março 23, 2008

Por Que Assistir a Filmes Antigos?

Minha sobrinha (1) de 15 anos dizia que nunca tinha visto um filme em preto-e-branco. Minto, ela tinha sido obrigada a ver um no colégio, O GAROTO, de Chaplin, e achou chatíssimo. Segundo ela, ela ficava nervosa pela falta de cor, ficava agoniada e não conseguia prestar atenção.

Pra mim isso tudo era completamente absurdo. Quando eu era criança nem existia tevê a cores (fomos dos primeiros da rua a ter, minha mãe obrigou meu pai a se endividar todo pra comprar uma Colorado RQ na Rei da Voz de Copacabana, onde hoje é uma Arapuã). Os lares, na minha infância, costumavam ter apenas um televisor. Quando ele quebrava - o que era muito comum, na época das válvulas, levava vários dias até o técnico consertar e éramos obrigados a ficar sem nossos programas favoritos. Lá em casa, minha mãe, filha de jogador profissional, aproveitava pra fazer a gente ficar jogando buraco a noite toda.

Mas estou fugindo do assunto. A Philco lançou a seminal Philco Amazonas, a primeira tevê portátil do Brasil, completamente transistorizada, que podia ser ligada à bateria de um carro. Relativamente barata, ela abriu caminho para a popularização da segunda televisão das casas. Na minha adolescência, eu e minha irmã tínhamos cada um nosso televisor. Preto-e-branco e com telas de 12 polegadas. Mas quebrava o galho direitinho.

Assim, éramos produtos de uma época de transição. Durante o monopólio monocromático, as estações de tevê não hesitavam em preencher seus horários com antiguíssimos enlatados comprados baratinho - seriados da Republic dos anos 30 e 40 (eu vi no Capitão Aza clássicos como O Homem-Foguete), Charlie Chan, os Intocáveis, os Batutinhas e até velhas comédias mudas "one-reelers" ou "two-reelers" (2) de Mack Senett e outros, compiladas em shows de meia hora sob o título "Comedy Capers" (Os Reis da Comédia). Mais tarde, em nossa adolescência, assistíamos a programas "inteiramente em cores" na tevê da sala (depois no quarto de nossos pais) e outros durante os deveres de casa ou no mesmo horário que a novela em nossos dormitórios.

Como resultado desse ecletismo, os cinemas volta e meia programavam clássicos em preto e branco, sabendo que havia um público para comédias mudas (vi relançamentos de filmes do Chaplin em cinemas, como Luzes da Cidade e Tempos Modernos, que passaram não em um cinema de arte, mas em circuito comercial), faroestes em p&b(cheguei a ver também No Tempo das Diligências em circuito) e afins (lembrem-se também que não havia vídeo-cassete e a única chance de ver uma coisa dessas na tevê seria numa sessão de madrugada). Por isso tudo que a idéia de que um filme monocromático era insuportável e de que Chaplin era chato me pareceu tão absurda. Se ainda fosse a irmã dela, bonitinha e saidinha, e, portanto, popular e nada nerd...

Bem, aproveitando que levei as duas irmãs para umas sessões do ANIMA MUNDI e a Carolina, a gordinha nerd, gostou de um desenho que remetia a Casablanca, falei que ia emprestar-lhe esse filme, bem como A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, já que ela, como os adolescentes nerds de hoje em dia, adora zumbis (e samurais).


Casablanca ela viu até o fim, embora sem maior entusiasmo. Gostou do personagem do Humphrey Bogart, mas achou o ator estranho (tudo bem, um dia ela vai entender). Não entendendo de II Guerra Mundial ou de paixões obssessivas (por falta de experiência no assunto), ela ficou voando um pouco na história. Mas descobriu de onde vinham 5.248 piadinhas dos Simpsons (e um monte de outros desenhos e comédias) e veio me perguntar se aquele filme foi o primeiro a ter aquele final, do "este é o início de uma bela amizade", porque, quando ela ouviu o Rick falando isso, pensou "puxa, um filme tão legal terminar com uma frase tão batida... espere... filme antigo... frase antiga... e aí se tocou.

Mas o que realmente a animou foi A NOITE DOS MORTOS-VIVOS. Ela ADOROU a fita. Mesmo com os efeitos pobres, a trama realmente a surpreendeu, com o herói completamente ineficiente, a morte da mocinha ("puxa", disse ela que pensou ao ver a cena, "com quem será que o mocinho vai ficar então?", pensamento que trai sua insentida submissão a fórmulas de histórias) e do próprio mocinho. Conversamos sobre o filme, expliquei a ela que a atual preferência de zumbis como monstros de filmes de terror (nos meus anos adolescentes, eram os vampiros) reflete o medo (aqui) de pobres e favelados ("pense, Carolina, quem você conhece que anda com roupas velhas- - e rasgadas, fala mal, está sempre com fome e a pele toda marcada?") e de pobres terceiro-mundistas terroristas (nos EUA). E tudo isso 40 anos atrás, reforcei. Ela parou, pensou um pouco e disse:

- Puxa, em 40 anos o filme de zumbi não mudou nada...

Esse é o grande motivo de se ver esses filmes antigos. O Estação Botafogo, quando começou, dependia da Cinemateca do MAM para grande parte de sua programação. Isso afastou o povo do museu longínquo, ermo e sem bares e esticadas por perto. Até o ponto de ônibus ficava longe. Quando o povo do Estação começou a trazer filmes alternativos contemporâneos, tirou da programação os clássicos e os cineclubes que exibiam essas coisas já tinham perdido seu público. Como resultado, a nova geração de cinéfilos não tem formação clássica. Podem tentar compensar com DVDs, mas todos sabemos que em casa a preferência acaba recaindo mais para filmes pipoca. Não há tanta concentração como na sala escura com tela grande e nem sequer há um programador. O candidato a intelectual cabeça tem que descobrir sozinho ao que assistir e onde achar esses negócios para alugar no mundo da Blockbuster/Americanas Express. E nem há também aquele sentimento comunal de ir com a turma da faculdade adquirir cultura indo ver essas coisas obscuras.

E, sem formação clássica, o que acontece? As pessoas se tornam vítimas de cineastas que repetem truques de outras eras. Impressionam-se com mais facilidade com truques de estilo. Críticos de cinema botam bonequinho batendo palmas de pé para até 15 filmes em cartaz - essa deveria ser uma cotação apenas para clássicos da sétima arte, mas qualquer fita com uma gramática e preocupações diferentes enche os olhos dessa turma. O que é melhor do que achar que filme bom é aquele que concorre ao Oscar, é claro, mas ainda assim não é o ideal. Seria melhor que eles pegassem um monte de filmes mudos, expressionistas, assistissem a velhos seriados, a filmes do Ford e do Hawks, pra ver como foi sendo construído o cinema e como ele funciona, exatamente.

Quanto à minha sobrinha, a coisa vai bem. Sendo nerd desta era, ela acha O SENHOR DOS ANÉIS uma grande obra-prima, e eu dizia que gostava do primeiro filme, que corria como um épico clássico, majestoso, impressionante, achava o segundo mais ou menos, parecendo um filme de ação como outro qualquer e achava o terceiro um lixo, e que se tirassem todos os slow motions, em vez de 3 horas ele teria 40 minutos. Ela me explicou que o que ela menos apreciava era justamente o primeirão, por ser "muito devagar". Outro dia ela discordou completamente de mim depois de uma sessão de O PODEROSO CHEFÃO - como eu poderia ter pensado que essa fita era lenta? E Nosferatu do Herzog, segundo ela, é um dos melhores filmes que já viu. Aproveitando sua queda por samurais, exibi-lhe OS SETE SAMURAIS e YOJIMBO e ela já virou fã do Toshiro Mifune e quer ver RASHOMON, depois que lhe contei a história - e também porque o T. M. faz o seu irresistível bandido abusado. Ela viu o trecho de A CORRIDA DO OURO do Chaplin que eu lhe contara, da cabana na beira do precipício, e achou engraçadíssimo. E o ápice de tudo foi quando lhe emprestei dois clássicos da violência japonesa - o P&B ESPADA DA MALDIÇÃO e o technicolor LOBO SOLITÁRIO. Ela me devolveu os discos e quando perguntei se gostara, ela respondeu:

- Gostei mais de ESPADA DA MALDIÇÃO, que é mais visual.


(1) Na verdade é minha prima de 2o. grau, mas o pai dela morava no mesmo prédio que eu e é quase meu irmão, e a mãe dela é uma amiga de infância.

(2) Tudo bem, você é um intelectual cabeça e sabe o que é isso, mas novos leitores como Lívia Rosa, uma dessas cinéfilas cronocêntricas da nova geração, nunca assistiram a essas comédias mudas que eram esquetes estendidos que duravam o tempo de um rolo de projeção da época (5 minutos), ou dois rolos (10 minutos)

2 comentários:

Nina disse...

Obrigada, Luizinho =D

Nina disse...

Obrigada, Luizinho =D