maio 31, 2008

Debates Não Muito Populares

Mesa Redonda de Cinema:

Robocop

Faz já algum tempo que fiz uma postagem sobre linguagem de cinema em que prometia ao final um pequeno ensaio sobre Robocop, o famoso filme de Paul Verhoeven dos anos 70. A fita me parecia sobremaneira adequada porque era inteligentíssima, com forte conteúdo político num formato à época inovador por cínico e ultra-violento, mantendo o formato blockbuster de ação que fazia então tremendo sucesso com Schwarzenegger, Stallone, Van Damme, Steven Seagal, Chuck Norris e mais um caminhão de desconhecidos que perderam-se nas brumas da história. O longa tornou-se extremamente popular e, como quase todos os filmes do Verhoeven, a princípio foi visto meio de soslaio pela crítica, mas acabou ganhando-a à medida em que esses profissionais foram se acostumando ao estilo pessoal e único do holandês malucão.

Com o passar do tempo, foi amadurecendo a idéia de começar a juntar meus amigos filósofos, escritores, cineastas (e outros pseudo-intelectuais em geral) para discutirmos o filme. A princípio a idéia era editar o debate e transcrevê-lo, mas com a difusão da banda larga e o sucesso do YouTube, me pareceu mais interessante - e até mais fácil - fazer um podcasting, deixando os arquivos de áudio aqui para que fossem baixados e escutados.

Infelizmente, este blogue ainda não possui podcasting, mas posso subir vídeos para ele - não áudio. Então tasquei umas fotos da gente pra fazer o fundo do debate e mandei tudo pro servidor. Pra facilitar a audição e a conexão de quem não tem a banda mais larga do mundo, piquei tudo em blocos de cerca de 5 minutos. Um dos debatedores, Roger Filósofo, vai tentar arquivar só o áudio em sua página pra quem quiser baixar pro seu iPod ou laptop ou seja lá o que for.

Então, este é o debate. Robocop foi escolhido para abrir justamente por ser um filme que fez sucesso de público e todo mundo viu e, ainda assim, ser rico em conteúdo, significados e inovações formais e estilísticas. Assim, a discussão poderia ser entendida por todo mundo, sem que houvesse necessidade de se correr a locadoras de vídeos de arte, que tivessem fitas cabeças impopulares e obscuras (embora já já estaremos fazendo isso). No futuro talvez discutamos filmes contemporâneos que dividem opiniões, como 2046, Oldboy, O Grande Lebowski e afins. Mas, por enquanto, um clássico da ficção científica dos anos 80, o grande sucesso de 87, debatido por:

Antônio Rogério da Silva - Jornalista e PHD em filosofia, o Roger Filósofo já conhecido por quem frequenta estas plagas;

Arnaldo Bloch - Jornalista e colunista de O Globo, escritor com dois livros publicados e mais dois no prelo;

Luiz Bello - Jornalista e Assessor de Imprensa do IBGE;

Luiz Henriques Neto - Eu mesmo;

Sílvio Roberto Rabaça - Jornalista e Assessor de Imprensa, com pós-graduação em Filosofia, autor de um livro e com outro no prelo.

E, com vocês, ROBOCOP!


Espero que vocês nos desculpem, esta é a nossa primeira tentativa e tal, então alguém apertou o botão errado no gravador digital e assim não capturamos as considerações iniciais do Arnaldo e de Roger Filósofo. Mas a discussão prossegue:





















maio 30, 2008

Sobre o Futebol-Arte

Bonito em futebol é volta olímpica, o resto é educação física.

maio 29, 2008

A Carne é Forte

Tem um monte de gente que conheço que não come pato, coelho ou carneiro porque são bichos fofinhos. Eu mesmo raramente como carne hoje em dia - dá trabalho pra cozinhar, dá trabalho pra digerir, deixa a gente pesado e sem disposição pra nada e nem o sabor me é tão atraente assim. Mas mando ver em churrascos, por exemplo. Num deles, outro dia, conversava com um amigo meu, daqueles que quando digo que como muito arroz integral faz questão de ressaltar que é "carnívoro", quando, pegando um coração de galinha cheio de gordura em cima, não resisti a comentar:

- Este frango tinha sérios problemas coronários.

O meu amigo fez um certo ar de desaprovação, quase de repulsa, e explicou que não gostava de pensar na carne como tendo sido um animal vivo. E o sujeito se dizia carnívoro, daqueles que não pode viver sem proteína animal gordurosa! Isso é tão errado por tantos motivos...

Evitar pensar nas mortes que causamos faz-nos evitar pensar em nossa própria morte. Não a confrontamos e a aceitamos, apenas fingimos que ela não está ali. Também não lidamos com o enorme peso psicológico que é matar um ser vivo para viver. As culturas caçadoras costumam endeusar os animais de que se alimentam, fazer deles seus totens, elaborar rituais em que sacrificam um deles para mandá-lo junto de seus ancestrais satisfeito e feliz e interceder por eles. Aceitar esta culpa e superá-la é justamente parte do processo de crescimento e transformação do menino em homem nessas sociedades. Mas não, nossa visão ocidental pós-industrial é não aceitar responsabilidades e não aceitar o envelhecimento.

Essas sociedades costumavam ter ritos de passagem em que os adolescentes numa certa idade eram tatuados, recebiam argolas, cortes, escariações, um monte de coisas. O corpo mudava, não havia volta, o jovem havia virado um adulto. A sociedade de consumo nos transformou em adolescentes na Terra do Nunca. Não matamos simbolicamente nossos pais para nos livrarmos de seu jugo - e é a associação dessa morte simbólica com a morte dos animais que nos alimentam que na maioria das sociedades guia o crescimento e a independência.

Mas nós não somos independentes - somos alienados. Não participamos do sujo e desagradável processo de matar para nos alimentarmos. Recebemos tudo limpinho e preparado. Nem sabemos como fazer um bife se recebermos um boi. A carne é apenas algo abstrato, um objeto de consumo, um objeto de desejo. Somos exatamente como o leão alimentado com bifes suculentos no zôo em MADAGASCAR e que se agonia quando, libertado, se depara com os fatos da vida: vai ter que comer algum daqueles bichos seus amigos (e de onde ele acha que vinham os filés que o empanturravam?). Somos como a metáfora visual de Verhoeven em Robocop - dormindo desligados quando nosso trabalho não é mais necessário e sendo alimentados por uma máquina com algo que tem gosto de comida para bebê (e, não por coincidência, no momento em que o Robocop se liberta do controle e retoma sua humanidade, ele dispara no neném no rótulo do vidro de papinha, "para calibrar a mira").

Quem sabe matar sabe eliminar opções, sabe escolher. Nossa indecisão no consumo é a alegria dos publicitários ("compras de impulso"). Nossa indecisão na vida criou os filhos da classe média, que aos trinta anos ainda não sabem o que vão ser quando crescer, casam, descasam, voltam para o primeiro cônjuge... se nós vamos ser carnívoros, temos que ser carnívoros. Foi comer carne que forneceu proteína para nossos cérebros crescerem. Comer carne nos tornou humanos. Ser humanos é o que nos permite optar consciente e deliberadamente até por mesmo não comer carne.

Mas é preciso saber escolher. É preciso ter provado o gosto da carne. O gosto do sangue.

O gosto da morte.

Filme Noir (Variações)

Existe o bem
Existe o mal

E existe a gente racionalizando

E, portanto, a Morte.


Existe o bem
Existe o mal
E, entre os dois,
o poeta medíocre


Existe o bem
Existe o mal
E acima deles a pureza
do psicótico e do psicopata


Existe o bem
Existe o mal

E existe Nelson Cavaquinho cantando Juízo Final


Existe o bem
Existe o mal

E, em cima do muro, Marisa Monte fazendo cover da Clara Nunes cantando Juízo Final do Nelson Cavaquinho

Filme Noir

Existe o bem
Existe o mal

E existe a gente racionalizando.
Um assassino serial é só um suicida com medo da solidão.

Como era o Rio-Sul antes de existir um Rio-Sul?


E antes que o túnel Novo fosse duplicado e outro furado ao lado. Para abrir caminho para a quadruplicação do acesso a Copa, repare que derrubaram as casinhas todas ali no meio da foto e a Ladeira do Leme foi empurrada pro lado. No lugar do enorme shopping tinha um casarão onde havia shows de bossa nova. Nada do Canecão e nem do casarão da UFRJ que existia no meu tempo e virou um bingo depois (e nem do boliche e "flipper" que existiu ali no começo dos anos 70).

XKCD de hoje


Randall Munroe é foda!

maio 27, 2008

A verdade havia arrasado com Ricardo, roubado suas forças e seu ânimo quando ele mais precisava, quando finalmente havia arrumado um emprego, um primeiro emprego, um bom começo (e um fim em si próprio). A verdade, quando ele estava mais vulnerável, trabalhando, sem disponibilidade para não se levantar da cama, para não ir à faculdade (faculdade não, era difícil pensar nisso, faculdade nunca mais, professores nunca mais, aulas nunca mais, toda uma vida na segurança da busca do diploma e agora nunca, nunca mais), sem disponibilidade para se lamentar com os amigos em tardes quentes intermináveis em verões acachapantes. Vulnerável e sozinho, enquanto seus conhecidos estavam na praia e nos chopes que ele não mais podia frequentar.

O que era, aliás, justamente a verdade começando a se insinuar.

O Diabo é o Pai do Rock - Final

Uma aventura do Inspetor com o mundialmente famoso místico Pedro Lebre!

(Leia antes a primeira e a segunda partes)

Batatas fritas são ridiculamente atiradas sobre a mulher magra, que urra de dor quando elas a atingem e cai ao chão, gritando, enquanto luta desesperadamente com elas. carvalho tenta ajudar, mas lebre o puxa.

pedro lebre

Não há nada a fazer por ele...

policial

Você quer dizer...

pedro lebre

Sim... ele está frito. Vamos embora... temos um encontro marcado com o Destino no Cemitério das Almas Perdidas... e que o eterno Vishanti nos proteja!

saem. escurece. as mesas são levantadas e viram lápides. clareia. Lebre e carvalho entram.

pedro lebre

(OLHANDO AS LÁPIDES) Sic Transit Gloria Mundi... veja todos estes túmulos... Paulo Ricardo... Giovanni e Marcelinho Carioca... Teatro Besteirol... quão vã é a glória humana...

policial

Tem idéia do que pode acontecer aqui?

pedro lebre

Os artefatos roubados possuem forças capazes de levantar os mortos... temos que evitar que eles sejam usados, a todo custo...

policial

E sabe quem pode estar por trás disto?

pedro Lebre

Desconfio... e rogo para que esteja enganado... atenção eles vêm vindo! Os disfarces!

Os dois põem copas de abajur na cabeça e ficam inteiramente eretos. Entram figuras envoltas em sinistros mantos, cujos capuzes cobrem os rostos. Eles traçam um pentagrama e colocam a estatueta swaphoili e o fetiche arumbaia dentro do pentagrama. Acendem velas nas pontas da estrela. De repente, um deles nota nossos heróis. O Líder fala com ele.

líder

O que tanto olha, número dois?

número 2

Estes abajures... há algo de estranho com eles.

líder

É que estão apagados... acende pra gente desenhar melhor o pentagrama.

O Número 2 gira em torno deles, observando-os bem.

número 2

Não acho o interruptor...

líder

Deve estar debaixo da copa. Procura ali.

O Número 2 levanta a copa de pedro lebre e olha estranhando para a cara dele. Pedro lebre pega uma lâmpada no bolso e tenta esconder o rosto atrás dela. Os outros estão ocupados, de costas.

número 2

Você não é um abajur!

pedro lebre

Olhe bem nos meus olhos... sua voz não sai... ninguém pode ouvi-lo... nenhum ser humano pode compreender o que diz!

número 2

(A VOZ VAI SUMINDO) Sim, mestre... eu sou João Gilberto... eu sou João Gilberto...

líder

E então? Cadê a luz?

número 2

(FALANDO MUITO BAIXINHO E AFINADO) Eles não são abajures!

líder

Como é? Cadê a luz?

número 2

Desliga o ar condicionado! (PUTO) Ah! Vou embora! Chega! (SAI)

número 3

Ué... que bicho o mordeu?

líder

Vamos... temos que começar a invocação.

pedro Lebre

(TIRANDO O DISFARCE) Pare! Não mexa com essas forças do Mal!

número 3

Pedro Lebre! (INVESTE CONTRA ELE, MAS PEDRO LEBRE O AFASTA COM UM GESTO HIPNÓTICO E ELE CAI, DESMAIADO)

pedro lebre

(ANDANDO ATÉ O LÍDER) Sua trilha de sangue termina aqui... vamos, entregue-se!

líder

Ha! Com quem você pensa que está lidando? Eu sou o Mestre das Forças Místicas! Em nome do terrível Dormammu da Dimensão Negra, invoco meu exército de fantasmas!

Vários paletós vêm flutuando e cercam pedro lebre e o policial que TIRARA O DISFARCE E observava a cena.

policial

Que fantasmas são esses?

pedro lebre

Funcionários Fantasmas. Eles não farão nada a não ser que você faça alguma coisa...

líder

Sim... mas vocês não têm como escapar...

policial

Quem é você, afinal? O que deseja? Por que matou o vigia do museu? Quais são os seus planos?

líder

(TIRANDO O CAPUZ LENTA E SOTURNAMENTE. SORRI) Creio que seu companheiro sabe muito bem quem sou...

pedro lebre

Meu antigo parceiro e companheiro... Saul Seixos!

policial

Mas Saul Seixos está morto!

líder

Era o que eu queria que pensassem... ninguém me chamava mais para fazer shows... as gravadoras não queriam papo comigo... chamavam-me todos de louco... pois então resolvi realmente ser louco! Simular minha morte foi apenas a primeira parte do plano! Bastou dizer que foi cirrose que todos acreditaram... e, como eu pensava, as vendas de meus discos e até de meus livros dispararam! A Sociedade só pode suportar gênios mortos! Veja Elvis Presley! Jim Morrisson! John Lennon! Foi assim que eu consegui os fundos para consumar minha vingança!

pedro lebre

Sua vingança? Mas você já se vingou! Você está rico, seu talento foi reconhecido! E conjuntos oportunistas cover assombram as casas de show torturando os que não quiseram conhecê-lo enquanto vivo! O que mais deseja?

líder

O que mais? Ha! Às vezes você me pergunta... ha... perguntas não vão lhe mostrar... eu falei de Elvis Presley, não? Pois bem, este é o meu plano! Com a ajuda destes artefatos, eu irei ressuscitar Elvis... e nos lançaremos como uma dupla sertaneja! Invocarei forças infernais para fazermos sucesso... e lançaremos uma música atrás da outra! O mundo ficará soterrado sob toneladas de música sertaneja! Mais e mais música sertaneja! Dos recusados, Elvis e Saulzito! Percebe a ironia? Tanta música sertaneja que todos perderão o ouvido para a música... e tudo isto vindo daqueles que poderiam ter apurado o gosto musical de toda a humanidade!

pedro lebre

Você está louco, Saul... deixe-me ajudá-lo... (MEXE ESTRANHAMENTE DENTRO DA CAPA)

líder

Louco, eu? Eu? Eu estou muito além destes julgamentos morais! Eu sou o Início, o Fim e o Meio! A Mosca que caiu na sua sopa! Eu transformo água em vinho, chão em céu, pau em pedra e cuspe em mel! E vocês não têm como me deter! HAHAHAHAHA! (VIRA-SE PARA OS ARTEFATOS MÍSTICOS) Em nome de Oshtur e Cyttorak, eu vos invoco, Senhor das Trevas... (VAI FALANDO PALAVRAS MÁGICAS)

policial

Vamos ficar só assistindo? Se são funcionários fantasmas, talvez possamos afastá-los com alguns cargos gratificados...

pedro lebre

Não! Deixe-o! Ele não sabe com o que está lidando! Vamos ficar aqui!

policial

Mas temos de fazer alguma coisa!

pedro lebre

(CONTENDO-O) Não! Fique quieto! Apenas feche os olhos! Não olhe! Não olhe!

líder

(TERMINANDO A INVOCAÇÃO) Magnus Maximus Agnus ego invocabur ROLLOC!

PEDRO LEBRE VIRA-SE DE COSTAS PARA SAUL E PROTEGE O POLICIAL COM SUA CAPA. SAUL RI LOUCAMENTE, OLHANDO PARA FORA DE CENA.

LÍDER

Sim! Venha para mim! Venha! Você é meu... espere... (ASSUSTANDO-SE) O que está fazendo? Pare! Eu sou seu mestre! Pare, eu ordeno! Pare, você não pode me desobedecer! Não! Não! Nãããããããããããããããããããããããããããoooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!

Uma ridícula mão picareta enorme e peluda pega saul pelo pescoço e o leva enquanto ele grita "não, não!". há um estrondo. Escurece e clareia novamente. pedro lebre olha para trás e tira a capa da frente do policial.

PEDRO LEBRE

Está tudo bem agora... pode olhar...

policial

O que... o que aconteceu?

pedro lebre

Ele foi levado pelo demônio que pretendia escravizar. Ele não devia ter nos revelado seu plano. Enquanto ele falava, eu liguei meu aparelho de telepatia celular... (TIRA DO BOLSO O TELEFONE E O MOSTRA A CARVALHO) e disquei para as profundezas infernais...

policial

Mas... de que isso adiantou?

pedro lebre

Ele pretendia primeiro escravizar o demônio... para depois forçá-lo a seguir suas ordens... mas o demônio foi mais esperto e o pegou primeiro... você sabe como são os demônios, eles não fazem nada que vá contra sua natureza...

policial

Mas... por quê? Se o seu plano funcionasse, ele ia acabar com o bom gosto da humanidade... seria terrível, terrível... como alguém poderia pensar cercado de música sertaneja por todos os lados? O mundo viraria um caos, uma balbúrdia! O que faria um demônio rejeitar um plano desses?

pedro lebre

(ANDANDO ALTIVO ATÉ OS ÍDOLOS E RECOLHENDO-OS) Música sertaneja, meu caro. A música sertaneja era a chave...

policial

Ainda não compreendi...

pedro lebre

(CAMINHANDO ATÉ O NÚMERO 3 E LEVANTANDO-O) Ele esqueceu um ponto fundamental... pobre Saul... estava obcecado por vingança...

policial

(IRRITADO) O que ele esqueceu, afinal? O quê?

pedro lebre

Ele queria entupir o mundo com música sertaneja, meu caro... (DEIXA O NÚMERO 3 COM O POLICIAL) e esqueceu que... (VAI SAINDO) ... todo pai cuida bem de seu filho... e... (SAI. FALA EM OFF) O Diabo... é o pai do Rock!

Metrô Linha 1-A

O magnífico saite sobre Rio Antigo, Foi um Rio que Passou, com esplêndidas explicações fornecendo o contexto das fotos e ilustrações, postou mês passado este pequeno artigo sobre a linha I-A. Segundo um amigo meu que trabalha com transportes, parece que o povo todo da área está reclamando, mas a imprensa não dá a mínima. Basicamente a linha 1-a relegará ao ostracismo obras já começadas de algumas estações, impossibilitará que os trens passem com os 90 segundos de intervalo previstos em seu projeto (ainda me lembro das placas, quando o metrô inaugurou meia dúzia de estações), explicando que o intervalo entre as composições era de cinco minutos, mas em breve seria de um minuto e meio) e diminuirá a capacidade da linha 2. O saite ainda aponta que a obra é perigosa, pois utilizará trilhos de manutenção planejados para lidar com locomotivas vazias a baixa velocidade e não com bólidos botando gente pelo ladrão. Enfim, para todos os detalhes, é melhor ler a matéria aí de baixo:

Essa LINHA 1-A é vendida como o fim da desagradável baldeação e a possibilidade de se ir da Pavuna até Botafogo sem trocar de trem, mas o preço é altíssimo! Enquanto isso o preço da passagem do Metrô de Buenos Aires, operado por alguns dos sócios da Metro-Rio é equivalente a 50 centavos de real.

Primeiramente vamos aos números: Esticando-se o aumento de prazo de concessão da Metrô-Rio até 2038, ela se compromete a investir nessas melhorias 1,5 bilhão de reais, ao longo desses 30 anos, o que pode até parecer muito, mas é pouco, muito pouco. Só a conclusão da Linha 2 até a Carioca está orçada em R$ 700 milhões. Essa nova linha seria composta de uma duplicação do ramal de acesso da Estação São Cristóvão até o Centro de Manutenção, e deste até a Linha 1 por outra linha, que se conecta ao sistema pouco antes da Estação Central.

No meio do caminho seria construída uma estação aérea chamada Rio Cidade Nova. É neste entroncamento com a Linha 1 que surgem os problemas - os primeiros relacionados com a segurança. A junção se dá por um túnel com 5º de inclinação e em curva, concebido para os trens o acessarem vindos da manutenção vazios, em baixa velocidade e poucas vezes ao dia. O que acontecerá com os trens cheios e a mais de 40 km/h, caso ele precise frear, ou mesmo por algum erro entre “mais quente” nessa curva, lotado?

Outro ponto é a operação dos AMV (Aparelho de Mudança de Via) no local, que são solicitados em intervalos de menos de 2 minutos hoje. Com o metrô em pleno tráfego será em intervalos de 45 segundos, das 6 da manhã até a meia-noite, e não poderão apresentar falhas, que no mínimo provocarão a paralisação de todo o sistema da cidade.

Outro ponto ainda no campo da operação é que não só toda a linha 2 como as pontas da Linha 1, da Central até a Saens Penna (ou Uruguai) e de Botafogo até Gal. Osório, jamais poderão ter os intervalos de 90 segundos planejados nos anos 70, pois no meio da Linha 1 estarão circulando os trens da Linha 2 de forma compartilhada, inviabilizando o aumento de velocidade em mais de 2/3 do sistema atual.

Também ficará inviabilizada uma futura junção da Linha 4 ou na planejada Estação Morro de São João, bem como numa anexa à Carioca. Ou seja a Linha 4 também ficará limitada.

A Linha 2 também jamais poderá operar em plena capacidade, pois suas plataformas foram planejadas para abrigar composições com até 8 carros, enquanto as da Linha 1 - onde seus trens circularão nessa Linha 1-A - só comportam por projeto até 6 carros.

Outro ponto delicado e intolerável será o abandono da parte inferior da Estação Estácio, bem como dos delicados túneis que cortam o Rio Comprido e toda a complicadíssima região da Praça da Bandeira, que custaram a preços aproximados de hoje mais de US$ 50 milhões - tudo isso seria jogado para escanteio e também toda a parte inferior da Estação Carioca (onde originariamente seria a baldeação com a linha 2), que ficaria como um monumento inacabado da falta de seriedade da construção e operação dos transportes de massa sobre trilhos no Brasil.

A SEAERJ, que reúne vários engenheiros e arquitetos que planejaram por décadas o sistema já se colocou contra, bem como inúmeros especialistas sérios como Fernando McDowel, e até mesmo engeiros da Rio-Trilhos (estatal que herdou o podre do Metrô carioca) já estão contra essa absurda idéia, que espantosamente está quase sendo posta em prática, contraditoriamente não vemos nada disso na grande imprensa, que está calada !!!!!

maio 26, 2008

Escritórios Fechados Negócios Falidos

Pra quem ainda não frequenta o Boing Boing, um dos primeiros e mais atuantes (e alternativos) blogs da história, uma dica que eu catei lá: O saite do fotógrafo Phillip Toledano com imagens de escritórios que encerraram suas atividades. Tudo com um ar muito abrupto. Toledano acabou descobrindo que estava fazendo mais arqueologia do que fotografia e tem razão: Cory Doctorow acha que os flagrantes de atividade bruscamente encerrada lembram as imagens de gesso de Pompéia; a mim me fizeram recordar as histórias de navios fantasma que aportavam ou eram encontrados sem ninguém a bordo, com mesas postas, café ainda morno e diário de bordo aberto e preparado para ser anotado. De qualquer forma, as fotos têm uma enervante poesia espectral e são belíssimas. Não custa nada dar uma conferida.

maio 25, 2008

Fantasmas (em trabalho)

Os fantasmas são os piores. Porque eles existem, eu sei, mas o resto das pessoas não sabe, então eu não posso chegar pra minha médica e dizer que ultimamente tenho me sentido pior porque os fantasmas andam me seguindo pra tudo que é lado, até quando eu tô trepando - e alguns não entendem porra nenhuma das cordas e dos prendedores de mamilo - aí é que ela ia me internar mesmo, mas não é isso, não é a cabeça, eles estavam por perto muito antes do resto, eles já estavam por perto quando eu era garota, eu só não sabia quem eles eram, eles sim, eles é que sempre souberam quem eu era, sempre, mesmo que eu, eu mesma, eu mesma não saiba até hoje.

São três dias, três dias já, nunca levou tanto tempo, nem em nenhuma menstruação, nem daquela vez que o Gusta me cortou com a faca, nem quando eu perdi a virgindade e eu nem sei, já nem sei do que eles estão atrás, de que sangue eles estão atrás, que sangue eles querem, qual sangue, se eles querem meu sangue, terão o meu sangue, verão o meu sangue só no fim, já até joguei as agulhas fora, mas eles continuam me seguindo, não, não é verdade, eles não vêm me seguindo, eles só pairam, só ficam por aqui, aqui pelo prédio, rodando pelo prédio, pelos corredores, pela escada, no elevador, no hall, na entrada do apartamento, na sala, no banheiro, no quarto, no meu quarto, sobre a minha cama, sobre a minha cama na hora de dormir, não é a hora de dormir, não, não é, eu não durmo, eles não deixam, eu não durmo, eles só ficam olhando, olhos nos olhos, abertos ou fechados, não adianta eu fechar que eles continuam olhando, eu continuo olhando, eu continuo olhando mesmo com os olhos fechados, sem dormir, sem sonhar, sem alucinar.

Só vendo aqueles fantasmas.

Churrasco da Cris Isidoro 24 de maio


Da turma da ECO só eu e Livia Rosa (embora a Livia tenha entrado só em 1994)


Cris e Amigas


Cris anda tendo aulas de violão

O Churrasco de Cris Isidoro (continuação)

Aniversário do Glauber - 23 de maio

Livia Rosa já trabalhou com o Glauber

O aniversariante cercado de amigos

Glauber e seu "filho", Minhoca


Andréa mal fotografada

Inês também mal fotografada

Os filósofos - Roger Filósofo e Sílvio Filósofo
O filósofo e Arnaldo Bloch


Lívia e Denise (Denise 3 x 2 Cláudia Belém)


O quadrinho nacional: o outro Arnaldo e Allan

Denise 4 x 2 Cláudia Belém

maio 20, 2008

Do Tempo dos Vendedores de Porta em Porta

Estou lendo meu livro tranquilamente
Quando toca a campainha.
É o vendedor de enciclopédias
prometendo milhões de cores,
dinossauros, aventuras, guerras,
átomos e viagens ao espaço.
Eu assino notas e notas promissórias e
parcelas e parcelas e parcelas - sem juros!
e ele deixa livros grandes, multicores e plastificados, mas eu
tento voltar a ler tranquilamente o meu livro
sem ilustrações, com páginas de papel
Mas toca a campainha e é a vendedora da Avon
E seus cosméticos e sua linha de maquiagem,
seus sabonetes e suas cores
me seduzem e compro produtos que nunca usei ou que me farão mal
E ela sai e eu tento voltar a ler tranquilamente o meu livro
Mas toca a campainha e é o vendedor de super-8,
projetor e até mesmo alguns filmes
E lá se vão mais e mais notas de compra
junto com o vendedor satisfeito
Então tento voltar a ler tranquilamente o meu livro
quando toca a campainha.
Atendo, que ingenuidade, é o ladrão.
Que, fascinado, leva meu super-8, os produtos da Avon e as enciclopédias
E sai, carregado, vai agradar a patroa e as crianças, além de tudo.
E fico eu, finalmente capaz de ler tranquilamente o meu livro
enquanto a tevê ao lado tagarela, sem que eu a assista.

Ah, se pelo menos fosse em cores...

Tirinha - Segunda Versão

Tarde na Praia

Lembra daquele outro casal?










maio 19, 2008

Tirinha

Clique na imagem para vê-la maior
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A Maquininha de Xerox do www.stripgenerator.com ataca outra vez.

Os Brasileiros Descendem dos Italianos

Descubra o por quê.

O Irmão que Arnaldo Nunca Teve

A Suzy me ligou desesperada. Tinha visto no RJTV que o jornalista Arnaldo Bloch tinha sofrido um acidente. Uma rápida ligada pro Heitor confirmou que eles não tinham sofrido nada. Quase nada, teve uns hematomas. Mas o Heitor até ficou mais bonitinho com eles. Como vocês já devem ter lido na crônica do Arnoque sobre o não-sinistro, o povo da Globo confundiu o Heitor Pitombo, amigo de faculdade (e de banda) do Bloch com seu irmão inexistente.



A foto é do próprio Arnaldo, tirada no show do Terço. Não, não foi nenhuma sequela cerebral que os levou a ver uma apresentação de rock progressivo, os dois acreditam nisso e até iam entrevistar a turma do Flávio Venturini quando tombaram de lado na Presidente Vargas.

O Diabo é o Pai do Rock parte II

Leia a parte I antes. E não se esqueça que este é um esquete de 1993, cheio de referências de época que precisam de uma atualizada...

os dois saem. o palco é arrumado para ser um bar. uma porteira toma conta da entrada. lebre e carvalho aparecem e a porteira os barra.

porteira
Qual é a senha?

pedro lebre
Olhe bem nos meus olhos... você está sob meu poder... você é uma galinha... você é uma galinha? Compreende?

porteira
Sim, mestre.

pedro lebre
Então me diga... quem você é?

porteira
Meu nome é Ailime... eu sou modelo e atriz.

policial
Meu Deus! Funcionou!

pedro lebre
Vamos entrar.

Os dois entram. encontram uma mulher magra sentada na mesa. lebre dirige-se a ela.

pedro lebre
Queríamos falar com o Homem Gordo.

mulher magra
Sou eu.

policial
Mas você é mulher e magra!

mulher magra
Estou disfarçado. Temos que ser discretos. Metade deste bar tem um terceiro olho. (PAUSA. VÊ OS OLHARES DE DESAPROVAÇÃO DE LEBRE E CARVALHO) Na testa. Místico, entende? Visão da alma, saca? Tudo bem. Lembrem-se de falar em código. Querem alguma coisa?

pedro lebre
Antenor Mayrink Veiga.

mulher magra
Ah, já comeram muito e querem descansar um pouco. Tudo bem. (ESTALA OS DEDOS. UMA REFEIÇÃO VEM VOANDO NA DIREÇÃO DELE) O que vocês querem saber?

pedro lebre
O que você sabe sobre o roubo da estatueta Swaphoili e do fetiche Arumbaia?

mulher magra
Trouxe os objetos de poder para mim?

policial
Objetos de poder?

Mulher magra
Sim... artefatos raros e antigos... de quando a humanidade era jovem e inocente.

pedro lebre
Aqui estão eles... (VAI ENTREGANDO À MULHER MAGRA) Uma faixa do Fluminense campeão... um disco de ouro do RPM... um ingresso para a Mamão com Açúcar... e aqui... o objeto mais difícil da minha coleção... um neurônio de Júnior Baiano!

policial
(CURIOSO) Artefatos bem antigos.... (À MULHER MAGRA)

pedro lebre
Diga-nos o que queremos saber.

mulher magra
Dizem por aí que no Cemitério das Almas Perdidas, um homem está reunindo poder...

policial
(AFLITO) Quem?

Enquanto eles conversam, a faca da refeição da mulher magra começa a levitar. Pedro lebre se levanta repentinamente, gritando:

pedro lebre
Cuidado, uma faca!

A mulher magra se desvia da faca. O policial se abaixa. pedro lebre começa a fazer gestos hipnóticos para a faca.

pedro lebre
Eu cuido disso! Você é um cavalo! Você é um cavalo!

faca
Eu sou o Edmundo... eu sou o Edmundo!

policial
Meu Deus! Funcionou!

mulher magra
(LEVANTANDO-SE) Vamos! Por aqui!

os dois seguem a mulher magra, mas são atacados por outros objetos levitantes.

pedro lebre
Cuidado! Um copo!

Eles se desviam do copo.

pedro lebre
Cuidado! Uma Crush de casco escuro!

Eles se desviam da crush de casco escuro.

pedro lebre
Cuidado! Um exemplar autografado deEu Nua - a autobiografia de Odete Lara!

Eles se desviam do LIVRO autografado de ODETE LARA, mas, quando estão prestes a alcançar a saída, pedro lebre grita apavorado:

PEDRO LEBRE
Batatas Fritas!

Batatas fritas são ridiculamente atiradas sobre a mulher magra, que urra de dor quando elas a atingem e cai ao chão, gritando, enquanto luta desesperadamente com elas. carvalho tenta ajudar, mas lebre o puxa.

pedro lebre
Não há nada a fazer por ele...

policial
Você quer dizer...

pedro lebre
Sim... ele está frito. Vamos embora... temos um encontro marcado com o Destino no Cemitério das Almas Perdidas... e que o eterno Vishanti nos proteja!

Ciúme

Não acredite em ciúme. Não aceite ciúme. Ciúme é uma forma de se dominar e manipular o outro na relação, sob um disfarce de insegurança. Funciona bem porque a vítima se sente lisonjeada, acreditando que todo aquele desequilíbrio é fruto da paixão descontrolada, quando é apenas neurose.

Não acredite em ciúme. Não aceite ciúme.

Aviões de Combate Parte I

Todo mundo sabe a diferença entre um bombardeiro e um caça, certo, mas você saberia diferenciar um interceptador de um caça de supremacia aérea para qualquer tempo? E, a bem da verdade, pouca gente classificaria o F-111 como bombardeiro. Então, para os bem principiantes fãs de aviões de combate - que certamente acompanham quase toda semana COMBATES AÉREOS no History Channel, uma rápida explicação de alguns tipos de aeronaves militares e suas propriedades:

Bombardeiros

História

Quando Louis Blériot cruzou pela primeira vez em 1909 o Canal da Mancha com um "mais-pesado-do-que-o-ar" (já havia sido feito de balão), os jornais estamparam nas manchetes "A Inglaterra não é mais uma ilha". E o que era pior, a única nave capaz de carregar uma carga significativa de bombas por um longo percurso era o zeppelin, que só os alemães sabiam construir na época. Flanando mais alto do que qualquer aeroplano da época, ele afigurava-se invencível, surgindo no horizonte para despejar sua carga mortífera.

Na verdade, com a tecnologia da época, sem visores de bombardeiros para travar no alvo, sem uma carga realmente significativa de bombas e nem zeppelins em quantidade suficiente, os dirigíveis rígidos pouco fizeram além de matar um azarado infeliz ou outro que ficou no caminho de seus petardos. Além do mais, o rápido desenvolvimento tecnológico dos "mais-pesados-do-que-o-ar" lembrou a todo mundo que eles eram gigantescos sacos cheios de hidrogênio combustível. O aumento da potência dos motores e a engenhosidade russa de Igor Sikorsky (mais tarde o pai do helicóptero) criariam os primeiros grandes aviões quadrimotores. Olhando para os bichos, biplanos, feitos de madeira e tecido, cheios de cabos e estais é difícil imaginar que eles conseguissem sair do chão, quanto mais serem armas mortíferas, mas era essa sua verdadeira face.

Os bombardeiros russos - e depois os Caproni italianos - já tinham quase tudo que caracterizaria as fortalezas voadoras da II Guerra - quatro motores, grande compartimento de bombas, torres giratórias de metralhadoras para auto-defesa. Os alemães e ingleses preferiram os bimotores - os Gotha e DeHavilland DH4. Porém, apesar do entusiasmo de Douhet e Billy Mitchell, que pregavam o bombardeio estratégico como a arma de dissuasão e vitória definitiva, alegando que eles sempre conseguiriam penetrar qualquer defesa, quando a Grande Guerra 2 - A Missão estourou em 1939, só os americanos tinham um quadrimotor que se prestava a esse papel, o B-17, tão único nos anos 30 que ficou conhecido como a "Fortaleza Voadora".

Os americanos tinham suas razões para criarem bombardeiros tão grandes: eles sabiam que qualquer guerra que travassem seria provavelmente à distãncia. A uma distância particularmente grande, se a Inglaterra caísse. Daí a busca por aviões que pudessem atravessar o Atlântico, largar umas bombinhas e voltar pra casa pra contar a história, busca que acabaria desaguando no B-29, a Superfortaleza Voadora, e no B-36, o mais retrô-future aparelho militar do pós-guerra (incidentalmente, essa é a razão pela qual os caças americanos foram armados até a Guerra da Coréia com metralhadoras, desprezando os canhões que disparavam projéteis mais pesados e destruidores numa cadência de tiro mais lenta: dificilmente eles seriam chamados para derrubar grandes aeronaves estratégicas sobrevoando os EUA; sua missão seria detonar outros caças, mais rápidos, ágeis e frágeis, que estariam defendendo seu solo pátrio dos incursores americanos e que ficariam na mira por pouco tempo, não precisando de muito chumbo para cair, daí advindo a preferência pelo fogo rápido, mesmo que leve).

Já os alemães preferiram os bombardeiros bimotores porque toda sua filosofia estava voltada para a blitzkrieg: tanques se movendo velozmente pelo campo de batalha, abrindo brechas nas linhas inimigas e avançando sem parar para consolidar os ganhos, tarefa da infantaria que viria depois. Isso acabava levando os blindados profundamente dentro de território adversário, e a única cobertura de artilharia disponível seria aérea. Eles não queriam tapetes de bombas. Queriam precisão, para o trabalho de contrabateria (a destruição dos canhões adversários). E a melhor maneira de consegui-la era descer dos céus num mergulho quase vertical, mantendo o alvo sob mira o tempo todo, largando a carga no último instante, quase entregue a domicílio, numa trajetória perfeita. Para isso, desenvolveram o melhor bombardeiro de mergulho do começo da guerra, o Ju 87 Stuka (1).

O Stuka era um monomotor que ficaria logo obsoleto. Na verdade, seu trem de pouso fixo produzindo arrasto, sua velocidade máxima por volta de 300 km/h, seu assento alto que deixava o piloto muito exposto e seu armamento defensivo inadequado já o faziam ultrapassado quando as hostilidades começaram, mas as forças aéreas inimigas estavam mal equipadas. Os nazistas sabiam dos problemas de sua máquina e, fãs que eram do bombardeio de mergulho, resolveram construir um bimotor que se prestasse ao papel. No entanto, com o tamanho maior havia um limite de pressão que as asas podiam suportar no mergulho e, por isso, a aeronave resultante, o Junkers Ju 88, jamais poderia despencar tão verticalmente quanto um Ju 87. Em compensação seria um avião extremamente versátil, que trabalharia em missões de ataque, caça-noturno, lança-minas, batalhas aeronavais etc. Foi com ele e os destruidores de Guernica, o Heinkel He 111 e o Dornier Do 17, máquinas também já não mais tão modernas, que Hitler entrou na guerra. Sem os quadrimotores estratégicos, a Luftwaffe não teria como dobrar a RAF na Batalha da Inglaterra, um confronto puramente aéreo, sem intervenção do exército (ou mesmo da pequena marinha germânica), e o resto é história.

A bomba atômica finalmente faria verdade as palavras de Douhet de que o bombardeio estratégico dobraria qualquer nação. Foi a época dos bombardeiros grandes e pesados, capazes de carregar as bombas atômicas grandes e pesadas d'antanho, que desaguariam no B-52 e no Bison soviético. No final dos anos 50, entretanto, com a miniaturização dos artefatos nucleares e o desenvolvimento de foguetes balísticos intercontinentais capazes de levar sua carga até o alvo do outro lado do mundo em meia hora, os aparelhos gigantescos e caríssimos foram sendo abandonados e a última nação além das superpotências que ainda os fabricava, a Inglaterra, cessou a produção. Pesava contra esses leviatãs também seu gigantismo. Suas dimensões exageradas permitiam facílima localização por radar e derrubada pelos mísseis assim guiados e recém-aparecidos no campo de batalha.

A princípio os americanos não quiseram acreditar muito na vulnerabilidade de seus símbolos fálicos favoritos da Guerra Fria. Acharam que bastaria fazer os bombardeiros voarem mais alto e mais rápido para voltarem a ser seguros e assim começaram a desenvolver o belíssimo B-70 Valkyrie, um monstro de 93 toneladas quando vazio e um quarto de milhão de quilos quando totalmente carregado, ainda assim capaz de voar a três vezes a velocidade do som (Mach 3).
A derrubada por um míssil soviético do avião-espião U2, que teoricamente voava tão alto que era invulnerável, encerrou em 1960 o programa futurista. Apenas os protótipos do Valkyrie foram terminados e usados para pesquisa de vôo hipersônico.

Os americanos então voltaram-se para aviões capazes de invadir o espaço aéreo inimigo voando rente ao solo, acompanhando o relevo e assim evitando o radar, como o F-111 e o B-1. Ambos eram aparelhos Mach 2 (voavam a 2 vezes a velocidade do som), com asas de geometria variável (parte delas avançava para aumentar a área e a sustentação em velocidades mais baixas, ou em altas velocidades e altura, onde o ar é mais rarefeito, ou recuava para diminuir o arrasto em altas velocidades ou baixa altura, onde o ar é mais denso) e ambos foram projetos polêmicos, complicados, que acabaram entregando aos militares uma aeronave substancialmente diferente do inicialmente desejado. Eram (e são, o F-111 ainda serve na Austrália e o B-1B finalmente está saindo da obscuridade na USAF), entretanto, excelentes aparelhos, o primeiro um bombardeiro médio e o segundo um pesado, pensado para substituir o aparentemente insubstituível B-52.

Estes aviões começaram a ficar disponíveis no final dos anos 60. Infelizmente para eles, além dos custos estratosféricos, tiveram outro inimigo com que lutar: o caça-bombardeiro. Após o rápido desenvolvimento dos motores a jato nos anos 50, os caças, além de rápidos, começaram também a ser capazes de decolar com uma pesada carga bélica. O Phantom F-4 -podia carregar tantas bombas quanto um B-17 da II Guerra, com a vantagem de ser provavelmente o melhor caça de sua geração. Logo o Jaguar, o Mig-23 e o Tornado seguiam pelo mesmo caminho. Os americanos começaram a desenvolver no final dos anos 70 um aparelho sem assinatura no radar, que acabaria lhes dando o B-2 Spirit e este foi o único bombardeiro construído no mundo desde então (2). Quando até um caça leve para combate aéreo aproximado como o F-16 pode carregar toneladas de petardos e ainda se defender dos interceptadores inimigos, torrar tanta grana em máquinas caríssimas, pesadas e de complicada manutenção dificilmente conseguiria se explicar perante a comissão de orçamento do Congresso.

Propriedades

Os bombardeiros são fáceis de reconhecer: são grandes, têm vários motores (com exceção dos bombardeiros de mergulho), são subsônicos (com exceção do B-58 Hustler, B-1 Lancer, Tu 22M Backfire), têm um compartimento interno para carregar as bombas (embora também possam carregar ainda mais em suportes na asa) e atualmente ainda têm capacidade de levar mísseis de cruzeiro.

Da I Guerra Mundial até o começo da era do jato eles carregavam torres de metralhadoras para auto-defesa, que depois ficou a cargo de escoltas de caças, mísseis, missões rente ao solo para evitar os radares, ou contra-medidas eletrônicas.

Até a era do jato, as tripulações dos bombardeiros podiam chegar a 10 sujeitos - piloto, co-piloto, navegador-bombardeiro, operador de rádio, artilheiros, engenheiro de vôo... a eletrônica e a eliminação das torres de canhões reduziu esse povo todo a 5 no gigantesco B-52 e 2 no B-2 Spirit, o mínimo exequível, dado que as missões de bombardeio usualmente envolvem grandes distãncias e longos vôos, tornando imprescindível um rodízio nos controles.

Bombardeiros Famosos

Ilya Muromets - o primeiro grande bombardeiro.

De Havilland DH 4 - bombardeiro médio da I Guerra.

Gotha - Primeiros bombardeiros alemães.

B-17 Fortaleza Voadora - primeiro bombardeiro quadrimotor moderno.

B-24 Liberator - o outro quadrimotor americano da II Guerra; voava um pouco mais alto, mais longe, mais rápido e carregava mais bombas que a B-17, que era favorecido pelos pilotos por aguentar mais danos em combate e ainda assim ser capaz de voltar para casa. Apesar disso, o Liberator era mais versátil e seu superior raio de ação o fazia ideal para patrulhas anti-submarino. Foi o bombardeiro pesado mais construído da história.

Lancaster - O quadrimotor inglês. Menos blindado e armado do que suas contrapartes americanas, era mais versátil e conseguia carregar bombas de até 10 toneladas. Suas vulnerabilidades levaram os britânicos a fazer bombardeios exclusivamente noturnos.

De Havilland Mosquito - A maravilha de madeira. Com o metal escasso devido à grande demanda, De Havilland resolveu ressuscitar a madeira como material de construção, o que então se julgava completamente ultrapassado. Com bons contactos no Departamento de Defesa, ele conseguiu vender sua idéia apesar de toda a oposição oficial e entregou um aparelho que podia ser construído em serrarias, por carpinteiros, ao invés de siderúrgicas e operários especializados. A estrutura em balsa devastou as florestas britânicas, mas poupou muito material estratégico para os Spitfire e Lancasters e também tornou o bichinho leve e um azougue capaz de bater em velocidade os caças mandados atrás dele. Tão rápido era que nem levava armamento defensivo. O Discovery uma vez mostrou um especial sobre a II Guerra e um velhinho alemão que combatia nos céus da II Guerra deu uma entrevista contando como eles faziam para combater a campanha de bombardeios aliada, dizendo "e ia tudo bem, até que apareceram aqueles terríveis Mosquitos". Um tremendo tributo. Sua agilidade e velocidade levaram-no também a ser aproveitado como caça noturno (já que tinha tamanho para carregar o volumoso radar portátil da época) e caça de longa distância.

B-29 Superfortaleza Voadora - o último quadrimotor americano da II Guerra. Com cabine pressurizada, altíssima eficiência aerodinâmica, alcance quase intercontinental, metralhadoras por controle remoto, seu desenvolvimento lançou as bases para o desenho dos bombardeiros a jato que o sucederiam (e ainda assim sua última versão vitaminada, o B-50, tenha sobrevivido por mais de uma década aos aviões turbinados).

B-47 Stratojet - O primeiro bombardeiro a jato foi o B-45 Tornado, que era basicamente um quadrimotor da II Guerra com turbinas no lugar dos motores a pistão. O B-47 tinha asas enflechadas (que funcionam melhor em altas velocidades), fuselagem calcada no B-29 e uma aparência decididamente futurista quando apareceu, ainda nos anos 40. Serviu até o começo dos anos 70, quando os jatos já estavam na terceira geração.

B-36 Peacemaker - Já citado lá em cima, foi o mais retrô avião militar de todos os tempos, com seis motores a hélice impulsionadores (a hélice era virada para trás), mais quatro jatos na ponta das asas ligeiramente enflechadas, porém ainda com as pontas curvas típicas da II Guerra. Embora obsoleto já quando surgiu, era a única coisa capaz de voar até a URSS carregando as canhestras e volumosas bombas atômicas de sua era e tapou o buraco até a aparição da

B-52 Stratofortress - O mais famoso e bem-sucedido bombardeiro pesado da era do jato. Funcionou bem no Vietnã, no Iraque I e na Bósnia. Atualmente está na reserva no Iraque II.

B-58 Hustler - O único bombardeiro Mach 2 a sair do papel. Bonito, caríssimo, de manutenção pesadelar e praticamente inútil com o rápido desenvolvimento dos mísseis, só serviu como relações-públicas, batendo um monte de récordes de velocidade e altura e enfeitando fotos com sua esguia e bela figura.

Avro Vulcan - Transônico inglês, o último bombardeiro insular, com asa em delta curvo. Ficou famoso aqui quando um pousou avariado no Brasil durante a guerra das Malvinas e ficou internado. O mais ágil bombardeiro pesado já construído até o B-1.

B-2 Spirit - Bombardeiro stealth, quase não aparece no radar. Caro, lento, tão difícil de pilotar que suas missões são feitas todas em piloto automático, serviu para desenvolver a tecnologia para os práticos stealth F-22 e JSF 35.

Junkers Ju 87 Stuka - Bombardeiro de mergulho alemão da II Guerra. Seu uso integrado com tanques aterrorizou as tropas inimigas durante os primeiros anos do conflito, mas seu desenho antiquado logo o tornou obsoleto.

Junkers Ju 88 - Em vez de um quadrimotor que saturasse o alvo de bombas na esperança de que uma acertasse, os alemães resolveram tentar um aparelho médio que usasse o mergulho para economizar munição e tamanho. O bimotor Ju 88 foi o maior tamanho que eles conseguiram para tal tipo de avião sem que as asas se desmanchassem quando ele tivesse que ganhar altura novamente. Ainda assim o ângulo de ataque nunca seria o mesmo de um monomotor. De qualquer forma, manteve-se uma máquina de primeiríssima linha até o fim das hostilidades e serviu como bombardeiro, torpedeiro, lança-minas, caça noturno...

Douglas SBD Dauntless - Bombardeiro de mergulho de porta-aviões da II Guerra. Esses navios americanos estavam cheios de aeronaves ruins quando os japoneses atacaram. Sorte dos ianques que não era o caso do Dauntless e foi ele quem ganhou as batalhas do Mar de Coral e Midway, afundando os porta-aviões americanos e castrando a marinha nipônica. Nunca mais os japas puderam atacar a seu bel-prazer em qualquer lugar do Pacífico, depois da drástica diminuição de sua frota aeronaval.

A seguir: interceptadores.


(1) Na verdade, tanto os americanos, com o lendário e valoroso Dauntless, quanto os japoneses, com o esplêndido Val, tinham bombardeiros de mergulho melhores, mas ambos eram aparelhos de porta-aviões, feitos para atacar navios, com requisitos diferentes daqueles para o ataque a alvos em terra, sendo o mais marcante a grande autonomia para atravessar enoooooormes distâncias sobre as águas do interminável Pacífico. Os ianques chegaram a pensar em usar o Dauntless com o exército, mas acabaram desistindo, preferindo adaptar seus anabolizados caças como aviões de ataque, como o P-47 Thunderbolt que equipou a Força Aérea Brasileira.

(2) O B-1 na verdade foi abandonado nos anos 70 e ressuscitado nos anos 80 como uma aeronave mais simples, com pequena assinatura de radar, um pouco mais barato e com velocidade máxima rebaixada de Mach 2 para Mach 1,25, mas era apenas uma recauchutagem de um projeto antigo, tanto é que em vez de novo nome, ganhou apenas um "B" para indicar ser apenas uma subvariante - O B1B.

maio 13, 2008

maio 10, 2008

Meus 10 Discos Favoritos de Rock Brasileiro

Antes que me acusem de qualquer coisa, vou logo avisando alguns critérios que escolhi: nenhuma banda com mais de um disco; a importância e a influência no que se seguiu conta pra burro e por isto a lista parece dar mais destaque aos mais antigos. Devo confessar que como é a lista dos MEUS favoritos, deixei de fora um álbum seminal para o rock brasileiro, o primeiro do Kid Abelha, que conseguiu o fabuloso feito de que TODAS as músicas foram sucesso nas rádios. Gosto de alguns trabalhos dele mais tardios, mas ainda assim não o suficiente pra pô-los na minha lista.

Então, eis aí minha seleção:

1. Ando Meio Desligado ou A Divina Comédia (Mutantes) 1970

Não, não fiquei na dúvida entre dois grandes álbuns. Já em 1970 os Mutantes, sempre mundialmente à frente de seu tempo, lançavam discos com duas capas e dois nomes diferentes, uma delas simplesmente fabulosa, uma belíssima foto preto-e-branco de Arnaldo Baptista erguendo-se de um túmulo enquanto Rita Lee como Dante e Sérgio Dias como Virgílio observam, reproduzindo uma gravura de Doré para (dã) A DIVINA COMÉDIA. A capa alternativa mostrava Rita na cama com os dois irmãos enquanto Liminha toma um cafezinho ao lado, sugerindo práticas sexuais ousadas e heterodoxas para o Brasil do AI-5.

Os Mutantes foi a melhor banda de rock que este país já teve. Pena que a gravadora tenha desistido de lançá-los internacionalmente. Descobriram o erro quando eles se tornaram famosos no mundo todo vinte anos depois de cada um seguir seu caminho. É difícil dizer qual o melhor disco, mas fico com este pelo belo apanhado do fantástico alcance deles. Da extremamente simpática ANDO MEIO DESLIGADO, que Marisa Monte regravou para se lançar e o Pato Fu botou em disco pra consolidar sua imagem de "somos os Mutantes como eles seriam hoje em dia" (mas não se pode culpar Arnaldo, Sérgio e Rita por nada disso), à sublime AVE, LÚCIFER, passando pelo deboche, literal em CHÃO DE ESTRELAS (com efeitos sonoros sublinhando a letra) e nonsense no bluesão MEU REFRIGERADOR NÃO FUNCIONA. Magnífico.

As outras grandes obras dos Mutantes: OS MUTANTES (1968), MUTANTES (1969), JARDIM ELÉTRICO (1971). Seguindo de perto, MUTANTES E COMETAS NO PAÍS DOS BAURETS (1973).

2. O Inimitável Roberto Carlos (Roberto Carlos) 1968

Parece inacreditável, mas ainda tem gente que não gosta de Roberto Carlos, ou acha que ele teve lá sua importância, ou acha gostosinhas as músicas da Jovem Guarda. Na década de 70 ele era acusado principalmente por ser alienado, cantando sobre amor e dor-de-cotovelo, o que mostra que, como sempre, sutileza não é o forte de intelectuais militantes de esquerda. A profunda melancolia que perpassa a produção do Rei, principalmente a partir de 1968 é a coisa mais parecida com o clima de falta de perspectiva de TERRA EM TRANSE já aposto em vinil. A letra de AS FLORES DO JARDIM DA NOSSA CASA parece a continuação da famosa previsão do tempo do Jornal do Brasil no dia seguinte à promulgação do AI-5 (1). Além disso, é visível um questionamento existencial - um tanto simplista, é verdade, mas valioso justamente por sua "pureza", já que Roberto não tem uma formação cultural intelectualizada e a busca sincera de um significado de tudo no misticismo (que acabaria levando a uma pobre militância católica nos anos 80), repetindo os caminhos do movimento hippie lá fora, do qual ele era considerado um antípoda, por ser caretão (um roqueiro da Tijuca dos anos 50, que tinha uma banda com Tim Maia e Erasmo Carlos, careta????). Isso, é claro, quando ele não era claro e direto em seu protesto (DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS, TODOS ESTÃO SURDOS?).

Foi muito difícil escolher entre os discos de 1964 a 1971 (os dos anos seguintes continuam fantásticos, mas dificilmente poderiam ainda ser classificados de rock). Fiquei com o de 1968, o primeiro após Roberto largar o programa da Jovem Guarda. Talvez por isso, assim como os Beatles depois que deixaram de dar show, com mais tempo, ele pôde refinar sua produção. O INIMITÁVEL ROBERTO CARLOS, no entanto, não guina para a psicodelia e sim para o soul e o funk, pela primeira vez escutados no Brasil. Certamente gente que conhece o cenário musical da época vai apontar precursores, mas quase ninguém deve ter ouvido. Roberto Carlos era só o maior vendedor de discos da época e aventurar-se pelo som da Motown com SE VOCÊ PENSA, CIÚME DE VOCÊ e NÃO HÁ DINHEIRO QUE PAGUE era abrir uma nova trilha por aqui. Ainda tem belíssimas baladas, como AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM, as funkeadas E NÃO VOU MAIS DEIXAR VOCÊ TÃO SÓ e a recentemente regravada EU TE AMO, EU TE AMO, EU TE AMO. Tem até uma ótima imitação de Beatles (qual o problema? Os Mutantes também cometiam as deles), NEM MESMO VOCÊ. E, no ano seguinte, o velho amigo Sebastião Maia, o Tim, iria lhe trazer NÃO VOU FICAR, cuja gravação pelo Rei nunca foi superada.

E nem vai ser. Como diz o meu amigo Zé José, é perda de tempo regravar Roberto Carlos - a versão do Rei vai ficar melhor. Imitador confesso de João Gilberto, ele levou o estilo peculiar e idiossincrático do bossanovista para o rock com resultados sensacionais. Sua divisão de sílabas é complexa, mas ele o faz com tanta facilidade que nem aparece. Confira o DVD Roberto Carlos Ao Vivo no Pacaembu: em COMO É GRANDE MEU AMOR POR VOCÊ, o público tenta cantar junto com ele, mas ele sempre atrasa ou adianta a entrada no verso, estica ou encurta as divisões e o povo simplesmente não consegue acertar uma única vez... e desiste! Ele também usa este recurso em AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS, em que entra adiantado em todos os versos e deixa a banda correr atrás dele, reproduzindo musicalmente a letra que fala apenas em velocidade. E nem vou mencionar o que diz minha irmã, professora de canto e cantora: "olha, já ouvi todo mundo desafinar - Caetano, Milton, Gil, Gal, Betânia, quem você quiser. O único brasileiro que eu NUNCA ouvi desafinar foi Roberto Carlos".

Outras obras-primas de rock (os discos dos anos 70 também são campeões, mas em outro estilo): ROBERTO CARLOS EM RITMO DE AVENTURA, ROBERTO CARLOS 1969, ROBERTO CARLOS 1970, ROBERTO CARLOS 1966, É PROIBIDO FUMAR, ROBERTO CARLOS CANTA PARA A JUVENTUDE.


3. Gita (Raul Seixas) 1974

Outra difícil escolha. O primeiro álbum, KRIG-HA, BANDOLO!, é o primeiro, tem MOSCA NA SOPA, a melhor síntese de forró e rock de sua carreira (estilo que faria a carreira dos Raimundos) e OURO DE TOLO, além do hino METAMORFOSE AMBULANTE. Mas o segundo, mais influenciado pelo hippie seguidor de Aleister Crowley, Paulo Coelho, não é só uma sucessão de negativas para o sistema ou de slogans da contracultura - são mostrados os caminhos alternativos, seja na SOCIEDADE ALTERNATIVA, seja na declaração de princípios de MEDO DA CHUVA, ou no misticismo da melhor música de Raul Seixas e certamente uma das dez mais: GITA, uma magnífica composição, música e letra (que infelizmente Raul não era capaz de apresentar no palco e já vi Jerry Adriani ao vivo servir-se de um papelzinho para cantá-la) transcendendo o formato e a época para aparecer viva e enigmática até hoje.

Qualquer outro disco dele é bom.


4. Legião Urbana (Legião Urbana) 1985

Eu estava em casa à toa fumando na cama (parei há nove anos) ouvindo a Fluminense FM no receiver de minha aparelhagem Polyvox, quando entrou uma fita demo de uma banda cantando AINDA É CEDO. "Ei", pensei, "isso é bom!". Depois ouvi as outras demos que a Maldita tinha deles: A DANÇA (o COMO NOSSOS PAIS dos anos 80 (2)) e o hino da minha geração pós-64: GERAÇÃO COCA-COLA, a música que melhor caracteriza a cabeça da gente nascidos na segunda metade dos 60 e adolescente/jovem nos 80. Aí soube que eles iam dar um show no Circo Voador (vindo depois de Ojeriza e abrindo para o onicircovoador Celso Blues Boy), vi a extraordinária performance de Renato Russo no palco pela primeira vez e fiquei tremendamente impressionado com a canção que fechava o set, SOLDADOS. O disco saiu uns oito meses depois e a produção de algumas músicas era até pior do que a das fitas demo, mas quem ligava? Não tinha nada tão bom na época.

Qualquer outro disco deles também é sensacional, mas o primeiro foi o primeiro e por isso o escolhido.

Ah, e invejem-me: eu gravei a versão demo deles da rádio, digitalizei e tenho até hoje A DANÇA (com a letra original) e AINDA É CEDO.


5. Cabeça Dinossauro (Titãs) 1986

É chato dizer isso de um disco tão influente e marcante, mas, no fundo, no fundo, CABEÇA DINOSSAURO é só um álbum de punk rock bem produzido (podia ter se chamado também OS TITÃS ENCONTRAM LIMINHA), que lançou o "punk-pop" que iria dominar a cena a partir de então. É claro que nem toda banda punk pop iria ter Arnaldo Antunes revoltado depois de ser preso por porte de heroína e disposto a botar pra quebrar nas letras. Nem tanto lirismo e inteligência nas canções expressivas e incisivas. Nem tanto swing na cozinha, tornando o ritmo quase irresistível pra dançar. Não foi à toa que quase toda banda dessa época até a eleição do Collor (e a morte do RPB dos anos 80, que assistiu à ascensão do sertanejo e do pagode) foi de alguma forma influenciada por este álbum. Parece fácil de repetir, mas era tão complicado que nem mesmo os Titãs nunca mais conseguiram igualar o resultado (só em partes de JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS). Depois o Arnaldo Antunes ficou experimental demais, ele saiu, eles reverteram a um punk mais básico (num disco injustamente vilipendiado) e finalmente eles se tornaram paulistas balzaquianos fofinhos, indistinguíveis de publicitários yuppies.

E até hoje tem banda de rock brasileira tentando emular o pop punk de CABEÇA DINOSSAURO.

A outra grande obra deles é o JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS.


6. Da Lama ao Caos (1994) Chico Science e Nação Zumbi

Quem hoje em dia não está tentando (ainda) imitar CABEÇA DINOSSAURO, está tentando imitar o mangue bit (que ficou erradamente conhecido como mangue beat) que foi apresentado ao mundo neste CD. Tão tamanha e imediata foi sua influência que nem parece que se passou pouco mais de uma década desde que foi lançado. A quantidade de gente procurando emular a genial mistura de Chico Science e sua banda, misturando rock, ritmos nordestinos, música eletrônica e hip hop é gigantesca e inclui até mesmo a Nação Zumbi. Todos os outros discos aqui listados, por mais brilhantes que sejam, mostram os sinais da idade. Não este. E não é por ser o mais recente - ouvir CABEÇA DINOSSAURO, por exemplo, em 1998, já era viajar no tempo, enquanto vídeos de shows do Sex Pistols até hoje soam contemporâneos. O som deste álbum é tão à frente de seu tempo e tão revolucionário que ainda vai permanecer moderno e atual provavelmente por um longo tempo. Provavelmente a melhor fusão de rock com música regional brasileira já realizada.

O disco seguinte, Afrociberdelia, é talvez até melhor, mas não foi tão surpreendente quanto este.


7. Revolver (Walter Franco) 1975

OU NÃO?, o primeiro disco, com sua famosa mosca, provavelmente é melhor, mas é radical demais, é quase inaudível. REVOLVER é mais condescendente com os pobres mortais que iriam ouvi-lo.

Walter Franco provavelmente é o mais desconhecido dos caras desta lista, mas todo mundo a quem apresento acha fantástico. Roqueiro pesado, às vezes quase metaleira (FEITO GENTE, CANALHA), balança com um misticismo zen e experimentalismo concretista nas letras, é o maior e mais talentoso expoente do rock contracultural do começo dos 70. Tão estranho (e brilhante) é o seu som que praticamente nunca fez sucesso (VELA ABERTA andou tocando nas rádios no final dos 70, início dos 80), embora fosse figurinha fácil em festivais. Ouvi-lo é uma viagem no tempo e um achado.

Outros grandes discos: OU NÃO? e VELA ABERTA


8. Secos & Molhados (1973) Secos & Molhados

Nem sei se este disco deveria estar aqui. Certamente não é MPB, mas será que é rock? Hippie certamente é. Tem tinturas de modinhas, toadas, fados, música mineira e, certo, tá bom, rock progressivo. Mas não o progressivo sinfônico, mais o progressivo do Traffic ou Blind Faith.

Na época eles chamavam MUITA atenção por causa do homossexualismo explícito pelo menos do Ney Matogrosso, as caras pintadas, as plumas e paetês e O VIRA fez muito sucesso como música para dançar. Conseguiram estourar as paradas com seu som tão contracultural. O segundo disco, sem nenhum single dançante para puxá-lo, embora talvez fosse até melhor do que o de estréia, não repetiu o desempenho de vendas, prejudicado também pela saída de Ney, notícia divulgada junto com o lançamento. Ele sabia que sua voz masculina de soprano era o maior trunfo da banda e que eles provavelmente não sobreviveriam ao enterro daquelas coisas todas de hippie, paz e amor e contracultura que 1975 e os anos seguintes trariam, embalados pelo som disco. Mas pelo menos o grupo deixou o melhor exemplo de rock progressivo (será?) nacional.

Eles só lançaram dois discos. Tentaram uma volta com outro cantor de voz fininha no final dos anos 70 e tiveram moderado sucesso com o single AONDE FORAM TODAS AS CORES? Seu grande problema sempre foram as letras, repletas de imagens que deveriam remeter a viagens de ácido e alucinações, mas que na maioria das vezes soam apenas ridículas.


9. O Rock Errou (1985) Lobão

Em 1985, depois do Rock in Rio, depois que a Globo começou a bancar megashows de rock nas praias do Rio, depois que as rádios caretas começaram a tocar rock e que as bandas, famosas, deixaram de fazer shows no Circo Voador, Parque Lage e até Morro da Urca, a popularização do RPB acabou sugando-lhe a vitalidade. Embora não parecesse na época, começava a decadência. As grandes bandas todas já tinham aparecido (haveria ainda o RPM, mas seria um fenômeno de um disco - e outro ao vivo - só, e pouco acrescentaria no aspecto qualitativo). O final da década seria dominado pelos dinossauros e os álbuns clássicos estavam todos já para trás. Lobão, depois dos ótimos CENA DE CINEMA e LOBÃO E OS RONALDOS, casou com uma prima gostosa de 17 anos, ficou trancado com ela durante dois meses em casa e, não satisfeito, ainda fez questão de mostrar pra todo mundo quem estava comendo, pondo-a nua na capa deste LP que foi o primeiro a perceber que o sonho tinha acabado.

Melancólico toda a vida, anunciava que o rock tinha errado (dã) e que ele nem queria mais nenhuma chance. A idéia de uma contracultura irônica, cética e bem-humorada não funcionara. O mundo de novo não mudara e o surgimento do yuppie atestava isso. A garotada que ouvia o RPB dos anos 80 iria crescer para lotar shows acústicos dessa turma nos anos 90, embalados em nostalgia e incapacidade de apreender novos tipos de música. Já Lobão enveredaria por tentativas de fundir rock e samba (não deu muito certo) e música eletrônica num esplêndido (e pouco divulgado) CD vendido em banca.


10. As Aventuras da Blitz (1982) Blitz

Eu sei, eu sei, pelos critérios que disse que iria usar, este disco aqui deveria estar logo na frente da Legião Urbana, pelo cândido motivo que a Legião Urbana simplesmente nunca teria gravado um LP se não tivesse havido a Blitz, que, pura e simplesmente, detonou o RPB, o Rock Popular Brasileiro, o rock dos anos 80 que se tornou o símbolo da década e a irritante nostalgia que dura até hoje.

Quem não estava lá não tem idéia do estrondoso sucesso que VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR teve. Diferente de tudo que se ouvia nas rádios - pelos poderes de Greyskull, a gente ouvia Supertramp na época! - foi quem levou todo mundo a querer saber o que era essa tal de "new wave" e quem eram os expoentes daquele tal de "rock inglês". As gravadoras saíram correndo, cada qual atrás da "sua" Blitz, e foram buscar João Penca e Seus Miquinhos Amestrados (do qual sairia Léo Jaime), Kid Abelha & os Abóboras Selvagens (banda obscura que saiu no disco ROCK VOADOR e que promovia eleições sazonais na Fluminense FM para escolher quem seria o novo Kid Abelha - o líder - da banda), Paralamas do Sucesso, Lulu Santos, Kid Vinil e muitos outros e subitamente Circo Voador, Morro da Urca e Mamão com Açúcar estavam ditando as palavras de ordem para a garotada oitentista, enterrando de vez as batas (estão voltando), cabelos compridos (voltaram), sandálias de couro (agora se chamam papeete) e bolsas de couro (ainda não voltaram). O visual disco começou a parecer brega. Moderno e contemporâneo eram topetes, cores ácidas e berrantes, blazers com ombreiras, calças de pregas com cós alto, saias balonê e tudo aquilo que a gente vê hoje em filmes da época e acha ridículo.

E eles fizeram tudo isso virtualmente sozinhos, já que Júlio Barroso caiu de sua cama suicida e deixou os precursores, a Gang 90 & as Absurdetes, sem pai nem mãe. Eles fecharam de vez o caixão da contracultura hippie e trouxeram de volta o rockabilly básico dos anos 50. Roberto Carlos e Elvis Presley foram resgatados. O Brasil inteirou ouviu rock. E tudo graças à Blitz.

Mas eu não gosto até hoje de rock new wave. B-52s, Go-gos, Blitz, Kid Abelha, nada disso me emociona. E esta é a MINHA lista, por isso este décimo lugar para um álbum tão absurdamente importante.

maio 09, 2008

O Diabo é o Pai do Rock (parte 1)

Uma aventura com o famoso místico Pedro Lebre e o Inspetor

Uma faixa está pendurada, no alto, onde está escrito "ALMARE - Centro de ginástica psíquica". uma mulher, de malha de ginástica e capa dá aula para dois alunos, que saltitam. nO CANTO, HÁ UMA MESA COM UMA CADEIRA ATRÁS.

professora
Levitando... deslevitando... levitando... deslevitando... (APONTA PARA UM DOS ALUNOS) Você aí... pare de fazer corpo mole!

aluna
Eu, mestra?

professora
Você mesma... Venha para cá! Vai pagar 50 meditações!

A aluna se aproxima. a professora a olha, com raiva.

professora
Vamos! Posição de Lótus! O que está esperando?

aluna
(SENTANDO-SE) Mas, mestra...

professora
Um!

aluna
Ôôôôôn!

professora
Dois!

Aluna
Ôôôôôôn!

E a professora segue contando e a aluna, sentada, em posição de lótus, encarando o vazio, fica falando "Ôôôn" a cada número. Entra o policial.

policial
Boa tarde... meu nome é inspetor Carvalho... eu queria falar com Pedro Lebre.

professora
(PARA A TURMA) Muito bem, gente... aula encerrada! Bem, vou chamá-lo, Inspetor.

Os alunos e a professora saem. O inspetor espera um pouco, andando de um lado para o outro. Entra o misterioso pedre lebre.

pedro lebre
Inspetor? Eu sou Pedro Lebre.

POLICIAL
Inspetor Carvalho. Eu sou seu fã, sr. Pedro Lebre. Li todos os seus livros. Agenda de um Bruxo. O Hermeneuta. As Valérias. Selim.

Apertam as mãos. cartas de baralho caem das mangas de pedro lebre o tempo todo. pedro lebre senta-se atrás da mesa. o inspetor fica em pé.

pedro lebre
Sente-se, Inspetor.

policial
Er... não há outra cadeira...

pedro lebre
Não tem problema. (PEGA SUA CADEIRA E A DÁ PARA O INSPETOR, MAS CONTINUA SENTADO. POMBAS SAEM DE SUA CAPA) Eu fico levitando.

policial
(SENTANDO-SE) Temos um caso estranho nas mãos, sr. Lebre... e, embora seja altamente irregular, achei que somente um ocultista poderia lançar alguma luz no caso... (PEGA UM ENVELOPE PARDO NO PALETÓ E O ENTREGA A LEBRE) Veja estas fotos...

pedro lebre
(PEGA O ENVELOPE E O ENCOSTA NA TESTA, FECHADO. CONCENTRA-SE) Hm... uma comunidade pacífica e paradisíaca... estranhas criaturas peludas chegam... ingerem misteriosas poções e entoam cânticos incompreensíveis... tentando capturar donzelas indefesas...

policial
Oh, desculpe... essas são as fotos do meu filho e os amigos em Búzios... (PEGA OUTRO ENVELOPE E O ENTREGA A LEBRE) São essas as fotos que eu queria que o senhor visse...

pedro lebre
(ENCOSTANDO O ENVELOPE NA TESTA) O Museu Imperial... um vigia morto... uma redoma de vidro quebrada... houve um assalto no Museu Imperial... o que levaram, inspetor?

policial
Aí é que está o busílis, sr. Lebre. Não levaram nada de valor... apenas uma estatueta oriunda das Ilhas Swapho.

pedro lebre
(ASSUSTADO) O quê? Uma estatueta das Ilhas Swapho? E houve outros roubos como esse?

policial
Sim... um colecionador particular nos comunicou o roubo de um ídolo inca...

pedro lebre
Oh, não! A estatueta de Swaphoili e o Fetiche Arumbaia! A coisa é pior do que eu pensava!

policial
Você sabe o que está acontecendo? Quem foi o ladrão?

pedro lebre
Forças terríveis podem ser desencadeadas... mas para saber quem foi, terei que contactar... o homem gordo! (PEGA O TELEFONE E DISCA) Alô? É do Bar Místicos & Esotéricos? Eu queria falar com o Homem Gordo.

homem gordo
(OFF) É ele quem está falando...

pedro lebre
Aqui é Pedro Lebre... eu preciso de algumas informações sobre o roubo da Estatuteta de Swaphoili e do Fetiche Arumbaia...

Enquanto os dois falam, o policial pega o fio do telefone, vê que não está ligado a lugar nenhum e olha estranhamente para pedro lebre.

homem gordo
(OFF) Não pelo telefone... venha até aqui... (SINISTRO) Ha, ha, ha. (DESLIGA)

policial
O telefone não está ligado em lugar nenhum...

pedro lebre
Telepatia celular... vamos, temos que ir até o Místicos & Esotéricos.

(CONTINUA)

Jogadores de Futebol e Amor à Camisa

Os enormes antropóides recentemente remunerados pelo Flamengo e Pelo Fenômeno trouxeram à berlinda um papo que obceca os botafoguenses: o amor à camisa. O Arnaldo, por exemplo, quando o Botafogo disparou na liderança do Brasileirão ano passado, pregou que pelo menos seis atletas alvinegros tinham direito à amarelinha, para salvar a seleção depois do provável fiasco na Copa América. Ele escreveu antes da final, é claro, e o Botafogo, soube-se depois, tinha um monte de egos conflitando no elenco, provavelmente por causa dos estimulantes ilegais que pelo menos um deles tomava, e na verdade o Brasil foi campeão e o ex-time de General Severiano não.

Na Copa de 2006 também houve uma grita geral contra os jogadores que não tinham amor à camisa, principalmente por causa daqueles que iam a boates durante a Copa. Ora, eles são jovens, ricos, famosos e, mesmo os não bonitos têm corpos que a maioria das mulheres acha irresistível. A carne é fraca. A culpa é muito mais da liderança que não compreendeu a personalidade dos sujeitos sob seu comando. Felipão, por exemplo, concentrou todo mundo, avisou que nada de sexo e levou o caneco. Ainda assim, a torcida - sintomaticamente os botafoguenses foram os mais exaltados - teimaram que faltava a eles o espírito dos ludopedistas d'antanho, ou como diziam os alvinegros, o "espírito de Garrincha". Logo quem, um sujeito famoso por não seguir instruções de técnicos e fugir da concentração sempre que possível para se meter nas zonas boêmias da cidade (onde João Saldanha dizia ser o lugar certo pra procurar quando via que ele não aparecia no hotel). É claro que ele ganhava bem menos e por isso tinha que se contentar com o bas-fond, mas certamente frequentaria locais mais vistosos hoje em dia.

A verdade é que essa Era Dourada jamais existiu, ou se existiu, foi na era do amadorismo, quando futebol era realmente disputado por entusiastas, era pouco mais do que uma pelada organizada. Mário Filho, em seu clássico O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO, de 1957, abre o livro dizendo que está cansado de ouvir essa história de reclamar que o jogador não tem mais amor à camisa e que isso, na verdade, é apenas puro preconceito. À época, contra negros, hoje contra esses sujeitos sem educação formal que invadem sem mais nem menos os lugares mais caros da cidade. Ou seja, há mais de 50 anos que os bons tempos do balípodo já tinham passado e vivemos em tempos de mercenários mercantilizados.

O mesmo pensamento ouço desde que me entendo por gente. Só que no final dos anos 70, quando jogadores como Zico e Roberto começaram a ganhar altos salários (o equivalente, no final dos anos 90, a cerca de 20 mil dólares, conforme pesquisa feita pel'o Globo), todo mundo falava ser um absurdo jogador de futebol ganhar mais do que um médico.

Ora, bolas, um médico é apenas um sujeito que estudou. Qualquer criatura de classe média, disposta a estudar um pouco mais, consegue um diploma de medicina. Às vezes até sem estudar um pouco mais mesmo. Já um esportista precisa ter a genética para tanto. Por mais inteligente que alguém seja, se não tiver coordenação motora, velocidade, visão periférica, impulsão e outras qualidades mais, não chega a lugar nenhum. E não basta isso - isso é só o começo. Há a sorte, a concentração, a escolha (quantos de nós, de classe média, não tivemos amigos extremamente bem-dotados para o esporte que não seguiram adiante porque não estavam dispostos a largar os estudos e se arriscar no movediço mundo dos clubes pequenos, times juvenis e afins?), tantos fatores como na medicina. E, além disso, estamos falando dos grandes talentos futebolísticos. Nessa mesma época em que se reclamavam dos salários do Zico, uma pesquisa da Placar levantou que 95% dos jogadores de futebol ganhavam salário mínimo. Lá no topo a história é sempre outra. Não sei por exemplo quanto o Pitanguy, o único cirurgião brasileiro que eu conheço com fama internacional, ganha, mas deve ser uma bolada também.

Não tô nem aí pra amor à camisa. Isso quem tem que ter é torcedor. Jogador tem que ter amor à vitória e ao futebol. O resto é preconceito.

maio 08, 2008

O Grande Mico II

Hey de torcier torcier torcier
Hey de torcier hasta morir morir morir
Pues la torzida americana es tueda así
A comenzar por mí
La cuer del pavillión es la cuer de nuestro corazón
E en los muemientos de emozión
Tueda la torzida hay de cantar esa canción

La laya la laya
La laya la laya
La la layaaaa laaaa laaaaaaa (bis)

Plástico de Carro

Os covardes vivos é que sobram pra receber as medalhas.

maio 07, 2008

O Grande Mico

Frankenstein

O criador enfrenta a criatura.

E a revanche se segue...

Eu Sou um Deus Nerd Maneiro


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Esse é o meu grau de nerdice. Eu sou maneiro!!! Teste o quanto você é em NerdTest!

O Travesti, o Crachá do PAC e o Dragão de Komodo

Embora amigos meus bem localizados nos órgãos de imprensa fiquem provocando em mesas de bar que existem muito mais histórias por trás do que podemos imaginar, mas não, eles não podem esclarecer quais sejam, o caso do Ronaldo envolveu apenas ele, suas fantasias sexuais e um travesti prostituído que viu sua chance de fama e fortuna aparecer do nada e agarrou-a como pôde. Um outro amigo meu questionou a primeira página que o caso recebeu de praticamente todos os jornais, mesmo os sérios, já que se resumiria a uma fofoca de celebridade. Contra-argumentei que não era bem assim, não era uma matéria Caras, com o Fenômeno contando sobre seu novo amor ou sua nova solteirice e como isso estaria mudando sua vida, mas sim, em primeiro lugar, a maior pagação de mico, e em segundo lugar, uma cadeia de fatos improváveis que desnuda a solidão no topo, o vazio de se conseguir tudo que se desejava materialmente e não se obter a satisfação esperada, a dificuldade de se relacionar com outras pessoas quando transformado num ícone etc. etc.

Isso, é claro, num mundo perfeito. A revista Veja não fez nada disso, simplesmente estampou o centroavante na capa, comparando-o ao depressivo - e deprimente - Maradona, em vez do Pelé que poderia ter sido. O blogue Imprensa Marrom e o Zuenir Ventura dois dias depois (coincidência?) já ressaltaram que os "escândalos" do camisa 9 referem-se apenas a problemas particulares que afetavam apenas a ele (ou ele e cônjuge), enquanto que o ídolo escolhido pelo hebdomadário como modelo de retidão tinha um filho envolvido com traficantes, filhos não reconhecidos e contumazes envolvimentos em escândalos relacionados a contratos com entidades esportivas.

A Veja sabe o que faz. Optou há mais de uma década em explorar preconceitos e ressentimentos em sua pauta. O Fenômeno, no imaginário popular, não joga tudo o que dizem dele, amarelou na final de 98 depois de decepcionar durante todo o torneio na França, é uma invenção da mídia para suceder o Romário, de quem os figurões tinham inveja, e ainda por cima foi o culpado pelo fracasso de 2006, por despender suas folga em boates, mostrando completa falta de amor à camisa canarinho. Tirando a tradicional prevenção que a classe média tem contra jogadores de futebol ("é um absurdo eles ganharem o que ganham"), o maior artilheiro da história das Copas do Mundo tem contra si nunca ter se consagrado num clube de repercussão nacional. Certo, certo, ele ganhou a Copa do Brasil com o Cruzeiro, mas nunca chefiou nenhum esquadrão inesquecível vívido na memória nacional - e os clubes mineiros, mesmo os de massa, não têm a mesma penetração que os clubes de São Paulo e do Rio (hoje em dia, quase só o Flamengo). Jogou com o uniforme estrelado um ano e pouco e foi-se, com 18 anos, ainda mais uma esquálida promessa do que um musculoso (e depois adiposo) craque.

Dar capa presse tipo de coisa é um tremendo afago no ego do leitor ("viu, você não é rico, famoso e bem-sucedido como o Ronaldinho, nem comeu Daniella Cicarelli, Raíca Oliveira e outras gostosas menos cotadas, mas tem uma família saudável que não se envolve com drogas e travestis"), mas esse assunto me veio hoje à cabeça atrasado porque no trabalho encontrei um Jornal do Commercio antigo com a história do traficante com crachá do PAC - pra quem não sabe, semana passada um monte de jornais estampou manchete prum traficante que foi capturado e tinha um crachá do PAC. Quem procurasse bem encontraria a foto do documento com o logotipo da... OAS, uma empreiteira contratada para obras na favela. Todo mundo sabe que a grande imprensa abriu a temporada de caça ao Lula, depois de algum tempo de adesismo, após o Mensalão. E, em mais um capítulo dessa sanha, manipula os medos e preconceitos de seu público (traficantes) para vinculá-los ao Lula.

Eu não li "A Cultura do Medo", mas a sociedade que estamos criando está ficando assustadora. Qualquer um que frequente um fórum de Internet, ou leia os comentários de um blogue de opinião mais visitado e afamado do que este aqui, sabe que as pessoas, em vez de melhor informadas com todas as fontes à disposição, estão se tornando cada vez mais hidrófobas e descontroladas em seus pontos de vista. Existem vários processos em andamento neste caso: a modernização e a globalização fazem as pessoas perderem rapidamente seus pontos de referência culturais e as levam a se apegar ferreamente aos seus preconceitos de classe, a fim de pertencerem a algum lugar, algum grupo, bem como o medo da marginalização numa sociedade cada vez mais globalizada (de novo) e, por causa disso, mediana, e outros sobre os quais não tenho competência para falar (ou mesmo refletir). Mas posso falar dos dragões de Komodo - e assim fecha-se o título desta postagem.

Há coisa de uns dez - ou talvez mais - anos atrás, o Globo Repórter fez um especial sobre dragões de Komodo. Pra quem não sabe, são lagartos de 2 metros de comprimento, que caçam animais mordendo-os e depois seguindo-os, esperando que morram da infecção causada pela sua saliva cheia de bactérias. Inclusive estão pesquisando o sangue do réptil gigante em busca de novos antibióticos, já que ele é imune aos microrganismos patogênicos. O bicho é lerdo e por isso é que depois que consegue abocanhar a presa, não completa o serviço e fica seguindo-a por dias, esperando ela cair dura de septicemia.

Pois bem, o programa começava com o Roberto Cabrini indo de barco em direção à ilha que é o habitat do animal falando longamente sobre seu tamanho, seu nome assustador, as lendas etc. etc. Quando ele chegava na ilha, um traveling, possivelmente de um carro, correndo por entre fileiras de barracos e palafitas mostrava pessoas inexpressivas olhando meio ressabiadas para a câmera, sob a voz do Cabrini declamando sombriamente algo no estilo "na ilha, os olhares são de desconfiança e medo; ninguém fala nada, mas todos sabem que é a sombra do dragão de Komodo que paira sobre eles". Talvez não, talvez fosse apenas a instintiva reação da maioria das pessoas, que não gosta de ser filmada por estranhos, ainda mais em sua privacidade (e em sua miséria).

Logo adiante Cabrini contava um horroroso caso de um garoto que foi atacado por um dragão e entrevistava a família que teve que resgatar o moleque afastando o agressor com vassouradas (caramba! Que fera perigosa!). Infelizmente para o repórter, o garoto foi pro hospital, tomou uns antibióticos e estava vivo e saltitante. Mas não, isso não ficaria assim. Para o próximo bloco ele prometia relatar histórias de pessoas devoradas pelo reptiliano monstro insular.

E, no próximo bloco, ele as relatou. Mostrou a lápide de um sujeito vítima dos dragões, aposta onde o corpo foi encontrado, no alto de um morro. Tudo bem, a história tinha sido na década de 50, pelo que indicava a data inscrita. Tudo bem, pela data de nascimento e morte, o cara tinha quase 70 anos, mas Cabrini contou a história toda com voz taciturna e pausas sombrias: um inglês foi pesquisar os gigantes escamados, subiu uma montanha, sumiu uma semana e quando o acharam, seu cadáver estava semidevorado pelos descomunais lagartos. Daí perdi a paciência e mudei de canal.

Eu não teria ficado tão irritado se na semana anterior não tivesse visto um documentário no Discovery sobre dragõe de Komodo (e outros depois), onde fiquei sabendo de seus hábitos, das pesquisas para antibióticos e de sua quase completa inofensividade. Uma das cenas era os pescadores da ilha pondo seus peixes a secar ao sol, um lagartão se aproximando sorrateiramente para tentar roubar um dos falecidos vertebrados marinhos e um bando de crianças gargalhantes e pululantes se divertindo espantando o bicho. Ataque a crianças? Putz, dá um passeio pelo seu bairro procurando que vai encontrar histórias de ataques de cachorros mais assustadores. O pesquisador inglês deve ter tido um enfarte de ficar subindo montanha e, como nosso amigo reptiliano é carniceiro - ele não tem medo de bactérias patogências, lembra? - deve ter aproveitado.

Demonizar dragões de Komodo pode parecer inofensivo, afinal as chances de um de nós dar de cara com um deles é mínima. Mas o que isso mostra do pensamento jornalístico de alguns anos pra cá é sintomático. Tudo tem que ser espetacular. Pesquisa é desnecessária, principalmente se for trazer resultados contrários ao que já se decidiu de antemão. E, principalmente, ensine o espectador a temer tudo que é diferente e ele não entende. Num mundo como o nosso, que está mudando cada vez mais rápido, isso ensina as pessoas que aprendem com a televisão a serem preconceituosas, ressentidas, fortemente identificadas com o pensamento da maioria e tementes ao pensamento desigual. O próprio Cabrini já experimentou na pele as consequências de tal tratamento pela imprensa. É como já dizia Nietszche, não combata monstros temendo tornar-se um deles. E se você olhar dentro do abismo, o abismo olhará de volta pra você.