abril 28, 2010

A História da Copa do Mundo - A Copa de 1950

Clique aqui para ler a história completa até agora, incluindo este capítulo, os craques da Copa de 1950, a evolução tática, e outros...

O SONHO NÃO ACABOU, NA VERDADE ESTAVA APENAS COMEÇANDO

A II Guerra Mundial, de 1939 a 1945, interrompeu a Copa. O Brasil havia apresentado sua candidatura para 1942, disputando com a Alemanha. Jules Rimet passou aqui no primeiro semestre de 1939 e encantou-se com a terra. Mas em 1o. de setembro, antes que pudesse viajar para a Alemanha para conhecer a infra-estrutura do país, estourou o conflito. Rimet levou a FIFA para a Suíça, para evitar que os nazistas a encampassem quando invadiram a França, e até hoje a sede da organização lá permanece.

Em 1948 nenhum país europeu estava interessado em organizar o torneio. O Brasil, durante a guerra, ficara sem poder importar todos os produtos que vinham da Europa e, sem opção, começou a produzi-los aqui mesmo. Além do mais, com toda a destruição dos combates, os europeus passaram a ter que comprar quantidade bem maior de alimentos e minérios para sua indústria, que os brasileiros tinham para vender. Como consequência, ao fim do conflito o Brasil tinha liquidado sua dívida externa, estava com dinheiro sobrando e começara definitivamente a se tornar uma nação industrializada. E para mostrar essa pujança toda para o mundo, nada melhor do que hospedar - e ganhar - uma Copa.

Sem outros candidatos disponíveis, a FIFA deu ao Brasil o direito de sediar o campeonato. Em um ano foi construído o maior estádio do mundo. Na verdade levou menos de um ano e foi tão rápida a construção que muita gente não foi ver a Copa porque tinha certeza de que aquilo iria cair. Ele não caiu em sua inauguração em 16 de junho de 1950. O mundo é que cairia exatamente um mês depois.

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A construção do Maracanã foi tão grandiosa e apressada que quantidades imensas de pastilhas azuis para o revestimento do estádio sobraram nos canteiros de obras. Elas acabaram sendo roubadas e, a partir da década de 1950 até hoje, começou uma tradição nos subúrbios cariocas de casas revestidas com pastilhas.

Os brasileiros sugeriram à FIFA uma mudança no regulamento. Em vez de jogos eliminatórios, a Copa de 1950 teria apenas jogos classificatórios. Ou seja, os participantes seriam distribuídos em 4 grupos. Em seguida os vencedores de cada chave jogariam todos entre si e quem fizesse mais pontos seria o campeão. Os europeus estranharam, mas acabaram aceitando. Não que eles viessem em grande quantidade. A maioria estava ocupada reformando a casa depois da passagem do furacão Hitler. Os argentinos, então em grande fase, não vieram porque o último Brasil x Argentina em 1946 tinha acabado numa pancadaria tão grande que eles temiam o que pudessem fazer aos seus jogadores. Mas, grande novidade, a Inglaterra, que depois da guerra bem que estava precisando dar uma arejada, iria pela primeira vez mandar seu time. E o mundo inteiro pôde ver que aqueles anos todos trancados em casa não tinham feito bem à seleção inglesa.

Numa das maiores zebras da história das Copas, os ingleses perderam para os Estados Unidos por 1 x 0. O time dos americanos era composto de imigrantes e seus descendentes e nenhum deles era profissional. Tão convictos estavam de sua derrota que passaram a véspera do jogo se encachaçando numa visita a uma fazenda, achando que não faria diferença se ficassem em casa descansando. Mas acabaram ganhando, motivando uma famosa manchete do Times: "Morreu e foi sepultada ontem num campo da distante Belo Horizonte a outrora respeitável seleção inglesa". Os britânicos perderam também para a Espanha, que venceu a chave.

O Brasil estreou contra o México e, apesar de ganhar por 4 x 0, não convenceu. O jogo seguinte seria em São Paulo e Flávio Costa, para agradar, escalou um time com mais paulistas. A "diagonal" do Professor troumbou de frente com o "Ferrolho" suíço e a partida foi um sufoco, acabando em 2 x 2. Precisando vencer, de novo no Rio e com a volta de Zizinho, Flávio descartou seu esquema. Voltou ao WM clássico e finalmente a seleção agradou, vencendo sua chave com uma vitória de 2 x 0 sobre a boa equipe da Iugoslávia, gols de Ademir e do Mestre Ziza.

Os outros grupos não tinham quatro times, por falta de competidores. Num deles a Suécia desclassificou Itália e Paraguai. O outro só tinha Uruguai e Bolívia, por causa do sorteio. A sorte começava a pender para os uruguaios. Eles não tiveram nenhum trabalho para fazer 8 x 0 nos bolivianos e se mandarem para a segunda fase.

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A Copa de 1950 foi a primeira em que os jogadores passaram a usar números atrás da camisa para facilitar a identificação.

A SEGUNDA FASE

Para os uruguaios deve ter parecido um daqueles exageradíssimos dramalhões, com final feliz inacreditável e tudo. Infelizmente para nós alguém tinha que ser escalado para ser o vilão todo-poderoso e pusilânime. E para fazer bem esse papel, deveríamos primeiro mostrar-nos invencíveis. Foi o que fizemos.

Contra a Suécia o Brasil fez inacreditáveis 7 x 1, a maior goleada brasileira em Copas até hoje. Ademir marcou quatro vezes, igualando a marca de Leônidas contra a Polônia. E sem prorrogação. Os próximos adversários, os espanhóis, provavelmente tinham espiões assistindo ao jogo, perceberam como o artilheiro jogava e devem ter feito algum esquema especial para marcá-lo, já que ele passou em branco na partida. Infelizmente para eles o resto do ataque fez seis gols. Final, 6 x 1, comprovando o que a maioria dos analistas dizia antes do jogo, que não iria ser a moleza que tivéramos contra os suecos. O Maracanã inteiro começou a cantar espontaneamente a marchinha "Touradas em Madri", de Braguinha, um sucesso da época. Os brasileiros mostravam seu lado todo-poderoso.

Foi depois dessas exibições que a imprensa mundial se encantou com o Brasil, com seu estilo ofensivo e vibrante, chegando a comparar Zizinho, o maestro da equipe, a Leonardo da Vinci, pintando com seus pés obras de arte na imensa tela que era o Maracanã. Nos outros jogos o Uruguai empatara com a Suécia (2 x 2) e vencera com dificuldades a Espanha por 3 x 2. Os suecos se despediram com uma vitória de 3 x 1 sobre os espanhóis. O jogo decisivo seria Brasil x Uruguai e os brasileiros tinham a vantagem do empate. Tudo e todos estavam contra os uruguaios.

Os jogadores da seleção brasileira, até então hospedados no longínquo Joá, para terem tranquilidade, foram transferidos para o estádio do Vasco, bem mais perto do centro da cidade. Durante toda a noite anterior ao jogo, políticos em busca de promoção, aproveitadores, bajuladores, jornalistas e torcedores acorreram a São Januário. O jornal A Noite estampou de véspera a manchete "Estes são os campeões do mundo", sob uma foto do time. Depois de sua aparente onipotência, os brasileiros mostravam sua pusilanimidade. Os vilões perfeitos. Ninguém lembrava que dois meses e meio antes, no Pacaembu, o Uruguai vencera o Brasil por 4 x 3.

Antes da decisão os jogadores foram levados por Flávio Costa para assistir a uma missa. Ficaram inexplicavelmente de pé por duas horas. No estádio as roletas foram quebradas. O público presente era muito maior do que os 173.850 pagantes. O Maracanã resistiu. A seleção brasileira não.

16 DE JULHO DE 1950 - O DIA EM QUE O MUNDO ACABOU

O primeiro tempo transcorreu sem gols. Tudo bem, a vantagem do empate era da gente. E os uruguaios correram atrás o tempo todo. Cederam 19 escanteios. Era só uma questão de tempo. O que ficou provado logo no primeiro minuto do segundo tempo, quando Friaça abriu o escore. Agora o Uruguai precisava de dois gols. Teria que partir para a frente e se abriria aos contra-ataques do Brasil.

Mas os contra-ataques não saíram. Talvez a equipe já se sentisse vitoriosa e tivesse se desconcentrado da partida. Não pensava mais no que estava ocorrendo em campo e assim não tinha mais o mesmo entusiasmo para correr. No segundo tempo de um jogo o corpo já está cansado e é preciso motivação para fazê-lo continuar correndo. Se o atleta não estiver concentrado no que está fazendo faltam-lhe pernas.

Não era o caso do Uruguai. Nas duas partidas anteriores o time saíra atrás e fora buscar o resultado, o que mostrava que os atletas estavam altamente motivados e em excelente forma. Quando um time vira seguidamente os jogos no final significa duas coisas: ou seus jogadores têm uma técnica superior que prevalece quando os adversários estão cansados demais para marcá-los ou têm um preparo físico muito melhor, que lhes permite continuar correndo quando os oponentes estão exaustos. Os uruguaios se encaixavam nos dois casos. Tinham defensores dedicados e atacantes velozes e habilidosos. E foi com um deles que começou a tragédia brasileira.

Ghiggia, o ponta-direita da Celeste, que havia marcado gols nos três jogos anteriores, chegou em velocidade à linha de fundo dentro da área e cruzou para Schiaffino marcar, aos 22 minutos. O placar ainda favorecia o Brasil, mas o estádio inteiro se calou. Aquele gol não estava nos planos de ninguém (exceto dos uruguaios, é claro). E quem acha o caminho para o gol uma vez acha outra. Um placar de 0 x 0 é muito mais confortável para quem precisa do empate do que 1 x 1. O time brasileiro começou a jogar preocupado, pensando como estivera tudo tão bem até aquela jogada de Ghiggia.

E ele fez outra treze minutos depois. Passou velozmente por Bigode e chegou à linha de fundo. Barbosa, o goleiro brasileiro, pensando que ele cruzaria novamente para um companheiro, deixou o gol para cortar o cruzamento. Ghiggia chutou entre ele e a trave e se tornou o primeiro jogador de um time finalista a marcar em todos os jogos de uma Copa.

Os brasileiros se desesperaram, se desorganizaram e não conseguiram empatar outra vez. O mundo acabou. Os uruguaios deram o nome de Maracanã a uma rua em Montevidéu e a uma tribuna do Estádio Centenário. Durante vários dias a melancolia podia quase ser sentida, pesada, no Rio de Janeiro. Outros dizem que era só a umidade.


EM BUSCA DE UM CULPADO

Ghiggia mesmo disse que em futebol, quando acaba um jogo começa a busca pelos culpados. Numa época ainda de preconceitos, Barbosa, o primeiro goleiro negro da seleção e um dos maiores da história brasileira, foi o primeiro. Qualquer garoto aprende logo que jogando no gol ele deve sempre se preocupar com o chute de quem está com a bola e não com o passe ou cruzamento. Se ele não tivesse saído o extrema não poderia ter chutado entre ele e a trave. Todas as outras opções disponíveis para o uruguaio, tais como realmente cruzar de novo, chutar cruzado ou fechar para o meio, escaparam aos críticos, e Barbosa morreu em 2000 magoado por ser lembrado não como o grande jogador que foi, mas como o homem que tomou o gol entre a bola e a trave.

Flávio Costa achava que o culpado era Juvenal, o zagueiro central, que deveria ter coberto Bigode. Mas foi o lateral quem ficou como o principal vilão no imaginário popular. Ele estaria jogando com medo, assustado, depois de levar um tapa do capitão uruguaio Obdulio Varela. Na verdade o centromédio passara a mão de leve no pescoço do defensor brasileiro, mas sem videotapes para mostrar o que realmente acontecera, a lenda cresceu e se tornou tão incontrolável quanto o Penta. E com ela cresceu também a de Obdulio Varela, o homem que arquitetou nossa derrocada, a alma da vitória platina, o comandante que nos faltara, o que nos impedira de ganhar nossa primeira Copa.

Piada Antiga de Laerte, Mas Cai Como uma Luva Para Recentes Eventos Envolvendo Gays e Fezes

A História da Copa do Mundo - Os Craques da Copa de 1950 parte II

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OBDULIO VARELA

Obdulio Varela passou o jogo inteiro gritando com seu time e, principalmente, com os brasileiros. Provocou-os, passou a mão no pescoço de Bigode, berrou o tempo inteiro e empurrou os jogadores para a frente, para a vitória. Conta a lenda que começou seu trabalho na véspera, trazendo para a concentração diversos exemplares de A Noite que trazia a seleção brasileira sob a manchete "Esses são os campeões do mundo". Juntando os companheiros, ele lhes teria ordenado que cuspissem nos jornais1.
Obdulio Varela era conhecido como "El Negro Jefe" pela sua liderança. Nascido em 1917, ainda com 37 anos era titular e capitão da Celeste Olímpica na Copa de 1954. Contundido nas quartas-de-final contra os ingleses, ficou de fora quando os uruguaios foram eliminados na prorrogação pelos húngaros, a sensação do certame. Ele nunca perdeu um jogo de Copa do Mundo. Muitos analistas crêem que com ele em campo a invencibilidade de quase seis anos da seleção húngara não teria chegado até a final.
Obdulio Varela foi um dos últimos e melhores centromédios atacantes. Já em 1950, na Hungria e no Brasil, novos esquemas estavam surgindo que relegariam seu tipo de jogo ao passado. Mas antes disso ele teve tempo de inscrever seu nome na história.
Obdulio faleceu em 1996. Ele marcou dez gols em 49 jogos pela Celeste Olímpica.

GHIGGIA

Ghiggia nasceu em 1926 e estreou na seleção uruguaia justamente quando ela venceu o Brasil por 4 x 3 no Pacaembu, 71 dias antes da decisão de 1950. Como em tragédia grega, um presságio do futuro: o novato marcou um dos gols.
Rápido, objetivo, com chute forte e bem colocado, o ponta-direita foi um dos melhores jogadores da Copa e o atacante mais decisivo, marcando gols em todas as partidas, fato só repetido por Jairzinho em 1970. Com todas suas qualidades, sua carreira com a Celeste não durou muito. Em 1952 agrediu um árbitro e para escapar de uma suspensão que poderia ser de anos, transferiu-se para o Roma, da Itália, conquistando em 1961 o campeonato europeu de clubes, atual Liga dos Campeões. No mesmo ano transferiu-se para o Milan, onde jogavam os brasileiros Dino Sani e Mazzola, e foi campeão italiano. Numa época em que as seleções européias estavam repletas de jogadores naturalizados, Ghiggia chegou a jogar pelo time da Itália em cinco partidas, entre 1957 e 1959, marcando um gol.
Ghiggia voltou para o Peñarol em 1963 e encerrou a carreira em 1968, aos 42 anos. Dois anos depois foi levado como talismã pelos uruguaios para assistir à semifinal contra o Brasil. Não deu tanta sorte fora de campo, sem uma bola para chutar entre Félix e a trave.
Ghiggia está vivo, acha que o futebol atual é muito defensivo e que Ronaldo, Ronaldinho, Zidane e Henry são os melhores do mundo. E que, pela ordem, Pelé, Di Stefano e Puskas foram os melhores da história.

ADEMIR

"Ademir pegou a bola e desapareceu/o goleiro está procurando onde a bola se meteu", cantava a torcida do Vasco (e, por algum tempo, a do Fluminense) nos anos 40 e 50, quando seu time era conhecido como "Expresso da Vitória". A marchinha fazia referência à jogada típica do atacante, a arrancada com a bola dominada, conhecida na época como "rush", finalizada com força e precisão já dentro da área.
Ademir não era um atacante driblador e clássico, mas era rápido, arrematava bem com os dois pés e dificilmente desperdiçava uma boa oportunidade. Como não precisava tomar grande distância da bola e nem mudar o passo para chutar, costumava surpreender os goleiros em suas finalizações, como Ronaldo na semifinal de 2002 contra a Turquia. Versátil e veloz, podia jogar em qualquer posição da frente.
Com seus "rushes", Ademir era o atacante perfeito para a "diagonal" de Flávio Costa. Jogando entre a linha média e o ataque, não precisava carregar demais a bola até chegar na grande área e tinha espaço para começar a jogada sem a marcação dos beques. Essa posição, na ponta do quadrado "entortado" de Flávio Costa, passou a ser conhecida como "ponta-de-lança", dando origem ao "número 1" e ao meia-atacante de hoje. Sua eficiência forçou à adoção de esquemas especiais que acabariam levando à marcação por zona e ao 4-2-4.
Ademir nasceu em 1922 no Recife e começou a carreira no Sport, onde o pai, vendedor de automóveis, era diretor de remo. Numa excursão ao Rio de Janeiro seu futebol chamou atenção e foi contratado pelo Vasco, clube com o qual seria sempre identificado. No entanto, teve uma passagem pelo Fluminense. Em 1946 o técnico Gentil Cardoso disse aos dirigentes tricolores, "dêem-me Ademir e eu lhes darei o campeonato". E ele deu. E o Vasco foi buscar de volta o ponta-de-lança.
Ademir continuou no Vasco até 1955 e voltou para o Sport, jogando como amador pelo clube até 1956. Ganhou praticamente tudo que disputou, sendo exceção a Copa do Mundo, da qual foi artilheiro, o maior até então, com 9 gols.
Ademir tornou-se jornalista e comentarista de futebol e faleceu em 1996.

Entendendo as Mulheres


Do blogue Meninas Malvadas

A História da Copa do Mundo - Os Craques da Copa de 1950

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FLÁVIO COSTA

Flávio Costa foi o primeiro "Professor". Brilhante, estudioso de teoria, de personalidade forte e autoritário, estava acima de qualquer discussão e dirigiria a seleção brasileira por mais de uma década, acabando por ficar marcado pela derrota de 1950.

Flávio Costa nasceu em 1906 e foi centromédio sem brilho, mais conhecido pela violência na marcação, que lhe valeu o apelido de "Alicate". Ao parar de jogar tornou-se assistente do técnico húngaro Dori Krueschner, que estava trazendo para o Flamengo as idéias mais novas surgidas no futebol mundial. Com a saída de Krueschner, Flávio assumiu o cargo e continuou aperfeiçoando as táticas do time rubro-negro, levando-o ao tricampeonato carioca.

Contratado pelo Vasco, assumindo uma equipe montada por Ondino Viera, transformou-o num esquadrão conhecido por "Expresso da Vitória", vencendo 4 dos 6 campeonatos estaduais seguintes e conquistando o Sul-americano de clubes, primeiro título do futebol brasileiro no exterior.

Flávio Costa criou a "diagonal", uma variação do WM que antecipava o 4-2-4, a primeira tática contemporânea, cuja origem pode ser traçada até um artigo que ele escreveu para a revista "Cruzeiro", em que pela primeira vez descreveu os esquemas de jogo da maneira que fazemos hoje, usando números e traços (4-2-4, 4-3-3, 4-4-2).

Flávio foi o treinador do Brasil na derrota para o Uruguai em 1950. Embora estigmatizado, continuou com alto prestígio nos clubes, mas a revolução tática a que dera início espalhava-se e ele deixou de ser figura de proa do desenvolvimento do futebol brasileiro. Autoritário e disciplinador, apressou o fim da carreira de Leônidas ao convocá-lo apenas para a reserva para a seleção, e suas brigas com Gérson levaram o jogador a abandonar o Flamengo.

Os últimos títulos de Flávio Costa foram em 1952, com o Vasco, e 1963, com o Flamengo, quando, além da briga com Gérson, pôs na reserva Dida, o maior goleador da história rubro-negra antes de Zico. Aposentou-se pouco depois, porque, como dizia, não tinha mais paciência para ser babá de jogadores. Morreu em 1999, aos 92 anos.

ZIZINHO

Depois de Friedenreich e Leônidas, o brasileiro seguinte candidato ao título de melhor jogador do mundo foi Zizinho. Assim como acontece com o "Diamante Negro", há quem garanta que o "Mestre Ziza" era um jogador tão bom como Pelé, embora nunca tenha atingido a fama e a popularidade de Leônidas. Infelizmente Zizinho jogou antes do videotape e da transmissão dos jogos pela tevê, restando muito pouco de suas jogadas para serem conferidas.

Zizinho nasceu em 1921, filho de um dono de um time de São Gonçalo, então distrito de Niterói, no Rio de Janeiro. Recusado no América por ser baixo e ter pernas grossas, foi tentar a sorte no Flamengo em 1939. Flávio Costa deixou-o entrar e disse "você tem 10 minutos para mostrar o que sabe". E ele mostrou.

Zizinho gostava de entrar em ziguezague pelas defesas adversárias. Tinha drible fácil e excelente visão de jogo e era esplêndido finalizador, principalmente nas cabeçadas. Participou da campanha do tricampeonato rubro-negro de 1942/43/44, mas foi ofuscado como estrela do time primeiro por Leônidas e depois por Domingos da Guia. Os anos seguintes marcariam a ascensão do Vasco e da popularidade de Ademir. Ainda assim Zizinho era um armador respeitado por ser um jogador completo, capaz de atacar e defender.

O grande momento de Zizinho foi na Copa de 1950, quando foi descrito pelo jornal milanês Gazzetta dello Sport como um Leonardo da Vinci, "criando obras de arte com seus pés na imensa tela do Maracanã". Foi a partir de sua volta ao time, após uma contusão, que o Brasil disparou a vencer e aplicou as históricas goleadas de 7 x 1 sobre a Suécia e 6 x 1 sobre a Espanha.

Mas não houve goleada contra o Uruguai. A derrota na final marcou todos os jogadores e Zizinho não foi exceção. O Flamengo, que se recusara a vendê-lo para o Coríntians por 3 milhões cedeu-o para o Bangu por menos de 500 mil. Jogando num time com pouca torcida, mesmo exibindo seu futebol de sempre não foi chamado para a Copa de 1954. Transferiu-se para o São Paulo em 1957 e foi mais uma vez campeão estadual, mas ao não ser convocado para a Copa de 1958, resolveu encerrar a carreira. Contratado para ser o técnico do time Ajax Italiano, acabou atuando como jogador por mais dois anos.

Zizinho faleceu em 2002, aos 80 anos. Suas outras paixões eram o samba e o basquete. Até sua morte, em todas as vésperas de 16 de julho tirava o telefone do gancho, para não ter que passar o dia explicando como o Brasil perdeu aquele jogo para o Uruguai.

Um Celular com Câmera (Reprise)

Latrodectos venomosas
Silvando em ares
de gonorréias maliciosas

Teu é o Deus
Teu é o Deus
Teu é o Deus

Invocava ela ao cravar
os lábios dela sobre os meus

A História da Copa do Mundo - A Evolução Tática de 1938 a 1950

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Até os anos 40 os times brasileiros ainda jogavam na formação da pirâmide (2-3-5), da década de 1880. Gentil Cardoso começou a implantar o WM no Bonsucesso, mas a tática não se popularizou, nem mesmo quando o húngaro Dori Krueschner aplicou-a no Flamengo. Os jogadores não conseguiam se adaptar ao esquema, principalmente aquele escalado para fazer o zagueiro central. Além disso o time se ressentia da ausência do vital centromédio atacante.

Atrasados taticamente e com o futebol argentino em grande fase, os times brasileiros costumavam ser presas fáceis para os portenhos. Numa excursão com um combinado Fla-Flu os técnicos Flávio Costa e Ondino Viera, cansados de sofrer goleadas, resolveram modificar o estilo de marcação e a disposição dos jogadores em campo e inauguraram definitivamente a era do WM no Brasil.

No entanto, foi necessária uma adaptação para o estilo brasileiro. O quadrado do meio-campo, com dois médios e dois meias, foi "entortado" um pouco, preservando o centromédio à frente da defesa e transformando-se praticamente num losango. A formação 3-2-2-3 típica transformava-se num 3-1-2-1-3. Este jogador à frente da zaga acabaria tendo funções cada vez mais defensivas e se transformaria no cabeça-de-área, enquanto outros países sul-americanos preservariam a tradição do volante ofensivo, e na Europa a marcação feita no meio-campo não teria a característica de proteção aos beques de área.

A Diagonal. Flávio Costa era o técnico de Ademir, insuperável na arrancada com a bola dominada. Pô-lo no ataque o impediria de dar esses "rushes" e escalá-lo no meio-campo o deixaria muito longe da área. Foi necessária a criação de um novo esquema para aproveitar as qualidades do atleta e os dois viraram lenda com isso.

Para isso o vértice superior direito do "M", o médio direito, era empurrado para o baixo e toda a linha para a esquerda. O médio direito praticamente se transformava então num centromédio. O médio esquerdo passava a ter ao lado o meia-direita, recuado até o meio-campo, e o meia-esquerda transformava-se numa espécie de "número 1", jogando entre o meio-campo e ataque. Esta posição consagraria Ademir no Vasco e na Copa de 1950, pois aproveitaria ao máximo sua insuperável arrancada com a bola dominada.

Flávio Costa defenderia suas idéias num artigo na revista Cruzeiro, quando pela primeira vez na história usaria números para explicar as táticas, tais como 3-4-3 e 4-3-3. Nesse artigo ele dizia que o futebol moderno tolhia a improvisação e pregava que um time deveria defender bem para atacar ainda melhor, iniciando um desenvolvimento que acabaria levando ao revolucionário 4-2-4 de 1958.

abril 25, 2010

Artigo na página Logo de O GLOBO

Já que este mês saiu uma crônica minha na página LOGO, no jornal O GLOBO e como recordar é viver, minha primeira colaboração para a ilustre seção do diário, um texto sobre pirataria digital. Clique na imagem para ler o texto depois da edição ou leia-o abaixo, como originalmente enviado à redação. Saiu em setembro de 2007.



Não, não vi TROPA DE ELITE. Não por motivos éticos, afinal sempre poderia racionalizar que cinema no Brasil é feito às custas de dinheiro público e todo mundo já recebeu quando as fitas chegam - ou não! - nos cinemas, mas porque, desde que investi uma grana preta numa tevê widescreen, dou preferência a DVDs com ótima imagem. Nem sempre é possível. FACA NA ÁGUA e PLANETA PROIBIDO, por exemplo, tive que baixar, já que ninguém ameaçou até agora lançá-los por aqui. Também não aguentei esperar o longa dos Simpsons no cinema. Descobri que Bukowski não só é ótimo romancista, mas poeta ainda melhor. Não curto muito, mas tenho amigos que assistem a toda a temporada de sua série favorita antes de estrear por aqui. E MP3, então, nem vale a pena mencionar. Ainda não tenho um iPod, mas com certeza já o teria enchido com todos os CDs queimados com músicas guardados em estantes periclitantes lá em casa.

É que sou viciado em arte. Coisa de criação. Muitos pais ficam desgostosos quando vêem que o filho se dá melhor com livros do que com uma bola - e olha que tento até hoje! - mas os meus não tomaram nenhuma providência e logo eu estava num caminho sem volta - frequentando sebos, lendo gibis nos jornaleiros e gravando fitas K7 de discos de amigos. Meu presente de formatura foi um video-cassete e devo ter sido um dos 5 viventes que aprendeu a programar o temível aparelho sem evoluírem até seres de pura energia.

Mas ainda assim o mundo digital me pegou completamente desprevenido. A mim, às gravadoras, editoras e cinemíferas. Foi como o surgimento da pólvora, você não precisava mais enfiar uma espada na barriga de alguém, olho no olho, se sujando todo de sangue. Tudo passou a ser rápido, limpo e à distância, bastando apontar, disparar e esperar. Eu podia estar assaltando ou traficando para sustentar meu vício, mas estou apenas infringindo direitos autorais. Uma invenção recente. Coisa da revolução industrial. Segundo o saudoso João Bethencourt, as peças de Shakespeare são reconstruções de cabeça. Publicar o texto dos espetáculos significava que alguém poderia montá-los sem pagar um tostão. Teatros rivais contratavam sujeitos com boa memória para assistir às encenações e pô-las no papel. Graças a esses piratas hoje o Harold Bloom pode dizer que o velho Bill inventou a humanidade.

E o velho Bill tinha que tomar precauções mesmo, porque vivia dos ingressos. Parcamente. Artista rico só foi aparecer quando os irmãos Lumiére começaram a contar a verdade a 24 quadros por segundo e Edison girou um cilindro sob uma agulha. Até então ninguém seguia carreira artística por grana. Segundo os GÊNIOS DA PINTURA e VIDAS CÉLEBRES que eu lia quando moleque, esse povo morria tudo de tuberculose, era incompreendido pelos contemporâneos, tinha paixões não correspondidas e infelicidade geral. Raramente conseguiam uns trocados para uma existência decente e ainda assim tinham problemas familiares, com o álcool, com as autoridades...

Mas tudo isso mudou quando o cinema e o disco multiplicaram exponencialmente o público. Tudo bem, já tinha Gutenberg e a imprensa, mas quanta gente alfabetizada e com dinheiro para uma biblioteca existia antes da Segunda Revolução Industrial? Com essas novas tecnologias surgiram os astros - ricos, bonitos e famosos - e, quando Elvis rebolou aqueles quadris, foi a vez do superstar. É esse estilo milionário de vida de artista que está em risco com a pirataria digital. Ou não. Na verdade, nós não os idolatramos pelas suas obras. Ou pelo seu talento. A cultura pop, a grande ameaçada, não vive disso. Vive da atitude.

Muita gente era melhor do que Elvis, mas foi ele que virou o ícone. O mesmo de Marilyn. Ou muitos outros. Sua beleza, seu talento, mais do que sua obra, nos fizeram dar-lhes procuração para viver e simbolizar a vida que não podemos ou não conseguimos ter. Antes da cultura de massa, os valores eram outros, e artistas encarnavam profetas com uma visão coerente e desdém pelos valores materialistas da sociedade. Daí a tuberculose. O público mudou, os valores mudaram e o desdém agora é só pela sociedade, mas não pelo materialismo. Nós QUEREMOS que eles sejam ricos para projetarmos nossos sonhos, como já quisemos que fossem mártires miseráveis. E assim, que remédio, eles são ricos. Os conceitos de "Top Model" e "Big Brother" já pularam até a etapa da obra artística. Tudo bem, continua sendo uma vida difícil, cheia de álcool, drogas e relacionamentos vazios, mas pelo menos também cheia de grana, mansões e limusines.

Quanto à arte, vai ter sempre gente produzindo. Alguns anos atrás, eu explicava a um amigo que teria que ficar dias e dias enfunado em casa escrevendo uma peça sobre um assunto que não gostava, num estilo que não gostava, me matando para ganhar 500 reais. "Eu jamais escreveria uma peça por 500 reais", disse ele. "É porque você não é escritor", retruquei. Se você precisa saber por que escreve, não é escritor, já dizia um André desses, não me lembro se o Gide ou Malraux.

Mas tudo isso é racionalização. Pirataria é crime. É que nem gente que consome drogas e fica fazendo elocubrações para justificar-se. Não adianta. É contra a lei e ainda financia o crime organizado. Mais cedo ou mais tarde, vai ser que nem a Lei Seca, vai ter que liberar geral. Mas até lá é ilegal. O resto é desobediência civil. Essas coisas de artistas e profetas. Mas chega. Acabei de baixar MÓRBIDA CURIOSIDADE e pela primeira vez vou ver em seu aspecto original widescreen.

Espero que dê onda.

Gente na Gamboa






Um Dia na Igreja de Nossa Senhora da Saúde










Fundada em 1742, o bairro da Saúde desenvolveu-se em torno dela. Após ter sido impiedosamente saqueada, segundo o seu Antônio, ela foi restaurada e permanece sem usos sacros, com um portão fechado que desencoraja a maior parte dos visitantes - são poucos. Por uma incrível coincidência, os visitantes antes de nós, os únicos em mais de 20 dias, eram amigos nossos, como pudemos ver no livro de registros - Pedro, Bel e família. Breve fotos com detalhes da igreja.

Esquete de 1993

Uma mesa de bar. Um homem e uma mulher sentam-se nela. A Garçonete chega para atendê-los.

garçonete
Desejam alguma coisa para beber?

abelardo
Um gim-tônica, por favor.

garçonete
Infelizmente, nosso perfume acabou. Não deseja outra coisa?

abelardo
A gente pensa depois... o que tem para se comer?

garçonete
Sanduíche de mortadela.

abelardo
Sanduíche de mortadela? Como assim? O que tem de prato?

garçonete
Nada. No momento só temos sanduíche de mortadela.

abelardo
Mas como um restaurante pode só ter sanduíche de mortadela? Isso é um absurdo!

Garçonete
(PENSANDO QUE ELE ESTÁ SE REFERINDO À COMIDA E BEBIDA) Desculpe, mas, sabe, né, o senhor tem que compreender, nós temos passado por alguns problemas... nosso cozinheiro descobriu que o barman era na realidade João Alberto, o irmão de quem ele tinha sido separado na infância pela madrasta que estava de olho na herança que Jonas Ricardo ia deixar para Lucilene e aí os capangas de Renato Albuquerque sequestraram o infeliz e o levaram para a madame Márcia Alvarenga e desde então ele perdeu sua mão para temperos...

O homem e a mulher ficam olhando incrédulos para a garçonete

florisbela
A cozinha desse restaurante é sempre tão animada assim?

garçonete
O que vocês queriam de um restaurante mexicano?

florisbela
Oh!
Entra o dono do bar

Diego dolanogo
(ENCOLERIZADO) O que você está fazendo aí, Lupe Esmeralda? Conversando com os fregueses novamente?

garçonete
(AJOELHANDO-SE FRENTE A ELE) Não, Dom diego Dolanogo, eu estava apenas anotando o pedido deles! Juro pela alma da minha avó que morreu de tristeza ao saber que seu marido havia sido morto em combate quando as tropas de Emiliano Zapata atacaram o Palácio Presidencial!

diego Dolanogo
É mentira! Não vi você anotando nada em seu bloco! Lembre-se que está aqui apenas para me proporcionar lucro! Você não é nada, é apenas uma reles garçonete que nunca chegará a lugar algum! Anote imediatamente os pedidos ou eu a porei no olho da rua!

garçonete
Não, dom Diego Dolanogo, não! Se o senhor me puser no olho da rua, não terei como sustentar minha mãe, meus sete irmãos e meu padrinho de crisma que esperam há anos em vão pelo meu pai, que se juntou às tropas de Hugo Sanchéz e foi dado como desaparecido, mas que ela jura que está vivo e que a visitou numa noite, há muitos anos atrás, depois de seu desaparecimento!

diego Dolanogo
Então nunca se esqueça que você está aqui para trabalhar! Vamos, anote logo os pedidos... (TOM - INSINUANTE) e depois, apareça no meu escritório... se você for boazinha comigo... talvez até eu lhe dê um bônus... um dinheirinho extra para você levar para sua família... (SAI, RINDO PARA DENTRO)

garçonete
Oh! Um bônus! Que felicidade! Carmem Maura poderia até pagar sua operação para a correção do hipotálamo e voltar a andar... quem sabe até volte ao time de triatlo do colégio... e Pedro Rubiño poderia pagar sua matrícula na Escola de Pintura... oh! E tudo que eu tenho a fazer é ser boazinha com ele! Oh! (VAI SAINDO, MAS DE REPENTE PÁRA) O que será que ele quis dizer com isso? (SAI)

florisbela
Que lugar estranho, Abelardo...

abelardo
Até que nem tanto... Lembra do restaurante japonês que fomos outro dia e quando reclamamos que o sushi estava ruim, o cozinheiro veio até nossa mesa, gritou "estou desonrado" e começou a fazer hara-kiri?

florisbela
É... e o pior foi que por não ter faca, ele teve que abrir a barriga com os dois palitos...

abelardo
(PEGANDO AS MÃOS DELA, ROMÂNTICO) Florisbela... eu... eu a trouxe aqui... porque queria lhe pedir uma coisa...

florisbela
O quê, Abelardo?

abelardo
Eu... eu...

Entram dois mariachis, só que fantasiados de feijão e vestidos com roupa de aeróbica, cantando guantanamera. Abelardo e florisbela ficam olhando surpresos. A garçonete volta.

garçonete
E então? Já decidiram seus pedidos? Vão querer sanduíche de mortadela?

abelardo
O que é isto?

garçonete
Nossos Mariachis.

florisbela
Mas eles são feijões!

garçonete
Dom Diego Dolanogo é um homem muito parcimonioso com despesas... como um restaurante mexicano tem que ter mariachis e feijões saltitantes, ele resolveu contratar logo feijões saltitantes que fossem mariachis.

abelardo
E por que essa roupa de ginástica?

garçonete
Ah, é que como temos muitos fregueses publicitários moderninhos, ele achou que em vez de feijões saltitantes, seria melhor ter feijões aeróbicos...

feijões
Guantanamera... larila, Guantanamera... Guantanameeeeeera! Larila Guantanameeera!

garçonete
E então? Vão querer os sanduíches de mortadela?

abelardo
(ATÔNITO) Depois... depois...

garçonete
Está bem... (SAI)

Os feijões permanecem cantando guantanamera. Abelardo pega novamente na mão de florisbela.

abelardo
Florisbela... eu... eu... queria pedir sua mão em casamento!

florisbela
Oh! Abelardo! Mesmo sabendo que eu sou prima-irmã de Madame Márcia Alvarenga? E que nossas famílias não nos apoiarão nesse plano insano?

abelardo
Tudo por você, Florisbela... tudo!

florisbela
Eu... eu... eu preciso pensar, Abelardo... por favor... eu... eu vou ao banheiro... preciso de um pouco de ar... (LEVANTA-SE E VAI AO BANHEIRO)

UM DOS FEIJÕES PARA DE TOCAR E SENTA-SE À MESA COM ABELARDO. O outro continua com guantanamera.

FEIJÃO 1
É muito bom ter uma mulher que o ame...

abelardo
(ALGO ATÔNITO) Sim... sem dúvida...

feijão 1
Minha vida sempre foi a música... mas não tinha dinheiro para pagar a Escola de Música... então tive que ganhar a vida tocando em bares... e estudar sozinho, sonhando em um dia poder tocar na Orquestra Sinfônica Nacional... e nos bares, ninguém nunca prestava atenção em minha música... em alguns deles, nos sábados, eu tinha que ficar precavido e atento a tudo... pois era o dia da feijoada completa... e depois, voltava para casa e estudava... nunca tive tempo para o amor... até conhecer Maria...

abelardo
Maria?

feijão 1
Sim... Maria... uma das minhas alunas de música... cantora lírica... eu a amava, Deus, como a amava... até compus uma sinfonia para ela... mas meu irmão gêmeo descobriu tudo... seduziu Maria e roubou minha sinfonia... e ainda desfigurou meu rosto com ácido!
abelardo
Com... ácido?

feijão 1
Sim... isto é apenas uma máscara! (TIRA A MÁSCARA E MOSTRA SUAS FEIÇÕES DE FEIJÃO DESFIGURADO PARA ABELARDO)

abelardo
Oh!

feijão 1
Sim... esta é minha vida... de dia toco aqui, e, à noite, rondo pelos bastidores da Ópera onde minha sinfonia vai ser executada... eles querem dar o papel da solista para Zupe Barrios, mas vou fazê-la sofrer um acidente, e Maria, que é uma das coristas, terá o papel principal... ela merece... pode ter cedido ao meu irmão gêmeo, mas posso perdoá-la... ele é muito sedutor... ela merece tudo... e eu... nem sequer tenho um rosto para beijá-la (PÕE AS MÃOS NO ROSTO DESFIGURADO E CHORA)

florisbela volta do banheiro, em lágrimas.

abelardo
(VENDO FLORISBELA) E então, meu amor? Já decidiu?

florisbela
Abelardo... eu... eu... (CHORA) Perdi minha virtude!

abelardo
Isso é o de menos, Florisbela... pior seria se perdesse o cabaço...

florisbela
Você não entendeu, Abelardo... isso é uma metáfora!

abelardo
Metáfora? Metáfora? Quer dizer que Gerald Thomas está envolvido nisso?

florisbela
(CHORANDO) Não... era um Feijão... muito parecido com esse, se não fosse desfigurado... ele foi tão gentil e solícito pegando para mim a toalha de papel... quando dei por mim... já havia acontecido!

feijão 1
Meu irmão gêmeo! Preciso pegá-lo! (SAI, CORRENDO) Finalmente o farei pagar por tudo!

abelardo
Querida, do jeito que você está falando parece até que perdeu seu hímem...

florisbela
Mas foi, Abelardo! Perdi minha virgindade! Minha pureza!

abelardo
Oh! Oh! Oh, oh, oh! Oh, não! Nosso amor tão puro e casto... como pôde traí-lo assim? Como pôde se tornar uma caída?

Entra a garçonete

garçonete
O que aconteceu? Você parece chocado!

abelardo
Minha noiva... é uma caída! Não podemos mais nos casar!

florisbela
(IMPLORANDO À GARÇONETE) Eu não tenho para onde ir! Você sabe de algum lugar onde eu possa ficar?

garçonete
Bem, não posso levar você comigo... a vizinhança começaria logo a falar... mas posso falar com Madame Fifi... ela... (DISCRETA) cuida do andar de cima...

florisbela
É o que eu mereço agora... chame-a!

A garçonete acede e sai enquanto florisbela se senta e fica chorando copiosamente na mesa. entra madame fifi.

madame fifi
Soube que a menina tem um passado... vamos, não fique assim... você tem uma vida pela frente... uma menina bonita como você vai atrair muita atenção...

florisbela
Como uma pecadora como eu pode ter algum atrativo para um homem?

madame fifi
Você é muito inexperiente, menina... o mundo está cheio de casamentos sem amor... cujo fogo da paixão há muito já se apagou... muitos homens saem então de seus lares, em busca do afeto e da ternura que não mais encontram no recôndito doméstico e procuram casas como a minha... a maioria das vezes, apenas para conversar... com uma mulher que os escute, que lhes dê atenção e carinho... para eles, não interessa a vida pregressa dessas moças... eles querem apenas sonhar que têm uma companheira que os apóie em seus momentos de fraqueza, que não podem revelar em casa... (PEGA O ROSTO DE FLORISBELA PELO QUEIXO) Vamos, menina... deixe disso... Madame Fifi cuidará de você... eu lhe ensinarei tudo o que sei... e quem sabe, algum dia, mais experiente, você possa superar tudo isso e lutar por seu amor perdido?

florisbela
(OLHANDO ABELARDO) Isto... eu sei que é um sonho impossível... (LEVANTA-SE) Vamos, Mme. Fifi. Leve-me para minha nova casa...

madame fifi sai, levando florisbela. Abelardo começa a chorar. O mariachi continua tocando. Entra Pérola niegra.

garçonete
(VENDO PÉROLA NIEGRA) Oh! É Pérola Niegra, a antiga proprietária deste restaurante que Dom Diego Dolanogo enganou e levou à ruína.

pérola Niegra
Como vai, Lupe Esmeralda? Onde está seu patrão?

garçonete
Ele... está nos fundos...

pérola niegra
Traga-o. Diga que Pérola Niegra está aqui...(EXIBE UM ENVELOPE) E tem a carta!

A Garçonete sai, preocupada, enquanto pérola niegra espera. Ela vê abelardo.

Pérola Niegra
O que temos aqui, um maricas? Não sabe que homens não devem chorar?

abelardo
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida... e tornou-se o mais triste!

pérola Niegra
E tudo o que você sabe fazer é ficar aí nessa mesa, chorando? Não é à toa que o mundo está perdido! Os poucos homens que ainda têm tutano são os canalhas. Os outros sabem apenas sentar-se numa mesa e chorar. Qualquer decepção e acham que sua vida terminou, que está tudo acabado!

abelardo
Minha noiva... eu ia pedi-la em casamento hoje... mas quando ela foi ao banheiroperdeu a pureza e agora está numa casa de tolerância!



pérola niegra
E daí? Você acha que é o primeiro homem cuja noiva torna-se uma das meninas de Madame Fifi justo quando ia casar com ela? Isto é motivo para você ficar assim? Sua noiva perdeu a pureza, não o braço, a perna ou o intestino! Pior é você, que parece ter perdido todo o tutano. Pense bem, ela gostaria de vê-lo assim? É essa a imagem que você quer que ela tenha de você?

abelardo
Mas... eu queria tanto casar com ela!

pérola niegra
Então, case-se! Você é um homem ou um rato?

Entra Diego dolanogo.

diego dolanogo
Eu disse para que nunca mais pisasse aqui, Pérola Niegra.

pérola niegra
As coisas mudaram, Diego... eu tenho... a carta!

diego dolanogo
E você acha que eu teria medo de uma simples carta?

pérola Niegra
Esta não é uma simples carta, Diego... é uma carta falante!

diego dolanogo
(ASSUSTADO) Uma... uma carta falante?

pérola Niegra
(ENTREGANDO A CARTA PARA DIEGO) Veja você mesmo... se tiver coragem...

diego hesita em pegar a carta, mas a pega e, tremendo, suando, a abre. desdobra-a. Assim que acaba de desdobrá-la, uma voz em off começa a falar. Cada vez que ouve a voz, diego dolanogo treme, assustado.

carta
(OFF) Caro Diego... eu sei de tudo... sei como você sempre desejou Juanita Esmeralda... sei que você era companheiro de regimento do marido dela no exército de Hugo Sanchéz e fugiu covardemente quando ambos poderiam ter tomado o Palácio Presidencial sózinhos... ninguém ficou sabendo e você acabou sendo condecorado por isso... e, assim que deu baixa, disfarçou-se como o desaparecido marido de Juanita Esmeralda... e assim, conseguiu introduzir-se no leito dela, levando-a a crer que fora visitada pelo esposo, o que fez todos pensarem que era louca e encheu sua família de esperança... o que você não sabe, é que aquela noite de amor deu frutos... uma menina, com os olhos (DESCREVE A GARÇONETE)... uma menina, nascida exatamente nove meses depois daquela noite que você jamais esqueceu... uma menina, que para sustentar a família, teve que aceitar um humilde emprego de garçonete... no restaurante de seu pai! Sim, Lupe Esmeralda é sua filha, Diego Dolanogo! Sua filha! A única que você jamais terá, já que uma doença depois o tornou estéril! E você a vem maltratando todos esses anos!

diego dolanogo
Lupe Esmeralda... minha filha? E eu... todos esses anos... alimentando fantasias licenciosas a seu respeito... minha própria filha! Mas não, não era eu que a maltratava! Não, não era! Era aquele jovem covarde... que deixou Pablo Esmeralda morrer em combate... e levou a glória... aquele jovem que, por causa desta mancha em seu passado, nunca pôde revelar seu amor a Juanita Esmeralda... sim, era ele que a maltratava, que projetava nela todas as suas frustrações em relação a sua mãe... agora vejo claramente... estive louco estes anos todos... louco e cego... (A LUPE) Sei que você jamais poderá me perdoar, Lupe, mas acredite... meu arrependimento é sincero... toda minha vida foi um desperdício... Juanita, Juanita... você nunca saberá o quanto a amei... de toda a minha vida, apenas aquela noite pôde justificar minha vinda a este mundo... (VAI SAINDO, LENTAMENTE)

garçonete
Ele... ele é meu pai! Eu tenho um pai! Oh, agora poderemos fazer todas as coisas que pai e filha fazem juntos! Eu sentarei em seu colo e ele fará cavalinho comigo! Ele me levará a peças infantis de qualidade duvidosa e depois de um lanche de comida intragável no Mr. Croquette, levá-lo-ei à loucura conversando com todos os meninos com cara de marginal que encontrarmos no shopping!

Súbito, vindo do canto para onde diego dolanogo saiu, ouve-se um tiro.

GARÇONETE
Papai! (SAI, CORRENDO)

O feijão continua tocando. abelardo continua chorando. Pérola Niegra olha para ele.

PÉROLA NIEGRA
Bem, vou-me embora... já fiz aqui o que tinha que fazer... (PARA ABELARDO) E você, garoto?

abelardo
Deixe-me em paz...

pérola Niegra
Você pode falar isso para mim, garoto... mas não para a Vida! (SAI)

entra madame fifi. Senta-se à mesa de abelardo.


madame fifi
É, é hora de partir. Com Lupe Esmeralda como a nova dona deste restaurante, não haverá mais um "andar de cima". Mas isso não me afeta. Sempre haverá um lugar para as meninas da Madame Fifi. E fico feliz que Lupe Esmeralda não tenha acabado como uma delas...

abelardo
Como Florisbela...

madame fifi
Você sempre poderá visitá-la em minha casa...

abelardo
(PULANDO EM CIMA DELA) Como, como ousa falar assim? Eu a amava, eu a amo, e não posso mais tê-la! Só a teria como esposa, minha esposa, está entendendo? Meu amor, eu sempre guardei apenas para uma mulher, e esta mulher era Florisbela! Florisbela! Se não puder tê-la como esposa, não a terei como uma de suas... (COM NOJO) Meninas! Nem a ela, nem a nenhuma outra mulher! Nunca mais tocarei uma mulher! Florisbela pode ter ido, mas meu amor por ela continua!

Entra o feijão desfigurado, cambaleante.

feijão 1
É justo que morramos juntos, irmão... afinal de contas... sempre fomos como duas imagens num espelho... um espelho distorcido... porém um espelho...

madame fifi
Pois então, o que o impede? Ela também só pensa em você! Passa o tempo todo pensando em você, torcendo para que encontre uma mulher que o mereça e que possa realmente lhe dar uma família! Filhos sadios, saudáveis, sem as doenças com que o passado provavelmente marcou seu corpo! Vamos, deixe disso, case-se com ela!

feijão 1
(CAINDO AO CHÃO) Você pagou por seus crimes, irmão... e eu, pela minha omissão... estamos quites... com nós mesmos e com o Destino... nós, que amávamos a mesma mulher... Você já foi, irmão... agora é minha vez... Maria! Maria! Maria! (MORRE)

abelardo
Mas como posso perdoá-la? Como posso confiar nela depois disso tudo?

madame fifi
Foi um momento de fraqueza! Todos estamos sujeitos a isso! Ela já se arrependeu! E aquele que se aproveitou dela já pagou com a vida por isso! Ela agora sabe que o amor é muito maior e mais importante do que qualquer outra coisa! E você, como pode lhe cobrar algo? Já imaginou que, se tivesse ido ao banheiro com ela, nada disso teria acontecido?
abelardo
Eu... eu... eu não posso... eu não... eu... eu... (CHORA) eu te amo, Florisbela! Eu te perdoaria tudo, se pudesse tê-la de novo em meus braços! A vida sem você não tem sentido! Dane-se o que o mundo pensar! O que importa é que nós nos amamos! Oh, Deus, como nós nos amamos!

madame fifi
O mundo está cheio de ódio e desamor... um amor como o de vocês tem que se realizar... por que diz isso para ela?

abelardo
Depois do que eu lhe fiz, ela jamais me escutaria...

florisbela vem entrando, tímida, vestida como prostituta.

madame fifi
Veja quem está vindo aí. Vamos, fale com ela. Você nunca saberá se não tentar... (SAI)

abelardo
(LEVANTANDO-SE) Florisbela...

florisbela
Abelardo...

os dois se olham durante alguns momentos sem saber o que fazer. Então, subitamente correm ao encontro um do outro e se abraçam.

abelardo
Eu não posso viver sem você, Florisbela, não posso, não posso!

florisbela
Mas... o meu passado!

abelardo
Foi tudo culpa minha, Florisbela... tudo culpa minha... case-se comigo, por favor... esqueçamos tudo isso... por favor, faça de mim o homem mais feliz do mundo!

florisbela
Oh, Abelardo... como poderia lhe negar isso? Sim, sim, eu casarei com você, se é isso que você realmente deseja!

abelardo
Eu te amo, Florisbela, eu te amo!

lupe esmeralda, madame fifi e pérola niegra, que entraram e ficaram no canto durante diálogo, batem palmas, emocionadas. O feijão remanescente continua tocando. Abelardo levanta florisbela, pega-a no colo e a beija. os aplausos sobem. Ele vai levando-a embora.

FLORISBELA
Meu amor...

abelardo
Vamos, querida... um mundo de sonhos nos espera... tenho aqui comigo duas passagens para o nosso cruzeiro de lua-de-mel!

FLORISBELA
Oh, querido, que romântico!

abelardo
Sim... vamos, vamos logo! Nossa lua-de-mel será inesquecível... durante anos, contaremos a nossos netos nosso inolvidável cruzeiro... no TITANIC!

FLORISBELA
Oh, o Titanic! O mais luxuoso navio do mundo! Oh, Abelardo, o que poderia dar errado para nós agora!

Saem. o feijão continua tocando guantanamera. As mulheres que observavam a cena vão saindo. Lupe dá uma paradinha antes de deixar a cena.

garçonete
O Titanic... talvez eu devesse comprar uma passagem para minha mãe também... ela merece... e agora, que tenho este restaurante... ah, tolinha... deixe de invejar a felicidade deles... quantos anos de amor pela frente eles ainda vão ter... (SUSPIRA) Ah! Quem sabe eu não vou no Titanic também..? E encontro um amor? (SAI)

O Ataque das Rolinhas Assassinas






Duas rolinhas malucas passam a noite e boa parte do dia aqui em casa, ignorando a janela arreganhada, mesmo com uma gata maluca vigiando-as de perto o tempo inteiro - e ainda um humano preocupado com o quê elas iriam sujar.

Um Dia na Praia de Mauá IV





A História da Copa do Mundo - A Copa de 1938

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A COPA DE 1938 - A EUROPA (QUASE) SE CURVA AO BRASIL

O estatuto da FIFA já previa rodízio de continentes na organização da Copa. Depois da Itália, o próximo anfitrião deveria ser da América do Sul e a Argentina se candidatou. Mas a França também, e o coração de Jules Rimet por ela batia. Assim os franceses foram escolhidos para hospedar o torneio e os argentinos e uruguaios se recusaram a participar, pelo desrespeito às regras. Os ingleses continuavam achando que não podiam ficar se misturando com aquela turma de pernas-de-pau e ignoraram mais uma vez a competição. Tirando esse povo, todos os outros países importantes no esporte se inscreveram para as eliminatórias.

Todos não. A Áustria, terra do Wunderteam, de toque de bola magistral e belo, havia sido anexada pela Alemanha de Hitler. Seus jogadores foram encampados pela seleção alemã, que já era forte. Com este time reforçado o ditador nazista esperava fazer em 1938 o que Mussolini fizera em 1934, mostrar ao mundo como seu governo fizera dos alemães guerreiros imbatíveis, trazendo a Copa para casa. Poucos pensavam que esse esquadrão ariano pudesse ser detido. Talvez a Itália tivesse alguma chance. A Tcheco-Eslováquia ainda tinha em seu elenco vários atletas vice-campeões em 1934. E entre os competidores, havia um único sul-americano, mas de um país bem mais pobre que os respeitados Uruguai e Argentina. O Brasil.

Pela primeira vez os brasileiros chegaram bem preparados. A federação profissional e a amadora fizeram um acordo e mandaram o melhor time disponível. O técnico, Adhemar Pimenta, era competente, embora totalmente desatualizado, desconhecendo até o WM. Ainda assim a preparação foi bem feita, com o time chegando 19 dias antes da estréia, com tempo suficiente para se acostumar à França e à Copa.

As oitavas-de-final começaram sem surpresas. A Suécia nem precisou jogar, já que seu adversário seria a Áustria, que desaparecera anexada pelos nazistas em 1936. A Hungria venceu por 6 x 0 as Índias Holandesas, cuja matriz, a Holanda, que se autoproclamava melhor time só de amadores da competição, perdeu de 3 x 0 para a Tcheco-Eslováquia e terminou em penúltimo lugar, mostrando que a era do amadorismo estava totalmente ultrapassada. A Noruega, que nas Olimpíadas de Berlim em 1936 eliminou a Alemanha e nas eliminatórias derrotou equipes então fortes como a Irlanda e a Iugoslávia, deu trabalho aos campeões italianos, que precisaram da prorrogação para fazer 2 x 1.

As surpresas vieram de Cuba, que eliminou a Romênia num jogo-desempate, depois que o primeiro terminou 3 x 3 e, principalmente da Suíça de Karl Rappan e do Ferrolho, que eliminou os poderosos alemães. Foram dois jogos, 1 x 1 no primeiro e 4 x 2 no segundo, de virada. Talvez tenha contribuído para a derrocada alemã a mudança de técnico. Sepp Herberger substituiu Otto Nerz depois que este perdeu a Olimpíada e desapareceu misteriosamente. E na Alemanha de Hitler, quando alguém desaparecia não era por ter sido abduzido por extraterrestres, como o Penta perguntou.

O Brasil tinha pela frente a Polônia, semifinalista da Olimpíada de 1936. Os poloneses, como bons inimigos, se julgavam vitoriosos de véspera. Seu técnico dizia que sua equipe sabia como descobrir imediatamente os pontos fracos de qualquer adversário. E parece que foi assim contra os brasileiros, pois fizeram cinco gols. Infelizmente para eles a seleção fez seis.

O Brasil saiu na frente e fez 3 x 1, mas os poloneses empataram em 4 x 4. Na prorrogação os brasileiros abriram 6 x 4 e os polacos diminuíram, mas ficaram nisso. Leônidas da Silva marcou quatro gols, o primeiro jogador a conseguir tal façanha num jogo de Copa do Mundo, cinco minutos antes do polonês Willimowski fazer o mesmo. Começava a nascer a lenda do "Homem de Borracha", apelido que ganhou dos europeus devido a sua elasticidade e suas jogadas acrobáticas.

BOX

Contra a Polônia, a chuteira de Leônidas estourou e ele a jogou para fora do campo para ser consertada e ficou em campo, com o pé descalço. Na jogada seguinte Hércules cobrou uma falta com violência e o goleiro espalmou a bola na direção de Leônidas. O brasileiro nem pestanejou, encheu o pé, sem querer saber se estava calçado ou não e marcou o quinto gol da seleção. O juiz validou o lance e o "gol de pé descalço" aumentou a lenda do "Homem de Borracha".

O jogo foi disputado debaixo de enorme temporal e é considerado um dos mais emocionantes da história das Copas. Mais importante do que os gols que fez foi o show de bola de Leônidas. Tanto que ninguém lembra do artilheiro polonês. Depois de terminada a partida o técnico Adhemar Pimenta comentou, "mas que terrível adversário foi a chuva".

Nas quartas-de-final os suíços, usando o Ferrolho, uma tática que privilegiava o físico, vindos de dois jogos difíceis, um com prorrogação, não resistiram diante da Hungria, que tivera uma semana de descanso depois da moleza que foi enfrentar as Índias Holandesas. A Itália eliminou a anfitriã por 3 x 1. O time francês não era lá essas coisas, para infelicidade de Jules Rimet. Os suecos terminaram suas férias com um 8 x 0 sobre Cuba. E os vice-campeões do mundo, os tcheco-eslovacos, tinham pela frente os brasileiros, que tiveram que viajar mil quilômetros para a partida.

Outro jogo duro. O Brasil começou batendo muito e teve Zezé Procópio expulso. Machado e Riha trocaram bofetões no final do primeiro tempo e também foram mandados para fora.

No segundo tempo quem baixou o sarrafo, sob o olhar dessa vez complacente do juiz, foram os tcheco-eslovacos. A vantagem de 1 x 0 conseguida por Leônidas no primeiro tempo não conseguiu ser mantida. Nejedly empatou de pênalti e o jogo foi para a prorrogação. Zero a zero.

Na partida-desempate, dois dias depois, Adhemar Pimenta mudou o time todo, menos Leônidas, que empatou o jogo depois que a Tcheco-Eslováquia saiu na frente. Mas os reservas brasileiros eram tão bons quanto os titulares e o ponta-direita Roberto fez o gol da vitória. O Brasil só precisava viajar 17 horas até Marselha, vencer os campeões do mundo e estaria na final.

A semifinal contra a Itália é motivo de várias controvérsias. A primeira foi a ausência de Leônidas. Adhemar Pimenta não o escalou alegando que o centroavante estava contundido, mas alguns jornalistas presentes à Copa garantem que ele estava em condições de jogo e teria sido poupado para a final. Na história oficial das Copas pela FIFA e na imprensa internacional esta é a versão aceita.

No entanto, era preciso lembrar que o jogo seria em 16 de junho. No dia 12 Leônidas jogara 120 minutos e no dia 14 jogara mais 90. Ele realmente estava se queixando de contusão e, mesmo que ela não impedisse sua entrada em campo, seria um risco fazer um jogador tão exausto disputar uma partida importantíssima sem estar 100% fisicamente, com o risco de agravar seu estado. E, como visto no capítulo sobre regras de futebol, antes de 1967, se um time perdesse um jogador teria que jogar com 10 até o fim, já que não havia substituição, uma das grandes tolices da história do bárbaro esporte bretão.

Assim, para escalar Leônidas fora de sua melhor forma, Pimenta estava se arriscando a perder seu principal jogador, ficar com 10 em campo contra os campeões do mundo e a entrar sem seu atacante numa eventual final. Um treinador mais ousado poderia ter preferido correr o risco, mas Pimenta acreditou no potencial do resto da equipe, para se tornar motivo de chacota até no DVD "FIFA Fever", em que se conta a história oficial das Copas.

A segunda controvérsia foi a escalação do ataque. O reserva de Leônidas era Niginho, mas foi descoberto em cima da hora que o atacante abandonara a Brasilazio, o time da Lazio cheio de brasileiros, ainda com contrato por cumprir, para voltar à pátria da qual estava morrendo de saudades. Atitude inegavelmente patriótica e romântica, mas antiesportiva. Os italianos certamente sabiam da história e a FIFA poderia desclassificar o Brasil. Assim Pimenta escalou na linha de frente jogadores que nunca tinham sequer treinado juntos e fora de posição.

Mas os brasileiros eram bons de bola e a seleção segurou o 0 x 0 até os 10 minutos do segundo tempo, quando Colaussi, em jogada pessoal, fez o primeiro gol. Ainda assim o time não se entregou até cinco minutos mais tarde, quando o juiz marcou pênalti contra o Brasil e deu início à terceira controvérsia. Domingos da Guia, o maior zagueiro já nascido nestas terras, foi provocado desde o início do jogo por Piola. Quando o lance estava no meio-campo, aproveitou para dar uma rasteira no centroavante. Infelizmente para ele o juiz viu o lance e marcou a falta.

Há várias versões desta história: a infração teria sido cometida quando a bola estava fora e Domingos esperava ser expulso, mas não que fosse ser pênalti; Piola chutou Domingos e este reagiu, mas o árbitro foi parcial; que os jogadores brasileiros simplesmente não sabiam que podia ser marcada uma falta fora da jogada. Mas tudo leva a crer que Domingos simplesmente se irritou com a provocação do italiano e aplicou-lhe um pontapé. O gol subsequente acabou com as esperanças brasileiras, que não foram reavivadas nem com o gol de Romeu aos 42 minutos, fechando o escore em 2 x 1.

BOX

Por causa do pênalti sobre Piola, o termo domingada passou a ser usado por locutores para descrever uma lambança da defesa. Injustiça com Domingos da Guia, o mais técnico e elegante zagueiro da história brasileira.

Na outra semifinal a Hungria derrotou os turistas suecos por 5 x 1. A turma da Suécia também não viu a cor da bola na decisão do terceiro lugar, quando perdeu de 4 x 2 para o Brasil com Leônidas de volta. O centroavante marcou duas vezes, tornando-se o artilheiro com 8 gols. Somado ao que fez em 1934, totalizou 9, tornando-se o maior goleador das Copas até então. Ademir igualaria a marca em 1950.

Na final, mesmo com toda a torcida francesa contra eles, os italianos não tiveram dificuldades em fazer 4 x 2 sobre uma Hungria que o próprio Piola reconheceu tecnicamente superior. O treinamento profissional de Pozzo e suas táticas provaram ser mais adequados a um esporte que rapidamente estava tornando os estilistas puros coisa do passado e exigindo um desempenho mais atlético de seus praticantes. A seleção italiana provou ter mais força, velocidade e um sistema de jogo em que cada um sabia exatamente o que fazer em campo. O "método" mostrou-se mais adequado sob tais condições. O "Ferrolho" dos suíços era mais moderno, mas sem jogadores da mesma qualidade, não foi muito adiante e passou quase desapercebido.

Em concordância com esses novos tempos, embora Meazza ainda jogasse e se destacasse, o craque da Itália foi Silvio Piola, aquele mesmo do pênalti de Domingos da Guia, não tão técnico, mas rápido, com excelente impulsão e reflexos incomparáveis na frente do gol.

Mussolini adorou. Hitler nem tanto. Infelizmente, sua próxima tentativa de mostrar ao mundo em que guerreiros imbatíveis ele havia transformado os alemães foi no ano seguinte, quando ele iniciou a II Guerra Mundial e interrompeu a Copa do Mundo por 12 anos.

A História da Copa do Mundo - Os Craques da Copa de 1938

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DOMINGOS DA GUIA

Elba de Pádua Lima, o Tim, jogou na Copa de 1938 pelo Brasil e foi um dos maiores dribladores do nosso futebol, tornando-se mais tarde técnico vitorioso e festejado. Numa mesa-redonda de tevê nos anos 80, ele contou:

- Olha, dizem que já me viram fazendo, mas eu mesmo não me lembro de alguma vez ter driblado o Domingos. Eu jogava olhando para ele. Se ele estivesse deste lado, eu driblava para o outro. Se ele vinha para cá, eu driblava para lá. O negócio era fugir dele.



E os atacantes fugiam dele, mas não adiantava. A bola acabava sempre nos pés de Domingos. Todo mundo corria de um lado para o outro, até os fotógrafos desesperados, tentando não perder o toque rápido e mortal de um Leônidas, por exemplo. Mas quando Domingos entrava no lance, a partida parecia ficar em câmera lenta. Ele parecia não suar a camisa, parecia não correr, mas a bola acabava sempre em seus pés.

E os atacantes tinham sua razão para temer Domingos. Na Copa Rio Branco de 1931, em que o Brasil derrotou os uruguaios por 2 x 0, o ponta-direita campeão do mundo, Dorado balançou as redes, gritou gol e seus companheiros correram para abraçá-lo e comemorar. E quando procuraram pela bola para levá-la ao meio de campo, ela não estava lá. Estava com Domingos.

Seu futebol impressionou tanto os campeões olímpicos e mundiais que foi contratado pelo Nacional de Montevidéu, onde ganhou o apelido de "Divino Mestre", com a idade de 20 anos. Foi-lhe oferecida a cidadania uruguaia para que ele pudesse se juntar à seleção celeste.

Centromédio deslocado para a zaga, Domingos, apesar de sua elegância e sobriedade em campo, não tinha temperamento fácil. Reservado e introvertido, com um estilo quase pedante de jogar, apesar de admirado não era idolatrado como Leônidas. Em campo às vezes se enervava com as provocações, como quando parou a bola a dois metros do gol aberto de seu time, num Botafogo e Flamengo e chamou os adversários para tomarem a bola dele. E eles vieram. Ele driblou um, dois, três, quatro, cinco, em fintas milimétricas, para em seguida esticar um lançamento de 50 metros. Depois de um longo silêncio de preocupação e estupefação, foi aplaudido de pé pelo estádio.

Domingos nasceu em 1912 e jogou também pelo Bangu, Boca Juniors, Vasco da Gama e, no melhor período de sua carreira, no Flamengo. Do rubro-negro saiu para o Coríntians em 1944, na mais cara transação até a época. Encerrou a carreira no Bangu, em 1949. Seu filho Ademir da Guia comandou a "Academia" do Palmeiras nos anos 70, e participou da Copa de 1974, sendo o único caso brasileiro de pai e filho que jogaram em Copas do Mundo.

LEÔNIDAS DA SILVA

O colunista inglês Mike Gibbons o descreve como provavelmente o melhor jogador da história do futebol antes de 1945. Alguns de seus contemporâneos chegaram a dizer que se o Brasil tivesse ganho a Copa de 1938 sua lenda seria tão grande ou maior do que a de Pelé. Principalmente ele mesmo. Leônidas da Silva, o "Diamante Negro" foi indiscutivelmente em sua época um fenômeno de popularidade tão grande quanto Pelé, Romário ou Ronaldo, o primeiro a ter sua imagem explorada pela publicidade. Simpático, acessível e bem-humorado, o "Diamante Negro" foi o maior ídolo que aquela nação doida por futebol já vira.



Nascido em 1913, filho de um marinheiro português e uma cozinheira, Leônidas entrou para o juvenil do São Cristóvão aos 13 anos e começou a se destacar no futebol comandando a linha de frente do Bonsucesso em 1931. Armado por Gentil Cardoso no então moderno WM, o time pequeno teve o ataque mais positivo do campeonato, mesmo chegando em sexto. Leônidas foi convocado para a seleção carioca, para o campeonato brasileiro, então disputado por seleções estaduais. O titular Nilo, que jogara a Copa de 1930, estava na Europa com o Vasco. Quando voltou havia perdido a vaga.

Leônidas fazia coisas em campo que nunca tinham sido vistas antes, como plantar bananeira com a bola nos pés, antes de terminar a jogada com uma cambalhota. Acrobático e rápido, participava do jogo muito mais do que os atacantes anteriores, indo atrás da jogada buscar a bola, em vez de ficar esperando-a, como Nilo e os outros atacantes da época. Nilo, aliás, fora o autor dos dois gols do histórico triunfo sobre o Uruguai em 1931. Na revanche, em 1932, sua posição já era de Leônidas, que também marcou os dois gols da vitória brasileira. Um dos gols foi de "bicicleta" (em que o jogador se joga no chão com as costas e, com as pernas para o alto, bate na bola), cuja invenção é creditada a ele, embora o próprio "Diamante Negro" atribuísse a honra a Petronilho, dizendo que apenas aperfeiçoara o lance.

A atuação lhe valeu a contratação pelo futebol profissional dos campeões do mundo, mas fracassou no Peñarol e voltou para o Brasil, para passagens sem muito brilho no Vasco e no Botafogo antes de se fixar por cinco anos no Flamengo, entre 1936 e 1941. Foi quando sua carreira atingiu o auge, tornando-se o maior ídolo da história do esporte. A famosa marca de chocolate "Diamante Negro" foi lançada para explorar sua imagem e existe até hoje. Grande parte da popularidade do Flamengo foi conquistada por sua causa, principal estrela de um time que contava também com Domingos da Guia, "o Divino Mestre" e Fausto, "a Maravilha Negra", três negros numa época ainda de preconceitos.

Em 1938 foi eleito o melhor jogador da Copa após marcar oito gols em quatro jogos e ganhou o apelido de "Homem de Borracha". Ele não participou da única derrota brasileira no torneio, contra a Itália por conta de uma história mal contada, tão misteriosa até hoje quanto a participação de Ronaldo na final de 1998. Na volta desfilou pelas ruas em carro aberto, antecipando as paradas dos futuros campeões mundiais.

Sem outras chances de disputar outros campeonatos mundiais por causa da II Guerra, ele saiu do Flamengo em 1942 para o São Paulo, onde jogou até 1950, ainda ganhando vários títulos. Largou o futebol nesse ano, após ser cortado da seleção que treinava para a Copa por Flávio Costa, com quem sempre teve desavenças. Tornou-se comentarista e locutor esportivo e faleceu em 2004.

A História da Copa do Mundo

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A EVOLUÇÃO TÁTICA - O FERROLHO SUÍÇO:

Retranca. Correria. Jogadores "polivalentes", que podem desempenhar várias funções, todos preocupados com a marcação. Não, não estamos falando do futebol-força nascido na década de 1960. Muito antes disso os suíços lançaram as sementes dessa idéia ao criar o "ferrolho", tática que não teve o destaque merecido por ter nascido na Suíça, país sem tradição no esporte, e por ser um sistema um tanto teórico, difícil de ser aplicado na prática por estar anos à frente de seu tempo.

Na pirâmide (2-3-5) a segunda linha de defesa era ao mesmo tempo o meio-campo. O WM dividiu as funções dessa linha média entre os meias-defensores e os meias-atacantes. Cada um tinha que marcar seu oposto do time adversário e os lances eram criados em embates individuais. O sistema funcionava, mas era rígido e exigia disciplina e dos jogadores, que eram exaustivamente treinados para se tornarem especialistas nas limitadas funções de sua posição, o que era bastante condizente com o profissionalismo que surgia, com atletas dedicados exclusivamente ao esporte.

Karl Rappan, um treinador tão fascinado pela teoria do jogo quanto Pozzo, não tinha esses profissionais ao seu dispor. Seus jogadores eram amadores com outros empregos, sem muito tempo para treinar. Ele criou então uma tática com maior mobilidade - e maiores responsabilidades - para os atletas.



Quando tinha a posse da bola, seu time se desdobrava em campo com os três defensores do WM, um beque e dois laterais; uma linha média semelhante à da pirâmide, completa com centromédio atacante, e uma linha de quatro no ataque, como no 4-2-4 do futuro. Atacando, as três linhas avançavam bastante, com a defesa chegando quase até o meio-campo. Uma vez perdida a bola, o adversário não tinha a opção do contra-ataque imediato porque, com os defensores tão adiantados, qualquer atacante enfiado estaria impedido. E naquele tempo todo mundo jogava enfiado porque os beques do WM e da pirâmide nunca saíam lá de trás.

Mas não era essa a grande novidade defensiva do Ferrolho. O que o tornava único e precursor do jogo contemporâneo é que quando perdiam a bola, os dez jogadores voltavam para marcar, mudando o desenho tático.




Os quatro atacantes deveriam atrapalhar a armação do jogo, dando tempo para os médios e os beques recuarem. O centromédio atacante volta mais do que seus companheiros direito e esquerdo e assume a posição do beque central do WM. Por sua vez, o beque central recua ainda mais, sem ter a missão de marcar ninguém. Ele fica atrás de todos os outros jogadores, na sobra, ou para corrigir erros dos companheiros, com liberdade para correr horizontalmente de um lado para o outro da defesa. Como um ferrolho, pata trancar o ataque adversário, daí o nome.

Este esquema abria mão do domínio de meio-campo. Assim, não tentava igualar os quatro jogadores que o WM desdobrava nesse setor, mas concentrava-se na defesa. Um adversário confrontado com esse sistema tinha a tendência a tocar a bola de um lado para o outro sem ter como penetrar na grande área, parecendo ter o domínio do jogo, mas na verdade sem opções e sujeito a contra-ataques velozes, facilitados pelo desenho tático que mudava rapidamente ao se recuperar a posse de bola.

O esquema exigia jogadores velozes, inteligentes o suficiente para compreenderem seus papéis e versáteis, porque até os atacantes tinham funções de marcação. Ninguém a usou fora da Suíça, mas sua mobilidade e versatilidade era o caminho para o futuro e o futebol contemporâneo, caminho que os brasileiros explorariam ao criar o 4-2-4.

abril 22, 2010

Ballad of the Despairing Husband

Robert Creeley

My wife and I lived all alone,
contention was our only bone.
I fought with her, she fought with me,
and things went on right merrily.

But now I live here by myself
with hardly a damn thing on the shelf,
and pass my days with little cheer
since I have parted from my dear.

Oh come home soon, I write to her.
Go fuck yourself, is her answer.
Now what is that, for Christian word?
I hope she feeds on dried goose turd.

But still I love her, yes I do.
I love her and the children too.
I only think it fit that she
should quickly come right back to me.

Ah no, she says, and she is tough,
and smacks me down with her rebuff.
Ah no, she says, I will not come
after the bloody things you've done.

Oh wife, oh wife -- I tell you true,
I never loved no one but you.
I never will, it cannot be
another woman is for me.

That may be right, she will say then,
but as for me, there's other men.
And I will tell you I propose
to catch them firmly by the nose.

And I will wear what dresses I choose!
And I will dance, and what's to lose!
I'm free of you, you little prick,
and I'm the one to make it stick.

Was this the darling I did love?
Was this that mercy from above
did open violets in the spring --
and made my own worn self to sing?

She was. I know. And she is still,
and if I love her? then so I will.
And I will tell her, and tell her right . . .

Oh lovely lady, morning or evening or afternoon.
Oh lovely lady, eating with or without a spoon.
Oh most lovely lady, whether dressed or undressed or partly.
Oh most lovely lady, getting up or going to bed or sitting only.

Oh loveliest of ladies, than whom none is more fair, more gracious, more beautiful.
Oh loveliest of ladies, whether you are just or unjust, merciful, indifferent, or cruel.
Oh most loveliest of ladies, doing whatever, seeing whatever, being whatever.
Oh most loveliest of ladies, in rain, in shine, in any weather.

Oh lady, grant me time,
please, to finish my rhyme.

Plástico de Carro

Um assassino serial é só um suicida com medo da solidão.

Tirinha


Tira gerada no www.stripgenerator.com. Se estiver com dificuldade para ler, clique em cima dela para ampliar.

abril 21, 2010

Paraty na Semana Santa: As Estações da Dor



Durante a Semana Santa, Paraty abre aos visitantes alguns oratórios com as doze Estações da Dor. Abaixo, três delas:



O oratório e a pintura são do século XVIII. Não me pergunte como fazem para não levar o banquinho...













O detalhe da porta é uma pintura do século XVIII, que ficava numa fazenda.

A História da Copa do Mundo - A Copa de 1934

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A POLÍTICA SE MISTURA AO FUTEBOL:

No capítulo sobre as origens do futebol foi contado como o esporte cresceu graças à Revolução Industrial, que melhorou a saúde da população, e ao militarismo, que incentivava o culto a corpos fortes e saudáveis que pudessem fazer bonito numa guerra. Como também já explicado, era preocupante para um governante botar armas na mão do povo. Como evitar que eles se rebelassem, estando armados? Com um governo mais justo, que não os oprimisse tanto - e assim começou a surgir a democracia -, e criando neles respeito e admiração pelo seu país e ódio pelos outros: o nacionalismo.

O nacionalismo e a rivalidade inerente a ele ajudaram a criar as competições internacionais, como a Olimpíada e a Copa do Mundo, mas quando se juntou ao militarismo acabou por levar o mundo à I Guerra Mundial, entre 1914 e 1918. E, com a Revolução Industrial, que permitiu o surgimento de metralhadoras e fuzis que podiam disparar vários tiros e serem recarregados sem que o soldado tivesse que se levantar, o resultado foi catastrófico. Ninguém jamais sonhara que uma carnificina de tais proporções fosse possível.

Com as novas armas, que ninguém ainda sabia usar direito, o resultado no campo de batalha foi um empate, apesar dos milhões de mortos. A guerra foi vencida porque a Alemanha e seus aliados, cercados em terra por seus inimigos e no mar pela esquadra britânica, ficaram sem suprimentos e condições de alimentar suas populações e seus soldados. Quando o tratado de paz foi assinado e as nações derrotadas tiveram que pagar imensas indenizações e perder enormes porções de seus territórios, o sentimento entre seus habitantes foi de que eles não apoiaram suficientemente seus exércitos, tão bem sucedidos em combate. Eles precisavam ser ainda mais nacionalistas e militaristas. Precisavam ser tão aguerridos como seus militares e seguir seus líderes guerreiros sem questionamentos. Estava aberto o caminho para Hitler e o nazismo.

A Itália tecnicamente estava entre os vencedores, mas basicamente porque se aliou aos caras certos. Em combate ela perdeu batalha após batalha para os austríacos e, por isso, quando foram distribuídos os despojos, os italianos acabaram ficando com bem menos do que achavam que mereciam. E depois de tanto sacrifício. O mesmo pensamento de que era necessário ainda mais militarismo e mais nacionalismo acabou levando ao fascismo e à ditadura de Mussolini.

Em 1932 a Itália foi apontada como sede da próxima Copa, após o governo construir e remodelar vários estádios. Como já visto, o militarismo e o culto extremado ao esporte andam juntos. Mussolini, no poder desde 1924, estava ansioso por mostrar às outras nações como sob seu comando os italianos haviam se tornado guerreiros poderosos e imbatíveis. E, na falta de uma guerra, que ele providenciaria alguns anos depois, uma Copa do Mundo serviria. E foi sob esse clima que começou o segundo torneio mundial de futebol.

OS PARTICIPANTES

Os ingleses não se interessaram pela Copa outra vez. Ainda se julgavam bons demais para essas disputinhas. Os uruguaios também não foram. Oficialmente porque ainda estavam magoadinhos com a ausência de tantos europeus em seu país em 1930 e queriam dar o troco, mas na verdade porque seu grande time estava envelhecido e se desfazendo, e preferiram não arriscar seu imenso prestígio e a magia que envolvia seu nome. Foi a única vez em que um campeão não se apresentou para defender o título.

Afora esses dois todas as grandes potências do futebol se inscreveram para o certame. Pela primeira vez haveria um torneio eliminatório para escolher os participantes. Brasil, assim como Argentina, não precisou jogá-lo porque seus oponentes, respectivamente Peru e Chile, desistiram.

Mais uma vez o Brasil não mandou seu melhor time para a Copa. Desta vez a briga pelo menos tinha um motivo mais sério. Em 1933 os principais clubes cariocas e paulistas, adeptos do profissionalismo, fundaram uma federação própria, a FBF, Federação Brasileira de Futebol, dando o golpe de morte no futebol amador. Mas quem ainda representava os assuntos esportivos do país no exterior era a CBD, que tinha ficado só com a turma do amadorismo. E a ela cabia formar a seleção e mandar para o torneio.

A princípio a CBD quis formar um time só com amadores, mas logo viu que não ia dar e começou a correr atrás dos profissionais, oferecendo-lhes para jogar a Copa bem mais do que ganhavam. Alguns clubes chegaram a esconder seus jogadores em fazendas do interior, mas ainda assim foram arregimentados Luisinho, Waldemar de Brito, cuja fama maior seria por descobrir um garoto chamado Pelé, e Leônidas da Silva, o atacante do WM de Gentil Cardoso.

Com mais um time mambembe formado às pressas, o Brasil embarcou para 11 dias de cruzeiro até Gênova. Os jogadores não se conheciam e seus únicos treinamentos foram no convés da embarcação, exceto por uma escala em Barcelona, onde todo mundo desceu e jogou uma pelada de 40 minutos num campinho ali perto. O navio tinha parado para recolher a Fúria, a seleção espanhola, uma das mais fortes da época. E nossa primeira adversária.

O TORNEIO

Eram 16 participantes e todos os jogos eram eliminatórios. Não havia fase classificatória ou de grupos. O Brasil, em sua estréia contra a Fúria, novamente antes de saber o que estava acontecendo já estava perdendo de 2 a 0. Leônidas, estrela solitária da campanha, descontaria no começo do segundo tempo, mas logo depois os espanhóis fariam 3 a 1. Luisinho, um dos poucos profissionais da seleção, perdeu um pênalti, defendido pela lenda viva Ricardo Zamora. Os brasileiros reclamaram que Zamora vira os treinamentos no navio e anotara as preferências de Luisinho, o que era considerado comportamento antiesportivo. Eram tempos mais inocentes, apesar de Mussolini.

Os brasileiros também reclamaram de um pênalti claríssimo não marcado, quando Leônidas chutou a gol, já com o goleiro batido, e o zagueiro Quincoces tirou escandalosamente com a mão em cima da linha. Existe uma foto deste lance, com o juiz claramente olhando a jogada, mas quem sabe o que se passa na cabeça de um sujeito crescido e adulto vestido de terno, gravata e calções, com um apito na boca?

A Itália arrasou os terceiros colocados de 1930, os americanos, com 7 x 1, ajudada por seus quatro argentinos naturalizados (de Maria, Guaita, Monti e Orsi) e um brasileiro, Amphilóquio Marques, o Filó. Prudentes, os jogadores italianos e nem tão italianos dedicaram a vitória a Mussolini. Ainda se lembravam bem do que o ditador dissera dias antes. Ele os convidara para participar de uma parada militar. O técnico, em nome de seus atletas, informou que não seria possível devido à rígida rotina de treinos que seguiam. Mussolini respondeu-lhe que "vocês não precisam participar do desfile, mas que Deus os proteja se a seleção fracassar".

Nas quartas-de-final venceram os favoritos. Áustria, o wunderteam, Alemanha e Tcheco-Eslováquia. Só a Itália teve dificuldades com a Fúria. Após empate em 1 x 1 no tempo normal e 0 x 0 na prorrogação foi marcada uma partida-desempate no dia seguinte, já que ainda não existia decisão por pênaltis. Sem tempo para descansar após jogar 120 minutos, os espanhóis tiveram sete desfalques, contra cinco da Azzurra. Mas as palavras de Mussolini ainda ecoavam nos ouvidos dos italianos e eles tiveram pernas para vencer por 1 x 0, numa jogada legal, apesar do alegado à época. E ganharam o direito de enfrentar dali a 48 horas os descansadinhos austríacos, na semifinal.

E deram sorte. Um temporal inundou o estádio, prejudicando os passes rasteiros e o jogo cadenciado da Áustria. A bola parava nas poças e interrompia as jogadas. Os ágeis e leves austríacos não conseguiam correr com a lama prendendo seus pés no chão. Já os italianos tinham as ameaças de Mussolini para empurrá-los à frente. A partida terminou 1 x 0 para a Azzurra e o ditador desceu até o vestiário para cumprimentar o time, o que provavelmente deixou os jogadores mais relaxados, como o próprio Mussolini já se sentia: na outra semifinal a Tcheco-Eslováquia eliminara a Alemanha, e ele não precisaria torcer contra a seleção de seu aliado Hitler.

Na final a Tcheco-Eslováquia saiu na frente, aos 25 minutos do segundo tempo, com um gol de Puc, que mancava com cãibras. Orsi empatou aos 35 e o jogo foi para a prorrogação. Meazza, contundido, ainda assim conseguiu armar uma jogada para Guaita cruzar e Schiavo completar para as redes e para a história. Foi a coroação dos esforços de Mussolini, que provava ao mundo que os italianos - e alguns argentinos e um brasileiro - eram agora guerreiros imbatíveis. Uma pena que na guerra por vir se veria justamente o contrário.

FILÓ

O primeiro brasileiro campeão do mundo foi Amphilóquio Marques Guarisi. Filó, como era conhecido, fez sua fama como companheiro de ataque de Friedenreich no Paulistano, participando da excursão à Europa em que o time venceu 9 de 10 jogos, em 1925. Em 1931 foi para a Itália jogar na Brasilazio, o time da Lazio que tinha cinco outros brasileiros em seu elenco. Aliás, foi o enorme êxodo de jogadores para a Europa por qualquer merreca que levou os clubes daqui a se profissionalizarem e aceitarem pagar salários decentes aos seus atletas.

Filó tinha mãe italiana e, portanto, dupla nacionalidade, e estreou em 1932 na Azzurra. Em 1934 participou da estréia da Itália na Copa, mas, apesar da boa movimentação, foi o único do ataque a não marcar nenhum dos 7 gols contra os americanos. Perdeu a vaga para outro estrangeiro, o argentino Guaita, mas não o título e as honras de campeão. Seriam necessários outros 24 anos para se ver novamente um brasileiro campeão do mundo. Um não. Vinte e dois.

MEAZZA

Antes de ser um estádio em Milão, Giuseppe Meazza foi um dos maiores jogadores italianos da história. Já aos 13 anos, em 1923, batia um bolão e foi tentar a sorte no Milan, mas foi rejeitado por um problema nos joelhos. Foi aceito no rival, a Inter, onde o escalaram na defesa, mas logo o técnico dos juniores o pôs no lugar a onde pertencia, o ataque.

Meazza começou como centroavante e aos 17 anos entrou em seu primeiro jogo profissional. O jornal Gazzetta dello Sport pronunciou-se entusiasticamente com sua estréia, escrevendo que "destacamos o jogo inteligente e habilidoso do jovem, pequeno Meazza, um jovem reserva da mais alta qualidade". Em apenas dois anos ele seria o artilheiro do campeonato. O goleiro do Novara, após uma goleada de 8 x 0, diria que "esse Meazza não é centroavante, é um demônio".

Mas foi na seleção que ele se tornou uma lenda. Pozzo, implantando o seu "método", moveu-o de centro do ataque para a meia, que, em seu esquema, tinha responsabilidades de armação, além da finalização. Foi assim que ele fez a jogada para o gol da vitória na final de 1934. Também digno de registro nessa partida foi o soco que deu no fígado de Krcil, que mereceria uma expulsão se Mussolini não estivesse olhando para o juiz da Tribuna de Honra.

Na Copa de 1938, o atacante foi também fundamental para a conquista italiana, tornando-se o cérebro do time. Piola, o centroavante italiano de 1938, declarou que "na Copa, eu vivia principalmente de Meazza e Ferrari" (Ferrari era o outro meia recuado do "método" de Pozzo).

Logo após a Copa da França Meazza sofreu um acidente e ficou quase um ano em recuperação. Entretanto, a circulação sanguínea em seu pé esquerdo foi afetada e, mesmo depois de uma operação, ele nunca mais exibiu seu futebol de antes.

Meazza foi um dos primeiros atletas a lucrar muito com o futebol, mas gastava seu dinheiro tão rápido quanto entrava, convencido de que se devia aproveitar a vida enquanto desse. Embora nunca tenha tido problemas financeiros, pouco sobrava de sua fortuna quando faleceu, em 1979, com 69 anos. A nação inteira lamentou a perda daquele que muitos consideram até hoje o melhor jogador italiano de todos os tempos, com 33 gols em 53 jogos, marca que só foi ultrapassada nos anos 70 por Riva.