junho 30, 2008

Festa à Fantasia


Arnaldo chamou os amigos para a "Festa da Cabeça", onde as pessoas deveriam ir com alguma coisa na cabeça. Nerds que são os amigos dele, não resistiram a ir como super-heróis.

Sim, já que eu iria de chapéu, que combina com paletó, resolvi logo botar a gravata. Assim, acrescentando-se uma máscara e luvas de couro... THE SPIRIT! (um tanto gordinho, como se tivesse sido filmado em formato acadêmico e exibido numa tevê widescreen...)

Na altura tardia da chegada do Arnaldo, que tirou essas fotos com seu Nokia 95, mas deve ter feito alguma coisa errada, eu já tinha tirado o paletó pra minha costumeira exagerada dança, com Livia Rosa.
Por falar nisso, a Marvel Comics promete disponibilizar TODAS as suas revistas já publicadas para leitura pela Web (pelo módico preço de 60 dólares anuais). ~Só os últimos seis meses não ficariam disponíveis. Mais informações em http://www.marvel.com/ (procure digital comics).

Alô, Nerds! Quadrinhos de Primeira Grátis!


Warren Ellis, o escritor de AUTHORITY, PLANETARY, PESADELO SUPREMO e NEXT WAVE, está disponibillizando Freak Angels online. A cada semana um novo episódio é postado. Esqueci agora o nome do desenhista, mas pela página acima, do primeiro capítulo, dá pra ver que o cara é bom. O endereço é www.freakangels.com

Tevê em Alta Definição

Comprei por 650 reais o conversor Zirok na República do Líbano 42 (1) pra ver tevê em alta definição (transmissão digital a Net e a Sky já têm; pode ser feita em qualquer resolução, inclusive com uma imagem pior do que a das tevês abertas atuais). Quem acompanha o blogue já sabe que já tenho uma tela de plasma HDTV.

Só tem a Rede Tv! e a Globo no momento em alta definição. Eu não via tevê aberta há anos e fiquei chocado. A Rede TV simplesmente não tem programação. É um sujeito falando pra câmera durante metade do tempo e na outra metade a reprise disso. Mas a imagem é duca, parece até vídeo promocional de HD, de tão nítida, colorida e perfeita.

Já a Globo, na novela, que é das raras coisas que eles transmitem em HD (High Definition), eles aplicam tantos filtros difusores que só em texturas e detalhes de folhas nos cenários é que podemos realmente descobrir a alta definição.

Oficialmente esses filtros são aplicados para dar às produções da casa a "textura de película", ficar parecendo um filme. Extra-oficialmente diz-se que os atores - principalmente os mais velhos, veja a Glória Menezes em A FAVORITA, por exemplo - chiaram com a aparência que sua pele e marcas no rosto ficavam em 2 megapixels de resolução, daí a suavização da imagem. Aliás, consta que Sílvio Santos, no SBT, ao se ver filmado, vetou a produção do seu programa em HD.

Estou esperando a Band HD, que promete estrear no Rio com doze horas de Olimpíada por dia em alta resolução. Porque, até agora, de bom mesmo só o futebol em alta, que com o enquadramento widescreen, em tela de 50 polegadas e tudo nítido, simula quase uma visão da arquibancada do Maraca, lugar que frequento cada vez menos por ter o bicho encolhido e ser necessário fazer reserva com duas semanas de antecedência pra ver qualquer partida que valha a pena.

Só por curiosidade: antes de começar pra valer o processo de encolhimento do Maracanã, alguém já tinha perdido um jogo por ele estar com a lotação esgotada?

(1) A Eletrônica Mundial, apesar de pequena, atende muito bem e tira qualquer dúvida. O conversor Zirok é feio e de uma marca desconhecida, mas pode comprar sem medo. É um dos nomes de fantasia da Zinwell, que é a empresa que fabrica, neste momento, TODOS os conversores à venda. A Philips, por exemplo, só põe a marquinha (e usa uma caixinha mais bonita) e o firmware nele.

O único conversor ainda à venda que não é fabricado pela Zinwell e revendido por outra empresa é o da Positivo, que é justamente O PIOR deles, com problemas de recepção que só agora começam a ser resolvidos com um upgrade de firmware.

Bill Gates Muda Seu Enfoque de Dominação Mundial

Quando o Bill Gates avisou que ia deixar a presidência da Microsoft (1) para se dedicar a ajudar a humanidade através da fundação Bill & Melinda Gates, calhou d'eu assistir a um pedaço do Manhattan Connection, coisa que não costumo fazer porque só fui assinar tevê depois da morte do Paulo Francis.

Pois nesse dia perguntaram ao filho do ocultador de assassinos, Diogo Mainardi, o que achava da idéia do então homem mais rico do mundo se dedicar a combater o mal e a injustiça. O rapaz, com seu conhecimento geral superficial, típico de quem aprende muito através de fontes de segunda e terceira mão (a famosa "cultura de almanaque"), saiu-se com uma que Gates já tinha feito mais do que o suficiente pela humanidade com a Microsoft.

Tudo bem, apesar de querer parecer, Diogo Mainardi não é um nerd. Se o fosse, saberia que a Microsoft é, inegavelmente, uma empresa competentíssima e que soube aproveitar perfeitamente a onda de desregulamentação do mercado para crescer (é famosa a frase de Bill Gates no começo dos anos 90, "o Windows não estará pronto enquanto o Lotus 1-2-3 puder rodar nele. O Lotus era então o programa mais vendido para computadores; planilhas eletrônicas eram então praticamente a única verdadeira razão para empresas investirem em informática).

Pra começar, mesmo o ponto de virada da Microsoft, o programa que fez sua fama e construiu sua fortuna, o DOS, o sistema operacional que vinha de fábrica nos primeiros IBM PCs, não era da empresa. Na época, quem dominava esse mercado nos micros de 8 bits era o CP/M (embora cada máquina viesse com seu próprio OS de fábrica gravado numa EPROM, você poderia carregar outro sistema). No entanto, nessa época os programadores eram malucos (na Lotus os empregados tinham sessões de meditação) beleza e o dono do aplicativo esqueceu da reunião com os executivos da IBM porque estava brincando de ultraleve. A esposa dele tentou contornar a situação, mas não conseguiu.

Foi então que Bill Gates teve sua chance de ouro. Procurou a Big Blue e vendeu um sistema operacional pra ela. Só que ele NÃO TINHA um sistema operacional. Assim que saiu da reunião, foi à casa de um sujeito que tinha um, chamado Q-DOS (de Quick Disk Operating System, mas, segundo as más línguas, queria dizer Quick and Dirty Operating System) e comprou-o por alguns milhares de dólares, em seu caminho rumo ao seu primeiro milhão!!!!

O que mais teria ele feito pela humanidade? O Windows, todo mundo sabe, é uma cópia malfeita do sistema operacional do Apple Mac (que, por sua vez, roubou a idéia da interface gráfica da Xerox). As primeiras versões, até o Windows 3.11, eram um programa que rodava por cima do verdadeiro sistema operacional, o DOS, baseado em caracteres. Nesta época existia o DR-DOS, da Digital Research, que permitia multitarefa, ao contrário do DOS, e rodava em máquinas bem menos robustas que aquelas exigidas pelo Windows. Pois não é que a Microsoft criou um executável que dizia que poderia haver problemas de compatibilidade quando alguém tentava carregar as janelas por cima do DR-DOS?

Carregar a interface gráfica por cima do DOS, não planejado para isso, era uma verdadeira confusão. O DOS só gerenciava 640 K, enquanto as janelinhas manipulavam com destreza os novos pentes de memória com megabytes disponíveis. Por isso, era preciso que parte do Windows instalasse primeiro o gerenciador de memória no espaço disponível para então poder se carregar. Era a época do gerenciamento dos programas residentes nas páginas de memória estendia entre os 640 K e o primeiro megabyte, que por problemas de desenho, ficavam à toa e começaram a ser usados com esse fim. Levava um tempão, nunca dava certo e você sempre ficava devendo alguns kbytes, além de exigir um tremendo conhecimento de informática.

Pra diminuir a complicação, a IBM e a Microsoft se associaram para criar uma interface gráfica que fosse sistema operacional e aproveitasse a arquitetura de 32 bits dos processadores x86, o Operating System 2 (OS/2). Só que, no meio do caminho, a Microsoft pulou fora e, tendo aprendido o suficiente, foi fazer sozinha a sua versão da coisa, o Windows 95, que era virtualmente uma cópia do OS/2, só que ocupava mais espaço em disco e exigia uma máquina com o quádruplo da memória, na época em que essas coisas eram muito caras. Só que a IBM não conseguiu interessar ninguém em criar programas pro OS/2 e ele, que nunca foi um sucesso de vendas, desapareceu.

A Microsoft, sempre uma companhia ágil, gostou da interface do editor de texto Ami Pro e fez igual no seu Word for Windows 2.0. O primeiro fracassou porque sua empresa, a Lotus, não tinha um programa para texto na versão DOS, o que exigia importação de arquivos em outros formatos. No começo dos anos 90, as pessoas, sempre com medo de aprender algo novo, tentaram continuar usando seus processadores de texto DOS nas janelinhas, mas como o Word já tinha sua base de clientes na época dos caracteres, conseguiu fazê-los migrar mais rápido e dominou o mercado. As outras empresas de software custaram a lançar suas versões para interface gráfica, apostando que o (então) pesado e caro Windows fosse apenas uma moda passageira.

A Microsoft quase perdeu sua liderança na época do Netscape, o primeiro brauser a tornar a navegação pela Web fácil e agradável. Para destruir o rival, o Windows passou a vir com versões gratuitas do Explorer. Puro dumping, mas na época da globalização neoliberal, era uma atitude louvável que beneficiou o consomidor com um produto grátis a custa apenas de um virtual monopólio (2).

O novo pesadelo da Microsoft é o Linux. Depois do Windows 3.1, que EXIGIA que você tivesse pelo menos noções básicas de como funcionava um computador, a empresa passou a direcionar seus sistemas operacionais para a facilidade de uso e também para a ocultação de seus processos. Se, por um lado, tornou mais fácil o manuseio do micro, criou também uma legião de clientes que não sabem como se portar se uma vírgula mudar de lugar nos menus. A interface dos últimos Windows esconde arquivos de sistema, oculta extensões de nomes de arquivos, complica o acesso ao gerenciador de dispositivos e exibe o conteúdo do disco rígido de uma maneira tão pouco prática que torna o usuário comum um verdadeiro dependente das janelinhas; se alguma coisa mudar um pouquinho de lugar, ele não sabe nem como começar a rodar os programas.

O Linux, por ser um sistema operacional gratuito, está sendo adotado nos laptops de baixo custo do projeto Um Laptop Por Criança e nos EEEs PC da Acer (3). A Microsoft já se disponibilizou para fornecer Windows "downgradeados" para tais máquinas, com medo que os jovens de hoje comecem a aprender Linux e, quando crescerem, passem a usar tal produto (não à toa a empresa de Bill Gates nunca realmente fez grande campanha anti-pirataria; ela sabe que dominar o mercado doméstico está criando novos usuários que vão preferir as janelinhas no trabalho).

Em suma, Bill Gates mostrou-se um genial executivo, mas a maioria de suas visões de futuro (a Internet não tem muito futuro, ninguém nunca vai precisar de mais de 640 quilobaites de memória, geladeiras e aspiradores com Windows, não previu a explosão do MP3 e a importância dos mecanismos de busca, perdendo definitivamente a liderança para o Google) mostraram-se furadas e sua empresa sempre foi muito ágil em adaptar-se às inovações dos outros. O verdadeiro agradecimento deveria ser feito ao pessoal da Xerox de Palo Alto que desenvolveu a interface gráfica e à turma do Steve Jobs que resolveu que valia a pena investir no negócio mesmo que para facilitar a vida dos usuários fosse necessário sacrificar os então caríssimos poder de processamento e de memória.

(1) Piada velha do Casseta e Planeta: o nome da empresa é homenagem aos atributos físicos do Bill: em inglês, "micro" quer dizer "pequeno" e "soft" quer dizer mole.

(2) A Netscape também perdeu sua chance quando, por volta de 1995, 1996, quando vivia seu grande momento, resolveu ser o "sistema operacional" do WebPC - um computador pessoal que teria apenas o brauser; para rodar um programa, o usuário se conectaria à Internet, usaria um software pela rede e guardaria seus arquivos na própria Net. Para adoçar a coisa, ele serviria também como videogame e CD player (na época em que começava a era da multimídia). Sempre tive dúvidas da viabilidade do conceito no mundo do acesso discado (e pago) por modem. Quando o preço final da coisa foi anunciado como sendo 2/3 daquele de um computador completo e novinho, ficou claro que era mais negócio comprar uma máquina usada ou um pouco obsoleta para este papel. Surpreendentemente os executivos que bolaram a coisa ficaram perplexos quando tudo foi por água abaixo mais rápido do que o Titanic. A capacidade de auto-ilusão dos homens de negócios é fantástica.

(3) Há mais de dez anos que meus amigos e eu, achando lepitópes muito caros, dizíamos que gostaríamos de ter uma maquininha que servisse pra digitar textos, acessar a Internet e pronto. Finalmente alguém a lançou - o EEE PC. Que chegou ao mundo numa época em que um lepitópe básico custa pouco mais de mil reais, enquanto o EEE custa pouco mais de 800. Novamente alguém perdeu uma chance de ouro de dominar o mercado. O único interesse no EEE neste momento é que ele é leve e mais fácil de ser carregado. Alguns anos atrás seria um fenômeno de vendas. E pensar que empresas de alta tecnologia pagam fortunas mirabolantes pra "visionários" dizer que produtos as pessoas gostariam de ter.

junho 29, 2008

junho 27, 2008

Amor é que nem comprar carro usado: quando você encontra um que gosta, não é da cor que você quer, ou vem com a porta quebrada, ou a embreagem precisa trocar, ou é um modelo mais caro e você não queria gastar tanto...

O Mundo Depois do Aquecimento Global e do Fim do Petróleo


Momentos Reveladores de Caráter

Renato Gaúcho, no intervalo do primeiro jogo da final da Libertadores, quando o placar apontava 4 x 1 para a LDU:

"A gente passa a semana inteira mostrando o que o adversário vai usar, o que eles eles devem fazer pra evitar e eles não fazem".

Se Renato tivesse um mínimo de conhecimento de estratégia, saberia que Sun-Tzu já dizia que, se a tropa não consegue seguir as ordens, o erro está ou nas ordens ou no general.

junho 26, 2008

Roteiro de Curta - Parte I

(de quando eu tinha 23 anos)

cena i
birosca/int/tarde
paulo/heloísa/câmera/márcia/marginal/tavo

close na lente de uma câmera de vídeo. abre. os videomakers se movimentam entre as mesas da birosca, numa confusão pouco agradável à vista. o marginal está sentando espalhado numa das mesas, com o tavo em pé do lado. prepara-se o início das filmagens. close do monitor da câmera que mostra em close, contra um fundo neutro na birosca, a mão de paulo puxando um cigarro fino de uma cigarreira e acendendo-o com um isqueiro fino. o marginal comenta com paulo:
Marginal (AO PAULO) : Aí, cara, isso mata e nem barato dá.
Heloísa: Aí, gente, vamos acabar logo essa cena... tô mortinha... minha maquiagem tá derretendo toda.
Paulo: (CARINHOSO) A gente já tá acabando, Heloísa. Segura só mais um pouquinho...
Heloísa (CONSULTANDO O RELÓGIO) Aí, Paulo, não vai dar pra gente ir tomar aquele chope não...
Marginal (PARA O TAVO) Até pra ficar de bobeira esse pessoal que não faz nada tem hora...
Câmera: (OUVINDO) O pessoal quer ser artista rico e famoso, tem que batalhar...
Tavo: E tu aí só cobrando a hora de filmagem deles, hem?
Marginal: Pois é, me diz quanto tão te pagando aí, de repente, já que é preu virar artista de tevê mesmo, eu mesmo filmo.
Câmera: Você tem câmera?
Marginal: Ganhei de uns turistas aí... a tua, tu deve ter pago a maior grana nessas lojas aí, né?
Câmera: Não. É contrabandeada.
enquanto eles falam, ao fundo, heloísa e paulo conversam, com paulo gesticulando tentando ser persuasivo e heloisa resistindo aos seus apelos e apontando o relógio.
Câmera (SUSPIRAND0): Isso vai demorar... (SAI DE QUADRO)
entra o tavo, trazendo uma garrafa de uísque e pondo na mesa, enquanto olha para fora de quadro como o marginal.
Marginal (SEM OLHAR PARA ELE) : Tira essa porra (SOBRE O UÍSQUE) daqui, eles ainda vão demorar mesmo...
Tavo: Esse pessoal é enrolado...
Marginal: Por isso que eles têm que filmar sobre a gente. Ó só o babaca ali.
plano de heloísa e paulo conversando.
Marginal: Fica dando corda prá mulher, não vai conseguir porra nenhuma...
Tavo: Mulher magra...
Marginal (APONTANDO COM O ROSTO PARA UMA FOTO DE MULHER NUA PENDURADA NA PAREDE) Aquilo ali é que é mulher...
Tavo: Maior piranha essa daí...
Marginal: Porra, cara, tu às vezes me assusta... eu não quero casar com ela, porra... (PAUSA) Se tu visse essa mulher ao vivo...
Tavo: Tu já contou essa história...

Momento Nerd


A Enterprise original na doca, durante sua construção.

O personagem predileto de desenho animado de Livia Rosa.

junho 25, 2008

Adote um Assassino

O meu amigo Xatto me mandou essa, que eu não sabia. Tem um saite, http://www.pimentaneves.com.br/, dedicado à defesa de um sujeito sessentão que há coisa de oito anos levou um pé na bunda de uma mulher mais de 20 anos mais nova (um romance que começou quando ele era chefe dela), foi atrás dela e a matou com, primeiro, um tiro pelas costas, para depois aproximar-se e liquidar o serviço com outro na cabeça.

O sujeito em questão, no entanto, era diretor do Estadão, cheio de amigos importantes, alguns com invejáveis currículos e PHDs, que deixaram no malfadado saite um monte de declarações sobre o amigo bondoso, generoso (ele gastou duas balas quando muitos teriam gasto apenas uma! Ainda deu um tiro de misericórdia). Exemplar é o primeiro depoimento, o que abre a página. O doutor José Mindlin não especifica qual seu doutorado, mas que é "empresário, intelectual, bibliófilo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras". Empresário, escritor e membro tudo bem, mas onde se tira certificado de intelectual e bibliófilo? É nisso que ele tem PHD?

Pra sentir o nível, é só ler a coisa: "(...) no Banco Mundial, Pimenta Neves sempre agiu com a maior seriedade e competência. Graças a isso, foi dos poucos jornalistas brasileiros a granjear amizade e respeito nos altos escalões da administração brasileira e americana (...)" Uau, o povo importante tem consideração com ele! Quem somos nós, tupiniquins de terceiro mundo, pra querer julgar alguém assim?

Entre as declarações, a do famoso publicitário Ênio Mainardi, que escondeu o Pimenta em sua propriedade para evitar a prisão em flagrante. Hoje em dia ele é mais conhecido como o pai do Diogo Mainardi, aquele sujeito que vive esbravejando contra a falta de ética da esquerda e o uso impuro que os jornalistas liberais fazem de suas conexões.

Ah, ça va sans dire, Pimenta Neves está em liberdade até hoje, apesar de réu confesso de um crime com testemunhas.

Sic Transit Gloria Mundi

Onde foram parar esses grandes sucessos?

Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite


Quando a Abertura do general Figueiredo liberou as peças e os filmes que haviam sido censurados, lá por volta de 1980, imediatamente os filmes políticos de Costa-Gavras (o cineasta do recente e brilhante "O Corte") encheram as telas. Z, Estado de Sítio, Seção Especial de Justiça... nos circuitos de cinemas de arte, é claro. Mas em 1983 ele fez uma fita americana, com Jack Lemmon e Sissy Spacek, detonando o golpe de Pinochet - Missing - que foi indicada ao Oscar e levou umas estatuetazinhas pra casa. Então, na rabeira desse sucesso comercial, alguém lembrou de desencavar um longa dele sem cenas de ideologia esquerdista explícita, que contava uma história de amor parecida com aquelas clássicas fantasias intelectuais de auto-piedade, destino e afins. E ainda tinha a maravilhosa Romy Schneider. No Brasil o título foi UM HOMEM, UMA MULHER, UMA NOITE.

O filme foi, dentro de seus padrões, um inesperado sucesso. Após semanas e semanas em cartaz, ele ficou em exibição no Paissandu, diariamente, várias sessões ao dia, DURANTE MAIS DE UM ANO. Eu fui um dos poucos pseudo-intelectuais que conseguiu sobreviver à insistência dos programadores de cinema cabeça pré-Estação e não o vi. TODO MUNDO foi assistir.

Mas a estética do filme era obviamente setentista e mais ou menos em 1984, 1985, estava surgindo em Botafogo a primeira sala do que hoje é conhecido como Grupo Estação. A princípio exibindo praticamente apenas o acervo da Cinemateca do MAM (a ponto de cooptar seu público e destruir o hábito das pessoas de ir até a Marina da Glória aprender clássicos do cinema), ele logo começo a mostrar filmes cabeça oitentistas, uma tendência de garotos sem vivência nenhuma que adoravam a sétima arte, mas cujo conhecimento de vida era indireto, apreendido com longa-metragens e filmes intelectuais. Essa onda varreu da memória afetiva coletiva o fenômeno que foi UM HOMEM, UMA MULHER, UMA NOITE, um filme muito menos apoteótico, artificial e auto-congratulatório do que a época em que teve seus dias de glória no Rio de Janeiro. A tal ponto que, quando preparando esta postagem, perguntando aos amigos quem lembrava dele, nem mesmo a Suzy, grande defensora dele à época, recordou.

Acabei tendo que recorrer ao IMDB, com apenas vagas lembranças, tais como "tinha acho que a Romy Schneider e era dirigido pelo Costa-Gavras...", mas nem sabia que o filme era de 1979 e tinha ficado cinco anos engavetado nas distribuidoras nacionais. Provavelmente vendo o cartaz e lendo este artiguinho, o povo vai acabar lembrando, mas resolvi começar esta série com ele porque ele foi talvez o mais esquecido de todos os grandes sucessos cult de sua época. Todo mundo ainda lembra de CRÔNICA DO AMOR LOUCO, por exemplo, também um fenômeno setentista em plenos anos 80, que foi até lançado em DVD, mas NINGUÉM a quem mencionei UM HOMEM, UMA MULHER, UMA NOITE conseguiu recordar-se da fita. Muita gente confundiu com o UM HOMEM, UMA MULHER, com a Anouk Aimée (e sua continuação, UM HOMEM, UMA MULHER... VINTE ANOS DEPOIS). Aguardo comentários de quem, ao contrário de mim, assistiu ao longa, e tenha uma tese sobre o porquê dele ter sido varrido para baixo do tapete de nossas memórias.

junho 24, 2008

A Milenar e Bela Cultura Japonesa Quer Extinguir as Baleias

Vez por outra ouço alguém falando da beleza da milenar cultura japonesa. Milenar em termos, já que ela é mais recente do que a cultura cristã ocidental. Os nativos das ilhas nipônicas são os ainos, um povo com filiação aos caucasianos e que foram aniquilados pelos asiáticos que colonizaram o território pouco antes da era cristã. Impelidos ao mar pela situação geográfica de sua pátria, os japas sofreram tremenda influência da China, esta sim uma civilização antiquíssima, até que lá pelo século II oficializaram através de uma missão de boa vontade chinesa que pertenciam à esfera de influência do Império do Meio.

Os rituais muitas vezes poéticos também são motivo de admiração para muita gente que se impressiona facilmente e que esquece que eles servem a uma cultura feudal, guerreira e hierarquizada. Os refinamentos culturais garantiam a superioridade da casta dominante sobre as demais e os exercícios militares a punham na prática. Os japoneses conseguiram até mesmo apagar de sua história a pólvora, esta grande equalizadora (1) da Europa cristã. Mantiveram toda a sua ritualização e admiração por formas artísticas fortemente formalizadas e estilizadas. A apreciação destas requeria estudo, tempo disponível e garantia que a aristocracia, até mesmo por sua "maior inteligência", manter-se-ia por cima. Isto, aliás, não é exclusividade nipônica - os senhores feudais e os aristocratas europeus também se valeram de tal artifício e até hoje sentimos seus reflexos quando a classe média alta esnoba a cultura de massa e valoriza fenômenos midcult como Marisa Monte e Paulo Coelho.

Mas, voltando ao assunto, outro equívoco quanto aos nipo-japas é sua harmonia com a natureza. Hoje saiu nos jornais que os chilenos proibiram a pesca de baleias. Quem mais esperneou foram os japoneses. Tão poéticos, tão harmônicos, tão zen, tão bem alimentdos e não vivem sem comer carne de animais em extinção. Para driblar a moratória de pesca dos cetáceos gigantes, os japoneses dizem que as caçam apenas para pesquisas científicas e, acabadas estas, já que aquela carne toda tá ali dando mole, por que não vender e comer? Agora até mesmo tal recurso já é insuficiente, a idéia é uma "caça controlada". Some-se a isto a mania deles de comer barbatanas de tubarão e jogar o resto do peixe fora.

Japoneses têm belos rituais e formalização, interessante religião, mas são cheios de defeitos como eu e você - talvez pior, lembra o que eles fizeram na Coréia e na Manchúria na II Guerra Mundial e que eles não admitem até hoje. Enquanto isso, é cobrado do Vaticano toda semana um novo pedido de desculpas (e com esse novo Papa, eles vão ficar no débito cada vez mais). Pense nisso da próxima vez em que vir um bonsai e sair dizendo como os japoneses são culturalmente superiores. Sem contar que o Nakata não joga nada.

(1) Com o advento da pólvora, ter dinheiro pra comprar cavalo, armadura e espada não fazia de ninguém melhor guerreiro. Qualquer um que soubesse disparar um mosquete (e antes da invenção do fuzil de pederneira era meio complicado) podia encarar o maior espadachim da Europa montado em seu viçoso garanhão e protetegido em seu ajaezado peito d'armas. Ao mesmo tempo, a estrela do campo de batalha tornou-se a caríssima artilharia. Em pouco tempo apenas armadas que pudessem contar com vários canhões tornaram-se plausíveis nas plagas européias e os governos feudais pulverizados se extinguiram. Com a Revolução Francesa, a idéia de armar os cidadãos para criar exércitos nacionais enormes se popularizou e, para isso, foi preciso dar-lhes direitos civis (até porque reis impopulares tornaram-se bem menos estáveis com a população armada). Em suma, a pólvora foi talvez a maior responsável pela democratização da civilização cristã ocidental.

junho 23, 2008

Cartaz para o Espetáculo DPTV


Que nunca foi montado...

Alagoas 1990

Não, não é montagem, nem Photoshop.

Isto é muito, muito, MUITO Picareta

Pobre Iraque (2002)

Saddam
Sad Dam
Triste Represa
Triste Repressão
Liberdade Liberdade

Liberdade Liberdade

Gisele Bundchen

Uma Picaretagem Poética

"Euro, não dólar"
Profetizou a sílfide
Sibila
E todos correram a seus corretores
Enquanto os ianques consternados,
perguntavam-se:
"Cumas?"

Margaret Trudeau

Algumas correções na postagem sobre a ex-esposa de Pierre Trudeau (primeiro-ministro e mais importante político canadense nos anos 60 e 70), precursora da Carla Bruni no quesito primeira-dama-gostosa-que-deu-prum-Rolling-Stone: o Rolling Stone pra quem ela deu foi Ron Wood (o que não descarta completamente Mick Jagger ainda) e ela não era vinte anos mais nova que o marido, era TRINTA anos mais jovem do que ele.

Poesia de Maggie Estep - 1

Eu Sou a Deusa do Sexo do Mundo Ocidental

(A versão original em inglês está embaixo da tradução de Luiz Henriques Neto, eu mesmo)



Eu sou A DEUSA DO SEXO DO MUNDO OCIDENTAL
então não mexa comigo
Eu tenho um grande saco cheio de ACESSÓRIOS SEXUAIS
e você não pode ter nenhum
porque são todos meus
porque eu sou
a DEUSA DO SEXO DO MUNDO OCIDENTAL

"Ei", você pode dizer a si mesmo,
"quem ela está tentando enganar,
ela não é nenhuma deusa do sexo",
Mas acredite,
Sou sim
Nem que seja por eu ter
a desavergonhada pretensão
de chamar
a mim mesma uma DEUSA DO SEXO
Quero dizer, afinal,
é o que muitas de nós pensamos em algum momento
nós todas tivemos alguém
que adorava nossas meias sujas
e latiam como um cachorrinho quando estávamos por perto
fazendo-nos
parar e pensar: Você sabe, posso não parecer muito,
mas lá no fundo eu sou uma DEUSA DO SEXO

Só que
nunca admitiríamos isso em público
bem, você nunca admitiria isso em público
mas eu sim
porque eu sou
A DEUSA DO SEXO DO MUNDO OCIDENTAL

Nem sempre fui
uma DEUSA DO SEXO
Costumava ser só uma mulher mortal
mas cansei de sexualidade reprimida
manifestando-se
em anúncios de disque-sexo nas madrugadas
onde 3 boazudas burras
sacodem o decote na lente complacente da câmera e suspiram:

"Garotas Gostosas, oooh, Garotas Más, ooooh, Garotas Louras, ooooh,
você sabe o que fazer, ligue para 0-900-BOAZUDA INSACIÁVEL oooooh"

Sim
Cansei do oooooh oooooh oooooh oooooh
Cansei disso tudo
então calcei meus coturnos
e caí na estrada com meu saco cheio de ACESSÓRIOS SEXUAIS
que são uma parte vital de minha imagem de DEUSA DO SEXO
mesmo que eu nunca realmente use
meus ACESSÓRIOS SEXUAIS
porque sendo uma DEUSA DO SEXO
não e uma coisa SEXUAL
é uma coisa POLÍTICA
Na verdade eu não faço SEXO, não
Estou ocupada demais cuidando de
importantes ASSUNTOS DE DEUSA DO SEXO,
sim,
Preciso ir ao Superpop
e à MTV e me tornar uma paródia
de mim mesma e ganhar
rios de dinheiro com minha incompetente
vertente de pretensiosa PSICOLOGIA POP
porque minha dor é diferente
porque eu sou uma DEUSA DO SEXO
e quanto falo,
as pessoas escutam
Por quê?
Porque, você adivinhou,
EU SOU A DEUSA DO SEXO DO MUNDO OCIDENTAL
e você não


I am THE SEX GODDESS OF THE WESTERN HEMISPHERE
so don't mess with me
I've got a big bag full of SEX TOYS
and you can't have any
'cause they're all mine
'cause I'm
the SEX GODDESS OF THE WESTERN HEMISPHERE.


"Hey," you may say to yourself,
"who the hell's she tryin' to kid,
she's no sex goddess,"
But trust me,
I am
if only for the fact that I have
the unabashed gall
to call
myself a SEX GODDESS,
I mean, after all,
it's what so many of us have at some point thought,
we've all had someone
who worshipped our filthy socks
and barked like a dog when we were near
giving us cause
to pause and think: You know, I may not look like much
but deep inside, I am a SEX GODDESS.

Only
we'd never come out and admit it publicly
well, you wouldn't admit it publicly
but I will
because I am
THE SEX GODDESS OF THE WESTERN HEMISPHERE.


I haven't always been
a SEX GODDESS
I used to be just a mere mortal woman
but I grew tired of sexuality being repressed
then manifest
in late night 900 number ads
where 3 bodacious bimbettes
heave cleavage into the camera's winking lens and sigh:


"Big Girls oooh, Bad Girls oooh, Blonde Girls oooh,
you know what to do, call 1-900-UNMITIGATED BIMBO ooooh."


Yeah
I got fed up with the oooh oooh oooh oooh oooh
I got fed up with it all
so I put on my combat boots
and hit the road with my bag full of SEX TOYS
that were a vital part of my SEX GODDESS image
even though I would never actually use
my SEX TOYS
'cause my being a SEX GODDESS
it isn't a SEXUAL thing
it's a POLITICAL thing
I don't actually have SEX, no
I'm too busy taking care of
important SEX GODDESS BUSINESS,
yeah,
I gotta go on The Charlie Rose Show
and MTV and become a parody
of myself and make
buckets full of money off my own inane brand
of self-righteous POP PSYCHOLOGY
because my pain is different
because I am a SEX GODDESS
and when I talk,
people listen
why ?
Because, you guessed it,
I AM THE SEX GODDESS OF THE WESTERN HEMISPHERE
and you're not

A Mosca

Uma Ópera com Plácido Domingo baseada no filme de terror de 1986

Não, não é gozação. Howard Shore e o diretor do filme, David Cronenberg, estão trabalhando numa ópera sobre o teletransportador de matéria que transformou Jeff Goldblum na manifestação física de nossos desejos mais obscuros. Não sei se vai ser legal, mas o logo do troço é maneiro - o cânone humano de Da Vinci, só que metade dele é um esboço de uma mosca. Mais detalhes em http://www.theflytheopera.com

Revendo DVDs

Que Anton Chigur que nada. O melhor assassino frio, impiedoso e sem senso de humor do cinema é o Chacal. Do filme de 73, do Fred Zinnemann, é claro.

O Chacal tem quase a pureza religiosa de Itto Ogami, que valida seu mal deixando-se conduzir em seus assassinatos pelo destino, sem nunca se envolver emocionalmente. Amoral, não perde tempo com proselitismos niilistas ou vinganças exemplares contra aqueles que ousaram não aceitar seus acordos (o que faz de Chigur, na prática, um moralista, já que prega uma moral para substituir a vigente). Como os anjos (inclusive os caídos), o Chacal sequer tem sexo, sua sexualidade ajustando-se às necessidades da missão (e, aparentemente, é bom de cama em qualquer papel, como devem ser os anjos). Chigur, por sua vez é assexuado, ficando evidente que em sua perversão psicopata a violência substitui o sexo.

Quando vi Munique, a fita me lembrou visualmente muito o longa do Zinnemann. Depois fiquei sabendo que o Spielberg assistiu ao DIA DO CHACAL um monte de vezes antes de começar sua história sobre terrorismo. Quem viu um dos dois imediatamente vai reconhecer a semelhança ao ver o outro.

junho 21, 2008

As Basqueteiras 2002


Em 2002, duas moças que atendiam pelo nome profissional BASQUETEIRAS fizeram uma temporada de uma semana no Hipódromo Up. André Falcão, que dirigiu o espetáculo, usou um trecho de um roteiro meu para um show (nunca apresentado) da minha irmã, e fez um esquete com as comediantes. Esse aí em cima foi o resultado final.

junho 18, 2008

Lua Cheia Sobre o Mar



Um celular e o Aterro à Noite

Aniversário do Heitor

Pelo Fim da Herança do 4-2-4

Tudo bem, quem lê este blogue há tempos sabe que o 4-2-4, criado no Brasil na década de 50 arrancou o futebol da modorra mecanicista do WM e inventou o jogo moderno (leia mais nesta postagem). No entanto, a revolucionária tática, com seus dois volantes no meio-campo - assim chamados não porque, como hoje, têm que saber marcar acima de tudo, mas porque defendiam e atacavam o tempo todo, "voando" pelo campo - exigia demais dos apoiadores e sua qualidade técnica (pense em Didi e Gérson) acabava "puxando-os" para o centro, onde tinham mais espaço para desenvolver suas jogadas. Com isso, as laterais do gramado, na altura da linha média, ficavam desabitadas e, nos anos 50 e 60 os locutores de rádio costumavam referir-se a essas áreas como "zonas mortas".

No entanto, como no Brasil até beque é metido a saber jogar, os laterais, jogando ali perto e vendo todo aquele espaço vazio, começaram a se enfiar por ele. Foi a era de Nilton Santos e Djalma Santos. Como dois volantes, mesmo sendo Zito e Didi, era pouco para todo o trabalho na meia-cancha, a ajuda deles e do ponta-de-lança (um centroavante que jogava mais recuado, como o Ademir do Vasco e Pelé) era bem-vinda.

E assim criou-se a tradição do lateral atacante no Brasil. Nem todos atacavam e nem o tempo todo. Os pontas eram os verdadeiros encarregados da ofensiva pelos flancos. Mas com os técnicos sempre querendo reforçar o meio-campo, no Brasil acabou se tornando papel do pobre lateral desdobrar o ataque pelos lados. Todos os laterais eram julgados por seu desempenho na defesa e no ataque. E, para cobrir suas subidas ao ataque, a meia-cancha começou a ser povoada por "volantes de contenção", os famigerados cabeças-de-área cabeças-de-bagre.

Tal papel acabou tornando os laterais jogadores superespecializados. E, como provam os dinossauros e a teoria da evolução, toda criatura extremamente especializada acaba se extinguindo. Para jogar na posição, o candidato a lateral tem que ser bom na marcação, pois afinal é um defensor; bom no drible, para passar pelo seu marcador na hora em que ataca, bem como exímio no cruzamento (quase um lançamento); veloz e incansável para avançar e voltar à zaga durante o jogo inteiro e com visão de jogo para perceber o momento em que deve estar indo em vez de voltando e voltando em vez de indo. E burro, para com todas essas qualidades, não jogar com a camisa 10 e ser o cérebro do time. Todas essas qualidades, principalmente a última, por uma incrível coincidência, eram encontradas em Roberto Carlos e Cafu - este, inclusive, provando a adequação de seu QI ao seu papel, começou sua carreira como volante e foi deslocado para a lateral.

Com tantos requisitos a serem preenchidos foi uma incrível sorte a seleção poder contar com dois tão bons espécimes na mesma geração. Não foi à toa que eles tiveram lugar cativo no time de 1995 a 2006. O preço a pagar é que hoje em dia não temos nenhum. E quem me acompanha desde a época das colunas no www.futbrasil sabe que há mais de uma década advogo o fim desse anacronismo tático brasileiro.

A insistência na existência de uma posição que exige um superatleta de cérebro pouco desenvolvido lembra o desaparecimento dos pontas. Parecia um sacrilégio, mas hoje sabemos que se vive muito bem sem eles. Hoje, ainda há pouco, o Brasil, com seus laterais atacantes, não fez uma jogada digna pelas extremas contra a Argentina. Na Eurocopa, sem esses especializados, é de chamar a atenção a quantidade e a variedade de jogada pelas extremas que todos os times vêm apresentando.

Roberto Carlos e Cafu foram sempre o desafogo na saída de bola e brilharam nas Copas de 1998 e 2002; em 2006 estavam já no limite de suas vidas úteis e por isso mesmo foram tão combatidos. O primeiro não deixou herdeiros e aquele apontado como sucessor do segundo, Cicinho, anda completamente sumido. Para mantermos as nulidades Maicon e Gilberto em campo somos obrigados a escalar pelo menos dois apoiadores com funções quase exclusivas de marcação, mais um volante dedicado, deixando ao solitário "número 1", "meia-atacante", "meia-de-ligação" ou seja lá qual for sua nomenclatura atual todo o peso de alimentar o ataque, já que os laterais sem brilho não podem cumprir o papel de municiar os atacantes que os seus antecessores, atletas de exceção, tão bem desempenhavam.

Durante anos preguei no deserto. Felizmente, depois das horrorosas exibições brasileiras na Copa América do ano passado, um ou outro comentarista começou a ver a luz e a se perguntar se valia a pena ficar sempre a discussão de que "Kaká e Ronaldinho Gaúcho (ou qualquer outro par de craques ofensivos da vez) porque a existência do lateral-atacante obriga à escalação de tantos volantes de contenção, queiramos ou não. Esse deserto de inteligência na meia-cancha atrapalha ainda mais os candidatos à lateral porque sequer têm alguém com quem tabelar ou dialogar na árdua tarefa de vir lááááááááááááá de trás pra chegar à linha de fundo. Na Copa de 1998 Rivaldo quase foi queimado para sempre com a torcida por sua completa inadequação à função de tabelar com Roberto Carlos na saída de bola pela esquerda.

Em vez de Josués, Mineiros e decadentes Gilbertos Silvas no meio, imagine um Brasil com volantes como Júlio Batista e Anderson e ainda Kaká, Ronaldinho Gaúcho e mais outro armador habilidoso. Para isso bastaria tirar os laterais e acrescentar um zagueiro que ficasse parado lá atrás mesmo. Esse último armador habilidoso podia até dar lugar a um volante de contenção, só por garantia, até o povo se acostumar com a idéia. Desde a era da Diagonal que as evoluções táticas por aqui se disseminaram da seleção para os clubes e não o contrário. Está na hora de revolucionarmos o futebol brasileiro para resgatar o que temos de melhor.

Pelo fim do lateral-atacante. Pelo fim da herança errada do 4-2-4.

O Ataque de X-Plainer, o Explicador de Piadas


Já traduzida, eis de volta a piada extra-nerd algumas postagens abaixo. Como prometida, a explicação para o povo que não assistida desde pequeno à série clássica JORNADA NAS ESTRELAS: o doutor Heisenberg é o criador do Princípio da Incerteza de Heisenberg (dã), um dos fundamentos da física quântica. Também é autor do livrinho O QUE É A VIDA, em que tenta definir porque um bando de partículas é considerado "vivo" em oposição ao "inerte". Peguei o texto, mas ainda não li; ao que sei, parece que ele define um ser vivo como aquele que se alimenta de entropia negativa. No final, encara o Universo sob a ótica da filosofia oriental.

Mas isso não vem ao caso. O que nos interessa é o alicerce que ele criou para os teóricos quânticos. Em seu enunciado, o Princípio de Incerteza diz que é impossível saber ao mesmo tempo a velocidade e a localização de uma partícula; apenas uma dessas variáveis pode ser conhecida. Daí a resposta do bonequinho sem chapéu aí em cima. Pra quem é nerd, é uma gag estupenda. Só para completar, o Princípio da Incerteza é o que leva o povo de teatro que não entende nada de física a dizer que é impossível observar um evento sem interferir nele e por isso as peças são um jogo observador-observado e por isso preciso de mil milhões para montar o estande do Brasil na Feira do Livro (Bia Lessa adora citar física quântica).

Só mais um adendo: pra quem vier pra cá da página do Arnaldo, explico que não estou me apossando do X-Plainer. Como o próprio bom Bloch poderá explicar, fui eu que o criei.

Não deixem de visitar Decorum Comics, de onde tirei a tirinha acima, e XKCD, o modelo que a Decorum tenta muito imitar, mas da qual não chega aos pés.

junho 16, 2008

Solução de Continuidade

Then she came up out of the cistern and throwing herself
on the Porter's lap said, "O my lord, O my love, what callest
thou this article?" pointing to her slit, her solution of
continuity.
(As Mil e Uma Noites, tradução de Richard Burton. A minha, sobre a dele, está abaixo)

E então ela saiu da cisterna e atirando-se nua sobre o colo do Carregador, perguntou, "Ó meu amo, Ó meu amor, como chamais a este bem?", apontando para sua fenda,
sua solução de continuidade

(Nunca tinha ouvido essa. Solução de continuidade é sensacional)

Desvendando Clichês I

"Eu não sei por que o homem sempre se preocupa se a mulher dele está transando com outro, quando a mulher se preocupa se o carinha dela se apaixona por outra".

Não aabe? Ora, é tão óbvio! Devido ao arranjo cultural da raça humana, as famílias são normalmente formadas por núcleos monogâmicos patriarcais. Assim a mulher irá deitar-se somente com ele e somente dele ter filhos; ele envidará todos os seus esforços na criação da prole dela, investindo toda sua vida e energia nisso. Um bom arranjo para preservar o código genético de ambos, o mais perto da imortalidade que se pode conseguir neste vale de sombras e lágrimas. Basicamente, a mulher entra com o útero e o sujeito com seus músculos mais fortes.

No entanto, se outro sujeito tem acesso a este útero, o vivente corneado estará correndo o risco de estar gastando sua preciosa energia vital para garantir a sobrevivência de outros genes. Logo, a paranóia do cara é que a mulher dele comece a liberar a perseguida pro vizinho e destrua a linhagem dele.

Já no caso da mulher, os filhos que o sujeito gerar com outras não lhe importam muito. Gerar crianças é com ela mesma. O risco que ela não quer correr é de perder o provedor de sustento. Se aquela musculatura mais forte e potente largar o barco e se enrabichar definitivamente com outra, ela terá que contar apenas consigo mesma para criar a prole. É por isso que a paranóia da moça é que ele se apaixone por outra.

É claro que hoje em dia na nossa sociedade de consumo com mulheres com direitos iguais, embriões congelados e fertilização in vitro a coisa não funciona exatamente assim. Mas na base de seu poderoso neo-córtex cerebral, sobrevivem o complexo R e desjos sombrios que fazem a glória dos psiquiatras e neurologistas. A base dessas instituições culturais tem origem biológica e exatamente por isso é preciso muito esforço de raciocínio . Sem contar que as mudanças comportamentais urbanas são muito recentes - o trabalho da mulher começou timidamente com a I Guerra Mundial, há apenas três ou quatro gerações, contra as milhares anteriores que viveram a realidade de seus instintos selvagens.

Desvendando Clichês II

Aquela história de que "quando eu transo com mulher meu namorado/marido não vê como traição", que muitas moças que gostam de sair com moças contam, também tem por base a explicação acima: mulher com mulher não dá jacaré nem qualquer outro ser vivente (pelo menos com a atual tecnologia). O sujeito não corre o risco de gastar sua preciosa energia com os genes de outrem. Pelo contrário, como em algumas regiões primitivas do cérebro movidas a testosterona a tendência é perceber a fêmea como submissa, a parceira da parceira acaba contando como adição ao harém e por longos e tortuosos caminhos psicológicos subconscientes, mesmo que a situação só leve àquela dos anúncios ("meu gato pode apenas ver e não participar"), ele acaba sentindo como se estivesse realmente possuindo a segunda garota, o que, ligado ao instinto de perceber o ato sexual como forma de imortalidade por transmitir os genes. Isso, é claro, se não acabar rolando com a bissexual no. 2 também, que é, no fundo, com o que sempre se conta.

Por Que Mulheres Nuas Girando Mexem com a Cabeça dos Homens?


A dica desta interessante ilusão de ótica foi do Henrique Koifman:

Observe a figura de fundo. Segundo alguns estudiosos, se você vê a mulher girando no sentido horário, significa que trabalha mais o lado direito do cérebro (intuição). Se, no entanto, você a vê girar no sentido anti-horário, utiliza mais o lado esquerdo do cérebro (raciocínio). Faça a experiência.. .
O teste é realmente sensacional. Comecei vendo o giro no sentido horário. Quando começo a formular mentalmente questões matemáticas (que usam o lado racional do cérebro, o esquerdo), imediatamente ela muda o sentido de giro para anti-horário. Se eu começo a cantar, nova mudança para o sentido horário (cantando você usa o lado direito, subjectivo, artístico).
O mais interessante nessa fórmula que encontrei é que consigo ver o instante em que ela pára e muda o sentido de giro. E as alternâncias provocadas pelos focos em temas objectivos e subjectivos sempre funcionam conforme indicado no primeiro parágrafo.

Thor

Invoco o relâmpago
Libero o trovão

E, em seguida,
a tempestade

E minha valquíria conduz-nos ao Valhalla.

junho 13, 2008

Assistindo a Itália x Romênia...

Ter um zagueiro chamado "Contra" é lançar um desafio aos deuses.

junho 12, 2008

Ela NÃO Depila Lá Embaixo


Carla Bruni não foi a primeira modelo saidinha que dormiu com o Mick Jagger a casar com um governante de primeiro mundo. Nos anos 70 o canadense Pierre Trudeau andava a tiracolo com a belezura Margaret Trudeau, uns 20 anos mais nova - ela não regulava em idade com o marido, como a sra. Sarkozy -, a tiracolo.

Hippie, porra-louca e gostosa, ela era adepta do estilo natural, como se vê aqui. Sem contar que calcinha esquenta demais e o elástico fica visível sob a saia!

A foto abaixo é só pra lembrar como em 2002 tivemos uma boa chance de ter uma primeira-dama à altura das duas citadas...

A Piada Mais Nerd de Todos os Tempos


Decorum é uma imitação barata da genial e inovadora XKCD, do literal cientista de foguetes Randall Munroe. A cartunista de Decorum, Darcey, ao que tudo indica, é amiga pessoal do Randall, então tá limpo, o assunto é entre os dois. Na maioria das vezes a tira é apenas um pálido reflexo de seu modelo, mas vez por outra, como sói acontecer com qualquer série, ela acerta a mão e solta uma piada que até ultrapassa o original, como no quadrinho acima, uma das gags mais nerds de todos os tempos. Tão nerd que prometo para breve a explicação da graça para os não-tão-nerds.

Um Corpo na Biblioteca Capítulo 4


Eu postei o quarto capítulo há algum tempo, mas o vídeo por algum motivo não funcionou, então estou botando no blogue de novo. Desta vez vai. Como já faz muito tempo desde a última vez, volto a explicar: em 1987 escrevi algumas novelinhas de humor para o programa ESTE RIO QUE EU AMO, da Rádio MEC AM. Por motivos vários, só me sobraram na íntegra duas, que estou subindo aos poucos. Entre o elenco, dubladores manjadíssimos - é só ouvir que você vai reconhecer as vozes. O capítulo só tem cinco minutinhos. Abaixo vão os linques pros episódios anteriores:

Primeiro capítulo;
Segundo capítulo;
Terceiro capítulo.

junho 11, 2008

Hoje é Dia dos Namorados (Reprise)

Duas aurículas, dois ventrículos e você.

DEUS! POR QUÊ?????

Um barato. A revista online Wired fez uma lista dos 28 maiores mistérios de todos os tempos. Caso você esteja com preguiça de ler a matéria completa, eis aqui a relação:

1. O que há no centro da Terra?
2. O tempo é uma ilusão?
3. Como um óvulo fertilizado se torna humano?
4. O que aconteceu aos neandertais? (Ossos mais resistentes, mais músculos, cérebros maiores... e desapareceram. E não se mestiçaram com nossa subespécie, segundo estudos de DNA)
5. Por que dormimos? (Pela seleção natural, não faz o menor sentido: você se torna uma presa fácil, alheia a predadores e imóvel. Entretanto, prive um mamífero dele e ele morre mais rápido do que se privado de comida) (1)
6. De onde vem a vida?
7. Como a observação pode afetar um experimento?
8. Como partículas subatômicas se relacionam umas às outras? (Algumas criam laços entre si e o que acontece com uma acontece com a outra - mesmo que a distâncias enormes e numa comunicação mais rápida do que a luz).
9. Como placebos funcionam?
10. A matéria como a conhecemos só responde por 5% do Universo. Do que são feitos os outros 95%?
11. Menos de 2% do DNA carregam o código genético. Para que servem os outros 98%?
12. Florestas evitam ou contribuem para o aquecimento global?
13. O que acontece com a informação dentro de um buraco negro?
14. O que causa as eras glaciais?
15. Como o cérebro calcula tão rapidamente os movimentos com seus processos tão lentos?
16. Por que os pólos da Terra se revertem?
17. Como o cérebro produz a consciência? (O que põe você dentro de um quilo e meio de gelatina nojenta? Você não é só o seu fluxo de pensamentos - na verdade, você vive o tempo todo dentro de uma realidade virtual construída dentro de seus neurônios a partir de dados obtidos pelo seu corpo).
18. Por que a física de partículas é tão bagunçada? (Pra quê tantas partículas subatômicas?)
19. Como surge a linguagem humana?
20. Por que não podemos predizer o tempo?
21. Por que não compreendemos a turbulência?
22. O Universo é feito de informação?
23. Por que algumas doenças se tornam pandemias?
24. A Hipótese Riemann está certa? (ou errada? Há um sistema no intervalo entre os números primos, a base de todos os outros?)
25. Por que vivemos proporcionalmente mais do que outros mamíferos?
26. O que raios diabos causa a gravidade? (A primeira força fundamental descoberta é a menos compreendida).
27. Por que não podemos regenerar partes do corpo?
28. Como ainda temos tantas questões sem resposta?

De quebra, a revista ainda responde algumas questões que nos afligem desde o começo dos tempos (ou nem tanto):

Viagem no tempo é possível?
Recentemente foi teorizado que sim. Portanto, pegue seu velho álbum de fotografias para reconhecer seus ancestrais e não os matar acidentalmente se viajar ao passado, ou seu spray anti-morlock se o destino for o futuro (que por coincidência é o meu, só que vou um dia por vez).

Se há vida em outros planetas, por que nunca fomos contactados?
Essa é a questão levantada no paradoxo de Fermi. O brilhante cientista que primeiro realizou uma fissão atômica o levantou pela primeira vez nos anos 50 enquanto almoçava com os colegas. No mesmo almoço ele refutou a existência dos discos-voadores, chupacabras, duendes, Deus e do amor. Depois disso quase sempre ele almoçou sozinho. Mas ele não levou em consideração o paradoxo do paradoxo de Fermi, que alega que (1) Os alienígenas não nos contactaram porque acreditam que existamos e (2) olhando para a aparência e a obra de Fermi, é óbvio que ele é um extraterreste tentando evitar que o descubramos (2).

(1) Ou, como já disse o quadrinista Randall Munroe em sua tira XKCD, quando um personagem pergunta, "vai ao show hoje" e o outro responde "sim, mas antes vou entrar em estado de coma e talvez ter algumas vívidas alucinações", às vezes é de surpreender que encaremos o sono de forma tão natural.

(2) Obviamente todo esse verbete sobre alienígenas cai por terra com a foto abaixo.

Vem Turista de Tudo que é Canto pro Antiquário


Ipanema Digital 1999







Love

Marcel e Cristiana

junho 10, 2008

Se um homem-bomba incomoda muita gente, um terrorista incomoda muito mais.

Children Children

O fotógrafo coreano Yendoo Jung teve uma grande idéia:


Transformar aqueles famosos desenhos de crianças em fotografias. O efeito é... surpreendente. O saite que hospeda as fotos em maior tamanho às vezes cai, por isso, se você tiver problemas com a visualização, pode tentar neste pequeno visor.

E Mais:

Se um serial killer incomoda muita gente, um homem-bomba incomoda muito mais.

junho 09, 2008

Plástico de Carro

Se um assassino incomoda muita gente, um serial killer incomoda muito mais.

Plástico de Carro

Duas aurículas, dois ventrículos e você.

O Futuro Chegou em Três Eixos

Que é um slogan do Tribus da Itapemirim da década de 80, que por algum motivo, ficou no meu ouvido até hoje (o comercial era uma referência a Star Trek, uns astronautas numa tremenda nave detectavam um veículo ultramoderno e decidiam interceptá-lo), mas não os eixos não têm nada a ver com esta postagem.

O que realmente interessa é que o Paul Krugman, colunista que tá lá na minha lista de linques, escreveu, no dia seguinte ao meu artigo sobre como ganhar dinheiro sendo artista na era digital, uma coluna falando sobre o mesmo assunto, dizendo a mesma coisa, em razão de estar já se acostumando com uma nova mídia que é a próxima coisa que vai arrebentar: e-books.

Um dos meus melhores amigos, o ex-editor e agora jornalista digital Glauber (o Edmundo Barreiros) diz que aparelhos para ler e-books são desconfortáveis e é verdade, mas câmeras digitais também foram canhestras e de qualidade insuficiente pra substituir o filme até uns anos atrás. E tanto ele quanto um monte dos meus amigos, teoricamente uns, com o perdão da má palavra, intelectuais (e alternativos) urram e bradam que livros são muito mais bonitos e agradáveis.

Pode ser, mas tem o outro lado da moeda. Ganhei há pouco de Livia Rosa o volumão ASAS da editora dela. O livro é ótimo e tal, mas tendo 800 páginas, e coladas, não costuradas, lê-lo com uma só mão é praticamente impossível. Seu peso é tanto que é desconfortável segurá-lo deitado. Além do mais, bibliotecas ocupam espaço cada vez mais valioso nas megalópoles. E o próprio Edmundo já tem planos de detonar quase toda sua coleção de discos, substituindo-os por MP3s, atitude que quando sugeri uma vez num fórum de discussão de amigos, quase me fez ser linchado. É surpreendente que um povo tão crítico da sociedade de consumo tenha tamanho fetiche por objetos materiais, ao invés de favorecer o conteúdo, hábito que guardei de uma vida colecionando livros e discos usados de sebos, normalmente em edições baratas ou em não tão perfeito estado de conservação.

Além do mais, há de se pensar que, beleza por beleza, manuscritos com iluminuras eram muito mais bonitos do que impressos de papel e isso não impediu o caríssimo pergaminho de desaparecer. Com tanta informação disponível na forma de música e imagem, mídias que não podiam ser armazenadas ou copiadas antes do século vinte, leitura, a arte que mais pode se aprofundar em qualquer assunto, vem sendo cada vez mais negligenciada. Quanto mais estímulo melhor. E livro hoje em dia, pelo menos aqui no Rio, é muito caro, mesmo quando são republicações de matéria em domínio público.

Tendo um Nokia 6265 que consegui desbloquear para nele instalar programinhas em java, uso sua generosa tela de cristal líquido de 320 x 240 para ler e-books baixados do projeto Gutenberg, com milhares de clássicos disponíveis gratuitamente pra quem sabe inglês. Descobri que a leitura é bastante exequível e pouco cansativa. Estou lendo atualmente As Mil e Uma Noites e Free Culture (de Lawrence Lessig) e ter sempre à mão um bom livro pra ler na fila do caixa do supermercado, no ônibus, no carro esperando Livia Rosa descer ou no engarrafamento é bastante agradável. Ainda há a vantagem para os casados de poder ler na cama sem incomodar o parceiro. Mal posso esperar para ter o Kindle. E pensar que comprei um apê de 2 quartos (só pra mim) pra ter espaço pros meus discos (cada vez menos) e livros (parece que no futuro comprarei cada vez menos). Infelizmente o espaço liberado está sendo ocupado pelos DVDs...

Sex & The City

Agora a Época descobriu que uma série de tevê a cabo inventou a mulher contemporânea.

A melhor piada sobre Sex & The City que já vi continua sendo aquela dos Simpsons, com as irmãs da Marge, interioranas, gordas, peludas, mal-vestidas, morando num sala-e-quarto e cortando as unhas com alicate, assistindo à Carrie e as amigas na tevê e dizendo, "parece que alguém seguiu a gente e tomou notas" (frase, aliás, que duas amigas minhas já disseram também).

Na verdade, Sex & the City tem pras solteiras urbanas de meia-idade a mesma função que Harry Potter pros nerds adolescentes.

junho 08, 2008

O Ave e Seu Buquê


Celular do Henrique e aniversário do Zelig na Tasca do Edgar.

Gilberto Braga

Vi em algum jornal hoje pendurado na banca que Gilberto Braga comemora 30 anos de Dancin' Days e 20 de Vale Tudo. Dancin´ Days foi a última novela que acompanhei em minha vida, em boa parte por causa da Lídia Brondi e da Sônia Braga (aquela mais próxima da minha faixa etária). Depois parei, cansei do formato e entrei na adolescência; estar em casa toda noite para acompanhar aqueles dramalhões simplesmente não fazia mais a minha cabeça.

Mas é claro que durante boa parte desses 30 anos sem acompanhar novelas não consegui ficar imune ao fenômeno. As tramas de maior sucesso foram absorvidas por mim nem que por osmose - gente assistindo lá em casa, namorada que acompanhava, manchetes em jornais e revistas, referências em programas humorísticos, sátiras na revista MAD... nunca cheguei a conhecer mais do que as linhas gerais dos enredos, mas, mesmo sem maior conhecimento do assunto, uma coisa eu posso dizer - eu não suporto Gilberto Braga.

Começou já em Dancin´ Days. Desde o começo de 1976 a K-Tel e seus baratíssimos discos de Grandes Sucesso popularizava Donna Summer, Tina Charles, Abba e outras rainhas da discoteca. As coletâneas com os nomes das quentíssimas casas noturnas Hippopotamus e New York City Discothéque já estavam em seus quintos volumes, com a então novidade do "som contínuo", sem intervalo entre uma faixa e outra. O megahipersucesso OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE que catapultou John Travolta para a fama e um caro álbum duplo para o número 1 de vendas já havia estreado. Mas até hoje Gilberto Braga gosta de falar como a sua novela lançou o fenômeno da discoteca no Brasil (grande fenômeno, em menos de dois anos já se refugiava nas periferias). Até a boate Frenetic Dancin´ Days já funcionava a pleno vapor quando a novela entrou no ar.

Diz a lenda que Dancin´ Days iria também marcar o começo do merchandising em novelas. Betty Faria, dona de uma loja de roupas na trama, num "caco" num canto de cena exclamava que não queria roupa roxa nenhuma na vitrine, que roxo era muito feio e odiava roxo. Pouco mais de uma semana depois a tv Globo estava inundada de rcclamações de lojistas que se entupiram de roxo, previsto para ser a cor da estação, e não conseguiam vender nada. A emissora fez outra cena da Betty encomendando várias peças roxas e a partir daí nunca mais os atores beberiam cervejas com o rótulo de costas para a câmera (confira quando calhar de ver velhos VTs dos anos 70) ou guaranás com rótulos falsos com a singela inscrição "guaraná".

Mas esses são apenas detalhes. Eu comecei a ter um certo preconceito contra o Gilberto Braga quando, no auge de seu sucesso, no começo dos anos 80, li uma entrevista do sujeito dizendo que nunca gostara muito de cinema americano e durante a juventude vira muitos filmes franceses. O entrevistador, numa época de menor culto à celebridade, replicou perguntando quais filmes e ele não soube responder, tangenciando com um "ah, esqueci, não me lembro, uns franceses".

E depois vieram suas tramas, quase todas com elementos comuns facilmente reconhecíveis: em algum momento, a mocinha (ou uma amiga dela, ou ambas) irá se prostituir, o que a redimirá; a vilã é rica (até aí tudo bem), de meia idade, frígida; um homem mais velho se apaixonará pela mocinha (ou sua amiga) em sua fase prostituta e provavelmente terá seu coração quebrado; alguma mulher usará seu fértil útero para engravidar de um otário e prendê-lo para o resto da vida.

Não pus nessa lista os clichês óbvios de teledramaturgia por não serem marca registrada dele, apenas a apropriação de uma fórmula consagrada - assassinos misteriosos (sempre mal explicados ao fim da novela - até mesmo por engano!). Mas os elementos acima traem uma tremenda misoginia. A sexualidade feminina é ameaçadora e terrível; somente depois de degradada e de perder simbolicamente sua ligação com a geração da vida (e constituição de família e sucessão e envelhecimento) ela pode ser aceita. Porém, seu poder de gerar filhos está sempre presente como uma espada de Dâmocles sobre o herói. Ele pode perder sua independência financeira, sua liberdade, sua adolescência, enfim, nas mãos (ou melhor, entre as pernas) de uma óbvia bruxa.

E a óbvia bruxa não é mais uma velha, mas uma mulher de meia-idade. A juventude é o único caminho para a felicidade - axioma da sociedade de consumo. Os personagens mais velhos estão condenados a casamentos sem amor ou perspectiva (infere-se que por não serem mais atraentes). O casamento heterossexual, inclusive, é duplamente uma prisão: emocional, quando já durando anos e anos, e financeiro, quando há um divórcio e a mulher faz a festa com a pensão do ex-marido, um objetivo sórdido que ela já almejava ao primeiro deitar-se com o sujeito.

Família, criação de filhos, tudo isso é sempre visto de forma negativa, quando não de todo ausente. As tramas traem uma visão de mundo misógina, narcisista e hedonista, porém covarde, incapaz de se levar até as últimas consequências. Os heróis não querem romper com a sociedade, mas, no fundo, apenas substituir os ricos maus, o que fica patente na fascinação dos personagens por símbolos de status culturais: cineastas europeus, autores intelectuais em voga na lista dos mais vendidos na época (Gunther Grass, Milan Kundera), música clássica, viagens a Europa, Búzios... aliás, essas constantes referências culturais up-to-date e hábitos de Segundo Caderno de Zona Sul são o verniz moderno que leva muita gente a acreditar que os velhos enredos românticos reciclados da tevê (até aí não é culpa dele, dificilmente outros conteúdos funcionaria nesse formato) são mais artísticos ou significantes (leitura sugerida: Alto, Médio e Baixo, de Umberto Eco. Valeu a pena ter feito a faculdade só pra trombar com esse texto). Assim como teve aquela novela da Glória Perez "sobre Internet" quando a rede estava só nos cueiros no Brasil, com direito a cigana e o escambau, e ao final foi usada absurdamente fora de contexto para o casal de protagonistas se conhecerem, como poderiam ter se conhecido num cruzamento na rua.

As mulheres são sempre más e inconfiáveis, prontas a usar seu maligno útero para destruir a juventude (e, logo, a vida) de um homem. A não ser que se degradem, sofram muito, e percam a aterrorizante aura que a maternidade lhes proporciona. Os personagens ricos são desprezíveis, mas os outros estão sempre atrás de símbolos de status cultural e sofisticação que os poriam no mesmo pedestal. Misógino, narcisista e consumista, as tramas de Gilberto Braga são conservadoras e consumistas e muitas vezes ainda se travestem de crítica à sociedade e ao consumismo. Como disse lá em cima, não sou sigo novelas, logo nada posso dizer de sua técnica dramática ou construção de personagens e diálogos, os quais imagino que sejam ótimos, dada sua popularidade e longevidade no ramo.

Ah, e ainda um detalhe. Quando de um de seus fracassos, em meados da década de 80, a novela Brilhante, ele declarou (naquele jeito "brasileiro não sabe votar" (1)), ele ainda declarou que "o brasileiro não está preparado para uma novela sem vilões". Esqueceu-se o sujeito que já no meio dos anos 70, a então desprezada Janete Clair criava tramas como o Astro, Duas Vidas ou Pecado Capital, quando Carláo, ficando com uma mala cheia de dinheiro advinda de um roubo perde sucessivamente a alma, a mulher que ama e a vida por causa dela (mas sem a hipocrisia que o dinheiro náo resolve - a mulher que ele amava casa com um rico mais velho). O final, inclusive, é sensacional, e mostra como normalmente a censura não consegue fazer seu trabalho:

Carlão, o taxista, encontra a mala com dinheiro e seu primeiro impulso é devolvê-la, mas usa para pagar umas dívidas. Quando consegue juntar uma grana e pretende devolvê-la, importunado por sua consciência, já que, pobre, tudo que tem para lhe dar orgulho são seus princípios, resolve usá-la para subir de vida, já que sua namorada está na mira de um sujeito rico. Ele enriquece, perde a mulher, sempre tem alguma coisa que no último momento o impede de devolver a grana até que, no último capítulo, já sem sua mulher, finalmente consegue fazê-lo e acaba assassinado no buraco do metrô da Carioca por um sujeito caçando a grana. Enquanto ele liga pra polícia pra explicar que está restituindo a bufunfa, a polícia tenta localizá-lo para prendê-lo. Diz a lenda que a censura exigiu a morte de Carlão para puni-lo por ter ficado com a mala (naquela época casamentos desfeitos eram proibidos na tevê; se o mocinho era casado com outra, esta teria que morrer para ele ficar com a mocinha). Nem perceberam que sua morte na hora em que devolvia o dinheiro para tentar reaver sua alma era muito mais subversivo.

junho 07, 2008

XKCD de 6 de junho

É por isso que eu sou fã Randall Munroe. Pra entender melhor ainda a piada, você pode checar as anteriores da série (que se estende já há meses) nas tiras Journal, Journal 2, Journal 3, e Journal 4.



Para os monoglotas, a tradução quadro a quadro:

1. =estaciona=
2. =toc= =toc=
3. "oi" "oi"
4. "Desisto. Você ganhou. Preciso saber quem você é".
5. "Nós compreendemos um ao outro. Não posso deixar isso escapar". =bip= =BUUUUMM=
6. "O que foi isso????" "Minas ativadas por controle remoto sob seu carro".
7. "Ah, essas? Eu as mudei para sua garagem antes de estacionar". "Touché".
8. "...parece que esse vai ser um relacionamento bem complicado..." "ainda dá tempo pra você fugir e procurar uma garota que não seja doida" "Mas não estou nem o mais remotamente possível interessado".

junho 06, 2008

Onde Foram Parar os Filmes para Adultos?

No ótimo e novo neo-noir do ótimo e velho Sidney Lumet, ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO, a gostosíssima quarentona Marisa Tomei só vai aparecer vestida na quarta vez em que tem uma longa cena. Inclusive a abertura é com ela de quatro trepando açodadamente com o também pelado Phillip Seymour Hoffman, antes deles começarem um variado rodízio de posições. Ao contrário do que a maioria dos machos heterossexuais - público alvo de uma tensa história policial - poderia pensar, os peitos siliconados e esguias curvas da talentosa pós-balzaca são quase um suicídio comercial para o cinemão americano hoje em dia.



Quando eu era moleque nos anos 70, a imensa maioria dos filmes era censura 18 anos. Vivíamos sob uma ditadura e tomadas de mulheres nuas de costas da cintura pra cima já garantiam censura 14 anos. Além disso, depois dos anos 60, com a explosão do cinema de autor, os diretores americanos também começaram a introduzir temas mais adultos - com a consequente exibição de cenas de sexo. A MPAA, a associação de indústrias de cinema, por consequência, resolveu classificar os filmes por faixas etárias, o que na prática permitiu a mulher pelada nas grandes produções mainstream.

E, assim, nos anos 70, quase todo filme americano censura 18 anos era garantia de uns peitinhos. Com o relaxamento da ditadura brasileira no governo Figueiredo, até um filme de terror 16 anos como MAGIC mostrava a Ann-Margret de peito de fora. Isso iria desaguar nos anos 80 no cinema brasileiro voyeur. A revolução do vídeo-cassete caseiro, capitaneada pelas fitas pornô, iria sufocar a pornochanchada, mas longas insuportáveis e chatos como Bete Balanço ou Rádio Pirata tinham a pele da Débora Bloch ou da charmosíssima (e em breve, desaparecida) Lídia Brondi. Certa vez eu vi um presumível boy olhando um cartaz de Quarup com fotos (sim, naquele tempo os cartazes tinham fotos de cenas do filme) de Cláudia Raia conversando nua com um índio, fazendo-o comentar, "Cláudia Raia peladona? Eu tenho que ver esse filme". E assim a obra de Antônio Callado ganhou um improvável espectador.

Mas Cláudia Raia logo iria aparecer peladona de graça na novela das sete. E o cinema americano também, após cerca de dez anos, começou cada vez menos a tirar a roupa de suas atrizes. O problema foi Guerra nas Estrelas.

Como eu dizia, quando era moleque nos anos 70, tinha que esperar as férias de julho para que os cinemas programassem alguma coisa censura livre. A violência descerebrada e inconsequente ainda não existia e os filmes violentos da época tinham um realismo impressionante que os desclassificava para crianças. Também as férias de verão tinham poucas fitas "para toda a família" porque os exibidores julgavam que nessa época todo mundo viajava ou ia à praia, não a um cinema escuro. Minha dieta se resumia basicamente a OS TRAPALHÕES, filmes da Disney, normalmente com um fusca consciente ou o Kurt Russell, ou reprises de clássicos dos anos 60, como Rio Bravo ou Noviça Rebelde (lembrem-se que o vídeo-cassete ainda não existia e filmes eram reprisados). Até que um garoto chamado George Lucas fez uma ficção científica juvenil e lançou justamente nas férias de verão.

E estourou todas as bilheterias.

O filme mudou a história do cinema. Os estúdios aos poucos foram aderindo cada vez mais à volta do conceito "para toda a família". Tenho um livro americano dos anos 70, "A arte do filme", que dá receita pra tudo, desde as lentes até as piadinhas de alívio no roteiro, só falta receita pra fazer celulóide em casa. Lá ele comenta que o auge físico e mental do ser humano é aos 22 anos e que este deveria ser o público-alvo dos cineastas. E esses jovens adultos são quase adolescentes. A idéia então passou a fazer filmes caros, cheios de ação e efeitos especiais. E a ênfase era no "caros".

Com um filme médio americano custando hoje na casa dos cento e poucos milhões de dólares, os investidores não podem se arriscar a receber um "R" (o equivalente mais ou menos a um censura 18 ou 21 anos, depende do estado) e de cara perder uma imensa fatia do mercado. O resultado é que as fitas são cada vez mais dirigidas ao público juvenil. Spielberg, por exemplo, faz uns dois ou três de seus arrasa-quarteirões para toda a família para cada projeto pessoal em que sabe que vai perder grana. Nudez, temas adultos, bizarrices, propostas estéticas ousadas, tudo isso passou para os independentes - e a tevê a cabo! - que cresceram muito nos últimos 15 anos lá nos EUA devido a isso. É só nesses longas de baixo orçamento que você vai ver os peitinhos da Cristina Ricci ou a perseguida da Rachel Weisz.

E assim voltamos a ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO. O filme só se tornou viável porque os atores de nome - mas nenhum superstar - Albert Finney, Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, quiseram trabalhar com o Sidney Lumet (porque gostam, porque têm ambições artísticas e porque lhes traria prestígio, confiram quatro postagens abaixo), porque foi filmado em vídeo digital, poupando os imensos gastos de negativo, laboratório, montagem e copiagem... e essa é a única chance de que uma fita do cinemão clássico mainstream americano possa mostrar a Marisa Tomei de quatro sendo socada por trás por um gordo viciado em heroína puxando-a pelos cabelos.

Eu recomendo o filme. Mas notem que aqui no Brasil ele chegou com um ano de atraso e está passando no circuito Estação e não no circuito multiplex. Vai o sujeito com a mulher e os filhos pro shopping, vão ver um filme depois do passeio e antes da pizza e entra e vê de cara aquela mulher dando?

Melhor ver Homem de Ferro.

junho 05, 2008

O Motoqueiro Fantasma

Achei só outro dia, mas ao que tudo indica, o correio-e aí embaixo é já um clássico da rede. Parece que tanta gente ficou preocupada que poderia sofrer um acidente ou cair por causa do símbolo de adoração ao demônio que a Honda foi obrigada a botar um aviso em sua página-portal que o plástico era um gabarito que tensionava os fios para que eles não se enroscassem e quebrassem e que o farol e a fiação perderiam a garantia se ele fosse retirado, o que era exigido pelos motociclistas nas oficinas e até mesmo nas autorizadas da montadora japonesa. Custa a crer que esse povo que anda por aí sem capacete, zunindo pela contramão, ultrapassando pela direita e cortando todo mundo seja realmente tão preocupado com sua segurança, mas enfim...

O texto é muito engraçado de tão preconceituoso. O pobre braso-japa é budista, tem uma visão (?) de uma santa (mitologia católica) para frequentar um centro espírita (espiritismo) e lá chegando o ritual parece de umbanda - e yakuza, o sujeito tem que cortar os dedos mindinhos (só porque alguém que ele nunca viu antes e que nada lhe deu até então pediu) - até que acaba num samba de crioulo doido de quem viu muito filme de zumbi. Estranhamente, só uma evangélica pode ajudá-lo. Qual terá sido a religião do sujeito que criou esse texto? Mais bacana ainda é a profusão de erros crassos de português, abundando de equívocos justamente por almejar uma construção mais "culta", que lhe desse maior veracidade.

Bem, eis aí, uma pérola do preconceito do pensamento religioso de certos tipos de pessoas - preconceituoso, supersticioso e com aquela mentalidade de que Deus é um super-herói e o demônio um super-vilão que não têm nada melhor pra fazer do que esconder símbolos baratos de plástico em bens de consumo:


"Desde menino sempre tive dons para desenvolver projetos mecatronicos, resolvi estudar e me aprofundar no assunto, morava no Brasil e resolvi estudar no Japão pois tinha dupla nacionalide aos 30 anos me formei na universidade Goyake kadani em Tókio, aos 33 anos fui contratado como engenheiro da Honda Motors S/A do Japão para auxiliar no desenvolvimento e projetos de novas motos, passei por vários cargos, fui chefe de linha de produção por 5 anos, depois fui promovido para o setor interno até chegar o inicio da minha triste história, recebi uma ordem dos meus superiores para desenvolver e fabricar uma nova motocicleta, com 150 cilindradas para ser fornecida principalmente para o Brasil, e Argentina, com muito medo de ser um fracasso assim como a AERO 150 mas lancei o modelo, infelizmente não obtivemos no inicio as vendas que esperávamos e as motos começaram a dar problemas e gerar processos para a Honda, em dezembro de 2004 tive um sonho que aparecia uma santa dizendo pra mim procurar um centro espírita pois ela tinha uma mensagem importante para me dizer, sem acreditar muito nessas coisas pois eu sempre fui budista, eu fui a um centro, foi muito difícil encontrar um mas consegui, chegando lá falei de todos os meus problemas, e fui atendido em uma sexta-feira a meia noite, recebi uma proposta de mudança de vida, de dois exus, e aceitei mesmo sem acreditar muito nisso, fiz um pacto de sangue, onde são cortados os dois dedos mínimos e oferecidos com sangue de animais sagrados para os exus, eu também tive que tomar e fizeram em minha testa uma cruz de ponta cabeça com sangue, todo o ritual foi assistido por imagens e pessoas que faziam parte daquela comunidade espírita, a partir daí minha vida começou a mudar minha família meu trabalho estava tudo bem, antes da virada do ano ainda em 2004 recebi uma visita dos exus, eles pediam algo em troca por tudo o que ele haviam me dado inclusive o sucesso e a fama da moto, eles pediram a mim que antes do inicio da fabricação das TITANS 2005 eu deveria fazer uma peça cujo o desenho eles iriam me mostrar e se eu Aceitasse as motos iria vender cada vez mais e mais.


Com muita ganância eu aceitei sem ver o desenho da peça, pois eu já confiava neles, então me mostraram uma cruz no calvário e pediram para eu fizesse esta peça o mais parecido com a imagem que eu havia visto e que eu colocasse a cruz de ponta cabeça em algum lugar da moto, escondido mas tinha que ser uma peça que não tivesse serventia para nada, como as vendas estavam indo muito bem, eu não queria parar pois tinha um contrato com o Brasil de 10 milhões de unidades e a Honda não podia falhar, fiz a peça e obtive os resultados esperados até mais, os diretores e encarregados de marketing tiveram os seus ordenados aumentados e tudo corria bem, quando em 2006 no mês de março recebi mais uma visita dos exus pedindo mais sacrifícios, ao ver o que eles queriam percebi q desta vez era impossível, pediam para que eu sacrificasse meu próprio filho em um ritual macabro, eu não aceitei! Pois eu o amava muito, Aí então começou toda a desgraça! Me separei da minha esposa, meu filho foi assassinado em um assalto e os meus pais afundaram em um barco na praia, fiquei sozinho, percebi então que era somente o começo, ao ficar doente procurei um hospital e percebi que estava com inúmeras doenças uma delas, o câncer, hoje estou em uma cama não movimento meus membros da cintura para baixo, estou tentando fazer este apelo e pedir para todos os donos das motos tirar as cruzes e destruírem! não sei se vou conseguir mas segundo uma evangélica que me visitou disse ela que se todas as cruzes forem destruídas eu posso sobreviver ainda, conto com todos os proprietários das sei que eh quase impossível mas ajudem a divulgar isso, pelo mundo, obrigado!".

Bukowski Nunca é Demais

Alone with Everybody

the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.

there's no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

nobody ever finds
the one.

the city dumps fill
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill

nothing else
fills.

E, dando uma mãozinha para os inangloparlantes, minha pobre tradução:

a carne reveste os ossos
e põem uma mente lá dentro
e às vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra
aquele(a)
mas continuam
procurando
rastejando para dentro e para fora
das camas
carne reveste
os ossos e
carne busca
mais do que
carne

não há
chance:
estamos todos presos
a um singular
destino.

ninguém
nunca
encontra
aquele (a).

as lixeiras são preenchidas
os ferros-velhos são preenchidos
os hospícios são preenchidos
os hospitais são preenchidos
os cemitérios são preenchidos

nada mais
é preenchido

Belo poema de amor. Desamor, digo.

O Prestígio é Tudo

E não, é claro, não estou falando do chocolate (que antigamente anunciava pra burro na tevê, com seu recheio de coco). Estou falando do futuro dos direitos autorais e dos ganhos dos artistas e criadores intelectuais num futuro digitalizado. Quem acompanha este blogue há mais tempo leu a minha crônica que saiu na página Logo, no Globo, ano passado. Toda essa história de pirataria digital, no fim, dizem as gravadoras, filmadoras, editoras e afins, resume-se à proteção da propriedade intelectual.

Propriedade intelectual é um erro por si só. Arte para ter valor tem justamente que ser apropriada por outras pessoas. Tem que ensinar, educar e influenciar - ser a fundação para outras criações, morais, artísticas, educacionais, ou mesmo tecnológicas - ou não tem importância. Mas pulemos essa discussão filosófica e vamos direto ao ponto prático: como vamos remunerar os criadores?

Como eu já disse na crônica e pretendo me estender mais aqui, a grande mercadoria para a produção artística hoje em dia é o prestígio. Uma vez que você tenha aparecido, você tem tudo. Seja com livros bem recebidos pela crítica, seja como ator numa peça ou filme de vanguarda, ou mesmo como Big Brother. Alcançado o panteão da fama, existem milhares de maneiras de faturar algum: anúncios, cachê para palestras, entrevistas ou (no caso de atores, modelos, bigbrothers ou outros cuja contribuição ao imaginário coletivo seja o rosto, o corpo, a presença) até mesmo para simplesmente aparecer em festas.

Escritores que se estabeleçam como bem-sucedidos poderão trabalhar escrevendo novelas ou seriados de tevê (que, aliás, sempre foram exibidos de graça e estranhamente não faliram todas as emissoras do mundo) ou colunas de jornal. Diretores de vídeo também. O prestígio também lhes permitirá conseguir mais facilmente patrocínios sob leis Rouanet. Músicos poderão agendar mais facilmente shows (além dos jabás de aparições em festa e afins).

Vejam o caso de Antônio Adolfo, o primeiro sujeito a lançar discos independentes, fora de gravadoras, a se dar bem. Ele fazia belos vinis de música instrumental. Será que a venda desses LPs realmente o sustentava? Provavelmente dava alguma grana, sim, mas o público para música instrumental brasileira é pequeno. Suas vendagens não deviam ser altas. Tampouco atrairia tanta gente para shows. E sua popularidade não seria suficiente para aparecer na Caras e vender sua imagem faturando com jabás.

Mas a liberdade de poder guiar sua própria carreira e lançar as faixas que ele queria, produzidas como ele queria, com a qualidade que ele queria lhe permitiu estabelecer-se como compositor e instrumentista de excepcional qualidade. Passou a ser requisitadíssimo para fazer produções, compor trilhas sonoras de musicais infantis, filmes e similares. E com o prestígio angariado abriu uma escola de música que tem várias filiais e onde hoje minha irmã dá aula.

Obviamente que, mesmo já tendo prestígio, esse pessoal bigbrother e afins terá que se manter na mídia, fazer uma manutenção de imagem. Para tanto, haverá uma demanda de novos trabalhos, novos videoclipes, novas novelas, novos filmes, quiçá filmes independentes de alto prestígio com a crítica e baixo retorno financeiro. E terão que pagar os técnicos que iluminam, maquiam, constróem os cenários etc. etc. Vocês pegaram o espírito da coisa.

No meio dos anos 90, com a explosão de internet e tevê a cabo, a globalização cultural inflacionou o mercado de criatividade. Em 1992, os atores que eram as maiores estrelas da Globo recebiam o então altíssimo salário de 8 mil dólares mensais. Bebeto, o único jogador de seleção ainda em atividade aqui, faturava 20 mil dólares mensais. As proporções aumentavam, mas o que o povo ganhava lá fora também era bem menos do que passou a ser considerado normal por volta de 1996, 1997. Brad Pitt, ao receber 20 milhões de dólares para aparecer naquele filme com o Anthony Hopkins, cujo nome esqueci, em que ele fazia o mr. Black, deu uma entrevista dizendo que era um acinte ele ganhar tal quantia, mas se tinha alguém pagando, também não era maluco para rasgar dinheiro.

Tal inflação de custos cobrou seu preço: qualquer projeto cultural mais ambicioso passou a custar muitíssimo mais caro e o mainstream tornou-se ainda mais conservador do que sempre foi, já que o investimento em risco era absurdamente grande. A música pop estacionou, o cinemão americano tornou-se uma bobagem necessariamente dirigida a toda a família (mais sobre isso numa próxima postagem). Enfim, a pirataria digital, o livre acesso de qualquer um com computador a obras artísticas pode ser uma poderosa ferramenta de democratização e de evolução artística. Pode ser que os criadores passem a não faturar tanto quanto os mais bem-sucedidos de hoje em dia, mas estamos há pouco mais de dez anos vivendo uma verdadeira bolha criativa. Os maiores ameaçados são as gravadoras, filmadoras, editoras e afins. Mesmo os Paulos Coelhos e Mobys da vida não vão verter tantas lágrimas assim por eles.

junho 03, 2008

Barbara Eden é um Gênio!


Quando Jeannie é um gênio estreou, eu tinha uns seis, sete anos, e ficava olhando praquela loura que passava o dia inteiro vestida de odalisca transparente e me sentia perturbado com alguma coisa que não sabia explicar bem o que era. Hoje, olhando pra trás, fico pensando o quanto a Barbara Eden não contribuiu para a heterossexualidade de nossa geração.

Aí em cima ela está já com 38 anos. Quatorze anos antes ela aparecia na versão cinematográfica de Viagem ao Fundo do Mar, o filme que depois daria origem à série. O meu crítico de cinema favorito, que está na minha lista de linques, comentou que Irwin Allen deixava claro o que julgava o grande talento dramático dela quando reservava o único close dela para sua bunda dançando em cinemascope.

Um dia desses vou alugar esse disco.