março 12, 2012

Xereta, Xereta, Xereta!!!!

Todo mundo sempre gostou de fotos. O problema é que antigamente você tinha que comprar uma câmera cara, filme e ainda pagar a revelação. Como meu pai me disse quando eu tinha uns 7, 8 anos, “fotografia é um hobby muito caro”. Até os flashes eram caros, o que propiciou o surgimento do magicubo. Quando tento explicar pra nova geração o que era isso eles arregalam os olhos em pura incredulidade, mas já, já, chego lá. Voltemos às câmeras. Ainda por cima elas eram pesadas, grandes e complicadas de usar. O candidato a fotógrafo precisava saber o que significavam palavras como “diafragma”, “distância focal” e “profundidade de campo”. O termo “velocidade”, então, era uma covardia contra o povo que, em sua maioria, até hoje ainda fica dando espaços pra centralizar textos em computador. Tinha a velocidade do obturador, do filme e da lente, e cada uma tinha um significado diferente.

Levando-se em conta que, uma vez que você tenha um computador e uma câmera digital, que hoje em dia vem em qualquer telefone e MP3, o seu gasto com fotos é zero. Os chatos luditas, aquele mesmo povo que dizia que a câmera digital jamais substituiria a de filme (o Zé, por exemplo, indignava-se quando eu dizia isso e atualmente carrega pra todo lado sua point-and-shoot pra nunca perder a oportunidade de uma boa fotografia), adoram criticar essa geração que clica tudo e filma tudo. Mas na boa, se formos raciocinar sensatamente, muito mais fanática éramos nós, que queimávamos uma grana preta pela chance de ter uma imagenzinha. Sim, apenas pela chance, porque não se via na hora como tinha ficado a foto e ela podia ter queimado, tremido, ou borrado além de qualquer reconhecimento.

Também se fala que a qualidade das câmeras digitais é inferior à de filmes. Hoje em dia este é um ponto extremamente discutível, mas mesmo assim, pra maioria das pessoas, que não tinha grana pra comprar um corpo Leica, lentes Zeiss e trabalhar com slides, as imagens obtidas não chegavam aos pés do que seu celular pode fazer. Sim, slides, pois negativos precisavam ser ampliados, o que basicamente era uma foto de uma foto, o que piorava o resultado final.

Mas foi um longo caminho chegar até essas maquininhas maravilhosas que proporcionam montes de diversão pra tanta gente – e, explicavelmente, quando o povão consegue mais meios de se divertir, aquela turma mais elitista sempre fica irritada que as coisas eram muito melhores antigamente etc etc. E, mesmo que isso não tenha nenhum interesse pra você, leitor do blogue, vou começar minha jornada sentimental pelo mundo da fotografia. Começando pela minha primeira máquina. A Xereta. Uma grande campanha de marquetingue, um novo formato de filme facilitando o uso de câmeras e o inacreditável magicubo tornaram-se tão icônicas que a palavra “xereta” até pelo menos recentemente ainda era usada pra denominar as câmeras mais simples e portáteis.

Como eu expliquei anteriormente, as câmeras eram difíceis de usar, caras, grandes e pesadas. Até que nos anos 1960, a Kodak, pra alavancar a venda de filmes, assim como fizera no início do século com a sua Brownie, lançou a linha Instamatic. Eram câmeras de plástico, com visor direto, sem espelho, foco fixo e angular e, pra facilitar as coisas ainda mais, o filme vinha dentro de um cartucho. Assim, não era preciso nem o trabalho de carregar a película (1). Bastava encaixar o cartucho dentro da máquina e pronto.

Pra baratear a coisa ainda mais, a Kodak criou o filme 110 no começo dos anos 70. Ele era consideravelmente menor que o filme de cartucho anterior, o 126, o que permitia câmeras ainda menores. Assim surgiu a Xereta, ou a Instamatic 101. Seu tamanho, tão pequeno quanto o preço, era irresistível pra crianças. E foi assim que pedi uma de Natal quando tinha 9 anos.

O cartucho de filme 110. As câmeras de 35 mm tinham uma mola que pressionava uma chapa contra as costas do filme pra mantê-lo plano. Já o 110 dispunha apenas da boa vontade do cartucho para isso, o que piorava ainda mais a qualidade que podia ser obtida a partir de um negativo tão pequeno.

Repare na janela que avisava em que foto o rolo estava ou que era necessário avançar o filme.

ando como uma câmera miniatura podia flagrar as situações mais engraças aumentaram ainda mais minha vontade de ter uma. E fotografia, como já disse antes, é uma tremenda diversão. Sermos seres basicamente visuais, ao invés da dependência do olfato de quase todos os outros, é um dos motivos que nos fez racionais. Então, a vontade de guardar imagens é intuitiva e instintiva entre nós! E eu nunca saberia usar aquela reflex do meu pai, com suas lentes de trocar, inúmeros controles e botões e até mesmo um outro troço que você tinha que apontar antes de bater o retrato. Só olhar por aquele visor escuro e dividido com o que me parecia uma alça de mira já me parecia complicado.

Mas a Xereta. Ah, a Xereta. Seu visor direto não tinha marca nenhuma. Minto, tinha umas marquinhas pra corrigir a paralaxe em fotos próximas, já que o visor não via exatamente o mesmo que a lente. Isto até eu podia entender. Só tinha dois ajustes: dia de sol e dia nublado. E uma janelinha na traseira me avisava quantas fotos eu já tinha tirado. Era apertar o disparador, empurrar um controle deslizante embaixo pra avançar o filme (enquanto tivesse setinhas na janelinha) até o próximo número. E pronto.

A minúscula lente da Xereta e o visor direto. Em cima dela, os dois círculos são o disparador e a sapata para o magicubo. A chave é um ajuste para o diafragma de duas posições: sol e nublado.

Obviamente, com um negativo tão pequeno, uma lente tão limitada e sem a mola traseira, a foto não tinha muita qualidade. Devido ao cartucho, o 110 era mais caro do que o 135. Uma vez eu consegui comprar um filme de slides, mas a lente escura fez eu queimá-lo todo por usá-lo em tarde nublada.

A Xereta e seu kit: um filme colorido de 12 fotos, um magicubo, uma pulseira. Falta nesse estojo o extensor do flash, que pode ser visto abaixo. Teoricamente, o extensor deveria evitar o brilho vermelho nos olhos dos fotografados, mas na prática não funcionava. Até hoje consigo me lembrar do cheiro dessa caixinha.

Aliás, a quantidade de fotos perdidas me irritava profundamente. Lembro de ter tirado uma na Floresta da Tijuca que se perdeu porque estava na sombra, apesar de ser um dia claríssimo. E isso porque era filme preto e branco, com mais latitude do que o colorido. Na minha cabeça, eu queimava essas fotografias porque não tinha flash. E não tinha flash porque ele também era caro. Era descartável.

O magicubo, que deixa a garotada de hoje tão surpresa, era um cubo (dã) com um encaixe embaixo e uma tampa em cima. As outras quatro faces eram lâmpadas disparadas mecanicamente, usando fulminato de mercúrio como praimer. Se um garoto de 10 anos já tinha dificuldade pra comprar filmes (que eram muito caros na época), somar a isso ainda esses magicubos que eram mais caros que a película tornavam a fotografia um hobby muito caro. O que me levava a usar a câmera muito pouco.



O magicubo é o da esquerda, o da direita é seu antecessor, o flashcubo. O magicubo não precisava de eletricidade. Quando você apertava o disparador, uma lingueta subia da câmera e se introduzia entre aquelas fendas na base do cubo e liberava uma mola que batia num fulminato e ativava a lâmpada. Ao avançar o filme, o cubo girava automaticamente pra próxima face.



E, quando a usava, o resultado era ao nível disso aí embaixo. Imagens sem nitidez e granuladas. O único filme colorido que usei foi o que veio no estojo com a máquina. As cores eram puxadas para o magenta e borradas. O sistema ótico era muito primitivo pra coisa melhor, mas qual o moleque que realmente se importava com isso quando a alternativa era aprender a usar uma reflex?

Eu comecei a ficar cada vez mais obcecado em arrumar uma maneira de usar um flash de verdade na Xereta. Eu achava que com ele não perderia mais fotos (certa vez, de 12 poses só consegui 3). E embora flashes de verdades fossem caríssimos, quase o preço de uma câmera, meu pai já tinha um. Vi anúncios de adaptadores de magicubos para flash, mas nunca consegui achar o produto.




Até que descobri que câmeras como a Olympus Trip já vinham com fotômetros. Elas mediam a luz e diziam se a foto ia sair ou não. Inacreditável! Não tinha como perder filme à toa assim! Era uma dessas que eu queria. Mas as Olympus eram muito caras. Mesmo meus pais já tendo melhorado de vida nos 4 anos que separaram as duas máquinas, o preço ainda era um tanto salgado e um primo é que trouxe a minha do... Paraguay! O que só mostra como somos preconceituosos – a bichinha está comigo até hoje e ainda funciona. E vai ser o assunto do próximo capítulo.

(1) Pensa que carregar o filme era uma tarefa que qualquer idiota podia fazer? Antes de uma viagem no final dos anos 80, início dos anos 90, minha irmã comprou um filme pra sua câmera automática, mas não sabia como carregá-lo. Eu me ofereci pra fazê-lo, mas ela achou melhor que o cara da loja o fizesse. Ele olhou pra câmera, pro filme, com uma cara de quem não sabia se cortava o fio azul ou o vermelho, botou ele dentor da máquina e fechou a tampa. O filme ficou solto e minha irmã não iria bater nenhuma foto se eu não tivesse visto e consertado.


1 comentário:

Nicole Puzzi disse...

Eu tive uma xereta