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janeiro 14, 2020

A Justiça Cativa


Antes da Constituição de 1988, os concursos para juízes exigiam pelo menos 35 anos de idade do candidato. Era um tempo para o sujeito se formar e passar uns 10 anos trabalhando em algum lugar antes de encadeirar-se em sua sinecura. Não por coincidência, já diziam os antigos – aquele povo qe vivia antes da Constituição de 1988 – que você levava 10 anos pra se tornar bom naquilo que gostava de fazer.

Nesse ínterim, se você fosse trabalhar com Direito, você iria lidar com clientes. Com juízes. Com funcionários. Interagir com gente, enfim. Aprender como funciona o mundo. Porque um dos assuntos da moda entre o povo pensador é como as redes sociais criam “bolhas”, isolando o indivíduo do contato com pessoas que vivam ou pensem diferentemente dele, mas na realidade estamos fazendo o mesmo há décadas, desde que arquitetos e governantes decidiram que o modelo ideal de cidade é a equivocada “cidade-jardim” de Le Corbusier – uma ideia, aliás, que lá por fora já está se tornando obsoleta, mas por aqui ainda é um ideal de vida (cf. Barra da Tijuca, que, mesmo nos anos 70, o auge do pensamento urbanista modernista, era conhecida como um “bairro sem esquinas e, portanto, sem bares de esquina”).

Quem aliás primeiro chamou a atenção pra isso foi a Jane Jacobs no seu fundamental e altamente influente livro, “Vida e Morte das Grandes Cidades”. Ela conta que, no começo do século XX, com o automóvel barateando, Le Corbusier e sua turma sonharam com uma “cidade-jardim”. As pessoas não precisariam morar perto do trabalho, porque poderiam se deslocar até lá em seus próprios veículos. Pra quem viveu nos já citados anos 70, respirando as titânicas nuvens de carbono dos escapamentos dos ônibus e carros mal regulados, a ideia pode soar ridícula, mas é porque, segundo a Jane, nunca tivemos que chafurdar em bosta de cavalo acumulada por ruas estreitas e fedorentas, sem ventilação ou árvores.

Além do mais, no século XIX, um prefeito de Paris, o Haussman, botou meia cidade abaixo pra criar bulevares arborizados, com casas devendo obedecer regulamentos não só de construção como de estética, e amplos, bem amplos (segundo muita gente, pra facilitar a movimentação de tropas pra reprimir as constantes revoltas populares parisienses). Que fica bonito é inegável, mas esse tipo de reforma acaba levando primeiro ao afidalgamento do lugar (gentrificação de cu é rola) pela valorização imobiliária e, subsequentemente, ainda que paradoxalmente, à decadência da área (a turma endinheirada acaba preferindo ir criar seus filhos em um lugar mais isolado, onde não tenha tanto barulho e movimento, deixando tudo pro comércio e pra serviços, o que torna o local deserto à noite, atraindo prostituição, tráfico, violência etc. Etc. - cf. Avenida Central, atual Rio Branco, aqui no Rio de Janeiro).

Mas, voltando ao Le Corbusier. Influenciado por Haussman, ele foi ainda mais radical. Livraria as massas da imundície e pestilência das fezes equinas e as levaria ao paraíso: blocos residenciais cercados de jardins e alamedas arborizadas, com enooormes ruas para o deslocamento dos veículos que levariam o povo a seu trabalho e às suas compras, em centros comerciais. Bem-vindos a Brasília e à Barra da Tijuca. Ou aos famosos “suburbs” americanos (1).

A Jane afirmava que esse tipo de urbanismo é típico de alguém que ODIAVA cidades. Pois o bom da cidade é justamente a mistura. A convivência com pessoas de outras camadas sociais, com outros objetivos na vida, com outro tipo de pensamento. Pra vocês entenderem, aquela coisa do jornaleiro que tomava conta pra você se o encanador ia chegar, o coroa dono do bazar/papelaria/loja de material de construção/armarinho/loja de brinquedos (sim, antigamente tinha muitas e muitas dessas lojinhas) que trocava seu cheque e por aí vai. É exatamente essa vivência que é o objetivo da cidade. O pessoal ia pra ela pra arrumar trabalho, aprender um ofício, abrir as ideias. Já que falamos de Paris, os pintores, escritores e afins iam todos pra lá no começo do século XX justamente pra ter contato com o pensamento de toda essa turma onde tudo estava acontecendo agora.

Não demorou muito pras pessoas descobrirem o que podia dar errado com esse urbanismo: grandes engarrafamentos, dificuldade pra sair do bairro pra fazer qualquer coisa e voltar (Barra, estou falando com você), tédio e degradação. Já em 1965 essa mulher (http://blog.modernmechanix.com/one-womans-confession-i-hate-suburbia/) reclamava de tudo: acabavam não indo para o sonhado clube ou golfe por falta de tempo, gasto nos congestionamentos; falta de entretenimento; falta de vida social ou cultural, porque ninguém tinha disposição pra ir até o centro: e, finalmente, voltando lá pro assunto inicial, sua preocupação com a sua filha adolescente atraída pelo filho do vizinho, que a mãe julgava superficial e materialista – mas com quem mais ela iria se enrabichar, se não conhecia ninguém, ou pelo menos ninguém diferente? (2)

A Constituição de 1988 acabou com esses limites de idade por causa de sua vocação antidiscriminatória. Ninguém deveria ser prejudicado por problemas físicos, religião, ideologia, orientação sexual ou... idade. Pra cima ou pra baixo. Afinal de contas, porque vedar acesso à magistratura de gente que já com 20 anos poderia passar num concurso pra juiz? Por falta de vivência, talvez.

Certo, certo, não vamos discordar que existem aqueles gênios superdotados que aos 14 anos já estão na faculdade (o que, aliás, costuma levar a gente que aos 30 anos não sabe o que quer na vida, conforme um documentário que vi há alguns anos, mas cujo linque não consegui achar). Mas Direito não é uma ciência exata. Leis não se aplicam com manuais, apesar do que possam querer fazer os leigos acreditar. E o Estado de Direito é muito mais complexo e exigente do que nós, nos inexperientes 20 anos, poderíamos pensar.

Um juiz tem que saber como a sociedade funciona e os limites de seus poderes e entendimento. O que é um conhecimento que 10 anos de advocacia ajudariam bastante a adquirir (ou piorar, mas aí são casos perdidos mesmo). Aceitar garotada de 20 e poucos anos que nunca trabalhou de verdade na vida e saiu da faculdade pra ficar em casa estudando prum concurso é como querer botar na magistratura astros do rock que gostam de demolir quartos de hotel enquanto cheiram todas ou jogadores de futebol que acham que craque é só o sujeito que faz muito gol ou dribla todo o mundo.

Descobrir como sentenças afetam as vidas de seus clientes, ser reprimido ou intimidado por juízes e funcionários, aprender a lidar com as pessoas e seus sentimentos, isso é um capital que não se adquire lendo livros ou aprendendo teorias. Até porque, na verdade, Direito é como História. O historiador não é aquele sujeito que decora todas as datas, até porque isso basta ver na enciclopédia. É na verdade o cara que entende como as coisas se desenrolam, a vida e a morte das civilizações, e pode até mesmo descobrir analogias que nos permitam prever o futuro. Do mesmo modo, o bom advogado – ou juiz - não é necessariamente aquele que sabe todos os artigos da Lei, mas que entende o que é justo e é legal e usa a lógica para aplicar esses conhecimentos a casos concretos. E só colecionando um monte de experiências e interações é que se pode chegar a uma verdadeira compreensão do que é justo e legal.

Também não vale nem a pena levar em conta que garotada tem mais tempo e concentração pra estudar. Passar num concurso tão jovem também pode levar a criatura a perder o hábito de aprender – sim, porque isso é um dos maiores problemas com nosso sistema educacional, quando realmente começamos a entender e a apreciar o que é aprender, somos jogados no mercado de trabalho, sem tempo pra isso. Gente que estuda o tempo inteiro, às vezes anos (1 ou 2 anos parecem uma eternidade quando se tem 20, lembram?), passa no que quer e depois pronto, não quer mais ver aquilo. Cristaliza seu conhecimento e não quer mais saber de nada.

As nossas bolhas chegaram à Justiça e criaram gente que chegou ao pináculo da profissão (3) ainda muito jovens. Não conhecem restrições, não têm ideia das consequências dos seus atos e não conhecem as pessoas. É assim que formamos gente que condena porque tem convicção, mas não provas, que acha justo que ninguém sequer investigue se algo assustou um policial e ele matou o cara, e que acha que qualquer um que queira, basta estudar e chega lá. Um amigo meu definiu bem, nós inventamos os juízes criados em cativeiro.



  1. Não vou traduzir porque o que chamamos de subúrbio é outra coisa completamente diferente. O dos americanos é aquela coisa que vemos em filme, um monte de casinhas com quintal, longe do centro, longe de tudo.
  2. Pra dar um pouco de tempero ao texto, vou contar que justamente esse isolamento e falta de entretenimento teriam dado origem à cultura do “swing” - a popular troca de esposas. Juntando-se a isso o tédio das mulheres, ainda não inseridas no mercado de trabalho e passando as tardes sozinhas em casa, com suas tarefas reduzidas por causa dos eletrodomésticos e refeições industrializadas (restos de refeição envolvidos em gelatina instantânea viraram um fundamento da culinária dos anos 50!, e começou a era das infidelidades, dos divórcios, e das festas da chave. Essa modorra existencial levando a sexo casual foi o tema de vários filmes eróticos (não pornográficos, até porque nem rolava na época) de Joe Sarno, hoje em dia um cultuado diretor, considerado um autor cinematográfico. Confira a sua obra-prima, “Sin in the Suburbs”. Pode começar com esse trecho no VocêTubo, pra depois ver se tem coragem de me dizer que o Kubrick não assistiu a essa fita.
  3. Na verdade, um advogado realmente bem-sucedido ganha mais – e pode amealhar bem mais poder – do que um juiz. O que causa muitas rivalidades quando dois grandes egos se encontram, um de cada lado da tribuna.

agosto 26, 2019

Os Homens que Odiavam as Mulheres II

Tem um episódio dos Simpsons em que o Homer faz amizade com o dono de um antiquário algo excêntrico e ele até começa a frequentar a casa deles. Tão amigos eles ficam que a Marge, achando estranho essa demonstração de mente aberta do marido, tenta avisá-lo sobre a orientação sexual do sujeito. Depois de tentar inutilmente várias metáforas, ela fala, “acho que ele prefere a companhia de homens”. Ao que o Homer ri, com aquela risada profunda do soberbo dublador original, responde, “ora, e quem não prefere?”

No mundo mais careta e binário, onde meninas vestem rosa e meninos vestem azul, estes últimos não têm muito estímulo pra ter amigas. Elas só falam de bonecas, não praticam esportes, não gostam de armas, não gostam de pescar, curtem moto, mas só pra andar na garupa, e preferem carros confortáveis a enormes jipossauros. E têm que cozinhar, cuidar dos filhos e da casa. Não são boa companhia pra sair, tomar umas cachaças e ficar falando de mulheres e filmes de ação.

O problema é que vivemos numa sociedade machista. E a principal constatação dessa nossa sociedade machista é que o sucesso de um homem é medido pelas mulheres que ele é capaz de arrumar. Dinheiro? Você precisa até uma certa quantidade – depois do suficiente pra poder viver sem ter preocupações financeiras, não faz tanta diferença assim. Embora teste de QI não seja tão confiável assim, vários estudos já apontaram que os rendimentos de uma pessoa correspondem ao seu QI até um certo patamar. Depois, começa a cair. É como se a galera mais cabeça achasse que depois dessa barreira, o esforço não vale a pena.

Não, dinheiro é na verdade um indicador que você é um macho atraente. Até o Trump diz isso com todas as letras em sua biografia. O importante não é o dinheiro que você ganha num negócio, o importante é levar a melhor num negócio. O dinheiro é só a medida disso. Não adianta você ter dinheiro e não ser um vencedor. E você só é um vencedor se arrumar a mulher certa.

Essa ideia é tão entranhada em nossa sociedade que as vivemos e experimentamos o tempo todo sem nos darmos conta. Nos filmes e livros, a recompensa do herói é no final conseguir a mocinha, principalmente se for um jovem solitário e incompreendido numa história de fantasia (inclusive se de repente ele for declarado por alguém que chega de repente que ele é o escolhido pralguma coisa, embora nunca tenha demonstrado nenhuma qualidade de liderança). Certa vez, levei uma amiga mexicana minha, punk, feminista, daquelas de me chamar a atenção o tempo todo, pra visitar o Museu Imperial de Petrópolis. Contei-lhe como Pedro II, ultimamente redescoberto como um monarca progressista, o imperador cidadão, o imperador filósofo, manteve o Brasil unido e relativamente estável enquanto a nação se consolidava. Mas, ao ver o busto da Teresa Cristina, ela comentou, rindo, automaticamente, “nossa, a mulher dele era feia”.

Assim se cria um veeeelho paradoxo da nossa sociedade, ultimamente relevado com a chegada da internet. Criamos um monte de garotos e homens que não gostam da companhia de mulheres, mas precisam delas pra garantir respeito. Gente que não gosta verdadeiramente de sexo, mas precisa fazê-lo. Existem milhões de maneiras de se usar seu corpo pra se ter um orgasmo, por várias vias. O que diferencia a relação sexual é justamente a palavra “relação”. No entanto, se usado pra comprar respeito (isso fica pra outra postagem), se torna algo vazio e vago.

Você deve conhecer o tipo. Aquele que só fala de mulher, julga a mulher dos outros, mas quando você aparece no aniversário dele, só tem homem. Aquele que te pergunta como é que você não se entedia viajando sozinho. Aquele que fica contando das conversas no aplicativo de pegação como se tivesse realmente pego alguém. Também são sujeitos que contraintuitivamente gostam de falar mal da promiscuidade da sociedade. O que eles entendem como promiscuidade muitas vezes é só um sexo casual, mesmo daqueles afetuosos, porque eles simplesmente não têm amigas casuais, ou relacionamentos afetivos com gente do outro sexo que não envolvam “quero te comer”.

Isso tudo, obviamente, pra falar do Inominável. Seus filhos estão sempre fazendo postagens acompanhados de outros amigos, varas de pescar, fuzis e afins. Casam-se, mas parecem nunca ter tempo prum programa a dois – sair pra dançar, prum show, pra passar pela cidade. Quem acompanha as viagens e os compromissos do Inominável pode ter a impressão de que ele é casado com o Hélio Lopes. Pelo menos estão sempre almoçando juntos, passeando juntos. Não é de se admirar, Hélio Lopes provavelmente entende mais de pesca, tiro e futebol do que qualquer mulher do clã. E, é claro, não é bom ficar levando a mulher pra passear por aí, pra se arriscar a alguém roubá-la. Vocês devem estar lembrados daquela nebulosa história do buquê de flores do Joesley pra Marcela Temer, envolvendo um avião ou algo parecido. Muito pior do que não arrumar uma mulher atraente é alguém passar a mão nela na sua frente. Aliás, é bom que ela não goste muito de sexo exatamente por isso. Pode querer variedade.

Você pode julgar o Macron. Pode dizer que, se os sexos fossem trocados, todo o mundo ia achar a história esquisita. Mas a graça é justamente que os sexos estão trocados. Ele é que é o homem poderoso. Não é uma jovem menina em busca de fortaleza e proteção como a sociedade diz que ela só vai encontrar em uma figura masculina de autoridade, mais velha e respeitável. E, pelo menos, eles estão sempre juntos. Por mais que seja um recurso publicitário, temos imagens deles de mãos dadas, comparecem a eventos e cerimônias um acompanhando o outro. Parece um relacionamento. Parece um casamento. Parece que o Macron não está entediado por ter que conviver com uma criatura chata pra poder ter seu lugar no mundo. Não parece que ele seja um incel, reclamando da liberdade sexual feminina que faz com que elas não deem pra eles, apesar deles serem legais e bons em videogame. Parece que eles conversam.

Parece que eles vivem, fora de um mundo de ganhar dinheiro e respeito.

janeiro 13, 2013

Agora é Oficial: Os EUA Não Vão Construir a Estrela da Morte




Como os nerds estão dominando o mundo e começando a nos fazer sentir falta dos valentões, lá na Nerdland (também conhecida como USA) eles juntaram assinaturas suficientes pra uma petição oficial requerendo a construção de uma Estrela da Morte. Isso aquela de Guerra nas Estrelas. O que gerou uma RESPOSTA OFICIAL DA CASA BRANCA (e isto não é pegadinha da internet):

 - The Administration shares your desire for job creation and a strong national defense, but a Death Star isn't on the horizon. Here are a few reasons:

- The construction of the Death Star has been estimated to cost more than $850,000,000,000,000,000. We're working hard to reduce the deficit, not expand it.

- The Administration does not support blowing up planets.

- Why would we spend countless taxpayer dollars on a Death Star with a fundamental flaw that can be exploited by a one-man starship?

Leia o texto completo nesta reportagem da Wired. Dica: é um grande (e amistoso) "get a life" pros nerds.

janeiro 09, 2013

A Inveja é uma Merda

Segundo este estudo americano, quem ganha 10% a menos do que seus vizinhos tem 4,5% de chances a mais de se suicidar.

dezembro 10, 2012

Numerais Arábicos e Sensores Digitais

Estou assistindo a um documentário num canal chamado Curta! que está com uma grade experimental na GVT. Vou curti-lo antes que comecem a entupir sua programação com coisas como "vida de caixeiro-viajante - Paul Strumble roda os Estados Unidos em busca do melhor preço - mas na maioria das vezes o que ele encontra é uma boa história!". Ou "Contos de Contador - Willie Bumper e sua firma de contadores têm uma montanha de números pela frente - mas o pior são os clientes!". Mas, por enquanto, ainda sobrevivem séries realmente interessantes e a que está passando é "A História da Matemática".

Neste episódio, o apresentador conta a chegada dos numerais arábicos à Europa através das mãos de Leonardo di Pisa, ou Fibonacci. Inicialmente eles foram olhados com muita desconfiança porque, sendo tão fáceis de usar, poderiam ser aplicados em fraudes de maneira igualmente fácil. O que mostra que desde a Idade Média as pessoas já confundiam o instrumento com a arte e a arte com o artista.

Mas esse aí acima não era o único entrave. As autoridades temiam também que sua simplicidade desvelaria a fachada assustadora da matemática para as massas e minaria o poder da elite. Também fica claro que desde a Idade Média já se usava o conhecimento e a educação como instrumentos de opressão, sendo esse um dos motivos pelos quais desconfiamos da polidez. É por isso que sempre que você ouvir alguém ficar falando que é um romântico que preferia muito mais fotografar com filme ou fazer animação à mão, ou ouvir um vinil, mantenha-se em guarda. Provavelmente é um caso claro de elitismo. Um conhecido meu, fotógrafo premiado do Globo, já dizia no início do século XX, ele conhecia profissionais que eram capazes de, com cuspe e Coca-cola, revelar um filme em quinze minutos num elevador. E isso atualmente não serve pra porra nenhuma.

Tudo que facilita o acesso do público em geral ao conhecimento, à educação e à arte é olhado com profunda desconfiança e desprezo. A internet, quando começou a aparecer, no meio dos anos 90, por exemplo, era encarada como instrumento de alienação (!!!!!!!) por muita gente, principalmente hippies que eu conhecia. Já hippies mais argutos, como Jerry Garcia, logo de cara viram o potencial democratizante daquele troço que podia transformar qualquer pessoa num meio de comunicação de massa.

Durante anos, a simples capacidade que eu tinha de tirar fotos claras, nítidas, bem expostas e coloridas  impressionou as pessoas. Mas, com a rápida evolução das câmeras digitais, qualquer um com um bom telefone pode fazer imagens com essas características. Como você acha que quem vive disso encara a coisa? A arte da fotografia mudou e tinha muita gente que não estava disposta a ter que reaprender tudo que sabia. Veja como fotos de casamento são hoje em dia - afinal de contas, qualquer um pode tirar um retrato da noiva com qualidade. Num ambiente desses, é preciso mais do que simples conhecimento da técnica para se destacar. É preciso qualidade. É preciso talento. É preciso ter o que dizer, já que a forma está à disposição de todos. Já que a tabuada pode ser ensinada a crianças ainda no primeiro ano do fundamental.

dezembro 09, 2012

Como o Mundo Mudou


Já no último Dia do Trabalho americano (o qual, pra manter o costume, é numa data diferente daquela do resto do mundo), o líder republicano na Câmara, John Boehner, tuitou que aquele era o dia em que se celebravam aqueles que empreendedores que corriam riscos e criavam empregos.

novembro 08, 2012

Criatividade

Vendo um programa do Discovery ontem, me lembrei de uma história que me aconteceu quando eu tinha 10 anos. Estava na 5a. série e tinha acabado de entrar no São Bento, saído de um colégio, o Cristo Redentor, onde uma velhinha e sua irmã adaptaram a casa pra virar escola. E que não tinha nada de tempos divididos em disciplinas e coisas assim - era uma só professora pra turma toda o tempo inteiro, aquele negócio bem anos 50. Pois bem, estava eu na aula de história, no começo do ano, e o professor, o Márcio, estava explicando as eras geológicas e o surgimento da vida na Terra. Eu levantei a mão e perguntei se a vida não poderia ter vindo de outro planeta. Ele não entendeu, eu expliquei, quem sabe num meteoro? Pois o Márcio, sei lá por causa de qual frustração, resolve humilhar um garoto de 10 anos que vinha de um ambiente completamente diferente e se sentia completamente intimidado na frente da turma toda: "ah, claro, claro, os dinossauros estavam todos num asteroide, ele parou e eles saltaram todos aqui na Terra".

A história me veio à cabeça porque, como todo nerd fã de Superinteressante e Discovery sabe a esta altura, a comunidade científica chegou mais ou menos a um consenso que a vida surgiu rápido demais na Terra. E a teoria mais moderna a explicar o fenômeno é de que moléculas orgânicas - ou mesmo microrganismos - teriam chegado aqui originariamente a bordo de meteoros.

O São Bento é o melhor colégio do Brasil. O Márcio faltava muito, a ponto de, no ano em que deveria ter nos ensinado toda a Antiguidade, parar no começo dos gregos. Depois ele descobriu que eu era o melhor aluno de história da turma. No ano seguinte, ele chegou a um ponto que me pedia amigavelmente para sair da sala pra poder dar aula. Não me mandava pra Secretaria, falava pra eu ir pra biblioteca, ou jogar bola (e não aprendi até hoje!). Mesmo assim, não satisfeito em ter o pensamento completamente bitolado e incapaz de pensar por si próprio, ainda se satisfazia com assédio moral a crianças - o que hoje chamaríamos bullying.

Já no segundo grau cheguei a ter um professor que também me pagou um esporro porque perguntei algo que não fazia parte do programa da matéria - que eu estava demonstrando mera curiosidade, quando deveria me concentrar mais no estudo. É por esta e outras que hoje em dia quando vejo na internet ou no caralivro professores reclamando que hoje em dia os alunos mandam e desmandam em cima deles, eu não consigo sentir nenhuma simpatia. Muitos me foram importantes pra me ensinar a pensar, principalmente dom Irineu, que pôs já aos 10, 11 anos todos os fundamentos da lógica ao dispor do meu pensamento. Mas a parte mais fraca na relação são os alunos - era ridículo ver na caderneta a enorme lista de "Deveres do discente" e a minúscula de "direitos" dele. Entre um adulto formado e experiente e um garoto mais sensível à intimidação, ameaça e assédio moral, meu instinto em ficar do lado mais fraco me alia ao último. Afinal de contas, quem tem a cabeça mais capaz de entender o mundo em sua própria época é justamente o moleque.

julho 24, 2012

Seus Olhos e a Luz (1)

Outro dia alguém postou no Google+, "para onde a gente vai quando fecha os olhos?"

Não é isso que interessa. O que interessa é praonde a gente vai quando ABRE os olhos. Nós pensamos que o que vemos é o mundo, mas não é. É apenas informação recolhida pelos olhos e montada pelo cérebro. Nosso cérebro não sabe como é o mundo antes de pela primeira vez abrirmos os olhos. Não tem um exemplo sobre como montar o que vemos. O mundo que pensamos que vemos é apenas o mundo que imaginamos. Nossa imaginação. Não fazemos a menor ideia de como as outras pessoas enxerguem o que as cerca. É por isso que é tão difícil fazer um computador "ver", entender o que está vendo.

Então, a expressão "estou entrando nessa de olhos abertos" simplesmente não significa nada. Quando fazemos isso estamos apenas mergulhando cada vez mais fundo na nossa imaginação.

(1) Era o nome de um kit brinquedo educacional da CLIC!, uma loja cheia dessas coisas na época da minha infância. Antes que alguém ache que devia ser uma chatice, era um livro que explicava como os olhos processavam a luz e vinha com material para fazer uma câmara escura (com lente e tudo), um óculos 3D (raro, naquela época), um disco de Newton, um caleidoscópio e até mesmo a receita pra fazer arco-íris. Outro brinquedo em que me amarrava era "Polícia Técnica", que entre outras coisas ensinava a capturar impressões digitais.

julho 11, 2012

Inteligência Artificial é o Caralho, Meu Nome é Mgonz

Desde os anos 70 a inteligência artificial está à porta. Num prazo que normalmente importa em 20 anos a partir da previsão, a humanidade estará lidando com computadores realmente inteligentes. O ano 2000 vivia sendo citado (tanta coisa ia acontecer em 2000...). Mas a inteligência mostrou-se mais fugidia do que os cientistas pensavam. Não basta ter um computador com um poder de processamento pantagruélico, é preciso que ele tenha consciência - e nem exatamente sabemos o que é consciência.

O problema é que o pensamento, entre outras coisas, não é uma entidade separada do pensador. Não basta existir, é preciso querer fazer algo da existência para se dar ao trabalho de pensar. Quando surgiram as primeiras moléculas orgânicas, algumas se deram conta de que não estavam sós, que havia partículas ao seu redor que poderiam ser consumidas e elas poderiam então se reproduzir. Já outras não se deram a esse trabalho. Dependendo da sua visão de mundo, elas podem ter se mantido em harmonia com a grande perfeição celeste e ficado quietas e eternas, em estado de harmonia e integração com o todo, ou podem ter sido egocêntricas e narcisistas, incapazes de amadurecer e trazer ao mundo a imperfeição que chamamos de vida que é o que dá sentido ao Universo (qual o som de uma árvore caindo na floresta quando não há ninguém para ouvir?

O desejo, o medo da morte, a sensação de incapacidade de realmente compartilhar, coisas como essas são o motor de nossa consciência. Se as máquinas não tiverem emoções, qual o seu estímulo para pensarem? Sem isso, o máximo que se vai conseguir é fazê-las ficar até tarde assistindo Big Brother e sitcoms. O corpo é parte inseparável da mente. Sem fome, luxúria, amor, ódio, quanto duraria a sensação de "eu"? Quanto tempo um cérebro duraria mantido vivo dentro de um tubo, como naquelas ficções científicas vagabundas, sem um estímulo sensorial, sem uma possibilidade real de voltar a ter um corpo e experimentar o mundo? Alguns pensadores acreditam que simplesmente não existe possibilidade de inteligência artificial PORQUE OS COMPUTADORES NÃO SÃO CAPAZES DE SONHAR!!!! (E quando digo pensadores, é porque são cientistas e pesquisadores respeitados e não gurus de autoajuda ou blogueiros palpitando em assuntos dos quais têm vagos conhecimentos superficiais de segunda mão).

Por isso a inteligência artificial ainda tem muito que percorrer para conseguir passar no teste de Turing. Alan Turing, o homem que desvendou o código alemão na II Guerra Mundial e depois foi perseguido por ser homossexual, vaticinou que uma máquina só poderia ser certificada como artificialmente inteligente se, num diálogo com um interlocutor humano com quem não tivesse contato físico (normalmente através de chate de computador em salas separadas), pudesse passar por gente também. Até hoje ainda não surgiu aparelho capaz de tal façanha.

Mas existem vitórias isoladas. Neste artigo, por exemplo, cita-se o programa Mgonz. Mgonz não era tão sofisticado quanto o famoso (e velho) analista artificial (também citado na matéria), que tenta iludir seu interlocutor (e não realmente agir como um humano) repetindo o que ele fala em forma de pergunta e com subrotinas que disparam à menção de palavras-chave de psicanálise - "pai", "mãe", "ódio" e assim por diante (1).

Mas o Mgonz está longe dessa sofisticação. Na verdade, basicamente tudo o que ele faz é ficar insistindo numa pergunta e depois insultar o interlocutor. E, por incrível que pareça, é um dos maiores pontuadores no teste de Turing (!!!)

mgonz: when was the last time you had sex
someone at drake: yesterday.
mgonz: ok honestly when was the last time you got laid
someone at drake: i told you it was yesterday.
mgonz: you are obviously an asshole
mgonz: ok honestly when was the last time you got laid
someone at drake: ok ok it was over 24 hours ago. for you it must have been 20 years

O Roger, com quem comentei esse caso, lembrou do primeiro Exterminador do Futuro, quando ele está num hotel pardieiro qualquer consertando o olho e um vizinho (ou gerente) pergunta através da porta o que está acontecendo. Várias opções surgem para o Schwarzenegger escolher e ele decide justamente pelo insulto, o que deixa o outro sujeito satisfeito. Enfim, ou isso diz muito sobre nossa raça ou os Três Patetas são a força cultural mais importante da nossa atual sociedade. Talvez esse seja outro dos motivos pelo qual temos uma certa desconfiança automática de gente muito educada.

Insultos e ofensas também são normalmente a expressão de nossas emoções mais violentas. Ou seja, estão definitivamente ligados à nossa inteligência. Animais não insultam - fazem demonstrações de força e tamanho. Só nós é que provocamos gente maior do que nós. Que xingamos quem amamos. Que insultamos na hora do elogio. Talvez as máquinas não estejam tão erradas assim. Talvez Mgonz e o Exterminador do Futuro é que saibam das coisas.

(1) Um exemplo (em inglês) do terapeuta automático. Clique aqui para outros exemplos, inclusive uma conversa dele com um simulador de paranoico, o Parry.


young woman: Men are all alike.
eliza: In what way?
young woman: They're always bugging us about something specific or other.
eliza: Can you think of a specific example?
young woman: Well, my boyfriend made me come here.
eliza: Your boyfriend made you come here?
young woman: He says I'm depressed much of the time.
eliza: I am sorry to hear you are depressed.
young woman: It's true. I'm unhappy.
eliza: Do you think coming here will help you not to be unhappy?
young woman: I need some help, that much seems certain.
eliza: What would it mean to you if you got some help?
young woman: Perhaps I could learn to get along with my mother.
eliza: Tell me more about your family.
young woman: My mother takes care of me.
eliza: Who else in your family takes care of you?
young woman: My father.
eliza: Your father.
young woman: You are like my father in some ways.
eliza: What resemblance do you see?
young woman: You are not very aggressive but I think you don't want me to notice that.
eliza: What makes you think I am not very aggressive?
young woman: You don't argue with me.
eliza: Why do you think I don't argue with you?
young woman: You are afraid of me.
eliza: Does it please you to believe I am afraid of you?
young woman: My father is afraid of everybody.
eliza: What else comes to mind when you think of your father?
young woman: Bullies.
eliza: Does that have anything to do with the fact that your boyfriend made you come here?[7]





junho 24, 2012

Sobre Religião

Apresentação para o projeto da minha peça infantil baseada em Paraíso Perdido, de John Milton


Em “O Poder e a Glória”, de Graham Greene, quando o militar ateu confronta o padre corrupto perguntando onde estão os milagres, o sacerdote responde perguntando se ele já testemunhara um homem se levantando dos mortos. Porque ele já vira, mas numa sociedade eminentemente racional, o miraculoso rapidamente é explicado e se torna apenas um lugar-comum. Feitos que em outras eras  assombrariam e maravilhariam as pessoas tornavam-se assim mais um acontecimento rotineiro num mundo racional e previsível.

Greene escreveu sua obra nos anos 30, quando a era industrial já havia chegado à guerra globalizada, mas antes das guerras Segunda e Fria. Previsivelmente, num mundo de milagres trazendo cada vez maiores incertezas quanto à sobrevivência e disparidades crescentes, a reação viria através de um irracionalismo extremado. Some-se a isso uma sociedade cada vez mais complexa e especializada, em que provavelmente as melhores mentes da geração seriam incapazes de sobreviver fora do ambiente em que cresceram, com sua inabilidade no domínio de técnicas e serviços essenciais, porém desvalorizados. O resultado é o crescimento de um pensamento religioso  voltado para a magia e a submissão (não por coincidência o significado de Islã).

Sentindo-se impotentes frente a um mundo complicado demais para ser entendido e, ao mesmo tempo, rotineiro e previsível, nada mais natural que as pessoas busquem quem lhes prometa direção e magia – literalmente. Mais e mais vem crescendo as seitas voltadas a uma ideia básica de religião, repleta de ritos mágicos, exorcismos, milagres encenados, excesso de entusiasmo e, principalmente, com a promessa de um deus supremo com poderes similares ao de Papai Noel: se você for bonzinho, ao fim de sua vida, irá para o Céu; se for mau, para o Inferno, onde será castigado. Em suma, um super-heroi onipotente que, estranhamente, permanece inerte frente ao sofrimento indiscriminado de pecadores e inocentes – e que parece ter uma inegável predileção pelos mais poderosos.

Assim, para grande parte das pessoas, o milagre é algo sobrenatural, a indicação de um poder que pode ser canalizado para ajudá-las a atravessar este vale de sombras e lágrimas. E essa ideia de religião atrai o desprezo e o escárnio de qualquer pessoa mais esclarecida. E tudo isso quando nenhum dos dois lados consegue enxergar a maior das maravilhas: o simples fato de que existe alguma coisa em vez de nada.

A moderna ciência neurológica afirma que não podemos nem de longe aspirar a uma verdadeira noção da realidade (seja ela o que for – informação, um holograma, matéria e energia). Vivemos em um universo virtual criado no nosso cérebro com dados fornecidos pelos nossos sentidos. Somos então, cada um de nós, um universo ambulante. Criamos a cada pensamento todo um cosmo. A maravilha que é a existência nos permeia e nós a permeamos. Como já dizia a missa católica, como já dizia Spinoza, Ele está no meio de nós. Se o inferno são os outros, os deuses somos nós. E nossos  universos são nossa responsabilidade, não de mais ninguém. Nossa responsabilidade para que eles contribuam para o todo.

E é esta a verdadeira religião. A religação com Deus – o nosso próprio universo e o todo. Não é o dinheiro que é a raiz de todos os males, é o egoísmo, o egocentrismo – que é a raiz inclusive do dinheiro. É o nosso egoísmo, o impulso de acumular prestígio, bens materiais, parceiros sexuais, que nos levam a agir contra os outros. Numa irracional corrida para preservar nossos genes e legar a eles condições para prosperarem, destruímos aqueles que poderiam nos ajudar e até o planeta. É a incompreensão de que somos todos parte de uma grande comunidade, de algo maior do que nós mesmos, que nos sobreviverá mesmo quando nossa herança genética já estiverem tão misturada e degenerada a ponto de ser irreconhecível. Qual a relevância dos genes, por exemplo, de John Milton, frente à permanência de sua obra portentosa em nossa cultura e mentalidade?

E assim, quanto mais nos afastamos do todo para buscar nossa sobrevivência, mais caminhamos rumo à destruição. O inferno não é um subterrâneo flamejante ou os outros, mas apenas a ausência de Deus. A ausência do todo. Ninguém sobrevive isolado. Ninguém vence na solidão. Como já dizia Donne, a morte de qualquer homem nos diminui, pois somos parte do gênero humano.

Religião é muito mais do que simplesmente comportar-se e esperar uma medalhinha depois que todo vigor já tiver abandonado o corpo. Não existe bem ou mal, mas caminhos que nós mesmos decidimos seguir e que poderão nos trazer prazer e satisfação ou desejos cada vez maiores e mais insaciados. Mesmo a tecnologia pode prolongar a vida e sua qualidade, mas a verdade é que ao fim até o cisne morre. E só há uma maneira de ultrapassar esta barreira de onde viajante nenhum jamais voltou.

“O Paraíso Perdido” é uma peça infantil e bem-humorada, mas mantém na essência o questionamento de John Milton. Nós somos nossos próprios guias, nós escolhemos nossos caminhos. E encontrar Deus ou a Escuridão não decorre de quantos pontos se faz na listinha dos Dez Mandamentos, mas uma consequência de como levamos nossa vida – atos, não palavras. Frente a nós, frente aos outros, frente a todos, frente ao todo. Frente a Deus.

março 28, 2012

O Humorista Passou Desta Para a Millor

Estava feicebucando com uma amiga sobre a morte do Millôr. Como eu, ela dizia que quando mais moleca achava o sujeito muito talentoso, mas lendo hoje as frases pinçadas que republicaram a não mais poder nos blogues por aí, parecia um tanto bobo.

Meu apreço juvenil por ele veio de um volume que pincei no Círculo do Livro porque dizia que era "humor", a coletânea TRINTA ANOS DE MIM MESMO. Embora houvesse algumas boas piadas, a maioria das coisas me pareceu inteligente demais pra mim. Se suas frases e posturas hoje não soam tão profundas ou reflexivas assim, é porque, graças a ele, o humorismo brasileiro avançou muito dos anos 60/70 (o auge dele) pra cá.

Tome-se por exemplo Chico Anysio, outro craque da graça que partiu ainda há pouco. Sim, ele era talentoso, sim ele era prolífico, mas a maioria de suas piadas poderia muito bem estar no roteiro de programas de rádio dos anos 50. A Escolinha do Professor Raimundo, com sua misoginia e imediato desrespeito a tudo que fosse diferente da norma, pra não falar do antiintelectualismo corporificado na ridicularização do bom aluno, era típica dessa corrente. Não por acaso era povoada de velhos comediantes, alguns dos quais o Chico tentava ajudar. Com décadas de experiência de tempo cômico cinzelado exatamente para esse tipo de espetáculo, não era de se espantar que fizesse sucesso.

Já Millôr fazia parte do povo que nos anos 50 (e principalmente 60) renovou o humor brasileiro, com pelo menos tanta influência quanto teriam trinta anos depois Marcelo Tas e a galera do Casseta & Planeta. Saíam os alvos fáceis - negros, mulheres, gays, pobres, deficientes físicos - e entravam as ansiedades da (aqui) emergente sociedade de consumo de massa. A ilusão do sucesso, a liberação da mulher, a hipocrisia conservadora, a religião, as preocupações ocas da burguesia passavam a assumir o papel de vidraça. Com coisas como trocadilhos, os dicionários propondo significados literais das palavras (tais como "patologia - estudo dos anatídeos"), e vocábulos que assumiam as formas (ou os conceitos) que exprimiam, essa nova geração até mesmo desconstruía a realidade exatamente como a contracultura que surgia (pelo menos aqui) concomitantemente (adoro esta palavra - soa côncava).

Essa galera era a primeira advinda da classe média urbana que surgia no Brasil, com uma bagagem de erudição disponível exatamente pra quem tem grana (e tempo) suficiente pra ter acesso a cultura, sem o excesso que leva aos excessos de um Thor Batista ("eu nunca li nenhum livro"), por exemplo. Era a turma de Jaguar, Leon Eliachar, Fortuna, Sérgio Porto e outros.

Esse humor teve uma importância fundamental na criação daquela juventude rebelde, hippie, anarquista e punk que viria depois. Muita gente importante já declarou que, por exemplo, a revista MAD (bem como as revistas de terror da EC) que primeiramente lhes abriu os olhos para as contradições e a hipocrisia daquela sociedade classe média suburbana nadando em inédita fartura que surgia no mundo ocidenal no pós-guerra.

Como todo autodidata provido de humor intelectual, Millôr na maturidade virou um velho rabugento. Suas frases podem parecer não tão espertas assim e coisas como suas outrora famosas (e estudadas em sala de aula) Fábulas Fabulosas podem soar completamente sem graça, mas sempre podem se encontrar pérolas ainda muito reluzentes e pertinentes em sua obra ("houve um tempo em que os animais falavam. Hoje em dia muitos escrevem"; ou seu desenho com lindas flores e passarinhos cantando com um arco-íris ao fundo e a legenda "tempos de grande opressão são tempos de grandes sutilezas" - para).

O blogueiro lembra também da entrevista que fez para o Pasquim nos anos 70 (com a turma toda) com Betty Friedan. Enquanto todo mundo bajulava a pensadora feminista, Millôr foi o único a desafiá-la (ela praticamente o chamou pra briga ali mesmo) (1). Enquanto isso, Paulo Francis, o sujeito que nos anos 80 e 90 se tornaria um tremendo apóstata antifeminista ficava desesperado com a deselegância do colega, vez e outra insistindo que ali estava uma tremenda intelectual, respeitada no mundo inteiro, famosa e conceituada e que não podia ser tratada daquela forma.

O blogueiro sequer conhece a obra da veneranda antifeminista, mas, a princípio, tem simpatias por ela, mas o episódio só faz crescer o Millôr a seus olhos porque el, menos do que um revolucionário, sempre foi um contestador - e Betty Friedan naquela época era uma unan"imidade intelectual. Em assuntos como ecologia, por exemplo, Millôr sempre foi conservador. E, embora se opusesse à ditadura e fosse intrinsecamente antiautoritário (POLICIAL: "então se eu achar que um marginal está ameaçando o senhor, devo permanecer quieto?" ENTREVISTADOR: "morrer é um direito nosso"), nunca abraçou o marxismo ("eu sou trotskista" - Paulo Francis, em O AFETO QUE SE ENCERRA). Ele nunca foi um autodidata inseguro que buscava desesperadamente uma legitimação intelectual como Francis, em sua vida posterior.

(1) Não que o blogueiro tenha algo contra a veneranda feminista - nem conhece a obra dela, na verdade. A admiração é pela coerência de Millôr, face à covarde guinada que o Paulo Francis teve quando foi morar nos EUA, ganhar em dólar e aparecer na tevê.

janeiro 31, 2012

Hoje na História

Antes de chegar na data de hoje, um longo parêntese:


O Crime do Poço





Em 1948, aos 26 anos, Paulo Ferreira de Camargo era Professor de Química na USP. Um feito e tanto hoje em dia, na época então, quando as pessoas se formavam mais tarde, devia ser um indicador da inteligência do sujeito. E, como todo sujeito inteligente interessado em ciências, a fama de cientista louco deve ter ajudado a mascarar suas aparentemente pequenas esquisitices. Uma delas era visível nas escadas do Departamento de Química da universidade. Rachaduras na parede, se examinadas mais de perto, revelavam-se causadas por tiros. Foram encontrados também nos armários equipamentos para as aulas destruídos por balas.



Quando se descobriu que estava frequentando a universidade armado, Paulo Camargo assumiu a autoria dos tiros. Alegou que fizera experiências sobre as reações químicas entre a pólvora e substâncias químicas em balões de ensaio e outros materiais. O professor chegou a ser interrogado na delegacia, mas como em 1948 São Paulo ainda era uma cidade tranquila, foi liberado sem maiores delongas. Foi assim que a polícia não ficou sabendo que ele vinha insistindo com seu chefe no laboratório, dr. Hoffman, sobre quais os melhores preparados para corroer cadáveres humanos. Paulo simplesmente voltou para a casa térrea na rua Santo Antônio, quase esquina com 9 de Julho, onde morava com a mãe, Benedita, e duas irmãs, Maria Antonieta e Cordélia.

A polícia também ignorou a denúncia de um vizinho de Paulo, igualmente químico, sobre um poço que ele mandara escavar em fins de outubro no quintal de sua casa. O professor contratou dois pedreiros que em um dia escavaram cinco metros e receberam 2 mil cruzeiros pelo serviço. Para quem perguntasse, Paulo simplesmente explicava que pretendia começar a fabricar adubo e precisava da obra porque água encanada não servia para esse fim.


Alunos de uma faculdade de comunicação paulista simulam uma cobertura televisiva de época (na verdade a tv só chegaria ao Brasil em 1950) para o Crime do Poço

A 5 de novembro, Paulo disse aos vizinhos que iria viajar com a mãe e as irmãs para o Paraná.
Alguns dias depois voltou e informou que sua mãe e suas irmãs teriam falecido em um acidente de carro na viagem.

O desconhecimento de outros parentes sobre a viagem e sobre o acidente, a falta de um funeral e a estranha tranquilidade de um vivente que perdera a família inesperadamente de uma só vez chamou a atenção dos vizinhos. Além do mais, uma das irmãs, Cordélia, não aparecia no trabalho desde o dia 4 de novembro e não informara a ninguém sobre visita alguma ao Paraná. Desta vez a polícia compareceu ao local determinada a uma investigação.

Os policiais revistaram a casa sem encontrar nada incriminador. Ao verem o poço, resolveram escavá-lo, solicitando ajuda do Corpo de Bombeiros. E o macabro resultado da busca foi a revelação de que ali era a tumba dos cadáveres da mãe e das irmãs de Paulo. Os três corpos tinham panos na cabeça e estavam de cabeça para baixo, pois foram jogados de cima pelo professor.



A investigação revelaria que no dia 4 de novembro Paulo matara a tiros a mãe e a irmã Maria Antonieta entre 9h00m e 10h00m e calmamente esperara por sua irmã Cordélia - a metrópole ainda era não era histericamente globalizada e as pessoas tiravam longos intervalos de almoço durante os quais voltavam para casa para uma tradicional refeição com a família. Depois de igualmente assassiná-la ele dispôs dos cadáveres no poço do fundo do quintal.

Revelados os corpos, Paulo pediu licença aos policiais para ir ao banheiro. Com a casa cercada e sem saída alguma daquele aposento, ele obteve a permissão. Instantes depois ouviu-se um tiro. Ao ser arrombada a porta, encontrou-se o corpo ensanguentado de Paulo, que pegara uma garrucha no caminho ao toalete e se suicidara para evitar o julgamento.



O suicídio de Paulo deixou a principal pergunta sem resposta: por quê? Aparentemente o doutorando em química era viciado em ópio e sofria de problemas mentais. Assim como ele, sua mãe Benedita e sua irmã Maria Antonieta também pareciam atacadas do mesmo mal e o professor não queria ter que arcar com a responsabilidade de cuidar delas. Havia também Isaltina dos Amaros, de 23 anos, enfermeira e ex-balconista, por quem Paulo estaria enamorado. Embora longe de sua época de fausto, sua família era quatrocentona, paulistana tradicional, e teria se oposto ao seu envolvimento com uma plebeia sem berço. Foi esta a visão encampada por Oswald de Andrade, que escreveu vários artigos na "Folha da Manhã" sobre o crime, aproveitando, como sempre (embora dessa vez algo equivocado) para esculhambar com o conservadorismo:

“Com a violência da censura ancestral, Paulo viu agigantar-se diante dele a família inútil. A
psicogênese do crime evidentemente já trabalhava o seu inconsciente. Chegou um momento
em que ele gritou NÃO àquela pobre gente que representava a incompreensão e o tabu das
velhas castas e dos superados preconceitos”.


A casa foi fechada e assim permaneceu por todos os anos 50 e quase toda a década de 60, quando, junto com várias outras naquela rua, foi demolida para a construção de um moderno arranha-céu de escritórios, com um projeto arrojado e, em certos aspectos, muito à frente de seu tempo (como uma garagem de 10 andares para 15 andares de escritórios).

O nome do arranha-céu? Edifício Joelma.


Hoje, em 1o. de fevereiro, completam-se 38 anos do maior incêndio em prédios no Brasil (à época o maior da história).







Fotos retiradas do site Geoportal, que mostra fotos comparativas da cidade de 1958 e 2008
Na primeira foto, de 1958, pode-se ver a casa da Rua Santo Antônio, que ainda não tinha sido demolida. Abaixo, a foto de 2008, já com o Edifício Joelma no mesmo lugar




janeiro 07, 2012

O Buda Sorridente

Publicado originalmente no blogue de história da Editora Record, editado pelo blogueiro

Quando se fala em Buda, a maioria das pessoas sem olhos puxadinhos imagina logo essa figura aí embaixo. Mas esse na verdade não é O Buda, e sim UM Buda. Não o príncipe hindu Sidarta Gautama, o fundador do budismo, mas um monge chinês excêntrico e bem-humorado. E obviamente com uma assessoria de marketing muito melhor.


Sidarta Gautama começou a perambular em busca da iluminação aos 29 anos. Como o mesmo aconteceu com Jesus, o fim da juventude parece ser realmente um tremendo incentivo para se tentar descobrir o sentido da vida. Sidarta, ao contrário de seu assemelhado ocidental, ainda lidava também com o nascimento de seu primeiro filho, acontecimento que marca emocionalmente o verdadeiro fim da adolescência.

A decisão de Sidarta em buscar a iluminação veio quando saiu pela primeira vez de seu palácio e viu um idoso, um doente e um cadáver, o fim de todos nós. Assim, como Santo Agostinho faria depois, largou mulher e filho e foi se dedicar à salvação espiritual. Inicialmente, como era comum em seu tempo e região, através do ascetismo. Renegar as tentações materiais era considderado um grande primeiro passo para a meditação. No entanto, os hindus levavam a prática ao extremo e tonteiras, fraqueza e certamente a distração proporcionada por contrações abdominais acabaram convencendo Sidarta de que este não era o verdadeiro caminho. Principalmente depois que ele desmaiou num rio e quase se afogou. Uma famosa história contada a respeito diz como uma criança que ia passando viu aquela figura tão emaciada e pálida e lhe ofereceu alimento achando que fosse um espírito. O ex-príncipe então, embora sob padrões estrangeiros, ainda mais os da nossa socidade de consumo, pudesse ser considerado um asceta radical, para seus conterrâneos passou a ser visto quase como um glutão, perdendo quase imediatamente o respeito e os seguidores que já havia angariado.

Mas eles estavam errados e em pouco tempo Sidarta alcançaria a verdadeira iluminação e passaria a ser considerado como a reencarnação da sabedoria - o Buda. Sua doutrina original era simples e facilmente reconhecível por judeus, cristãos, muçulmanos e religiosos em geral com uma tendência mais mística e ecumênica: todas as misérias e descontentamentos da vida vêm do egoísmo pessoal. É a renúncia aos desejos baixos que levará à compreensão de que a morte não é o fim, porque fará o universo da pessoa parar de girar em torno de sua existência. Como já diz H. G. Wells, “o Nirvana não significava (...) extinção e aniquilamento, mas a extinção e aniquilamento de fúteis objetivos pessoais que tornam a vida inevitavelmente mesquinha e lastimável (...) Toda religião digna do seu nome, toda filosofia nos avisa e nos ensina que devemos nos perder a nós mesmos em qualquer coisa maior do que nós próprios: ‘todo aquele que salvar sua vida, perdê-la-á’ é, exatamente a mesma lição” (História Universal). Mas, assim como aconteceria depois com outras religiões, seguir à risca os ensinamentos de Gautama era considerado muito difícil pela maioria das pessoas e logo surgiram variantes incluindo figuras semidivinas e rituais que garantiriam a salvação da alma.

De qualquer forma, apesar de ser considerado um ponto decisivo na vida do Buda o momento em que ele descobre que a mortificação e a fome não são a resposta, ainda assim sua doutrina condena exatamente a busca insaciável do prazer - aí incluída a gula, não por coincidência também um dos nossos sete pecados capitais. Sidarta se alimentava pouco e, mesmo quando ainda um mimado filho de rico, sempre foi magro, como na imagem abaixo.


O Buda Sorridente, como é conhecido aquele ícone rotundo tão mais conhecido por nós ocidentais, é a representação de um monge chinês excêntrico, adorado pelas crianças, de nome Chi Tzu, que teria vivido no século X. Cedo ainda em sua vida monástica ele teria alcançado a iluminação e se tornado o receptáculo da sabedoria, um Buda, enfim. E sendo um homem em estado de plenitude, ele era feliz e bem-humorado, uma ideia que nos parece estranha. Religião e espírito sempre foram considerados assuntos tão sérios que nos parece paradoxal que alguém que já resolveu a salvação de sua alma e tenha perdido o medo da morte seja uma pessoa alegre. Jesus se dava ao trabalho de transformar água em vinho para não estragar uma festa e era cheio de amor por toda a humanidade, mas cismamos que um sujeito assim devia ter sempre uma expressão séria e severa.

A maior estátua do Buda, com 50 metros de altura e em pé, ficava no Afeganistão e foi destruída pelo Talibã apesar de apelos até de organizações islâmicas. Atualmente está se tentando sua reconstrução

Talvez por isso a figura do Budai, ou Hotei, títulos honoríficos atribuídos a Chi Tzu, seja tão popular. A ideia da religião de buscar a iluminação é também uma busca da felicidade e iluminados felizes não deixam de ser convincentes. Não à toa bom humor é considerado sinal de inteligência. Como já contava aquela parábola zen sobre um monge fugindo de um tigre que corre até um precipício e fica pendurado agarrado a um cipó, vê que lá embaixo tem outro tigre esperando por ele, nota que um rato está roendo o cipó e, ao perceber um pé de morangos, pega um e o prova, saboreando-o absorto e deliciado, a vida é curta e deve ser aproveitada - e curtida - com despreocupação quanto ao seu fim garantido.

Se você tiver maiores informações sobre o assunto e sobre os ensinamentos desses budas, esteja à vontade para explicar nos comentários.

outubro 28, 2011

Os Simpsons Viram o Futuro e Ele Era Mutante


Pescadores de Córdoba, na Argentina, encontraram uma traíra de três olhos em um reservatório alimentado pela usina nuclear local, o que sem dúvida irá complicar o desejo do dono da usina deconcorrer  a prefeitura da cidade.
Os pescadores dizem que a descoberta (que lembra bastante o Blinky, o peixe de três olhos dos Simpsons) está assustando os moradores que residem próximos aos reator. E ao invés de fazerem um culto com a pesca, e provavelmente ganhando os superpoderes do provável altíssimo nível de radiação do peixe, os homens decidiram deixá-lo ser testado por autoridades para ver se a mutação é mesmo consequência da usina nuclear. [Infobae via Geekologie]

outubro 23, 2011

Daqui a Um Milhão de Anos, Tudo que Nos Restará Será o Monty Python

Pra quem acha que o Filógelo já está nos primórdios da história do humor: pense outra vez. Por que certos comportamentos engraçadinhos são chamados “macaquices”?

Esta chimpanzé, Washoe, tem um senso de humor mais sofisticado do que a maioria dos comediantes autodeclarados "politicamente incorretos"

E Jim Holt, em seu livro "Stop Me If You've Heard This: A History and Philosophy of Jokes", onde se propõe a contar a história da graça (não a divina), acredita que foi pelo menos com eles, os antropoides - se não antes - que surgiu o (bom) humor.

Holt faz referência em sua obra às três principais teorias sobre de onde surge a graça de uma piada: a de que você se sente superior (daí as piadas do Rafinha Bastos, as racistas, as de portugueses e louras burras e afins), a de que você libera uma repressão (pense no humor negro) e aquela que consta na Enciclopédia Britânica: a de que com ela se cria uma nova lógica, alheia à do mundo em que vivemos.

Na Enciclopédia Britânica, a piada que se dá como exemplo é a do cruzado que volta das Cruzadas (dã) e encontra sua mulher desempenhando na cama com o bispo. Imediatamente ele vai até a janela e começa a abençoar os vilões (habitantes da vila e não inimigos do James Bond). O casal interrompe suas atividades, curioso, e o cavaleiro explica, “já que você está cumprindo com minhas obrigações, reverendo, eu estou cumprindo com as suas”.

Certo, não é a melhor das piadas que você já leu, e foi escrita aqui meio apressadamente, mas passa a ideia para que se entenda o conceito: a lógica ordinária é quebrada e criada uma nova, com sua própria coerência interna. Holt acredita que a nossa tendência em ver graça nisso decorre de um mecanismo de alívio ancestral, a Teoria do Falso Alarme.

Imagine estar na savana africana há muuuuuuuito tempo atrás, com seu grupo de caça. De repente alguém vê o que parece ser uma cobra (epa!). Os caçadores-coletores se põem em guarda, a adrenalina começa a correr, armas são erguidas e todo o corpo se retesa para entrar em combate. Então um dos viventes se aproxima e percebe que na verdade a serpente é apenas um cipó num galho. Imediatamente a galera começa a rir, aliviado, toda a tensão desaparecendo numa gargalhada.

Holt também extrapola em seu livro como será o humor no futuro. Talvez daqui a um milhão de anos. Para tanto, ele se referencia no velho conceito de que o que já durou até agora é o que tem mais chance de seguir adiante. E exemplifica com as Sete Maravilhas da Antiguidade: quando, no século III ou IV antes de Cristo, a lista foi feita, as únicas que já estavam de pé havia milhares de anos eram as pirâmides. E foram justamente as que chegaram até hoje.

Então o que seria engraçado um milhão de anos atrás? A solução é olhar para os macacos. De preferência aqueles que possam se comunicar conosco. E, por sorte, temos alguns assim, nos famosos experimentos que ensinaram linguagem de sinais a chimpanzés nos anos 70. E estes animais não só aprenderam a rir, como a sinalizar o que achavam que era “engraçado”.


Um dos mais instigantes projetos científicos do século XX: ensinando macacos a comunicar-se com humanos através da linguagem de sinais

Washoe, o mais famoso desses antropoides, por exemplo, achava realmente cômico mostrar uma pedra para o pesquisador Roger Fouts e “dizer” que aquilo era comida. Outro deles, Mojo, gostava de enfiar o pé numa bolsa e usá-la como se fosse um sapato. Uma completa inversão da lógica rotineira. Um humor puramente intelectual, deliciando-se com o surrealismo e o nonsense. O que faz o mais completo sentido, já que antes da civilização não havia etnias, estrangeiros, repressão sexual ou a instituição do matrimônio para render assunto para piadas.

Assim, projetando-se para o futuro o que funciona desde o primórdio dos tempos, ainda mais levando-se em conta (sob uma ótica positivista) que a tendência da moderna sensibilidade é acabar com preconceitos e repressão sexual, a graça no futuro distante certamente incluirá a lógica do absurdo e o nonsense. Uma comédia intelectualizada em que o mais completo surrealismo é tratado como se fosse um acontecimento rotineiro. Ou seja, daqui a um milhão de anos, de todos os comediantes de hoje em dia, os que têm mais chance de sobreviver são os do Monty Python. Imagine aquele povo usando aqueles macacões prateados futuristas, flutuando em meio a galáxias hoje desconhecidas, recitando para alienígenas (personagens de muitos gracejos sobre falta de inteligência) velhos esquetes ingleses e autodeclarando-se “nós somos os cavaleiros que falam Ni!”

E, já que o citamos na matéria sobre o Filógelo, eis aqui um dos grandes momentos do Monty Python, o esquete do papagaio morto:

setembro 18, 2011

O Morro do Alemão e a Blitzkrieg Alemã

Já que a ocupação militar do Morro do Alemão voltou à berlinda esta semana, vale aqui republicar uma análise sobre a operação inicial, quando houve por uma parcela da população um certo ressentimento por não terem sido os criminosos fugitivos alvejados pelas costas ao deixarem seus covis:

Teve gente chamando a ocupação do Morro do Alemão de blitzkrieg. É uma comparação extremamente incorreta, com o articulista citando o elemento surpresa como a principal semelhança. No entanto, qual exatamente o elemento surpresa se os órgãos de segurança já haviam avisado com antecedência que iriam invadir a comunidade e usando blindados para ultrapassar as barreiras?

Não, na verdade, sob este aspecto, a operação foi na verdade um antiquado e pouco criativo ataque frontal, na melhor tradição clausewitziana de concentração de forças, ou seja, "junta todo mundo e vamos dar um pau nesses caras!" Este conceito foi justamente o que foi ultrapassado na blitzkrieg, conforme artigos aqui já postados, mas, apesar de tudo, pode-se dizer que, pelo menos em seu espírito de aproximação indireta, o povo que concatenou a invasão do complexo de favelas baseou-se na guerra-relâmpago dos homônimos do Morro.



Aproximação indireta, defendida no clássico "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, com sua versão moderna preconizada por Samuel Fuller, desenvolvida por Sir Basil Liddel Hart e aplicada pela Wermacht na II Guerra, consiste justamente em evitar custosos ataques frontais às posições mais fortes do inimigo. O pensamento militar em voga desde o século XIX era o de aniquilar o exército adversário com um golpe poderoso, buscando-se atingi-lo em seu ponto mais forte para obter uma vitória decisiva. Ataques a posições secundárias seriam perda de tempo, sob este ponto de vista.

Então, quando se fala em "surpresa" na blitzkrieg alemã da II Guerra, não é para dizer que os nazistas atacavam quando ninguém esperava - pelo contrário, os anglofrancos ficaram esperando desde 1939 o ataque na frente ocidental que só se concretizou em maio de 1940, e sim porque os hunos buscavam os pontos fracos do inimigo, para se infiltrar em suas linhas e desbaratar seus exércitos sem a necessidade de ficar trocando golpes justamente onde o adversário era mais forte e mais baixas poderia causar.

Por exemplo, no fronte ocidental, estando toda a fronteira franco-alemã fortificada com a Linha Maginot, os aliados esperavam que os teutões repetissem o Plano Schlieffen de 1914 e avançassem pela Bélgica. Assim, os anglogauleses mandaram a maior parte de seus exércitos para os Países Baixos, no Norte, e deixaram apenas forças leves para dar apoio aos fortes fronteiriços, no Sul. Entre os dois grupamentos de forças, havia uma florestinha cheia de morrotes, as Ardenas, que os estrategistas do lado de cá julgavam um obstáculo que atrasaria a marcha da infantaria e proibiria o uso de blindados.

Mas para os alemães aquela região era mais ondulada do que intransponível e jogou suas forças blindadas por ali, escoando-as entre os exércitos aliados na Bélgica e os fortes Maginot, passando a menos de 15 quilômetros das fortificações. No entanto, a velocidade dos blindados tornou qualquer reação francesa impraticável e, mesmo com a infantaria vindo bem atrás, foi impossível um contra-ataque de flanco porque os tanques desbaratavam e desorganizavam os quartéis-generais e as forças de infantaria por onde passavam, mesmo que não viesse ninguém imediatamente atrás para ocupar o terreno.

Deixando então os alemães de lado e voltando ao Morro do Alemão, a aproximação indireta usada pelas polícias foi justamente avisar que iria entrar de qualquer jeito e usando blindados, para dar tempo para os traficantes fugirem. Um ataque repentino certamente causaria uma reação instintiva do Movimento e poderia acarretar baixas não só entre os combatentes (a que ponto chegamos) como também entre os civis, justamente o que o governo não queria e que sempre atravancou os planos para se pacificar aquelas imensas comunidades. Trabalhadores mortos às pencas e suas famílias acusando os PMs inviabilizaria qualquer tentativa ulterior de se repetir a operação, desmoralizaria as forças governamentais e aumentaria a aura de invencibilidade dos criminosos.

Da maneira que foi, a vitória foi completa e total. Os traficantes fugiram da Vila Cruzeiro atônitos e atarantados, carregando somente o que podiam levar nas mãos e sem tempo de planejar uma contraofensiva. A invasão do Morro do Alemão em seguida desbaratou completamente suas forças. Sem dinheiro, armamento, contatos, drogas, base de operações e sob contínua pressão, há muito pouca coisa que os traficantes fugitivos possam fazer, a não ser que alguém acredite que eles realmente sejam super-homens, entes com força de vontade e intelecto superiores, capazes de, do nada, construir em poucos dias um Império do Mal. Nem o Imperador Palpatine foi tão rápido.

Agora, o que aconteceria se a polícia metralhasse os traficantes em fuga, o movimento com que tanta gente sonhava e que aparentemente causaria orgasmos de vingança nos apresentadores da tevê cristã que fazia a cobertura?

Belisário, o mais genial general da Antiguidade Tardia, o homem que reconquistou a Itália pro Império Bizantino, que destruiu os poderosíssimos persas partas, sempre com forças numericamente inferiores, certa vez impediu um flanqueamento por estes últimos com uma rápida movimentação estratégica. Tendo construído uma rede de estradas e treinado incessantemente suas forças priorizando sempre a mobilidade, conseguiu alcançar Antioquia antes que os partas, aliados aos sarracenos, lá chegassem, numa manobra de aproximação indireta, atravessando o "intransponível" deserto.


Belisário viveu na Antiguidade Tardia, antes da invenção da perspectiva

Longe de suas bases e com suas linhas de comunicação e suprimentos esgarçada e sob pressão, os persas desistiram de tentar a conquista de Antioquia (o que forçaria uma divisão das forças bizantinas, já que era a segunda cidade mais rica do império) e começaram a recuar de volta para sua terra. Belisário considerava o caso encerrado, mas suas tropas não estavam nem um pouco satisfeitas. O grande e (então) jovem estrategista procurou demonstrar a seus comandados, como conta Sir Basil Liddel Hart em seu livro "Strategy" que "a verdadeira vitória consiste em se obrigar o adversário a abandonar o cumprimento de sua missão, com o mínimo de perdas. Se tal resultado for obtido, não existe necessidade real de vencer batalhas. 'Qual a razão, em consequência, para se querer derrotar um fugitivo?' A tentativa iria criar um risco desnecessário, e um fracasso poderia deixar o império aberto a uma invasão mais perigosa. Não deixar a um exército em retirada um meio de fuga é a maneira mais segura de forçar sua coragem pelo desespero".

Então, o que aconteceria se houvesse o metralhamento dos traficantes? Eles certamente não iriam ficar parados que nem patinhos em estande de tiro, esperando serem derrubados. Iriam reagir e talvez conseguissem novamente derrubar um helicóptero. Qual teria sido o efeito de uma catástrofe como essas na moral de ambos os lados? De fugitivos correndo como baratas assustadas a criaturas perigosíssimas em um pulo. E a reação dos criminosos entrincheirados no Alemão, sabedores de que a única escolha era resistência ou morte? Será que simplesmente iriam fugir se misturando aos moradores ou iriam receber a bala as forças de ocupação? Quantas baixas civis inaceitáveis decorreriam dessa resistência?

Quando finalmente as forças de segurança do Rio conseguem uma vitória tática e estratégica total, com perfeito planejamento do ponto de vista militar, fica um povo exigindo reações irracionais e emocionais por pura vingança. Vingança nunca, NUNCA foi boa conselheira em operações de guerra. Napoleão não planejava suas batalhas dando chutes em mapas e dizendo que ia ferrar com aqueles filhos da mãe todos. Finalmente a inteligência do governo está fazendo jus a seu nome e arriscar-se a sofrer uma derrota tática, ainda que improvável, quando a vitória é total e completa, é uma tolice que levou alguns dos melhores exércitos que o planeta já viu à completa desmoralização e desintegração.

Belisário, por exemplo, para manter o controle sobre suas tropas, a contragosto atacou os persas em retirada e sofreu a única derrota em toda sua longa carreira. Felizmente os partas sofreram também tantas baixas que não tiveram opção a não ser recolherem-se a suas bases. O império ficou aberto a um inimigo que, por sorte, não teve como aproveitar. O Rio de Janeiro não podia se arriscar a tanto.

setembro 05, 2011

O Mundo Era Muito Melhor Quando eu Era Jovem e Cheio de Sonhos


Já reparou como todo mundo acha que o cinema e a música eram muito melhores quando eles tinham tempo e disposição pra acompanhar o cinema e a música?

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agosto 25, 2011

Deve Ser Terrível Viver num País Onde Ninguém Lê

Esta postagem num blogue do Economist chama a atenção pra outro detalhe dos saques em Londres: enquanto as lojas que vendiam DVDs foram impiedosamente rapinadas, com gente levando carradas de disquinhos prateados, as livrarias às vezes ao lado foram deixadas intocadas. Há coisa de uma década alguém arrombou o porta-malas de meu Gol pra roubar o estepe. Ao lado do estepe, estavam vários volumes da coleção História em Revista, que custa num sebo cerca de 15 reais cada e não interessaram nem um pouco ao ladrão. Hoje em dia, conforme informam meus amigos editores, nunca se vendeu tanto livro no Brasil, pelo menos isso...

junho 26, 2011

Por Que Desconfiamos de Polidez?

Sexta-feira o Dapieve em sua coluna comentou que não sabe o porquê de em nossa cultura ocidental a polidez ser vista com desconfiança, ao contrário do que acontece no Japão, por exemplo. Não tenho grandes experiências com orientais, mas nos anos 90 trabalhei com o Luiz Carlos Maciel num projeto com a Lucélia Santos pra tevê chinesa (que nunca saiu do papel, quer dizer, parece que virou um filme, mas também não sei se chegou a ser exibido em algum lugar). Trocar e-mails com os viventes do outro lado do mundo era uma experiência curiosíssima: aquelas caricaturas racistas que a gente vê em filmes e quadrinhos americanos de outrora não são tão exageradas assim. Só faltava eles nos chamarem de honorável (ou melhor, honolável) senhor Luiz. A cada crítica nossa, eles se desculpavam insistente e repetidamente. E depois continuavam suas vidas como se não tivessem ouvido nada do que faláramos. Quando alguns estiveram no Brasil, num jantar oferecido pela Lucélia, um deles, que aprendera português em São Paulo, elogiava meu texto e minhas tramas e, assim que eu virava as costas, começava a paquerar minha namorada. E não, eu não estava em crise de ciúme, a própria Fernanda é que veio depois me falar, “você sabia que aquele chinês que ficou lá conversando com você estava dando em cima de mim?”.

Basicamente, o problema com a polidez é que ela envolve palavras e gestos excessivamente floreados e ritualizados - e esse formalismo treinado esconde com perfeição as verdadeiras intenções das pessoas. Não necessariamente alguém educado e elegante está sendo insincero, mas o fato é que age como se assim fosse. Alguém que escolhe cuidadosamente suas palavras parece ter algo a esconder, ou que está criando uma história enquanto a conta. Ou pretende que seu efeito no interlocutor seja maior do que o conteúdo.

Setenta por cento da comunicação interpessoal é não-verbal (é por isso que interação digital via redes sociais jamais poderá realmente substituir o vis-à-vis). Ao bater um olho num vivente, você analisa inconscientemente seu gestual, seu modo de falar, sua gramática, seu modo de vestir. Se, no entanto, tudo isso está encoberto por um rígido formalismo impessoal, seu instinto básico é manter-se em guarda - daí a desconfiança.

O colunista do Globo também ressalta que sentiu-se tão à vontade no Japão quanto na Inglaterra por causa da polidez de ambos. E, não por coincidência, os dois são os únicos países desenvolvidos do mundo onde a monarquia ainda é uma presença simbólica fortíssima. O formalismo ajuda a hierarquizar as pessoas. Gestos e roupas são obrigatórios para indicar as classes a que os indivíduos pertencem. Bom exemplo são as pragmáticas da coroa portuguesa para manter a colônia em seu devido lugar, proibindo o uso de joias e sedas pelos nativos brasileiros e de sapatos pelos escravos. Quem essa gentinha pensa que é?

Portanto, há um bom motivo pra que nós, que herdamos pelo menos a ilusão de que somos todos iguais desde os gregos (explica isso pros escravos deles), termos desconfiança do excesso de polidez. Pros americanos, por exemplo, era a lembrança viva da nobreza inglesa e seus princípios antidemocráticos. Pra nós, normalmente, hoje em dia, é principalmente a separação do pensamento da ação. Ficamos desorientados, não temos como saber se o cavalheiro está sendo gentil, é gay ou está jogando o maior caô pra cima da gente. Seus gestos não o traem e cada palavra é cuidadosamente escolhida como um escritor forjando uma trama.

Fictícia.