agosto 30, 2007

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A coluna hoje do CONTROLE REMOTO no Segundo Caderno tem um editorial (???) dizendo que a tevê brasileira não produz obras-primas como ROMA (???) ou OS SOPRANOS (???) porque não pode tratar de assuntos como homossexualismo e violência.

Ainda esta semana, na coluna do genial comentarista de futebol americano .Gregg Easterbrook (clique, vale a pena, ele não fala só de futebol americana, fala de astrofísica, mulher pelada, ficção científica, história em quadrinhos, aviões a jato, o que lhe der na telha), ele justamente se indagava se as pessoas viam OS SOPRANOS pelo conteúdo de "soap opera" ou pelos peitinhos e assassinatos, considerando que bons só os primeiros episódios, com a premissa de um chefe da máfia tão cansado de assassinatos e violência que procurava uma analista.

Mas isso não vem ao caso, as séries que a mulher quer comparar com as novelas que a Globo passa às nove da noite são séries da HBO, uma tevê a cabo que nem faz parte dos pacotes básicos. Quem a compra sabe o que está fazendo e tem mecanismos no decodificador para gerar uma senha e tornar inassistíveis programas com certas classificações etárias - sim, eles TÊM classificação etária até em tevês a cabo. Tanto que OS SOPRANOS, ROMA e A SETE PALMOS todas TAMBÉM passam na tevê a cabo brasileira. Vi as duas temporadas de Roma e, apesar de bem escrita e tal, nada mais é que uma DALLAS com personagens históricos, muito mais peitinhos (e até uma ou outra boceta) e muito mais violência (com duelos de espada mal coreografados). A
HBO produz essas séries pra passar no seu canal fechado e se garante com o que cobra de patrocínio e vendas de DVDs. Nem ao menos passa comerciais (Embora o faça internacionalmente. Na Américao do Sul, por exemplo, o único país a exibir publicidade nos intervalos é o Brasil). Tal projeto é impensável pra Globo, que até pra fazer filmes sobre programas seus, usando atores da casa, roteiristas da casa e equipamento da casa, pedem patrocínio público. Na tevê aberta americana, o que passa são ER, CSI e sitcoms. Lá nas grandes redes nem peitinho tem, coisa que no Brasil está liberada desde o final dos anos 70 (anúncio do Sabonete Vale Quanto Pesa, 1979).

ROMA e, talvez (porque nunca vi, não sou de assistir telesséries) OS SOPRANOS e A SETE PALMOS são melhores do que as novelas brasileiras porque têm escritores melhores - os americanos são mais escolarizados e têm muito mais mercado de trabalho, o que garante uma disponibilidade maior de roteiristas de qualidade. E também porque não têm o formato de telenovela.

Filmar uma novela diária de 200 capítulos pode soar uma operação de guerra, mas barateia os custos. O uso dos mesmos cenários por meses a fio diminui o preço por episódio. Mostrando sempre os mesmos atores nos mesmos lugares, dá pra organizar a filmagem de modo a economizar tempo de estúdio. O uso de personagens já conhecidos do público há semanas facilita o trabalho do roteirista, que também não precisa se preocupar em fechar dramaticamente cada capítulo, ou ser sucinto, já que tempo é o que não falta. O preço que se paga é a falta de identidade visual e de qualidade na escrita. ROMA teve 22 capítulos. Cada temporada estreou já completamente escrita, com personagens coerentes e trama coesa e concisa. Mas esse formato é caro e não interessa a eles.

A queda da popularidade das telenovelas é firme e contínua. O formato está ultrapassado, não o conteúdo. Não adianta introduzir assuntos como homossexualismo, drogas e violência se as tramas continuarem conservadoras, vai parecer uma história em quadrinhos de super-herói da DC. A esperança talvez seja de que peitinhos e assassinatos atraiam homens e principalmente adolescentes. Não sou especialista, mas a impressão que tenho é de que novela é que nem jogo do bicho - vem caindo em popularidade e, principalmente, é coisa de gente mais velha, não vem formando novo público. Daí a esperança na carne - tripas e pele - para salvarem o ibope. Acho pouco provável. As redes abertas americanas praticamente desistiram da sitcom tradicional. É um formato ultrapassado. Estes são tempos de mudança. Internet, DVD barato e tevê paga em quantidade mudaram o gosto do público. E com a tevê em alta definição, mais mudanças virão. É preciso se adaptar, e não vai ser mais violência e peitinhos que trarão as crianças de volta

5 comentários:

jorge cordeiro disse...

mandou bem, Urubu!! Esse pessoal de TV brasileira é realmente brincadeira... Os caras têm roteiros fracos, atores e diretores mequetrefes e vêm reclamar de censura? Querem o que mais? Só discordo de vc em relação a Roma e CSI. Gosto muito de ambos (apesar de uma certa afetação dos atores de Roma).

No mais é isso ae!!

abração!
jorge cordeiro

Fabricio disse...

fala urubu.

passei lá no escriba, que me trouxe até o seu bem escrito texto.

conheço pouco das séries que citou, mas me liguei no contexto.

aquele [abraço]
fabrício

Ave disse...

Cordeiro, eu tmbém gosto do ROMA, embora não tenha paciência para CSI. É divertido pra burro, mas a direção é meia-boca, os atores não são grande coisa. Os roteiristas - puxados por John Millius, cobra criada da turma do Coppola, Spielberg e Scorsese - são bons. Mas é descaradamente uma picaretagem. Como já disse um amigo meu, Pullo e Vorenus parecem centuriões do Asterix. As lutas de espada parecem saídas dos épicos dos anos 50. E, curiosamente, note bem, eles evitaram falar do homossexualismo de Júlio César ("Rainha da Bitínia", "o marido de todas as mulheres de Roma e mulher de todos os maridos de Roma"), pra não criar polêmica.

Cristiana Soares disse...

Urubu, meu fofo! Não sabia que vc já estava na blogosfera! Vim tb através do Escriba, do Jorge, que freqüento assiduamente.

Achei ótimo esse teu post.

E, olha, eu sou a favor da classificação. Isso não é censura, uma vez que a obra NÃO ESTÁ sendo proibida. Apenas classificada para determinado horário.

Quem tem criança sabe o quanto isso é importante.

Minha filha fica visivelmente constrangida quando de repente aparece uma cena que ela ainda não está madura para ver, absorver, digerir.

Neguinho tá querendo acabar com a infância. Vide as meninas de oito anos vestidas de quenguinhas. Céus!

Vou linkar seu blog no meu já, rapá!

Cristiana Soares disse...

PS: Na verdade, minhas filhas nem gostam de novelas porque desde pequenas eu as proibia (censurava mesmo. Hehehe) de assistirem. Dizia que não era programa pra elas e então elas iam ver desenhos nos canais infantis ou programas da Cultura (tipo Cocoricó e Castelo Rá-Tim-Bum). Então, hoje, que já estão maiorzinhas nem se ligam mais e eu acho ótimo.