a cadeira de comando pra criar um típico oficial de marinha de filme do século XVIII – a semelhança das personalidades de Kirk e Jack Aubrey, o Mestre dos Mares do filme de Russell Crowe é impressionante.

Kirk é inteligente e culto, sabe ter bons modos, mas também se sente à vontade em puteiros espaciais; mulherengo e bem humorado, deve ser ótima companhia pra encher a cara, o que parece gostar de fazer com seus marujos. Gente boa e leal, ainda assim se irrita com facilidade com seus subordinados, devido à falta de paciência típica de quem gosta de aventura. Shatner está quase sempre tenso em quadro, durante os diálogos, como se estivesse esperando para saltar. Embora impulsivo e improvisador, está sempre aberto à opinião dos outros, principalmente de seu grande amigo Spock, com quem veladamente compete pra mostrar quem tem o cérebro maior. Apesar disso tudo, tem disciplina suficiente pra manter a ordem e cumprir suas tarefas burocráticas.

E Chris Pine cria uma versão jovem desse Kirk de tal maneira que a única diferença entre ele e o Shatner da série são alguns anos de experiência. Zachary Quinto também faz um excelente Spock, mas é um personagem mais fácil de recriar. Apenas Karl Urban faz uma verdadeira imitação do dr. McCoy de DeForest Kelley, mas ele mal aparece mesmo, e Zoe Saldana faz uma Uhura mais agressiva, já que simplesmente ter uma oficial mulher (e negra africana!) na ponte não é mais uma ousadia feminista para o público de hoje.

O engenheiro Scott também aparece depois e desaponta os fãs, porque está isolado num posto avançado no cu do mundo há meses e quando aparece gente, em vez de pedir um uísque, pede comida. Malditos tempos politicamente corretos. Há também um Sulu, tão ávido por aventura quanto o original, e Chekov, que na série clássica tinha como únicos traços distintos de personalidade um péssimo sotaque russo e juventude, virou também um supergeniozinho.

Em suma, a velha gangue está toda de volta. Nada da cultura corporativa da Nova Geração. Nada da novela mística de Deep Space Nine ou do jogo duplo diplomático de Janeway e sua galera em Voyager. Este povo do Kirk tem uma nave estelar e sabe como usá-la: botando pra quebrar no espaço. O diferencial de Star Trek era sem dúvida a complexidade de seus temas, mas o que nos levava a nos envolver com aqueles conceitos dos escritores era justamente o ar de espaçonave pirata singrando o cosmo.

O filme tem esse clima, embora obviamente falte a substância cerebral que tanto atraía a galera nerd, meio que impraticável num longametragem de origem, mas a graça é justamente saber que aquele pessoal vai encarar um monte de aventura cabeça. E com toda a impetuosidade de Kirk, a lógica do nerd hipercool Spock, o melodrama de McCoy e... eu ia dizer os coxões da Uhura, mas os padrões de beleza mudaram bastante dos anos 60 pra cá.

Pra quem cresceu com a criação de Gene Roddenberry a fita está cheia de piadinhas particulares sensacionais. O blogueiro e seu amigo Marcos Pedrosa começaram a rir logo na primeira cena de ação: o capitão Pike seleciona pruma missão perigosa Kirk, Sulu e um tripulante desconhecido ("Olson") de camisa vermelha. Aliás, as cenas de ação são, pros padrões atuais, poucas, e com uma estranha direção que tem o peculiar hábito de encenar a porradaria de forma que nós realmente entendemos exatamente o que está se passando.

E há muitas outras piadinhas referenciais: o sotaque fajuto de Chekov, Pike numa cadeira de rodas, Scott sendo ensinado por um viajante do futuro a inventar algo cuja invenção é creditada a ele, e uma das melhores, quando um por um os oficiais de comando saem e vão deixando a Enterprise na mão de gente cada vez menos graduada, até chegar no geniozinho russo de 17 anos, satirizando a mania pouco militar da série clássica de mandar por razões dramáticas todo o pessoal importante da ponte de uma vez pra planetas ou naves potencialmente hostis.

E, prum cara que diz nunca ter gostado de Star Trek, J. J. Abrams pegou mesmo o espírito da coisa, com diálogos que parecem saídos da série original ("Eu citaria um regulamento, mas você o ignoraria mesmo" "Viu? Já estamos nos conhecendo melhor"). Enfim, é um barato. Com excelentes efeitos especiais de bom gosto, uma montagem que permite compreender o que está acontecendo na cena e um design atualizado recauchutando o ótimo conceito cenográfico original, a fita é um excelente recomeço, deixando a gente com vontade de que saia uma nova série de tevê pra não termos que ficar esperando três anos entre um longa e outro. Afinal, estamos todos doidos pra chutar a bunda de uns klingons.

Anteriormente: Inimigo Interior
Amanhã: O espetacular "Um Gosto de Armageddon"

maio 07, 2009

A FRONTEIRA FINAL - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica



Inimigo Interior


Richard Matheson, escritor de fantasia da pesada – autorou “Eu sou a Lenda” e “O incrível homem que encolheu”, entre outros – reciclou uma das obras-primas de Robert Louis Stevenson e dividiu o capitão Kirk em seus lados bom e mau, criando um dos episódios favoritos dos trekkers e que até hoje é tema de centenas de trabalhos a cada semestre nas faculdades de psicologia na Obamalandia.

Uma das grandes vantagens da série original sobre A Nova Geração e seus filhotes é que a parte científica é coadjuvante pras doideiras dos escritores. Assim, Matheson não se dá ao trabalho de explicar como uma máquina que trabalha com a desmontagem e remontagem de moléculas pode criar duplicatas e ainda por cima com personalidades diferentes. O que talvez até seja uma pena, pois ouvir um arcabouço teórico para moléculas boas e moléculas más poderia ser um dos momentos clássicos do show e juntar-se aos quarks “up”, “down”, “charm”, “strange”, “up” e “down” da física de partículas contemporânea. O sr. Spock conta que cobertores enviados para um planeta abaixo também foram replicados, deixando-nos bestuntando como seria um cobertor malvado.

Kirk sai do teletransporte meio zureta e a sala fica vazia. Logo depois ele reaparece, usando uma camisa diferente – além de moléculas boas e moléculas más, ainda tem moléculas guarda-roupa – e um ângulo de câmera de baixo pra cima, em grande angular, com luz infernal (1) deixa bem claro que esse James Tiberius não é boa coisa. Aliás, a direção deste episódio é bem melhor do que o resenhado anteriormente. A iluminação secundária vermelha e azul é usada bem mais expressivamente e não só pra vender recém-lançadas tevês em cores. Há mais movimentos de câmera, algumas tentativas de composições mais elaboradas e maior movimentação dos atores em cena – em suma, a cinematografia é consideravelmente mais dinâmica, o que é ótimo prum episódio que não tem muito suspense e que depende do interesse na instigante situação para prender nossa atenção. Infelizmente continua o abuso de cortes para closes em que os olhares não se dirigem para onde deveriam, com fundo vazio, ignorando o cenário onde se passa a sequência, parecendo um desenho do Rob Liefeld.

Essa história de lado bom e lado mau é um exemplo clássico para o seu “encaixe aqui seu significado”. Matheson, através de Spock, descreve-os literalmente, um como sendo os desejos mais baixos, cruéis, agressivos e mesquinhos (e com todo mundo dizendo a ele que ele é assim não vai melhorar nunca) de Kirk, e o outro com sua bondade, a ternura e a racionalidade. Podem ser o id e o superego, podem ser o complexo-R, o cérebro reptiliano por baixo de nossa mente, e o neocórtex, a massa cinzenta mamífera com sua capacidade de empatia e sua grande capacidade de simbolização, o que você quiser...

Mas a grande sacação para o moleque que eu era, e provavelmente também os pivetes americanos, os jovens adultos e homer-simpsons a quem o programa era dirigido, ainda mais numa época em que a maioria das pessoas ainda era caretaça, foi a ideia de que a energia vital vem do “lado mau”, que é ela quem fornece o combustível para a mente racional. Com o passar do tempo, incapaz de avaliar os dois lados de uma questão e de arriscar suas chances, o “lado bom” torna-se inapto para tomar decisões. Como medir as consequências sem o instinto para lhe dar o parâmetro moral onde basear seus argumentos? Quando o capitão Kirk desvela o ocorrido e decide esclarecer tudo para a tripulação, Spock lhe paga um esporro dizendo que é uma ideia de jerico contar pra marujada que tem dois capitães, ambos meio zuretas, pra comandar a nave. E a conclusão para a garotada assistindo em casa é que valores morais são muito bonitos, mas no mundo real mesmo os heróis carismáticos dependem fundamentalmente de hipocrisia e mentirinhas.

Já o “lado mau” não tem nada disso e de pronto sai pra encher a cara e dar em cima da gostosona de sua ordenança, cuja bunda tanto obseda a tripulação em “O sal da terra”. A ordenança não gosta e quase é estuprada, arranhando o rosto do capitão no processo, o que vai nos ajudar a diferenciar quem é quem no resto do episódio. Quando ela rememora o incidente, confessa que sempre teve uma certa atração por Kirk, mas numa das poucas boas demonstrações da arte de atuar num episódio que pede a William Shatner que seja duplamente canastrão, mas que sentiu-se profundamente degradada. Esse precoce caso de assédio sexual é um avanço sobre a política sexual do programa anterior e numa época em que uma cena clássica de piada era do patrão correndo atrás da secretária em volta de uma mesa (2). Mesmo admitindo seus desejos, a mulher sente-se ultrajada e mais uma vez se ressalta a hipocris... digo, a racionalidade nas relações humanas. Pra compensar, quando as duas metades se defrontam, a “sombra” de Kirk (a interpretação junguiana, que divide a personalidade em quatro, sendo a sombra a projeção de nossos piores defeitos percebidos), apesar de toda sua agressividade, é quem entra em pânico. É a razão que nos leva a superar o medo primal.

Um Papo sobre o episódio de Star Trek - The Original Series:
Enfim, o episódio é tão aberto a interpretações que pode ser até mesmo metáfora pra shows pretensiosos de ficção científica. A mente racional é quem manda, elaborando temas instigantes e relevantes, com ajuda da empatia, que nos leva a nos interessar por aquelas criaturas fictícias a quem tais coisas acontecem, mas como o lado mau é que tem o controle remoto, tem que ter umas brigas, mulheres de microssaia e tiros de laser. A Nova Geração seria uma série clássica sem o lado mau.


Digno de nota:

- Contagem de corpos: só algumas escoriações. Quando o Kirk mau ataca um tripulante que tentou ajudar a ordenança, ele o derruba e o soca fora de quadro. Em DVD fica visível que chega a haver um espirro de sangue.
- Na cena em que os dois capitães se confrontam na ponte, há um erro de continuidade e um deles está com os arranhões no lado direito do rosto.
- No final dos anos 70, início dos 80, Shatner foi o apresentador do Saturday Night Live e fez um esquete em que ia a uma convenção de trekkers e fazia um discurso mandando eles arrumarem uma vida, uma namorada, amigos, saírem da casa dos pais e deixarem de ficar discutindo detalhes irrelevantes de uma velha série de tevê. Os fãs só se acalmam quando alguém diz que na verdade o discurso foi dado pelo capitão mau deste episódio.
- Em uma subtrama, uma patrulha está presa num planeta congelante porque o teletransportador está quebrado. Apesar deles estarem morrendo, não há a menor menção às naves de serviço da Enterprise, como a Galileo, que apareceriam em outros episódios.

(1)No dia a dia estamos acostumados a ver tudo iluminado sempre de cima pra baixo, seja pelo sol, pela iluminação pública ou de casa. Para criar um clima extraordinário e dramático no cinema, diretores de fotografia costumam focar suas lâmpadas baixo pra cima, distorcendo nossa visão usual e dando a impressão de que os personagens recebem uma luz vindo diretamente das entranhas do hades, daí o nome “luz infernal”.
(2)Num desenho de Betty Boop de Max Fleischer, dos anos 30, ela arruma um emprego de secretária com um literal porco gordo e suado que começa a tentar agarrá-la assim que ela entra na sala com seu vestidinho apertadinho. Ela grita por socorro e durante todo o episódio bombeiros e policiais incompetentes tentam ajudá-la, apenas para, quando finalmente abrirem caminho, a encontrarem aos beijos com o suíno, e ela, irritada, fechar a porta (ou a cortina, não me lembro) pra ter privacidade. Um monte de mulheres que o patrão tentou agarrar devem ter achado engraçadíssimo.

Anteriormente: O Sal da Terra;
Amanhã: Se a pré-estreia não estiver lotada quando eu chegar, a resenha do novo longa.

maio 06, 2009

A FRONTEIRA FINAL - Ensaios sobre JORNADA NAS ESTRELAS - A Série Clássica

Episódio da Primeira Temporada de Star Trek - The Original Series


O Sal da Terra



“O sal da terra” não foi o primeiro episódio de “Jornada nas estrelas” a ser filmado, mas o primeiro a ser exibido. Os produtores o acharam o “menos cerebral” disponível pra estreia, com um bom e velho monstro alienígena trans morfo rondando a espaçonave e matando alguns extras. Puro anos 50, com a típica paranoia da Guerra Fria de que qualquer um poderia ser um comunista.

E não só isso. “Man trap” é o título original e mais reaça, já que é um termo usado para mulheres gostosas e aproveitadoras – mulheres fatais, em suma. E o alienígena se passa justamente por uma mulher, ex-namorada do dr. McCoy. Que a vê exatamente como ela era quando se conheceram, enquanto o capitão Kirk a enxerga como uma balzaca um tanto rodada e o tripulante de escolta como uma moça que conheceu num “planeta de prazer” na última parada – caramba, não sabia que se podia falar essas coisas na tevê nos anos 60. Obviamente o escolta não dura muito tempo – quem manda frequentar “planetas de prazer”?

O machismo se espraia pelo episódio. Uhura diz que está cansada da palavra “frequência” e abandona seu posto para flertar com... o sr. Spock! E ainda parece surpresa pela falta de emoções do vulcano. Ela não é uma oficial da frota, ela é uma telefonista! A outra mulher na ponte segura uma bandeja pro capitão Kirk – assim como a ordenança leva a comida para o sr. Sulu. Elas são as moças do cafezinho! A ordenança ainda flerta com tripulantes e quando sai eles ficam olhando para a bunda dela (justiça seja feita, com aqueles coxões e aquela microssaia é difícil de resistir) e imaginando como seria ter aquilo como ordenança. Ela vai servir o almoço e conversar com o sr. Sulu em meio às muitas plantas que ele cultiva, enquanto reclama que todo mundo chama as coisas inanimadas de “ela”. Faz sentido, toda mulher com essa atitude sei-que-sou-gostosa adora ter amigos gays. Como é que eu nunca tinha me tocado da orientação sexual do japa?


Além disso, ainda vemos o dr. McCoy sem conseguir dormir e Kirk sugerindo que ele tome as mesmas pílulas vermelhas que o médico lhe receitara. Uma nave cheia de mulheres flertando, sujeitos que só pensam em comê-las e oficiais drogadões – parece mais minha velha faculdade de jornalismo. Incidentalmente, sempre foi esse clima de nave pirata a grande vantagem da turma dos loucos anos 60 sobre os politicamente corretos da nova geração e sua cultura corporativa.

Felizmente o papel de Uhura aumentaria de importância com o decorrer da série. Roddenberry originalmente queria a ponte com metade de mulheres, mas os produtores negaram, pois sugeriria ao público muito sexo (que 20 anos mais tarde seria um gancho para A Nova Geração). Segundo más línguas, os executivos também achavam que Roddenberry estava menos interessado em igualdade sexual do que em ter mais moças pra paquerar – lembrem-se que ele comeu a Uhura e a enfermeira do McCoy.

Mas se não podia à época ser trazido para primeiro plano, há todo um subtexto sexual no episódio. A cara do monstro, na pele do tripulante Green, quando sobe à nave e vê tantas potenciais vítimas é inegavelmente puro tesão. Ele tenta atrair Uhura dizendo que é a encarnação do que a tenente sonha quando está entediada. Levando-se em conta que ele está literalmente na forma de um mecânico negão, os sonhos dela não parecem ser de ficar vendo o por-do-sol de mãozinhas dadas.

O monstro também matou a ex-namorada de McCoy, que se casou com o cientista que trabalhava nas ruínas de um planeta devastado, mas isso não abala a lealdade do pesquisador, que continua obcecadamente devotado à criatura. E ainda explica que sua esposa também “compreendia” o alienígena. Juntando-se ao discurso de Kirk de que o bom homem de ciências apreciava a companhia de alguém que podia ser sua ex-companheira, seu padrinho, seu mentor, quem ele quisesse, a impressão era de que rolava o maior menage lá naquele astro solitário e que pintou um ciúme entre as duas mocreias. E realmente um extraterrestre assim seria o sonho de muito marmanjo: você comia a Nastassja Kinski e em seguida ela virava um amigo seu pra você poder contar vantagem. Ao fim das contas, não é um episódio tão descerebrado assim, embora esse ângulo seja abordado só em algumas linhas. A discussão sobre aceitação de ilusões para satisfazer nossos desejos talvez também funcionasse melhor se a finada Nancy tivesse morrido de causas naturais.

Cinematograficamente falando, o episódio tem uma produção pobre para uma estreia. A sequência pré-créditos é inegavelmente instigante, mas a direção é paradona demais, parecendo tira de quadrinhos de aventura dos anos 30: plano geral com os personagens imóveis, plano e contra plano em close de quem está falando. A iluminação mistura filtros azuis e vermelhos, tentando imitar os recursos de Mario Bava para disfarçar os fundos lisos e a fotografia chapada. Mas um diretor estático não pode deter a canastrice de William Shatner e em todas as cenas o capitão Kirk está tenso, sempre parecendo pronto a pular, quando não rodando pelo cenário nervoso como um leão enjaulado. Um capitão pirata, sem dúvida.

E há também os pequenos detalhes que aproximam o público dos personagens. Sulu almoça em sua cabine e tem um hobby. Kirk belisca uns salgadinhos enquanto dá ordens na ponte. Mesmo as paquerinhas contribuem para esse clima que ajuda a quebrar o formalismo militarista que Roddenberry queria. Em A Nova Geração ele trabalharia com um elenco menos canastrão e em uma época com maior mentalidade corporativista, mas na série original o espaço ainda era um lugar que exigia aventureiros incapazes de tanta disciplina.


Digno de nota:
- Contagem de corpos: 4 tripulantes, um casal de cientistas, um alienígena.
- O pesquisador diz que a criatura é a última de seu tipo e pode se extinguir como o búfalo americano – que de 1966 pra cá em vez de sumir aumentou muito de número.
- Apesar das balzacas Uhura e Janice Rand deixarem bem à mostra seus belos coxões, algumas figurantes aparecem usando calças. Aparentemente quem não passa no teste da microssaia ganha uma camisa bege e um par de calças.

Anteriormente: Uma Peculiar Variedade de Diplomacia e Uma Introdução;

Amanhã: Inimigo Interior

maio 05, 2009

A FRONTEIRA FINAL - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica

Um papo sobre alguns episódios da primeira temporada da TOS (The Original Series)

“Apenas praticando uma variedade peculiar de diplomacia”
(Capitão Kirk, ao descarregar todos seus canhões phaser contra um planeta hostil)

O Fator Alternativo
Um Gosto de Armageddon
Semente do Espaço

Blogueiro Convidado: Marcos Pedrosa*
* A opinião dos blogueiros convidados não reflete necessariamente a do blogueiro titular


A “Primeira Diretriz”, aquela que proibia a Enterprise de intervir em assuntos internos de outras civilizações, era como a lei do Jânio que proibiu biquini nas praias: simplesmente não pegou.



E por isso a primeira temporada de Star Trek, a original, a verdadeira, a mítica, a nérdica, é tão empolgante. Kirk, Spock, McCoy e companhia não entravam nessa de “respeitar outras visões de mundo”, “aceitar diferenças”, “caminhar rumo ao multiculturalismo” se isto significasse se omitir em libertar povos inteiros de tiranias burocráticas (“Gosto de Armagedon”), impedir utopias cientificistas do tipo super-homem (“Sementes do Espaço”) ou salvar dois universos do colapso total (“Lazarus”). A série começou a ser produzida em 1966, portanto antes do politicamente correto, quando o século 23 era uma época em que se podia confiar. “Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de 5 anos para descobrir novos planetas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. Não “cautelosamente indo” nem “diplomaticamente indo”. Aliás, em “Gosto de Armagedon”, é o embaixador da Federação, um tipinho repulsivo e arrogante, de modos aristocráticos e pouco viris, quem paga o maior mico ao ser enganado pelas vãs promessas de paz do Ahmadinej..., quero dizer, do primeiro-ministro do planeta em guerra virtual (com bilhões de mortes reais) há 500 anos.

Não que a Enterprise fosse militarista ou habitada por brucutus ou seu capitão se chamasse Nascimento. A trinca de oficiais superiores se envolve em discussões que vão de Platão a Einstein, Clausewitz a Napoleão, Nietzsche a John Milton, tudo isso em apenas TRÊS episódios (os que eu assisti, são 26 no total), e só usa a força como último recurso. Só que eles tinham bons princípios e armas melhores ainda - e não toleravam opressão, injustiça, crime. Embora nem sempre usassem esse poderio para defender a própria integridade: você já viu 4 tripulantes do setor de segurança ficarem apenas observando o seu capitão lutar sozinho contra um maníaco que pretende destruir o universo ? E quando esse mesmo maníaco ameaça em alto e bom som, pra geral da galáxia ouvir, que vai roubar a principal fonte de energia da nave, ninguém coloca o cara sob custódia em seus aposentos, deixam-no passear soltinho pelos corredores da Enterprise e roubar a principal fonte de energia da nave.


É interessante observar como, logo na primeira temporada, os personagens principais e as interações entre eles já estavam perfeitamente delineados: o Senhor Spock é o falso frio, mal disfarçando num movimento de sobrancelhas toda sua impaciência com os argumentos “ilógicos” do Doutor McCoy, o idealista apaixonado, mordaz e arguto que frequentemente recebe o apoio do Capitão James Tiberius Kirk para zoar o vulcano. O humor está sempre presente, mas perfeitamente inserido na trama (numa cena engraçadíssima, Spock distrai o guarda inimigo com um inusitado “Senhor, há uma criatura de múltiplas pernas rastejando pelo seu ombro”, para que o guarda vire o rosto e deixe o outro ombro exposto para o famoso golpe de desacordar). Ao contrário da maioria das séries dos dias atuais, a narrativa é inteiramente não-naturalista. Sempre na abertura, nos primeiros 50 segundos de cada episódio, o telespectador já é informado do plot e vai-se nesse ritmo alucinante até o fim. Não se perde tempo mostrando o Capitão acordando ao lado de alguma ordenança, os tripulantes secundários conversando sobre a noitada da véspera ou o Spock limpando os ouvidos com cotonete (ei, mas esta até que seria uma cena engraçada, anota aí pro próximo filme). Não tem nada a ver também com algumas das séries que foram sua seqüência: Nova Geração ou o chatíssimo Deep Space Nine, onde se perde um tempo enorme com reuniões de condomínio e o cotidiano de uma estação espacial – raios, se você quer ver cotidiano, pra que diabos pegar uma nave espacial e viajar milhões de anos-luz pra longe do planeta natal?

Cara, esse novo filme vai ter que ser bom mesmo.

Anteriormente: Jornada nas Estrelas - Uma Introdução
Amanhã: Começam as resenhas de cada episódio, principando pelo primeiro a ser exibido, "O Sal da Terra".

maio 04, 2009

O Poema Bipolar

Playground e balões e começo de noite
Primeiro aniversário do filho de minha prima
Andando um pouco se chega à escada e as paredes
Estão nuas
E sem balões

No canto dos olhos, na fresta da visão,
no limiar do que se enxerga sob a luz
Sombras de outras eras passam,
Rápidas demais, indetectadas, inobservadas
Ignoradas por todos os outros

Um homem comenta comigo sobre travestis e homossexualidade
E que ele jamais seria homossexual porque tem pêlos, muitos pêlos
É tudo genética, ele explica, por isso travestis são lisinhos
(Eles não se depilam?)
Pergunto se todos os índios são gays
E ele diz que índios são diferentes

Miles Davis e Gil Evans e o concerto de Aranjuez
Somos todos profissionais aqui
Pais, mães e avós e tios
E perto da escada tudo permanece vazio

Sombras passam nas frestas, nas brechas
Nos cantos dos envolventes sorrisos quentes
Um amigo meu que morreu de overdose dois anos atrás
Passa incólume e indiferente como sempre
frente a essa gente

Os balões estouram
E as crianças devem se assustar
Mas os pais, os pais todos riem
Uma jovem de belos seios tira um deles para amamentar
Somos todos profissionais aqui

Economistas neoliberais de botequim explicam
A incerteza e a prisão do cooperativismo
Eleitores de Lula culpam os tucanos de tudo
Tudo posto assim em preto e branco
As sombras que passam são negras
E ao caminhar em direção à luz você encontra seus parentes mortos

A verdade, afinal, qual é a verdade?
Abracem-me, dúvidas, destruam meus profundos conhecimentos
Faça-me gargalhar
(para espanto geral)
Com o teatro de fantoches
Pelo qual o pai pagou tão caro
Distraia-me dos belos seios da mãe amamentando
(Será que ela não queria chamar a atenção de ninguém)

Perto da escada
Fumando um cigarro
Uma última moça de blusa e saia curte o cigarro
(Não se deve fumar perto de tanta criança)
Ela sorri quando eu chego perto
Como uma amiga minha internada
Que também não me reconhece
Mas sempre sorri feliz quando chego

Não falo nada
Meu amigo morto de overdose já teria puxado conversa

Ela se vai
Sombra luminosa em paredes sem balões
(Como já as outras vão ficando enquanto vão estourando)

Advogada e poetisa,
Minha prima explica depois
Uma história triste, você não ouviu?
O pai largou a mãe, a mãe ligou o gás
Com ela e a irmã em casa
Mas mudou de idéia ao ver as filhas vomitando

Que ela vote no PSDB
Que ela coma nos restaurantes indicados pelo RioShow
E veja filmes búlgaros que o bonequinhos aplaudiu de pé
Pode fingir gostar de filmes que pessoas inteligentes gostam
Pode fingir apreciar jazz e Marisa Monte e Miles Davis e Gil Evans
Porque ela talvez ao fim
Até goste
Ela já esteve lá
Ela já viu nem que fosse por um momento
Ela já esteve lá
Ela já esteve aqui
Comigo

Comigo

Comigo

Na fronteira da sensação de impotência

E onipotência

Onde na periferia da visão as sombras caminham em um
fugidio instante de tempo

Como nós
vivemos num fugidio instante do tempo

E mais balões estouram ao som de risadas

(E eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo)

A FRONTEIRA FINAL - Ensaios sobre JORNADA NAS ESTRELAS - A Série Clássica

A Primeira Temporada de "Star Trek" (The Original Series) - A Série Original

Parte I: Uma Introdução




O povo de hoje não tem ideia do impacto de “Jornada nas Estrelas” para quem até então de ficção científica só conhecia coisas como “Perdidos no Espaço” e “Thunderbirds”. O primeiro sempre foi ridículo e o último muito bom, mas só o fato de ser feito com bonequinhos já deixava claro a quem se destinava. Já a criação de Gene Roddenberry até pode ter sido adotada de coração pela garotada, mas um dos motivos foi justamente por sua pretensão e megalomania, tentando – e conseguindo – criar um universo próprio para apresentar temas complexos e discussões profundas.

É claro que esses temas complexos podem hoje parecer ingênuos, mas perto de “Perdidos no Espaço” ou mesmo as séries de aventuras e policiais de 1966, “Jornada nas Estrelas” está literalmente anos-luz adiante. O que nós tínhamos como parâmetro até então de viagem no espaço eram aqueles filmes B com cenários que, se alguém tropeçasse caía tudo, com todo mundo de macacões farfalhantes prateados e os controles eram duas alavancas, um volante de direção e um radarscópio no meio. Tudo isso em naves de 20, 30 metros de comprimento.

Enquanto isso, a Enterprise já começava revolucionando no design. Não era um disco voador e nem era um foguete. Não tinha caudas, asas, estabilizadores, nada disso. E era gigantesca. Ela não era uma daquelas navezinhas carregando um bando de “puny earthlings” para serem joguetes na mão de qualquer marcianinho com uma pistolinha laser, não, ela era uma sofisticadíssima máquina capaz de obliterar todo um planeta. Que “o dia em que a Terra parou” nada, era o capitão Kirk quem pousava em outros mundos e dizia que se eles não se comportassem iam ter que se ver com a Federação!

E, importantíssimo, a tripulação era de quase 500 pessoas, o que fornecia bastante provisão para a máquina de moer carne que era a exploração interplanetária. Refletindo a guerra diária do Vietnã servida com o jantar nos noticiários de tevê – raios, até eu, aqui no Brasil, me senti estranho quando soube que não mais teria filminhos de guerra no Jornal Nacional por causa da paz - “Jornada nas Estrelas” tinha mortes, muitas mortes, o tempo todo, e a maioria delas do lado dos mocinhos! Até mesmo séries de guerra, como “Ratos do Deserto”, deixavam todo o seu pessoal incólume ao final. A primeira vez em que vi um longa de guerra fiquei chocado ao ver um dos mocinhos morrer e fiquei esperando que ele reaparecesse mais tarde com uma explicação intrincada ou dissesse que estava simplesmente fingindo.

Se não bastassem todas essas mortes pra deixar bem claro ao espectador que o assunto era sério, ainda tinha todo o aparato tecnológico. A ponte da Enterprise não tinha um radarscópio. Nem ao menos tinha uma janela, levando-nos a raciocinar como realmente seria ridículo ter um parabrisa naquele leviatã. Tinha uma tela, com função bastante semelhante aos visores hud nos aviões de combate de hoje. Servia como comunicador, alça de mira e visor. Em frente a ela, a cadeira de capitão, no centro de uma estrutura circular com oficiais em seus bem definidos postos. Ao contrário de “Perdidos no Espaço” e congêneres, podíamos declinar quem fazia o quê e qual era o seu cargo. Ordenanças e ajudantes carregavam peças de equipamento, como o diário de bordo, para os comandantes.

E a maneira como os viventes todos se relacionavam com as geringonças também era perfeita. Ninguém segurava as armas com cuidado como se fosse algo que nunca tivesse visto. Os atores batiam nos botões com as palmas das mãos, sem nem olhar. Avançavam pelas portas automáticas como se tivessem a certeza que elas sempre abririam. Beliscavam enquanto operavam computadores. Tudo isso ajudava a criar uma ilusão de realismo, de que aquele era o mundo ordinário em que viviam e que nada daquilo os impressionava. Bastava ver o desleixo com que Kirk abria seu comunicador, como se fosse um Zippo, dando um golpe de pulso para desdobrar o flip e ativar o bichinho, com seu tradicional ruído. O comunicador, aliás, é um capítulo à parte. Tão bem desenhado que se tornou imediatamente reconhecível mesmo por quem não era fã do show, foi a inspiração para a criação dos primeiros celulares flip da Motorola, que substituíram aqueles pesados tijolões anteriores. O próprio nome do aparelho, Star Tac, era justamente para referenciar de onde eles tinham tirado a ideia.

E entre eles os personagens se tratavam com um formalismo que, se hoje soa avacalhado demais, na época era sem precedente. A primeira vez em que o blogueiro viu Star Trek, o que mais lhe chamou a atenção foi o uso dos títulos: ninguém era Kirk, Spock ou Uhura, mas sim “capitão” Kirk, “senhor” Spock, ou “tenente” Uhura, sempre enunciados com uma certa frieza. Parecia que ninguém era amigo ali, o que, é claro, não era o caso, mas frente ao clima de família em feriado de “Perdidos no Espaço” era outro universo.

Tudo isso, bem como os procedimentos padrão, estavam presentes numa ficção científica dos anos 50, provavelmente a melhor fita do gênero da década, o clássico “Planeta Proibido”. Lá também o disco voador não era de invasores, mas de humanos, a nave seguia regras militares, havia postos bem definidos, um capitão espada e matador, um médico grande amigo dele e um engenheiro chefe capaz de operar milagres. Roddenberry, ex-milico, adorou o conceito, e mais ainda o roteiro, que se valia de uma história de suspense, um monstro invisível e assassino que matava vários tripulantes secundários, para na verdade fazer uma adaptação de “A Tempestade”, de Shakespeare, trazendo para primeiro plano o tema de incesto e abordando temas filosóficos como o papel do desejo, ou seja, passeando pela mesma temática do posterior filme cabeça “Solaris”, só que de maneira bem mais divertida.

Reunindo um naipe de escritores de responsa para um gênero tão pouco respeitado, Roddenberry uniu-os em torno de sua visão positivista de ex-milico. Tão positivista que o lema da Federação poderia ser o dístico da bandeira brasileira, “ordem e progresso”. O humanismo agnóstico do criador de Star Trek o impediria de cair na armadilha hiperconservadora do pensamento militar que tantas ditaduras criou na época. A Enterprise não sonda o espaço para criar um império, comercial ou político, mas para aumentar o conhecimento da humanidade e assim melhorá-la, num futuro em que a cooperação entre as pessoas, em vez da competição, fez do autoaprimoramento o grande objetivo social e criou uma fartura tão sem precedentes que tornou a propriedade privada e o dinheiro obsoletos. Mas essa parte filosófica vai ser melhor desenvolvida pelo Antônio Rogério da Silva, o Roger Filósofo.

É claro que esse autoaprimoramento requer também lazer, o que inclui sexo. O blogueiro, que há muito tempo não via com atenção os episódios do começo da franquia, ficou surpreso com todo o subtexto sexual da série, atípico dos anos 60. A maior parte dessas alusões lhe passou desapercebida quando era fã contumaz do programa porque... bem, como bom nerd espectador de “Jornada nas Estrelas”, ele não tinha comido ninguém e lhe faltavam as referências...

Mas esse tempo já passou e, embora hoje a série original possa ter um ar antiquado aos espectadores de hoje, devido a seus efeitos especiais ruins mesmo para a época (compare-os com os de “Thunderbirds”, por exemplo), uma certa ingenuidade nos roteiros (os altamente treinados oficiais da Frota Estelar têm uma incrível tendência a deixar alienígenas perigosos rodando sem escolta ou segurança na nave) e lutas pessimamente coreografadas, o que se tornou uma marca registrada do seriado. Mas porradaria e efeitos não eram o cerne do programa. A direção de tevê de então ainda era bastante cinematográfica e a iluminação ainda não se tornara a monotonia chapada que iria dominar os anos 70 e 80. Com excelentes histórias e bons personagens, os diretores podiam manter o interesse apenas com diálogos e ação dramática, em vez de ter que enxertar cortes rápidos de igualmente inverossímeis brigas em kung-fu. Daqui a alguns anos certamente o público vai achar ridícula a tevê dos anos 90 e 2000, em que qualquer marginal de rua é um mestre em artes marciais e fica bloqueando soquinhos à distância em vez de se atracar com o oponente e rolar pelo chão mordendo e batendo como puder.

Numa época em que as referências de ficção científica eram uma bicha velha tentando aliciar um garotinho, no meio de uma família que parecia mais estar viajando num trailer num feriadão em vez de perdidos no espaço, e o programa mais parecido com uma organização militar era um submarino comandado por um almirante que às vezes virava lobisomem, Jornada nas Estrelas tornou-se um marco tão grande, tão imitado, que pode não se perceber o quanto foi revolucionário na época. Os programas anteriores mostravam o cosmos como os mares pareciam às pessoas comuns no início das Grandes Navegações: cheio de monstros e hostil, explorado apenas por um punhado de aventureiros indisciplinados. “Jornada nas Estrelas” seria o primeiro show de tevê a ter um universo já bem mapeado e explorado, embora ainda romântico e misterioso. Como parecia à humanidade o mundo no começo da Revolução Industrial.

Mas... estou me contendo pra não dizer que eles audaciosamente foram onde nenhum programa de televisão jamais tinha ido, mas não vou fazer isso. Aquela turma de um futuro utópico, com preocupações outras que não ir trabalhar todo dia pra trazer um dinheirinho pra casa e comprar um carro novo, e que ensinava aos nerds que havia um lugar para todo o mundo, com a humanidade transformada numa enorme família funcional, foi pra muita gente da minha geração o primeiro contato com o pensamento provocador, quando muita gente acreditava que o eterno destino da tevê fosse ser um aparelho alienante e emburrecedor.



Amanhã: "Praticando uma Variedade Peculiar de Diplomacia", pelo blogueiro convidado Marcos Pedrosa.

maio 02, 2009

Dilbert.com
É, eu tentei... vai ter que clicar na imagem pra ler o último quadrinho.

abril 30, 2009

Jornada nas Estrelas - Origens

Semana que vem estreia o novo filme da franquia Jornada nas Estrelas. Vai mudar a história pregressa toda dos personagens, usando um dos mais abomináveis recursos de ficção científica, a viagem no tempo, o artifício que quase enterrou quadrinhos de supereróis nos anos 90. Mas dane-se, Kirk está de volta!

Pra celebrar isso, semana que vem o Urublog começa sua série A FRONTEIRA FINAL, com várias postagens sobre um dos melhores programas da história da tevê - o Jornada nas Estrelas original! O blogueiro comprou a caixa da primeira temporada e ele e amigos estão revendo os episódios todos e vão botar aqui artigos, ensaios e críticas sobre cada um deles. Se algum dos parcos leitores desta joça quiser colaborar, estamos aí pra isso.

E, semana que vem, a semana da estreia do filme, prepare-se para atualizações diárias das aventuras da Enterprise NCC 1701, antes que começassem a por letrinhas depois dos números de registro!

abril 26, 2009

Notícias Dão que Adriano é Certo no Flamengo no Brasileiro

Eu sei, eu sei, o assunto todo nos obriga até a nos alinhar com a Veja e sua preconceituosa matéria sobre o que se passa na cabeça dos jogadores, mas desde que pela primeira vez ouvi o Adriano falar que queria abandonar o futebol eu avisei que talvez fosse menos pela depressão que tem toda a pinta de realmente acometê-lo do que pela vontade de se encostar num clube de futebol brasileiro com cacife pra montar um esquema pra pagar o salário dele, mas que, ao contrário do São Paulo, não lhe exigisse os mesmos absurdos que a Inter, tais como treinar, chegar no horário e mostrar em campo motivos pra ser titular. Um clube assim como o... Flamengo.

Jogador de futebol estrela e chupa-sangue existe desde o início dos tempos, mas desde que Romário – que ia parar de jogar aos 28 anos – forçou sua saída do Barcelona pra vir não jogar no Flamengo – que chegou a botar uma quadra de futevôlei na Gávea pra ver se o artilheiro aparecia pra treinar – a coisa só tem degringolado. Num panorama em que três bons jogos habilitam o atleta pra ir jogar na Europa, ficou uma carência tão grande por aqui que qualquer sujeito com seleção no currículo é absolutamente idolatrado pelos torcedores. Enquanto os bem sucedidos moradores lá de fora eram um bando de viventes sem amor à camisa e responsáveis por qualquer fracasso da seleção. Ronaldo Fenômeno, por exemplo, nunca foi tão admirado quanto agora, mesmo com 33 anos e 200 quilos, simplesmente porque fez meia dúzia de gols pelo Coríntians.

Mas o Ronaldo se garante mesmo gordo porque é técnico, habilidoso, com esplêndida visão de jogo e raciocínio tão rápido quanto suas pernas um dia o foram. Adriano é como a descrição da capacidade de luta que Ozymandias faz com Rohrschach – direita (no caso do Adriano, esquerda) devastadora, pouco mais do que isso. Sua única grande arma é (ou era) a incomum velocidade prum corpo tão grande. Se ele não estiver absolutamente na pontinha dos cascos, torna-se mais um estorvo do que uma vantagem.

Mas por que ele iria se preocupar com isso se tem onde se encostar? Multa rescisória não é problema, ele pode inventar uma mentira descarada e arrumar uma liberação. Robinho assinou um contrato com o Santos pra ganhar um salário bem maior, com a contrapartida de uma multa rescisória igualmente avantajada e quando quis ir pro Real Madrid disse que era injusta a multa e se mandou. Foi preciso a FIFA tomar providência. Bem feito para os hispânicos, que descobriram que não se deve se apaixonar por uma mulher que traiu alguém pra ficar contigo porque ela vai trair você pra ficar com alguém.

Por causa dessa história toda, com muita gente acreditando que Adriano – que, diga-se, parece mesmo sofrer de depressão – estava sinceramente mandando um pedido de ajuda, chegou-se mesmo a dizer que quem não estivesse do lado dele gostava era do Kaká. Kaká pode ser careta, bitoladamente crente e branco de classe média, mas mesmo o blogueiro que sempre acreditou que ele fosse mais uma invenção da mídia sãopaulina foi obrigado a reconhecer que desde que ele foi pra Europa aprendeu a marcar e sempre correu o tempo todo, armando o jogo e aparecendo pra concluir. Imagino que suas posições políticas sejam bem reaças, mas nada indica que Adriano seja um progressista. Em toda sua conversa sobre amar suas raízes faveladas e gostar da sua favela não li nada sobre usar seu prestígio e fortuna pra tentar mudar as condições do lugar.

E assim, graças ao Romarismo, um atleta relapso passa a ser mais defensável do que um que se dedica e se mantém em forma porque o primeiro tem melhores valores, como gostar de noitadas ao lado de celebridades fabricadas, e não honrar contratos. O mais curioso de tudo é que boa parte desse povo que defende o Adriano foi o mesmo que ficou indignado com o povo que trabalha na Europa por eles não terem amor à camisa amarelinha. O blogueiro não compartilha dessa opinião de que vencer Copas do Mundo seja uma missão sagrada e que o vivente deve abrir mão de tudo o mais, preferindo culpar o técnico que insistiu em escalar gente sem condições físicas, mas é menos a distância e o dinheiro do que esse apoio a criaturas que acham incômodo manter sua palavra assinada e registrada em cartório que cria essa estirpe.

Esses jogadores maravilhosos, ricos, jovens, em perfeita forma e talentosos reclamando de terem que treinar ou até mesmo correr em campo, sem lembrar que o pior da aposentadoria prum atleta é de que é pra sempre apóps uma carreira muito curta só fazem o blogueiro lembrar do grande poema de Edgar Lee Masters, “Lucinda Matlock”:

Eu fui aos bailes em Chandlersville
E joguei cartas em Winchester
Uma vez mudamos de parceiros
A caminho de casa sob o luar de junho
E então encontrei Davis
Casamos e vivemos juntos por 70 anos
Divertindo-nos, labutando, criando 12 filhos
Oito dos quais perdemos
Até que alcancei os sessenta anos
Eu fiei, eu bordei, cuidei da casa e dos doentes
E do jardim, e nos momentos de folga
Perambulei pelos campos onde cantam as cotovias
E perto do Rio Spoon, recolhendo conchas
E flores e ervas medicinais
Gritando às colinas verdejantes, cantando para os vales verdes
Aos noventa e seis havia vivido muito, só isso,
E tive finalmente meu doce repouso
E que é isso que ouço de desespero e cansaço
Fúria, descontentamento e esperanças perdidas?
Filhos e filhas degenerados
Vida é forte demais pra vocês –
É preciso uma vida para amar a Vida.

abril 25, 2009

Update dos Filhos do Presidente Lugo

Nove e contando.

Isabela no Paraguay

A filha da Suzy, a Isabela, de 13 anos, foi a uma excursão de colégio esta semana cheia de feriados no Paraguay. Paguei o maior esporro, "porra, mulher, e se o presidente Lugo a vir?"

abril 23, 2009

Update dos Filhos do Presidente Lugo

Cinco e contando.

Filosofia Deprimente

Plástico de Carro

Sonhe como se fosse viver para sempre.
Viva como se este fosse seu último dia.

A Frota de Montevideo





O Uruguay não produz carros, portanto os veículos lá são caros e, por conseguinte, a frota é velha. Fiats Cinquecento (não sei se é assim que se escreve) você vê ainda aos montes - é o antecessor do Fiat 147! Sem contar a enorme quantidade de carroças que circulam pelas ruas do Centro, o que não é de se estranhar num país de peões, que tem um rebanho gigantesco. Voando sobre a república oriental, com sua população de 3 milhões de habitantes (um e meio na capital), o que se vê é uma enorme planície com uma casinha aqui ou ali - tudo fazenda.


Aqui, além da carroça, tem um cinquecento laranja, que só dá pra ver a traseira, atrás da lata de lixo. Eles eram tantos que deixei pra tirar uma foto boa depois e, como sói acontecer, acabei esquecendo. Tentem visualizar um velho Fiat a partir dessa traseira.

abril 21, 2009

Blogue sem Lei XIII

Rastros de Ódio
1956, John Ford

Láááá nos anos 80, quando o pessoal que gostava da sétima arte ainda sabia quem eram Rossellini, Antonioni e Resnais, e ainda não era moderno achar nouvelle vague e cinema novo chatos, o filme mais bem cotado de John Ford era "No tempo das diligências". Hoje em dia as poucas pessoas, normalmente mais velhas, que ainda assistem às fitas do genial diretor ídolo de gente como Bergman, Welles e Kurosawa, apreciam mais histórias com personagens com um lado obscuro e, por que não dizer, uma certa sociopatia, o que levou "Rastros de ódio" a ultrapassar seu primo em preto-e-branco e encabeçar a (longa) lista de obras-primas fundamentais da tela grande dirigidas pelo caolho fake (1).

"No tempo das diligências" ressuscitou o moribundo bangue-bangue, formatou um modelo que seria seguido pelo gênero, inclusive na tevê, até o surgimento de Leone e Peckinpah, e é tão perfeito no uso da linguagem cinematográfica que Orson Welles conta que, para aprender o ofício de diretor, assistiu-o dezenas de vezes. Aí saiu da cabine e foi fazer "Cidadão Kane". Rosebud! O blogueiro, entretanto, é cria dos anos 80 e, crescendo com os agoniados antieróis (brincadeirinha, é anti-heróis mesmo) dos filmes “noir” então tão em voga, tem como seu favorito de Ford (ao lado de “Vinhas da Ira” e “Paixão dos Fortes”) a doentia saga de Ethan Edwards.

“Rastros de Ódio” tem também outras vantagens sobre seu primo mais velho – a cor e os 17 anos a mais de evolução da linguagem cinematogrática tornam-no bem mais palatável ao público moderno, cada vez mais desacostumado à monocromia e à simplicidade e economia de planos das fitas mais antigas. Mas mesmo para quem se amarra em preto-e-branco, a cor teve bastante peso entre os motivos que levaram à reavaliação deste clássico. Enquanto nos anos 80 e 90 tudo que havia disponível para assistir eram cópias VHS esmaecidas e reenquadradas para a televisão, com a chegada do DVD a estupenda fotografia pôde finalmente voltar a ser apreciada. Se você chegou até aqui nesta matéria certamente tem uma relação diferenciada com cinema, então atenção para o aviso: existem duas versões do filme em disco, ambas com toda a esfuziante glória technicolor das cores originais, mas a segunda (edição de colecionador, com um disco só de extras) vem no formato widescreen original e tem uma definição de imagem quase inacreditável. Em 50 polegadas, com a ajuda de um player interpolador, é difícil acreditar, como disse um amigo, que com um blu-ray consiga se ver ainda mais coisa na tela.

A razão para tal visual é que a produção original foi feita em VistaVision, a tecnologia da Paramount para concorrer com o Cinerama e o bem mais modesto Cinemascope. O primeiro usava três câmeras e três projetores, o que o tornava um espetáculo sem igual (dizem alguns que nem o Imax consegue ser tão glorioso), mas pouquíssimo prático. Pouco mais de meia dúzia de longas foram feitos assim, e só um de ficção, “A conquista do Oeste” (e, mesmo com um episódio dirigido por Ford em pessoa, não é lá grande coisa). Já o Cinemascope usava uma lente especial para espremer no negativo comum de 35 mm um formato bem mais largo, com a proporção entre largura e altura de 2.55:1. Assim se ocupava a visão periférica dos espectadores, dando uma certa impressão de terceira dimensão e aumentando o envolvimento, mas a imagem era ampliada quase que duas vezes a mais do que o normal, incapaz de emular a clareza, nitidez e o brilho do Cinerama. No entanto, era bem mais prático e uma versão melhorada, o Panavision, é usada até hoje.

O VistaVision era basicamente uma câmera deitada. O filme corria duas vezes mais rápido, a área exposta em cada fotograma era consideravelmente maior do que o formato acadêmico e já vinha em “widescreen”, na proporção 1.85:1, praticamente o mesmo das tevês de plasma e LCD; no entanto, como o negativo – ainda por cima usando o processamento Technicolor, sem igual – era maior do que o normal, podia ser recortado para ser projetado com a largura que melhor conviesse. Outros clássicos produzidos em VistaVision são os também impressionantes “Intriga Internacional”, “Os Dez Mandamentos”, “Sem Lei e Sem Alma” (e também os pouco impressionantes, por pessimamente digitalizados, às vezes de fontes VHS, “Império dos Sentidos”, “A Face Oculta” e “Furyo – Em Nome da Honra”).

Mas tudo isso é digressão. Porque “Rastros de Ódio” é universalmente considerado um dos dez, talvez vinte melhores filmes de todos os tempos, influenciou uma carrada de cineastas e foi refilmado por Paul Schrader (“Submundo do Sexo”, substituindo índios por produtores de filmes pornô) e é difícil saber por onde começar. A esta altura todo mundo já deve estar familiarizado com o argumento: comanches matam uma família, com exceção da garotinha mais nova, e John Wayne vai atrás deles numa busca que se estende por dias, semanas, meses, anos... e talvez a menina nem queira mais ser resgatada...

Só de ler esse storyline já dá pra ver que Ethan Edwards, o sujeito interpretado por John Wayne não é um sujeito com muitos amigos ou objetivos na vida. Quando a história começa a guerra civil acabou faz já três anos, mas Ethan só agora está voltando pra casa – do irmão, ele não tem pouso certo. Sabemos disso sem uma linha de exposição – Ford era famoso por rasgar páginas e páginas de diálogos do roteiro. Basta um letreiro TEXAS 1868 e, em vez de um fade-in, uma porta se abrindo emoldurando uma mulher e um cenário que é o cartão postal do Arizona – vai saber, vai ver Monument Valley ficava no Texas no século XIX. Lááááá no meio do deserto que se descortina, vem vindo lentamente um vivente, enquanto a família da mulher sai de casa curiosa e o provável marido dela pergunta, “Ethan”?

A falta de pouso e de objetivo de Ethan nos três anos após a rendição (“eu não acredito em rendição”) não são contadas, mas mostradas. Ele veste uma calça da União, anda com moedas ianques de ouro recém prensadas, sem marcas de uso, e dá de presente pra sobrinha (sobrinha?) uma medalha mexicana do Imperador Maximiliano. O irmão não parece muito feliz com a volta dele e Ford é mais uma vez econômico – Martha, a cunhada de Ethan, ao guardar o sobretudo dele, acaricia-o rapidamente, mas o gesto, que nós vemos ao longe, através de uma porta, fazendo-nos sentir culpados por estar espionando, é quase sexual dentro do contexto. Faz-nos repensar a paternidade de Debbie, a garotinha mais nova, que ganhou a condecoração.

Outro adorável traço de personalidade de Ethan é mostrado quando chega em casa o filho de criação da família, Martin Pawley (Jeffrey Hunter) e o bom e velho Wayne o repreende por ele parecer um mestiço – comentário ainda mais simpático quando se leva em conta que ele é um mestiço (“um quarto cherokee, o resto é inglês e galês”), que foi encontrado por Ethan após um ataque nativo americano.

Os índios só começam a dar o ar de sua graça na manhã seguinte. O amigão de Wayne, Ward Bond, neste filme não consegue fazer papel de amigão de Wayne, como sempre, tão anti-social é Ethan. Ele faz o papel de um capitão dos Texas Rangers que dobra como pastor. Ordem e fé, interligados na visão de Ford e o precário símbolo do Estado na conturbada fronteira americana da época. Ele vem buscar o irmão de Ethan pruma patrulha, já que nativos americanos atacaram uma fazenda vizinha. Ethan vai no lugar de irmão e quando eles cavalgaram horas e horas descobrem que foram atraídos para longe pra deixar as fazendas sem proteção. A maior parte da patrulha vai para a fazenda onde dá pra chegar logo. Sobram Ethan, Martin e Mose Harper, o idiota ingênuo e infantil da área, cujo grande sonho é uma cadeira de balanço debaixo de um teto e junto a uma lareira. Martin quer galopar de volta à fazenda, mas Ethan, com toda a racionalidade que a sociopatia lhe deu, argumenta que os cavalos não aguentarão se não descansaram. Martin, enojado, corre para casa, enquanto Wayne prepara o intervalo de almoço dos equinos e finalmente, quando ninguém está olhando, se dá ao luxo de parecer preocupado.

Ethan obviamente chega primeiro que um Martin Pawley, cujo cavalo morreu, à fazenda. A destruição é tão total que aparentemente foi usada para estudo de case na academia do exército de clones do Imperador Palpatine – a cena é descaradamente plagiada no primeiro – ou quarto, sei lá - quando Luke Skywalker encontra seus pais adotivos mortos em Tatooine. Ethan vai seguindo uma trilha da casa em chamas até um depósito semiescavado, encontrando no caminho o vestido rasgado de Martha e depois apenas olhando lá dentro e desviando o olhar. Cena forte para 1956.

As meninas não foram encontradas e Ethan está ávido para ir atrás dos atacantes que as levaram. Durante o enterro, ele pede pra que ponham logo um amém naquilo tudo e se manda. Nominalmente a patrulha vai tentar resgatar as sobrinhas (será?) de Ethan, mas ele só pensa em matar (e possivelmente, com sorte, morrer) aqueles pele-vermelhas. É famosa a cena em que os rangers encontram o cadáver enterrado de um índio e o namorado da moça mais velha, furioso, profana o corpo atirando uma pedra nele. Ethan o ensina como se faz certo: atira nos olhos do nativo americano e explica que, segundo a crença dos comanches, sem olhos ele não poderá entrar no além-vida e terá que vagar eternamente entre os ventos (como o desajustado Ethan). O sujeito odeia tanto os índios que aprendeu os costumes deles para melhor poder ofendê-los (2).

A patrulha finalmente encontra os comanches. Ethan, obviamente, quer atacar logo, mas o pastor capitão argumenta que em caso de ataque os índios imediatamente matarão as meninas. Acaba que os pele-vermelhas fogem e Ethan promete não mais seguir as ordens de Ward Bond. Não é um problema por muito tempo, já que depois de um confronto sem vencedores, só Martin e Ethan, acompanhados pelo namoradinho da moça mais velha, prosseguem na busca.

E mesmo o namoradinho não dura muito tempo. Depois de atravessar uma garganta e se reunir aos dois companheiros, Ethan age estranhamente (3). Pouco depois, quando o namoradinho diz ter visto sua namoradinha, Ethan explica: não pode ser a garota, só alguém com o vestido dela, já que ele a encontrou morta na garganta. O garoto pergunta se “eles... o que eles fizeram...” e Ethan responde “O que você quer que eu faça, que eu desenhe? Nunca mais me pergunte isso!” O rapazola monta no cavalo e parte pro acampamento comanche. Ethan impede Martin de tentar detê-lo e ao longe se ouve alguns tiros, antes de um final, num tom diferente. Elegância e economia numa cena fortíssima pra 1956.

E finalmente começa o cerne do filme. Ethan e Martin atravessam paisagens desoladíssimas lindamente fotografadas – antes de fazer “Lawrence da Arábia”, David Lean mandou seu câmera assistir esta fita pra aprender a filmar deserto – e refletindo a aridez da alma de Ethan, gélida como o cenário congelado em que se passa uma das cenas mais famosas, quando Wayne tenta matar sozinho toda uma manada de búfalos pra eles não alimentarem estômagos índios naquele inverno.

Apesar de ter desde a infância como namoradinha uma vizinha, Martin acaba comprando por engano uma esposa índia. Tem gente que acha racista a cena em que, irritado por ela tentar dormir com ele, ele a empurra e ela rola ladeira abaixo. Levando-se em conta que Martin é um mestiço que renega suas raízes nativas americanas, é óbvio que a cena é uma metáfora e preconceituosa, sem dúvida – contra gordas, deixando claro que qualquer esperança de matrimônio pra elas é ridícula e risível. Contra pele-vermelhas, nem tanto. A moça vai ser encontrada depois morta após um ataque de cavalaria, levando Martin a perguntar por que mataram alguém que nunca fez mal a ninguém.

Aliás, esse ataque de cavalaria é uma cena pivotal do filme. Ao vê-los atravessar triunfalmente um rio (com um carro lá no fundo passando, claramente visível em 50 polegadas), Martin e Ethan vão conferir se encontram Debbie. Só encontram mulheres em profundo estado de choque após testemunhar o massacre das suas famílias de criação e ouvem o oficial falando que elas “não são mais brancas”, apesar de louras e de olhos azuis. Um dos raros closes do longa é um zoom no rosto de Wayne deixando claro o que ele pretende fazer quando encontrar sua sobrinha (sobrinha?). Ford era elegante demais pra ficar desperdiçando closes pra satisfazer o ego dos atores ou pra mostrar suas reações na falta de uma idéia melhor de como fazer a cena.

Finalmente eles encontram o chefe índio que levou as meninas, cerca de cinco ou seis anos depois do ataque. Quem o encontra na verdade é Mose Harper. Ethan quer vingança e morte, na falta de um melhor objetivo de vida. Martin Pawley quer se provar frente a Wayne, e tem a idéia de que participar da busca o faz um integrante mais autêntico da família assassinada. Apenas o ingênuo e inocente Mose, que tem um desejo puro e sincero de encontrar Debbie, é quem poderá cumprir essa tarefa.

O primeiro confronto entre Ethan e o cacique – mostrados como reflexos intolerantes um do outro – é memorável. Ethan pede pra entrar na tenda porque não gosta de ficar falando exposto ao vento (como o índio morto). Quando eles entram, o chefe Scar faz sua esposa mais jovem lhes mostrar alguns escalpos. A esposa mais jovem é Debbie.

Debbie se encontra com eles mais tarde. Ela é o pesadelo encarnado de Ethan. Sua (provável) filha dando prum índio que matou sua mulher. Só Martin e um providencial ataque dos comanches o impedem. Depois do tiroteio, refletindo metaforicamente sua influência sobre Ethan, ele retira o veneno de Wayne e finalmente toma uma atitude frente ao velho caubói. A longa busca fez dele um homem e ele está pronto para assumir suas responsabilidades adultas, que incluem voltar à fazenda vizinha lá do começo do filme bem na hora para atrapalhar o casamento de sua namoradinha, que cansou de esperá-lo, levando-nos a pensar que o mesmo deve ter acontecido com Martha, que resolveu começar família com o irmão à mão.

Impedir o casamento, como sói acontecer nos filmes de Ford, inclui uma bem-humorada luta com o noivo, sem objetivo além de impressionar a fêmea. Numa belíssima metáfora visual, depois de acabada a contenda os dois entram em casa, discutem e começam a brigar de novo, soltando poeira, mostrando que mesmo dentro de um lar mantêm a alma indômita e rústica dos caçadores-coletores viris e másculos – Ford não acreditava muito em homens com um lado sensível. No entanto, tudo é interrompido de vez quando cavalarianos trazem um vivente resgatado de uma tribo índia. É Mose Harper, o inocente, que novamente sabe o paradeiro de Debbie. Sua pureza o faz ganhar sua tão sonhada cadeira de balanço e um lugar na família. E, após mais de cinco anos rodando o sertão, matando gente e bicho, usando como combustível sua raiva e frustração, Ethan é apenas figurante no grande momento.

E tem gente que ainda diz que o filme é racista: a namoradinha de Martin, uma menina de comportamento exemplar até então, tem um ataque de fúria por seu amado querer ir resgatar sua irmã de criação. Ela não é mais branca, não tem mais cabaço, por que, por que Martin teria razão para querer se arriscar por ela? Mesmo o pastor capitão quer atacar logo, exatamente o que ele impediu Ethan de fazer láááááá no início da perseguição. Mas naquela época Debbie ainda era branca e seladinha. Martin então se apresenta para tentar resgatar a garota. É então que Ethan revela que um dos escalpos mostrados por ela quando eles primeiro a encontram era da mãe de Martin. Caramba, é preciso ter muita intimidade com uma mulher pra reconhecer seus cabelos décadas depois que a viu pela última vez. Será que Ethan tem a mesma intimidade com o pai de Martin?

Martin resgata a menina e acaba sendo obrigado a matar Scar. Ethan chega depois e o escalpa. É tudo que lhe resta a fazer, sequer a vingança é sua. Enquanto os brancos atropelam o acampamento, levando os guerreiros comanches a tentar proteger suas crianças e essencialmente executando um massacre indiscriminado, Ethan se vê frente a frente com Debbie e fora do alcance de Martin. No entanto, ele em vez de matá-la, levanta-a, olha-a contra o sol e leva-a de volta para casa. A mãe e o pai levam Debbie para dentro, Martin entra com sua namoradinha e Ethan não passa da soleira. Dá meia-volta e segue para vaguear entre os ventos no deserto.

Como Moisés, Ethan conduz seu povo à terra prometida da civilização domando a fronteira, mas ele mesmo não pode entrar. De “Os brutos também amam” a “Era uma vez no Oeste”, os desbravadores do sertão americano sempre iam embora no final da fita, justo quando tudo parecia pacificado, pra frustração do público. Em “Rastros de Ódio” Ford esclarece as razões disso – a vida na fronteira fez deles psicopatas ferozes. Caberá a seus filhos dar prosseguimento a um outro tipo de vida. Martin, assim, não é só um mestiço biológico, mas também cultural, ainda capaz de longas jornadas por terras inóspitas, mas com valores aprendidos num lar sólido, ainda que humilde.

John Ford tinha um olho – na verdade, dois, apesar do tapa-olho (1) – pra composição inigualável. Praticamente cada fotograma do longa é uma bela cena. Quando não, é porque um traveling ou um zoom levará a câmera praonde tudo vai encaixar. Ford se formou na escola do cinema mudo, aprendendo como contar histórias com imagens. Ao contrário dos diretores formados na televisão e que filmam para um público com a mesma formação, Ford prezava o plano aberto e reservava os closes somente pros momentos realmente emocionalmente importantes. Em vez de cortes seguidos enquadrando o que interessa na ação, ele deixa a movimentação dos atores conduzir nosso olhar para onde ele quer, também não abusando dos travelings.

A movimentação dos personagens, aliás, é outro ponto forte de Ford. Tão meticuloso Ford era com isso que em “O homem que matou o facínora” repetiu uma tomada quarenta e e duas vezes até que o ator parasse de segurar um corrimão enquanto falava e em vez disso pusesse a mão sobre ele. Como Howard Hawks, ele enfatiza os gestos casuais e relaxados, deixando-nos mais à vontade com os viventes na tela, e os coreografa para levar nossa visão dentro da cena aonde nos interessa e nos dar todas as pistas para seu comportamento. Como abominava diálogo, Ford precisava desse controle sobre o gestual pra nos contar sobre as complexas personalidades das criaturas da fita - Ford foi um dos primeiros cineastas a incentivar seus atores a escreverem as biografias completas, os hábitos e vícios de seus personagens.

Com tudo isso, não é difícil de ver porque ele é um dos monstros sagrados do cinema, arte visual por excelência. Idolo da garotada dos “cahiers du cinema” que depois revolucionou a sétima arte com a nouvelle vague, de gente como Welles e Bergman e ainda por cima extremamente popular com o público em sua época, hoje anda meio em baixa. Muita gente o toma por um artesão que contava bem suas histórias, desconhecendo que ele desenhava o filme todo na cabeça e o editava “na câmera”, fazendo apenas uma tomada boa de cada ângulo, começando e terminando onde deveria no produto final, para evitar que os editores tomassem liberdades. Esse povo, ao contrário de Ford, normalmente dá muita importância ao diálogo, cujo habitat natural é o teatro (e a literatura). E não compreende que criatividade não é inventar o excesso, é descobrir o óbvio. E que um filme sobre um psicopata pervertido numa missão doentia pode se passar quase todo de dia, em cenários luminosos e mesmo nos fazer dar algumas risadas, e ainda assim ir direto ao ponto.


(1)John Ford é frequentemente retratado com um tapa-olho, mas ao contrário de Raoul Walsh, ele não era caolho. O adereço servia para proteger sua vista esquerda (quem já trabalhou com aquelas câmeras que tinham visor para um olho só sabe como faz mal ficar muito tempo olhando por ali) e, segundo muitos de seus amigos e biógrafos, para lhe dar uma cara de mau.
(2)Mas ele não tinha que ter atirado nos olhos do índio antes dele morrer? Afinal de contas, depois de morto, mais cedo ou mais tarde os olhos se vão mesmo.
(3)A reação do guardinha que acha a primeira vítima do carcharodon carcharias em “Tubarão” é exatamente igual à de Wayne. Parece que nas academias de polícia também exibem este filme como estudo de case em “comportamento ao achar o corpo nu de uma bela jovem selvagemente mutilado”. Ou então que Spielberg, da geração baby-boomer, tendo vivido uma confortável vida de classe média, não tinha a vivência pra criar a cena.

E, Rolando pela Internet...

A diferença entre Obama e Sarkozy


Depois da Divulgação de Outro Filho do Ex-Bispo Presidente Lugo...

... a conclusão é que lá até os padres são paraguaios.
(Sérgio Garcia)

abril 15, 2009

Orientales Fumando Cigarro Que Passarinho Não Fuma




A Claudia diz que os uruguaios são muito caretas, mas segundo ela a plataforma dos dois candidatos presidenciais (lá são dois partidos, blancos e colorados. Mais do que isso e não ia ter gente pra votar nos candidatos) inclui... legalização de maconha. Segundo ela, apesar de avisos preu tomar cuidado com a câmera porque está havendo um aumento de violência devido a traficantes de crack, a maconha na prática está legalizada, já que o usuário não sofre sanções. Eu disse que no Brasil também, mas lá realmente não há nenhuma penalidade para o consumo próprio, sequer ficha na polícia. O resultado é que as pessoas fumam maconha nas praças, na hora do rush, a cinco metros da polícia. Enquanto eu batia essa foto de longe, na minha frente passou um pai fumando unzinho e levando pela mão o filho de nove anos.

Mas, segundo a Claudia, para evitar o enriquecimento dos traficantes, a política oficial é incentivar o cultivo da erva pelos usuários - "autocultivo" é o nome da campanha.

É mole?