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fevereiro 18, 2012

Eu Lembro de Você

Algo como deitar sobre o asfalto quente
no meio de uma rua da Tijuca
sem ouvir um passo ou uma voz
e nunca mais um carro passar.

novembro 05, 2011

Os Subvivos (Trecho)

Cassiano Ricardo


Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.

Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.

E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?

E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?

outubro 03, 2011

Os Eleitos

Primeiro rascunho

Irresponsabilidade não é rebeldia
Muito pelo contrário

Imaturidade não é contestação
Muito pelo contrário

Misantropia não é inteligência
Muito pelo contrário

Humilhar os outros não é classe
Muito pelo contrário

Indiferença não é amor
Muito pelo contrário

E você não é o Escolhido

Faça sua escolha agora

agosto 22, 2011

A Maldição da Mulher Gato

Edward Field, autor do maravilhoso poema UNWANTED, deixa clara sua formação pop na obra abaixo de 1967, CURSE OF THE CAT WOMAN. A tradução, pra variar, foi feita por mim nas coxas e está abaixo do original em inglês.


It sometimes happens
that the woman you meet and fall in love with
is of that strange Transylvanian people
with an affinity for cats.

You take her to a restuarant, say, or a show,
on an ordinary date, being attracted
by the glitter in her slitty eyes and her catlike walk,
and afterwards of course you take her in your arms
and she turns into a black panther
and bites you to death.

Or perhaps you are saved in the nick of time
and she is tormented by the knowledge of her tendency:
That she daren't hug a man
unless she wants to risk clawing him up.

This puts you both in a difficult position--
panting lovers who are prevented from touching
not by bars but by circumstance:
You have terrible fights and say cruel things
for having the hots does not give you a sweet temper.

One night you are walking down a dark street
And hear the pad-pad of a panther following you,
but when you turn around there are only shadows,
or perhaps one shadow too many.

You approach, calling, "Who's there?"
and it leaps on you.
Luckily you have brought along your sword
and you stab it to death.

And before your eyes it turns into the woman you love,
her breast impaled on your sword,
her mouth dribbling blood saying she loved you
but couldn't help her tendency.

So death released her from the curse at last,
and you knew from the angelic smile on her dead face
that in spite of a life the devil owned,
love had won, and heaven pardoned her.


Às vezes acontece
que a mulher que você encontra e por quem se apaixona
é daquele estranho povo da Transilvânia
com uma afinidade por gatos

Você a leva a um restaurante, ou talvez um show
num encontro comum, atraído
pelo brilho em seus olhos e seu andar felino,
e depois, é claro, você a toma em seus braços
e ela se transforma numa pantera
E o morde, matando-o.

Ou talvez você seja salvo na hora H
e ela é atormentada pelo conhecimento de sua conformação:
ela não ousa abraçar um homem
pois corre o risco de nele cravar suas garras.

Isto põe você numa difícil posição -
amantes arfantes cujo toque é proibido
não por barras, mas pelas circunstâncias
Vocês têm terríveis discussões e dizem coisas cruéis
Pois tesão frustrado não os deixa bem humorados

Uma noite você caminha pela rua
E escuta o almofadado pisar de uma pantera o seguindo,
mas quando você se volta só há sombras
ou talvez haja sombras demais .

Você se aproxima perguntando "quem está aí?"
E ela salta em você.
Felizmente você trouxe sua espada
E a crava nela de uma vez.

E diante de seus olhos ela se transforma em seu amor
Seu peito empalado em sua espada,
sua boca jorrando sangue dizendo que ela amava você
mas não podia contrariar sua conformação.

E então a morte a liberta de sua maldição enfim,
e você sabe pelo sorriso angélico em seu rosto
que a despeito de uma vida dominada pelo demônio
o amor venceu, e os Céus a perdoaram.

julho 22, 2011

Três Poemas de Aviadores de Guerra

De quando os poetas não só eram artistas sensíveis como machos!

A Morte do Artilheiro da Torreta Ventral
Randall Jarrel


From my mother's sleep I fell into the State,
And I hunched in its belly till my wet fur froze.
Six miles from earth, loosed from its dream of life,
I woke to black flak and the nightmare fighters.
When I died they washed me out of the turret with a hose.

Tradução instantânea minha:

Do colo de minha mãe caí nas mãos do Estado
E me acocorei em seu ventro até que meu pelo molhado congelasse
Acordeu ao som da negra artilharia antiaérea e dos pesadelares caças
Quando eu morri eles me lavaram da torreta com uma mangueira


Um Aviador Irlandês Prevê sua Morte
William Butler Yeats


I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

Tradução instantânea:

Eu sei que devo encontrar meu destino
Lá em cima em algum lugar
Aqueles que combato não odeio
Aqueles que defendo não amo
Minha terra é Kiltartan Cross
Meu povo os miseráveis de Kiltartan
Nenhum fim que tivesse lhes causaria perda
Ou os deixaria mais felizes
Nem o dever nem a lei me fizeram lutar
Nem os homens públicos nem a multidão a delirar
Um solitário impulso de prazer
Trouxe-me a este tumulto nas nuvens
Eu pesei tudo, trouxe tudo à mente
Os anos por vir me soaram vazios
Vazios os anos passados
Em comparação com esta vida, esta morte!

Artilheiro
Randall Jarrel


Did they send me away from my cat and my wife
To a doctor who poked me and counted my teeth,
To a line on a plain, to a stove in a tent?
Did I nod in the flies of the schools?
And the fighters rolled into the tracer like rabbits,
The blood froze over my splints like a scab --
Did I snore, all still and grey in the turret,
Till the palms rose out of the sea with my death?
And the world ends here, in the sand of a grave,
All my wars over? How easy it was to die!
Has my wife a pension of so many mice?
Did the medals go home to my cat?

Tradução porca:

Eles me afastaram de meu gato e minha esposa
Para um médico que me cutucou e contou meus dentes
Para uma fila numa planície, um forno numa tenda?
Será que acedi nos voos da escola?
E os caças rolavam por dentro das traçadoras como coelhos
O sangue congelou sobre minhas feridas como uma crosta
Será que ronquei, imóvel e cinza na torreta,
Até que o mar se ergueu com minha morte?
E o mundo termina aqui, na terra da sepultura,
Todas as minhas guerras acabadas?
Como foi fácil morrer!
Será que minha esposa tem uma pensão de quantos ratos?
Será que minhas medalhas foram para meu gato?

junho 19, 2011

1915

Robert Graves

* Como sempre, minha tradução nas coxas, sem respeitar rimas ou métricas, vem abaixo do original


I’ve watched the Seasons passing slow, so slow,
In the fields between La Bassée and Bethune;
Primroses and the first warm day of Spring,
Red poppy floods of June,
August, and yellowing Autumn, so
To Winter nights knee-deep in mud or snow,
And you’ve been everything.

Dear, you’ve been everything that I most lack
In these soul-deadening trenches—pictures, books,
Music, the quiet of an English wood,
Beautiful comrade-looks,
The narrow, bouldered mountain-track,
The broad, full-bosomed ocean, green and black,
And Peace, and all that’s good.



Eu assisti às estações passando lentmente, tão lentamente
Nos campos entre La Bassée e Bethune;
Prímulas e o primeiro dia quente da primavera,
Inundações das vermelhas papoulas de junho,
Agosto e o amarelecido outono, e assim
Para as noites de inverno enterrado até o joelho na lama e na neve,
E você, você tem sido tudo

Querida, você tem sido tudo de que mais sinto falta
Nestas asfixiantes trincheiras - livros, retratos,
Música, a quietude de uma mata inglesa,
O olhar de uma bela camarada,
A estreita, pedregosa trilha nas montanhas,
O amplo e envolvente oceano, verde e negro,
E Paz, e tudo que é bom.

abril 12, 2011

A Intrusa (Segunda Versão)

Finalmente cheguei em casa
E encontrei uma mulher que não estava lá

Ela também não estava lá no dia seguinte
E nem no outro e nem no outro

Ó, Senhor, será que algum dia ela irá embora
E finalmente me deixará em paz?

abril 04, 2011

Richard Cory

A primeira vez que ouvi falar de Richard Cory era uma (ótima) música do bom álbum triplo WINGS OVER AMERICA. Depois descobri que era na verdade do Paulo Simon e, mais tarde, finalmente, que era um poema belíssimo de Edwin Arlington Robinson, como os angloparlantes podem conferir abaixo e os angloprejudicados mais abaixo ainda, na minha pobre e livre tradução (as duas coisas sempre parecem andar juntas).

Whenever Richard Cory went down town,
We people on the pavement looked at him:
He was a gentleman from sole to crown,
Clean favored, and imperially slim.

And he was always quietly arrayed,
And he was always human when he talked;
But still he fluttered pulses when he said,
"Good-morning," and he glittered when he walked.

And he was rich - yes, richer than a king -
And admirably schooled in every grace;
In fine we thought that he was everything
To make us wish that we were in his place.

So on we worked, and waited for the light,
And went without the meat, and cursed the bread;
And Richard Cory, one calm summer night,
Went home and put a bullet through his head.


Sempre que Richard Cory vinha à cidade
Nós na calçada olhávamos para ele
Um cavalheiro magnificente dos pés à cabeça
Favorecido nas feições e majestaticamente esguio

E ele estava sempre discretamente ataviado
E era sempre bondoso e gentil ao falar
E ainda assim fazia corações dispararem ao dizer
"Bom dia", e parecia brilhar ao andar

E ele era rico - sim, rico como um rei
E admiravelmente escolado em todas as matérias
Em suma, pensávamos que ele era tudo
O que nos fazia desejar que estivéssemos em seu lugar

E assim continuávamos na labuta e esperávamos pela luz
E prosseguíamos sem a carne, e amaldiçoávamos o pão
E Richard Cory, numa calma e límpida noite de verão
Foi para a casa e pôs uma bala na cabeça

Cutting Glass

Jared Carter

It takes a long, smooth stroke practiced carefully
over many years and made with one steady motion.

You do not really cut glass, you score its length
with a sharp, revolving wheel at the end of a tool

not much bigger than a pen-knife. Glass is liquid,
sleeping. The line you make goes through the sheet

like a wave through water, or a voice calling in a dream,
but calling only once. If the glazier knows how to work

without hesitation, glass begins to remember. Watch now
how he draws the line and taps the edge: the pieces

break apart like a book opened to a favorite passage.
Each time, what he finds is something already there.

In its waking state glass was fire once, and brightness;
all that becomes clear when you hold up the new pane.

Minha tradução feita nas coxas:



É preciso um longo, suave golpe praticado por anos
e aplicado com um único movimento contínuo

Você não realmente corta vidro, mas demarca seu comprimento
com uma afiada roda girando na ponta de um instrumento

Não maior do que um estilete. Vidro é líquido,
adormecido. A linha que você traça atravessa a folha

como uma onda pela água, ou uma voz chamando num sonho,
mas apenas uma única vez. Se o vidraceiro pratica seu ofício

sem hesitação, o vidro começa a lembrar. Observe
como ele traça a linha e contorna a borda: as peças

separam-se como um livro se abre na passagem favorita.
Todas as vezes, o que ele encontra é algo já lá.

Em seu estado desperto vidro foi uma vez fogo, e brilho;
tudo isso se torna claro quando você segura o novo painel.

setembro 13, 2010

Guerra de Atrito (Primeira Versão)

Os anos passam
Como soldados recrutados às pressas
Partindo para a linha de frente
Rumo a uma batalha desesperada
E dos quais nunca mais ouvimos falar.

agosto 14, 2010

Para saber amar
É preciso saber matar
É preciso saber destruir
Tudo que poderia ser
Tudo que não será

No calor da paixão ceifei
Todas as outras mulheres
As calmas, as tranquilas,
as amantíssimas, as carentes,
as choronas, as belas, as ajeitadas,
as rejeitadas, as apaixonadas,
as alegres, as infelizes,
Os casamentos, os amigamentos

E agora, hoje, permaneço aqui
Genocida solitário
Nesta terra estéril e desolada
Por onde a sombra dela uma vez passou

junho 06, 2010

Ciúme

Guilherme de Almeida

A minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal

Depois passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal

Agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei

Agora que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei

Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não me podes dar a impressão que me deste
A primeira impressão que me fizeste

Louco talvez
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E cedo ou tarde te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!

Poema enviado pelo leitor (este blogue tem leitores! Tem leitores!) num comentário na postagem CIÚME
. Muito bom!

abril 28, 2010

Latrodectos venomosas
Silvando em ares
de gonorréias maliciosas

Teu é o Deus
Teu é o Deus
Teu é o Deus

Invocava ela ao cravar
os lábios dela sobre os meus

março 24, 2010

Amor Elementar

Conte-me uma chuva
Macia, fina
Um pouco melancólica
E envolvente

Beije-me uma tempestade
Um temporal de verão
O sabor da grama molhada
O cheiro do ozônio
Os raios estourando
O ar abundando de água

Até que a terra encharcada
Seja uma lama indistinta de nossos pés
Uma úmida pasta de pó, planeta
E restos de mortos enterrados

E nós o fogo

março 21, 2010

Contando as Batidas

Robert Graves
Tradução livre, correndinha e precária de Luiz Henriques Neto

Você, amor, e eu
(Ele sussurra) você e eu
E se não mais do que só você e eu
Que importa pra você ou eu?

Contando as batidas
Contando as lentas batidas do coração
O tempo sangrando até a morte em lentas batidas
Acordados eles jazem

Dia claro
Noite, e dia claro
Ainda assim a tempestade desabará sobre eles algum dia
De um céu amargo

Onde deveremos estar
(Ela sussurra) onde deveremos estar
Quando a morte bater à porta
Ó, onde deveremos estar
Você e eu?

Em nenhum outro lugar
(Ele sussurra)apenas aqui
Como estamos, aqui, juntos, aqui e agora
Sempre você e eu

Contando as batidas
Contando as lentas batidas do coração
O tempo sangrando até a morte em lentas batidas
Acordados eles jazem

(tradução livre de Luiz Henriques Neto)

Counting the Beats

You, love, and I,
(He whispers) you and I,
And if no more than only you and I
What care you or I ?
Counting the beats,
Counting the slow heart beats,
The bleeding to death of time in slow heart beats,
Wakeful they lie.

Cloudless day,
Night, and a cloudless day,
Yet the huge storm will burst upon their heads one day
From a bitter sky.

Where shall we be,
(She whispers) where shall we be,
When death strikes home, O where then shall we be
Who were you and I ?

Not there but here,
(He whispers) only here,
As we are, here, together, now and here,
Always you and I.

Counting the beats,
Counting the slow heart beats,
The bleeding to death of time in slow heart beats,
Wakeful they lie.

março 20, 2010

Unwanted

Edward Field


The poster with my picture on it
Is hanging on the bulletin board in the Post Office.

I stand by it hoping to be recognized
Posing first full face and then profile

But everybody passes by and I have to admit
The photograph was taken some years ago.

I was unwanted then and I'm unwanted now
Ah guess ah'll go up echo mountain and crah.

I wish someone would find my fingerprints somewhere
Maybe on a corpse and say, You're it.

Description: Male, or reasonably so
White, but not lily-white and usually deep-red

Thirty-fivish, and looks it lately
Five-feet-nine and one-hundred-thirty pounds: no physique

Black hair going gray, hairline receding fast
What used to be curly, now fuzzy

Brown eyes starey under beetling brow
Mole on chin, probably will become a wen

It is perfectly obvious that he was not popular at school
No good at baseball, and wet his bed.

His aliases tell his history: Dumbell, Good-for-nothing,
Jewboy, Fieldinsky, Skinny, Fierce Face, Greaseball, Sissy.

Warning: This man is not dangerous, answers to any name
Responds to love, don't call him or he will come.


Livre Tradução Minha:

O cartaz com meu retrato
enfeita o quadro de avisos dos Correios

Paro ao lado dele esperando ser reconhecido
Posando de frente e depois de perfil

Mas todo mundo passa sem ver e tenho que admitir
A foto foi tirada já faz alguns anos

Eu já não era procurado então e ninguém me procura hoje em dia
Acho que vou gritar e ouvir o eco nas paredes de minha solidão

Gostaria que alguém encontrasse minhas digitais em algum lugar
Talvez num cadáver e dissesse, "é ele"

Descrição: Sexo masculino ou bem perto
Branco, mas normalmente vermelho de vergonha

Por volta de trinta e cinco e aparentando até mais
Um metro e setenta e sessenta quilos: físico nenhum

Cabelos negros embranquecendo e rareando rapidamente
Costumavam ser cacheados, estão cada vez mais apenas desgrenhados

Olhos castanhos sob cenho inexpressivo
Gordura no queixo, provavelmente vai virar uma papada

É perfeitamente óbvio que ele era impopular na escola
Não jogava bola e molhava sua cama

Seus apelidos contam tudo:
Bobão, Imprestável, Judeuzinho, Trautemberg, Fiapo, Feioso, Marica

Atenção: O elemento não é perigoso e responde quando abordado
Vulnerável ao amor; não o chame ou ele virá

10

Eu sou dez anos
de infância e brincadeira
e mais dez anos
de escola e estudo

Eu sou dez horas
de ônibus, carro e trem
um dia de trabalho
e mais a volta para casa
todo dia

Eu sou dez minutos
de paixão intensa e carnal
suada e interminável
transcendida em um clímax

Eu sou dez segundos
Uma vida inteira diante de meus olhos
E o pano caindo

Eu sou dez mil, dez milhões, dez bilhões de anos
Um universo inteiro
Um e todos, todos e um
O alfa e ômega, o primeiro e o último
O princípio e o fim

E o meio

março 01, 2010

O Interrogatório

Acenda o refletor em meu rosto
Até que eu fique cego com a luz brilhante
Amarre minhas mãos à cadeira para que eu não possa reagir
E então extraia de mim toda a minha verdade

Esbofeteie-me se eu resistir
Acerte meu estômago se eu omitir
Pressione-me, aperte-me, pergunte-me
Até eu delatar quem eu sou realmente

Jogue água em meu rosto se eu dormir
Não me deixe hesitar, vacilar ou mentir
Até eu confessar todos os pecados que cometi

Vem, Vida, violenta e brutal
Extrair de mim minha grande e derradeira confissão
Que eu vivo - Réu confesso

(Texto final da minha peça A ARTE, OS AMIGOS, A MORTE E AS MULHERES, ganhadora do concurso da FUNARTE de 1995)

Vida

Há vida
Ávida
Em meus porões

Um louco acorrentado grita
"Deixe-me sair, tolo, você não sabe
o que está perdendo"

Mas eu nem levanto os olhos do jornal encostado no balcão do bar
Para ver a monumental morena passando requebrando
E nem noto nela os vestígios dos grilhões arrebentados

A Maldição do Viajante que se Perde de seu Caminho

Robert Graves

Que eles prossigam, passo após passo
Numa interminável peregrinação
Alvorada e anoitecer, légua após légua
E a todo e cada passo um obstáculo
E a todo e cada passo uma dificuldade
E que eles tropecem em seus próprios pés e caiam
E em toda e cada queda
Que um osso dentro deles quebre
E que o osso que quebre dentro deles
Nunca seja, variando com a sorte
Nem a costela, nem a coxa, nem o braço e nem a fíbula
Mas sempre, e em toda e cada vez, o PESCOÇO

Traduzido do inglês (que por sua vez foi traduzido do gaélico) por mim mesmo. Segue abaixo a versão anglófona:

May they stumble, stage by stage
On an endless Pilgrimage
Dawn and dusk, mile after mile
At each and every step a stile
At each and every step withal
May they catch their feet and fall
At each and every fall they take
May a bone within them break
And may the bone that breaks within
Not be, for variations sake
Now rib, now thigh, now arm, now shin
but always, without fail, the NECK