fevereiro 12, 2007

O Homem Multiplicado

Um dia, seus milhares de olhos olharam em milhares de direções e incontáveis sentimentos atravessaram seus milhares de corações.

Quando ele chegou, não correspondeu à idéia dos que não o conheciam. Nem alto nem gordo, nem baixo nem magro, olhos e cabelos castanhos, nem forte nem fraco. Só e trazendo numa das mãos nem quadrada nem longilínea o saco que estava todo mundo esperando.

- A gente sempre acha que você não vai conseguir chegar.

- Eu sempre cheguei. A primeira vez é sempre a mais difícil. Sempre que a gente começa a fazer uma coisa, depois da segunda vai fácil.

Ele colocou o saco em cima da mesa e um monte de figuras disformes se mexendo como uma montanha de baratas se aproximou para retirar seu conteúdo, esperando todo mundo no entanto que o outro avançasse primeiro para que a desordem começasse.

- Mais alguns séculos de sonhos... nossa história não tem tantos séculos assim... me diz, um dia eu não vou conseguir trazer mais... o que é que a gente pode fazer?

- A gente sempre pode arrumar um emprego. Principalmente você. Qual é o truque?

- Não tem truque nenhum. - E ele sorria, abria todos os dentes esbranquiçados e perfeitamente divididos, quadrados e amistosos apesar da desarmonia do sorriso.

Uma das formas disformes se soltou do grupo, foi até a luz e a apagou e deixou todos no escuro, não era mesmo bom deixar uma luz acesa. Inimigos, todos eles estão sempre vindo de algum lugar, inimigos que não têm visão, não têm audição, nem paladar ou olfato ou tato, têm até uma forma definida, sempre parecem mais quadrados e aparecem assim e desaparecem.

(Às vezes uma ou outra morte).

E assim não se pode fumar no exterior. Uma regra básica para sitiados. Uma brasa de cigarro é uma procissão no meio do morro tão escuro.

- Apaga isso, estúpido.

- Ninguém vai me ver aqui atrás.

- Eu te mato se você fizer isso, cara...

Súbito, a conversa pára. Os discutentes olham para cima da trincheira e observam dois (nem alto nem magro, nem fraco nem forte, nem baixo nem gordo) (e seu companheiro) (com a sua ascendência sobre o fumante e o violento).

- É proibido fumar.

Os dois da trincheira concordam. O fumante apaga seu cigarro. Os dois em pé continuam caminhando (mas não é uma caminhada relaxada, é uma caminhada de espreita, é uma caminhada suspeita).

- Proibido fumar. Tudo que fazemos aqui é proibido. Se não, não tínhamos inimigos.

- E é preciso mantê-los afastados.

- Tantas precauçòes e vem um fogo-fátuo, brilha e pronto. Eles já têm toda a luz que precisam. - Ele pára e olha para o cândido sujeito dos séculos de sonhos. Sacode a cabeça e continua. - E você, qual é a tua, afinal? Você não tem um passado aqui. Pra que é que você faz esse serviço? Como é que você faz para ir e vir assim, tão tranquilamente? Como é que você consegue entrar aqui, sair daqui?

- Eu tenho o melhor de dois mundos.

- Fala sério.

- Os nomes que eu dou, você já parou para pensar neles? "Séculos de Sonho". Temos muitos séculos de sonhos pela frente. Não faz sentido que acabem agora. Não podem acabar agora. Eles ainda virão.

- E se você não viver pra ver esses teus séculos de sonhos?

- Um dia todos vamos morrer. Mas não eu.

- Ah. Você é imortal, então.

- Um dia eu te explico. Você ainda vai me pegar no meio da minha mitose.

- O que é uma mitose?

- Uma célula se dividir em duas.

- E o que é uma célula?

- Um tijolo.

- Então por que é que você não fala logo "tijolo" em vez de "célula"?

- Porque uma célula é uma entidade biológica, é um tijolo do ser humano.

- Esquece.

- Me dá um cigarro.

O companheiro com ares de comandante sorri e pega o maço no bolso.

Acende.

Fumaça.

Fumaça faz mal aos pulmões. Fumaça faz mal à gente, a gente mesmo fazendo mal à gente, mas é assim mesmo. Ainda mais quando somos milhares, quando somos incontáveis formas. Foi um dia, ele estava na trincheira olhando o céu estrelado, nessas noites podia se ver com perfeição os vultos dos outros trabalhando, construindo fortificações e trincheiras, erguidos contra o diáfano azul escuro esbranquiçado de Lua, eles estavam sempre construindo coisas, montando coisas, sempre ativos, nunca paravam, sempre elétricos, sempre andando de um lado para o outro, sempre pensando no que fazer agora e no memonte, eles estavam sempre assim, eles não tinham alguém que permitisse ver os séculos de sonho.

E foi nesse dia que ele resolveu se explicar para quem ainda não tinha entendido e fazia questão de saber.

- Eu morri. Morri quando estava vindo para cá.

- Morreu?

Ninguém ainda tinha entendido, para dizer a verdade.

- E morri ontem e anteontem.

Para ser bem sincero mesmo, só quem fazia questão de saber era seu companheiro de caminhada pelas trincheiras.

- Como assim?

- Eu morri. Morri. Coração parando de bater, você não entende?

- Que que tem o coração parar de bater?

- Você não se apaixona mais.

(E o companheiro de caminhadas não estava assim, acostumado a essas sutilezas retóricas, a metáforas e pretensa poesia).

- E aí? O que tem isso a ver com você entrar e sair?

- Eu morri e vim entregar os séculos de sonho. As milhares... ou teriam sido milhões..? de vezes em que morri foram extremamente desagradáveis. Ainda me restas alguns milhares de mins, mas o estoque um dia vai acabar... que nem o número de séculos na história humana, sejam de sonhos ou não. Parecem intermináveis, mas um dia você vê que são finitos.

- E aí? O que é que vai acontecer?

- Aí que não vai haver mais sonho. Nem eu. Eu não vou haver mais. Nem século seguinte. Nem você, nem eles (e aponta os inimigos), nem ninguém.

- Vão deixar de existir só porque você vai morrer?

- Pra mim vão. E o que me interessa, além de mim e meus milhares de eus? O que acaba existindo para mim além disso?

- Se você é assim como você diz, não devia se preocupar com isso.

- Não devia mesmo. Mas espero que os séculos acabem primeiro.

Ao longe, os inimigos montavam agora uma casa avarandada (um posto de observação, talvez?), construindo, como sempre, como formigas. Infatigáveis. Incansáveis.

E ele ficava olhando. Os séculos vindouros, assim como luta e muitas outras coisas, ha, ainda tinha muito, mas muito disso pela frente.

Até vidas.

25.8.87

fevereiro 02, 2007

O Espaço (e o Tempo) - A Fronteira Final

Se a matéria é indivisível, por que o tempo não? A matéria, sabemos todos, é composta de partículas elementares, estrutura adivinhada já pelos gregos na Antiguidade, que começaram a pensar que se você saísse dividindo um pedaço de qualquer coisa e depois subdividindo e subdividindo, em algum momento você iria chegar num ponto em que não dava mais para dividir, um limite. Foi a primeira vez em que se pensou no átomo.

Mas e o tempo? Se a matéria tem um limite, o tempo também não pode ser contínuo e divisível ao infinito, já que um é apenas uma dimensão do outro: quando você olha para o tempo, você está vendo apenas a decadência da matéria, a desorganização da energia de que ela é feita, a entropia, as luzes se apagando no Universo, as trevas e a escuridão tomando conta de tudo.

Então o tempo deve ter também seu componente indivisível. A partícula mínima e básica, que forma de cada microssegundo a cada era geológica, de isótopos cronológicos a imensos polímeros cronais entrelaçados a cada galáxia que se afasta do epicentro do Big Bang.

Eu chamaria a esta partícula "cronion".

E qual seria a menor unidade de tempo possível? Qual a ação que transcorreria no menor intervalo imaginável?

Ora, o tempo que a luz, a coisa mais apressadinha no Universo, leva para percorrer a menor distância existente. Eu, com meus conhecimentos de física de segundo grau, diria que é o méson. Não há nada mais minúsculo. Nada mais infinitesimal do que essa diminuta partícula componente do átomo.

Sendo assim, certamente não existem distâncias menores mensuráveis. Com o quê você vai construir uma régua capaz de medir um espaço tão ínfimo?

O que nos leva ao intervalo mínimo cronológico: o tempo que a luz leva para percorrer um méson.

Não existe nada menor. Não há escalas abaixo disso. Não há intervalo de tempo menor tampouco. Que mostrador de relógio teria subdivisões mais exíguas do que um méson?

Então o tempo não é contínuo. Talvez nos movamos o tempo inteiro a uma única velocidade, a velocidade da luz. Como se fôssemos um filme: permanecemos durante alguns cronions numa única posição e então subitamente fazemos um movimento do tamanho de um méson a 300.000 quilômetros por segundo e novamente paramos durante vários cronions. Assim pareceríamos estar nos movendo bem mais lentamente do que a luz.

Porque o tempo é apenas o espaço enxergado por outro ponto de vista. Como bem exemplificado por nosso envelhecimento e morte.

janeiro 31, 2007

O Bloco dos Lemingues


Mais um Flagrante do Nokia.

janeiro 19, 2007

Minhas Poesias Favoritas

Invictus
(William Ernest Henley)

OUT of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
am the captain of my soul.

Tradução livre por mim mesmo:

Do fundo da noite que me envolve
Negra como o Inferno de um pólo ao outro
Eu agradeço aos deuses, sejam eles quais forem
Pela minha alma inconquistável

Sob as garras das circunstâncias
Não protestei e nem me encolhi
Sob os golpes do destino
Minha cabeça está ensanguentada, mas não fendida!

Além deste vale de cólera e lágrimas
Esgueira-se o horror da treva eterna
No entanto sempre a ameaça dos anos
me encontrou e me encontrará sem temor

Não importa quão estreito seja o portão
Ou ameaçadoras as maldições para quem atravessá-lo:
Eu sou o dono do meu destino
Eu sou o comandante da minha alma!

(Numa velha tira que em certa época foi um sucesso cult, FRANK & ERNEST, Frank uma vez disse: "sou o dono do meu destino! Sou o comandante da minha alma! E também sou maluco!)

Promoção

janeiro 16, 2007

Exposições em Geral

Fotos tiradas em museus e exposições. As aí de baixo é porque voltei ao MAC este ano pra ver as estátuas de deuses gregos - e não achei lá tão grande coisa. Gostei mais do segundo andar, onde tem as cerâmicas.


Mesma paisagem da primeira foto que postei neste blog, mas agora mais escura e sem a moça pensativa.



Simone alguns momentos antes d'eu vir a saber o nome dela.



Roger com um estranho aparelho que grava imagens, mas não é capaz de mostrar como elas ficaram e que exige que você o leve a locais rituais onde extrairão as entranhas dele para, após untá-las com poções, fazer aparecer as "fotografias" capturadas (Roger é o PHD de Filosofia da turma - philosophical doctor mesmo! Especializado em Teoria dos Jogos, o link para seu site, "filosofia para quem pensa em português", está debaixo de meu perfil, na minha lista de favoritos).

Suzy na Exposição de Carros Antigos

Exposição Caminho de São Tiago no Museu Histórico Nacional






Está sensacional a exposição de arte românica na Praça XV. Nâo percam de jeito nenhum. Deixam até tirar fotos - sem flash, é claro.

A do Aleijadinho no CCBB é que está um tanto anticlimática.

Sherman


Jamais um tanque fabuloso como o T-34 ou o Pantera, o Sherman no entanto era confiável, barato e fácil de produzir e seu desenho era altamente adaptável - foi usado por Israel ainda na Guerra do Yom Kippur, no modelo "Super Sherman", o qual só com uma longa olhada dava pra reconhecer como sendo este carro de combate aí em cima.

O Alto Comando Aliado calculava que eram necessários 4 Shermans - com este canhão de 75 mm, depois o de 76,2 mm melhorou as coisas - pra enfrentar um Pantera alemão. Mas o Pantera era mais caro e trabalhoso de produzir e, devido à sua mecânica complicada, quebrava com mais facilidade. Resultado: nunca havia mais de um Pantera pra enfrentar quatro Shermans. Foram produzidos mais de TRINTA MIL desses tanques. Não foi à toa que os americanos ajudaram bastante os soviéticos a vencer os alemães a II Guerra.

Foto tirada também no Museu do Exército, em São Cristóvão, em frente à Quinta da Boa Vista.

A Blietzkrieg Alemã - Parte III



Renault FT, o mais bem-sucedido tanque francês da I Guerra Mundial (e um dos primeiros), esteio do contra-ataque fulminante de Mangin que ocasionou o 8 de Agosto de 1918 (Foto tirada no Museu do Exército, em frente à Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Surpreendentemente tem um ótimo acervo. Vale a pena visitá-lo. É de graça, gente).

Leia mais sobre o assunto aqui.

Sílvio na Bienal SP

Os Não Tão Mais Belos Poemas de Amor

Nenhuma brisa
Nenhuma respiração
A casa morta
As luzes todas acesas desnudando-a
e revelando toda sua palidez cadavérica
Um lar exalado
Sem o seu bafo
Sem o seu ar
Sem a sua inspiração
Sem a sua transpiração

E o verão das ruas cobre-me de pó e suor

janeiro 14, 2007

Playoffs da NFL

A grande questão dos playoffs até agora é: quem vendeu a alma ao Diabo para a defesa dos Colts jogar o que está jogando?

A minha aposta é que foi o próprio Peyton Manning, que está jogando ainda abaixo do que costuma fazer em playoffs, quando sempre amarela. Ele chamou o tinhoso, executando um ritual que estudou em diversos livros sobre o assunto, e não teve muitas dificuldades em fazer a invocação, já que pantomima na convocação é com ele mesmo. Aí ele disse que queria uma defesa que o levasse a ganhar o Superbowl, só que como ele desde pequeno sempre viu muitos VTs de futebol americano em vez de ficar vendo Sessão da Tarde ou lendo HQs de terror da EC e da Warren, ou assistindo Além da Imaginação, não aprendeu que o demo sempre cumpre sua palavra, mas com um truque; no caso, o Manning vai ser campeão finalmente e todo mundo só vai falar para todo o smepre da defesa.

E o pobre Peyton, que não consegue ganhar por causa da pressão sobre si mesmo, cuja vida não terá significado se ele não for o melhor quarterback da história, enlouquecerá com a ironia, passando os restos de seus dias em um asilo.

Ele devia ter visto mais Além da Imaginação. Raios, o cara morava em Nova Orleans. Ele deveria saber que isso aconteceria.

Meus 10 Discos Favoritos de Rock Brasileiro

Já que falei do show d´OS MUTANTES que vou ver (foda-se que é com Zélia Duncan. Foda-se que o Arnaldo Baptista está pior do que o Brian Wilson no show que vi no Hollywood Rock. O Minhoca não vai a Buenos Aires pra ver um The Who com Roger Daltrey afônico, Pete Townshend surdo e os outros dois mortos? Pelo menos o DVD dos Mutantes com a apresentação na Inglaterra é ótimo!), resolvi declinar meus álbuns favoritos de rock brasileiro.

Antes que me acusem de qualquer coisa, vou logo avisando alguns critérios que escolhi: nenhuma banda com mais de um disco; a importância e a influência no que se seguiu conta pra burro e por isto a lista parece dar mais destaque aos mais antigos. Devo confessar que como é a lista dos MEUS favoritos, deixei de fora um álbum seminal para o rock brasileiro, o primeiro do Kid Abelha, que conseguiu o fabuloso feito de que TODAS as músicas foram sucesso nas rádios. Gosto de alguns trabalhos dele mais tardios, mas ainda assim não o suficiente pra pô-los na minha lista.

Então, eis aí minha seleção:

1. Ando Meio Desligado ou A Divina Comédia (Mutantes) 1970

Não, não fiquei na dúvida entre dois grandes álbuns. Já em 1970 os Mutantes, sempre mundialmente à frente de seu tempo, lançavam discos com duas capas e dois nomes diferentes, uma delas simplesmente fabulosa, uma belíssima foto preto-e-branco de Arnaldo Baptista erguendo-se de um túmulo enquanto Rita Lee como Dante e Sérgio Dias como Virgílio observam, reproduzindo uma gravura de Doré para (dã) A DIVINA COMÉDIA. A capa alternativa mostrava Rita na cama com os dois irmãos enquanto Liminha toma um cafezinho ao lado, sugerindo práticas sexuais ousadas e heterodoxas para o Brasil do AI-5.

Os Mutantes foi a melhor banda de rock que este país já teve. Pena que a gravadora tenha desistido de lançá-los internacionalmente. Descobriram o erro quando eles se tornaram famosos no mundo todo vinte anos depois de cada um seguir seu caminho. É difícil dizer qual o melhor disco, mas fico com este pelo belo apanhado do fantástico alcance deles. Da extremamente simpática ANDO MEIO DESLIGADO, que Marisa Monte regravou para se lançar e o Pato Fu botou em disco pra consolidar sua imagem de "somos os Mutantes como eles seriam hoje em dia" (mas não se pode culpar Arnaldo, Sérgio e Rita por nada disso), à sublime AVE, LÚCIFER, passando pelo deboche, literal em CHÃO DE ESTRELAS (com efeitos sonoros sublinhando a letra) e nonsense no bluesão MEU REFRIGERADOR NÃO FUNCIONA. Magnífico.

As outras grandes obras dos Mutantes: OS MUTANTES (1968), MUTANTES (1969), JARDIM ELÉTRICO (1971). Seguindo de perto, MUTANTES E COMETAS NO PAÍS DOS BAURETS (1973).

2. O Inimitável Roberto Carlos (Roberto Carlos) 1968

Parece inacreditável, mas ainda tem gente que não gosta de Roberto Carlos, ou acha que ele teve lá sua importância, ou acha gostosinhas as músicas da Jovem Guarda. Na década de 70 ele era acusado principalmente por ser alienado, cantando sobre amor e dor-de-cotovelo, o que mostra que, como sempre, sutileza não é o forte de intelectuais militantes de esquerda. A profunda melancolia que perpassa a produção do Rei, principalmente a partir de 1968 é a coisa mais parecida com o clima de falta de perspectiva de TERRA EM TRANSE já aposto em vinil. A letra de AS FLORES DO JARDIM DA NOSSA CASA parece a continuação da famosa previsão do tempo do Jornal do Brasil no dia seguinte à promulgação do AI-5 (1). Além disso, é visível um questionamento existencial - um tanto simplista, é verdade, mas valioso justamente por sua "pureza", já que Roberto não tem uma formação cultural intelectualizada e a busca sincera de um significado de tudo no misticismo (que acabaria levando a uma pobre militância católica nos anos 80), repetindo os caminhos do movimento hippie lá fora, do qual ele era considerado um antípoda, por ser caretão (um roqueiro da Tijuca dos anos 50, que tinha uma banda com Tim Maia e Erasmo Carlos, careta????). Isso, é claro, quando ele não era claro e direto em seu protesto (DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS, TODOS ESTÃO SURDOS?).

Foi muito difícil escolher entre os discos de 1964 a 1971 (os dos anos seguintes continuam fantásticos, mas dificilmente poderiam ainda ser classificados de rock). Fiquei com o de 1968, o primeiro após Roberto largar o programa da Jovem Guarda. Talvez por isso, assim como os Beatles depois que deixaram de dar show, com mais tempo, ele pôde refinar sua produção. O INIMITÁVEL ROBERTO CARLOS, no entanto, não guina para a psicodelia e sim para o soul e o funk, pela primeira vez escutados no Brasil. Certamente gente que conhece o cenário musical da época vai apontar precursores, mas quase ninguém deve ter ouvido. Roberto Carlos era só o maior vendedor de discos da época e aventurar-se pelo som da Motown com SE VOCÊ PENSA, CIÚME DE VOCÊ e NÃO HÁ DINHEIRO QUE PAGUE era abrir uma nova trilha por aqui. Ainda tem belíssimas baladas, como AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM, as funkeadas E NÃO VOU MAIS DEIXAR VOCÊ TÃO SÓ e a recentemente regravada EU TE AMO, EU TE AMO, EU TE AMO. Tem até uma ótima imitação de Beatles (qual o problema? Os Mutantes também cometiam as deles), NEM MESMO VOCÊ. E, no ano seguinte, o velho amigo Sebastião Maia, o Tim, iria lhe trazer NÃO VOU FICAR, cuja gravação pelo Rei nunca foi superada.

E nem vai ser. Como diz o meu amigo Zé José, é perda de tempo regravar Roberto Carlos - a versão do Rei vai ficar melhor. Imitador confesso de João Gilberto, ele levou o estilo peculiar e idiossincrático do bossanovista para o rock com resultados sensacionais. Sua divisão de sílabas é complexa, mas ele o faz com tanta facilidade que nem aparece. Confira o DVD Roberto Carlos Ao Vivo no Pacaembu: em COMO É GRANDE MEU AMOR POR VOCÊ, o público tenta cantar junto com ele, mas ele sempre atrasa ou adianta a entrada no verso, estica ou encurta as divisões e o povo simplesmente não consegue acertar uma única vez... e desiste! Ele também usa este recurso em AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS, em que entra adiantado em todos os versos e deixa a banda correr atrás dele, reproduzindo musicalmente a letra que fala apenas em velocidade. E nem vou mencionar o que diz minha irmã, professora de canto e cantora: "olha, já ouvi todo mundo desafinar - Caetano, Milton, Gil, Gal, Betânia, quem você quiser. O único brasileiro que eu NUNCA ouvi desafinar foi Roberto Carlos".

Outras obras-primas de rock (os discos dos anos 70 também são campeões, mas em outro estilo): ROBERTO CARLOS EM RITMO DE AVENTURA, ROBERTO CARLOS 1969, ROBERTO CARLOS 1970, ROBERTO CARLOS 1966, É PROIBIDO FUMAR, ROBERTO CARLOS CANTA PARA A JUVENTUDE.


3. Gita (Raul Seixas) 1974

Outra difícil escolha. O primeiro álbum, KRIG-HA, BANDOLO!, é o primeiro, tem MOSCA NA SOPA, a melhor síntese de forró e rock de sua carreira (estilo que faria a carreira dos Raimundos) e OURO DE TOLO, além do hino METAMORFOSE AMBULANTE. Mas o segundo, mais influenciado pelo hippie seguidor de Aleister Crowley, Paulo Coelho, não é só uma sucessão de negativas para o sistema ou de slogans da contracultura - são mostrados os caminhos alternativos, seja na SOCIEDADE ALTERNATIVA, seja na declaração de princípios de MEDO DA CHUVA, ou no misticismo da melhor música de Raul Seixas e certamente uma das dez mais: GITA, uma magnífica composição, música e letra (que infelizmente Raul não era capaz de apresentar no palco e já vi Jerry Adriani ao vivo servir-se de um papelzinho para cantá-la) transcendendo o formato e a época para aparecer viva e enigmática até hoje.

Qualquer outro disco dele é bom.


4. Legião Urbana (Legião Urbana) 1985

Eu estava em casa à toa fumando na cama (parei há nove anos) ouvindo a Fluminense FM no receiver de minha aparelhagem Polyvox, quando entrou uma fita demo de uma banda cantando AINDA É CEDO. "Ei", pensei, "isso é bom!". Depois ouvi as outras demos que a Maldita tinha deles: A DANÇA (o COMO NOSSOS PAIS dos anos 80 (2)) e o hino da minha geração pós-64: GERAÇÃO COCA-COLA, a música que melhor caracteriza a cabeça da gente nascidos na segunda metade dos 60 e adolescente/jovem nos 80. Aí soube que eles iam dar um show no Circo Voador (vindo depois de Ojeriza e abrindo para o onicircovoador Celso Blues Boy), vi a extraordinária performance de Renato Russo no palco pela primeira vez e fiquei tremendamente impressionado com a canção que fechava o set, SOLDADOS. O disco saiu uns oito meses depois e a produção de algumas músicas era até pior do que a das fitas demo, mas quem ligava? Não tinha nada tão bom na época.

Qualquer outro disco deles também é sensacional, mas o primeiro foi o primeiro e por isso o escolhido.

Ah, e invejem-me: eu gravei a versão demo deles da rádio, digitalizei e tenho até hoje A DANÇA (com a letra original) e AINDA É CEDO.


5. Cabeça Dinossauro (Titãs) 1986

É chato dizer isso de um disco tão influente e marcante, mas, no fundo, no fundo, CABEÇA DINOSSAURO é só um álbum de punk rock bem produzido (podia ter se chamado também OS TITÃS ENCONTRAM LIMINHA), que lançou o "punk-pop" que iria dominar a cena a partir de então. É claro que nem toda banda punk pop iria ter Arnaldo Antunes revoltado depois de ser preso por porte de heroína e disposto a botar pra quebrar nas letras. Nem tanto lirismo e inteligência nas canções expressivas e incisivas. Nem tanto swing na cozinha, tornando o ritmo quase irresistível pra dançar. Não foi à toa que quase toda banda dessa época até a eleição do Collor (e a morte do RPB dos anos 80, que assistiu à ascensão do sertanejo e do pagode) foi de alguma forma influenciada por este álbum. Parece fácil de repetir, mas era tão complicado que nem mesmo os Titãs nunca mais conseguiram igualar o resultado (só em partes de JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS). Depois o Arnaldo Antunes ficou experimental demais, ele saiu, eles reverteram a um punk mais básico (num disco injustamente vilipendiado) e finalmente eles se tornaram paulistas balzaquianos fofinhos, indistinguíveis de publicitários yuppies.

E até hoje tem banda de rock brasileira tentando emular o pop punk de CABEÇA DINOSSAURO.

A outra grande obra deles é o JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS.


6. Da Lama ao Caos (1994) Chico Science e Nação Zumbi

Quem hoje em dia não está tentando (ainda) imitar CABEÇA DINOSSAURO, está tentando imitar o mangue bit (que ficou erradamente conhecido como mangue beat) que foi apresentado ao mundo neste CD. Tão tamanha e imediata foi sua influência que nem parece que se passou pouco mais de uma década desde que foi lançado. A quantidade de gente procurando emular a genial mistura de Chico Science e sua banda, misturando rock, ritmos nordestinos, música eletrônica e hip hop é gigantesca e inclui até mesmo a Nação Zumbi. Todos os outros discos aqui listados, por mais brilhantes que sejam, mostram os sinais da idade. Não este. E não é por ser o mais recente - ouvir CABEÇA DINOSSAURO, por exemplo, em 1998, já era viajar no tempo, enquanto vídeos de shows do Sex Pistols até hoje soam contemporâneos. O som deste álbum é tão à frente de seu tempo e tão revolucionário que ainda vai permanecer moderno e atual provavelmente por um longo tempo. Provavelmente a melhor fusão de rock com música regional brasileira já realizada.

O disco seguinte, Afrociberdelia, é talvez até melhor, mas não foi tão surpreendente quanto este.


7. Revolver (Walter Franco) 1975

OU NÃO?, o primeiro disco, com sua famosa mosca, provavelmente é melhor, mas é radical demais, é quase inaudível. REVOLVER é mais condescendente com os pobres mortais que iriam ouvi-lo.

Walter Franco provavelmente é o mais desconhecido dos caras desta lista, mas todo mundo a quem apresento acha fantástico. Roqueiro pesado, às vezes quase metaleira (FEITO GENTE, CANALHA), balança com um misticismo zen e experimentalismo concretista nas letras, é o maior e mais talentoso expoente do rock contracultural do começo dos 70. Tão estranho (e brilhante) é o seu som que praticamente nunca fez sucesso (VELA ABERTA andou tocando nas rádios no final dos 70, início dos 80), embora fosse figurinha fácil em festivais. Ouvi-lo é uma viagem no tempo e um achado.

Outros grandes discos: OU NÃO? e VELA ABERTA


8. Secos & Molhados (1973) Secos & Molhados

Nem sei se este disco deveria estar aqui. Certamente não é MPB, mas será que é rock? Hippie certamente é. Tem tinturas de modinhas, toadas, fados, música mineira e, certo, tá bom, rock progressivo. Mas não o progressivo sinfônico, mais o progressivo do Traffic ou Blind Faith.

Na época eles chamavam MUITA atenção por causa do homossexualismo explícito pelo menos do Ney Matogrosso, as caras pintadas, as plumas e paetês e O VIRA fez muito sucesso como música para dançar. Conseguiram estourar as paradas com seu som tão contracultural. O segundo disco, sem nenhum single dançante para puxá-lo, embora talvez fosse até melhor do que o de estréia, não repetiu o desempenho de vendas, prejudicado também pela saída de Ney, notícia divulgada junto com o lançamento. Ele sabia que sua voz masculina de soprano era o maior trunfo da banda e que eles provavelmente não sobreviveriam ao enterro daquelas coisas todas de hippie, paz e amor e contracultura que 1975 e os anos seguintes trariam, embalados pelo som disco. Mas pelo menos o grupo deixou o melhor exemplo de rock progressivo (será?) nacional.

Eles só lançaram dois discos. Tentaram uma volta com outro cantor de voz fininha no final dos anos 70 e tiveram moderado sucesso com o single AONDE FORAM TODAS AS CORES? Seu grande problema sempre foram as letras, repletas de imagens que deveriam remeter a viagens de ácido e alucinações, mas que na maioria das vezes soam apenas ridículas.


9. O Rock Errou (1985) Lobão

Em 1985, depois do Rock in Rio, depois que a Globo começou a bancar megashows de rock nas praias do Rio, depois que as rádios caretas começaram a tocar rock e que as bandas, famosas, deixaram de fazer shows no Circo Voador, Parque Lage e até Morro da Urca, a popularização do RPB acabou sugando-lhe a vitalidade. Embora não parecesse na época, começava a decadência. As grandes bandas todas já tinham aparecido (haveria ainda o RPM, mas seria um fenômeno de um disco - e outro ao vivo - só, e pouco acrescentaria no aspecto qualitativo). O final da década seria dominado pelos dinossauros e os álbuns clássicos estavam todos já para trás. Lobão, depois dos ótimos CENA DE CINEMA e LOBÃO E OS RONALDOS, casou com uma prima gostosa de 17 anos, ficou trancado com ela durante dois meses em casa e, não satisfeito, ainda fez questão de mostrar pra todo mundo quem estava comendo, pondo-a nua na capa deste LP que foi o primeiro a perceber que o sonho tinha acabado.

Melancólico toda a vida, anunciava que o rock tinha errado (dã) e que ele nem queria mais nenhuma chance. A idéia de uma contracultura irônica, cética e bem-humorada não funcionara. O mundo de novo não mudara e o surgimento do yuppie atestava isso. A garotada que ouvia o RPB dos anos 80 iria crescer para lotar shows acústicos dessa turma nos anos 90, embalados em nostalgia e incapacidade de apreender novos tipos de música. Já Lobão enveredaria por tentativas de fundir rock e samba (não deu muito certo) e música eletrônica num esplêndido (e pouco divulgado) CD vendido em banca.


10. As Aventuras da Blitz (1982) Blitz

Eu sei, eu sei, pelos critérios que disse que iria usar, este disco aqui deveria estar logo na frente da Legião Urbana, pelo cândido motivo que a Legião Urbana simplesmente nunca teria gravado um LP se não tivesse havido a Blitz, que, pura e simplesmente, detonou o RPB, o Rock Popular Brasileiro, o rock dos anos 80 que se tornou o símbolo da década e a irritante nostalgia que dura até hoje.

Quem não estava lá não tem idéia do estrondoso sucesso que VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR teve. Diferente de tudo que se ouvia nas rádios - pelos poderes de Greyskull, a gente ouvia Supertramp na época! - foi quem levou todo mundo a querer saber o que era essa tal de "new wave" e quem eram os expoentes daquele tal de "rock inglês". As gravadoras saíram correndo, cada qual atrás da "sua" Blitz, e foram buscar João Penca e Seus Miquinhos Amestrados (do qual sairia Léo Jaime), Kid Abelha & os Abóboras Selvagens (banda obscura que saiu no disco ROCK VOADOR e que promovia eleições sazonais na Fluminense FM para escolher quem seria o novo Kid Abelha - o líder - da banda), Paralamas do Sucesso, Lulu Santos, Kid Vinil e muitos outros e subitamente Circo Voador, Morro da Urca e Mamão com Açúcar estavam ditando as palavras de ordem para a garotada oitentista, enterrando de vez as batas (estão voltando), cabelos compridos (voltaram), sandálias de couro (agora se chamam papeete) e bolsas de couro (ainda não voltaram). O visual disco começou a parecer brega. Moderno e contemporâneo eram topetes, cores ácidas e berrantes, blazers com ombreiras, calças de pregas com cós alto, saias balonê e tudo aquilo que a gente vê hoje em filmes da época e acha ridículo.

E eles fizeram tudo isso virtualmente sozinhos, já que Júlio Barroso caiu de sua cama suicida e deixou os precursores, a Gang 90 & as Absurdetes, sem pai nem mãe. Eles fecharam de vez o caixão da contracultura hippie e trouxeram de volta o rockabilly básico dos anos 50. Roberto Carlos e Elvis Presley foram resgatados. O Brasil inteirou ouviu rock. E tudo graças à Blitz.

Mas eu não gosto até hoje de rock new wave. B-52s, Go-gos, Blitz, Kid Abelha, nada disso me emociona. E esta é a MINHA lista, por isso este décimo lugar para um álbum tão absurdamente importante.

janeiro 01, 2007

Tommy x The Wall: dois filmes-ópera-rock para uma mesma história

(Este artigo pressupõe conhecimento dos filmes TOMMY, baseado na ópera-rock de Pete Townshend e The Who, e THE WALL, que segue o álbum conceitual de Roger Waters e Pink Floyd. Ambos estão disponíveis em DVD).

Estive de folga semana passada e acabei revendo TOMMY e THE WALL, dois disquinhos ótimos pra se brincar de home-theater, com suas imagens esfuziantes e excelente música em 5 canais. Vê-los lado a lado ressalta o que eles têm de comum além de serem, senão as únicas, as mais importantes óperas-rock da história do cinema (tá, eu sei, The Wall não é exatamente uma ópera-rock, mas não conheço outro adjetivo tão curto para "longa-metragem em que a história é narrada através de canções de rock'n'roll"). Os dois filmes contam praticamente a mesma história e explicam a ascensão (e queda) do rock'n'roll e da swinging London, sob a ótica de quem estava à frente do movimento, fazendo aquilo tudo acontecer, só para desacontecer nos anos 70.

TOMMY foi escrita por um moleque bagunceiro de 23 anos; THE WALL o foi por um balzaquiano melancólico e não tão talentoso. Os sintomas da idade estão presente em ambas as óperas: a primeira é mal-comportada, caricatural e simbólica. A juventude de Pete Townshend não só não tem ainda maturidade emocional para lidar com seus problemas de forma sutil como também precisa disfarçar seus dados autobiográficos, com medo de se expor tão completa e abertamente. Em compensação tem ainda toda a energia da adolescência, com sua busca incansável de revolucionar, exibindo uma originalidade e uma inventividade arrebatadoras. Mesmo com o distanciamento resultante da pouca complexidade das personagens, a intensidade e sinceridade dos sentimentos de Tonwshend conseguem atravessar as alegorias e conquistar-nos com sua pungência, como no recorrente pedido de Tommy (“see me, feel me”) ou no emocionante final.

THE WALL demonstra que seu autor possui muito mais domínio da linguagem artística e é populada por personagens muito mais reais do que quase todas as que povoam TOMMY, o que nos deixa muito mais próximos de seus problemas, criando uma empatia mais profunda do que na obra de Townshend. Em compensação, Roger Waters não é tão brilhante quanto o moleque do THE WHO. Sua madura técnica de poeta do rock está a serviço das mesmas angústias e preocupações adolescentes que afligiam Townshend, mas sem a sinceridade juvenil deste. Aos 35, 36 anos, Waters já deixara aquela fase da vida bem para trás e escrevia sobre ela de memória e não como um correspondente etário enviando seus despachos diretamente para o mundo exterior. No lugar da intensidade emotiva do rapazola Townshend, ele exibia a autocomplacência e autoindulgência típicas de uma crise de meia-idade, muito mais próxima à sua condição balzaquiana.

Mas mesmo com essa separação de mais de dez anos no tempo, tanto real quanto psicológico de seus autores, as duas óperas contam aproximadamente a mesma história. Um garoto nasce na Segunda Guerra e nem chega a conhecer seu pai, que morre no conflito. No mundo caótico do pós-guerra é criado com sacrifícios pela mãe, desenvolvendo uma relação fortemente edipiana e isolando-se do exterior – Tommy fica cego, surdo e mudo; Pink constrói um muro à sua volta. Por causa disto, suas relações com mulheres são problemáticas e centradas na relação sexual: Tommy com a rainha do ácido, Pink com a groupie e sua esposa, com quem não consegue se comunicar.

Desesperadamente solitários e carentes, os dois garotos só conseguem se expressar artisticamente, Pink com o microfone e Tommy com a máquina de flipper, cujos predicados – diversão juvenil, coisa de quem não tem o que fazer, de marginais, sem importância – revelam-na uma metáfora para o rock'n'roll como enxergado pelo establishment na época.

Aí a história difere. Mas nem tanto assim. Tommy consegue superar seu narcisismo, atravessando simbolicamente o espelho onde conseguia se enxergar. Cura-se de sua cegueira-surdez-mudez elevando-se espiritualmente, preocupando-se com o mundo em volta. Supera, pelo menos em parte, seus conflitos edipianos (não por coincidência, o espelho é quebrado quando a mãe o empurra violentamente para longe), e está pronto para usar sua arte para levar a iluminação ao mundo, surgindo como um messias com uma mensagem de paz e amor. Pink é traído pela esposa e mergulha de vez num edípico poço profundo de autopiedade e carência. E ressurge, não como o salvador Tommy, mas como o anticristo nazista. Ao seguir para o palco, a mensagem que leva é de ódio e amargura, rancor e ressentimento contra o mundo que não o fez feliz mesmo depois de transformá-lo em superstar rico e casado com uma bela mulher.

E as duas óperas apresentam o público, aquele povo que estava comprando os discos de seus autores, fazendo suas fortunas e fornecendo-lhes uma agitada vida sexual, pois é, justamente aquela galera, como um bando de retardados sem ideologia, alienados e manobráveis, cheios de rancor e ódio. Tommy ascendeu espiritualmente e não consegue se comunicar mais com seus seguidores, o que os leva a atacá-los. Pink desceu de vez ao inferno edipiano e leva junto sua platéia num surto infantil de destruição, exibindo todo o ressentimento e rancor contra o mundo normal.

TOMMY é muito mais metafórico. Além da máquina de pinball, metáfora do rock, temos a cegueira-surdez-mudez do garoto, alegoria para seu isolamento emocional, o correspondente ao muro na história de Waters. O assassinato acidental do pai pelo namorado da esposa (1), o evento que deixa Tommy cego, surdo e mudo, também não deve ser tomado literalmente, mas como o jeito que Townshend encontrou para retratar como um menino entenderia a mãe na cama com outro sujeito que não seu progenitor, morto como herói defendendo o país na guerra.

O filme TOMMY foi feito no auge do glam rock, do glitter rock, quando os roqueiros todos usavam paetês e lantejoulas e casacos angorá e coletes com plumas e afins. Um exagero só. E Ken Russell, cineasta visualmente esfuziante, embarca vigorosamente nessa onda. A película é sobrecarregada por todos os lados. Começa calmamente, é verdade, quase pastoral, mostrando um casal namorando num cenário lindíssimo – tão lindo, na verdade, que John Boorman o usou em ZARDOZ e EXCALIBUR. O casal volta à cidade e um pesado e antigo lustre pairando sobre eles, enquanto dançam sozinhos, as expressões bem mais carregadas, pressagia o peso do destino prestes a atingi-los. O homem embarca em seu bombardeiro para uma missão de guerra. A mulher volta a seu trabalho – encher granadas de artilharia com shrapnel, balins de aço, arma antipessoal.

Está armado pela guerra o cenário que deflagraria a imensa carência dos garotos das duas óperas e do mundo do rock'n'roll. O pai ausente lutando – e morrendo – na guerra e a mãe na rua, trabalhando. A rainha do lar, a dona de casa, começaria a desaparecer nessa época e as crianças, num mundo de guerra fria, avanços tecnológicos que aumentavam a transmissão de informação, acabando com uma era de certa inocência analfabeta, iriam se transformar nos delinquentes juvenis, adolescentes-problema ou juventude liberada dos anos 50 (2). Nora está no trabalho – uma linha de montagem somente com mulheres, que na geração anterior estariam todas em casa – quando chega uma motociclista militar com uma mensagem. A motociclista também é uma jovem, e a fuligem em seu rosto desenha os óculos de proteção que ela estava usando para dirigir – dando a aparência de que ela tem um bigode! Ken Russell também sabe criar sutis metáforas visuais! A mensagem é um telegrama informando a Nora que seu marido morreu.

E nasce Tommy, e Nora conhece seu namorado numa colônia de férias e se muda com ele. Até aí o longa desenvolve-se de forma relativamente convencional. É a partir da cegueira-surdez-mudez de Tommy que ele se transforma numa caricatura, numa enorme alegoria. Talvez para que experimentemos a realidade distorcida onde Tommy mergulha. Seu isolamento do mundo exterior aguça seu universo interior e desenvolve seus dotes artísticos, subentendemos. É o que nos narra a música AMAZING JOURNEY (Sickness takes his mind to places where it usually doesnLt go – a doença leva sua mente a lugares aonde usualmente elas não vão. Venha, siga esta surpreendente jornada e aprenda tudo que há para saber). Nem tudo, aliás. Ele terá depois que vencer o isolamento que despertou sua consciência artística, para realmente amadurecer e ter o que dizer.

De qualquer forma, é depois do assassinato do pai que o filme se torna caótico e esfuziante até demais. As personagens se tornam caricaturas. É difícil imaginar que a apaixonada Nora do começo do filme vire aquela mulher vã que sai com o amante e deixa o garoto indefeso nas mãos de um tio que abusa dele sexualmente e de um primo valentão da escola que abusa dele fisica e psicologicamente. A ainda gostosa Ann-Margret se defende bem no microfone, mas Oliver Reed canta desagradavelmente e fere nossos ouvidos. TOMMY, o filme, é falho, anacrônico e representa apenas superficialmente sua época. Apesar de contar com trama e música superiores, THE WALL funciona melhor como cinema.

Alan Parker, ótimo diretor, contou com a ajuda do desenhista Gerald Scarfe para iconografar a ópera-rock autopiedosa de Roger Waters. Graças à incisividade dois dois primeiros, a platéia não fica o tempo inteiro pensando durante a fita “por que esse sujeito rico, bem-sucedido, astro do rock e jovem está chorando tanto por ser tão infeliz?”. Parker também contou com os novos negativos que surgiram no final dos anos 70 e início dos 80, capazes de uma maior riqueza de tons e superior sensibilidade à luz (3), para criar uma atmosfera de claro-escuro e luzes constrastantes que dá ao longa uma aparência muito mais atual do que a iluminação plana de TOMMY, que lhe dá aquele visual obsoleto e barato.

A edição de videoclipe, à frente de seu tempo, a riqueza da direção de arte, e a intensidade da raiva de Parker resgatam THE WALL. Apesar de toda a obviedade de sua trama e sua letra, o filme é visualmente hipnótico. Um então desconhecido Bob Geldorf, antes de orquestrar o Live Aid e virar Sir, empresta seu rosto (à época) anônimo para a crise do roqueiro Pink. Sem pai e sem família além da mãe, ele se isola num infernal paraíso edipiano, tornando-se um poço de profunda carência, a mesma carência de afeto que leva Tommy a implorar atenção recorrentemente (“see me, feel me, touch me, heal me”). Mas como Pink não ultrapassa seu narcisismo, seu pedido por atenção é a ameaça de suicídio (“good-bye, cruel world” e todo o subtexto de grande parte das letras).

As flores que viram uma piroca e uma boceta, sendo que esta devora a primeira, é tão pouco sutil quanto qualquer coisa na fita de Ken Russell, mas a beleza dos desenhos animados de Gerald Scarfe, antes dos computadores, faz-nos perdoar sua pretensão. A marcha dos martelos é simplesmente inesquecível. Todo o ressentimento reprimido de Pink irá explodir quando sua esposa o trair, afastada que foi pela incapacidade de Pink de se preocupar com alguém além dele mesmo, e levá-lo depois definitivamente à loucura, ao contrário da iluminação que Tommy alcança, mesmo quando todos seus seguidores o abandonam.

Assim, os dois filmes narram a formação do zeitgeist da Swinging London. Explica por que aquele povo todo aderiu à rebeldia do rock'n'roll. São, a seu modo, um TERRA EM TRANSE britânico, mostrando as preocupações e a educação sentimental dos poetas do país e a encruzilhada em que se encontravam, bem como por que a turma dos anos 60 simplesmente acabou um dia e deu lugar à galera dançante dos anos 80, preocupada em resgatar a simplicidade do rockabilly da década de 50, e depois à música eletrônica. Iluminados e resolvidos, ou loucos, talvez até mortos de overdose, os roqueiros da contracultura haviam se esgotado. Eles não conseguiam mais se comunicar com seu público. Sua música dependia da juventude para não se mostrar uma patética exibição de autopiedosa crise de meia-idade. Não sobreviveria à idade, a não ser sob o preço de um messianismo fascista. Como Townshend já dizia bem antes de compor TOMMY, sua ideologia pressupunha morrer antes de envelhecer. Muito tempo depois, já quase cinquentão, perguntaram ao velho Pete, “mas e aí, cara, você não preferia morrer a envelhecer?” e o coroa respondeu, inteligentemente, “mas eu AINDA quero morrer antes de ficar velho”.




(1) Na ópera-rock original, o pai voltava e acabava matando, junto com a esposa e sem intenção, o namorado dela. O pai voltando e acabando assassinado sem querer foi detalhe original do filme. A montagem teatral da Broadway dos anos 90 retoma a trama do álbum e mantém o pai vivo, matando o amante.

(2) Confira a obra-prima da década de 40 de William Wyler, OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS, quando Fredric March, voltando ao lar depois de anos na guerra, vê surpresa a filha que não viu crescer saindo para a rua à noite sob o olhar complacente da mãe, Jane Wyman. Quando March pergunta que independência é essa da adolescente, Wyman explica que a garota trabalhou como enfermeira voluntária e já viu no hospital mais coisas até do que eles mesmos, deixando subentendido que talvez ela sequer seja mais virgem – e a mãe nem liga!!!! O já citado John Boorman, em seu filme dos anos 80, ESPERANÇA E GLÓRIA, também mostra uma mãe conformando-se com a precoce e solteira vida sexual da filha. Afinal, explica ela, talvez a garota nem esteja viva amanhã. É melhor aproveitar enquanto é tempo.

(3) No final dos anos 60, o sistema de cor Technicolor, que dava maior riqueza de tons e saturação de cores, foi abandonado por sistemas muito mais baratos e de cores muito mais chapadas. Filmar a cores também exigia intrinsecamente mais luz do que com película monocromática. Guardo como lembrança o fotômetro de meu falecido pai, que tem marcações diferentes para fotografar a cores ou em preto-e-branco, mesmo quando a sensibilidade nominal é a mesma. Como resultado disso tudo, o cinema dos anos 70 tem aquele indisfarçável sabor de produção para a tevê ou de seriado, com uma iluminação plana, sem subtons, sem contrastes, sem contraluzes. Filmes como O PODEROSO CHEFÃO apresentam maior textura e riqueza de cor, mas graças a uma técnica desenvolvida por Vittorio Storaro e outros diretores de fotografia: expor rapidamente o negativo, para velá-lo parcialmente, antes de começar a filmar. A imagem final ficava mais rica e texturizada, com muito mais subtons, mas em compensação tinha uma granulação bem maior, perdendo bastante nitidez. Se você acha que não, é porque assistir ao longa numa tela de tevê, bem menor que a de cinema, resolve em parte o problema. A outra parte foi resolvida na transcrição para DVD, quando os grandes estúdios normalmente “limpam” digitalmente qualquer ruído desagradável da fita. No final dos anos 70 foram introduzidas novas emulsões coloridas, com maior sensibilidade e riqueza de detalhes. Os cineastas imediatamente começaram a brincar com elas, resgatando o filme noir e o claro-escuro e dando aos anos 80 aquele ar dark e gótico.

Praia de Botafogo em 1930




O edifício grande no centro da foto colorida à mão é o Pimentel Duarte. Ficava na esquina da Marquês de Olinda, rua onde morei por mais de vinte anos. Quebrei o braço saltando seu murinho com uma cambalhota. Quando o conheci, ele já estava decadente e semiabandonado, embora ainda morasse gente lá. Sua portaria com mármores e bronzes ainda era imponente e ele tinha uma mureta que circundava em curva a esquina, por isso que a pulávamos para cortar caminho pelos jardins dele. Soube recentemente, no fotolog de onde tirei esta foto (e para o qual há um link em meu perfil, sob o título de Centenas de Maravilhosas Fotos do Rio de Janeiro) que foi o primeiro prédio de apartamentos da Zona Sul. Foi construído nos anos 20, uma jóia de art-decô.

Mexendo nesse fotolog descobri que os primeiros edifícios de apartamentos de Copacabana foram o OK e o Petrônio, na Praça do Lido. Os dois AINDA estão lá, nos números 21 (esquina com Atlântica) e 55 da Ronald de Carvalho. O Petrônio, particularmente, se não fosse por sua pintura horrível, tem uma aparência extremamente moderna. Não imaginava que se construísse coisa assim nos anos 20 por aqui. Se forem lá ver, não deixem de visitar o Edifício Guahy, uma obra-prima de art-decô, com ziguezagues criando faixas de luz e cor, também na Ronald de Carvalho, quase esquina com Barata Ribeiro.

O prédio da praia de Botafogo da foto, o Pimentel Duarte, foi demolido nos anos 80 e deu lugar ao edifício da Caemi, que usou ainda outro terreno e botou abaixo também um suspeito sobrado onde funcionava um tal de Hotel Hiedra - Hotel Familiar, do lado do finado Andrews.

A ECO - Minha Faculdade - em 1865



Encontre centenas de fotos sensacionais do Rio Antigo no link de meu perfil.
A ECO é o edifício em segundo plano. Está lá na Avenida Pasteur até hoje, é a UFRJ da Praia Vermelha. Só que no século XIX (e até 1944) era o Hospício Geral dos Alienados. Mas nem por isso parou de abrigar malucos.

Direto do Celular





Os Não Tão Mais Belos Poemas de Amor

Por que fiquei com você?
Foi o que você falou assim que me viu
Apreciou meu corpo, minhas pernas, meus seios
Mas falou da beleza de meu rosto
e da inteligência em minha expressão
e das emoções que via em mim

Desvendou a meus olhos o que eu era aos seus olhos
Fez-me sua mulher numa única frase
Tomou meu corpo e o infundiu
com o espírito e a personalidade
que criou para ele

Eu sou muitas
Eu sou todas
e só me entregarei àquele
que souber me fazer uma só
Aquele que souber me fazer aquela que seja sua

Aquele que me conquistar

(Fielmente baseado num diálogo do roteiro de ÓDIO CEGO)

dezembro 25, 2006

A Blitzkrieg Alemã - Parte II

A primeira parte deste artigo está aqui, em uma nova janela.

Quando paramos, na primeira guerra mundial, o combate havia se tornado um impasse. Com trincheiras escavadas em profundidade, rolos e rolos de arame farpado, metralhadoras e canhões de tiro rápido dominando a "terra de ninguém" - o espaço entre as duas linhas de combatentes -, a ordem de atacar havia se tornado uma sentença de morte. O sujeito levantava correndo, porque descobriram logo nos primeiros meses de hostilidades que caminhar ombro-a-ombro e lentamente era bom para armar uma parada em 7 de setembro, mas não para avançar sobre o inimigo, e tentava chegar vivo do outro lado, para aí sair na mão com os defensores.

E quando eu digo sair na mão era sair na mão mesmo, armado de baioneta e valendo chute e beliscão. O fuzil pesava cinco quilos carregado e era de ferrolho - aquele que a gente vê nos filmes, que o sujeito dá um tiro e tem que puxar uma alavanca para trás e para o lado para rearmar - medindo ainda quase um metro. Manipular com destreza esse desajeitado troço dentro de uma trincheira estreita, com inamistosos soldados tentando fazer daquele o dia em que você se chamaria saudade, era quase impossível. Os infantes logo começaram a preferir a pá à baioneta, por ter um cabo que aumentava o impacto cortante do "fio" e o equilíbrio, quando usado como porrete. E, depois disso tudo, se finalmente conquistavam a posição, logo descobriam que ela era quase indefensável - as defesas eram feitas para enfrentar um inimigo vindo pela frente, não um contra-ataque por trás, onde não havia parapeito e os obstáculos eram mais baixos, já pensados exatamente para facilitar uma retomada vinda da retaguarda.

O conceito que os alemães desenvolveram então foi o da "infiltração". Os melhores soldados de todo o exército eram juntados em unidades de elite, encarregadas do trabalho duro, formando as "tropas-trovão", os famigerados "sturmtruppen" (em inglês, stormtrooper, sim, exatamente, aquelas mesmas de Star Wars). Eles, na falta de uma metralhadora portátil, iam para o ataque carregados de granadas de mão para o combate aproximado, sem terem instruções táticas exatas. Iam na base do improviso e por isso só a nata dos infantes se prestava a este papel.

Esses soldados de elite partiam para a frente, tomavam a primeira trincheira e seguiam adiante. Dispensavam longas preparações de artilharia. Preferiam-nas curtas e intensas, para atordoar os defensores, não lhes dar tempo de preparar a defesa e não esburacar o terreno que teriam que atravessar. Eles tinham preferência pela infiltração, em vez da tomada de toda a linha. Uma vez aberta uma brecha, mais e mais atacantes passavam por ali e partiam para a retaguarda, causando confusão onde se orquestrava o contra-ataque e mantendo os inimigos fora de equilíbrio. Os aliados, pelo contrário, quando atacavam, faziam-no ao longo de toda a fronteira. Se um ponto forte segurasse os atacantes, eles desviavam toda a pressão do ataque para lá. A idéia era empurrar o exército adversário como se fora uma motoniveladora. Os alemães atacavam como cupins, cavando cada vez mais buracos onde surgisse a oportunidade, até que toda a frente desmoronasse. Não preciso dizer qual tática era a mais eficaz.

A infiltração foi a chave do grande sucesso inicial da campanha da primavera em 1918, a Ofensiva da Paz (porque se julgava que levaria os aliados a pedirem a paz). Ao contrário da segunda guerra mundial, ainda seis meses antes do fim do conflito os alemães estavam de posse da bola e levantando bola alta toda hora na área dos inimigos. Os diplomatas teutões chegaram mesmo a rascunhar os termos em que aceitariam a rendição dos anglo-franco-estadunidenses (e amigos), carregando em cláusulas muito mais abusivas do que as depois impostas a eles em Versalhes, aquelas mesmas cuja brutalidade eles usariam como desculpa para tentar conquistar o mundo de novo em 1939. Mas eles estavam pondo o carro adiante dos stormtroopers, que não conseguiram manter o ímpeto e, depois de avançar uma quantidade inédita de quilômetros na Frente Ocidental, tiveram que começar a recuar.

As razões eram muitas. A nova tática cobrava alto número de baixas entre os infiltradores e, como eles eram soldados de elite, não eram fáceis de se substituir. À medida em que eles avançavam rumo à retaguarda, perdiam contacto com sua artilharia (rádios eram aparelhos canhestros e pesados, incompatíveis com o movimento, exceto em transatlânticos que batiam em icebergs e assemelhados) e ficavam dependendo apenas de seus fuzis e do que sobrara das granadas de mão para continuar o avanço, fundamental para manter o inimigo desequilibrado e sem condições de montar um contra-ataque. Este, uma vez iniciado, quase sempre era bem-sucedido: os ninhos de metralhadoras estavam voltados para o outro lado; as trincheiras eram mais baixas por trás e melhores alvos para os canhões, que mais se concentravam quanto mais longe da frente; a falta de comunicação impedia o reforço pelas reservas onde elas eram mais necessárias. Em suma, a idéia era boa, mas faltava alguma coisa. Uma coisa que fosse bem armada, de preferência com sua própria artilharia, que conseguisse manter um avanço contínuo por um longo tempo sem se cansar e em grande velocidade e profundidade e que carregasse sua própria parede grande de trincheira para não ficar exposta ao fogo inimigo. Essa coisa já existia, mas do lado dos aliados. Chamava-se "tanque". E a guerra contemporânea - pelo menos quando travada convencionalmente - é completamente concebida em torno dele. Veremos o porquê no terceiro capítulo.
- Sir Paul McCartney, por que o senhor se casou com uma puta perneta?
- Porque somando com as minhas três pernas a gente ficava na média. Aaaaah, eu sou foda!
As horas das luas cheias e as marés no sangue, a melhor época para se matar alguém, a melhor época para se engravidar alguém, o tempo do suor secando na roupa, as ruas cobertas de chuva e pó, os pés se afogando nos rios lamacentos de postes e motores, os cupins no chão longe das asas, a época dos melhores vinhos, da malha de algodão caindo no tapete, o mar tão morno que nem refresca e o vento trazendo a areia contra os olhos, a hora dos lábios untados de saliva e o cheiro, o cheiro de grama molhada, o começo dos pingos grossos, desabando sobre os braços e os cabelos, quanto pano descobrimos que vestimos, a terra esbraveja com as nuvens e o céu olha por nós, caminhantes homeotermos nas noites cheias de folhas, são os tempos férteis chegando, os tempos férteis estão de volta, soltem as crianças e ponham os vasos na janela, são os tempos férteis, os tempos férteis chegando, os tempos férteis estão voltando.

dezembro 22, 2006

Do roteiro de "Ódio Cego"

Aline:

Porra, você passa anos e anos sem falar comigo pra vir falar isso!!!!! Quem você pensa que é? Você não foi nada pra mim! Nem o primeiro e nem o último! Será que isso já te passou algum dia pela tua cabeça, que importante não é o primeiro, é o último? Aquele que vai segurar minha mão enquanto eu estiver morrendo??? Aquele que vai sentir minha mão fria e esfriando mais e eu nem vou sentir a dele, só vou saber que tô segurando porque vou olhar pra lé. Importante vai ser aquele pra quem eu vou olhar pela última vez, antes de nunca mais ter luz pros meus olhos, o som morrendo, a luz apagando e um último, um último rosto tentando me confortar enquanto meus olhos vão escurecendo e aquela imagem, aquela cara se apagando lentamente à medida em que o meu cérebro vai morrendo sem oxigênio, à medida em que a escuridão vai engolfando tudo e no centro, no centro uma última luzinha, uma última piscada, o meu último pensamento, um rosto, um rosto se apagando, eu nem lembro mais do meu nome, nem lembro mais o que é aquele rosto, mas vai ser a última coisa que vou pensar, antes de não me importar com mais nada, antes de finalmente nunca, nunca mais ter medo da morte! Isso é importante! O último, não o primeiro!!!!

dezembro 17, 2006

A Eternidade em um Beijo

Este é o projeto de um romance, baseado em alguns contos e roteiros. O começo seria assim:

Foi uma época em que o tempo perdeu a continuidade. Os empregados e seus trabalhos repetitivos vendo o relógio que não andava, as pessoas sempre andando na calçada sem chegarem a lugar nenhum (mesmo porque quando chegavam os lugares já tinham mudado e não eram mais aqueles aonde eles queriam ir) e fazendo planos inúteis para o futuro porque subitamente ele era o presente. As pessoas morriam antes de nascer e a comida saltava do prato no meio da refeição. Os jovens sabiam mais do que os velhos e estes não podiam nem mais viver em suas lembranças, pois como saber se elas realmente existiam? Os artistas tinham o fim mas não o começo e outros o início, mas não o final e todas as histórias eram um longo meio. Não havia mais um tempo de nascer nem outro de morrer, um de semear ou outro de colher, as coisas ruíam, o centro não conseguia segurar. A Terra podia parar em seu giro. Então decidiram que tudo devia estar acontecendo sempre. Alguém decidiu e fez as Leis que, no estado das coisas, começaram a ser cumpridas antes de serem decretadas. Para evitar que as pessoas ficassem presas sempre no mesmo momento e para que a vida e o trabalho pudessem progredir e ter algum significado, ninguém podia fazer sempre a mesma coisa. O patrão hoje era o faxineiro amanhã, o lavador de carros virava o motorista, depois o dono do carro, depois metalúrgico. O economista virava arqueólgo e o historiador virava paleontólogo. Os mandatos dos políticos eram de apenas um dia e isso aumentou muito o número de escândalos, mas ninguém ligava muito porque os acontecimentos eram muito vertiginosos. Muitos comemoraram porque era o fim da rotina, mas aos poucos foram percebendo que a variedade também era rotineira e que não podiam parar nem quando encontravam finalmente aquilo que sempre haviam sonhado. Era terminantemente proibido se repetir e só pensar nisso já era perigoso porque a polícia podia chegar antes do crime ser cometido e ninguém nunca sabia quanto da vida ia perder na prisão, ou mesmo se a prisão ainda existiria enquanto cumpriam pena, porque os lugares, também eles viviam sob o tempo e nunca se sabia se sua casa ainda seria a sua casa quando lá se chegasse, então todo mundo dormia no lugar que encontrava e acabou todo mundo se acostumando a viver com todo mundo, era uma aldeia global, o importante e o principal era se manter em movimento ou o mundo parava, e a raça humana não podia estagnar pois podia morrer em vida. Ninguém podia se repetir, nada podia se repetir, tudo isso era violentamente reprimido e vigiado. E como as pessoas sempre repetem os mesmos erros quando se trata de amor, então ninguém podia - de jeito nenhum, porque uma vez só já é arriscado - se apaixonar mais do que uma vez na vida.

Depois, tirado de um roteiro sobre o tema, corta para o protagonista - que foi preso por tentar voltar para sua amada - está sendo julgado por uma comissão de liberdade condicional:

conselheiro 1: E o amor?

conselheiro 2: Você ainda guarda sentimentos por Ana?

o homem pensa um pouco, está nervoso.

Renato: Guardar?

conselheiro 2: (ALGO ENFASTIADO) Sim, guarda, ainda guarda sentimentos por ela?

Renato: Sentimentos por Ana? Guardar? Não. Não guardo. Por que guardaria? Já não nos vemos há tanto tempo... (PÁRA UM POUCO PARA PENSAR) Eu acho. Eu não sei. Quanto tempo será que já faz? Difícil dizer. Parece que foi ontem. Talvez tenha sido ontem. Não me lembro quando foi. Mas lembro que pareceu muito. Uma eternidade. Um tempo enorme. Muito maior do que todo aquele antes de eu a ter. Muito maior do que o que que se passou desde então. Por mais que os dias se arrastem. Por mais que eles pareçam monótonos. Por mais que pareçam não trazer razão ou motivos na hora de acordar. Por mais que os ponteiros do relógio repitam-se mais e mais na mesma posição, em cada hora de cada dia desde que nos separamos, ainda assim, ainda assim o tempo que passamos juntos foi maior e mais amplo, bem maior e mais amplo do que possa vir a ser qualquer dos mais longos dias que eu venho enfrentando sem ela. Guardar sentimentos por ela? Por que os faria? Tantos anos vivi sem sentir algo assim, tantos anos eu tentei sentir algo assim, me agarrando a mulheres por causa de seus rostos, seus seios, suas pernas, suas costas, sua maneira abusada de pedir uma cerveja ou sua graça em recusar uma, seu sorriso pacificador ou sua gargalhada agressiva, seu olhar profundo e sereno ou sensual e direto, tantas por tantas razões menos a certa, menos aquela que eu queria ter, sentir em mim, sentir nela, e tanto eu fiz, tanto eu me fiz fazer, tanto eu me iludi, chamando afeição de amor, obssessão de paixão e tesão de desejo, um homem se fazendo de menino para poder se sentir um homem de verdade e então veio Ana, finalmente descobri Ana, há tanto tempo, como nós podemos saber agora, se é que eu posso chamar o agora de agora, depois da Ana tudo foi só um depois, um longo depois, não, eu não guardo, não guardaria, jamais guardaria, como poderia eu fazer isso, com aquela sensação, o primeiro beijo com seu gosto de alucinação, miragem, ilusão, não pode estar acontecendo comigo, a primeira vez em que a vi nua, quando Deus criou você deitada nua na cama, ele sabia o que estava fazendo e criou o fogo, a água e as montanhas ao mesmo tempo, a primeira vez em que a senti por dentro, macia, morna e água, a vida toda vem da água, a vida toda vem de você, a vida toda vem de dentro de você, como guardar, jamais guardar, não há o que guardar, não se tem o que guardar, Ana foi o agora, Ana foi o então, o resto, o resto é só depois, o resto é só o que veio depois, o resto é silêncio (PAUSA). Não (PAUSA, MUDA O TOM). Não guardo nenhum sentimento por Ana.

detalhe de um lápis vermelho riscando alguma coisa. A câmera abre e revela finalmente que estamos numa prisão, ou melhor, numa comissão de exame de condicional que nem aquelas que vemos em filmes americanos, com os conselheiros de guarda-pó e óculos fazendo enormes riscos visivelmente desaprovadores em seus formulários e cochichando entre eles. Um deles se levanta.

conselheiro 1: Sr. Renato, na opinião do presidente desta Comissão de Avaliação, o senhor nada aprendeu no seu tempo de encarceramento sobre o que o trouxe a esta instituição e sobre os erros de seus atos. Minha decisão é de que o senhor deveria permanecer interno e sua condicional ser negada. Entretanto, como o senhor foi o último a ser ouvido hoje e sua exposição foi longa demais, meu relatório só será encaminhado amanhã, quando estarei já trabalhando em outra coisa e lugar e meu voto nada mais valerá. Portanto, não me darei ao trabalho de redigir um parecer contrário sobre seu caso. Boa sorte.

o presidente da comissão sai, tirando o guarda-pó e o óculos, exibindo uma roupa de, sei lá, bombeiro, couro sadomasoquista ou piloto de avião. Levanta-se outro conselheiro.

conselheiro 2: Sr. Renato, não houve evolução em seu quadro. O senhor está apegado a esta mulher. Demonstra falta de espírito. Falta de fibra. Falta de vontade de conhecer o amanhã que está sempre vindo. Veja como eu não tenho medo de encarar o futuro.

o conselheiro 2 arranca o guarda-pó, os óculos e pula através da janela. levanta-se O terceiro e último conselheiro.

conselheiro 3: Sr. Renato, na verdade eu queria mesmo era ser músico. Eu tinha uma banda emo. Há muito tempo. Eu acho. Quando começou. Eu acho. Eu concordo com o senhor. Eu acho. Inclusive eles dois não sabiam, mas parece que vai haver uma mudança de orientação, para valorizarmos mais os sentimentos. Eu acho. Acho que o senhor está liberado.

O protagonista procura sua amada, mas sem saber, enquanto ela está na mesma rua que ele, com outro homem, ele acaba ficando com outra menina:

fabíola: Você não é um garçom, é?

renato: Não. Eu estou esperando que uma mulher que eu conheci lá reapareça.

fabíola: Ninguém nunca reaparece. Tudo vai embora. Eu fiz um piercing no mamilo. Quer ver?

renato: Não, obrigado.

fabíola: Não fode. Tem gente que faria tudo pra dar uma trepadinha comigo e você não quer nem ver meu peitinho?

renato sorri.

renato: Deve ter mesmo um monte de gente interessada.

fabíola: Você não quer ser um deles?

renato: Eu já disse...

fabíola: Eu não lembro. Faz muito tempo.

fabíola beija renato de leve. Renato hesita.

fabíola: He. Não me diga que você também é tímido...

renato: Não. Eu só... eu já...

fabíola: Não se preocupa com a tua paixão. Amanhã a gente já se esqueceu. É tão difícil lembrar. Por isso que eu não consigo me formar em nada. Eu já fiz arquitetura, letras, comunicação, agora tô fazendo psicologia. Eu não consigo estudar, esqueço tudo que aprendi...

renato: Você tenta..?

fabíola: Tento. Faço piercings e tatuagens... pra lembrar.

ela começa a mostrar as tatuagens.

fabíola: Esta borboleta... é preu lembrar do meu primeiro namorado. Eu me sentia leve, flutuando... aí tem esta estrela... foi quando eu passei no vestibular pra arquitetura e comecei um estágio no primeiro período ainda. Eu achava que tinha estrela. Tem esta tribal. No estágio eu me apaixonei pelo Guilherme... a gente saía pra acampar e ficávamos andando nus pelas praias, pelo mato, pelas cachoeiras... que nem índio. E este arame farpado... uma penitência... o que eu tive que estudar quando quis mudar pra comunicação...

renato: E os piercings?

fabíola: É pra lembrar como isso tudo doeu... quando meu primeiro namorado terminou, fui mandada embora do estágio, o Guilherme terminou comigo, quando fui estuprada...

renato: Você foi estuprada?

fabíola: Fui. Pelo meu primeiro namorado. Depois que a gente terminou. Por isso que eu botei um piercing no mamilo. Tem outro na boceta também. Pra doer. Cada vez que eu transar. Vai doer, mas eu vou transar. Eu não vou parar, Renato. Não vou parar de amar, de trepar. E não vai ser porque eu esqueci.

renato olha para a menina com respeito, enquanto ela exibe o piercing com um pesinho pendurado no mamilo.

renato: Você também... "fala legal".

fabíola: É... mas eu esqueço tudo. Vou esquecer tudo depois. Não vai servir pra nada. Mas foi por isso que gostei de você.

os dois começam a se beijar. Eles se amam e no dia seguinte, pela manhã, ele a leva em casa:

fabíola: É aqui que eu moro.

renato: Bem, então você está segura...

fabíola: Com você, sempre.

renato fica constrangido.

renato: Bem, então se é isso...

fabíola: Adorei a noite. Adorei a trepada. Adorei você. Me dá um beijo de despedida.

renato: Eu...

fabíola: Não se preocupa. Ninguém nunca reaparece.

renato: Você não vai fazer nenhuma tatuagem?

fabíola: Não. Talvez um piercing.

renato: Por quê? Te fiz sofrer?

fabíola: A mulher que você ama me fez. Vem, dá o beijo.

os dois se beijam. Ela o solta e se encaminha para a portaria. Vira-se para trás antes de entrar no prédio e desaparece no ar. Renato olha, sem estranhar, sabe como o tempo é estranho no mundo. Ouve a risada dela por trás dele. Vira-se e vê uma fabíola aparentemente mais nova, porém com mais piercings.

fabíola: He. Você tem uma cara sólida. Robusta.

renato: Fabíola?

fabíola: E sabe meu nome. He. Se você fosse mais novo, podia até rolar um clima. Mas eu não curto homem tão velho. (PAUSA) Mas você tem um ar interessante. He. Tenho que ir.

renato fica observando a moça sair correndo para a faculdade. ela novamente desaparece em pleno ar.





, que vive muitas aventuras difíceis de serem resumidas aqui, enquanto ficamos sabendo de sua história de paixão. Durante tudo isso, o amigo mais velho e sábio do protagonista morre e ele procura um lugar onde enterrá-lo.

burocrata: Bem, eles montaram uma arquibancada num vale. Tem uma abertura entre as montanhas que parece enquadrar o pôr-do-Sol. E tem aquela mata, aqueles lagos e as cachoeiras. Dizem que a vista é lindíssima.

renato: Não era uma arquibancada?

burocrata: Pois é. A vista é tão bonita que puseram uma arquibancada lá. Pras pessoas. Elas vão lá e sentam e ficam olhando a vista e o pôr-do-Sol. Dizem que é maravilhoso.

renato: E o que tem isso a ver com cemitério? Eu quero um lugar digno para o meu amigo.

burocrata: Pois lá é um lugar muito bonito. E todo mundo é amigo. Dizem que rolam vinho e maconha uns entre os outros. E tocam violão. E ficam lá, observando o pôr-do-Sol. Só não tem comida.

renato: Não?

burocrata: Não. Eles ficam lá até morrer. Morrem vendo o pôr-do-Sol, de mãos dadas com os amantes, sentados ali, aquela luz vermelha maravilhosa caindo sobre eles. E o cheiro da mata molhada, o barulho da água da cachoeira. Dizem que é muito lindo lá. Eu não posso garantir, porque você só pode ir lá pra ficar pra sempre. Os degraus mais baixos dizem que já estão cheios de esqueletos. Acho que deixariam você botar o seu amigo lá.

E, depois que os amantes se reencontram. Ana tenta não ceder a Renato, mas acaba fazendo-o:

ana: Ana o caralho, seu filho da puta! Eu te odeio! Você e aqueles piercings! Mas principalmente você! Você e aquele seu amor envolvente, você e aquele teu jeito cativante, tua firmeza, mesmo quando em dúvida, mesmo quando não sabia o que fazer, mesmo quando fazendo o que não queria fazer e fazendo, que nem mocinho de cinema quando sem querer fica com o microfilme e os espiões correm atrás dele... eu te odeio, seu filho da puta... eu te odeio porque tenho uma vida tão equilibrada, ainda ontem fui promovida, porque eu sou equilibrada, e eu sou equilibrada por quê? Por tua causa, porque eu sabia, eu sabia que o que quer que eu fizesse eu ia te encontrar no bar do Janus, ia rir, ia te ter, uma coisa eu já tinha acertada na vida, o resto ia vir sozinho, mesmo depois que a gente terminou, ainda assim, eu sabia, eu sabia ainda que você me amava, por isso que eu pude amar tanto e tão bem, porque eu sabia que você me amava e que eu poderia ter você no fim... eu podia ser tranquila, calma, fria, racional sempre que eu amava... tão tranquila... eu estava só esperando você... aguardando você...

eles são obrigados a fugir porque os policiais descobrem que eles já se amaram antes. Fabíola, que estava dando um amasso na rua ali perto, ajuda-os:

ela pega um relógio de bolso no bolso da calça cargo de clubber e chega na frente dos policiais. Começa a sacudir o relógio em movimento pendular na frente dos policiais para hipnotizá-los.

fabíola: Olhem para este pêndulo! Vocês estão sob meu poder!

policial 1: Sai da frente, menina, ou você vai presa também!

fabíola: Olhem para o relógio!

policial 2: Saia da frente!

Os policiais se aproximam. Fabíola recua. O relógio não está funcionando. Ela tem uma idéia. Ela abaixa o decote e mostra as aréolas pefuradas com pequenos pesinhos. Ela balança o busto e os pêndulos nos mamilos começam a hipnotizar os policiais.

fabíola: Olhem para este pêndulo... (ELA OLHA PARA BAIXO) Digo, para estes pêndulos. Vocês estão sob meu poder...

os policiais param, com ar apalermado, olhando os belos peitos de fabíola.
policial 1: Nós estamos sob seu poder...

policial 2: Nós estamos sob seu poder...

fabíola vira-se para renato e ana.

fabíola: Vão! Eu não sou muito boa nisso! Eles não vão ficar assim muito tempo!

renato: Tudo bem, obrigado, valeu... (A ANA) Vamos, vamos embora daqui...

ana: Já? Mas você não vê que aqui é o nosso canto? Nosso lugar especial?

renato: Deixa de brincadeira, Ana...

ana olha com atenção para fabíola.

ana: Peraí... eu sei quem ela é.

renato: Eu não. Vamos, vamos embora!

os dois vão saindo.

ana: Eu sei sim... você está me escondendo algo.

renato responde com sinceridade, não lembrando mesmo de fabíola.

renato: Não, Ana, eu só quero esconder você dos policiais...

os dois saem. Fabíola olha para eles. manda um beijinho.

fabíola: Eu lembro... quem diria, eu lembro...
.

hannah/renato/policiais/mortos vivos

rua da distorção/ext/noite

a câmera passeia lentamente, lateralmente, por uma rua, ao rés do chão, mostrando caídos pela calçada e pela sarjeta pessoas em variados estados de decomposição, quase incapazes de se mover, abandonadas e entregues . ela vai andando e, ao chegar ao final, gira e mostra hannah e renato na esquina da rua. Hannah olha para trás e vê os policiais vindo.

hannah: Eles estão vindo.

renato: Sempre estão. Esse mundo não pára.

hannah: E o que vamos fazer? Eu não quero ir presa, Renato. Ainda mais agora que eu quero ficar com você...

renato: Vamos atravessar.

hannah: Mas aqui a distorção temporal é pior, Renato. E ainda tem todos esses mortos vivos aí...

renato: Cadaveras.

hannah: Como?

renato: Cadaveras. Cadáveres de verdade. Um trocadilho. Tem gente que os chama assim. Pessoas moribundas que vieram para cá na esperança de que a distorção temporal os congelaria em seus últimos instantes de vida e eles viveriam para sempre. Que maneira de conseguir...

hannah: Eu não quero entrar aí, Renato. Nós podemos sair como dois velhos moribundos. Ou nem chegar, voltar a ser protoplasma. Eu não vou entrar aí.

renato puxa hannah para perto, com força e dominaçào e lhe fala quase em tom de ordem.

renato: Vai sim, Hannah. Vai entrar porque haja o que houver, o tempo e sua passagem, alterados ou não, é um privilégio nosso. E a privação de liberdade não. Vamos entrar.

hannah: Eu não quero!

corte para plano geral deles, em contra-plongée. Renato empurra hannah um passo dentro da rua. Ela pula de volta para a esquina. Renato a olha, pega-a, levanta-a como se fosse uma noiva prestes a entrar no domicílio conjugal após o casamento e entra com ela na rua. Corte para os cadaveras olhando para eles com seus olhos apodrecidos. corte para renato pondo hannah no chão, em pv lateral e a câmera faz um traveling acompanhando suas caminhadas tensas.

hannah: Renato... eu estou com medo.

renato: É bom. Quer dizer que você preza sua vida.

hannah: Esse pessoal todo na calçada também...

renato: Não. Eles prezaram muito mais a própria morte em toda sua vida. Por isso vieram parar aqui. E os policiais?

hannah vira a cabeça e vê os policiais parados na esquina da rua, amontoados, como se houvesse uma parede invisível que lhes impedisse a progressão.

hannah: (COM VOZ DE CRIANÇA) Pararam. Num vêm não.

renato: (SURPRESO) Tudo bem com você, Hannah?

hannah: (INFANTIL) Tudo. Me dá a mão.

renato: O que você quiser, Hannah...

hannah: (COM VOZ ROUFENHA, DE VELHA) Não precisa de mais nada, meu Renato... só me dê sua mão. Me dê sua mão e aperte forte...

renato: Você está mudando, Hannah...

hannah: (NORMAL) Eu não. Você.

renato: (INFANTIL) Mentira. Vou chamar a mamãe.

hannah: Você sim, Renato. Uma hora é um velho e em outra, uma criança.

renato: (INFANTIL) Você que é, mentirosa!

hannah: Nós estamos mudando, Renato. Nós dois. Só que não conseguimos perceber. Só o outro.

renato: (NORMAL) Será?

Visão subjetiva de renato para os cadaveras.

renato: Como será então que parecemos a eles?

hannah: (ADOLESCENTE) Eles eu não sei, mas você é um gato... (PAUSA) Eu tô com tesão, Renato... esse pessoal sem poder fazer nada na rua e só a gente aqui...

renato: Nós temos que passar por isso, Hannah...

hannah: Ah, vem, pára só um pouquinho...

renato: Não na frente deles, Hannah, não na frente deles.

hannah: (ADOLESCENTE) Você não quer nada comigo?

renato: Eu quero tudo, Hannah. Tudo. Vem comigo.

hannah: Eu acho que quero um filho, Renato...

ao falar isso, hannah é puxada para fora de quadro por renato. vemos ao longe os policiais discutindo entre si. alguns deles apontam para outros lados, como sugerindo caminhos alternativos. Finalmente, eles chegam a um consenso e vão embora. hannah e renato continuam andando.

hannah: Renato... eu agora... acho que recuei... recuei demais.

renato: Demais?

hannah: É. Parece outra vida... outra encarnação...

cena xxxii

quarto de dormir do começo do século

aninha/avó/médico/pai/mãe/tio/tia/primos/familiares

uma menina de uns nove, dez anos - aninha, a câmera começa nela para deixar bem claro que é esta a personificação de hannah na cena - está sendo levada, numa casa de relativa abastança do começo do século, para o quarto onde sua avó agoniza. O médico está conversando com a mãe. Enquanto hannah fala, aninha é levada a dar a mão à avó, enquanto familiares choram, primos menores parecem incapazes de compreender a solenidade do momento e brincam. a Avó olha para a jovem aninha e, com tremenda dificuldade, passa a mão pela sua cabeça e parece tossir violentamente. O médico toma o pulso, a mãe de aninha chora, consolada pelo pai e o médico, finalmente, cruza os braços dela e a pòe numa pose de repouso.

hannah: (OFF) O começo do século... Acho que é minha avó. Não existe UTI e ela está agonizando no quarto dela lá em casa. Está doente há meses e todos na casa estão acompanhando o lento caminhar dela para a morte. O médico falou que hoje ela termina o passeio por esta vida. Todos nós estamos ao lado dela. Todos nós vamos lhe dar adeus. Todos nós vamos cumprimentar a ceifadora. Todos nós a conhecemos desde cedo e sabemos que a é parte da família. Tão parte da família quanto nossa avó que viu várias mortes como essa no quarto de cima de sua casa. São apenas duas amigas se reencontrando. Duas senhoras... que fazem parte da família. Nada demais. Nada de extraordinário nisso. E eu sei. Eu estou ali. Estou ali olhando. E vendo.

cena xxxiii

esquina final da rua da distorção/ext/noite

hannah/renato

close em hannah.

renato: Abra os olhos, Hannah, pode ver aqui também.

Ela abre os olhos e a câmera abre, mostrando que eles atravessaram a rua.

renato: Chegamos ao fim da rua da distorção.

cena xxxiv

ladeira da casa de renato/ext/noite

renato/hannah

renato e hannah são vistos subindo a ladeira pavimentada com paralelepípedos e entrando no prédio onde renato mora, um bem antigo.

cena xxxv

sala da casa de renato/int/noite

renato/hannah

renato e hannah entram no apartamento de renato, cheio de objetos de diversas décadas. Estátuas art nouveau, astrolábio, globo, lampião, rádio anos trinta e assim por diante. os dois entram, hannah olha bem para o espetáculo e é abraçada por trás por renato. Os dois se beijam.

hannah: O que vamos fazer agora?

renato: Adivinha...

os dois se beijam mais ainda e com muito ardor e desabam no sofá, fora de quadro. a câmera segue até a janela, onde as cortinas esvoaçam e corta para a chama de um isqueiro se acendendo com força, uma pequena brincadeira com a velha lareira que se avivava quando os personagens trepavam nos filmes antigos. O isqueiro é para acender o cigarro de renato. Os dois estão suados, desgrenhados e sem roupa no tapete da sala. Hannah sobe lentamente, esfregando sua pele na pele do namorado até chegar perto dele.

hannah: Me dá um trago.

renato: Outro?

hannah: Do cigarro.

renato passa o cigarro para ela. Ela dá um trago longo, acendendo bem a brasa. Ele pega de volta e traga também, como que sorvendo o que ficou dela no filtro.

hannah: Eu perguntei o que íamos fazer não nesse sentido.

renato: E existe outro?

hannah: (DE BRINCADEIRA) Outro? Não... você foi o único, Renato.

renato: (TAMBÉM DE BRINCADEIRA) Mentira que eu tive que conhecer um monte de namorados seus pra te achar.

hannah: Você realmente me desejou, né?

renato: Aquela noite foi muito boa pra esquecer assim tão fácil. Pra deixar o tempo apagar tão sem resistência...

hannah: Mas o que vamos fazer agora que estamos juntos? Você sabe que eles vão acabar nos pegando, não é?

renato: Eles quem? A morte e os impostos? Sei há muito tempo. Eles pegam todo mundo.

hannah: Esses não. A polícia.

renato: Que tem eles? Nós os deixamos pra trás.

hannah: Mas eles vão chegar. Mais cedo ou mais tarde. Eles têm todo o tempo do mundo. Podem investigar durante todo o futuro e virem nos prender agora...

renato se levanta e caminha até o armário onde há uma coleção de discos. tira um vinil de dentro de uma capa.

hannah: Discos de vinil? Que coisa mais antiga...

renato: Deixe cada coisa a seu tempo, Hannah. Agora vamos dançar...

hannah: Dançar?

renato: Da melhor maneira possível. Sem roupa.

ele a pega e a tira para dançar, ao som de cheek to cheek.

hannah: E os policiais?

renato: Deixa eles. Deixa tudo pra lá. Agora só ouve a música.

close na vitrola. O disco está arranhado e começa a repetir o mesmo trecho da música - HEAVEN, i'M IN HEAVEN.

hannah: O disco está arranhado.

renato: Eu sei.

eles dançam mais um pouco.

hannah: Eu te amo, Renato.

renato: Eu sei.

hannah: Quero te amar para sempre, Renato. Para sempre.

renato: Não usa essa palavra, Hannah. Nada é para sempre.

OS DOIS CONTINUAM DANÇANDO E SE BEIJAM, EM PLANO GERAL, NA MEIA-LUZ.

Os policiais finalmente chegam e começam a tentar arrombar a porta:

De tanto apanhar a porta acaba cedendo e se entrega, frouxa em seus caixilhos e trôpega em sua tranca, revelando finalmente os aposentos por ela velados. O primeiro policial quase cai para a frente quando ela se abre, sob o impulso de seu violento movimento, mas ao ver a cena diante de si consegue parar a tempo, antes mesmo de pôr o pé adentro, e estica o braço até o portal, para impedir que seus companheiros sigam em frente, deixando os vizinhos e curiosos na ponta dos pés tentando divisar o que está lá dentro, afinal, que tanto preocupa os guardinhas.

- Nós os perdemos.

Uma vitrola, um velho toca-discos, com suas linhas ainda modernas e arrojadas, luta em vão contra os microssulcos de um vinil arranhado, repetindo sem parar um único verso de uma clássica canção americana, "Heaven, I´m in heaven... szzzcrrat... Heaven, I´m in heaven... szzzcrrat... Heaven, I´m in heaven... szzzcrrat... Heaven, I´m in heaven... szzzcrrat...". Aos seus pés, roupas atiradas pelo chão, calça, camisa, cueca, calça, camisa, sutiã, calcinha, seguindo pelo tapete até pés presos num passo de dança, pés parados sobre o carpete, a mesa de centro deslocada para abrir espaço, pés subindo por dois pares de pernas, um liso, macio e curvilíneo, entrelaçado a outro musculoso e peludo, mantendo pressionados e imóveis seus centros de prazer e identidade sexual, seus ventres, seus abdomes, seus peitos, os alabastrinos seios da moça apoiando-se e descansando suas suculentas formas contra o amplo tórax do homem, para aproximar as bocas, imobilizadas e coladas num beijo, lábio a lábio, língua a língua, com um pequeno gosto de dentes e saliva e faces, maciez e aspereza, barba e suavidade, macho e fêmea.

E os guardas mantiveram as pessoas afastadas e ficaram olhando, os vizinhos e curiosos ainda esticando os seus pescoços enquanto mulheres mais baixas e crianças perguntavam "e aí", "tá vendo alguma coisa", e o casal, os dois, a moça e seu par, permaneciam ali, parados, imobilizados, nus e alheios a todo o movimento, imóveis e inamovíveis, hermeticamente selados num beijo, para sempre, por um único momento, por um instante, por toda uma eternidade.

dezembro 04, 2006

Mais Pretensão - De uma Peça minha (FATA SUBURBAS0:

FATA
Aceitas sempre assim tranquilamente o que os outros lhe dizem?

PEDREIRO
( BRINCANDO ) Vindo de ossos falantes, sempre.

FATA
( RI, TODA CONTENTE ) Hi! Já troças de mim! Estamos íntimos!

PEDREIRO
Eu, íntimo teu? Nem sei o que você é, como uma mulher foi virar um osso dentro de uma pedra...

FATA
Como? Alguns dizem que há tempos fui aprisionada dentro de uma rocha usada na construção deste prédio. Outros dizem que me decepcionei com o mundo e encasulei-me em busca de tempos mais propícios. Contam também que sou uma metáfora da magia encerrada dentro de nós... outros tantos que sou um teste como a espada na pedra - aquele que me libertar será o rei de sua vida e seu destino. Há os que dizem que cada pedaço de matéria é um ovo chocando algo como eu. E os que propagam que eu seria a encarnação dos sonhos dos moradores daqui, absorvidos pela pedra noite após noite, sono após sono.

PEDREIRO
E qual é a verdade?

FATA
Certamente uma das versões que mencionei, pois se tantos não conseguiram descobri-la, certamente não seria eu a conseguir imaginá-la...

PEDREIRO
Mas você consegue saber até o que vai acontecer com a minha filha...

FATA
Mas o já acontecido não me interessa.

PEDREIRO
Se é o que você diz...( COMEÇA A QUEBRAR PEDRA ) Se importa?

FATA
Não, ao contrário, adoro ver-te trabalhando, sentir-te esculpindo...

PEDREIRO
Eu não sou escultor...

FATA
Só as nossas obras sabem de nós...


CORTA PARA A CENA FINAL:

FATA
Nada me aperta mais! Nada me tolhe mais! Meu peito inala e exala novamente! Meu coração bate! Eu estou livre outra vez! Ah, todos vós, eu estou livre para singrar e descobrir! Mares, nunca dantes navegados! Onde homem nenhum jamais esteve! O infinitamente grande, todo dentro do infinitamente pequeno! Oh, Criação, Filha do Cataclisma, preparai-vos, pois tuas sementes cresceram e agora se preparam para confrontar-vos ! ( AO PEDREIRO ) E a ti, me despeço mais falando do amanhã: O mundo terminará em fogo, o mundo terminará em água, o mundo terminará com um estrondo, o mundo terminará com um suspiro e o sangue derramado no interior de cada um de vós se encontrará ao fim de tudo e suspirará por uma velha rocha escura suspensa no vazio e sorrireis uma última vez antes de vos voltardes para o futuro, para as luzes no vazio, cada vez maiores...

PEDREIRO
( EMOCIONADO ) E você, que sabe tudo, a gente ainda se revê?

FATA
Ver é o de menos...mas quanto ao futuro, tens que aprender a descobri-lo sozinho. Obrigada. ( APROXIMA-SE DO PEDREIRO CONSTRANGIDO E BEIJA SUA TESTA ) Teu suor é gostoso. (VIRA-SE ) Guarda minhas palavras e minhas imagens. No fim, o que existe é o que lembramos. Adeus! Adeus! Que vos guiem os anjos! (EFEITOS DE ILUMINAÇÃO E SOM. A MÚSICA PÁRA. TODOS OBSERVAM A PARTIDA DA FATA. ELA VAI. A ILUMINAÇÃO VOLTA AO NORMAL. AS PESSOAS SE DISPERSAM. MARCOS E VERINHA JÁ SE BEIJAM SENTADOS. O PEDREIRO CONTINUA OBSERVANDO A PARTIDA DA FATA).

Da Peça FATA SUBURBAS

Um Pouco de Poesia e Pretensão Depois de Tanta Mulher Pelada (Uh! Tererê!)

Não é que os cegos não vejam
Eles vêem o futuro

O tempo todo.



PERFECCIONISTA

Ando pela casa
Ajeitando os quadros
para que fiquem paralelos ao chão.

Todos eles, o tempo todo,
Quero-os perfeitamente
paralelos ao solo, alinhados,
ajeitados, retos, bem resolvidos,
como minha vida deveria ser

Então subitamente me ocorre
A Terra é redonda.

dezembro 03, 2006

Da série "Ela depila lá embaixo" - Karina Bacchi


Com direito a piercing (Simone, ex-Autoramas, amiga minha, conta que uma amiga dela foi fazer um desses e perdeu a sensibilidade, por isso que ela não faria de jeito nenhum).
Mas eu casava com uma que tivesse um desses.
No mamilo já era legal.

Da série "Ela depila lá embaixo" - Britney Spears






E ainda ficamos sabendo que ela não é adepta do parto natural...