outubro 06, 2009

Número 8

Lawrence Ferlinghetti


It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

'We think differently at night'
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

'I feel there is an angel in me' she'd say
'whom I am constantly shocking'

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking


Tradução rapidinha:

Era um rosto que a escuridão poderia matar
em um instante
Um rosto tão facilmente vulnerável
ao riso e à luz

"Nós pensamos diferente à noite"
ela me disse uma vez
deitada languidamente de costas

E ela citaria Cocteau

"Sinto que há um anjo em mim", ela diria,
"a quem estou constantemente chocando"

Então ela sorriria e olharia para outro lado
Acende um cigarro pra mim
suspira e levanta

e se espreguiça alongando
sua doce anatomia

deixa cair uma meia

Vizinhança II




"Ninguém nunca usará mais do que 640 kb" (Bill Gates, anos 80)

Uma Lagartixa na Parede Não Significa Nada Mais Que Uma Lagartixa na Parede


Simpática, não? Deixa a minha gata vê-la...

Vizinhança I


Mais uma casa foi derrubada na Álvaro Ramos. Mudei-me pra esta área de Botafogo (Fernandes Guimarães, perto da rua da Passagem, Arnaldo Quintela, Álvaro Ramos, General Polidoro...) há seis anos e de lá pra cá dez prédios subiram nas cercanias. Tenho que fotografar a rua pra gente lembrar como era daqui a algumas décadas. Quando me mudei pra Marquês de Olinda, tirando meu prédio e mais dois, tudo era casa. Hoje em dia só sobrou uma. Por enquanto, entretanto, um velho hábito de um pequeno supermercado de perto: o frango da televisão de cachorro.

Um Celular com Câmera



Sento pra descansar no Centro durante a hora do almoço e esta borboleta maluca pousa (e posa) no meu tênis. E não sai de jeito nenhum.

setembro 29, 2009

Não Acredite em Tudo que Você Lê nas Colunas de Futebol

Estava eu a ler o meu Globo de domingo, meus senhores, quando me deparo com uma de suas colunas esportivas. Fernando Calazans, a respeito da atuação do Fluminense da Copa Sul-Americana, diz que só a assiste a partir das quartas-de-final!

Pois vejam só, meus senhores! Um jornalista, não de um blogue qualquer da Internet, não de algum pasquim desses que vêm e vão, mas do Globo! O Globo onde já escreveu Nelson Rodrigues, esta lenda da crônica esportiva! Pois não é que no Globo hoje em dia seus colunistas nem ao menos se sentem na obrigação de... ver jogos?

É por isto que a crônica esportiva de hoje é tão difícil de se ler. É por isto que a crônica esportiva tornou-se esta crônica pragmática, interessada apenas em manter leitores. Onde estão o encanto e o conhecimento do futebol de um Mário Filho, um João Saldanha, um Sandro Moreyra? Como se pode levar a sério a opinião de alguém que nem ao menos se dá ao trabalho de ver jogos de futebol?

É por isto que cada vez mais o jornalismo impresso vai perdendo mais e mais leitores. É por isto que os jornais estão em crise e perdendo seu público. Não há organização, não há preocupação com o conteúdo, apenas com o resultado. É por isto que grandes jornais cariocas como O Dia e o Jornal do Brasil encontram-se em situação tão desesperadora na tabela e sem perspectivas de salvação pela frente.

Tudo bem, isso aí em cima é um pastiche do próprio Fernando Calazans. Não o conheço, mas dizem que pessoalmente ele é MUITO gente-boa, o que se sobressai ainda mais num meio com tanto interesse escuso intrometido. Pelo menos sabemos que ele não faz coisas como, por exemplo, perseguir laterais esquerdos porque eles tiveram um caso com a mulher dele. Mas é esse tipo de pensamento, de não acompanhar jogos, que fode com a crônica esportiva e o próprio pensamento do torcedor. O torcedor não é desafiado a pensar, já que o colunista que não vê jogos acaba caindo sempre nos mesmos clichês, "tem que atacar pelas pontas" e "o futebol hoje em dia está muito defensivo e a tradição brasileira é atacar". Desde os anos 40, quando Flávio Costa e os irmãos Moreira começaram a criar a marcação por zona que os jornalistas defendem essa tradição do ataque. Em 1958 a semifinal do Brasil punha frente a frente o melhor ataque contra a melhor defesa - e a melhor defesa era a do Brasil, primeiro time a jogar com QUATRO ZAGUEIROS (todo mundo jogava com três) e marcar por zona.

Essa coisa de não assistir a jogo é terrível. Quantas vezes nos anos 80 e começo dos 90 já não vimos técnicos de seleção convocarem um sujeito porque ele marcou um golaço no fim de semana e apareceu no Gol do Fantástico? Em 1998, o Zagallo convocou pra lateral direita Zé Carlos, que era MAIS UMA revelação do São Paulo, jogava pra burro e merecia vaga no escrete. Quando ele chegou, Zagallo levou um susto quando soube que ele tinha 29 anos! Cacilda! Zagallo não via ele jogar, não?

Outro dia o Mourinho apareceu no Sportv. Mourinho é aquele técnico português que foi campeão europeu com o Porto, com o Chelsea e agora está na Inter de Milão, que passeou no campeonato italiano. Logo de cara ele fez uma brincadeira com os repórteres, "minha mulher odeia vocês". "Por quê?" "Porque eu fico vendo os jogos que vocês passam". Um europeu assistindo os jogos do Brasil. Não é à toa que ele costuma acertar nas contratações. Vocês imaginam o Joel Santana acompanhando as partidas europeias pela tevê? Ou o Renato Gaúcho?

Quem acompanha aqui no Brasil é o PVC. Ele é capaz de dizer se qualquer jogador vagamente conhecido no mundo joga bem ou não. Ele é capaz de desfiar os esquemas das equipes e dizer porque ganharam ou perderam sem apelar para "fechou muito o jogo pelo meio" ou "tinha só um atacante isolado" ou "recuou muito depois do gol". Assistir aos comentários dele - e de outros, como Tostão - é aprender mesmo sobre o esporte, como ele funciona. Pra maioria dos comentaristas, futebol é que nem pelada de rua, todo mundo partindo pro ataque e no máximo um gordo lento na defesa. Curiosamente, sempre que um time de pelada tem um ou outro zagueiro que entenda do assunto, ganha as partidas todas.

setembro 27, 2009

Festival do Rio 2009

Bad Lieutenant

Port of Duty: New Orleans

de Werner Herzog


O total e completo desespero é o primeiro passo para a verdadeira fé. Não me lembro de quem disse isto, mas os personagens do Abel Ferrara estão sempre próximos de dar esse primeiro passo. Desde seu longa de estreia, “O Assassino da Furadeira”, o diretor povoa a tela com sujeitos que de sua vida em meio à jornada acharam-se em selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada, desde a supracitada criatura com a ferramenta mortífera - que busca a redenção pela arte e, falhando, pela morte (a princípio dos outros) - até o tenente mau do filme cult de 92, que tem uma epifania e acaba dando mesmo o primeiro passo e encontrando finalmente a tal da fé.

Contando a saga de um policial tão perdido em seus vícios e instintos que nem nome tem, insensibilizado pela sua profissão e tentando preencher seu vazio com todos os tipos de drogas, abusos e comportamentos autodestrutivos, Abel Ferrara concatenou provavelmente a fita americana religiosa mais surpreendentemente sincera desde “Barrabás”. A estrada para a redenção do tenente mau começa quando ele encontra uma bela e jovem freira, estuprada (até com um crucifixo) por dois rapazes. Ela sabe quem eles são, mas não dirá seus nomes porque os compreende e perdoa. Daí que Herzog refilmar esta história deixou todo mundo embatucado: além da aparente desnecessidade de uma nova versão pruma produção recente, cult, visceral e pessoal, e de estar trabalhando com um roteiro alheio, o alemão sempre esteve mais para o lado dos ateus, embora não necessariamente materialista. O que ele ia fazer com essa história de salvação nas mãos?

Bem, diz o Herzog que sua obra não é uma refilmagem ou adaptação da anterior. Que por ele o filme se chamaria só “Port of call: New Orleans”, mas alguém na produção detinha os direitos pro título “Bad Lieutenant” e queria meio que começar uma franquia. Tá bom. Vai ver esse alguém na produção viu que estava trabalhando numa história sobre um tenente de polícia drogadão, que assedia sexualmente menores, que tem problemas com apostas e que até mesmo trafica drogas e disse, “ei, eu já vi isso antes!”

Só que ele teve a vantagem de ver com o Harvey Keitel. O tira perdido da vez é o Nicolas Cage. Que começa o filme já no meio de um monte de referências bíblicas: uma serpente e um dilúvio. Ele é apenas mais um tira corrupto e cruel como seu parceiro Val Kilmer (Val Kilmer num Herzog?), mas em vez de levar a sério uma aposta sobre quando um prisioneiro vai se afogar na cela trancada durante a enchente do Katrina, ele acaba mergulhando na inundação pra salvar o vivente. Garante seu lugar no recomeço pós-diluviana, promovido a tenente, mas ganha em consequência um problema crônico de coluna.

Com a sutileza que lhe é característica, Nicolas Cage passa o filme todo torto e com as omoplatas encolhidas, num andar que rapidamente destruiria qualquer resquício de coluna vertebral. Tudo bem que não tem ele chorando nu e crucificado como fez o Harvey Keitel 17 anos atrás, mas com uma postura que imediatamente lhe garantiria dispensa até de um emprego de testador de colchões, é muito estranho que um bando de argutos policiais não perceba a óbvia metáfora para o peso do mundo que ele parece carregar. Como o tenente sem nome do filme do Abel Ferrara, o tira de Nova Orleans se afoga em drogas, descarrega sua frustração com abusos de poder, e frequenta prostitutas. Na verdade, não, namora uma prostituta de luxo. Mas a diferença entre os dois tiras e os dois cineastas fica clara logo na primeira sequência: o do Herzog tem um nome.

É porque o alemão é mais humanista do que teísta e a estrada para a salvação de Terence McDonugh começa quando ele investiga a morte de uma família africana com três crianças, inclusive uma assassinada logo depois de escrever um poema sobre seu amigo peixe, que olha para ele enquanto ele dorme. Torto, sem dormir, sentindo-se dimunuído frente aos clientes ricos de sua namorada, consumindo drogas à vista dos espectadores o tempo todo, o tenente mau ainda assim mostra inesperada perícia em seu trabalho. Pois ele acredita que solucionar o crime e levar o mais mau ainda chefão das drogas local à cadeia irá redimi-lo.

Herzog bota a fita de pé sem muito de suas costumeiras imagens líricas, mas quando estas aparecem, botam pra quebrar, como no assassinato dos capangas que acaba num espetáculo de street dance (não pergunte). Infelizmente, um tom corriqueiro num thriller policial não é o mesmo que um tom corriqueiro numa trama sobre uma expedição ao Amazonas no século XVI – é o que as séries de tevê gringas gostam fazem desde os anos 70. Mas o Werner é um cineasta que sabe tudo do ofício e rola a história com fluência e naturalidade sem precisar, graças aos céus, usar uma câmera tremendo como se segura por um atacante brasileiro na véspera da final contra a França em 98. Com toda a estabilização de imagem eletrônica, aparelhos cada vez mais leves e até mesmo a maior familiaridade de todo mundo com as cada vez mais onipresentes câmeras de vídeo, as únicas criaturas que ainda filmam tremendo como se estivessem com mal de Parkinson são os diretores de fotografia americanos (e alguns brasileiros).

E assim, sob esta sólida cinematografia, o corrupto Terry vai se afundando cada vez mais na mediocridade, assumindo mais e mais responsabilidades – a certa hora ele tem o carro cheio com um cachorro, uma prostituta e uma testemunha jogadas sobre suas frágeis costas - sem esboçar uma reação, apenas se deixando levar pelos acontecimentos. Até que eles fogem completamente de seu controle. E é aí que surge a diferença entre os dois cineastas de tenentes maus. O tira do Herzog vai tomar a tenebrosa estrada para o inferno e, como num livro de autoajuda às avessas, tenta reassumir o controle de sua vida – e sua identidade – quebrando até mesmo seu controvertido código de ética e desprezando todas as convenções. Este é o caminho para a excepcionalidade, a fuga a todas as trivialidades e futilidades burguesas que povoam a eternidade inútil do Nosferatu do cineasta. Associando-se aos assassinos da família africana, armando resultados de jogos, participando até de assassinatos, o homem, que a um ponto aceitou que sua namorada desse pra dois capangas pra se livrar de uma enrascada, consegue finalmente a solução para suas dívidas, para seus casos pendentes e para a promiscuidade de sua garota (Eva Mendes! Uau!).

Novamente de posse de sua vida – e de sua arma, uma Magnum 357, o revólver do Dirty Harry, o óbvio símbolo de sua masculinidade, que ele deixa o tempo todo à vista mal enfiada em sua virilha - ele consegue uma promoção, uma casinha com jardim e uma namorada grávida, uma prostituta casta. O sonho americano. Mas, escondido de todos, ele continua achacando menores e cheirando adoidado, até reencontrar o prisioneiro que salvou no começo da fita e os dois vão parar no aquário municipal. Apesar de tudo, Terry continua procurando alguém que olhe por ele enquanto ele dorme. Por um instante, parece que Herzog andou abraçando se não alguma religião, pelo menos um pensamento místico oriental. Até que Nicolas Cage, sutil como sempre, sorri, como se percebendo que nada daquilo faz sentido. E fade. Fim. Para Herzog, vem para todos.

setembro 26, 2009

Se Eu Fosse Uma Turista Inglesa Obesa de Meia Idade no Caribe Jogando Palavras Cruzadas (Hoje Conhecido como Scrabble)...




Tudo que eu quereria seria uma celebridade doidona esfregando os peitos no meu braço e dando palpites como se me conhecesse há tempos.

Ela Continua Depilando Lá Embaixo


A sempre confiável Britney Spears.

Quando o Rio de Janeiro foi Reconstruído

Foi um monte de vezes, mas o que nós conhecemos é este cheio de arranha-céus e de onde foram banidas as casas dos bairros do Centro pra Zona Sul. Botafogo, que ainda tinha muitas em bom estado, está sendo posto abaixo neste momento. Desde que me mudei para a rua Fernandes Guimarães (uma das primeiras daqui!), perto da rua da Passagem, já vi subir oito prédio nos quarteirões adjacentes. Mais dois vão ser construídos.


Às vezes, vendo fotos nem tão antigas assim, do rio até os anos 50, mesmo anos 60, a cidade, apesar de grande, tinha outro perfil (lembrem-se que estou falando da área mais valorizada da cidade - os subúrbios ainda têm muitas casas, mas, embora sua densidade populacional ainda seja bem menor, elas estão sendo substituídas por prédios, ainda que mais baixos em suas contrapartes mais caras). Vendo fotos de prédios históricos ou bonitos ou mesmo tão alienígenas quanto o do Elixir de Nogueira (no cartão postal obviamente fora de escala), sempre ficamos pensando como puderam derrubar tais verdadeiros monumentos.

Pois é fácil descobrir o porquê: acabo de assistir ao blu-ray (chique, hein?) do épico em Cinerama (a imagem é espetacular, mesmo com as distorções de perspectiva) A CONQUISTA DO OESTE. Após seguir a saga de uma família, termina mostrando a terra prometida aonde o progresso nos levou: vias expressas cheias de automóveis e uma megalópole cheia de arranha-céus colados uns nos outros. Estávamos na era áurea do sonho americano - bigger is better. Acreditávamos no carro como o grande salvador e criamos Brasília como um monumento a esta máquina poluidora e egoísta. E ainda a transplantamos para a Barra.

O progresso iria nos levar a morar em torres altas cercadas de amplas áreas ajardinadas e o automóvel venceria essas distâncias para nos levar aonde quiséssemos em avenidas largas e sem sinais, pois não haveria pedestres. Tente caminhar de um condomínio para o outro na Barra. Logo de cara cria-se um fetichismo pelo automóvel que vai acabar descambando para o materialismo. Sem falar no isolamento, na falta de contato com pessoas de outras classes, credos, maneiras de viver e encarar a vida... Gente como Jane Jacobs começou a mudar esse jeito de ver as urbes nos anos 60, como em sua grande obra MORTE E VIDA DAS GRANDES CIDADES, onde aponta que os urbanistas que criaram esse conceito viveram nas horrorosas metrópoles do século XIX movidas a cavalo, fedendo a merda de cavalo, que se transformava na onipresente e malcheirosa lama. Esses sujeitos na verdade odiavam a vida metropolitana - a diversidade, a multiplicidade, as oportunidades, os encontros casuais - e foram eles que vieram com a ideia da cidade perfeita.

E é assim que a visão otimista e futurista de um filme dos anos 60 termina com uma vista aérea de uma horrorosa metrópole, depois de mostrar homogêneas e intermináveis planícies aradas sem viv'alma à vista e minas escavadas nas belezas naturais da terra. Bigger is better e parecia que nada poderia deter o homem. A não ser a destruição do planeta, os ecologistas e os neomalthusianos.

setembro 24, 2009

The Planet on the Table

Wallace Stevens

Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.

Felicidade

Felicidade é tomar um sundae do Bob´s no sofá de casa só com as luzes do pisca-pisca iluminando a sala vazia. Eu era criança, mas me lembro disso até hoje. A sensação de conforto era tão grande que até hoje adoro o Natal e as festas de fim de ano.

Felicidade é você na praia à noite pescando, com a primeira namorada ao lado te dando uns amassos e você pegando no peitinho dela. Tudo é novo, tudo é felicidade e você está apaixonado e a sensação de liberdade e de não estar preocupado com alguma coisa que venha depois ou que tenha vindo antes é maravilhosa.

E felicidade é você amando sua mulher e descobrir que sexo pode ser tão transcendental quanto na época de sua primeira grande paixão. É você olhar nos olhos dela e perceber que a consciência não é tudo, a individualidade não é tudo, o eu não é tudo. É estar a um passo da salvação, da epifania e chegar a pensar em dar este passo.

Mas felicidade é fugidia, porque estar vivo é, como já dizia Carlos Pena Filho, é entrar no acaso e amar o transitório. A ordem absoluta é o reino das pedras, dos planetas, das translações universais e da morte. O caos e a entropia negativa regem a vida.

Eva Mendes


Ou porque uma mulher bonita de calcinha rendada é mais sensual do que uma mulher nua.

setembro 21, 2009

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de Star Trek - A Série Original



Primeiro Comando

Já não basta Spock perder tudo que é jogo de xadrez tridimensional pro Kirk, ainda por cima quando tem seu primeiro comando, durante uma emergência na Galileo, nave auxiliar da Enterprise, é obrigado a confessar que não tem a mínima ideia do que fez de errado – todas as suas decisões foram lógicas e racionais e ainda assim ele perde dois homens e complica cada vez mais a situação.

Este episódio devia ser analisado pelo filósofo predileto deste saite (sorry, Sílvio Rabaça), Antônio Rogério da Silva, especialista em Teoria dos Jogos. O que acontece quando uma abordagem racional, em posição de desvantagem, encontra um desafio completamente irracional? A Enterprise manda uma equipe na Galileo estudar um daqueles fenômenos galáticos que acontecem toda hora em “Jornada nas estrelas” e a naveta despiroca e cai num planeta que, descobre-se depois, está cheio de homens da caverna gigantes e agressivos. E, como sempre, o mesmo troço cósmico que eles queriam estudar interfere com os sensores de Kirk e sua turma. Está tudo nas mãos do pessoal que caiu lá embaixo, chefiados por Spock, em seu, como ressalta McCoy, primeiro comando.


É claro que, como sempre, há uma corrida contra o tempo, pois a Enterprise tem que levar medicamentos necessários para debelar uma epidemia num sistema distante. A Galileo precisa ser reparada e não tem energia suficiente pra levar todo mundo de volta – dois vão ter que ficar. Quando o frio vulcano diz que não fará um sorteio, mas escolherá pessoalmente quem permanecerá no planeta, começam suas desavenças com o grupo. E nós espectadores ficamos pensando qual o problema: uma vez chegando na Enterprise, por que eles simplesmente não diriam onde encontrar quem ficou lá embaixo?


A resposta é que o mundinho é habitado por humanóides gigantescos na Idade da Pedra que eliminam logo um camisa-vermelha. Spock recusa-se a tentar matá-los com os phasers, preferindo assustá-los com tiros a esmo, já que a superficie parece toda recoberta com gelo seco e torna difícil a visualização dos nativos. Só que eles não ficam assustados muito tempo e logo acabam com outro sujeito. E o vulcano tem que tomar uma difícil decisão quando Scott informa que a única chance deles é usar a energia dos phasers para abastecer a naveta. Um artifício de roteiro, diga-se de passagem, simples e elegante, distante do que teríamos na “Nova geração” (“tive uma ideia, Geordi, se ligarmos em linha os solenóides neutrônicos dos phasers, talvez pudéssemos induzir uma reversão protônica nos cristais de dilitium e iniciar uma reação em cadeia”).


Com dois mortos – o número perfeito pra Spock não ter que escolher quem ficará no planeta – e cercados por humanóides gigantes, o vulcano tem que enfrentar a rebeldia de sua pequena tripulação, que por pouco não se amotina. Quem principalmente parece culpar o sr. Spock por tudo é o tenente Boma, o que soa injusto, já que ele é interpretado por Don Marshall, o futuro copiloto de “Terra de gigantes”. Tudo bem que Roddenberry queria enfatizar a multiculturalidade em sua série, mas dado o que acontece com ele aqui e no seriado de Irwin Allen, seu pé frio deveria ser mantido longe da ponte de comando de qualquer nave do Universo!


Embora o suspense seja bem construído mecanicamente pelo roteiro e pela direção, que se vale bem de seus parquíssimos recursos, o episódio peca na caracterização dos personagens. O Spock que conhecemos pode não ter emoções (ha, ha, ha), mas respeita as dos outros e jamais se abrogaria o direito de escolher quem vive ou quem morre – a não ser que pretendesse ser um dos deixados para trás. Afinal de contas, a própria série aponta que este teria sido o grande pecado de Kodos, o Executor, no espetacular “A consciência do rei”. Também a unidade da tripulação da Enterprise, como imaginada na utopia de Roddenberry, dificilmente entraria em colapso por tão pouco. E tudo bem que Kirk fosse amigo pessoal de Spock e McCoy, mas depois de tanto esforço despendido tentando resgatá-los, ele é comunicado da morte de um sujeito do grupo de busca e nem parece se importar muito. Esse absurdo favorecimento pessoal pouco tem a ver com o positivismo igualitário vendido pelo resto do seriado.
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Enfim, este programa tem altos e baixos e desperdiça a chance de criar mais um momento memorável de “Jornada nas estrelas”. Sua apologia à criatividade frente a desafios inesperados reflete o individualismo americano, sem maiores novidades quanto ao que se produzia na época pra tevê, o que não é típico da melhor série de ficção científica já feita. Mas, para nos lembrar desse status, sobra o roteiro com uma situação de tensão crescente e suspense e uma direção que cumpre sua função mesmo tendo para trabalhar apenas pedras de isopor, gelo seco e uns extras altos com peruca, filmados de longe.

Digno de nota:

- Contagem de corpos: três tripulantes.
- Por que o médico de bordo e o engenheiro-chefe estão num grupo para pesquisar fenônemos cósmicos esquisitos?
- No final, Spock faz um gesto desesperado: solta o combustível e o incendeia, para sinalizar à Enterprise. Ficam as perguntas: com que oxigênio o combustível queimou? Se a nave é movida a algum tipo de energia eletromagnética, como se deduz por usar phasers para decolar, que combustível é aquele? O que tem de tão desesperado em morrer dois minutos antes se sua ideia não der certo, já que eles iam cair do mesmo jeito?
- Avistamentos de tenente Leslie: na ponte de comando, preocupado com o grupo de busca.

Pronto, Já Dei um Jeito






Enviadas pelo Minhoca. Não sei o linque original.

A Blitzkrieg Alemã Parte III

A primeira parte deste artigo está aqui, em uma nova janela.

E aqui está a segunda parte.

A I Guerra acabara, embora na época eles ainda não soubessem que tinha sido só a primeira. Os alemães tiveram que embarcar numa onda que lhes era completamente alheia: a democracia. Os vencedores voltaram a seus afazeres, não mais sábios, porém mais pobres, com exceção dos Estados Unidos da América - a nova e emergente superpotência - agora mais experientes, embora também não mais sábios. Apenas a França imaginou que a Alemanha não iria ficar muito tempo quieta sem querer dominar o mundo, afinal, falando uma língua com declinações você só pode filosofar ou conquistar o planeta. E, como Nietzsche tinha unido as duas vertentes no final do século XIX...

O problema com os gauleses é que mesmo sendo mais espertos que os outros vencedores, ainda assim também não eram tãããããão mais espertos. E se prepararam não para lutar o conflito vindouro, mas para lutar a guerra de 1914-18, que tinham acabado de vencer, embora tivessem se preparado não para lutá-la, mas para lutar a guerra franco-prussiana de 1870... percebem um padrão aí?

Tudo bem que é fácil criticar olhando retrospectivamente, mas depois de se prepararem para uma guerra de movimento em 1914, os franceses estavam convencidos de que a próxima porradaria novamente seria um confronto de entrincheirados artilhados e quem tivesse a melhor trincheira ganharia. Daí construíram as gigantescas fortificações da Linha Maginot que virariam sinônimo para "maior mico" em história militar.

O problema é que quem bolou essa estratégica conservadora foi o Pétain e seus auxiliares, tudo militar. E, como já diz um velho ditado, guerra é um assunto sério demais pra ficar nas mãos dos militares. H. G. Wells previu em sua "História Universal" que o conflito avizinhando-se seria travado por máquinas blindadas, o que pôde ser visto na adaptação cinematográfica de seu livro (que não li) "The Shape of Things to Come". Mas Wells era um escritor, não um guerreiro. Embora tudo que é filme condene a lavagem cerebral que os recrutas sofrem quando em treinamento, há que se lembrar que nem todo mundo está disposto a morrer pela sua pátria, portanto é melhor fazer os caras agirem por reflexo e irem pra linha de frente sem parar pra pensar, "peraí, isso aí é bala de verdade! Que que eu tô fazendo aqui? Eu quero ir pra casa!" E uma vez tão bem treinado pra não raciocinar, é difícil abandonar o hábito.

Mas voltemos à linha Maginot. Quem a ideou foi Pétain, que venceu em Verdun com um pensamento radical para os generais da época: evitando o desperdício de vidas e mantendo uma defesa bem postada. Daí que quando se tornou Ministro da Defesa botou pilha pra fazer na fronteira com os germanos uma parede fortificada, um série de supertrincheiras. O velho marechal tinha visto a carnificina de 14-18 em primeira mão e sua obsessão com fortalezas advinha de uma genuína preocupação com a vida de seus subordinados, mas infelizmente a dinheirama gasta com o projeto comprometeu os gauleses com a guerra de posição e quando os avanços tecnológicos dos anos 30 tornaram o tanque a indisputável estrela do campo de batalha, os franceses, com exceção de De Gaulle, preferiram se aferrar à sua blindagem imóvel.

E tão obcecados eles ficaram que nem se importaram quando os belgas, tentando se apegar à sua neutralidade, não permitiram que a linha Maginot se estendesse por dentro de seu território. Em 1914, justamente para se desviar da infantaria e das fortificações francesas, os alemães tentaram flanquear os gauleses com um avanço pelas planícies da Bélgica, e já ensaiaram nos quatro anos que ficaram lá as atrocidades que fariam a partir de 1938 (na Tchecoeslováquia). Mas nem isso comoveu Alberto & os belgicanos. Uma muralha frontal que não se estende até a parede lateral não costuma ser boa proteção, mas Pétain não conseguia enxergar nada além da necessidade de se entrincheirar. Além do mais, em caso de conflito, a Bélgica se aliaria à França e à Inglaterra e os três exércitos se concentrariam nas planícies de Flandres.

Já do outro lado da fronteira, os alemães, como perdedores da guerra, chegaram à conclusão que era preciso pensar então em outra maneira de conquistar o mundo. Como foi contra eles que os tanques foram usados pela primeira vez, e em quantidade, eles acabaram desenvolvendo muito mais respeito pela arma do que os aliados, que nunca tinham lutado contra blindados - os germanos tinham construído só 20 monstros mecânicos, lentos demais, pesados demais, mal armados demais, grandes demais. Como a tecnologia de motores dos anos 10 não permitia aos mastodontes de aço mobilidade e confiabilidade suficentes, pra maior parte dos generais vencedores aquelas máquinas não compensavam o trabalho que davam. Mas os prussianos tinham-nos visto pelo outro lado e sabiam como era apavorante mesmo para o seu soldado, o mais bem treinado e mais disciplinado do mundo, encarar aqueles leviatãs à prova de balas.

O último comandante supremo dos exércitos alemães na I Guerra tinha sido Ludendorff (extra-oficialmente; nominalmente o chefe era Hindenburg), que declarou depois do conflito que se tivesse homens suficientes pra produzir os tanques, tê-los-ia alistado. Ludendorff não imaginou que os blindados poderiam economizar vidas, tão comprometido estava com a guerra de posições e a ideia de que o país que tivesse o último soldado de pé seria o vencedor. Esse raciocínio ficaria obsoleto com a tecnologia. Com a derrota, o exército alemão seria desbaratado e, quando Hitler o montou novamente, teve que lançar mão de vários generais jovens (para o cargo, é claro), que tinham sido oficiais de linha de frente nas trincheiras e que sabiam o valor do carro de combate.

Blonde Bombshell (Reprise)


Minha irmã no Museu Aeroespacial de Campo dos Afonsos

Descontração em Barcelona










O Caderno de Caligrafia

Cada pessoa um imprevisível fantasma
Com carne e voz
Cada objeto uma manifestação
do divino e do sobrenatural
A mãe é a bruxa a rainha
A fada madrinha
O pai é o monstro o soberano o príncipe
O mago com um plano

Até que a alfabetização sufoca
A esquizofrênica imaginação
E cada criança se torna uma repetição
Numa linha de caderno de caligrafia

Um velho já ressecado e rabugento
Esperando lentamente seu disfarce cair
E revelar seu verdadeiro e previsível
E decadente e mortal eu

setembro 20, 2009

Os Mais Belos Poemas de Amor

When You're Old, de William Butler Yeats

When you're old and grey and full of sleep
And nodding by the fire take down this book
Read slowly and dream of the soft look
Your eyes had once; and of their shadows deep

How many men loved your moments of glad grace
And loved your beauty with love false or true
But one man loved the pilgrim soul in you
And loved the sorrows of your changing face

And now bending down beside the glowing bars
Murmur, a little sadly, how love has fled
And took its pace the mountains overhead
And hid its face amid a crowd of stars

Livre tradução minha:

Quando você for velha e grisalha e cheia de sono
E assentindo junto ao fogo pegar este livro
Leia-o devagar e sonhe com o suave olhar
Que seus olhos tiveram um dia; e com suas sombras profundas

Quantos homens não amaram teus momentos de adorável graça
E amaram sua beleza, com amor falso ou verdadeiro
Mas um homem amou a alma peregrina em ti
E amou cada tristeza do teu rosto que mudava

E agora, curvando-se sobre as barras incandescentes
Murmuras, um tanto melancólica, como o amor voou
E tomou seu caminho pelas montanhas acima
E escondeu seu rosto entre uma multidão de estrelas