maio 18, 2009

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica



E As Meninas, De Que São Feitas?
pelo blogueiro convidado Antônio Rogério da Silva, o Roger Filósofo





Anteriormente: Tempo de Nudez


O desejo de possuir mecanismos com formas humanas que nos substituíssem e ajudassem nas tarefas rotineiras, em casa e no trabalho, é tão antigo quanto a Ilíada (séc. VIII a.C.) de Homero, onde se narra que Hefesto – ou Vulcano – operava suas fornalhas com o auxílio de belas moças feitas de ouro. Muito tempo depois, o filósofo francês Julien O. de la Mettrie, radicalizando a concepção mecanicista cartesiana, já defendia audaciosamente que o próprio ser humano em nada seria diferente de uma máquina. E notem que ele tinha em mente apenas os precários autômatos que seu conterrâneo e contemporâneo Jacques de Vaucanson construíra na primeira metade do século XVII – bugigangas como patos que batiam asas, flautistas etc. Uma definição melhor de semelhança entre máquinas e humanos só surgiria em 1950, quando o gênio de Alan M. Turing propôs o Jogo da Imitação, como um teste para avaliá-la. Pelo Teste de Turing, seria considerada inteligente a máquina que conseguisse responder perguntas, da mesma maneira que humanos fariam, sem ser descoberta por estes.

Em algum momento no início do século passado, no entanto, a ideia de fabricar inteligência artificial passou a ser vista como uma ameaça aos seres de carne e osso. Operários de inspiração ludita sabotavam máquinas que, mesmo sem terem a inteligência mais rudimentar, competiam com eles pelos escassos postos de trabalho. A peça R.U.R. (1920), do dramaturgo tcheco Karel Capek, pode ter sido crucial para que os temores contra os robôs fossem consolidados – foi Capek que cunhou nesse texto a palavra robô e previu uma revolta das máquinas contra a exploração humana de seus trabalhos. Metrópolis (1927), de Fritz Lang, também deu sua contribuição para aumentar o pavor.


Muito barulho por nada. Os primeiros computadores dignos do nome só começaram a ser fabricados depois de 1946. Armários gigantescos que tinham a proeza de fazerem cálculos que hoje qualquer calculadora de bolso faz. Terminada a primeira década do tão esperado século XXI, robôs inteligentes ainda estão muito longe de serem projetados, sequer construídos.

Mesmo assim, a série original de Jornada nas Estrelas, pelo menos em seu famoso episódio “E as Meninas de que são Feitas?” – primeiro a ser reprisado, em 1966 -, permaneceria cética quanto a uma convivência pacífica entre andróides e humanos, em um futuro mais distante. Os pesadelos vividos em R.U.R e que mais tarde tornariam clássico o definitivo O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, foram compartilhados pelo excelente roteiro de Robert A. Bloch (autor de Psicose, 1959). Está tudo lá: o cientista maluco que fabrica robôs para lhe fazerem companhia; um casal ameaçador de andróides que ganha sentimentos humanos e a eterna dúvida sobre o que nos faz humanos.

Aparência e força são logo descartadas. Os andróides podem ser mais belos e fortes do que nós. Inteligência também fica de fora, pois um programa de computador pode fazer contas mais rápido e jogar xadrez melhor do que qualquer humano. Restam apenas nossas “fraquezas”. Máquinas não sentem fome, nem o prazer de saciar suas vontades. Entretanto, se por algum desvio de sua programação ou um efeito secundário lhes fosse gerado algum sentimento subjetivo, então, mais nada sobraria para marcar a diferença. Com uma década de antecedência, “E as Meninas...” expõe esse problema com a perturbadora nitidez que se encontra em O Caçador de Andróides.

Só mesmo um preconceito muito forte em favor de seres sencientes restringiria o direito de tais maquinas existirem. Como o robô Andrew Martin, em O Homem Bicentenário (1976), de Isaac Asimov, a andróide Andrea (Sherry Jackson) e a enlouquecida cópia do Dr. Roger Korby (Michael Strong), de “E as Meninas...”, têm todo direito de continuarem vivendo como são, apesar de decidirem por experimentar a consciência da morte. Talvez a única condição que nos faz verdadeiramente humanos.

Em tempo, à primeira vista, esse medo de robô desapareceu na nova geração de Jornada nas Estrelas, pois o andróide Data (Brent Spiner) pôde assumir sem traumas parte das funções que antes eram exercidas pelo Sr. Spock (Leonard Nimoy).

A Seguir: Uma cerebral batalha naval em pleno espaço, o antológico "Equilíbrio do Terror".

maio 16, 2009

Os Mais Belos Poemas de Amor

Minha Luz Junto à Tua
Edgar Lee Masters

Quando o mar tiver devorado os navios
E os pináculos e torres
tiverem voltado às montanhas
E todas as cidades
se confundirem com as planícies
E a beleza do bronze
E a força do aço
Se dispersarem sobre continentes silentes
Assim como a areia do deserto é dispersa
Minhas cinzas junto às suas para sempre

Quando não mais a loucura, a sabedoria
Ou mesmo o fogo
Porque não mais o homem
Quando o mundo morto girando lentamente
vagar e decair através do vazio
Minha luz junto à tua
Na luz das luzes para sempre!

(Tradução apressada minha; abaixo, o original em inglês)

When the sea has devoured the ships,
And the spires and the towers
Have gone back to the hills.
And all the cities
Are one with the plains again.
And the beauty of bronze,
And the strength of steel
Are blown over silent continents,
As the desert sand is blown--
My dust with yours forever.


When folly and wisdom are no more,
And fire is no more,
Because man is no more;
When the dead world slowly spinning
Drifts and falls through the void--
My light with yours
In the Light of Lights forever!

Acidente no Vidigal na Década de 40


O triste é que não deve ter sobrevivido ninguém.

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de Star Trek a Série Clássica

Tempo de Nudez

Anteriormente: A Ira de Khan, digo, Semente do Espaço


“Tempo de nudez” foi mais uma inovação da turma do Gene Roddenberry. Naquela época não existia essa coisa de séries “sérias” tirarem um dia de folga pra curtir com a cara dos personagens. Embora até tenha uma corrida contra o tempo pra evitar que a Enterprise caia no planeta que está orbitando, o episódio é basicamente uma gozação com o capitão Kirk e seus comandados, que têm um péssimo dia quando uma molécula de água modificada deixa todo mundo a bordo cheio de cachaça nas idéias.

A coisa toda começa até num tom grave, com uma patrulha da Enterprise descendo a um posto avançado e encontrando todos mortos de maneira irracional: alguns se suicidaram, outros se deixaram congelar, outros foram assassinados, uma maluquice completa. O roteiro culpa a tal H2O mutante pela coisa, com um efeito depressor sobre o centro das inibições no cérebro, similar ao álcool, o que tornaria a descontaminação ineficaz, mas mesmo assim faz um tripulante que desceu ao planeta tirar sua luva de proteção para poder coçar o nariz e deixar uma gota de sangue cair em sua mão – a ideia não era de que esse pessoal aí eram profissionalíssimos, a nata da nata?

Esse sujeito tem uma crise de consciência digna de um romance anticolonialista de Conrad (“os mortos naquele planeta... estamos nos metendo em assuntos que não nos dizem respeito”) e perde a vontade de viver, morrendo por um ferimento leve na mesa de operações do McCoy, sem antes contaminar um monte de gente. Um deles é o tenente Riley, que se apossa do setor de engenharia, se intitula o novo capitão e começa a dar ordens como “mulheres, a partir de agora, usem os cabelos soltos pelos ombros e usem menos maquiagem... mulheres não devem parecer maquiadas”. E a cantar, cantar sem parar a mesma música insuportável. Bruce Hyde fez seu personagem tão engraçado que ele ganhou uma raríssima segunda aparição de destaque na série, no interessantíssimo “A Consciência do Rei”.

Olhando retrospectivamente, é difícil não rir quando o hoje ativista gay George Takei aparece nos corredores só de calça justa, com uma espada na mão e sussurrando a seu companheiro de leme coisas como “encontre-me mais tarde no ginásio, meu jovem, para um pouco de ação”. A série podia ser ousadamente multicultural para sua época, mas dá ao japa uma paixão pela esgrima ocidental e pelos três mosqueteiros - catanás e samurais ainda não haviam penetrado (epa! Ato falho!) o subconsciente coletivo ocidental e muito menos o dos escritores de tevê americanos. Pelo menos fica estabelecido de vez que o sr. Sulu é um espírito alegre (não resisti), com fumaças de romântico aventureiro.

A cachaçada geral, aliás, serve muito bem pra explorar mais as personalidades da tripulação. Kirk, num diálogo mal escrito e mal interpretado, lamenta tudo que jogou fora pelo amor ao comando e à sua nave – o único bom momento é quando arriscando um lance maluco pra salvá-la, ele diz pra ela “eu nunca vou perdê-la... nunca...”. Azar da ordenança, que Kirk diz não poder comer por ser seu superior. Mais uma vez aparece em destaque os coxões de Janice Rand. Ao contrário de Uhura, o personagem nunca conseguiu deixar de ser a secretária gostosa e acabaria desaparecendo da série junto com a problemática atriz.

Já Spock desfaz de uma vez por todas um equívoco geral de que os vulcanos não têm emoções. Eles as têm, mas como ele diz, numa crise de choro, em seu planeta sentimentos não são considerados de bom tom e imagina como deve sofrer sua amada mãe humana, tão passional, entre essa turma. Spock, aliás, é contaminado pela enfermeira Chapel, que revela sua paixão pelo imediato da Enterprise. Quem estranhar humanas com ares românticos pra cima do alienígena frio e lógico vai ficar surpreso ao saber que Leonard Nimoy virou uma espécie de símbolo sexual à época. Segundo Uhura, ele é o gostosão da nave, não o Kirk, e não, não estou falando da Uhura do novo longa: revejam “O Estranho Charlie” e prestem atenção na letra da música que ela canta pro Spock (1).

Uhura, aliás, nesse episódio, ao contrário da ordenança, começa a deixar de ser a telefonista da nave e a parecer uma oficial da Frota Estelar, finalmente preenchendo pelo menos parte do papel que Roddenberry queria para ela. Além de substituir o doidão Sulu no leme, ainda paga um esporro no capitão Kirk quando ele dá um de seus frequentes pitis com os amigos. Infelizmente o Gene não conseguiria fazer os executivos da rede engolirem-na comandando a Enterprise na ausência do trio capitão-imediato-engenheiro e sua posição como quarta em comando permaneceria para sempre teórica.

Com tantas revelações de caráter, “Tempo de nudez” foi considerado perfeito pra ser encaixado logo no início da série e familiarizar os espectadores com a tripulação, apesar de sua trama pouco cósmica e aventureira, gambito que seria repetido vinte anos depois na Nova Geração, que enfrentou a mesma molécula de água doidona no começo de seus voos. Nos dois casos o povo que estava começando a acompanhar as aventuras espaciais das Enterprise ficou decepcionado. O dos anos 80 porque chegou à conclusão que nunca nenhuma ação ia acontecer sob a égide de Picard e e dos anos 60 porque depois de um monstro que sugava sal, viu dois semideuses caçoarem de Kirk e seus comandados até outros semideuses pegarem eles.

Pra quem via anúncios de naves espaciais gigantescas, alienígenas superfortes disparando phasers e toda aquela tecnologia, devia ser tremendamente desapontador ver que aquilo tudo era só cenário pra outros seres brilharem. A galera da Enterprise passa dois episódios só olhando e também quase põe tudo a perder aqui por uma falta básica de profissionalismo de um tripulante. O crítico Glenn Erickson explica que na época não se ligou na série justamente porque todos os primeiros episódios eram sobre controle mental e semideuses. Não foi à toa que Jornada nas Estrelas brigou com os índices de audiência durante toda sua existência. Além de conceitos estranhos, roteiros diferentes e problemas de produção envolvendo tantos cenários e objetos de cena, o programa ainda evitava dar a seu público algumas emoções baratas para dourar a nutritiva pílula.

Felizmente tudo melhoraria com o sensacional episódio seguinte, Inimigo Interior, já resenhado aqui e aqui, pelo blogueiro convidado. A partir desse ponto Jornada nas Estrelas daria um pouco mais de satisfação ao público torcendo por seus heróis, mas talvez um pouco tarde demais para antecipar o pantagruélico sucesso que gozaria em reprises nos anos 70.

Digno de nota:

- Contagem de corpos: a equipe de cientistas no planeta agonizante e um tripulante.
Eddie Paskey, que fazia o papel de um dos oficiais da ponte, tem aqui seu primeiro diálogo. De ponta em ponta ele apareceria na série em 57 episódios, mais do que Sulu ou Chekov. Somente em “A Consciência do Rei” seu nome, tenente Leslie, seria dito.

- No final, a solução pra salvar a nave a joga três dias no passado. O planejamento original os levaria 300 anos atrás, no século XX, fazendo deste a primeira parte de um episódio em dois capítulos – o segundo seria o que acabou se tornando “O amanhã é ontem”. Um dos motivos foi que Roddenberry odiava episódios desmembrados. Para o enroladíssimo “Deep Space 9” ser feito, esperaram o sujeito morrer, já que ele era expressamente contra histórias em continuação.

Amanhã: "E as Meninas, de Que São Feitas", pelo blogueiro convidado Roger Filósofo, e seus toques sobre teoria cognitiva.

(1) Na Enteprise tem alguém que parece Satanás/ com os ouvidos e os olhos do diabo/ que poderiam arrancar seu coração/ Primeiro seus olhos hipnotizam/ depois seu toque a derruba/ e seu amor alienígena a possui/ e poderia arrancar seu coração/ é por isso que mulheres astronautas/ esperam aterrorizadas/ pra descobrir o que ele fará/ oh moças atronautas, cuidado!/ Sabemos o que ele fará

A Propósito da Estreia do Filme do Simonal, Republicação de um Post de Março de 2008

Quando comprei meu primeiro CD player que tocava cd de MP3, em 2001, ainda não existia banda larga - baixar música pela rede era tedioso e trabalhoso. Associei-me então a uma locadora de discos numa galeria na Voluntários e comecei a comprimir montes de artistas que mal conhecia. Entre eles, Simonal.

Meu pai adorava Simonal e Martinho da Vila. O primeiro show a que fui na vida foi do negão. Minha tia nos arrumou ingressos grátis. Guardo poucas lembranças - uma delas que foi na Princesa Isabel, no teatro homônimo (antigamente cantores davam shows em teatros); outra, da luz que seguia o cantor o tempo todo e de que meu pai me apontou na saída o Simonal saindo, "num conversível". Eu não sabia o que era conversível e nem me lembro de tê-lo visto, mas me lembro do meu pai me explicando o que era um carro que arria a capota - e aquele, ainda por cima, automaticamente!

O Cláudio Manoel agora está lançando um documentários sobre o Simonal. Não vi o filme, mas já vi entrevistas do Casseta explicando que o Wilson foi perseguido por ter recebido o epíteto de dedo-duro e ligado ao regime militar. Bem, pra fazer o longa, o Cláudio certamente devia ser fã do negão e fãs têm uma irritante mania em não entender como os mortais podem não apreciar as infindáveis qualidades de seu ídolo... e, trabalhando diariamento ao lado de Marcelo "cansei" Madureira, achar que as "patrulhas ideológicas" foram as culpadas pelo ocaso de seu objeto de admiração acaba sendo uma conclusão lógica.

O que teve de gente nos anos 70 e 80 creditando seu insucesso às "patrulhas ideológicas" não foi mole. Curiosamente, o sujeito mais perseguido intelectualmente, aquele que era o próprio símbolo-mor da alienação e da rendição à indústria cultural, virou essas décadas batendo récorde após récorde de vendagem e se tornando uma lenda viva. E ainda hoje Roberto Carlos é vítima de preconceito: João Máximo, alguns anos atrás, numa matéria justamente sobre Simonal, dizia que ele tinha sido substituído no gosto popular por "artistas menos talentosos, como Roberto Carlos".

Para quem, como eu, gosta de ouvir Wilson Simonal, mas não é seu fã incondicional, outros fatores ficam muito mais claros. Até porque a intelectualidade de esquerda dos anos 70 adoraria ter todo o poder que os fracassados daquela época lhe atribuíam. Simonal saiu de moda simplesmente porque seu estilo saiu de moda. A reportagem de hoje no Globo conta como ele estava falido em 1972 e mandou dar uma surra no seu contador, a quem acusava de roubo. Tudo bem que seu mau-caratismo pode ter criado um clima inamistoso no meio musical, mas essa época marca o fim de toda uma era da música brasileira. A começar pelos Festivais da Canção, que desapareceram por essa altura, 72, 73.

Ainda em 68, 69, não me lembro bem, Caetano levou uma vaia estrondosa por se fazer acompanhar de guitarras (tocadas pelos Mutantes) na apresentação de festival de É Proibido Proibir. Em 1972, 1973, todo mundo usava guitarra. Enquanto isso, ouvir um disco de Wilson Simonal era viajar até a época de Frank Sinatra produzido por Nelson Riddle. Uma big band ao fundo para acompanhar um puta cantor, é verdade, mas num esquema quase de crooner. Como ele não compunha e mantinha esse estilo anos 60 (início de anos 60), foi alienando seus compositores. Antônio Adolfo lhe escrevera Sá Marina, mas nos anos 70 estava trabalhando com arranjos mais "soul", como os do Trio Ternura. Caminho também enveredado, por exemplo, por cantores como Toni Tornado, citado na reportagem do Globo e no longa.

Como sambista, ele estava ficando para trás à velocidade da luz. Ouvir as então emergentes Clara Nunes e Beth Carvalho e comparar com ele era covardia. E elas lideravam justamente uma ressurreição do samba como música de sucesso. Mesmo os artistas menos queridos pela intelectualidade, como Originais do Samba e Benito di Paula, tinham uma sonoridade muito mais contemporânea. Ouçam a gravação dele de "Pata Pata", muito mais conservadora do que o original de Miriam Maakeba. Também é bizarro ouvir letras com humor um tanto grosseiro de duplo sentido com toda aquela elegância orquestral ao fundo.

Sem grandes compositores para lhe dar apoio, seu repertório perdeu em muito a qualidade. Lembro-me de um vinil do começo dos anos 70 que meu pai tinha do Simonal, em que usei uma das músicas num trabalho de colégio, (não me lembro do nome, mas era uma que tinha o estribilho "Credo em cruz Ave Maria É feitiço É mandinga É bruxaria Credo em Cruz Ave Maria") e que não tinha nenhuma canção de destaque. E tudo com big band ao fundo. Também não deve ter ajudado muito que ele mesmo chamasse seu estilo musical de "pilantragem". Ao fim do milagre econômico, às vésperas das eleições que o MDB levou de lavada, mostrando o início do descontentamento com a ditadura, o clima não estava para se ouvir sujeitos cantando como gostavam de levar vantagem em tudo e que o mundo era dos mais espertos (ei, isso soa muito neoliberal; será coincidência que ele tenha sofrido uma reavaliação nos últimos tempos?). Roberto Carlos, por exemplo, mudou sua sonoridade e nessa época, antes de aderir à trepada musicada, fazia tremendo sucesso com letras deprimidas. O Brasil, apesar de todo EU TE AMO MEU BRASIL tinha inegavelmente um clima meio triste na época (sem contar que o mundo podia acabar a qualquer momento envolto em chamas atômicas, quem não esteve lá não sabe o que era essa paranóia).

Simonal fazia um sucesso estrondoso e saiu de moda. Maria Alcina e Toni Tornado também. Martinho da Vila, outro que meu pai adorava, lançou dois discos que venderam feito água, CANTA CANTA MINHA GENTE e AQUARELA BRASILEIRA, e depois sumiu durante um bom tempo. Benito di Paula foi eleito o cantor mais popular do Brasil e não faço a menor idéia de por onde ele anda. Enquanto isso o mais patrulhado ideologicamente artista de todos os tempos, Roberto Carlos, não lança um disco de verdade há muito, muito tempo, mas é notícia o tempo todo, enquanto que todos os seus companheiros de Jovem Guarda foram moídos pela Roda da Fortuna. Cultura de massa é assim mesmo - impiedosa e imprevisível. E, como na citada carta do tarô, jamais perdoa aqueles que teimam em permanecer agarrados à sua circunferência, mesmo quando ela já saiu de cima e se encaminha para baixo. O lugar para se estar é o centro.

maio 14, 2009

Dançando muito a quantidade de álcool não fazia muito efeito. É um velho truque índio, que a maioria desconhece porque homens que bebem muito não costumam gostar de dançar. A Cláudia tentava me explicar que o que estavam tocando era nau catrineta, que o Zeca Baleiro tinha popularizado no país todo, mas eu quase não conseguia prestar atenção, era a primeira vez desde que ela tinha ido me buscar no aeroporto que saíamos sós. Sim, algumas amigas tinham vindo com ela, além da Inês, a irmã, mas não o namorado, e bastava isso, bastava ele não estar ali ao lado dela que o resto do mundo poderia estar ao nosso redor e ainda assim eu estaria sozinho com ela, a sobrinha do jovem, talentoso e falecido artista de mamulengos, a pesquisadora, a moça de 23 anos que me mostrara as fotos de seu ex-namorada e grande paixão da vida, seu distante e brilhante primo médico quarentão, ambos fantasiados prontos para sair para o carnaval, ela de dominatrix, ele de camisa caindo pregueada sobre a imensa barriga, calça indiferente e apenas uma máscara, ele com um ar perdido e ela de lado, seu rosto olhando agressivamente e dominador para a câmera, e a câmera não mente jamais, entrega tudo, é objetiva, fria e imparcial, não racionaliza, não tenta se auto-iludir: aquelas mulheres com personalidades tão esplendorosas que as fazem atraentes e desejáveis são reduzidas à sua mediana beleza; aquelas namoradas que julgamos erradamente nos amar aparecem com seus olhos vazios e inexpressivos; aquele coroa tão jovial e cheio de energia aparece em toda a glória de sua decadência de telômeros curtos e células não mais se replicando.

Assim como aparece o espírito abusado e apaixonante de Cláudia, morena de pele de café como sempre sonhei, cantora e microbióloga, tantos nomes em latim e conhecimentos arcanos na mente e tão pouca roupa sobre o corpo, a barriga exposta pela blusa curta mostrando a curva da cintura feita para encaixar no braço masculino, perfeita para encaixar no braço masculino, e a nau catrineta, a nau catrineta que se foda, que se foda a Cláudia, que eu foda a Cláudia, é o que penso, é o que me passa pela cabeça, a cientista gostosa, a versão feminina para os heróis dos filmes americanos de ficção científica dos anos 50, não tenho mais desculpa, não tenho mais nenhuma razão para adiar, não tenho mais como postergar a tentativa de um beijo, a tentativa de provar a saliva dela, mesmo que ela me afaste, mesmo que ela diga que é um absurdo, ela não vai dizer, é claro que não o fará, eu estou louco de pensar uma coisa dessas, mas e se ela o fizer, não terá sido a primeira vez, preciso pensar, preciso jogar uma água no rosto, só para ser um pouco mais eu mesmo, para ter um pouco mais de certeza.

O Celerado

Há vida
Ávida
Em meus porões

Um louco acorrentado grita
"Deixe-me sair, tolo, você não sabe
o que está perdendo"

Mas eu nem levanto os olhos do jornal encostado no balcão do bar
Para ver a monumental morena passando requebrando
E nem noto nela os vestígios dos grilhões arrebentados

A Fronteira Final - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica



Semente do Espaço

Anteriormente:
Inimigo Interior, por Roger Filósofo



Este é um dos episódios favoritos de todo mundo. Tem o capitão Kirk dando porrada num superomem, a galera da Enterprise dando lição de moral e, principalmente, o vilão que ficaria irado no segundo longa da franquia, que muito trekker considera o melhor.

O povo da NCC 1701 encontra uma nave terráquea do século XX, antes da invenção do voo interestelar, e a resgata para encontrar 72 viventes em animação suspensa. Como todos sabem, 13 anos atrás, em 1996, estourou a III Guerra Mundial entre os seguidores de líderes geneticamente aperfeiçoados e ao fim das hostilidades alguns deles sumiram.

Se você não lembra disso tudo, precisa da ajuda de uma historiadora, como a que tem na Enterprise e é convocada pelo capitão Kirk pra, como ele mesmo diz, finalmente ter alguma coisa pra fazer. Como falta do que fazer é sempre um problema – a mente ociosa é o jardim do diabo – a moça passou o tempo fazendo pinturas de seus ídolos, Napoleão, Alexandre, César, e fantasiando com os homens másculos e viris de outros tempos que não o século XXIII. Daí, quando ela bota os olhos naquele exemplar eugênico dormindo na nave “Botany Bay”...

Kirk e amigos logo descobrem que o caboclo que eles acordaram é Khan Noonien Singh, um dos líderes eugênicos e o melhor deles. Bem intencionado, pacífico, trouxe prosperidade ao seu povo e lhe tirou a liberdade. Spock não compreende a admiração da galera da Enterprise por ele, mas eles lhe explicam que admirar não é necessariamente concordar, o que devia soar muito estranho aos ouvidos do povo que vivia a Guerra Fria, onde o inimigo era sempre um sujeito desprezível com hábitos estranhos e provavelmente vinha do espaço exterior, daí o sotaque russo.

Khan é culto, educado, tem uma figura perfeita e fica visivelmente feliz quando descobre que seus oponentes são melhores do que imaginava. Mas sua obsessão por controle absoluto o torna uma pessoa de difícil convívio, embora faça dele um tremendo amante para mulheres com tendências submissas, o que é justo o caso da historiadora, insatisfeita com a perfeição liberal e racional dos homens positivistas do século XXIII – parece que Kirk é uma exceção e o resto dos machos futuristas está mais para Scott, McCoy e, por que não dizer, Sulu.

O subtexto sexual de “Jornada nas Estrelas” dificilmente afloraria tão à superfície quanto neste episódio. Depois de conferir a historiadora – finalmente ela arrumou algo pra fazer - e ser desmascarado, Khan é confinado a seus aposentos e recebe a visita de sua fã e, numa cena intensamente perversa, leva-a aos poucos a implorar para ficar (e obviamente dar umazinha). A moça ajoelha clamando por ter o privilégio da companhia dele e por um momento eu e meus incrédulos companheiros assistindo tivemos a claríssima sensação de que ela iria partir para o boquete. Mas eles partem mesmo é pra dominar a nave.



Khan consegue tomar a Enterprise com facilidade, com todo o seu avantajado intelecto, mas quando ameaça matar o capitão Kirk, é demais até mesmo para os hormônios da historiadora, que liberta o comandante da astronave e está tudo pronto para a porrada final entre o campeão da democracia e o da autocracia. Adivinhem quem vence.

Ao final, Kirk não prende Khan, mas solta o tirano, seus seguidores dele e a historiadora num planeta que é um inferno, para que lá ele possa construir seu império. Final estranhíssimo, sugerindo que a autocracia é um passo necessário antes da democracia, que a democracia é um luxo de tempos de fartura pela qual devemos zelar e que o comodismo de quem esquece isso leva a uma perda de virilidade – o que fará nossas mulheres darem para selvagens amorenados de outras culturas.

Essa idéia final de que para civilizar o planeta que é um inferno faz-se necessário um sociopata com delírios de grandeza é extremamente semelhante à visão amarga do John Ford dos anos crepusculares (confira “Rastros de Ódio” na seção “Blogue sem Lei”). Mas se para as mulheres o povo da democracia que vinha depois, com suas idéias de cooperação e igualdade, era mais adequado para o casamento, os psicopatas eram perfeitos para a vida na horizontal.

A controvertida visão é muito bem vendida pelos diálogos, os melhores até agora no seriado, explorando muito bem a interação do trio Kirk-Spock-McCoy, parte fundamental do charme do programa. A esgrima verbal entre Khan e o capitão, bem como o povo da Enterprise exaltando as virtudes de um tirano, pra surpresa do Spock, são momentos muito bem redigidos, embora o ponto alto seja mesmo a sessão sadomasoquista na cabine de Ricardo Montalban. Uma inacreditavelmente acurada visão sexual sobre o comodismo do homem urbano logo no alvorecer da emancipação feminina, antecipando em muito a atual moda de dominação e submissão, com cada vez mais casais fãs de algemas, vendas e lingeries, tentando simular a atração animal de tempos menos civilizados.

Pena que alguns anos depois Khan perderia todas as suas nuances para se tornar apenas mais um vilão malvado, numa inegavelmente excelente atuação de Ricardo Montalban, em “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, no começo da reciclagem da Guerra Fria que a era Reagan traria.


Digno de nota:

- Contagem de corpos: Zero. Os escritores continuam piedosos com o povo da Enterprise.
- No meio da luta com o Ricardo Montalban, dá pra ver claramente que William Shatner foi substituído por um dublê mais alto, mais longilíneo, tinha cabelo e penteado diferentes, um rosto mais comprido e feições pouco parecidas com o Kirk.

Amanhã: A galera da Enterprise cheia de cachaça nas ideias em "Tempo de Nudez"

maio 13, 2009

A FRONTEIRA FINAL - Ensaios sobre JORNADA NAS ESTRELAS - A Série Clássica

Leia aqui a resenha do blogueiro titular para este mesmo episódio

Inimigo Interior
Critica do Episódio da Primeira Temporada

Blogueiro Convidado: Antônio Rogério da Silva, o
Roger Filósofo*

*As opiniões do blogueiro convidado não foram necessariamente entendidas pelo blogueiro titular


- Anteriormente: Um Gosto de Armageddon

O conhecimento de si é fundamental para o equilíbrio das emoções e sentimentos. De posse desse conhecimento podemos avaliar melhor os interesses e evitar os equívocos que geram as ações consideradas más e tentar acertar nas coisas tidas como boas. No entanto, a concepção dualista de bem e mal que prevalece na maioria dos mitos e religiões induz as pessoas a acreditarem que influências externas são as causas da maldade humana. Uma visão mais atenta, porém, permite compreender que a “essência do bem ou do mal” não está em um objeto específico ou em um sentimento arraigado em nossa origem.

A visão de que o bem e o mal existem como um valor intrínseco de algo avançou por séculos através de crendices populares ou mesmo por teorias psicológicas consideradas modernas. Por vezes, as emoções mais fortes e o desejo pelo máximo de prazer eram concebidos como aspectos da psicologia humana que precisavam ser controlados, sendo as doenças psíquicas fruto do descontrole desses impulsos por parte da razão ou algum outro setor da mente encarregado de aplacá-los. Desse modo, a vontade de satisfazer os prazeres carnais, o poder absoluto e o gosto considerado pouco nobre eram tidos por coisas más a serem condenadas, enquanto o inverso disso – amor, solidariedade e refinamento – seria elogiável e considerado bom.

O episódio de Jornada nas Estrelas chamado O Inimigo Interior se presta à consideração de outras abordagens que permitem uma melhor compreensão do papel dessas emoções e sentimentos considerados maus, enquanto sugere uma nova maneira de encarar o assunto. O roteiro é simples. Um defeito no teletransporte provoca a inesperada e indesejável separação da personalidade dos seres teletransportados. Antes do problema ser detectado, no entanto, capitão James Tiberius Kirk (William Shatner) sobe à nave e tem seu “alter ego” cindido de seu lado “positivo”. Agora, solto pelo interior da Enterprise o “alter ego” passa a assediar violentamente sua bela ordenança Janice Rand (Grace Lee Whitney) e atacar todos que se põem em seu caminho. Ao mesmo tempo, o lado positivo do capitão aos poucos vai perdendo sua capacidade de comando. Enquanto o teletransporte não é consertado, uma equipe eviada para explorar um inóspido planeta sofre com o frio congelante que cai por lá ao anoitecer. Assim, capitão Kirk precisa capturar seu lado “mau” fugitivo e se arriscar ao choque potencialmente fatal da fusão de seu caráter, antes de resgatá-los.

Diferente das teorias psicológicas existentes até a sua realização, esse episódio da série original de Jornadas nas Estrelas, possibilita, como em tantos outros, a representação de “experimentos mentais” de uma forma direta, sem muitos rodeios. Em O Inimigo Interior, ocorre a sugestão de que a força de vontade necessária para voz de comando ponderada exige a preservação da integridade mental do indivíduo, com seus sentimentos e emoções violentos e amáveis convivendo lado a lado com sua razão calculadora. Nada daquele dualismo simplista das correntes racionalistas e psicanalistas é subentendido. Avançando hipóteses que mais tarde a neurologia iria desenvolver, o roteirista Richard B. Matheson (autor de novelas de ficção científica como Eu Sou a Lenda, que também trabalhou em Além da Imaginação) lança o papel fundamental das emoções e sentimentos, que como marcadores-somáticos, interferem no processo deliberativo racional, a fim de que este chegue a um termo. O bem e o mal não decorrem, a final de contas, de um ou outro sentimento isolado de mentes partidas, nem pela intervenção de entidades espirituais estranhas a nós, mas são o resultado de nossas ações, com os efeitos positivos ou negativos que, respectivamente, causam aos interesses das outras pessoas envolvidas na circunstância. Não por acaso, Jornada nas Estrelas foi e ainda é considerada uma série “muito cerebral” para os padrões televisivos existentes.

Amanhã: Semente do Espaço, o episódio que apresentou ao mundo Khan Noonien Singh, que ria dar vazão à sua ira no segundo longa cinematográfico

maio 12, 2009

A FRONTEIRA FINAL - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica




Um Gosto de Armageddon

Anteriormente: O novo longametragem


Ao final de “Apocalypse Now”, Marlon Brando faz um dicurso sobre a “pureza” de objetivos dos vietcongues – após os americanos vacinarem todas as crianças de uma aldeia contra a varíola, os comunas vão lá e decepam todos os braços vacinados. Brando imagina o esforço necessário para homens que têm famílias e amigos como qualquer um de nós chegarem a tal gesto extremo, comparando com os soldadinhos ianques, garotos que iam pra guerra em turnos de seis meses e depois eram desmobilizados.


O mesmo discurso poderia ser utilizado quanto aos planetas Eminiar VII e Vendikar, que estão em guerra há 500 anos quando a galera da Enterprise desembarca lá tentando negociar a cessão de um posto avançado da Federação. Só que pra surpresa do povo da Frota Estelar o mundo dos emirianos é limpinho, organizado, sem nenhum sinal de destruição. Os nativos até mesmo informam estar sob ataque exatamente naquele momento, mas Kirk e comandados não veem sinal de porra nenhuma acontecendo. Até que finalmente alguém os esclarece: após algum tempo de conflito arrasador, para continuar a briga com o mínimo de perturbação possível, as partes acordaram em ter computadores ligados em rede que simulariam ataques e contra-ataques. Os habitantes que constassem dos relatórios de baixas apresentar-se-iam a câmaras desintegradoras e assim poupavam-se os mundos do completo caos em suas civilizações.

“Apocalypse Now” foi feito em 1979, sobre a Guerra do Vietnã, que estava rolando a todo vapor quando “Um Gosto de Armageddon” foi ao ar, por isso mais surpreendente ainda é a premonição sobre a ineficiência de se travar um conflito com meios limitados. Quase como uma lição de Clausewitz para Principantes, o episódio demonstra exatamente como, sem a ameaça de uma escalada até a guerra total, os povos se acomodam e se acostumam a dois, três milhões de mortos por ano. Como já dizia Orwell em “1984”, o livro, não a data, “Guerra é Paz”, e o estado de constante e sub-reptício conflito é justificativa para a manutenção do “status quo”. Os guerreantes, por exemplo, conhecem a propulsão warp, mas nunca se aventuraram no espaço exterior. Obviamente todos os recursos financeiros e psicológicos que poderiam levar a um maior desenvolvimento estão empatados no impasse militar.

Que não é militar, na verdade. E o mais curioso – e extremamente perspicaz – são os efeitos culturais dessa não-guerra. O líder planetário Anan 7 (em ótima atuação de David Opatoshu) passa o tempo todo apreciando o espírito guerreiro de Kirk, falando sobre os instintos guerreiros do homem, enfim, mostrando um elaborado código guerreiro – e usa um truque sujo atrás do outro. Coisa de quem não vivencia os efeitos de uma guerra de verdade – pense nos samurais japoneses, que passaram séculos todo só travando escaramuças entre si e elaboravam seus complicados rituais do bushido, e quando encararam os plebeus americanos armados com pólvora tomaram uma trolha. Ou os janízaros otomanos, com seus elaboradíssimos exercícios da furyytsa, que levaram uma cacetada dos proletários franceses de Napoleão. Seguindo o padrão, os próprios ianques, depois de várias guerrinhas limitadas em escopo e objetivo passariam a adotar uma cultura do guerreiro que não tinham quando de 20 em 20 anos iam à Europa salvar o mundo nas guerras mundiais. Nessa época eles sabiam que era um trabalho que precisava ser feito, mas era um trabalho sujo, muito sujo.

Os efeitos especiais do episódio, como sempre, não estão à altura do roteiro, embora as lutas, apesar de sua péssima fama, sejam relativamente bem coreografadas e filmadas. Já a série estando bastante avançada na temporada, os atores e roteiristas já estão bem mais à vontade com seus personagens, bem como a equipe técnica. Os cenários estão melhor e mais elegantemente iluminados, com gradações pra disfarçar paredes lisas, sem abuso de filtros azuis, vermelhos e laranjas. Há menos inserts de closes e maior movimentação do povo dentro das cenas. A direção de arte enfatiza a idéia central, dando as eminiaranos uniformes fálicos, com faixas metálicas em malha de aço (que Worf usaria na Nova Geração), e enfeita seus aposentos com adereços que lembram arte bárbara, evocando sua cultura guerreira de fancaria.

Esse entrosamento geral dos atores e equipe técnica começa a levar também a momentos mais bem humorados, desenvolvendo melhor a personalidade dos tripulantes da Enterprise, responsável por boa parte do charme do seriado. Reparem por exemplo como uma cena de luta fica bem mais viva porque Spock, para distrair um guarda, fala, sem demonstrar a menor emoção, “Senhor, há uma criatura com múltiplas pernas rastejando em seu ombro”. Depois dos episódios em que a turma da Federação basicamente ficava assistindo a seres superiores resolverem seus assuntos entre si, também é bastante satisfatório ver Kirk e seus comandados por cima quase o tempo todo, aproveitando sua tecnologia e armas mais avantajadas pra darem lição de moral nos caras.

Falando sobre guerra, tanto “Apocalypse Now” quanto “Um gosto de Armageddon” metaforizam sobre a vida e fazem uma apologia contra a mediocridade, condenando as soluções de compromisso e meias medidas. É lógico que a fita do Coppolla é muito melhor, mais abrangente e complexa do que “Jornada nas Estrelas”, que em episódios posteriores tentaria abordar o Vietnã ou política tentando não ofender ninguém, mas aqui eles sabem que assumir posições e condenar uma sociedade comodista, onde pessoas que querem se mostrar diferentes fazendo tatuagens põem uma borboletinha discreta no tornozelo, pode ser um trabalho sujo, mas que precisa ser feito.

Digno de nota:

- Ninguém menciona o motivo da guerra. Talvez todos já tenham até esquecido.

- O personagem de Uhura ainda não tinha toda a proeminência que teria, ou seria ela, em vez de uma anônima ordenança, a descer com a turma de desembarque no planeta. Posteriormente, a mulher nessas ocasiões seria sempre a ex-amante de Roddenberry, a não ser que circunstâncias de roteiro exigissem uma que morresse ou se apaixonasse.

- Contagem de corpos: um casal de emirinianos que nós vemos ser desintegrados cumprindo a cota de mortes. Tirando “o sal da terra” e os tripulantes que viraram semideuses em “Onde homem nenhum jamais esteve”, a fronteira final não vem fazendo jus a sua fama de moedor de carne. Kirk também ainda não comeu ninguém. O povo ainda era muito inexperiente nessa época.

- Apesar de haver até um embaixador da Federação no episódio, ninguém menciona a Diretriz Primária e Kirk, para salvar sua pele e de seu grupo de desembarque, toma nas mãos o destino material de duas culturas. Os escritores não haviam bolado a diretriz ainda, o roteirista deste episódio convenientemente “esqueceu-a”, ou, como aventou um amigo meu, ela só vale para civilizações que ainda não tenham desenvolvido propulsão warp? Minha hipótese é que, como eles foram atacados num ato de guerra, tinham permissão para reagir à altura da ameaça, que vinha de sociedades tecnológicas e não de neolíticos com atiradeiras.

Amanhã: Inimigo Interior, na visão de Antônio Rogério da Silva, o Roger Filósofo.

maio 11, 2009

Lucinda Matlock

Edgar Lee Masters


I WENT to the dances at Chandlerville,
And played snap-out at Winchester.
One time we changed partners,
Driving home in the moonlight of middle June,
And then I found Davis.
We were married and lived together for seventy years,
Enjoying, working, raising the twelve children,
Eight of whom we lost
Ere I had reached the age of sixty.
I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick,
I made the garden, and for holiday
Rambled over the fields where sang the larks,
And by Spoon River gathering many a shell,
And many a flower and medicinal weed—
Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys.
At ninety-six I had lived enough, that is all,
And passed to a sweet repose.
What is this I hear of sorrow and weariness,
Anger, discontent and drooping hopes?
Degenerate sons and daughters,
Life is too strong for you—
It takes life to love Life.



E minha pobre tradução:


Eu fui aos bailes em Chandlersville
E joguei cartas em Winchester
Uma vez mudamos de parceiros
A caminho de casa sob o luar de junho
E então encontrei Davis
Casamos e vivemos juntos por 70 anos
Divertindo-nos, labutando, criando 12 filhos
Oito dos quais perdemos
Até que alcancei os sessenta anos
Eu fiei, eu bordei, cuidei da casa e dos doentes
E do jardim, e nos momentos de folga
Perambulei pelos campos onde cantam as cotovias
E perto do Rio Spoon, recolhendo conchas
E flores e ervas medicinais
Gritando às colinas verdejantes, cantando para os vales verdes
Aos noventa e seis havia vivido muito, só isso,
E tive finalmente meu doce repouso
E que é isso que ouço de desespero e cansaço
Fúria, descontentamento e esperanças perdidas?
Filhos e filhas degenerados
Vida é forte demais pra vocês –
É preciso uma vida para amar a Vida.

A Fronteira Final - O Novo Filme de JORNADA NAS ESTRELAS


Ca-pi-tão-quir-que! Ca-pi-tão-quir-que! Olê olê olê olá a Frota Estelar tá botando pra quebrar!

O valente editor da Zé Pereira saiu do cinema e comentou com o blogueiro, "e agora, quando é que vamos chutar a bunda de alguns klingons?"

Sim, porque o novo Jornada nas Estrelas é um barato. Mais de um século depois que o pai e a mãe do capitão Kirk passam uma noite animada e cheia de consequências, a estrela de Romulus explode, destrói o planeta e joga no passado um romulano, Nero, e o mais famoso vulcano de todos, Spock, que tentava salvar o planeta. Nero reaparece em frente a uma nave da Federação onde Kirk está nascendo e a destrói, ao descobrir o que lhe aconteceu. O pai do maior capitão estelar da história se sacrifica numa cena belamente redigida e dirigida, comprando tempo pra tripulação se salvar, mas deixando seu filho sem a figura paterna que forjaria seu caráter.

Mas isso não impede que Kirk se torne o James Tiberius a que todos nós estamos acostumados; depois de um período de comportada rebeldia, o capitão Christopher Pike assume o papel de figura paterna e o leva a alistar-se na Frota Estelar. Como a história mudou com a aparição de Nero, a equipe criativa não precisa seguir cada vírgula do cânone de Trek e traz de volta com delicada competência a melhor tripulação a jamais pilotar uma Enterprise.

Em seu tempo muito se escreveu sobre o inusitado (para a época) personagem de Spock, mas para a garotada nerd, como o editor da Zé Pereira e eu, o superstar (depois dos roteiros e do conceito) era mesmo o capitão Kirk. Com sua canastrice encaixada em scripts sofisticados, Shatner encheu de vitalidade a cadeira de comando pra criar um típico oficial de marinha de filme do século XVIII – a semelhança das personalidades de Kirk e Jack Aubrey, o Mestre dos Mares do filme de Russell Crowe é impressionante.

Kirk é inteligente e culto, sabe ter bons modos, mas também se sente à vontade em puteiros espaciais; mulherengo e bem humorado, deve ser ótima companhia pra encher a cara, o que parece gostar de fazer com seus marujos. Gente boa e leal, ainda assim se irrita com facilidade com seus subordinados, devido à falta de paciência típica de quem gosta de aventura. Shatner está quase sempre tenso em quadro, durante os diálogos, como se estivesse esperando para saltar. Embora impulsivo e improvisador, está sempre aberto à opinião dos outros, principalmente de seu grande amigo Spock, com quem veladamente compete pra mostrar quem tem o cérebro maior. Apesar disso tudo, tem disciplina suficiente pra manter a ordem e cumprir suas tarefas burocráticas.

E Chris Pine cria uma versão jovem desse Kirk de tal maneira que a única diferença entre ele e o Shatner da série são alguns anos de experiência. Zachary Quinto também faz um excelente Spock, mas é um personagem mais fácil de recriar. Apenas Karl Urban faz uma verdadeira imitação do dr. McCoy de DeForest Kelley, mas ele mal aparece mesmo, e Zoe Saldana faz uma Uhura mais agressiva, já que simplesmente ter uma oficial mulher (e negra africana!) na ponte não é mais uma ousadia feminista para o público de hoje.

O engenheiro Scott também aparece depois e desaponta os fãs, porque está isolado num posto avançado no cu do mundo há meses e quando aparece gente, em vez de pedir um uísque, pede comida. Malditos tempos politicamente corretos. Há também um Sulu, tão ávido por aventura quanto o original, e Chekov, que na série clássica tinha como únicos traços distintos de personalidade um péssimo sotaque russo e juventude, virou também um supergeniozinho.

Em suma, a velha gangue está toda de volta. Nada da cultura corporativa da Nova Geração. Nada da novela mística de Deep Space Nine ou do jogo duplo diplomático de Janeway e sua galera em Voyager. Este povo do Kirk tem uma nave estelar e sabe como usá-la: botando pra quebrar no espaço. O diferencial de Star Trek era sem dúvida a complexidade de seus temas, mas o que nos levava a nos envolver com aqueles conceitos dos escritores era justamente o ar de espaçonave pirata singrando o cosmo.

O filme tem esse clima, embora obviamente falte a substância cerebral que tanto atraía a galera nerd, meio que impraticável num longametragem de origem, mas a graça é justamente saber que aquele pessoal vai encarar um monte de aventura cabeça. E com toda a impetuosidade de Kirk, a lógica do nerd hipercool Spock, o melodrama de McCoy e... eu ia dizer os coxões da Uhura, mas os padrões de beleza mudaram bastante dos anos 60 pra cá.

Pra quem cresceu com a criação de Gene Roddenberry a fita está cheia de piadinhas particulares sensacionais. O blogueiro e seu amigo Marcos Pedrosa começaram a rir logo na primeira cena de ação: o capitão Pike seleciona pruma missão perigosa Kirk, Sulu e um tripulante desconhecido ("Olson") de camisa vermelha. Aliás, as cenas de ação são, pros padrões atuais, poucas, e com uma estranha direção que tem o peculiar hábito de encenar a porradaria de forma que nós realmente entendemos exatamente o que está se passando.

E há muitas outras piadinhas referenciais: o sotaque fajuto de Chekov, Pike numa cadeira de rodas, Scott sendo ensinado por um viajante do futuro a inventar algo cuja invenção é creditada a ele, e uma das melhores, quando um por um os oficiais de comando saem e vão deixando a Enterprise na mão de gente cada vez menos graduada, até chegar no geniozinho russo de 17 anos, satirizando a mania pouco militar da série clássica de mandar por razões dramáticas todo o pessoal importante da ponte de uma vez pra planetas ou naves potencialmente hostis.

E, prum cara que diz nunca ter gostado de Star Trek, J. J. Abrams pegou mesmo o espírito da coisa, com diálogos que parecem saídos da série original ("Eu citaria um regulamento, mas você o ignoraria mesmo" "Viu? Já estamos nos conhecendo melhor"). Enfim, é um barato. Com excelentes efeitos especiais de bom gosto, uma montagem que permite compreender o que está acontecendo na cena e um design atualizado recauchutando o ótimo conceito cenográfico original, a fita é um excelente recomeço, deixando a gente com vontade de que saia uma nova série de tevê pra não termos que ficar esperando três anos entre um longa e outro. Afinal, estamos todos doidos pra chutar a bunda de uns klingons.

Anteriormente: Inimigo Interior
Amanhã: O espetacular "Um Gosto de Armageddon"

maio 07, 2009

A FRONTEIRA FINAL - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica



Inimigo Interior


Richard Matheson, escritor de fantasia da pesada – autorou “Eu sou a Lenda” e “O incrível homem que encolheu”, entre outros – reciclou uma das obras-primas de Robert Louis Stevenson e dividiu o capitão Kirk em seus lados bom e mau, criando um dos episódios favoritos dos trekkers e que até hoje é tema de centenas de trabalhos a cada semestre nas faculdades de psicologia na Obamalandia.

Uma das grandes vantagens da série original sobre A Nova Geração e seus filhotes é que a parte científica é coadjuvante pras doideiras dos escritores. Assim, Matheson não se dá ao trabalho de explicar como uma máquina que trabalha com a desmontagem e remontagem de moléculas pode criar duplicatas e ainda por cima com personalidades diferentes. O que talvez até seja uma pena, pois ouvir um arcabouço teórico para moléculas boas e moléculas más poderia ser um dos momentos clássicos do show e juntar-se aos quarks “up”, “down”, “charm”, “strange”, “up” e “down” da física de partículas contemporânea. O sr. Spock conta que cobertores enviados para um planeta abaixo também foram replicados, deixando-nos bestuntando como seria um cobertor malvado.

Kirk sai do teletransporte meio zureta e a sala fica vazia. Logo depois ele reaparece, usando uma camisa diferente – além de moléculas boas e moléculas más, ainda tem moléculas guarda-roupa – e um ângulo de câmera de baixo pra cima, em grande angular, com luz infernal (1) deixa bem claro que esse James Tiberius não é boa coisa. Aliás, a direção deste episódio é bem melhor do que o resenhado anteriormente. A iluminação secundária vermelha e azul é usada bem mais expressivamente e não só pra vender recém-lançadas tevês em cores. Há mais movimentos de câmera, algumas tentativas de composições mais elaboradas e maior movimentação dos atores em cena – em suma, a cinematografia é consideravelmente mais dinâmica, o que é ótimo prum episódio que não tem muito suspense e que depende do interesse na instigante situação para prender nossa atenção. Infelizmente continua o abuso de cortes para closes em que os olhares não se dirigem para onde deveriam, com fundo vazio, ignorando o cenário onde se passa a sequência, parecendo um desenho do Rob Liefeld.

Essa história de lado bom e lado mau é um exemplo clássico para o seu “encaixe aqui seu significado”. Matheson, através de Spock, descreve-os literalmente, um como sendo os desejos mais baixos, cruéis, agressivos e mesquinhos (e com todo mundo dizendo a ele que ele é assim não vai melhorar nunca) de Kirk, e o outro com sua bondade, a ternura e a racionalidade. Podem ser o id e o superego, podem ser o complexo-R, o cérebro reptiliano por baixo de nossa mente, e o neocórtex, a massa cinzenta mamífera com sua capacidade de empatia e sua grande capacidade de simbolização, o que você quiser...

Mas a grande sacação para o moleque que eu era, e provavelmente também os pivetes americanos, os jovens adultos e homer-simpsons a quem o programa era dirigido, ainda mais numa época em que a maioria das pessoas ainda era caretaça, foi a ideia de que a energia vital vem do “lado mau”, que é ela quem fornece o combustível para a mente racional. Com o passar do tempo, incapaz de avaliar os dois lados de uma questão e de arriscar suas chances, o “lado bom” torna-se inapto para tomar decisões. Como medir as consequências sem o instinto para lhe dar o parâmetro moral onde basear seus argumentos? Quando o capitão Kirk desvela o ocorrido e decide esclarecer tudo para a tripulação, Spock lhe paga um esporro dizendo que é uma ideia de jerico contar pra marujada que tem dois capitães, ambos meio zuretas, pra comandar a nave. E a conclusão para a garotada assistindo em casa é que valores morais são muito bonitos, mas no mundo real mesmo os heróis carismáticos dependem fundamentalmente de hipocrisia e mentirinhas.

Já o “lado mau” não tem nada disso e de pronto sai pra encher a cara e dar em cima da gostosona de sua ordenança, cuja bunda tanto obseda a tripulação em “O sal da terra”. A ordenança não gosta e quase é estuprada, arranhando o rosto do capitão no processo, o que vai nos ajudar a diferenciar quem é quem no resto do episódio. Quando ela rememora o incidente, confessa que sempre teve uma certa atração por Kirk, mas numa das poucas boas demonstrações da arte de atuar num episódio que pede a William Shatner que seja duplamente canastrão, mas que sentiu-se profundamente degradada. Esse precoce caso de assédio sexual é um avanço sobre a política sexual do programa anterior e numa época em que uma cena clássica de piada era do patrão correndo atrás da secretária em volta de uma mesa (2). Mesmo admitindo seus desejos, a mulher sente-se ultrajada e mais uma vez se ressalta a hipocris... digo, a racionalidade nas relações humanas. Pra compensar, quando as duas metades se defrontam, a “sombra” de Kirk (a interpretação junguiana, que divide a personalidade em quatro, sendo a sombra a projeção de nossos piores defeitos percebidos), apesar de toda sua agressividade, é quem entra em pânico. É a razão que nos leva a superar o medo primal.

Um Papo sobre o episódio de Star Trek - The Original Series:
Enfim, o episódio é tão aberto a interpretações que pode ser até mesmo metáfora pra shows pretensiosos de ficção científica. A mente racional é quem manda, elaborando temas instigantes e relevantes, com ajuda da empatia, que nos leva a nos interessar por aquelas criaturas fictícias a quem tais coisas acontecem, mas como o lado mau é que tem o controle remoto, tem que ter umas brigas, mulheres de microssaia e tiros de laser. A Nova Geração seria uma série clássica sem o lado mau.


Digno de nota:

- Contagem de corpos: só algumas escoriações. Quando o Kirk mau ataca um tripulante que tentou ajudar a ordenança, ele o derruba e o soca fora de quadro. Em DVD fica visível que chega a haver um espirro de sangue.
- Na cena em que os dois capitães se confrontam na ponte, há um erro de continuidade e um deles está com os arranhões no lado direito do rosto.
- No final dos anos 70, início dos 80, Shatner foi o apresentador do Saturday Night Live e fez um esquete em que ia a uma convenção de trekkers e fazia um discurso mandando eles arrumarem uma vida, uma namorada, amigos, saírem da casa dos pais e deixarem de ficar discutindo detalhes irrelevantes de uma velha série de tevê. Os fãs só se acalmam quando alguém diz que na verdade o discurso foi dado pelo capitão mau deste episódio.
- Em uma subtrama, uma patrulha está presa num planeta congelante porque o teletransportador está quebrado. Apesar deles estarem morrendo, não há a menor menção às naves de serviço da Enterprise, como a Galileo, que apareceriam em outros episódios.

(1)No dia a dia estamos acostumados a ver tudo iluminado sempre de cima pra baixo, seja pelo sol, pela iluminação pública ou de casa. Para criar um clima extraordinário e dramático no cinema, diretores de fotografia costumam focar suas lâmpadas baixo pra cima, distorcendo nossa visão usual e dando a impressão de que os personagens recebem uma luz vindo diretamente das entranhas do hades, daí o nome “luz infernal”.
(2)Num desenho de Betty Boop de Max Fleischer, dos anos 30, ela arruma um emprego de secretária com um literal porco gordo e suado que começa a tentar agarrá-la assim que ela entra na sala com seu vestidinho apertadinho. Ela grita por socorro e durante todo o episódio bombeiros e policiais incompetentes tentam ajudá-la, apenas para, quando finalmente abrirem caminho, a encontrarem aos beijos com o suíno, e ela, irritada, fechar a porta (ou a cortina, não me lembro) pra ter privacidade. Um monte de mulheres que o patrão tentou agarrar devem ter achado engraçadíssimo.

Anteriormente: O Sal da Terra;
Amanhã: Se a pré-estreia não estiver lotada quando eu chegar, a resenha do novo longa.

maio 06, 2009

A FRONTEIRA FINAL - Ensaios sobre JORNADA NAS ESTRELAS - A Série Clássica

Episódio da Primeira Temporada de Star Trek - The Original Series


O Sal da Terra



“O sal da terra” não foi o primeiro episódio de “Jornada nas estrelas” a ser filmado, mas o primeiro a ser exibido. Os produtores o acharam o “menos cerebral” disponível pra estreia, com um bom e velho monstro alienígena trans morfo rondando a espaçonave e matando alguns extras. Puro anos 50, com a típica paranoia da Guerra Fria de que qualquer um poderia ser um comunista.

E não só isso. “Man trap” é o título original e mais reaça, já que é um termo usado para mulheres gostosas e aproveitadoras – mulheres fatais, em suma. E o alienígena se passa justamente por uma mulher, ex-namorada do dr. McCoy. Que a vê exatamente como ela era quando se conheceram, enquanto o capitão Kirk a enxerga como uma balzaca um tanto rodada e o tripulante de escolta como uma moça que conheceu num “planeta de prazer” na última parada – caramba, não sabia que se podia falar essas coisas na tevê nos anos 60. Obviamente o escolta não dura muito tempo – quem manda frequentar “planetas de prazer”?

O machismo se espraia pelo episódio. Uhura diz que está cansada da palavra “frequência” e abandona seu posto para flertar com... o sr. Spock! E ainda parece surpresa pela falta de emoções do vulcano. Ela não é uma oficial da frota, ela é uma telefonista! A outra mulher na ponte segura uma bandeja pro capitão Kirk – assim como a ordenança leva a comida para o sr. Sulu. Elas são as moças do cafezinho! A ordenança ainda flerta com tripulantes e quando sai eles ficam olhando para a bunda dela (justiça seja feita, com aqueles coxões e aquela microssaia é difícil de resistir) e imaginando como seria ter aquilo como ordenança. Ela vai servir o almoço e conversar com o sr. Sulu em meio às muitas plantas que ele cultiva, enquanto reclama que todo mundo chama as coisas inanimadas de “ela”. Faz sentido, toda mulher com essa atitude sei-que-sou-gostosa adora ter amigos gays. Como é que eu nunca tinha me tocado da orientação sexual do japa?


Além disso, ainda vemos o dr. McCoy sem conseguir dormir e Kirk sugerindo que ele tome as mesmas pílulas vermelhas que o médico lhe receitara. Uma nave cheia de mulheres flertando, sujeitos que só pensam em comê-las e oficiais drogadões – parece mais minha velha faculdade de jornalismo. Incidentalmente, sempre foi esse clima de nave pirata a grande vantagem da turma dos loucos anos 60 sobre os politicamente corretos da nova geração e sua cultura corporativa.

Felizmente o papel de Uhura aumentaria de importância com o decorrer da série. Roddenberry originalmente queria a ponte com metade de mulheres, mas os produtores negaram, pois sugeriria ao público muito sexo (que 20 anos mais tarde seria um gancho para A Nova Geração). Segundo más línguas, os executivos também achavam que Roddenberry estava menos interessado em igualdade sexual do que em ter mais moças pra paquerar – lembrem-se que ele comeu a Uhura e a enfermeira do McCoy.

Mas se não podia à época ser trazido para primeiro plano, há todo um subtexto sexual no episódio. A cara do monstro, na pele do tripulante Green, quando sobe à nave e vê tantas potenciais vítimas é inegavelmente puro tesão. Ele tenta atrair Uhura dizendo que é a encarnação do que a tenente sonha quando está entediada. Levando-se em conta que ele está literalmente na forma de um mecânico negão, os sonhos dela não parecem ser de ficar vendo o por-do-sol de mãozinhas dadas.

O monstro também matou a ex-namorada de McCoy, que se casou com o cientista que trabalhava nas ruínas de um planeta devastado, mas isso não abala a lealdade do pesquisador, que continua obcecadamente devotado à criatura. E ainda explica que sua esposa também “compreendia” o alienígena. Juntando-se ao discurso de Kirk de que o bom homem de ciências apreciava a companhia de alguém que podia ser sua ex-companheira, seu padrinho, seu mentor, quem ele quisesse, a impressão era de que rolava o maior menage lá naquele astro solitário e que pintou um ciúme entre as duas mocreias. E realmente um extraterrestre assim seria o sonho de muito marmanjo: você comia a Nastassja Kinski e em seguida ela virava um amigo seu pra você poder contar vantagem. Ao fim das contas, não é um episódio tão descerebrado assim, embora esse ângulo seja abordado só em algumas linhas. A discussão sobre aceitação de ilusões para satisfazer nossos desejos talvez também funcionasse melhor se a finada Nancy tivesse morrido de causas naturais.

Cinematograficamente falando, o episódio tem uma produção pobre para uma estreia. A sequência pré-créditos é inegavelmente instigante, mas a direção é paradona demais, parecendo tira de quadrinhos de aventura dos anos 30: plano geral com os personagens imóveis, plano e contra plano em close de quem está falando. A iluminação mistura filtros azuis e vermelhos, tentando imitar os recursos de Mario Bava para disfarçar os fundos lisos e a fotografia chapada. Mas um diretor estático não pode deter a canastrice de William Shatner e em todas as cenas o capitão Kirk está tenso, sempre parecendo pronto a pular, quando não rodando pelo cenário nervoso como um leão enjaulado. Um capitão pirata, sem dúvida.

E há também os pequenos detalhes que aproximam o público dos personagens. Sulu almoça em sua cabine e tem um hobby. Kirk belisca uns salgadinhos enquanto dá ordens na ponte. Mesmo as paquerinhas contribuem para esse clima que ajuda a quebrar o formalismo militarista que Roddenberry queria. Em A Nova Geração ele trabalharia com um elenco menos canastrão e em uma época com maior mentalidade corporativista, mas na série original o espaço ainda era um lugar que exigia aventureiros incapazes de tanta disciplina.


Digno de nota:
- Contagem de corpos: 4 tripulantes, um casal de cientistas, um alienígena.
- O pesquisador diz que a criatura é a última de seu tipo e pode se extinguir como o búfalo americano – que de 1966 pra cá em vez de sumir aumentou muito de número.
- Apesar das balzacas Uhura e Janice Rand deixarem bem à mostra seus belos coxões, algumas figurantes aparecem usando calças. Aparentemente quem não passa no teste da microssaia ganha uma camisa bege e um par de calças.

Anteriormente: Uma Peculiar Variedade de Diplomacia e Uma Introdução;

Amanhã: Inimigo Interior

maio 05, 2009

A FRONTEIRA FINAL - A Primeira Temporada de JORNADA NAS ESTRELAS - A série clássica

Um papo sobre alguns episódios da primeira temporada da TOS (The Original Series)

“Apenas praticando uma variedade peculiar de diplomacia”
(Capitão Kirk, ao descarregar todos seus canhões phaser contra um planeta hostil)

O Fator Alternativo
Um Gosto de Armageddon
Semente do Espaço

Blogueiro Convidado: Marcos Pedrosa*
* A opinião dos blogueiros convidados não reflete necessariamente a do blogueiro titular


A “Primeira Diretriz”, aquela que proibia a Enterprise de intervir em assuntos internos de outras civilizações, era como a lei do Jânio que proibiu biquini nas praias: simplesmente não pegou.



E por isso a primeira temporada de Star Trek, a original, a verdadeira, a mítica, a nérdica, é tão empolgante. Kirk, Spock, McCoy e companhia não entravam nessa de “respeitar outras visões de mundo”, “aceitar diferenças”, “caminhar rumo ao multiculturalismo” se isto significasse se omitir em libertar povos inteiros de tiranias burocráticas (“Gosto de Armagedon”), impedir utopias cientificistas do tipo super-homem (“Sementes do Espaço”) ou salvar dois universos do colapso total (“Lazarus”). A série começou a ser produzida em 1966, portanto antes do politicamente correto, quando o século 23 era uma época em que se podia confiar. “Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de 5 anos para descobrir novos planetas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. Não “cautelosamente indo” nem “diplomaticamente indo”. Aliás, em “Gosto de Armagedon”, é o embaixador da Federação, um tipinho repulsivo e arrogante, de modos aristocráticos e pouco viris, quem paga o maior mico ao ser enganado pelas vãs promessas de paz do Ahmadinej..., quero dizer, do primeiro-ministro do planeta em guerra virtual (com bilhões de mortes reais) há 500 anos.

Não que a Enterprise fosse militarista ou habitada por brucutus ou seu capitão se chamasse Nascimento. A trinca de oficiais superiores se envolve em discussões que vão de Platão a Einstein, Clausewitz a Napoleão, Nietzsche a John Milton, tudo isso em apenas TRÊS episódios (os que eu assisti, são 26 no total), e só usa a força como último recurso. Só que eles tinham bons princípios e armas melhores ainda - e não toleravam opressão, injustiça, crime. Embora nem sempre usassem esse poderio para defender a própria integridade: você já viu 4 tripulantes do setor de segurança ficarem apenas observando o seu capitão lutar sozinho contra um maníaco que pretende destruir o universo ? E quando esse mesmo maníaco ameaça em alto e bom som, pra geral da galáxia ouvir, que vai roubar a principal fonte de energia da nave, ninguém coloca o cara sob custódia em seus aposentos, deixam-no passear soltinho pelos corredores da Enterprise e roubar a principal fonte de energia da nave.


É interessante observar como, logo na primeira temporada, os personagens principais e as interações entre eles já estavam perfeitamente delineados: o Senhor Spock é o falso frio, mal disfarçando num movimento de sobrancelhas toda sua impaciência com os argumentos “ilógicos” do Doutor McCoy, o idealista apaixonado, mordaz e arguto que frequentemente recebe o apoio do Capitão James Tiberius Kirk para zoar o vulcano. O humor está sempre presente, mas perfeitamente inserido na trama (numa cena engraçadíssima, Spock distrai o guarda inimigo com um inusitado “Senhor, há uma criatura de múltiplas pernas rastejando pelo seu ombro”, para que o guarda vire o rosto e deixe o outro ombro exposto para o famoso golpe de desacordar). Ao contrário da maioria das séries dos dias atuais, a narrativa é inteiramente não-naturalista. Sempre na abertura, nos primeiros 50 segundos de cada episódio, o telespectador já é informado do plot e vai-se nesse ritmo alucinante até o fim. Não se perde tempo mostrando o Capitão acordando ao lado de alguma ordenança, os tripulantes secundários conversando sobre a noitada da véspera ou o Spock limpando os ouvidos com cotonete (ei, mas esta até que seria uma cena engraçada, anota aí pro próximo filme). Não tem nada a ver também com algumas das séries que foram sua seqüência: Nova Geração ou o chatíssimo Deep Space Nine, onde se perde um tempo enorme com reuniões de condomínio e o cotidiano de uma estação espacial – raios, se você quer ver cotidiano, pra que diabos pegar uma nave espacial e viajar milhões de anos-luz pra longe do planeta natal?

Cara, esse novo filme vai ter que ser bom mesmo.

Anteriormente: Jornada nas Estrelas - Uma Introdução
Amanhã: Começam as resenhas de cada episódio, principando pelo primeiro a ser exibido, "O Sal da Terra".

maio 04, 2009

O Poema Bipolar

Playground e balões e começo de noite
Primeiro aniversário do filho de minha prima
Andando um pouco se chega à escada e as paredes
Estão nuas
E sem balões

No canto dos olhos, na fresta da visão,
no limiar do que se enxerga sob a luz
Sombras de outras eras passam,
Rápidas demais, indetectadas, inobservadas
Ignoradas por todos os outros

Um homem comenta comigo sobre travestis e homossexualidade
E que ele jamais seria homossexual porque tem pêlos, muitos pêlos
É tudo genética, ele explica, por isso travestis são lisinhos
(Eles não se depilam?)
Pergunto se todos os índios são gays
E ele diz que índios são diferentes

Miles Davis e Gil Evans e o concerto de Aranjuez
Somos todos profissionais aqui
Pais, mães e avós e tios
E perto da escada tudo permanece vazio

Sombras passam nas frestas, nas brechas
Nos cantos dos envolventes sorrisos quentes
Um amigo meu que morreu de overdose dois anos atrás
Passa incólume e indiferente como sempre
frente a essa gente

Os balões estouram
E as crianças devem se assustar
Mas os pais, os pais todos riem
Uma jovem de belos seios tira um deles para amamentar
Somos todos profissionais aqui

Economistas neoliberais de botequim explicam
A incerteza e a prisão do cooperativismo
Eleitores de Lula culpam os tucanos de tudo
Tudo posto assim em preto e branco
As sombras que passam são negras
E ao caminhar em direção à luz você encontra seus parentes mortos

A verdade, afinal, qual é a verdade?
Abracem-me, dúvidas, destruam meus profundos conhecimentos
Faça-me gargalhar
(para espanto geral)
Com o teatro de fantoches
Pelo qual o pai pagou tão caro
Distraia-me dos belos seios da mãe amamentando
(Será que ela não queria chamar a atenção de ninguém)

Perto da escada
Fumando um cigarro
Uma última moça de blusa e saia curte o cigarro
(Não se deve fumar perto de tanta criança)
Ela sorri quando eu chego perto
Como uma amiga minha internada
Que também não me reconhece
Mas sempre sorri feliz quando chego

Não falo nada
Meu amigo morto de overdose já teria puxado conversa

Ela se vai
Sombra luminosa em paredes sem balões
(Como já as outras vão ficando enquanto vão estourando)

Advogada e poetisa,
Minha prima explica depois
Uma história triste, você não ouviu?
O pai largou a mãe, a mãe ligou o gás
Com ela e a irmã em casa
Mas mudou de idéia ao ver as filhas vomitando

Que ela vote no PSDB
Que ela coma nos restaurantes indicados pelo RioShow
E veja filmes búlgaros que o bonequinhos aplaudiu de pé
Pode fingir gostar de filmes que pessoas inteligentes gostam
Pode fingir apreciar jazz e Marisa Monte e Miles Davis e Gil Evans
Porque ela talvez ao fim
Até goste
Ela já esteve lá
Ela já viu nem que fosse por um momento
Ela já esteve lá
Ela já esteve aqui
Comigo

Comigo

Comigo

Na fronteira da sensação de impotência

E onipotência

Onde na periferia da visão as sombras caminham em um
fugidio instante de tempo

Como nós
vivemos num fugidio instante do tempo

E mais balões estouram ao som de risadas

(E eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo)

A FRONTEIRA FINAL - Ensaios sobre JORNADA NAS ESTRELAS - A Série Clássica

A Primeira Temporada de "Star Trek" (The Original Series) - A Série Original

Parte I: Uma Introdução




O povo de hoje não tem ideia do impacto de “Jornada nas Estrelas” para quem até então de ficção científica só conhecia coisas como “Perdidos no Espaço” e “Thunderbirds”. O primeiro sempre foi ridículo e o último muito bom, mas só o fato de ser feito com bonequinhos já deixava claro a quem se destinava. Já a criação de Gene Roddenberry até pode ter sido adotada de coração pela garotada, mas um dos motivos foi justamente por sua pretensão e megalomania, tentando – e conseguindo – criar um universo próprio para apresentar temas complexos e discussões profundas.

É claro que esses temas complexos podem hoje parecer ingênuos, mas perto de “Perdidos no Espaço” ou mesmo as séries de aventuras e policiais de 1966, “Jornada nas Estrelas” está literalmente anos-luz adiante. O que nós tínhamos como parâmetro até então de viagem no espaço eram aqueles filmes B com cenários que, se alguém tropeçasse caía tudo, com todo mundo de macacões farfalhantes prateados e os controles eram duas alavancas, um volante de direção e um radarscópio no meio. Tudo isso em naves de 20, 30 metros de comprimento.

Enquanto isso, a Enterprise já começava revolucionando no design. Não era um disco voador e nem era um foguete. Não tinha caudas, asas, estabilizadores, nada disso. E era gigantesca. Ela não era uma daquelas navezinhas carregando um bando de “puny earthlings” para serem joguetes na mão de qualquer marcianinho com uma pistolinha laser, não, ela era uma sofisticadíssima máquina capaz de obliterar todo um planeta. Que “o dia em que a Terra parou” nada, era o capitão Kirk quem pousava em outros mundos e dizia que se eles não se comportassem iam ter que se ver com a Federação!

E, importantíssimo, a tripulação era de quase 500 pessoas, o que fornecia bastante provisão para a máquina de moer carne que era a exploração interplanetária. Refletindo a guerra diária do Vietnã servida com o jantar nos noticiários de tevê – raios, até eu, aqui no Brasil, me senti estranho quando soube que não mais teria filminhos de guerra no Jornal Nacional por causa da paz - “Jornada nas Estrelas” tinha mortes, muitas mortes, o tempo todo, e a maioria delas do lado dos mocinhos! Até mesmo séries de guerra, como “Ratos do Deserto”, deixavam todo o seu pessoal incólume ao final. A primeira vez em que vi um longa de guerra fiquei chocado ao ver um dos mocinhos morrer e fiquei esperando que ele reaparecesse mais tarde com uma explicação intrincada ou dissesse que estava simplesmente fingindo.

Se não bastassem todas essas mortes pra deixar bem claro ao espectador que o assunto era sério, ainda tinha todo o aparato tecnológico. A ponte da Enterprise não tinha um radarscópio. Nem ao menos tinha uma janela, levando-nos a raciocinar como realmente seria ridículo ter um parabrisa naquele leviatã. Tinha uma tela, com função bastante semelhante aos visores hud nos aviões de combate de hoje. Servia como comunicador, alça de mira e visor. Em frente a ela, a cadeira de capitão, no centro de uma estrutura circular com oficiais em seus bem definidos postos. Ao contrário de “Perdidos no Espaço” e congêneres, podíamos declinar quem fazia o quê e qual era o seu cargo. Ordenanças e ajudantes carregavam peças de equipamento, como o diário de bordo, para os comandantes.

E a maneira como os viventes todos se relacionavam com as geringonças também era perfeita. Ninguém segurava as armas com cuidado como se fosse algo que nunca tivesse visto. Os atores batiam nos botões com as palmas das mãos, sem nem olhar. Avançavam pelas portas automáticas como se tivessem a certeza que elas sempre abririam. Beliscavam enquanto operavam computadores. Tudo isso ajudava a criar uma ilusão de realismo, de que aquele era o mundo ordinário em que viviam e que nada daquilo os impressionava. Bastava ver o desleixo com que Kirk abria seu comunicador, como se fosse um Zippo, dando um golpe de pulso para desdobrar o flip e ativar o bichinho, com seu tradicional ruído. O comunicador, aliás, é um capítulo à parte. Tão bem desenhado que se tornou imediatamente reconhecível mesmo por quem não era fã do show, foi a inspiração para a criação dos primeiros celulares flip da Motorola, que substituíram aqueles pesados tijolões anteriores. O próprio nome do aparelho, Star Tac, era justamente para referenciar de onde eles tinham tirado a ideia.

E entre eles os personagens se tratavam com um formalismo que, se hoje soa avacalhado demais, na época era sem precedente. A primeira vez em que o blogueiro viu Star Trek, o que mais lhe chamou a atenção foi o uso dos títulos: ninguém era Kirk, Spock ou Uhura, mas sim “capitão” Kirk, “senhor” Spock, ou “tenente” Uhura, sempre enunciados com uma certa frieza. Parecia que ninguém era amigo ali, o que, é claro, não era o caso, mas frente ao clima de família em feriado de “Perdidos no Espaço” era outro universo.

Tudo isso, bem como os procedimentos padrão, estavam presentes numa ficção científica dos anos 50, provavelmente a melhor fita do gênero da década, o clássico “Planeta Proibido”. Lá também o disco voador não era de invasores, mas de humanos, a nave seguia regras militares, havia postos bem definidos, um capitão espada e matador, um médico grande amigo dele e um engenheiro chefe capaz de operar milagres. Roddenberry, ex-milico, adorou o conceito, e mais ainda o roteiro, que se valia de uma história de suspense, um monstro invisível e assassino que matava vários tripulantes secundários, para na verdade fazer uma adaptação de “A Tempestade”, de Shakespeare, trazendo para primeiro plano o tema de incesto e abordando temas filosóficos como o papel do desejo, ou seja, passeando pela mesma temática do posterior filme cabeça “Solaris”, só que de maneira bem mais divertida.

Reunindo um naipe de escritores de responsa para um gênero tão pouco respeitado, Roddenberry uniu-os em torno de sua visão positivista de ex-milico. Tão positivista que o lema da Federação poderia ser o dístico da bandeira brasileira, “ordem e progresso”. O humanismo agnóstico do criador de Star Trek o impediria de cair na armadilha hiperconservadora do pensamento militar que tantas ditaduras criou na época. A Enterprise não sonda o espaço para criar um império, comercial ou político, mas para aumentar o conhecimento da humanidade e assim melhorá-la, num futuro em que a cooperação entre as pessoas, em vez da competição, fez do autoaprimoramento o grande objetivo social e criou uma fartura tão sem precedentes que tornou a propriedade privada e o dinheiro obsoletos. Mas essa parte filosófica vai ser melhor desenvolvida pelo Antônio Rogério da Silva, o Roger Filósofo.

É claro que esse autoaprimoramento requer também lazer, o que inclui sexo. O blogueiro, que há muito tempo não via com atenção os episódios do começo da franquia, ficou surpreso com todo o subtexto sexual da série, atípico dos anos 60. A maior parte dessas alusões lhe passou desapercebida quando era fã contumaz do programa porque... bem, como bom nerd espectador de “Jornada nas Estrelas”, ele não tinha comido ninguém e lhe faltavam as referências...

Mas esse tempo já passou e, embora hoje a série original possa ter um ar antiquado aos espectadores de hoje, devido a seus efeitos especiais ruins mesmo para a época (compare-os com os de “Thunderbirds”, por exemplo), uma certa ingenuidade nos roteiros (os altamente treinados oficiais da Frota Estelar têm uma incrível tendência a deixar alienígenas perigosos rodando sem escolta ou segurança na nave) e lutas pessimamente coreografadas, o que se tornou uma marca registrada do seriado. Mas porradaria e efeitos não eram o cerne do programa. A direção de tevê de então ainda era bastante cinematográfica e a iluminação ainda não se tornara a monotonia chapada que iria dominar os anos 70 e 80. Com excelentes histórias e bons personagens, os diretores podiam manter o interesse apenas com diálogos e ação dramática, em vez de ter que enxertar cortes rápidos de igualmente inverossímeis brigas em kung-fu. Daqui a alguns anos certamente o público vai achar ridícula a tevê dos anos 90 e 2000, em que qualquer marginal de rua é um mestre em artes marciais e fica bloqueando soquinhos à distância em vez de se atracar com o oponente e rolar pelo chão mordendo e batendo como puder.

Numa época em que as referências de ficção científica eram uma bicha velha tentando aliciar um garotinho, no meio de uma família que parecia mais estar viajando num trailer num feriadão em vez de perdidos no espaço, e o programa mais parecido com uma organização militar era um submarino comandado por um almirante que às vezes virava lobisomem, Jornada nas Estrelas tornou-se um marco tão grande, tão imitado, que pode não se perceber o quanto foi revolucionário na época. Os programas anteriores mostravam o cosmos como os mares pareciam às pessoas comuns no início das Grandes Navegações: cheio de monstros e hostil, explorado apenas por um punhado de aventureiros indisciplinados. “Jornada nas Estrelas” seria o primeiro show de tevê a ter um universo já bem mapeado e explorado, embora ainda romântico e misterioso. Como parecia à humanidade o mundo no começo da Revolução Industrial.

Mas... estou me contendo pra não dizer que eles audaciosamente foram onde nenhum programa de televisão jamais tinha ido, mas não vou fazer isso. Aquela turma de um futuro utópico, com preocupações outras que não ir trabalhar todo dia pra trazer um dinheirinho pra casa e comprar um carro novo, e que ensinava aos nerds que havia um lugar para todo o mundo, com a humanidade transformada numa enorme família funcional, foi pra muita gente da minha geração o primeiro contato com o pensamento provocador, quando muita gente acreditava que o eterno destino da tevê fosse ser um aparelho alienante e emburrecedor.



Amanhã: "Praticando uma Variedade Peculiar de Diplomacia", pelo blogueiro convidado Marcos Pedrosa.

maio 02, 2009

Dilbert.com
É, eu tentei... vai ter que clicar na imagem pra ler o último quadrinho.